Five Keys -Mona Lisa

Você já deve ter visto a imagem abaixo. Quero dizer, a única, certamente viu. Mas talvez essa, com trinta. A obra se chama Thirty Are Better Than One e foi criada em 1963 pelo artista pop Andy Warhol. Ele reproduziu, em serigrafia, a Mona Lisa tritna vezes. Trinta minimonalisas, lado a lado, como se fosse um item em um supermercado. O legal que, ao contrário de outras reproduções, que contam com uma ou outra distorção visual, ele não mudou nada. A violência está na repetição.

Deixa eu tentar explicar isso melhor. Ao reproduzir uma obra única trinta vezes, ela perde singularidade, e se torna um produto seriado. A crítica de Warhol não é à pintura, mas ao sistema que transforma obras em ícones replicáveis até a exaustão. É genial, porque não é um ataque direto à obra, mas mais uma dissolução dela, por excesso.

Clássicos muito bem resolvidos costumam sofrer desse destino. Quando a estrutura é sólida demais, ela vira molde. A coquetelaria tem uma porção de drinks assim, também. Mas talvez, o primeiro da lista seja o Manhattan. Ele é – discutivelmente – um original tão bem construído que passou a ser reproduzido quase por inércia. O Five Keys, tema deste post, é mais uma variação dele.

Mas ele funciona, justamente por ser uma variação tão descarada, que nem quer competir com nada. Ele foi criado originalmente para o bourbon Blade and Bow, que é produzido na destilaria Stitzel-Weller, em Louisville. O nome – Cinco Chaves, em português – do coquetel faz referência ao logo da Stitzel-Weller, que está ilustrado no centro do rótulo do Blade and Bow. E não aos cinco bairros de Nova Iorque, como apontado em algumas outras publicações.

Aqui, cabe uma curiosidade para os whiskey geeks. A Stitzel-Weller foi, por muito tempo, a destilaria responsável pelo lendário Pappy Van Winkle – que, atualmente, é feito na Buffalo Trace. O nome é, inclusive, familiar. A Buffalo Trace hoje produz uma série de bourbons sob a alcunha de “Weller” – uma homenagem ao antigo fundador da destilaria que outrora produzia os Pappy. É, eu sei, é confuso mesmo.

As Chaves

A origem do nome não é apenas uma curiosidade. Mas, a peça-chave (viu o que eu fiz aqui?) para um dilema. Não há Blade and Bow no Brasil. Portanto, deve-se substituir a base por outro bourbon. Ainda que a Stitzel-Weller não divulgue claramente a sua mashbill – a combinação de grãos de sua receita – sabe-se que se trata de um wheated bourbon – o Pappy Van Winkle, inclusive, é um. Assim, para manter a autenticidade e equilíbrio, este Cão recomenda o uso de Maker’s Mark. Ou, até, se estiver se sentindo sofisticado, um Maker’s 46.

Exceto pelo curioso detalhe de trocar o bitter não-potável por Cynar, o Five Keys tem pouca novidade. Ele não reinventa o Manhattan, não acrescenta nenhuma camada conceitual revolucionária e não muda o curso da coquetelaria. Mas ele funciona porque a estrutura que sustenta o original continua sólida, e porque repetir algo bem feito ainda pode ser prazeroso. Nem toda variação precisa justificar sua existência com um manifesto. Algumas existem porque são boas de beber.

FIVE KEYS

INGREDIENTES

  • 45ml Bourbon Whiskey
  • 22,5ml Vermute Tinto
  • 7,5ml licor de maraschino
  • 7,5ml Cynar
  • Parafernália para misturar

PREPARO

  • Adicione todos os ingredientes no mixing glass e mexa com gelo
  • desça em uma taça coupe gelada
  • aproveite

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