Doce Emoção – Balvenie Doublewood 12 anos

Balvenie Doublewood

Você sabe o que é Epinefrina? Epinefrina é um composto químico, proveniente da modificação um aminoácido aromático, a tirosina. As glândulas suprarrenais do corpo humano produzem epinefrina em momentos de tensão. Quando secretada, a epinefrina tem como resultado o aumento da tensão arterial, contração muscular e estímulo do músculo cardíaco. Mas você já sabe disso, porque outro nome, bem mais popular para a epinefrina, é adrenalina.

A epinefrina pode ser usada para combater parada cardíaca ou disritmias do coração. Mas como aprendemos com o cinema hollywoodiano e com Jason Statham, ela é mais frequentemente encontrada em descongestionantes nasais. Se ministrada em exagero, pode produzir uma lista infinita de resultados desagradáveis, sem dizer, muitas vezes, mortais. Entre eles estão palpitação, taquicardia, arritmia cardíaca, ansiedade, ataques de pânico, dor de cabeça, tremor, hipertensão e edema pulmonar.

Enfim, você fica todo tremendo, com um medo inexplicável, seu coração quase explodindo e seu pulmão entra em colapso. Não sei você. Mas acho que eu prefiro ficar com o nariz entupido.

Ou ela pode te ajudar a assassinar brutalmente duzentos mafiosos antes de seu coração parar por conta de um veneno mortal
Ou ela pode te ajudar a assassinar brutalmente duzentos mafiosos antes de seu coração parar por conta de um veneno mortal

O interessante sobre a epinefrina é que ela foi produzida pela primeira vez em laboratório em 1904. Só que ninguém sabe ao certo por quem. Dois cientistas – Friedrich Stolz, alemão, e Henry Drysdale Dakin, um inglês – sintetizaram compostos semelhantes, quase ao mesmo tempo, de forma independente, em seus países de origem. E até hoje existe uma polêmica internacional sobre quem foi o cara que, bom, sem querer diminuir ninguém, basicamente inventou o spray de nariz.

Existe uma polêmica semelhante no mundo do whisky, ainda que, de certa forma, mais simples de ser resolvida. Sobre quem foi a primeira destilaria a conceber a óbvia ideia de finalizar um whisky já completamente maturado em uma barrica de outra bebida. A disputa fica entre a Glenmorangie – como já contei quando revi o Quinta Rubán – e a Balvenie, com seu Balvenie Classic.

O Balvenie Classic foi lançado em 1982 e – até onde se sabe – foi o primeiro whisky a passar pelo óbvio processo de extra finish. A ideia partiu do mestre de maltes da Balvenie, David Stewart. Mas o  problema com o Balvenie Classic é que ele foi uma edição limitadíssima. Pouquíssimas garrafas da versão dezoito anos foram produzidas.

A primeira expressão com finalização extra pela Balvenie em grande escala, entretanto, ocorreu apenas em 1993, e foi o Balvenie Doublewood, uma versão mais jovem do Balvenie Classic, maturada por doze anos nos mesmos tipos de barrica de seu predecessor. Seu lançamento ocorreu quase ao mesmo tempo em que o Port Wood Finish da Glenmorangie, cuja finalização ocorre em ex-barricas de vinho do Porto. E até hoje as destilarias amigavelmente concorrem pelo mérito dessa ideia óbvia.

O Balvenie Doublewood 12 anos é maturado, primeiramente, em barricas de carvalho americano, que antes continham bourbon. Poucos meses antes de concluir sua maturação, o whisky é transferido para barricas de carvalho europeu de primeiro uso – ou seja, utilizadas pela primeira vez para maturar whisky – que antes maturaram vinho jerez. Em comparação aos whiskies com finalização da Glenmorangie, este é um período bem curto. Nectar D’Or, Lasanta e Quinta Ruban passam dois, dos doze anos de maturação, nas suas respectivas barricas especiais.

De acordo com a Balvenie, a maturação em barricas de bourbon traz suavidade e equilíbrio, enquanto que as barricas de jerez são responsáveis por acrescentar complexidade e caráter. Talvez eu precise de um pouco de epinefrina no nariz, mas a impressão deste Cão é que o curto período de ex-jerez pode até contribuir para o equilíbrio do whisky, e talvez um pouco para o aroma, mas não é suficiente para deixar uma marca impossível de não ser notada, como é o caso no Glenmorangie Lasanta e Glenfarclas 15 anos.

A Balvenie foi fundada pela família Grant – os mesmos proprietários da Glenfiddich – em 1892, para auxiliar sua prima na produção de whiskies para blended. Ambas destilarias continuam sob o comando da tradicional família até os dias de hoje. Aliás, a neta de William Grant, chamada Janet Roberts, foi a mulher mais longeva da história da Escócia, tendo vivido cento e dez anos, entre 1901 e 2012. Na ocasião de sua morte, a Glenfiddich lançou um whisky chamado Janet Sheed Roberts Reserve, em uma edição limitada a apenas onze garrafas (uma para cada década de sua vida). O whisky fora maturado por cinquenta e cinco anos, ou seja, metade da idade de Janet!

Pechincha
Pechincha

Voltando à Balvenie. Ao contrário da grande maioria das destilarias escocesas, a Balvenie ainda cultiva parte de sua própria cevada – em torno de 15% – possui seu próprio “malting floor” (espaço no qual a cevada é distribuída, para que comece a germinar), mantém seus próprios tanoeiros e um mestre de alambiques.

O Doublewood 12 anos recebeu medalha de ouro na International Spirits Challenge de 2014, na categoria de Single Malts com idade igual ou inferior a 12 anos. Além disso, ganhou medalhas de prata na International Wine and Spirits Competition, também em 2014, e pela Scotch Whisky Masters, em 2013.

No Brasil, uma garrafa do Balvenie Doublewood 12 anos sai, em média, R$ 270,00 (duzentos e setenta reais). E isso, na verdade, é o genial dele. Dentro desta faixa de preço, não é nada fácil encontrar um whisky que seja tão equilibrado, ainda que nem tão complexo, e que agrade a tantos paladares diferentes. Se você não é fã do Jason Statham, ou não gosta de emoções fortes ao beber mas, ao mesmo tempo, aprecia um bom single malt, o Balvenie Doublewood é seu whisky.

BALVENIE DOUBLEWOOD 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos

Destilaria: Balvenie

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Aroma de frutas cristalizadas, mel e um pouco de baunilha

Sabor: compota de frutas, mel, açúcar queimado, ameixas. Final médio, levemente picante.

Com água: com água o sabor fica mais doce, floral, e o final mais apimentado. A baunilha se sobressai.

Preço: R$ 270,00 (duzentos e setenta reais)

12 thoughts on “Doce Emoção – Balvenie Doublewood 12 anos

  1. Esse Balvenie é ótimo! É tão bom que o meu acabou. No final ele estava ainda mais saboroso! Eu não consegui ficar sem, tive que comprar a segunda garrafa. E dei sorte: veio um litro com 43% ABV.

      1. Cão, experimentei recentemente em uma viagem a Orlando esse maravilhoso whisky. Acostumado com os blended, tenho experimentado single malts como Cardhu e The Glenlivet, mas depois de tomar esse The Balvenie DoubleWood fiquei maravilhado. Tive que pedir a minha cunhada que trouxesse outro prá mim, pq nos EUA fica mais em conta do que aqui no Brasil. Comprei por 58 dólares e aqui o mais barato que encontrei foi por R$ 399,00…

        1. Mandou bem. Os Balvenie são whiskies bem sérios e equilibrados. Bom gosto o seu. Experimente o Single Barrel 15 anos. É fantástico!

  2. Ainda sou iniciante, consegui perceber que este whiskey é macio doce e levemente picante, outras notas não consegui perceber.

    1. Arquimedes, continua tentando, meu caro. O olfato e o paladar devem ser treinados. Ninguém nasce sabendo essas notas. Elas são uma mistura de memória olfativa (algo que te lembra aquele aroma) e relação. Para mim, por exemplo, o aroma de passas está longe do que passas realmente cheiram. rs. Mas você aprende a relacionar de tanto identificar.

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