White Walker by Johnnie Walker – Whisky Geeking

Sempre fui um pouco nerd. Um pouco não. Acho que bastante. Durante a adolescência, jogava Dungeons & Dragons – e, como vocês sabem, quem joga Dungeons & Dragons não faz muita coisa além de jogar Dungeons & Dragons. Era apaixonado por Senhor dos Anéis e achava um absurdo terem aumentado a participação da Arwen no filme. E também gostava de Lovecraft, a ponto de ter um Ctulhuizinho de miniatura.

Mas preciso confessar um negócio. Nunca assisti Game of Thrones. É, eu sei, a série é incrível e está cheia de criaturas assustadoras, como dragões, monstros de gelo e pré adolescentes chatos. Gente bebendo o tempo todo e gente que ainda não sabe nada. E quando você menos espera, eles vão lá e matam todo mundo que tem algum relacionamento com o Sean Bean, inclusive o Sean Bean. Mas vamos parar com isso antes que eu dê algum spoiler.

Não é desinteresse. É uma certa inércia. E um costume meio esquisito da minha parte. Prefiro ver séries que já acabaram. Quando a última temporada de Breaking Bad foi anunciada, por exemplo, corri como um louco para ver todas as anteriores. Aliás, talvez, agora, comece minha maratona de Game of Thrones.

Mesmo porque tenho um motivo para isso. Um motivo que vêm do mundo do whisky. O White Walker by Johnnie Walker, que acaba de chegar ao Brasil. É uma edição limitada especial que foi lançada em homenagem à ultima temporada da série. O que é bem óbvio, já que a garrafa beiraria o indesculpavelmente brega, se não tivesse um bom pretexto.

De acordo com a marca, o White Walker by Johnnie Walker foi criado especialmente para ser bebido bem gelado. Segundo eles, à medida que a temperatura vai se elevando, o whisky ganha complexidade. Suas notas seriam de frutas vermelhas e frescas, bem como açúcar caramelizado e baunilha. A garrafa, inclusive, utiliza tinta termocrômica, e revela uma imagem especial se submetida a temperaturas baixas – até aqui, sem spoilers.

Os maltes base do White Walker by Johnnie Walker são Clynelish e Cardhu. Mas há, claro, outros whiskies, inclusive o de grão. De acordo com George Harper, o blender por trás da criação, “O ponto de partida para a criação deste blend foi o Norte Congelado. Os uísques da Clynelish suportaram longos invernos escoceses, não muito diferentes dos longos períodos enfrentados pela Patrulha da Noite – então foi o lugar perfeito para começar ao elaborar este uísque exclusivo”.

Há outra curiosidade para os apaixonados pela série. De acordo com Nicola Pietroluongo, embaixador Diageo Reserve no Brasil, a graduação alcoólica do whisky é um easter egg etílico. 41,7%. O número 1 representa o trono de ferro, único, que é disputado pelas sete casas – o 0,7% adicional.

Mas o White Walker by Johnnie Walker não é o único whisky ligado a Game of Thrones. Ele faz parte de um conjunto de lançamentos da Diageo que possuem alguma relação com a série. Há também uma coleção de single malts, que homenageiam as casas de Game of Thrones. Como, por exemplo, um Lagavulin com o brasão dos Lannister, e um Clynelish da House Tyrell.

A coleção

Ao contrário do que acontece com séries televisivas, logo que o White Walker by Johnnie Walker chegou às lojas, tratei de comprar uma garrafa. Fiquei um pouco desconcertado ao fazer a prova do whisky gelado – o que atrapalha bem na análise sensorial, já que a temperatura baixa torna as papilas gustativas menos sensíveis. Mas imaginei que, bem, se ele foi desenhado para essa experiência, nada mais justo do que seguir a recomendação do produtor. Depois, o provei também em temperatura ambiente. E aí está a surpresa.

Em temperatura ambiente, o White Walker by Johnnie Walker é um whisky simples e acessível. Ele é predominantemente frutado, e quase não há a fumaça característica da maioria dos blends da casa Walker. Ele lembra um Gold Label Reserve – mas, como é de se esperar, é um pouco menos complexo e com álcool um pouco mais aparente. Honesto. Mas é gelado que o blend mostra suas credenciais. Ele ganha corpo, a agressividade do álcool desaparece e o dulçor se equilibra.

É contra-intuitivo, mas faz sentido. E é proposital. A temperatura atenua sim nossa percepção de sabores. Mas ela também altera como sentimos o amargo e o adocicado. Quando bebemos algo gelado, o amargo se acentua, e o doce fica mais discreto. E é justamente o que acontece com o White Walker by Johnnie Walker. Um dulçor que pode parecer exagerado à temperatura normal, fica elegantemente equilibrado quando gelado.

Mas vamos parar com o whisky-geeking, porque nada disso realmente importa.  O sabor é quase conjuntural. Poucas coisas são tão irresistíveis quanto um whisky baseado em uma das séries televisivas mais famosas de todos os tempos. Ainda mais um com uma garrafa que muda de cor, quando gelada. Assim, meus caros leitores, não deixem de experimentar o White Walker by Johnnie Walker. E, se me permitem o conselho, façam isso logo. Nem que seja para dar spoilers para seus conhecidos.

WHITE WALKER BY JOHNNIE WALKER

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 41,7%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com açúcar refinado. A temperatura ambiente, o álcool fica relativamente evidente.

Sabor: Frutas vermelhas, baunilha, balinha de caramelo. Corpo leve. Final adocicado, com baunilha e um pouco alcoólico.

Disponibilidade: disponível no Brasil – R$ 110,00, em média.

Drops – Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish (Pinot Noir)

A prática leva à perfeição. Na verdade, nem sempre. Mas, talvez, na indústria do whiskey, isso seja verdade.  Ancorada em métodos tradicionais de produção, leveduras cuidadosamente armazenadas e cultivadas e barricas virgens de carvalho americano, o bourbon whiskey possui um sabor característico, quase temático. Caramelo, baunilha, mel. Um tema que, sinceramente, não precisa de nada a mais para ser um sucesso.

Mas isso não significa que, de vez em quando, alguma inovação ou atipicidade surja. É o caso, por exemplo do Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish, ou – pelo seu nome completo – Woodford Reserve Master’s Collection Sonoma Cutrer Finish Pinot Noir. Como a pomposa e extensa denominação sugere, um bourbon whiskey finalizado em barricas de vinho tinto da uva Pinot Noir.

O website oficial da Woodford Reseve já diz quase tudo que precisamos saber sobre essa maravilha. Transcrevo. “A cada ano, o master distiller da Brown-Forman, Chris Morris, lança uma edição especial da Woodford Reserve chamada Master’s Collection. Para cada lançamento, Morris muda algum aspecto do processo produtivo do whiskey (p.e. tipo de barril, finalização, grão, processo de fermentação, local de maturação e estilo). E em novembro veremos o nono lançamento da Master’s Collection

Para o lançamento de 2014, Woodford Reserve totalmente maturado e sem diluição (cask strength) foi transferido para barricas de carvalho francês que antes contiveram vinho tinto Pinot Noir da Sonoma-Cutrer (detida pela Brown Forman), onde ele passou outros dez meses. As barricas de vinho viram três vintages (safras do vinho) antes de serem preenchidas com bourbon. Uma vez que o processo de finalização foi completado, o produto final foi engarrafado a 90 proof (o mesmo que Woodford Reserve). Um total de 36.334 garrafas foram produzidas para este lançamento.”

O vinho

Ainda que haja outros bourbons finalizados em barricas de vinho – caso do Angel’s Envy, por exemplo – este é um diferencial bastante interessante do Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish. Porém, não é o único. A destilaria em si possui algumas características bastante atípicas. Como já foi mencionado por aqui, seu processo produtivo é bem incomum. A começar pela fermentação, que ocorre em pequenos washbacks de cipreste, e leva em torno de seis dias (dois dias a mais do que a maioria das destilarias). A graduação do mosto fermentado também é bem alta: 11%.

A composição do mosto do Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish é idêntica àquela do Woodford Reserve tradicional: 72% de milho, 18% de centeio e 10% de cevada maltada. Essa composição, aliada à tripla destilação que acontece em alambiques de cobre na Woodford Reserve e a finalização nas barricas de vinho, trazem ao Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish um sabor de mel, caramelo e açucar mascavo, entremeado por um delicioso frutado cítrico. O vinho pode ser claramente notado e é quase proeminente na finalização.

Aliás, falando em destilação, aqui está um diferencial importante da linha Master’s Collection da Woodford Reserve. Os Woodford tradicionais – Distiller’s Select – são uma combinação de destilado produzido nos alambiques (triplamente destilado) e destilado produzido em destiladores contínuos, de coluna, na planta da Brown-Forman, localizada em Louisville, Kentucky. Os Master’s Collection, no entanto – e em sua maioria – utilizam apenas a porção do destilado produzido em alambiques.

Se você é fã de bourbons, mas procura um whiskey um pouco diferente, mas sem fugir muito deste delicioso tema, o Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish Pinot Noir é uma ótima escolha. Porque claro, a prática realmente leva à perfeição. Mas às vezes, para chegar lá, é preciso antes inovar.

WOODFORD RESERVE SONOMA CUTRER FINISH PINOT NOIR (MASTER’S COLLECTION)

Tipo: Bourbon

Marca: Woodford Reserve

Região: N/A

ABV: 45,2%

Notas de prova:

Aroma: Caramelo. Açúcar mascavo, frutas vermelhas.

Sabor: Açúcar mascavo, com frutas vermelhas – amoras, framboesa. Final longo, adocicado e progressivamente mais frutado.

Disponibilidade: lojas internacionais

Presentes para quem ama whisky – Ed. 2018

Natal é sempre um problema. Correria para encontrar as pessoas, comprar presentes. Pensar em todo mundo, sem esquecer ninguém. Pensar no que cada uma dessas pessoas gostaria de ganhar. O que elas precisam, ou o que não precisam e querem, mas não tem coragem de comprar.

Alguns são bem fáceis. A Cãzinha, por exemplo. A Cãzinha adora uma certa série de filmes de ficção científica. Então, qualquer coisa daquela franquia funciona. Já a Cã é mais complicada, porque eu nunca sei o que ela quer, e quando ela me dá uma dica, eu não percebo.

Por conta da minha parca capacidade de captar sinais  – e de forma a evitar surpresas menos agradáveis – decidi utilizar a mesma técnica do ano passado. Perguntei a ela o que ela queria ganhar. Só que dessa vez ela disse que não sabia, e replicou. E qual whisky você quer ganhar?

Qual whisky. Não qual presente. Senti que estávamos progredindo. Depois de mais de dez anos, somando o matrimônio ao namoro, ela finalmente havia compreendido duas coisas. Que sou um ser totalmente desprovido de inteligência emocional. E que eu sempre quero receber mesmo um whisky.

Sorri, mas me senti acuado. Não sabia qual whisky queria. E outra, esse ano, nem sabia se queria mesmo um whisky, ou algum presente relacionado. Mas se quisesse algo que não fosse a bebida, talvez indicasse um retrocesso. Então pedi um Laphroaig 10 anos.

Mas aí pensei que muita gente poderia ter esse mesmo problema da Cã. E, por conta disso, resolvi elaborar uma lista de presentes que agradarão a maioria dos monomaníacos por whisky como eu. Com a vantagem de que, por conta dela, o presenteador nem precisará perguntar ao presenteado antes. Vamos a eles.

Tuaq Ice

Para os apaixonados por coquetelaria, ou que preferem beber whisky gelado, a qualidade do gelo é – ou deveria ser – muito importante. Quanto mais cristalino (ou seja, quanto menos ar houver em seu interior), mais vagarosamente e uniformemente ele se diluirá.

A proposta do Tuaq é justamente a de produzir, em casa, o gelo mais cristalino possível. Ele é uma prensa capaz de moldar gelos de diferentes formatos, como diamante e caveira. Além, claro, do tradicional gelo esférico.Mas a parte mais legal é que graças a uma forma de gelo patenteada por eles e batizada de Anuaq, o gelo moldado pelo Tuaq é absolutamente cristalino.

Se você ficou interessado, o Tuaq pode ser adquirido clicando aqui. E graças a uma parceria entre a Tuaq e este infame blog canino, você, querido leitor, tem 10% de desconto. Basta inserir o código CAOENGARRAFADO no campo ao finalizar a compra.

Dadiva EAP Bluberry Bourbon Barrel Aged

Se seu apaixonado por whiskies também admira uma bela cerveja, talvez a Dadiva EAP Bluberry Bourbon Barrel Aged seja o presente perfeito. É uma garrafa de 750ml de uma imperial porter, com 10,3% de graduação alcoólica. Sua receita leva nibs de cacau, aveia e Blueberry. Os aromas e sabores apresentam notas de frutas escuras, chocolate, café leve adocicado.

A Dadiva EAP Bluberry Bourbon Barrel Aged descansou por 8 (oito) meses em barricas de bourbon whiskey, antes de ser engarrafada. Isto lhe trouxe também notas de baunilha, caramelo e coco. Para comprar, visite o Empório Alto dos Pinheiros, ou (cidade de São Paulo) clique aqui

Glencairn Glass do Cão Engarrafado (com tampa)

O Glencairn Glass permite apreciar todos os sabores e aromas do whisky. Ele não ressalta qualquer característica específica, mas potencializa o conjunto de elementos que formam a bebida. Eles são excelentes para qualquer single malt, blended whisky, irish whisky ou mesmo bourbon. Suas bordas estreitas concentram os aromas, e permitem perceber todas as nuances do whisky. E a pequena tampa – além de dar um toque sofisticado – funciona para preservar por mais tempo as características sensoriais das doses nele colocadas.

Hoje, o Glencairn Glass pode ser encontrado em praticamente todas as destilarias da Escócia, Irlanda e Gales, além de boa parte dos Estados Unidos. E na sua casa. É que o Cão Engarrafado, em parceria com a Single Malt Brasil, trouxe uma edição limitada deste belíssimo vasilhame, gravado com a – um tanto singela – logomarca do Cão Engarrafado, e com a tampinha especial. Para comprar, clique aqui.

Backer Três Lobos Single Malt

Se você acha que whisky nacional é ruim, melhor reconsiderar seus conceitos. Porque a cervejaria Backer, de Minas Gerais, lançou em 2018 seu  Backer Três Lobos Single Malt – também conhecido como Experience. É um whisky produzido à moda dos single malts escoceses, em alambiques de cobre especialmente encomendados pela cervejaria para o whisky.

A maturação do whisky acontece em barricas de carvalho americano que antes contiveram o whiskey JIm Beam. O Três Lobos Single Malt remonta um jovem single malt de speyside ou highlands. O aroma é frutado e adocicado, com baunilha. O sabor remete a compota de frutas, com caramelo, canela e um final de especiarias e cereais.

Para comprar pelo site oficial da Backer clique aqui. Se preferir, ele também está à venda na loja física do Empório Alto dos Pinheiros, em São Paulo.

Gim Botanist – Bruichladdich

A Bruichladdich, localizada em Islay, é uma das destilarias mais inventivas de toda Escócia. Isso fica claro ao observarmos seu enorme portfólio, que conta com três linhas de whisky. Uma é razoavelmente defumada (Port Charlotte), outra, sem nenhuma defumação (Bruichladdich) e uma terceira absurdamente defumada (Octomore). E além delas, a Bruichladdich também produz um gim. O Botanist.

A destilação do Botanist acontece em um incomum alambique – que fora recuperado da destilaria Inverleven – e conhecido como Lomond, e carinhosamente apelidado pelos funcionários da destilaria de “Ugly Bett” (Bete, a Feia). O Botanist leva 31 botânicos diferentes, sendo 22 deles nativos da ilha de Islay. É um gim cítrico e floral, com sabor acentuado e perfeito para gim tônicas e Dry Martinis. Para comprar, clique aqui.

 

Ballantine’s Finest – Procrastinação

Se você é um novo leitor do Cão Engarrafado, ou chegou aqui pela primeira vez por meio de alguma ferramenta de busca, talvez não saiba. Então, vou contar novamente. Sou advogado. Trabalhei por uma boa década no mundo corporativo. Minha especialidade era mercado de capitais. Uma área que proporciona oportunidades incríveis para seus profissionais. Como, por exemplo, assistir o  crepúsculo e aurora pela janela de sua sala, enquanto revê duzentas páginas de um prospecto de uma emissão primária de ações de alguma companhia de maçãs.

Quase tudo em mercado de capitais demorava bastante, mas deveria ser feito muito rapidamente. O que levava a intermináveis jornadas de trabalho, noites em claro e todo tipo de delivery. Mas duas das atividades mais infernais e intermináveis eram conhecidas como Back-up e Circle-up. Para evitar que você, querido leitor, morra de tédio, explicarei apenas brevemente. Back-up e Circle-up eram normalmente realizados simultaneamente, por um único advogado, e consistiam em circular, manualmente, todas as informações que deveriam mais tarde ser confirmadas, e numerá-las. De um a mil novecentos e alguma coisa, num documento de quase trezentas páginas. Duas vezes, uma pra cada.

Quando abandonei o mercado de capitais, voltei a contemplar o prazer de uma noite de sono. Mas não sem danos colaterais. No começo, sonhava com um prospecto infinito de folhas tremulando ao vento, e na tinta de minha débil caneta que se esvaía no ar, tão logo concluía a numeração de certa página. Uma risada macabra vindo da pilha de copinhos descartáveis de café completava a angustiante atmosfera de minha ficção noturna.

Expectativa e…

Por conta da natureza e do volume de trabalho, e de minha – assumo – imaturidade profissional, havia apenas uma atividade que me consumia mais tempo do que o back-up e circle-up. A procrastinação. Tudo era motivo. Um e-mail promocional de alguma loja de bebidas, um clipe de musica no youtube ou até mesmo alguma frivolidade nas redes sociais. Aquilo era uma auto-sabotagem, mas, ao mesmo tempo, uma válvula de escape. Tudo que eu não queria fazer, fazia nos intervalos entre procrastinações.

Lembrei dessa minha característica ao resolver que faria a prova de um whisky bastante pedido pelos leitores do Cão Engarrafado. O Ballantine’s Finest. Assumo que levei bons dias para escrevê-la, e entremeei  o tempo dedicado a ela de todo tipo de atividade inútil, dezenas de cafés e centenas de visitas à geladeira. Durante esse tempo, pensava o que poderia escrever sobre ele, porque, para falar a verdade, aquele era como muitos whiskies para mim. Agradável, simples, equilibrado e bem pouco interessante. Talvez por isso tenha produzido cinco parágrafos de introdução.

Pois bem, sem mais procrastinações. O Ballantine’s Finest é o blended scotch whisky de entrada da marca, que atualmente pertence à Pernod Ricard. No Brasil, além dele, há mais quatro expressões, todas com idade declarada: 12, 17, 21 e 30 anos. E ainda que a composição – e obviamente o envelhecimento – de cada rótulo seja diferente, todos giram em torno de um mesmo tema. Um certo adocicado, bastante suave, com mel e caramelo. Mas há diferenças. A expressão de dezessete anos é mais enfumaçada, enquanto o de três décadas, mais profunda e amarga.

Os single malts que compõe o coração do Ballantine’s Finest são Miltonduff, Glentauchers e Glenburgie – essa última, seu lar espiritual. Recentemente, a Pernod-Ricard lançou uma linha de single malts, também denominada Ballantine’s, contendo estes whiskies. A ideia da marca é ressaltar e levar os componentes mais proeminantes de seu blend ao conhecimento do público. Algo semelhante àquilo que a Diageo fez com sua linha de Singletons.

Durante toda sua existência, a Ballantine’s teve apenas cinco diferentes master blenders, responsáveis por elaborar seus whiskies, bem como zelar por sua qualidade e consistência. O atual é Sandy Hyslop, um homem com mais de trinta anos de experiência no ramo. Boa parte do sucesso da Ballantine’s, especialmente em mercados emergenetes, é de Sandy. São dele criações como o Ballantine’s Brasil, Ballantine’s Hard Fired e o exclusivo Ballantine’s 40 anos.

…Realidade.

O Ballantine’s Finest é a expressão mais vendida da família Ballantines. Que, atualmente, é uma das marcas de blended scoth whisky mais vendidas no mundo. Seus maiores mercados estão na Ásia e América Latina, ainda que o whisky possua uma boa popularidade também na Europa.

Se você procura um blended whisky despretensioso, agradável, versátil e com preço de combate, o Ballantine’s Finest talvez seja sua escolha natural.  É um whisky versátil, relativamente barato, pouco agressivo e adocicado. Comparado a outras expressões em sua faixa de preço, ele entrega até mais do que promete. Além disso, funciona bem em coquetéis simples, e é bastante agradável com gelo. É praticamente perfeito em todas as situações em que se é socialmente aceitável beber.

E antes que você me pergunte, não, procrastinar enquanto trabalha não é uma delas.

BALLANTINE’S FINEST

Tipo: Blended Whisky sem idade declarada (NAS)

Marca: Ballantine’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, mel, caramelo.

Sabor: Adocicado no início e maltado. Cereais, mel, um pouco de baunilha. Final médio e doce.

 Preço: em torno de R$ 90,00 (noventa reais)

 

Josefel Zanatás – Cãoquetel

Foto: Elvis Fernandes

Hoje vou contar para vocês a história de um homem fictício singular. Um homem cético, desiludido e traumatizado. E também dono de um duvidoso gosto por vestuário e questionável higiene pessoal. Seu nome é Josefel Zanatás – uma alusão ao amargor do fel, combinada com o nome do tinhoso, escrito do avesso.

Josefel usa terno, capa e cartola. Possui unhas compridas e é obstinado a encontrar a mulher perfeita para gerar, em seu ventre, o mais primoroso filho. O que, pra falar a verdade, com o visual que Josefel possui, é uma tarefa fadada ao fracasso. Josefel não é um homem real. Mas é o nome real do pseudônimo – é, eu sei, é complicado assim mesmo – de José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão.

Marins nasceu em 1936, e criou Josefel em 1963, quando já era cineasta pprofissional. Segundo ele, a ideia de criar o coveiro mais famoso do cinema nacional partiu de um sonho esquisito que teve, e que envolvia sua morte. Quando acordou, ainda lembrava da fantasia, e a utilizou para o primeiro filme de Zé do Caixão. O famoso À Meia Noite Levarei sua Alma.  “Eu fui achando um nome: Josefel – ‘fel’ por ser amargo – e achei também o Zanatas legal, porque de trás para frente dava Satanás” – conta ele.

Positivo, ficou legal!

O amargo Zé do Caixão fez grande sucesso na década de setenta, e ganhou fãs não apenas no Brasil, como também no exterior. Um deles é o cineasta Darren Aronofsky. E apesar dos mais de quarenta anos de criação, o personagem não foi olvidado. Prova disso é a homenagem feita a ele por Marco de La Roche, bartender responsável pela nova carta de drinks do Bar Riviera, um dos mais antigos de São Paulo.

Aliás, a nova carta do Riviera tem como tema as décadas de vida do bar. Desde os anos 50, quando funcionava como casa de Chá, até nossa época atual, os drinks fazem referência a momentos históricos e personagens importantes da história do bar, de São Paulo e do Brasil. “Para celebrar os 70 anos do Riviera, o Marco criou uma carta que passa por todas as décadas, desde a existência do bar, com drinks que não só pelo sabor, contextualizam cada período não só do Riviera, mas dá história do Brasil.

Marco, orgulhoso da criação.

Josefel leva o bourbon whiskey Evan Williams, tequila El Jimador Prata, vermute Carpano Classico, Fernet, Cynar, Angostura e solução marinha. Algo que me chamou a atenção foi a divisão da base do drink entre tequila e bourbon. Conforme Marco “na construção primária do coquetel, não pensei em ingredientes, mas expectativa de sabor. E para esse coquetel, tinha expectativa amadeirada e defumada. E o amadeirado veio do bourbon, enquanto o defumado, da tequila, do agave

Na carta, pode-se ler um pequeno texto, que conta a inspiração para o coquetel. “Período mais amargo da história do Riviera, assim como a década: nebulosa e cheia de fel. Um dos seus clientes mais cults da época se chamava José Mojica Marins, o célebre diretor de “O Zé do Caixão”, que carregava na sua certidão de nascimento o nome de Josefel Zanatas, ou também, Joséfel Satanás. A receita leva gotas de solução marinha – ou as lágrimas dos que atravessaram os mares –, brinca com os demônios dentro de nós e só deve ser bebida por aqueles que estão preparados para terem sua alma levada à meia noite.

Assim, queridos e tenebrosos leitores, nesta data, coloquem suas cartolas sobre a mesa, aparem as unhas e preparem-se para um coquetel amargo como apenas a existência pode ser. Com vocês, o terrível – no bom sentido, claro – Josefel Zanatás.

JOSEFEL ZANATAS

INGREDIENTES

  • 25ml Evan Williams Bourbon
  • 25 ml tequila (Marco usou El Jimador Prata)
  • 25ml (Marco usou Carpano Classico)
  • 25ml Fernet
  • 25ml Cynar
  • 3 dashes de angostura
  • 3 gotas de solução marinha (15 ml de sal para 100 ml de água, ao produzir).
  • azeitona
  • Parafernália de sempre para mexer
  • taça coupé
  • gelo

PREPARO

  1. Em um mixing glass, adicione gelo e todos os ingredientes e mexa bem
  2. verta para uma taça coupé previamente gelada
  3. finalize com azeitona espetada no palito.

 

Drops – Mortlach 16 Flora & Fauna

Alguns whiskies são bons. Outros são muito bons. Alguns, excelentes. Mas há poucos que são tão formidáveis que conseguem retirar da obscuridade sua destilaria, outrora quase negligenciada – ou melhor, subvalorizada – e torná-la uma das mais desejadas entre os apreciadores e engarrafadores independentes. Este é o caso do Mortlach Flora & Fauna, um despretensioso rótulo lançado pela Diageo há algumas décadas.

A linha Flora & Fauna da Diageo tem como objetivo colocar em foco as destilarias menos conhecidas de seu enorme portfólio, e dar a chance ao público de provar, como single malts, muitos dos whiskies utilizados em sua seleção de blended whiskies. Ao longo dos anos, foram vinte e seis rótulos diferentes. A série contou com destilarias hoje bem conhecidas, como Caol Ila e Clynelish. E até mesmo destilarias que atualmente não fazem mais parte do cluster da Diageo participaram, como Aultmore – hoje, pertencente à Bacardi.

Dentre estes vinte e seis rótulos, porém, um dos mais bem recebidos foi o Mortlach 16 anos Flora & Fauna. Maturado principalmente em barricas de ex vinho jerez espanhol, e com um caráter oleoso e sulfúrico, a expressão tirou a Mortlach da quase obscuridade. Por conta do sucesso, a própria Diageo lançou, em meados de 2014, um conjunto de rótulos próprios de Mortlach. Mas talvez o Flora & Fauna tenha elevado demais as expectativas, porque as garrafas da série oficial nunca alcançaram grande sucesso. Engarrafadores independentes – como a Gordon & McPhail – porém, têm lançado rótulos incríveis da destilaria.

Como o singelo Mortlach Generations, de 75 anos de idade.

Diz-se que os Mortlach são 2,81 vezes destilados. Não é um processo muito fácil de ser explicado, mas deixe-me tentar. Se não tiver interesse em ler esta torturante descrição do processo de destilação da Mortlach, pule três parágrafos. Ou esmere-se com minha capacidade de tornar qualquer assunto empolgante extremamente enfadonho.

Vamos começar com a parte fácil. A Mortlach possui três alambiques de primeira destilação (conhecidos como wash stills) e três de segunda (spirit stills). O wash – o mosto fermentado, proveniente dos washbacks – é dividido igualmente e carregado nos três wash stills. Os low wines – o resultado da primeira destilação – do wash still no. 3 é carregado normalmente no spirit still de no. 3, e destilado. Cabeça e cauda são cortados, e temos o white dog do par de alambiques de número 3.  Até aí, nada fora do normal.

O problema é a dança das cadeiras dos dois primeiros alambiques de primeira e segunda destilações. Os low wines dos alambiques de número 1 e 2 são divididos em duas partes desiguais. Os primeiros 80%  dos low wines da primeira destilação são carregadosno spirit still de número 2. Os 20% restantes (compostos principalmente de cauda) são colocados no spirit still de número 1, conhecido como “The Wee Witchie” – em português, a Bruxinha Pequenininha, o que prova que muitas palavras realmente perdem toda a mágica quando traduzidas.

E tem mesmo uma bruxinha (fonte: misswhisky.com)

Essses 20% de cauda são então destilados três vezes, e somente seu coração é coletado e aproveitado. Ele é então misturado com o new-make spirit dos demais alambiques de segunda destilação. Por conta desse processo maluco, e fazendo uma conta igualmente doida, tem-se que o new-make da Mortlach é destilado 2,81 vezes. Isto, aliado a uma destilação rápida, uma alta carga nos alambiques e o uso de worm tubs (ou serpentinas) para condensar os vapores, traz uma característica bastante particular aos Mortlach, que muitos definem como “carnuda”. É um aroma que remete a enxofre, só que gostoso.

Se você se interessou, trago boas notícias. Ao final de 2018, o portfólio da Mortlach foi novamente revisto. E, de acordo com a destilaria, os whiskies lançados remontam bastante o querido Mortlach 16 anos Flora & Fauna. A nós – e a este ansioso canídeo, que tem no Mortlach Flora & Fauna um de seus whiskies preferidos – basta esperar. E torcer que os novos lançamentos estejam à altura do legado daquele então tão singelo rótulo.

MORTLACH 16 FLORA & FAUNA

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida – 16 anos

Destilaria: Mortlach

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com influência vínica clara. Frutas vermelhas e passas. Levemente sulfúrico

Sabor: Oleoso. Frutado e vínico. Jerez oloroso, chocolate, frutas secas. Final longo e progressivamente mais seco e sulfúrico.

Preço: 200 GBP

Disponibilidade: Lojas internacionais

Wild Turkey Rye Whiskey – Cognição

Hoje vou tratar de um assunto que anda em baixa. Ou, para falar a verdade, que talvez nunca esteve em alta. A Capacidade Cognitiva. A capacidade cognitiva é, de uma forma simplificada, nossa capacidade de receber estímulos do meio ambiente e responder a elas. Ela engloba habilidades cada vez mais subutilizadas por nós, como pensamento, raciocínio, linguagem e memória.

Vou recorrer a exemplos, para não extenuar a capacidade cognitiva de ninguém aqui. Quando, por exemplo, temos fome e resolvemos fazer um misto quente, usamos a cognição. E ao substituirmos o presunto por peito de peru porque ficamos com preguiça de usar a cognição pra comprar mais, também.

Quando bebemos, alteramos nossa capacidade cognitiva. Por isso que às vezes, quando saio, acho que sou o Elon Musk e pago a conta de todo mundo. Ou viro uma versão invertida de James Joyce, que fala coisas profundas que ninguém entende. Mas que, no meu caso, não fazem sentido mesmo e nem são profundas.

High five a isso!

A capacidade cognitiva dos bartenders brasileiros foi bem exercitada nos últimos anos. Não tínhamos ginger ale para o Moscow Mule, por exemplo – o que exigiu uma bela espuma de criatividade. E tampouco rye whiskey para o Manhattan. Algo que nos fazia recorrer a seu primo mais próximo, o bourbon whiskey. Até agora. Porque, finalmente, graças à Wild Turkey, temos um whiskey de centeio com preço razoável em nosso mercado. O Wild Turkey Rye.

O Wild Turkey Rye é, basicamente, o Wild Turkey 101 Rye, já revisto por aqui, com graduação alcoólica reduzida – de 50,5% para 40,5% – e preço bem mais convidativo. E ainda que por conta do grau alcoólico mais baixo seja necessário prestar especial atenção ao elaborar coquetéis com ele, para não errar na diluição, o Wild Turkey Rye é, atualmente, a melhor opção disponível oficialmente no Brasil para toda aquela infinidade de misturas que demandam um whiskey de centeio. Não só porque ele é o único. Mas porque ele é bem bom.

A maior diferença entre rye whiskeys e bourbons é a composição de seu mosto, que influencia em suas características sensoriais. Bourbons devem possuir no mínimo 51% de milho em sua composição, o que lhe traz um sabor predominantemente adocicado. Já Rye Whiskeys tem como cereal predominante o centeio, e, por isso, trazem sensação de especiarias, menta e canela. O Wild Turkey Rye possui um equilíbrio muito bom entre o dulçor do milho e o apimentado do centeio. Sua mashbill (a receita de seu mosto) é cinquenta e um por cento de centeio, trinta e sete por cento de milho e doze por cento de cevada (51-37-12).

Outra característica interessante sobre o Wild Turkey Rye, ou melhor, sobre toda a linha da Wild Turkey, é a pouca diluição antes da entradas nas barricas. Isso faz com que o sabor do white dog (o produto da destilação, sem maturação) do whiskey fique mais evidente, mesmo depois de totalmente maturado. A maior diluição ocorre no momento do engarrafamento, quano o whiskey é levado para seus 40,5%.

Repita, com a voz do Matthew Mcconaughey: Alright, alright, that’s a nice rye!

Aliás, por falar em barricas, a maturação do Wild Turkey Rye acontece em barris de carvalho americano virgens, bastante torrados. De acordo com a marca “O Wild Turkey Rye é um whiskey ’81 proof’ (40,5% de graduação alcoolica), que homenageia o primeiro destilado americano: whiskey de centeio. Quando produzimos o Wild Turkey Rye, usamos uma torra mais profunda, a “alligator”, para mais sabor. Baunilha abundante e especiarias surgem, sem comprometer o forte sabor de centeio. O Wild Turkey Rye funciona em qualquer mistura e se sobressai em coquetéis“.

Não é necessária grande capacidade cognitiva para perceber as qualidades do Wild Turkey Rye. É um whiskey com preço relativamente acessível, capaz de agradar aqueles que apreciam um whisky seco e carregado de especiarias, mas também bastante útil na coquetelaria – especialmente para os clássicos, como o Manhattan. Seja qual for sua preferência, o Wild Turkey rye é o companheiro perfeito para embaralhar a sua cognição.

WILD TURKEY RYE WHISKEY

Tipo: Rye Whiskey

Marca: Wild Turkey

Região: N/A

ABV: 40,5%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, pimenta, baunilha.

Sabor: seco, com especiarias, cravo, menta, canela e pimenta. Final seco, com baunilha.

Com Água: A água reduz um pouco a impressão da pimenta, tornando o whiskey menos picante.

Preço: em torno de R$ 180,00

Jefferson’s Ocean – Drops

Se você for um apreciador de café, talvez já tenha ouvido falar do famoso Kopi Luwak. Ele é conhecido como o café mais caro do mundo. Uma xícara pode custar até cem dólares, e um quilo passa tranquilamente dos mil dólares. A razão deste preço surreal passa por um pequeno mamífero africano. A civeta. Aliás, literalmente passa.

É que o fruto do café é comido, digerido e o grão excretado por esses animais. Os fazendeiros então coletam esses grão – sim, de dentro das belas obras das civetas – e vendem para torradores, que o preparam para o consumo humano. É um método pouco ortodoxo. Porém, de acordo com muitos especialistas, este indigesto processo traz um sabor muito característico para o café.

No mundo do whiskey, um bourbon que passa por um processo quase tão esquisito – ainda que menos escatológico – é o Jefferson’s Ocean. É que parte de sua maturação acontece dentro de um navio. Isso – de acordo com a Jefferson’s – o expõe a elementos extremos, como flutuações de temperatura, maresia e o balanço da embarcação, o que acelera a maturação e aumenta sua complexidade.

A ideia começou de uma forma modesta. O primeiro lote contou apenas com três barris, que foram colocados no navio de pesquisa da OCEARCH, enquanto procuravam por tubarões brancos. As garrafas – por conta da maturação inusitada – tiveram enorme procura. E, devido à demanda, a Jefferson’s hoje comercializa o experimento com centenas de barricas ao redor do mundo.

O navio da Ocearch

Cada viagem do Jefferson’s Ocean tipicamente cruza o equador quatro vezes, visita cinco continentes e mais de trinta portos” conta Trey Zoeller, fundador da Jefferson’s. Além disso, cada viagem é única. A garrafa provada por este Cão, durante uma degustação no Cateto Pinheiros capitaneada por Fabio Lobosco, é um cask-strength, da décima jornada.

Ao visitar o website da Jefferson’s, pode-se obter mais detalhes sobre cada lote e sua respectiva viagem. Há variações de composição do bourbon, bem como da graduação alcoolica. Mais uma vez, esta foi uma garrafa especial. Era uma expressão cask strength, engarrafada sem diluição, diretamente do barril, com 56% de álcool.

A Jefferson’s não possui destilaria própria. Os whiskeys que o compõe são escolhidos pela empresa a partir de amostras de diversas destilarias, num processo semelhante àquele usado por blended whiskies escoceses. Em 2015 a marca fechou um contrato com a Kentucky Artistan Distillery (uma destilaria por contrato) para seleção e maturação da maioria de suas expressões.

O Jefferson’s Ocean (Voyage 10) na opinião deste Cão, é muito interessante. A maturação em alto mar trouxe ao whiskey um discreto sabor salgado e seco, que funcionou muito bem com o adocicado do caramelo e baunilha trazidos pela maturação. É quase como aquela balinha de caramelo salgada. Só que é ainda melhor, porque, bom, porque é whiskey.

Se você é um apaixonado por bourbons, ou gosta de inovações inusitadas, prove o Jefferson’s Ocean. Ele vai te balançar mais do que um navio em uma tempestade.

JEFFERSON’S OCEAN CASK STRENGTH VOYAGE 10

Tipo – Kentucky Straight Bourbon (Esse “Kentucky” depende da viagem. Algumas expressões são apenas bourbons, comprados de outros estados americanos além do KY)

ABV – 56%

Região: N/A

País: Estados Unidos

Notas de prova

Aroma: caramelo, baunilha. Açúcar mascavo. Levemente frutado.

Sabor: adocicado, com açúcar mascavo e baunilha. O começo traz um sabor seco e discretamente salino, que se abre até desaparecer no final de baunilha. Pimenta do reino.

Com água: A água torna o whiskey menos apimentado e reduz a sensação salina.

Seelbach Cocktail – Fake News

Às vezes me perguntam como faço para pensar na introdução de cada post do Cão. Respondo, meio jocosamente, que é fácil, porque já acordo pensando na próxima besteira que vou escrever ou falar, e tudo que preciso é um pouco de whisky para catalisar o processo. Mas isso não passa de uma brincadeira. Na realidade, muitas vezes, passo dias pensando na introdução de algum post. Em alguns casos, no entanto, o tema ajuda, e a introdução já vem quase pronta.

É o caso do coquetel Seelbach. Um coquetel delicioso e vanguardista. Mas não vanguardista em seu preparo. Mas sim na história de sua concepção. Ou melhor, no falso relato de sua origem. Com detalhes de dar inveja ao Sr. Francisco daquele suco bonzinho, ou ao Vittorio daquela famosa marca de picolés, a narrativa do nascimento do Seelbach foi capaz de convencer até grandes nomes da coquetelaria mundial. Vou contar para vocês.

O coquetel primeiro despontou em 1990, quando o bartender Adam Seger, do hotel Seelbach, localizado em Louisville, Kentucky, disse que descobrira a receita em um menu perdido daquele hotel. De acordo com Adam, a receita original do coquetel era anterior à Lei Seca Norte-Americana, e teria sido, naquela remota era, o principal drink da carta daquele estabelecimento.

O Seelbach

Adam contou que o coquetel fora criado em 1912, quando o outrora bartender do Seelbach despejara, por acidente, champagne dentro de um Manhattan. Segundo ele, uma garrafa do prosecco teria transbordado, e o profissional, desesperado, tentara resgatar o líquido com um manhattan que acabara de montar. Algo mecanicamente meio esquisito, ainda que possível. O tal criador por acaso então teria experimentado o coquetel, e adorado. E daí surgira o Seelbach – que mais tarde cairia no esquecimento por conta do Nobre Experimento, para ser revivido por Seger.

Ao saber da história e da alegada descoberta de Seger, o mundo da coquetelaria se animou. A notícia correu o mundo. Gary Regan, conhecido estudioso da coquetelaria, até mesmo incluiu o Seelbach em seu New Classic Cocktails. Ted Haig, também conhecido como Dr. Cocktail, seguiu Regan, e replicou a receia em seu Vintage Spirits and Forgotten Cocktails.

Em uma entrevista ao The New York Times, porém, Seger admitiu que criara tudo. A história e o coquetel. Em outra oportunidade, explicou seu intento. “eu era ninguém (…). Não possuía qualquer corolário no mundo do bar. Eu sabia que podia criar um coquetel excelente. E eu queria que ele fosse uma promoção para o hotel, e sentia que o hotel precisava de um coquetel de assinatura. Como um lugar frequentado por F. Scott Fitzgerald poderia não ter um maldito coquetel?” Essa última frase, aliás, talvez seja a única parte verdadeira de todo o caso. O escritor de O Grande Gatsby frequentava o hotel – que inclusive foi mencionado brevemente em sua obra.

A parte mais engraçada da história é que todo mundo acreditou em Adam, numa clara manifestação da Tia do Zap no mundo da coquetelaria. Segundo ele, ninguém lhe pediu os menus originais, de onde teria tirado a receita. Quando o livro de Ted Haig foi publicado, porém, Seger ficou preocupado “acho que isso está indo longe demais, porque está num livro de história“.

Bom dia do Ted Haig. É verdade esse bilete.

Ele, porém, continuou com o conto por alguns anos, até admitir a farsa a Gary Regan. Que, incrivelmente, não pareceu muito surpreso com a revelação. “Para ser honesto, eu sempre suspeitei que o Adam criou o coquetel, mas eu realmente o adorava, e a história era quase plausível, e eu precisava de receitas para o ‘New Classic Cocktails‘”.

Independentemente das fake news, o  Seelbach é um coquetel excelente, e perfeito para esta festiva época do ano. Assim, caros leitores, preparem seus caderninhos mentais e tomem nota desta duplamente criativa invenção.

SEELBACH COCKTAIL

INGREDIENTES

  • 30 ml (ou 1 dose) de Bourbon Whiskey
  • 15 ml (ou 1/2 dose) de triple sec (este Cão utilizou Cointreau)
  • 3 dashes de angostura (leia uma observação importante sobre isso e o uso do Peychaud’s no final do post)
  • 3 dashes de Peychaud’s (se não tiver, vá sem, ou substitua por outro bitter com mesmo perfil aromático)
  • 5 doses de prosecco.
  • Taça coupé ou flute.
  • gelo

PREPARO

  1. adicione o bourbon, triple sec, Angostura e Peychaud’s na taça de sua escolha, e mexa com cuidado.
  2. Adicione o prosecco e mexa novamente.
  3. Se quiser, decore com um twist de laranja.

Observação importante – A receita reproduzida no Vintage Spirits and Forgotten Cocktails de Ted Haig pede por 7 dashes de cada um dos bitters. Na opinião pessoal e talvez equivocada deste canídeo, a quantidade de bitter usada o torna muito condimentado para nosso paladar médio. Porém, se preferir, arrisque com as sete dashes, e vá reduzindo até encontrar seu equilíbrio.

 

Bruichladdich Black Arts – Drops

A maioria das coisas que compramos, passam, em algum momento, por uma decisão racional. Claro que a primeira coisa que avaliamos é o preço. Mas entre produtos equivalentes, procuramos sempre qualidades que nos interessam para tomar uma decisão. Um celular por exemplo. Preferimos certa marca a outra porque a câmera é melhor, ou porque a definição de tela é mais acurada.

Vamos pensar em um mercado cujo consumidor é bastante desenvolvido, e que a maioria das decisões é feita com base em fatos. O de automóveis. Imagine um mundo em que você pode comprar uma McLaren. Pensando bem, não imagine, porque talvez você possa. Imagine um mundo em que eu posso comprar uma McLaren. Aí, certo dia, a marca inglesa resolve vender um carro sem passar quase qualquer informação ao consumidor.

Ou melhor, tudo que ela diz é “de forma a explorar a relação exotérica entre a gasolina e os pistões, a McLaren lançou um de seus melhores automóveis até agora“. Nada de zero a cem. Nada de torque, informações sobre a transmissão ou emissões. E aí ainda desenha o carro como se ele fosse o cruzamento entre um F-117 e um gramofone.

Nossa, que coisa feia.

Eu provavelmente pensaria que a marca enlouquecera. E aí, capaz que compraria outro carro equivalente. Ou pensando bem, não. Enterraria o dinheiro em whisky e cerveja e seria quase eternamente feliz. Afinal, todos nós temos prioridades na vida. O ponto é que vender algo sem passar qualquer informação pode ser estranho no mundo dos carros. Mas é super normal na indústria do whisky. O exemplo perfeito é o Bruichladdich Black Arts.

O Bruichladdich Black Arts é um mistério. Apenas Jim McEwan, ex master distiller da Bruichladdich, conhece sua composição – e ele provavelmente jamais a revelará. A ideia é que o whisky seja intrigante para o consumidor. A única informação é obtida no website da destilaria, que diz “trabalhando com os melhores carvalhos americanos e franceses para explorar ao máximo a relação esotérica entre destilado e madeira, o Black Art é uma viagem pessoal de Jim McEwan ao coração da Bruichladdich.” soma-se a isso uma discreta idade estampada na garrafa. 23 anos.

Temos que admitir que a destilaria tem um senso de humor refinado. Assim como pessoas, não há qualquer relação esotérica entre destilado e madeira. E a Bruichladdich sabe disso – tanto é que Jim já admitiu que o Black Arts é quase uma paródia com as histórias muitas vezes hiperbólicas contadas nos rótulos de whiskies de outras destilarias. Além disso, cobrar mais de U$ 300,00 (trezentos dólares) por um whisky que pouco se sabe sobre – apesar da idade – é quase uma pegadinha.

Aliás, seria uma pegadinha, se o Black Arts não fosse divino, independente de seu signo do zodíaco. É um whisky carregado no vinho jerez, com especiarias, baunilha e canela. Aliás, essa é a especialidade da Bruichladdich, cujo armazém é povoado de barricas previamente utilizadas para maturar vinhos como Mouton Rotschild, Château d’Yquem e Château Margaux.

O Bruichladdich Black Arts é uma espécie de voto de confiança na Bruichladdich. Mas mais importante que isso, é um voto de confiança que foi honrado pela destilaria. Prova disso é que a expressão já está em sua quinta edição, e não há qualquer sinal de enfraquecimento. Ah, o mercado de automóveis realmente tem muito a aprender com o de whiskies.

BRUICHLADDICH BLACK ARTS (EDITION 04.1)

Tipo – Single Malt com idade declarada (23 anos)

ABV – 50%

Região: Islay

País: Escócia

NOTAS DE PROVA

Aroma: frutas vermelhas, baunilha, madeira.

Sabor: frutas vermelhas, vinho fortificado. Picante. Canela. Uma certa baunilha discreta compõe o final longo com mais frutas vermelhas.