Bruichladdich 18 anos Re/Define – Coming of Age

Eu acho que boa parte das decisões mais importantes da vida são feitas muito cedo, e o zênite disto é a profissão. Aos dezoito anos, mal sabemos escolher uma música sem, décadas depois, se envergonhar de ter em algum momento gostado daquilo. Ainda assim, somos demandados a definir aquilo que supostamente faremos pelo resto da vida. E o problema é que gosto e habilidade parecem, nessa idade, provas suficientes. Jornalista gosta de escrever, advogado, de discutir, arquiteto, desenhar. É uma lógica elegante, intuitiva e insuficiente. Porque exercer uma profissão exige ferramentas que quase nunca se revelam antes da prática. Tipo resistência ao tédio, tolerância à burocracia, aptidão para lidar com pessoas, prazos, frustrações e com a mais triste e certeira decomposição de qualquer paixão quando ela se transforma em obrigação remunerada. Escolher uma profissão é um ato de ignorância. E não é, de forma alguma, mais embasado ou menos propenso ao erro do que qualquer outra escolha feita sem experimentar aquilo que se está escolhendo antes. Da primeira vez que eu comprei um Bruichladdich, foi assim. Tamanha ignorância tinha, que imaginava que fosse defumado, somente por exibir “Islay” no rótulo. Era um Bruichladdich Links Valhalla. Alí, singelo, na prateleira de […]

The Macallan 007 Diamonds are Forever

Este vinho é excelente. Porém, para uma refeição tão grandiosa, eu esperaria um claret – aponta James Bond, ao provar uma taça de Mouton Rothschild servido, alegadamente, pelo sommelier do iate. Este, retruca: É claro, mas infelizmente, nossa adega está mal abastecida de clarets. O espião, então, arremata “Mouton Rothschild é um claret. E eu já cheirei essa loção pós-barba antes” – desmarscarando um dos vilões do filme, Sr. Wint. A passagem acima é de 007: Diamonds Are Forever, de 1971, estrelando Sean Connery como o agente secreto mais célebre do mundo. Ela traz uma mensagem importante, e não é sobre o perigo de harmonizar grand-cru classés tintos com peixe. Mas, sobre a importância de ter paladar e conhecimento que vai além de sua área de atuação. Para um agente da coroa britânica com licença para matar, espera-se proficiência em armas de fogo e luta. Mas não em beber com qualidade e como se não houvesse amanhã, ainda que este nunca morra (viram o que eu fiz aqui?). O trecho do roteiro que abre esta matéria é, também, uma importante dica sobre a nova edição limitada que acaba de chegar ao Brasil. O The Macallan 007 Diamonds Are Forever. O […]

Jack Daniel’s Bottled in Bond Rye – Transcendência

Há objetos feitos para pessoas cuidadosas. Copos de coquetelaria da Kimura Glass, sapatos de camurça bege, bonsais, sistemas de arrefecimento de Alfa-Romeos da década de 70 e relações afetivas estáveis. São coisas que exigem cuidado, manutenção fina, temperatura controlada, ausência de crianças, ausência de gatos e, preferencialmente, ausência de seres humanos. O que, existencialmente falando, resolve tudo. E há objetos feitos para a pessoas que existem no mundo real. Tipo o tijorola (que me lembro, até hoje, de ter nadado um medley inteiro na piscina com um desses, que sobreviveu). Ou a panela de ferro, Honda Civic, o copo americano, as Havaianas, e aquelas mesas plásticas de boteco que sobrevivem a chuva, sol, gordura, cigarro, bêbado, criança e o tio do zap. São coisas cuja promessa não é de tanscendência, mas de resistência. A famosa palavra dos coaches, resiliência, que é ficar inteiro depois de qualquer uso indevido. O que, convenhamos, já é uma forma bastante honesta de transcendência. Na coquetelaria, essa diferença existe também. Há destilados que precisam ser tratados com delicadeza. Os whiskies japoneses, por exemplo, exigem precisão técnica e equilíbrio impecáveis. Lembro-me até hoje de um drink de Hibiki, que fizemos para um evento da Suntory. Equlibrá-lo […]

The Macallan M Copper – Grand Tour

Fui, esses dias, com Cã mãe no shopping, porque ela queria ver o Iphone Pro. Passamos na frente de uma adega, cheia de vinhos, que orgulhosamente exibiam a designação de Reserva. Daqueles, que a gente paga com um cartão de crédito signature, antes de uma refeição em alguma padaria gourmet com qualquer nome francês. É engraçado como certas expressões nunca significaram grande coisa. E outras, que já significaram, tiveram seu sentido cuidadosamente saqueado pelo marketing. No mundo dos carros – que eu adoro – acho que a mais devassada é GT. Deixe-me trazer algum embasamento histórico. Antes de habitar a traseira do Peugeot 208 e do VW Polo, a sigla “GT” fazia referência aos grand tourers, carros concebidos para uma versão motorizada do velho Grand Tour. Que, por sua vez, era aquela viagem de formação feita por jovens aristocratas europeus, sobretudo ingleses, que passavam anos rodando o continente para estudar arte, arquitetura, história e, presumivelmente, desenvolver opiniões muito firmes sobre qualquer coisa cuja opinião é absolutamente dispensável. O GT herdou esse nome porque propunha uma versão motorizada da mesma fantasia: cruzar grandes distâncias não só com velocidade, mas com conforto, luxo e alguma pretensão cultural elitista. Há inclusive um episódio […]

Lamas Founder’s Selection – Antes da Fama

Necromaquiador. Ou necrocosmetologista, num neologismo meio etimológico. Esse é o nome do profissional que ajeita o cabelo e maquia aqueles que partiram de seus corpos, antes do velório. Não deve ser um trabalho fácil. Exige cuidado, técnica – nem sempre é fácil disfarçar uma causa mortis – e uma boa parcela de sangue frio e estômago. É também um trabalho silencioso, de bastidores. Dificilmente poderíamos imaginar que algum famosão desempenhasse esse papel. Mas este foi, justamente, o caso de Danny DeVito. Ele, o Pinguim do Batman, de 1992; o Frank de It’s Always Sunny in Philadelphia; e o pai picareta da Matilda. DeVito revelou que começou sua carreira – de maquiador de necrotério, não ator – quando trabalhava como esteticista no salão de beleza de sua irmã. Uma cliente que atendia faleceu, e lhe pediram que arrumasse seu cabelo para a última aparição pública. O mundo, na verdade, está cheio dessas histórias curiosas. Todo mundo foi alguém antes de ser outro alguém. Harrison Ford foi carpinteiro. Brad Pitt se fantasiava de frango gigante para ganhar um troco, e Daniel Craig sempre foi ator, mas passou por uns bons apertos. E a destilaria Lamas, de Minas Gerais, antes de produzir os […]

Dupla Nacionalidade – Nomad Outland Whisky

Se você acessou o Cão Engarrafado, é muitíssimo provável que tenha notado o cachorro ali de cima. Aquele lá é o Sazerac, o atual Cão do Cão. Mas ele tem apenas sete anos, e, este site, mais de 10. O que significa que, antes dele, havia outro dog alí. Que fora o Maverick O Maverick, ou Mavi, para os íntimos, era um mini-collie – também conhecido como Sheltie – ainda que a gente ache que a parte do “mini” foi esquecida durante sua concepção. Ele pesava seus dezoito quilos, e era constantemente confundido com um collie “full-size”. Ele era um pouco grande, mas tudo normal até aqui. Acontece que o Maverick, na verdade, era um gato em sua alma. Ou melhor, um gatorro. Porque por mais estranho que pareça, ele raramente buscava algum contato. Passava o dia andando pela casa e olhando com desdém para as pessoas e não era muito chegado em gente nova. Além disso, desprezava biscoito de cachorro, mas era apaixonado por atum em lata. O Maverick pode ter nascido cão, mas, por dentro, bate um coração cheio daquele ódio passivo tão característico dos gatos. Se eu pudesse comparar o Maverick com algum whisky, este certamente seria […]

Work & Trust Terceira Edição

Deixe-me começar transcrevendo um trecho de uma publicação importante. O livro de geografia do primário de minha filha. “O Estado do Espírito Santo é um dos 27 estados brasileiros e se localiza na Região Sudeste do país. (…) A maritimidade exerce grande influência no seu clima, que é predominantemente tropical úmido. O estado é também um grande produtor de café“. Me arrisco a completar as informações com algumas que descobri ao longo dos anos. O Estado do Espírito Santo também é o maior produtor de gengibre do Brasil. E é lá que fica o terceiro ponto mais alto do país. Além disso, eles chamam lagartixa de taruíra, sentem gastura e têm uma rivalidade inexplicável sobre a moqueca com a Bahia. E, por fim – mais importante que tudo isso – eles agora engarrafam whisky. É que foi fundada, no ano passado, no Espírito Santo, a Work & Trust, engarrafadora independente de Afonso Takemoto, empresário e gestor operacional do Alambique Princesa Isabel. Já é a segunda engarrafadora independente brasileira. A ideia é escolher, de forma criteriosa, barricas de destilarias nacionais, finalizar seu líquido (ou não) e engarrafá-los sob o selo da marca. Como um apaixonado por single malts, Takemoto foi bastante criterioso ao elaborar o […]

The Macallan Art is the Flower – A Fonte

Dizem que a função primordial de um mictório é oferecer um destino higiênico ao subproduto de uma noite regada a whisky. Em 1917, porém, o artista Marcel Duchamp decidiu transmutar a essência de uma porcelana branca. Comprou um urinol na loja de ferragens Mott, virou de ponta-cabeça, assinou com o pseudônimo canastrão “R. Mutt” e o batizou de “The Fountain” (ou A Fonte). Por fim, enviou a exposição de Artistas Independentes de Nova Iorque. A Fonte, porém, jamais participou da mostra. Ela foi rejeitada, por ser considerada imoral e vulgar. A diretoria da exposição decidiu que ela não era arte, e a escondeu atrás de uma divisória, longe do público. Duchamp, ciente da rejeição, levou a obra ao estúdio de Alfred Stieglitz, onde foi fotografada e depois devolvida à exposição. Este fora o único registro da versão original daquele objeto. Porque, ironicamente, ao final do evento, a Fonte foi jogada no lixo por algum faxineiro, que provavelmente achou que aquilo fosse só mesmo um urinol, vandalizado por um tal Mutt. E me perdoe se estou postergando chegar ao ponto desta matéria, que é o The Macallan Art is The Flower, mas prometo que fará sentido, no final. Mesmo sem sua […]

Glenmorangie Tale of Spices – Das Índias

Tom Hardy tem algumas séries bem legais. Mobland, por exemplo, que no começo parece mais uma série genérica de gângsteres — e depois confirma justamente a primeira impressão. Mas com suspense, ação e um ritmo impecável. Outra é Taboo. Hardy interpreta James Delaney, um ex-marinheiro britânico meio místico e totalmente desajustado. Ele desafia o governo e a Companhia das Índias Orientais por conta da herança de seu pai: um pedaço de terra chamado Nootka Sound. A parte mais interessante da série é o retrato da Companhia das Índias Orientais. Ela aparece como uma corporação militarizada, quase um estado paralelo. Eles espionam, assassinam, compram juízes, torturam gente, afundam navios e reorganizam o parlamento. Tudo isso para controlar rotas comerciais de escravos, sal, pólvora e, principalmente, as especiarias. Acho engraçado — e, ao mesmo tempo, profundamente ofensivo e cínico — perceber que a humanidade moveu frotas, assassinou povos e redesenhou mapas para que, séculos depois, eu temperasse arroz com Sazon, enquanto a noz-moscada e a pimenta-do-reino observam, incrédulas, sua irrelevância. Isso sem mencionar o curry, que eu comprei, venceu em 2022 e eu nem abri. E ainda assim, de vez em quando, surge um líquido que devolve alguma dignidade ao legado das […]

Sazerac Rye – Herança de homônimos

Talvez você não tenha notado o cabeçalho deste site. Ou, talvez, entrado por um link, direto nesta matéria. Neste caso, recomendo que clique no “home” e contemple a foto. Aí depois, volte aqui. Esse cara peludo aí é o Sazerac. Ele é carioca, residente em São Paulo. Tem seus sete anos, vinte e seis quilos, e – como o tutor – um apetite voraz por tudo que parece, remotamente, comestível. Quando ele era jovem, uma vez, comeu uma zamioculca inteira. Vaso incluído. O Sazerac ganhou este nome por causa de um drink, que é o preferido deste Cão. Quero dizer, meu, não dele, porque óbvio que ele não bebe (note que, a título de desambiguidade, usei “deste”, e não “desse”). Mas o que é mais legal é que o Sazerac só se chama Sazerac por causa do Sazerac drink, que só se chama Sazerac por causa do Sazerac Rye, que só tem esse nome por causa de uma “coffee house” homônima, em Nova Orleans. Que, por sua vez, herdou o nome de um cognac – Sazerac de Forge. E antes de entrar nos pormenores desta história – que começa lá por 1850 e desemboca em um pastor autraliano red merle […]