Tipperary – Passaportes

O Jean Reno não é francês. Quer dizer, ele é francês, mas é o ator mais essencialmente francês menos francês que eu conheço. Seu nome verdadeiro é Juan Moreno y Herrera-Jimenez. Seus pais eram espanhóis. Quando o pequeno Jean nasceu, o casal vivia em Casablanca, no Marrocos – na época que o país ainda era um protetorado da França. O que o torna francês, tecnicamente falando. E apesar da descendência espanhola, é difícil imaginar um ator que represente melhor alguém nascido na terra do queijo e vinho. Talvez Gérard Depardieu, Alain Delon ou Vincent Cassel. Pensando bem, não. Pra ser mais francês do que o Jean Reno, tem que ser o Gérard Depardieu vestido de Obélix, segurando aquele terrier que […]

Fancy Free – Bourbon Month

Há uma centena de datas comemorativas bem aleatórias durante o ano. Uma das minhas preferidas é o dia 01 de fevereiro. É o dia do Eletricitário Gaúcho. Gosto da data porque ela é bem específica – eletricitário já é difícil, imagina gaúcho. Outra que me fascina, pelo motivo contrário, é 02 de fevereiro, o dia seguinte. O Dia Mundial das Zonas Úmidas. O que, afinal, são as zonas úmidas? É um eufemismo para o dia do banheiro? Mas no quesito aleatoriedade, poucas celebrações ganham de uma que toma um mês inteiro. Janeiro, o Mês da Digestão da Ameixa Seca Californiana. Chega a ser dadaísta. E é ainda mais admirável que seu gênio criador foi Arnold Scwarzenegger. Em 2009 o então […]

The Rapscallion – Das Trocas

Há umas semanas, fui numa hamburgueria nova que abriu aqui perto de casa. Olhei o menu. Hambúrguer de shimeji, linhaça, soja. Acenei pro garçom, que se dirigiu até minha mesa com um sorriso condescendente, talvez antecipando minha indagação. “Só tem hamburger vegano, não tem de carne, carne mesmo?” perguntei. “Não tem, essa é nossa proposta. Prova o vegano, você vai achar super gostoso nem vai notar a diferença. O de shimeji é nosso carro chefe, parece até hambúrguer de picanha” . Ponderei por alguns instantes, mas decidi deixar o preconceito de lado e provar aquele (nem tão) convidativo disco de fungos moídos. A primeira mordida me deixou intrigado. Na segunda, levantei o braço. O garçom prontamente se aproximou inclinando a […]

Hot Toddy – Panacéia

Crianças ficam doentes. Isso é inexorável. É preciso criar memória imunológica. Colocar o sistema pra funcionar, ganhar resiliência. E elas são bem talentosas nisso. Vejo pelos meus dois cãezinhos – comer a batatinha que caiu no chão e o cachorro de verdade fuçou, lamber a mão depois de ter apoiado no chão imundo da escola e colocar a boca no corrimão do elevador são coisas triviais para eles. O que explica a frequência que ficam doentes. Especialmente resfriados. Não adianta. Não é porque eles estão mal agasalhados, ou porque pegaram um golpe de ar de alguma janela aberta. Nem porque tomaram pouco suco de laranja. Isso não tem nada a ver com o resfriado. É porque eles são porcos mesmo. […]

Algonquin Cocktail – Hábito

A vida é repetição. Há uma pletora de coisas que fazemos todos os dias, e que são praticamente incontornáveis. Acordar, comer, trabalhar. Se você for uma pessoa com padrões razoáveis de higiene, tomar banho e escovar os dentes. Algumas vezes, essas coisas nos trazem prazer. Outras, são mera obrigação. Para adicionar um hábito à rotina que não seja absolutamente necessário, ele tem que ser muito bom. Mas muito bom mesmo. Não imagino nada assim, nem, sei lá, beber whisky. E olha que eu realmente gosto de beber whisky. Mas foi isso que aconteceu com um grupo chamado Algonquin Round Table (ou A Távola Redonda de Algonquin) – formado por escritores, dramaturgos, atores e outros artistas que se reuniam praticamente todo […]

Scofflaw Cocktail – Neologismo

Neologismo. A criatividade humana aplicada à linguagem. O berço de palavras, para suprir necessidades ou lacunas. A prova de que a língua não é pétrea ou falecida, mas fluida e viva – em constante mudança. Se você acha que escrevi algo abobado, então dê uma googlada. Eles são onipresentes. O drone comprado no camelódromo. A foto photoshopada da blogueira. O computadorês, aliás, é campeão – deletar, resetar, escanear e (um preferido meu) boostar. Com dois “ós”, por favor, e sem me trollar, porque com um só, é outra coisa. Mas a coquetelaria não fica muito para trás. Coquetel mesmo, a palavra, já foi um neologismo. Ela deriva do inglês cocktail, que, por sua vez, pode ter vindo da corruptela de […]

Cameron’s Kick – Inominado

  Hoje vou inverter o texto. É que vou falar de um coquetel que ninguém conhece bem a história. Um drink que leva orgeat, limão siciliano e dois tipos de whisky – irlandês e escocês. Mas cuja origem é totalmente desconhecida. E a razão do nome, mais ainda. O Cameron’s Kick. Nem grandes estudiosos da coquetelaria possuem a mais rasa ideia de quem era esse tal de Cameron. E por que o coquetel teria sido batizado em homenagem a um chute do ilustre desconhecido. A nós, resta apenas especular. Talvez o drink seja uma homenagem ao diretor James Cameron, e a vontade que eu tenho de chutar a cabeça dele depois de ter perdido três horas da minha vida vendo Avatar. Aliás, […]

Morning Glory Fizz – Da Continuidade

A última matéria de 2018. Em menos de dois dias, teremos mais trezentos e sessenta e cinco outros para fazer novamente tudo que fizemos de errado nos anteriores. Mas não sem antes aproveitar as últimas horas do ano de uma forma alegremente inconsequente, e desastrosamente otimista. Algo que certamente lhe trará lembranças no dia seguinte. Lembranças, essas, reavivadas pela boca seca, enxaqueca e fotofobia. Feliz veisalgia nova, meu caro leitor. Assim, talvez a melhor forma de se iniciar um novo ano não seja com falsas promessas. Mas sim reparando a igualmente épica e desastrosa última noite do ano anterior. E é aqui que entra o Morning Glory Fizz. Um café da manhã em forma de coquetel, que leva whisky, absinto […]

Paris-Manhattan – Desconexão

Todos nós temos problemas. E falar sobre eles quase sempre traz alívio. A maioria de nós escolhe o companheiro, um amigo próximo ou um parente. Estes são nossos confidentes. Na literatura também. E lá, o papel do confidente é duplo. Além de muitas vezes auxiliar o herói, o confidente é uma forma de revelar os pensamentos e aflições do protagonista, sem criar artificialidade. Existem infinitos exemplos, da mais clássica à mais prosaica literatura. Horácio é o confidente de Hamlet, na conhecida obra de Shakespeare. Razumikhin é o de  Raskolnikov, em Crime e Castigo. Dumbledore é mentor e confidente de Harry Potter, assim como Galdalf para Frodo. E não, o mestre dos magos não é confidente de ninguém, porque ele é o Vingador […]

Josefel Zanatás – Cãoquetel

Hoje vou contar para vocês a história de um homem fictício singular. Um homem cético, desiludido e traumatizado. E também dono de um duvidoso gosto por vestuário e questionável higiene pessoal. Seu nome é Josefel Zanatás – uma alusão ao amargor do fel, combinada com o nome do tinhoso, escrito do avesso. Josefel usa terno, capa e cartola. Possui unhas compridas e é obstinado a encontrar a mulher perfeita para gerar, em seu ventre, o mais primoroso filho. O que, pra falar a verdade, com o visual que Josefel possui, é uma tarefa fadada ao fracasso. Josefel não é um homem real. Mas é o nome real do pseudônimo – é, eu sei, é complicado assim mesmo – de José […]