Especial de Páscoa – Harmonização de Whisky e Chocolate

Ah, a Páscoa. Só de pensar na data comemorativa, meu índice glicêmico já sobe. A páscoa é como um mini-natal. Nos reunimos com familiares que não se interessam por nós, para conversar sobre assuntos que não nos interessam e para comer de forma desenfreada, numa vã tentativa de evitar mais conversa. As únicas reais diferenças entre a Páscoa e o Natal é que tem menos uva passa na comida e, ao invés de presentes, ganhamos chocolate.

O que, pra mim, é um problema, já que não sou muito fã do doce. Curioso isso, porque quando eu era criança, eu amava chocolate. Mas, à medida que cresci, o fascínio foi se dissipando. Hoje, não apenas como pouco chocolate, como poucos doces em geral. É que – aliada à mudança de meu paladar – veio a idade. E, com ela, a prerrogativa de comer de tudo em quantidades gargantuais e não sofrer consequências desapareceu. Por isso, faço uma troca: como poucos doces, mas bebo.

E pelo fato de chocolate não faça parte de minha dieta diária, tenho uma enorme dificuldade em acabar com os poucos ovos que recebo. Para solucionar este problema que não precisa ser solucionado, então, resolvi realizar uma atividade bastante extenuante neste ano. Combinar os ovos de páscoa com whisky. E é isso que ofereço a vocês, queridos leitores. Dividido em tópicos, pra ficar mais fácil.

Chocolate Branco

Chocolate branco era meu preferido quando era criança. Doce, gorduroso e absolutamente delicioso. Para combinar com ele, escolhi um whisky com maturação predominantemente em barricas de carvalho americano de ex-bourbon. O Glenlivet Founder’s Reserve – que, aliás, apresenta notas de prova bem semelhantes ao chocolate, e ainda traz um frutado cítrico muitíssimo agradável à combinação.

Ao Leite

Esse é o tipo mais comum na páscoa. A maioria dos ovos são de chocolate ao leite, que traz cremosidade e dulçor na medida certa. Costumam ser equilibrados, e agradar à maioria dos paladares.

Para combinar com ele, escolhi um de meus blended scotch whiskies preferidos. O Chivas 18. Delicado, mas com um equilíbrio perfeito entre especiarias e frutas, com um aroma floral que sou absolutamente apaixonado. O Chivas 18 é incrível. Olha, pra falar a verdade, esqueçam o chocolate ao leite, bebam só o Chivas 18.

Amargo

Meu estilo preferido de chocolate. O amargo traz intensidade, e combina, também, com whiskies mais intensos. Meu melhor resultado foi com aqueles maturados em barricas de vinho, como o Aberlour 15 anos. Um single malt escocês da região de Speyside, com perfil de sabor apimentado e vínico. Intenso, mas muito agradável.

A combinação trouxe ao chocolate um sabor frutado seco. O chocolate contribuiu para a finalização do whisky, ressaltando suas especiarias e caramelo.

Chocolate (ao leite) com amêndoas

Aqui, escolhi um whisky delicado, mas cuja maturação pudesse trazer complexidade à combinação, e que tivesse, também, notas de amêndoas. O Royal Salute 21 anos. Delicado, equilibrado e bastante amadeirado, o scotch whisky premium tornou o chocolate um pouco mais amargo, e ressaltou as amêndoas de sua receita.

Johnnie Walker Swing – Doce Balanço

Calça jeans. Depois de quase um século e meio, a peça de vestuário que começou como indumentária de cowboys e mineradores no velho oeste passou a ser usada por praticamente todo mundo. Homens, mulheres, crianças. Porém, poucos conhecem sua real origem.

A calça jeans foi criada por Jacob Davis, um minerador que participou da febre do ouro nos Estados Unidos, no século dezenove. Sua matéria prima é o denim, material outrora utilizado para revestir as tendas dos trabahadores das minas, inicialmente produzido na cidade de Genoa, na Itália. Daí o nome Jeans – Genoa, com sotaque americano. Jacob comprava o material de um tal de Levi-Strauss, que, mais tarde, se juntou a ele para fundar a conhecia Levi Strauss & Co.

Atualmente, a calça jeans está por toda parte, numa infinidade de desenhos diferentes. Mas há uma coisa em seu design que resistiu à passagem do tempo, e permanece desde sua concepção. Um pequeno bolso, dentro de um dos bolsos da frente. Esse bolsinho sempre me intrigou, de forma que, certo dia, resolvi pesquisar para que ele servia.

Pra que, Levi?

Imaginem o tamanho de minha surpresa quando descobri que aquele pequeno continente teria sido projetado, inicialmente, para o relógio de bolso. Sim, para evitar que ele se quebrasse, já que muitos mineradores e cowboys os utilizavam na época do oeste selvagem.

Olha, talvez eu não seja hipster o suficiente, ou tenha usado meus jeans errados a vida toda. Mas acho esse um uso meio específico. Quantas pessoas efetivamente usam a calça ou a compraram porque ela tem um minibolso que não cabe quase nada, exceto, bem, um relógio de bolso? Penso que bem poucas.

No mundo do whisky, o bolsinho da calça jeans poderia ser facilmente comparado à garrafa do Johnnie Walker Swing. É que ela foi projetada para que o whisky fosse levado em viagens navais, e não caísse da prateleira do navio com o balanço do mar. O que, bem, pressupõe que você possua uma embarcação, ou vá levar um whisky na embarcação de alguém. Para mim, esse é o tipo de solução para um problema que ninguém tem.

Quase ninguém

Seja como for, o Johnnie Walker Swing está no mercado já há bastante tempo. É o terceiro produto mais antigo da linha Johnnie Walker, sendo mais novo apenas que os clássicos Red Label e Black Label. Ele foi lançado em 1932, e desenvolvido pelo próprio Alexander Walker.

Segundo a marca, Alexander Walker notou que, durante uma viagem naval, as garrafas no bar da embarcação se moviam por conta do balanço do navio, e o bartender tinha dificuldades em deixá-las todas no lugar, e evitar que se quebrassem. O cavalheiro então, ao voltar para a Escócia, encomendou uma garrafa com um fundo convexo, que se mantinha no lugar, apesar do balanço.

Sensorialmente, o Johnnie Walker Swing é um blended whisky leve, adocicado e relativamente complexo. Ainda que a marca não divulgue sua composição, é quase seguro afirmar que leva uma boa proporção de Cardhu. O single malt domina seu paladar, ainda que haja uma discreta fumaça e influência vínica.

Se você gosta de whiskies leves e adocicados, ou é um fã da marca do andarilho mas procura algo com perfil de sabor um pouco distinto, o Johnnie Walker Swing é para você. Para você e para todos aqueles que querem uma garrafa que não se estilhace no chão durante viagens navais, claro.

JOHNNIE WALKER SWING

Tipo: Blended Whisky com sem idade declarada.

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: baunilha, caramelo. Adocicado e muito agradável.

Sabor: Delicado e adocicado. Compota de frutas, com final levemente enfumaçado e ainda doceC

Preço: R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais) aproximadamente.

Lagavulin 9 anos Lannister – Game of Thrones – Drops

“É isso que eu faço. Eu bebo e eu sei das coisas”. Esta é a frase mais famosa de Tyrion Lannister, um dos mais famosos personagens da mais famosa série televisiva atual. Game of Thrones. É fama demais. Se não fosse tão famosa, eu mesmo, Cão, adotaria – não sem alguma presunção – como punchline pessoal.

Quando a Diageo anunciou que lançaria uma linha de single malts dedicados à série Game of Thrones, mesmo sem acompanhá-la, logo relacionei o Lagavulin a Lannister. A começar pelo brasão dos Lannister, que é muito semelhante àquele da destilaria de Islay. Além disso, Lagavulin tem fama de ser um whisky “para esclarecidos” – algo que este Cão, de certa forma, discorda. Mas, nada mais natural, então, do que atribuí-lo a alguém que sabe das coisas.

E qual foi minha surpresa, em 2018, quando a coleção finalmente foi revelada. Um jovem Lagavulin justamente relacionado à casa daquele que “bebe e sabe das coisas”. O Lagavulin 9 Anos Lannister. Talvez eu devesse mesmo adotar a frase de efeito.

De acordo com matéria veiculada na Forbes, a escolha das casas não foi, de nenhuma forma, aleatória. O time da Diageo trabalhou em conjunto com cada uma das destilarias e sua arquivista chefe, Joanne McKerchar, para que a história das destilarias remontasse aquela das casas escolhidas. As casas de cada expressão foram determinadas pela história da destilaria e sua localização geográfica. E não pelas características sensoriais, como muitos poderiam pensar.

As casas e seus maltes.

De acordo com a Diageo “Lagavulin é uma das marcas mais lendárias de single malt, e foi produzido nas costas de Islay por mais de 200 anos – espelhando os cálculos meticulosos e tenacidade empregada pelos Lannister em sua ascenção pra conquistar o Trono de Ferro. Este single malt é um malte rugidor, que remonta as riquezas dos Lannister, e é melhor servido puro ou com um pouco de água

A maturação do Lagavulin 9 Anos Lannister acontece inteiramente em barricas de primeiro uso de carvalho americano, previamente utilizadas para maturar bourbon whiskey. Isso explica sua juventude – barricas de primeiro uso tendem a transferir seus aromas e sabores mais rapidamente para o new-make spirit. E o equilíbrio entre a fumaça do malte e a influência da barrica é atingido mais rapidamente. É importante notar que whiskies com idades avançadas costumam usar boa parte de barris de segundo uso ou reuso, justamente para não eclipsar o sabor proveniente do destilado – algo ainda mais importante quando falamos de um whisky defumado.

Sensorialmente, o Lagavulin 9 Anos Lannister lembra bastante seu irmão mais velho, o popstar Lagavulin 16 anos. Porém, é mais adocicado e floral. O aroma característico de hospital e carvão estão lá, e muito bem acompanhados por sabor apimentado e salgado.

Infelizmente – e como é de se prever – O Lagavulin 9 anos Lannister não desembarca em nosso país. Porém, se o encontrar em algum lugar no exterior, experimente. Sem justificativas ou explicações, apenas confie em mim. Afinal, é isto que eu faço. Eu bebo e sei das coisas.

LAGAVULIN 9 ANOS LANNISTER – GAME OF THRONES

Tipo: Single Malt com idade definida – 9 anos

Destilaria: Lagavulin

Região: Islay

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: enfumaçado e medicinal, com baunilha e açúcar refinado.

Sabor: bastante defumado e rico, com balinha de caramelo (butterscotch), baunilha e pimenta do reino. Final longo e progressivamente mais turfado.

Algonquin Cocktail – Hábito

A vida é repetição. Há uma pletora de coisas que fazemos todos os dias, e que são praticamente incontornáveis. Acordar, comer, trabalhar. Se você for uma pessoa com padrões razoáveis de higiene, tomar banho e escovar os dentes. Algumas vezes, essas coisas nos trazem prazer. Outras, são mera obrigação.

Para adicionar um hábito à rotina que não seja absolutamente necessário, ele tem que ser muito bom. Mas muito bom mesmo. Não imagino nada assim, nem, sei lá, beber whisky. E olha que eu realmente gosto de beber whisky. Mas foi isso que aconteceu com um grupo chamado
Algonquin Round Table (ou A Távola Redonda de Algonquin) – formado por escritores, dramaturgos, atores e outros artistas que se reuniam praticamente todo dia no hotel Algonquin, em Nova Iorque, para o almoço.

O grupo foi fundado pelo agente teatral John Peter Toohey e pelo crítico literário Alexander Wolcott. Ao longo do tempo, outras figuras proeminentes da cultura literária dos Estados Unidos se juntaram aos comensais. Harpo Marx, Dorothy Parker, Franklin Pierce Adams e Harold Ross eram alguns deles. Os almoços – que aconteciam praticamente todos os dias – duraram mais de dez anos, de 1919 até o começo da década de 30.

O hotel

É bem improvável, no entanto, que essa história tenha algo a ver com a coquetelaria. O Algonquin Round Table começou a se reunir bem na época em que vigorava a Lei Seca Norte-Americana. O próprio hotel, aliás, não servia bebidas alcoólicas, mesmo antes disso. E ainda que alguns membros fossem relativamente inclinados a diversões etílicas, suas preferências eram, na maior parte, highballs e, ocasionalmente, martinis – como aponta em um brilhante artigo o historiador de coquetelaria David Wondrich.

Isso, no entanto, não impediu que bartenders criassem coquetéis em homenagem àquele grupo. Ou, talvez, ao hotel. Dentre eles, triunfou – mais ou menos – um Algonquin que leva rye whiskey, vermute e suco de abacaxi. Criado na década de 30, o Algonquin jamais alcançou o prestígio de um Manhattan. Mas ganhou popularidade suficiente para sobreviver na memória da coquetelaria até os dias atuais. O que já é bem louvável, já que a maioria dos coquetéis que eu crio, eu mesmo esqueço no dia seguinte.

Talvez seja pro melhor…

O Algonquin é um coquetel curioso. Porque, aparentemente, é feito de ingredientes que não combinam. Se eu os recitar para alguém, no tom literário tão apreciado pelos membros da Távola Redonda de Algonquin, é bem provável que a pessoa coloque um semblante duvidoso, de quem lê poesia concretista. Porém, no paladar, o Algonquin funciona bem. Ele está longe de ser doce ou enjoativo, como dita a intuição etílica. É cítrico e seco, com perfil de sabor muito interessante.

Devo também alertar que o Algonquin não é um drink fácil. Não de ser bebido. Mas de ser bem executado. Como na boa literatura, chegar a um equilíbrio é difícil. Exige exatidão nas medidas e uma certa experiência ao escolher as palavras corretas, ou melhor, o vermute. Para mim, é algo quase contra-intuitivo: um vermute mais seco, no papel, parecia ser uma boa ideia, como pede a receita (dry vermouth). Mas o que mais me agradou, na prática, foi o Martini Riserva Speciale Ambrato – que fica no meio do caminho entre um vermute seco e doce.

Mas chega de subliteratura etílica. Preparem seus paladares, queridos leitores, para um coquetel inspirado em um dos mais famosos convescotes da alta cultura norte-americana. Mas muito cuidado. Porque é capaz que você goste tanto dele que o transforme em um hábito.

ALGONQUIN COCKTAIL

INGREDIENTES

  • 45ml rye whiskey (este Cão usou o Wild Turkey Rye, mas qualquer bourbon com uma boa proporção de centeio na mashbill funcionará. Se utilizar um bourbon, talvez seja uma boa ideia procurar um vermute mais seco)
  • 25ml vermute seco (ou nem tão seco assim – vide acima)
  • 25ml sumo de abacaxi*
  • taça coupé
  • parafernália para bater (shaker, strainer etc.)

PREPARO

  1. Adicione os ingredientes em uma coqueteleira e bata, com bastante gelo.
  2. desça a mistura numa taça coupé, passando por um strainer (ou peneira).

*OBSERVAÇÕES:

A receita acima foi a que mais agradou este Cão que vos escreve. Notem, porém, que a proporção pode ser simplificada para 2-1-1 em situações emergenciais.

Existe uma variação do Algonquin onde você pode macerar (isso é amassar com um pilão) o abacaxi na coqueteleira ao invés de usar o sumo. Deve-se macerar a fruta e adicionar os demais ingredientes, na proporção acima. Depois, basta coar com um strainer para remover pedaços do abacaxi.

Lembre-se que sumo de abacaxi, quando batido, cria espuma. Se não quiser um coquetel com espuma, faça o coquetel mexido, e não batido, como o da foto.

Bowmore Vintner’s Trilogy 18 – Manzanilla Cask – Drops

Talvez você seja um apreciador de vinhos. Ou, talvez, você goste apenas de whisky. Mas há uma coisa inegável. O mundo daqueles possui uma enorme influência no deste. Isso fica claro observando a quantidade de whiskies que possuem alguma espécie de maturação em barricas previamente utilizadas para vinho.

Um exemplo é o recente lançamento da Johnnie Walker aqui no Brasil – o Blender’s Batch Wine Cask. Outra, o maravilhoso Port Charlotte MRC:01, finalizado em barris de ex-Mouton Rothschild. Mas não apenas eles. Há uma miríade de maltes e blends envelhecidos em barricas de vinho de diferentes tipos, como jerez, porto, madeira e sauternes.

Barricas na Bowmore

Há, porém, uma certa dificuldade em se trabalhar com barricas de vinho quando se tem um malte predominantemente defumado. Em muitos casos, os aromas e sabores frutados daquele fermentado acabam sobrepujando o enfumaçado do new-make. E, em outros, é o contrário – a fumaça eclipsa a barrica e seu conteúdo prévio.

Encontrar um equilíbrio é difícil. Exige conhecimento e tempo. Mas isso, a Bowmore – a mais antiga destilaria da ilha de Islay – tem de sobra. Eles são reconhecidamente uma das destilarias que mais bem trabalha com essas influências aparentemente conflitantes.

Prova disso é a Vintner’s Trilogy, lançada ao longo do ano passado e retrasado pela empresa. É um trio de Bowmores que celebram a influência do vinho no universo do whisky. O mais jovem da tríade é o Bowmore 18 Manzanilla Cask, tema desta prova. Além dele, fazem parte da trilogia um Bowmore de 26 anos maturado em vinho tinto e um 27, em porto.

A maturação do Bowmore 18 Vintner’s Trilogy Manzanilla Cask é fracionada. Primeiro, o new-make spirit passa 13 anos em barris de ex-bourbon. Depois, seu conteúdo é transferido para barricas que previamente continham jerez manzanilla – um tipo de vinho jerez raramente utilizado por whiskies, cujas destilarias preferem Oloroso e PX – onde passa os cinco anos restantes. É uma finalização bem longa, para quaisquer padrões. Basta lembrar que, em comparação, a finalização do Glenmorangie Lasanta é de apenas dois anos.

O Bowmore 18 Vintner’s Trilogy Manzanilla Cask também possui uma graduação alcoólica bem generosa. 52.5%. É a mais alta da trilogia, contra 48,7% do 26 anos, e 48,3% do primogênito. Faz sentido, na verdade. À medida que o whisky matura, a tendência é que sua graduação alcoólica diminua. Assim, naturalmente, se houver pouca ou nenhuma diluição, as expressões mais maturadas serão menos alcoólicas.

A trilogia

Vou pedir licença aqui, para ignorar minha imparcialidade canina. Porque o Bowmore 18 Vintner’s Trilogy Manzanilla Cask é absolutamente incrível. É um whisky complexo, que apresenta notas frutadas, açúcar mascavo, gengibre, fumaça e turfa. O sabor seco do jerez manzanilla se equilibrou perfeitamente com a influência costal e turfada do malte.

Mas há um ponto negativo em relação a ele. Sua disponibilidade. O Bowmore 18 Vintner’s Trilogy não está à venda em nosso país. E se esgotou na maioria das lojas conhecidas do exterior também. O que prova que não importa muito se você é um enófilo ou um amante de whiskies. O
Bowmore 18 Vintner’s Trilogy Manzanilla Cask mostra que mesmo com as influências mais díspares, é possível produzir um whisky fantástico.

BOWMORE 18 VINTNER’S TRILOGY MANZANILLA CASK

Tipo: Single Malt com idade definida – 18 anos.

Destilaria: Bowmore

Região: Islay

ABV: 52.5%

Notas de prova:

Aroma: turfado e defumado, com frutas vermelhas e gengibre.

Sabor: Início picante e enfumaçado, que rapidamente se desenvolve para um frutado seco, com frutas vermelhas (mirtilo, talvez?) e carvão.

Com Água: Adicionar água ressalta os sabores frutados, e traz à tona um aroma cítrico muito agradável.

Sobre a Transparência no mundo do Whisky

Estamos na era da transparência. Transparência essa, movida em grande parte pela desconfiança generalizada. Duvidamos da mídia, das grandes empresas. E das pequenas também. Desconfiamos das intenções das pessoas e do altruísmo. Duvidamos do troco do taxista, da conta do bar – que para mim é sempre surpreendente – e da nossa filha, quando ela diz que ainda não assistiu Patrulha Canina hoje. Tudo é matéria para escrutínio.

Mas apesar disso, é engraçado que aceitamos a pouca informação no mundo do whisky. Porque, se você pensar bem, sabemos muito pouco sobre aquilo que estamos bebendo. Na maioria das vezes aceitamos as meias-informações e nos damos por satisfeitos. Basta que o produto tenha um sabor agradável e seja consistente. E a maioria dos produtores não só está de acordo com isso, como comemora.

Sabemos, por exemplo, que a base do Chivas Regal 12 anos é Strathisla. E sabemos que o componente mais jovem lá dentro tem doze anos. Com o Johnnie Walker Blue Label, sabe-se apenas que a base é Royal Lochnagar. Mas não passa muito disso. Não sabemos ao certo quais são os outros maltes e whiskies de grão, tampouco sua idade.

Pois é, não tem 21 anos.

A razão disso é uma norma da Scotch Whisky Association (SWA), que proíbe que um produtor comunique ao consumidor sobre os detalhes da idade dos componentes de um whisky, exceto pelo mais jovem. Assim, um blend com doze anos estampados no rótulo pode, na verdade, conter uma boa parcela de algo bem mais maturado. Mas isso não pode vir expresso em sua embalagem. O produtor também tem a faculdade de esconder a idade. Nesse caso, a única garantia que se tem é que o componente mais novo tem mais de três anos de barril – esta é a idade mínima para que possa ser engarrafado como whisky, de acordo com a própria SWA.

Acontece que há um claro movimento no mercado atual. Os consumidores querem saber mais. Eles querem transparência. Entender quais são os ingredientes em letras pequenas de certo refrigerante. Saber quanto de Tripolifosfato de Sódio e Polifosfato de Sódio tem naquele nugget, ainda que ele não saiba bem para que servem esses elementos. Ou quanto de carne bovina tem no hamburger cem por cento bovino daquela lanchonete famosa. Bem, você entendeu meu ponto.

A TRANSPARÊNCIA

Um dos maiores bastiões na guerra a favor da maior transparência no mundo do whisky é a Compass Box Whisky Co., e seu fundador, John Glaser. A empresa tinha como prática expor, de forma completa e clara, todos os componentes de seus blends. A informação era tão detalhada que seria possível – caso alguém tivesse acesso ilimitado a todos os barris do mundo – reproduzir com exatidão qualquer dos whiskies da empresa.

Era uma coisa linda. Para alguém como eu, saber que meu querido Compass Box Peat Monster continua exatamanete 20% de Ledaig e 40% de Laphroaig era motivo de regojizo toda vez que tomava um gole. Aliás, foi justamente por conta dessa transparência que tive a curiosidade de provar o Peat Monster pela primeira vez. Aquelas eram – e ainda são – duas de minhas destilarias favoritas.

É como se alguém decidisse fazer um tartar de haddock defumado!

Mas isso, certo dia, teve fim. De acordo com Glaser “Por quase quinze anos contamos às pessoas a idade exata de todos os componentes de nossos blends. Cem por cento, sendo totalmente transparentes. Sabíamos desde o começo que isso não era estritamente legal, mas sentíamos que a lei não servia para o propósito que tinha sido feita. Nós estavamos apenas esperando pelo dia que alguém fosse nos repreender em relação a isso. E esse dia finalmente chegou“. Glaser se referia ao puxão de orelha público que recebeu da SWA, ao divulgar a exata composição de seu This is Not a Luxury Whisky.

Por conta dessa represália, a Compass Box lançou uma campanha propondo mudanças na regulamentação, para obter maior transparência no mundo do whisky. Ela encorajava outros produtores a se juntar, e possuía um abaixo-assinado para consumidores. Em menos de um dia, três mil pessoas haviam assinado a petição, e marcas de renome se juntaram à ela. Uma delas foi a Bruichladdich, famosa destilaria de Islay, conhecida por suas posições progressistas.

SOBRE INTENÇÕES

Para falar a verdade, a campanha de Glaser é multifacetada. Ela pode parecer bem intencionada, e na verdade é. Mas é também autopromocional. A Compass Box Whisky Co. é uma empresa de nicho, com posicionamento iconoclasta, produzindo blended whiskies de altíssima qualidade para um público também nichado – pessoas que sabem e procuram produtos que fogem do mainstream, e que não se importam em pagar mais caro por qualidade. Seu volume de produção e posicionamento de mercado permitem que escolha ingredientes de – literalmente – dar água na boca. E seu público tem esclarecimento suficiente para saber o que querem beber.

Porém, para os grandes produtores, esta transparência é um problema. Muitos consumidores buscam apenas consistência. E para conseguir essa consistência, estes produtores mudam constantemente os ingredientes de seus blends, bem como sua proporção. Por conta disso, uma transparência total seria um absoluto inferno. Imagine justificar para milhares de consumidores por que há menos Talisker e mais Caol Ila naquele lote específico de Double Black, por exemplo.

De certa forma, é a mesma discussão que encontramos ao falar do corante caramelo, já visto por aqui. Muitas empresas – a Compass Box incluída – alardeiam não utilizar o componente em seus produtos. Outras destilarias, como Springbank e Bruichladdich, também. Essa atitude – ainda que pareça um passo de honestidade em direção ao consumidor – é também uma estratégia de marketing. Anunciar que nenhum corante é utilizado em sua produção cria um diferencial e aponta o produto para um público interessado nisso. Ou, de uma forma mais direta, cria um diferencial e destaca o produto para os entusiastas.

Tonalidades

De volta à Compass Box. Com o avançar da campanha – e a resistência da SWA e de muitos produtores – a Compass Box então encontrou um meio-termo. A lei não determina total confidencialidade. Os produtores podem divulgar as receitas de seus whiskies na internet, por exemplo, para alguém que expressamente as procure. E foi justamente isso que ela fez. Ainda que não esteja expressa na garrafa, você pode solicitar à empresa, online, que lhe transmita as receitas. Isso, em tese, garante transparência apenas para quem busca transparência.

O PONTO DA SWA

Mas não há maniqueísmo no mundo real. A própria SWA também é bem intencionada. Sua regulamentação, na verdade, busca também proteger o consumidor, mas por outro ângulo. Dar liberdade para o produtor anunciar exatamente o que está em seu blend pode causar um movimento inverso. Imagine, que alguém pode produzir mil litros de um whisky dez anos, e pingar apenas algumas gotas de um single malt com mais de três decadas de idade. Anunciar que aquele seria um blend balzaquiano seria absolutamente injusto. E é justamente essa a proteção que a lei oferece. Balizando por baixo, evita-se que alguém superfature ou supervalorize seu produto. Algo que, discutivelmente, Compass Box e Bruichladdich fazem.

É claro que o inverso também pode acontecer. Imagine um whisky composto 99,4% de single malts com mais de vinte anos de idade, mas com apenas 0,6% de um componente com apenas três anos. Para seu produtor, há apenas duas opções. A primeira, esconder a idade e parecer ainda menos transparente. A outra, estampar orgulhosamente seus três anos no rótulo. A Compass Box Whisky Co. ironizou isso com seu Three Year Old Deluxe. Entenda a história aqui.

Assim, meus queridos leitores, ao invés de apoiarem seus copos na mesa e se prepararem para um combate virtual, sentem-se e reflitam. Mesmo um assunto de tamanha singeleza como quanta informação deve ser passada no rótulo de uma bebida é multifacetada. E como um prisma ou um brilhante, há beleza nisso. É isso que faz o whisky uma bebida tão diversificada, capaz de agradar a um público tão diverso quanto apaixonado. Não importa muito o que está no seu copo – um Springbank puro ou um Cutty Sark com gelo. Levantem-os e brindem à diversidade.

Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare Port Ellen

Em 1888, numa mina localizada em Kimberly, na África do Sul, foi feita uma descoberta extraordinária. Extraordinariamente valiosa. O outrora terceiro maior diamante do mundo, de uma translúcida cor de whisky. Batizado de De Beers – por conta da empresa de mineração que o encontrou – o brilhante, depois de lapidado, possuía mais de 230 quilates. Isso é realmente muito, caso você não seja um entusiasta da gemologia.

A pedra, que adquirira fama internacional, foi então comprada pelo marajá Bhupinder Singh, da Índia, em 1889. O monarca juntou a gema a mais 2.930 diamantes – alguns deles raríssimos – de sua coleção, e comissionou a Casa Cartier para criar uma das maiores peças de joalheria de todos os tempos. Um colar cerimonial, chamado Patiala. A peça final, produzida com platina, tinha mais de mil quilates. Em seu centro, reluzia o enorme De Beers.

Enfim, uma joia para uso casual.

Mas – e desculpem pela paráfrase medíocre – nem tudo eram diamantes no céu. Em meados de 1950, o enorme colar desapareceu do tesouro real, e assim permaneceu por mais de quatro décadas. Em 1998 ele foi encontrado pela própria Cartier em uma joalheria de Londres, mas sem suas pedras mais preciosas – dentre elas, o De Beers.

Se fosse um whisky, o colar cerimonial do marajá seria, com toda certeza, um Johnnie Walker Blue Label Ghost and Rare Port Ellen. Uma das mais sofisticadas criações da marca do andarilho à venda em nosso país. E, em seu centro, fazendo as vezes do De Beers, estaria o raro e cobiçado malte da destilaria desativada Port Ellen.

A Port Ellen, localizada na ilha de Islay – considerada por muitos a joia da coroa dentre os silent stills da Escócia – produzia um single malt muito semelhante ao Lagavulin. Ela foi desativada em 1983 e convertida em malting floor, para fornecer malte para as demais destilarias do grupo Diageo – que já possuía outras duas na ilha.

De lá pra cá, como aconteceu com a Brora, foram lançadas edições especiais limitadíssimas de Port Ellen, tanto pela própria Diageo quanto engarrafadoras independentes, utilizando seu estoque remanescente. Por conta de sua raridade e fama, estas garrafas passaram a atingir valores progressivamente mais altos em leilões. Em 2017, num plot twist digno de um colar de marajás, foi anunciada sua reativação, que, segundo estimativas, ocorrerá em 2020.

Perspectiva artística da Port Ellen após a reativação

O Blue Label Ghost & Rare Port Ellen é a segunda expressão da linha Blue Label que leva maltes de silent stills – o nome dado a destilarias que cessaram sua produção. A primeira foi o Blue Label Ghost & Rare Brora, lançado no Brasil em 2018, que tinha como coração a famosa destilaria Brora, das Highlands Escocesas, desativada em 1983 – e também com reativação anunciada.

De acordo com Guilherme Martins, diretor de Reserve da Diageo no Brasil “A série Ghost and Rare proporciona uma viagem pelas destilarias icônicas da Escócia que tem suas reservas cada vez menores. No ano passado, em sua primeira edição, a homenagem foi para a prestigiada destilaria Brora; agora é a vez de celebrar Port Ellen”

Além de Port Ellen, sua preciosa peça central, o Blue Label Ghost & Rare Port Ellen leva mais duas gemas raras. São whiskies de grain distilleries* silenciosas – Carsebridge, desativada em 1983, e Caledonian, silenciada em 1988. O blend se completa e equilibra com o uso de maltes de destilarias ainda ativas, como Mortlach, Dailuaine, Cragganmore, Blair Athol e Oban.

Caledonian (fonte: Whisky.com)

Segundo a Johnnie Walker, o Blue Label Ghost & Rare Port Ellen é um whisky “com camadas adocicadas de baunilha cremosa e ondas progressivas de frutas cítricas, malte e frutas tropicais – tudo perfeitamente equilibrado pelo caráter enfumaçado e marítimo de Port Ellen, que perdura na finalização“. Seja lá o que ondas progressivas de frutas cítricas significar.

Deixando de lado o caráter poético, as notas de prova acima não estão longe da verdade. O Ghost & Rare Port Ellen é um blend equilibrado e complexo, que apresenta um sabor vínico e adocicado no início, e que, progressivamente, se torna delicadamente enfumaçado. Ele está par a par com o Ghost & Rare Brora, seu predecessor e – melancolicamente, na opinião deste Cão – é notavelmente superior ao Blue Label tradicional em complexidade sensorial.

No Brasil, uma garrafa do Blue Label Ghost & Rare Port Ellen tem preço sugerido de R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais). É bastante dinheiro, em valores absolutos. Mas é também uma rara oportunidade de se provar um blend de qualidade sensorial excelente, produzido com um dos maltes mais raros de toda Escócia. Praticamente uma joia líquida. E se eu fosse você, experimentaria. Antes que ele misteriosamente desapareça.

JOHNNIE WALKER BLUE LABEL GHOST & RARE PORT ELLEN

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 43,8%

Notas de prova:

Aroma: Mel, frutas vermelhas, pimenta do reino.

Sabor: frutas vermelhas, caramelo, baunilha. Final progressivamente enfumaçado e seco, com baunilha e pimenta do reino.

Preço Médio: R$ 1500,00 (mil e quinhentos reais)

*grain distilleries são destilarias que produzem whisky de grão, que utilizam principalmente cereais não maltados (e uma pequena proporção de cevada maltada). A destilação ocorre, na maioria das vezes, em um destilador contínuo, e não em alambiques de cobre, como seria com um single malt. Sensorialmente, grain whiskies são menos oleosos, e geralmente – por terem seu new-make mais neutro – deixam o caráter do barril bastante claro. São usados, essencialmente, para conferir drinkability a blends, ainda que haja alguns single grains excepcionais no mercado internacional.

Jura The Road – Drops

Jura é uma ilha curiosa. Curiosamente pouco populosa. A ilha – uma das maiores das Hébridas Internas, com mais de trezentos e sessenta e sete quilômetros quadrados – já contou com uma população superior a mil habitantes. Porém, atualmente, a ilha abriga em torno de duzentos habitantes. O que dá, numa conta bem porca, dá uma pessoa a cada dois quilômetros.

Por conta de sua diminuta população, a ilha possui apenas um hotel e uma única igreja. Além disso, sua malha viária não é exatamente extensa. Há somente uma estada, a A846. Ou melhor, metade de uma. Porque a A846 continua em Islay, ilha vizinha a Jura.

Jura, assim, conta apenas com o essencial. Mas o essencial na Escócia, claro, inclui uma destilaria. A Island of Jura, que recentemente lançou uma nova linha de expressões para o mercado de duty free. Seus rótulos homenageiam pontos geográficos importantes de sua ilha natal. E, naturalmente, a A846 não ficou de fora, com o Jura The Road (A Estrada).

O portfólio de travel retail

De acordo com a destilaria “Em Jura, há apenas uma estrada para se dirigir. Ela emerge da região selvagem ao norte, e acompanha a linha da costa em sua jornada sinuosa ao sul, até chegar à destilaria. É uma rara peça feita pelo homem em nossa paisagem indomada, e é tudo que precisamos. Aqui, mantemos as coisas simples. Preferimos deixar a complexidade para o nosso whisky

A maturação do Jura The Road acontece em barricas de ex-bourbon de carvalho americano, e é finalizado por um prazo não declarado em barris que antes contiveram vinho jerez PX de vinte anos. Sensorialmente, é um whisky de corpo médio, delicado, e com um final vínico discreto. É um whisky equilibrado e muito agradável.

Apesar de não estar à venda no Brasil, para os viajantes, não é difícil conseguir uma garrafa do Jura The Road. O single malt está à venda nos duty-free de aeroportos internacionais brasileiros, e custa US$ 82,00 (oitenta e dois dólares). E vá por mim – ele será a experiência mais próxima da jornada pela única estrada de Jura, e você nem precisa sair do lugar.

JURA THE ROAD

Tipo: Single Malt sem idade declarada

Destilaria: Jura

País/Região: Islands – Hebrides

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com canela e vinho fortificado.

Sabor: frutado, com vinho fortificado e gengibre. O final é progressivamente vínico e lembra passas.

Com água: A água o torna mais adocicado e menos vínico.

Preço: US$ 82,00

FEW Bourbon Whiskey – (um pouco mais do que um) Drops.

Lynchburg, Tennessee. Clermont, Kentucky. Quase qualquer apaixonado por whiskeys relacionará, rapidamente, estes lugares à sua bebida favorita. Afinal, lá estão as destilarias das mundialmente famosas Jack Daniel’s e Jim Beam, respectivamente.

Mas mesmo se você for um entusiasta do destilado norte-americano, é bem provável que nunca tenha ouvido falar em Evanston, Illinois. Bem, mesmo porque não havia nada de extraordinário em Evanston, Illinois, até 2011. Quer dizer, exceto uma curiosa história sobre a lei-seca norte americana.

É que a cidade foi um dos berços do movimento de temperança americano, que, mais tarde, culminou no nobre experimento. A Woman’s Christian Temperance Union – WCTU (algo como a União de Temperança Cristã) teve como sua segunda líder Frances E. Willard, nascida em Evanston. Foi sob sua tutela, a partir de 1879, que o movimento ganhou força, até conseguir, finalmente, que a lei seca fosse adotada nacionalmente. Além disso, depois de sua morte, sua casa se tornou a sede da WCTU.

Mas antes disso, Evanston já era uma cidade seca. Em 1855 a cidade inaugurou a Northwestern University. Ao recepcionar seus primeiros alunos, a instituição peticionou ao Estado que determinasse um raio de 4 milhas a partir de seu centro, onde seria proibida a venda e consumo de bebidas alcoólicas. “nenhuma bebida espirituosa, vínica ou outros fermentados alcoólicos devem ser vendidos sob licença, ou de outra forma, dentro de 4 milhas do local da referida Universidade (…) sob pena de vinte e cinco dólares por cada ofensa” – dizia a lei.

Por conta de toda essa história, é muito estranho que Evanston tenha sido escolhida para sediar uma das mais importantes destilarias artesanais dos Estados Unidos. Mas foi justamente o que aconteceu. A FEW foi fundada em 2011 por Paul Hletko, um ex advogado especializado em propriedade intelectual. Atualmente, além de bourbon, a destilaria produz um rye whiskey, um single malt e três diferentes gins.

Paul Hletko, pensando o que destilar em seguida.

De acordo com Hletko, em entrevista concedida ao site Popular Mechanics, “fazemos destilados de grãos porque estamos no celeiro do país “, e continua “Somos capazes de obter nosso milho, trigo e centeio regionalmente, em grande parte de cooperativas.”

E que grãos. O FEW Bourbon é composto 70% de milho, 20% de centeio e 10% de cevada maltada de duas fileiras – algo relativamente incomum no mundo do whisky, mas que faz sentido para Hletko. Aquela cevada é produzida localmente. Sensorialmente, e apesar da alta proporção de milho, o FEW é um bourbon relativamente seco e apimentado, graças ao percentual de centeio utilizado em sua mashbill.

A maturação do FEW Bourbon acontece em barris de carvalho americano virgens comprados de uma tanoaria na Minnesota. “Como a estação de cultivo livre de gelo é mais curta lá, os grãos mais firmes da madeira produzem um melhor equilíbrio de pimenta e baunilha e tornam os taninos mais intensos.“, explica Paul.

Infelizmente, o FEW Bourbon não chega ao Brasil. Mas é uma demonstração clara de um movimento crescente na indústria de whisky. A produção de destilados de excelente qualidade, em micro destilarias, com métodos inovadores e atenção especial a todos os detalhes. É uma bebida focada em um grupo de consumidores que busca não apenas um produto sensorialmente agradável – mas que tenha um diferencial, seja em sua produção ou história.

E quanto mais improvável a história – como a da FEW, aliás – melhor.

FEW BOURBON WHISKEY

Tipo – Bourbon Whiskey

ABV – 46,5%

Região: N/A – Evanston, Illinois

País: Estados Unidos

Notas de prova

Aroma: caramelo, malte, especiarias, canela.

Sabor: Caramelo, pimenta do reino. Há um sabor bem interessante de cravo e canela, que complementam o adocicado do whiskey. Final longo e floral.

Com água: A água torna o whiskey menos apimentado e mais seco.

Scofflaw Cocktail – Neologismo

Neologismo. A criatividade humana aplicada à linguagem. O berço de palavras, para suprir necessidades ou lacunas. A prova de que a língua não é pétrea ou falecida, mas fluida e viva – em constante mudança.

Se você acha que escrevi algo abobado, então dê uma googlada. Eles são onipresentes. O drone comprado no camelódromo. A foto photoshopada da blogueira. O computadorês, aliás, é campeão – deletar, resetar, escanear e (um preferido meu) boostar. Com dois “ós”, por favor, e sem me trollar, porque com um só, é outra coisa.

Mas a coquetelaria não fica muito para trás. Coquetel mesmo, a palavra, já foi um neologismo. Ela deriva do inglês cocktail, que, por sua vez, pode ter vindo da corruptela de uma palavra creole – cockley. Ou de uma história bizarra envolvendo gengibre e o derrière (esse nao é um neologismo) de mamíferos de grande porte. Ninguém sabe ao certo.

Outro neologismo na coquetelaria – mas em inglês – foi Scofflaw, que pouco tempo depois virou um drink. A palavra, que significa “zomba-lei” era usado para descrever justamente o público alvo do coquetel. Os homens que desafiavam a lei seca e bebiam. A palavra ganhou um concurso promovido por Delcevare King, para criar o termo que descrevesse este perigoso criminoso e incutir consciência nas pessoas de bem.

Que absurdo

Mais tarde – e maravilhosamente, em minha singela opinião – o nome foi usado de uma forma irônica para batizar um drink. Que curiosamente não foi inventado nos Estados Unidos, ainda que tenha sido cunhado em 1924, durante a Lei-Seca. Ele é apenas uma homenagem àqueles valentes – e abastados – bebedores, dispostos a atravessar um oceano para satisfazer sua lascívia etílica. Seu criador foi um certo Jock, do Harry’s Bar New York, localizado em Paris. E não Nova Iorque, apesar do sugestivo nome do estabelecimento.

A receita original do Scofflaw pede 1/3 whiskey de centeio, 1/3 vermute frances, 1/6 suco de limão e 1/6 grenadine. Este Cão, porém, talvez prefira a versão adaptada de Gary Regan, que coloca o Rye Whiskey em evidência, em proporção semelhante à do Manhattan.

Assim, caros leitores, aí vai a receita de mais uma maravilhosa mistura criada durante o Nobre Experimento. Retirem seus tábletes – outro neologismo, ou talvez estrangeirismo que define estes instrumentos tão inúteis quanto fascinantes – do armário e tomem nota. O Scofflaw.

SCOFFLAW COCKTAIL

(receita de Gary Regan)

INGREDIENTES

  • 60ml Bourbon ou Rye Whiskey
  • 30ml Vermute seco
  • 7,5ml suco de limão siciliano
  • 15ml grenadine
  • 2 dashes orange bitters (no Brasil, a opção mais fácil é Angostura Orange)
  • parafernália para bater
  • taça coupé

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em uma coqueteleira com gelo. Chacoalhe com força.
  2. Desça o conteúdo em uma taça coupé, coando com um strainer.

Obs – Se você ainda assim achar o coquetel doce, experimente reduzir o grenadine e elevar o limão siciliano. Este Cão recomenda 15ml de limão siciliano para 10ml de grenadine, mantendo-se as mesmas medidas de vermute, whiskey e bitters.