The Macallan Night On Earth – Tempestividade

Tento acessar o painel de controle do Cão Engarrafado, mas não me lembro a senha. Chuto uma, qualquer. Não foi. Tento outra, também sem sucesso. Na terceira, o navegador leva mais tempo para me dar uma negativa, e enche meu coração de esperança. Precisamos confirmar que você é humano – escolha todas as fotos que têm escadas. Entro em pânico. Sei lá se é um negócio de atenção, ou de pura tensão. Mas o desafio já me deixa desconcertado. Calma. Isso aí na foto é um navio. Tem escada dentro do navio não?

Mesma coisa com aqueles semáforos com cronômetro. Prefiro a ignorância ao conhecimento. Saber quanto tempo eu tenho para cruzar a próxima rua me faz acelerar, não ser mais prudente. É por isso que os seres humanos não podem saber quando exatamente irão morrer – seriam divididos entre os que aceleram e os que permanecem inertes. Pensando aqui, semáforos inteligentes são uma ótima parábola existencialista.

18 segundos de vida

E tem o pior de todos, o token do banco. Quarenta e cinco segundos para escrever quatro dígitos não é o suficiente. Não sob a flagrante ameaça de ter o acesso à minha conta bloqueado. Sem pressão, faço cinquenta cliques em um minuto. Sem nem olhar para o teclado. Com essa violência passiva, não chego a quatro em duas horas.

As coisas precisam de tempo para acontecer direito. Quando rolar, vão rolar. O lançamento do The Macallan Night on Earth no Brasil é uma prova disso. O whisky foi desenvolvido para celebrar o ano novo, mas chegou aqui em meados de abril. Depois disso, ainda levei mais de um mês para ensaiar uma matéria sobre ele. Mas, ainda que intempestiva, aqui está.

O The Macallan Night on Earth é um single malt que faz uma estranha promessa. “Um unboxing espetacular“. As ilustrações dos estojos – sim, no plural, já explico – foram feitas pela artista chinesa Nini Sum. Isso levanta a hipótese do whisky ter sido criado com foco no ano novo chinês, que aconteceu no dia 10 de fevereiro. O que me torna um mês e pouco menos atrasado.

Quanto à embalagem, não posso evitar fazer o paralelo com matrioskas. Uma bonequinha dentro da outra. As caixas dele são assim. Ambas de cartolina. Voce abre uma na horizontal, só para encontrar outra, azul, que parece um prédio de Dubai com arquitetura duvidosa, dentro. Essa abre na vertical, finalmente revelando a bela e musculosa garrafa do The Macallan Night on Earth. Foi uma atividade legal nas duas ou três primeiras vezes. Depois, fiquei com preguiça, encostei a caixa e deixei a garrafa sozinha na prateleira.

Na composição, o The Macallan Night on Earth leva barricas de carvalho americano de ex-jerez, europeu de ex-jerez e americano de ex-bourbon, algo que acontecia na finada linha Triple Cask. É um whisky sem idade declarada, assim como seu irmão Classic Cut, já revisto por aqui. Sensorialmente, traz notas de frutas e um certo caramelo queimado, ou bala toffee, que é bem agradável, e o destaca dos atuais The Macallan à venda no Brasil. É um malte que sempre convida ao próximo gole.

Se você tiver paciência pra abrir a caixa

Na verdade, o nome completo do whisky é The Macallan Night On Earth – The Journey. Ele é a segunda expressão de uma série de “Nights on Earth”, concebidas para celebrar a passagem do ano. Seu irmão é o The Macallan Night on Earth – In Scotland. As expressões tem um perfil sensorial um pouco distinto, mas todos prezam pela drinkability.

Uma garrafa do The Macallan Night On Earth – The Journey custa, no Brasil, algo como R$ 1.200 (mil e duzentos reais). O que faz com que recomendá-lo seja um exercício relativo. Se você procura um single malt de luxo, com ótima drinkability e uma embalagem capaz de te entreter por horas, ele é perfeito. Porém, se deseja um whisky com perfil sensorial mais complexo e maior intensidade, talvez você deva focar em outra expressão da The Macallan à venda por aqui: o Classic Cut.

Ou, talvez, você deva comprar uma garrafa e aguardar até o ano que vem. Assim, você não estará mais atrasado como eu, mas, perfeitamente em sincronia com as celebrações do ano vindouro. É como diz o clichê, os atrasados também serão exaltados.

THE MACALLAN NIGHT ON EARTH – THE JOURNEY

Tipo: Single Malt

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, açúcar mascavo, toffee, frutas vermelhas.

Sabor: Caramelo, baunilha, bala toffee. Final pouco apimentado, adocicado e puxado para o caramelo.

Macallan Classic Cut – Elegância Violenta

Esta matéria foi originalmente publicada em 04 de Setembro de 2018. Em vista de sua chegada ao Brasil, a matéria foi atualizada em 23 de maio de 2024, com a nova edição.


Fígado, favas e um bom chianti. Ou um grande amarone, se você preferir a versão literária à película. Literatura clássica, em especial a Divina Comédia de Dante. As Variações Goldberg de Johann Sebastian Bach. A belíssima cidade italiana de Florença. Parecem gostos de uma pessoa de sofisticação e cultura extraordinárias. E, na verdade, são mesmo.

Incrivelmente, estes também são os interesses de um dos mais famosos vilões da ficção. O psiquiatra Hannibal Lecter, que aparece em obras como Dragão Vermelho e O Silêncio dos Inocentes. Lecter seria um cavalheiro quase perfeito, não fosse um pequeno detalhe. Ou melhor, um único gosto, que não tem nenhuma sofisticação. Hannibal gosta de comer gente. Gastronomicamente falando.

Aliás, o sucesso de seu personagem, na opinião deste canídeo, está justamente aí. No equilíbrio entre a erudição e a mais gráfica e selvagem violência. Entre a polidez e a agressividade. Hannibal é Jekyll e Hyde, com o bônus do canibalismo. Em um mesmo personagem estão características aparentemente antagônicas, mas que se complementam lindamente.

Tá, lindamente não é uma boa palavra.

Se Lecter fosse um whisky, ele certamente seria o The Macallan Classic Cut, que acaba de chegar oficialmente ao Brasil. Inicialmente, uma edição especial da destilaria, que traz sua tradicional elegância e sofisticação, mas com um extra. E – ainda bem – não é a adição de carne humana. É a graduação alcoólica de 58,4% – a parte vilanesca deste lançamento, e, claro, a que o torna fascinante.

O Macallan Classic Cut tem como objetivo, de acordo com a The Macallan, “revelar o (seu) caráter único e o espírito eterno“. Sua identidade visual – o rótulo branco com a faixa vermelha – prestam homenagem a uma expressão descontinuada da destilaria bastante concorrida entre colecionadores. O The Macallan Cask Strength – que também possuía uma graduação alcoólica bastante saudável.

Segundo a The Macallan “maturado exclusivamente em barricas de carvalho americano e europeu de vinho jerez da Espanha individualmente selecionadas, e engarrafado para perfeitamente demonstrar seu perfil único de sabor, este lançamento limitado oferece uma visão especial e memorável sobre a The Macallan“. É uma descrição que até Lecter acharia interessantíssima.

Porém, mais interessante do que aquilo que está descrito é aquilo que não está. Há um curioso silêncio (não dos Inocentes) sobre a expressão “cask strength“, que indicaria um whisky engarrafado diretamente do barril, sem qualquer diluição. Em nenhuma parte do rótulo ou qualquer material relacionado ao Macallan Classic Cut, há o uso daquela expressão – algo que é esperado para um whisky engarrafado acima dos cinquenta por cento. Essa omissão poderia indicar que houve diluição com água, ainda que pequena.

Alguns conjecturaram que a The Macallan tenha feito isto justamente para evitar qualquer forma de comparação com o The Macallan Cask Strength, descontinuado pela destilaria há alguns bons anos. Porém, não é necessário ser uma Clarice Strarling para ver que o argumento não se sustenta. O rótulo branco e vermelho do Classic Cut faz uma referência direta – quase presta uma homenagem – ao Cask Strength.

Qualquer semelhança (não) é mera coincidência (fonte: Winesearcher).

Seja como for, sensorialmente, o Macallan Classic Cut é incrível. A tradicional oleosidade dos The Macallan está lá, mas ainda mais clara. Assim como seu tradicional perfil frutado e vínico, com gengibre, madeira e marzipan. Apesar da alta graduação, o álcool é bem integrado, e surge apenas como um certo apimentado seco, na finalização.

Assim como Hannibal Lecter, o The Macallan Classic Cut foi, desde seu lançamento, incessantemente procurado. Com o tempo, a The Macallan decidiu transformá-lo em uma edição limitada anual, com indicação do ano em seu rótulo. É um desses – de 2023- que acaba de chegar oficialmente ao Brasil. Mas atenção: foram apenas 696 garrafas a desembarcar por aqui. Então, se quiser garantir uma, melhor correr.  Ou então pacientemente aguarde o próximo lançamento. Como diria certo médico assassino ficcional “tudo de bom para aqueles que esperam“.

THE MACALLAN CLASSIC CUT (2023 EDITION)

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 50,3%

Notas de prova:

Aroma: cítrico, frutado, com gengibre e baunilha.

Sabor: Frutado, compota de frutas, tabaco. Finalização longa, e com sabor de vinho fortificado. Apimentada e seca.

Com água: O frutado se evidencia, assim como o vínico. O whisky fica mais adocicado e menos picante.

Aberlour 12 anos – Memória

Chamo o Uber e corro para pegar minha carteira no quarto, antes de descer. Aperto os dentes de frustação ao ver que ela não está lá. Sempre coloco numa caixinha, perto da mesa. Pode ser que tenha deixado do lado do computador, na sala. Não, lá não está também. O Uber chegou, e eu aqui em cima ainda, procurando essa carteira. Será que ficou no carro desde ontem? Não, porque à noite comprei umas tralhas na Aliexpress, e usei o cartão. O que, aliás, indica que ela devia estar perto do notebook. Aumento minha busca em locais menos óbvios – dentro do armário, no banheiro, na cozinha. Nada. Cancelo o uber e dou um soco na própria perna, de desapontamento.

Memória é uma desgraça, mesmo. Uma vez li um estudo que dizia que nossa memória é pouquíssimo confiável, porque a gente tende a criar encadeamentos coerentes para acontecimentos pontuais. Quer dizer, você se lembra de partes de algo que aconteceu, e seu cérebro completa as lacunas entre os pontos, como um preenchimento regenerativo de inteligência artificial. Ou melhor, natural. O que significa que às vezes você lembra de coisas que não aconteceram de verdade, só porque elas deveriam ter acontecido, pela lógica.

As vezes a gente não lembra é de nada, mesmo

Isso aconteceu comigo com o Aberlour 12 anos, single malt que acaba de chegar ao Brasil. Eu havia experimentado o whisky há muito tempo – mais de cinco anos. Em minha memória, era uma dose extremamente vínica, com notas de ameixa e uvas passas. Essa impressão, inclusive, era coerente com outras expressões da destilaria que provara mais recentemente – como o Aberlour A’Bunadh e o Aberlour 18 anos. Ambos considerados informalmente como “sherry bombs”.

Mas, ao provar a dose nesta semana, minha impressão foi distinta. O Aberlour 12 anos é um whisky equilibrado e adocicado. Há sim, a participação de jerez. Ele tem um aroma delicado frutado, com alcaçuz e anis. Mas é, também, puxado para um certo creme de baunilha – característico da maturação em barris de carvalho americano de ex-bourbon. Ainda que tenha corpo, o álcool é bem integrado, e quase imperceptível – bem diferente de seu irmão A’Bunadh. Ele é também mais delicado que o Aberlour 14 anos, já disponível no Brasil há algum tempo.

O nome Aberlour – apesar de muitas vezes pronunciado com sotaque francês por aqui – na verdade é gaélico, e significa “a boca do ribeirão balbuciante“. Uma (nem tão clara) referência à fonte de Saint Drostan – origem da água utilizada na destilaria. Atualmente, entretanto, a ligação é meramente espiritual. A Aberlour utiliza águas de diferentes fontes localizadas na montanha de Ben Rinnes.

A Aberlour utiliza dois pares de alambiques – dois wash stills e dois spirit stills – para sua destilação. É um número econômico, que mostra que o caráter artesanal da destilaria se mantém mesmo nos dias de sucesso atuais. Suas bases e pescoços são largos, e os lyne arms voltados para baixo. Não há quaisquer traços no desenho que incentivem o refluxo. É uma configuração clássica para privilegiar a passagem de congêneres, e criar um new-make oleoso e intenso.

Aberlour e seus alambiques

Entretanto, apesar do sugestivo design de seus alambiques, o caráter do destilado da Aberlour é surpreendentemente equilibrado. Isso acontece, provavelmente, por conta do regime de destilação empregado. Ao invés de destilar rapidamente, as bateladas levam um bom tempo, o que aumenta o contato com o cobre, e reduz a pungência do destilado.

O Aberlour 12 anos é um single malt que agradará a maioria dos paladares. Ele é equilibrado e frutado, com corpo médio e levemente vínico. É uma expressão clássica, de uma das mais queridas destilarias escocesas. Um rótulo memorável, ainda que a memória falhe, às vezes. Aliás, sobre a carteira. Ela estava no carro, mesmo. Eu nunca terminei a compra na AliExpress.

ABERLOUR 12 ANOS DOUBLE CASK

Tipo: Single Malt

Destilaria: Aberlour

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado e frutado, com um leve aroma de anis

Sabor: caramelo, baunilha, frutas secas. Final longo, frutado e levemente apimentado.

Compre no Caledonia bar ou no LeCercle (e-commerce oficial da Pernod-Ricard)

North Sea Oil – Economia

Pequenas fatias alaranjadas, cuidadosamente aplicadas sobre um arroz glutinoso. O salmão, atualmente, é o campeão de vendas dos restaurantes de culinária oriental. Ele está – quase – por toda parte, da temaqueria na loja de conveniência do posto de gasolina, até o omakase. Mas, nem sempre foi assim. O salmão prativamente não era consumido cru no Japão, até lá pela década de oitenta. Os japoneses consideravam o peixe sujo, porque o salmão pescado no Pacífico era propenso a parasitas. Era preciso aquecê-lo para garantir a segurança.

Quem mudou essa história foi a Noruega. O país lançou o “Projeto Japão” em 1986, com o objetivo de duplicar o consumo do peixe no Japão em três anos. O norueguês Bjorn Eirik Olsen capitaneou a empreitada, que consistia em convencer os japoneses que o salmão de cativeiro norueguês era limpo e diferente do japonês. O projeto envolveu dar um nome diferente para o bicho e se aproximar do consumidor, menos detalhista do que a indústria, sobre o perfil de sabor e textura do salmão.

O projeto deu tão certo que hoje, menções à Noruega remetem a geralmente três assuntos: frio, vikings e salmão. Mas engana-se quem acha que o produto mais importante do país é o tal do peixe. Na verdade, a economia norueguesa é liderada pelo petróleo. O produto é extraído do Mar do Norte, que fica entre o supramencionado país e a Escócia – que também possui exploração do combustível fóssil da região .E é daí que vem a inspiração do North Sea Oil, coquetel tema desta matéria.

O North Sea Oil foi criado em 2018 pelo chefe de bar do NoMad de Nova Iorque, Leo Robitschek. Ele tem uma base compartilhada, de scotch whisky turfado e aquavit. Que, para quem não sabe, é um destilado infusionado com botânicos, como se fosse um gim. Mas ela não usa zimbro. Os ingredientes mais frequentes são funcho, cominho, anis estrelado e cascas de cítricos. Um dos maiores produtores de Aquavit do mundo é, sem surpresa, a Noruega. Se você gosta de anis ou alcaçuz, há grandes chances de gostar do destilado.

Salão do NoMad

O que gosto especialmente sobre o North Sea Oil – o coquetel, não a extração de petróleo, claro – é o fato de que, numa primeira leitura, os ingredientes fazem pouco sentido combinados. Mas, ao misturá-los, ocorre uma rara mágica de transmutação, que os torna perfeitamente harmônicos. Poucos drinks são assim, especialmente considerando sua estranha base compartilhada.

Antes de prosseguir, deixe-me esclarecer dois ingredientes. Já Cocchi Americano é um aperitivo de vinho italiano, semelhante a vermute. Porém, ao invés de usar artemisia, usa genciana como o agente de amargor.

Aquavit

De volta ao drink. Caso você não tenha Cocchi Americano, pode usar um vermute branco, como Dolin Blanc. Note, entretanto, que o coquetel ficará menos amargo. Já o triple sec pode ser Cointreau, ainda que a receita original peça outra marca. Os ingredientes restantes, entretanto – o whisky turfado e a Aquavit – não permitem adaptações. Por conta destas especificades, o North Sea Oil não é exatamente um coquetel fácil. Mas é, certamente, um daqueles que você se lembrará por muito tempo, depois de experimentar. Harmonize com um salmão defumado norueguês ou alguns niguiris.

NORTH SEA OIL

INGREDIENTES

  • 45ml Aquavit
  • 15ml single malt turfado
  • 22,5ml Cocchi Americano
  • 7,5ml Triple Sec
  • Parafernália para misturara

PREPARO

  1. Adicione tudo em um mixing glass. Misture até ficar gelado
  2. Desça em um copo baixo com gelo – de preferência, uma grande pedra cristalina

No dia do Whisky, quatro whiskies para diferentes gostos

Eu sou péssimo com datas comemorativas. No último dia das mães, por exemplo, só lembrei da efeméride na véspera. Minto. Fui alertado que o dia aconteceria com antecedência de três semanas – minha própria mãe me avisou, talvez na vã esperança de que eu programasse algo. Mas, como meu horizonte de planejamento não é nem de dez dias, deixei para depois. Aí fui surpreendido pela chegada do evento. A reação de minha progenitora, porém, foi ainda mais surpeendente. É, não esperava nada menos de você. O menos pegou. O que é menos do que nada? – pensei. Mães sabem cutucar.

Dia dos namorados é assim também. No ano passado, descobri que acordara no dia 12 de Junho lá pela hora do almoço, ao me deparar com o sistema de reservas do bar lotado. Sob o olhar reprovador da Cã, comprei guanciale, e preparei um carbonara em casa – que mesmo que fosse o melhor mundo, ainda teria sabor de derrota. Talvez uma sessão de terapia revelasse algo que não sei. Mas, numa perigosa autoanálise, acho que esse meu relaxo com efemérides tem a ver com um certo ódio por elas. Eu não preciso de uma data para demonstrar meu apreço por alguém. Aliás, eu sou péssimo nisso também.

O Dia Mundial do Whisky – ou World Whisky Day, no original – vem como um alento. O whisky, em si, provavelmente não me condenaria por esquecer dele. O whisky é compreensivo. Mas minha obrigação, porém, não é com a bebida, mas, com vocês, queridos leitores e entusiastas. Assim, decidi, pela quinta vez, fazer um post sobre a data. Que é hoje, e foi criada por Blair Bowman há mais de uma década, para reunir os apaixonados pela melhor bebida do mundo.

Hoje, escolhi quatro whiskies com perfis sensoriais bem distintos um do outro. Para mostrar que tem whisky para todos os gostos. Vamos a eles. Do mais delicado ao mais intenso.

Royal Salute 21 The Blended Grain

Este é para aqueles que gostam de whiskies delicados, adocicados, e perigosamente fáceis de beber. E também para todos que procuram uma embalagem primorosa e, ao mesmo tempo, inovadora. Luxo em sua forma mais pura.

O Royal Salute 21 The Blended Grain é um lançamento da marca no Brasil. Previamente exclusivo do mercado asiático, a ideia é que ele seja ainda mais delicado do que o Royal Salute 21 Signature – o tradicional, que conhecemos. Para tanto, ele utiliza exclusivamente whiskies de grão em sua mistura. Todos, maturados por no mínimo 21 anos, exclusivamente em barricas de carvalho americano. De fato, são apenas duas destilarias em sua composição: Dumbarton e Strathclyde. Pode ser comprado no LeCercle

Old Pulteney 12

Old Pulteney é um whisky frutado, com sabor de nozes e castanhas. Mas não quaisquer castanhas. Castanhas salgadas. Bem salgadas. Tipo aquelas que você come de tiragosto, enquanto toma whisky.

Existe uma discussão séria sobre a origem do sabor salgado do Old Pulteney. Muitos afirmam que advém de sua maturação. Ele seria o resultado de anos e anos de ondas quebrando no litoral rochoso, ao lado da destilaria, e do efeito da maresia nos barris. Entretanto, os mais céticos afirmam que, para que fosse possível efetivamente sentir sabor de sal, seria necessário adicionar litros e litros de água salgada diretamente dentro de cada barril. Para estes, o gosto salgado do Old Pulteney não é sal.

Tamnavulin Sherry Cask

Este é para aqueles que buscam um whisky intenso e vínico, com notas frutadas e de especiarias. Ou para quem quer um single malt “sherry” com preço e qualidade sensorial ótimos.

A Tamnavulin é uma espécie de herói anônimo na Escócia. Ela foi fundada em 1966 pelo grupo Invergordon, mais tarde, Whyte & Mackay. Seu objetivo era simplesmente suprir uma demanda crescente por blended whiskies. Porém, em 2016, a Whyte & Mackay resolveu trazer a Tamnavulin à luz, e lançou uma série de seus single malts. Dentre eles um Wine Cask – exclusivo de Duty Free – o Double Cask, já revisto por aqui, e o Sherry Cask, que desembarcou recentemente em nossas terras. O Sherry é o mais temático deles.

Laphroaig Quarter Cask

Este é para aqueles que gostam de sabores defumados, salinos e medicinais. O Laphroaig Quarter Cask é tipo fazer um churrasco num hospital, na frente do mar. Como você já deve ter presumido – ou não – o nome quarter cask vêm dos barris utilizados para maturar o destilado. Após algum tempo nos barris tradicionais de ex-bourbon, o whisky é transferido para o chamado quarter cask, que é uma barrica menor. Isso aumenta a área de contato entre a madeira e o líquido, acelerando o processo de maturação.

Royal Salute 21 The Blended Grain – Conceitos

Pense em uma viagem luxuosa. Não continue a ler, até efetivamente imaginá-la. Não vou me atrever a adivinhar – cada um de nós tem um conceito diferente da coisa. Para alguns, é uma semana em uma palafita, erigida sobre um recife de coral no mar cristalino. Para outros, é o ritmo frenético de alguma metrópole como Londres ou Paris, com restaurantes, bares, museus e compras. Ou uma road trip em algum carro de luxo pela Toscana ou Costa Amalfitana.

Aliás, permita-se o mesmo exercício com automóveis de luxo. Muitos devem ter imaginado um Porsche ou algum outro superesportivo, como uma Ferrari ou Lamborghini. Outros, porém, talvez tenham concebido, na televisão mental, um sedan enorme, cuja experiência ao volante é mais náutica do que automobilística. Uma limo cheia de amenidades – frigobar, televisão, massagem na batata da perna. Dependendo de seus gostos, seu conceito de viagem e carro de luxo são bem distintos.

Para nós, apaixonados por whisky, o conceito de luxo também é relativo. Alguns procuram intensidade. Whiskies de alta graduação alcoólica, ou extremamente turfados. Outros inovação. Maturações em barricas improváveis e inéditas. Outros, porém, querem suavidade, delicadeza, equilíbrio. E é aí que está o mercado dos blends de luxo. Mercado, este, que se desenvolveu muito na Ásia, nos últimos anos.

Não é conicidência que a Coréia foi escolhida em 2018 para ser o palco do lançamento das novas expressões perenes da Royal Salute – evento que este Cão teve o enorme prazer de participar. E não vem como surpresa, também, que a marca tenha escolhido Taiwan como o primeiro destino a receber o novo Royal Salute Blended Grain, que agora chega oficialmente ao Brasil.

Eu estava lá!

Antes, é preciso esclarecer um ponto básico. Há dois tipos originários de whisky na Escócia. Single Malts e Single Grains. A palavra “single” – que significa “único” – faz referência ao local de produção, que deve ser único. Ou seja, são whiskies produzidos inteiramente em uma única destilaria. Single malts, além disso, devem ser produzidos de cevada maltada, e destilados em alambiques. A categoria de single grains é feita por exclusão: se é produzido em uma única destilaria, mas não usa cem por cento de cevada maltada, ou se não é destilado em alambiques, vira single grain.

Single grains não possuem um único grão, como o nome poderia sugerir. Eles são, geralmente, a mistura de dois ou mais grãos. Na Escócia, a combinação mais comum é a de trigo, com um pouco de cevada maltada, para auxiliar na fermentação. Single grains tendem a ser destilados em coluna – ainda que existam exceções, como os Loch Lomond. A maturação geralmente acontece em carvalho americano. Por conta disso tudo, single grains normalmente são leves, florais e delicados.

As categorias de blend vêm pela combinação dos dois tipos originários. Combinando um ou mais single malts com um ou mais single grains, temos blended whiskies – que é a maior categoria na Escócia. Assim, seguindo a mesma lógica, se combinarmos single grains de diferentes destilarias, teremos um Blended Grain. que é onde está o Royal Salute 21 The Blended Grain.

O Royal Salute 21 The Blended Grain é o perfeito exemplar da categoria. Sua maturação ocorre exclusivamente em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey – a maioria delas, de segundo ou terceiro uso. A ideia é trazer delicadeza, sem que a influência da madeira eclipse o sabor delicado do destilado. O whisky mais jovem da mistura possui 21 anos, sem prejuízo de alguns whiskies de grão mais envelhecidos na composição – que é feita exclusivamente de Strathclyde, e da “lost distillery” Dumbarton.

Dumbarton

Essa não é a primeira vez que a Royal Salute lança um blended grain. Há alguns anos a marca sondou o mercado com o Royal Salute Snow Polo Edition – também um blended grain maturado em quercus alba – mas com uma graduação alcoolica um pouco mais elevada. Em comparação com o Snow Polo, o Royal Salute 21 The Blended Grain é mais delicado, menos apimentado, e mais adocicado.

Para aqueles que buscam um whisky de luxo delicado, equilibrado e perigosamente bebível, o Royal Salute 21 The Blended Grain é uma escolha perfeita. Recomenda-se apreciá-lo no banco de trás de algum enorme sedan de luxo, suavemente deslizando pelas estradas a caminho de algum resort sofisticado.

ROYAL SALUTE 21 THE BLENDED GRAIN

Tipo: Blended Grain

Marca: Royal Salute

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Floral e frutado, com frutas amarelas e coco.

Sabor: Adocicado, mel, caramelo, coco. Muito pouco apimentado. O final é leve, delicado e pouco picante.

Vinho Jerez – Um Romance Internacional

Simbioses são relações de longo prazo entre duas ou mais espécies diferentes. Há diferentes tipos. A mais conhecida é a parasitária, onde uma espécie se beneficia da relação, enquanto a outra é prejudicada. Um tipo menos conhecido é o comensalismo. Ele acontece quando uma espécie se beneficia, enquanto a outra não dá a mínima para o que está acontecendo.

É o caso da rêmora e do tubarão, por exemplo. A rêmora se alimenta dos restos das presas do tubarão. Para ele, não faz a menor diferença. Mas talvez em troca de companhia nadando, ou uma eventual chupada na barriga, o tubarão se abstém de abocanhar o alongado peixinho. Conheço algumas relações humanas que são assim, também.

chupão, tubarão?

Mas a forma mais extraordinária de simbiose é o mutualismo. As duas espécies se dão bem, sem esforço, apenas se tolerando mutuamente. É o caso por exemplo dos morcegos-lanudos e plantas carnívoras de Borneo. Essas plantas parecem vasos, e se alimentam de pequenos insetos e vertebrados que caem em seu interior. Os morcegos-lanudos, porém, são grandes demais para serem digeridos por ela. Por isso, usam as plantas de saco-de-dormir. Pode parecer abuso não consensual de vegetais. Mas isso beneficia as plantas: elas se alimentam do cocô do morcego, por mais nojento que possa parecer.

Se pudéssemos transportar o conceito para o universo etílico, encontraríamos também, diversas simbioses. Uma das mais complexas, a do vinho jerez e whisky. As bebidas sempre se relacionaram, ainda que, ao longo dos anos, esta relação tenha mudado bastante. Vamos, antes, a uma pequena introdução ilustrada.

DO JEREZ

Observe a foto acima. Este não é um depósito de barricas na Escócia, mas sim, uma solera de vinho jerez. Ocorre que jerez é um vinho fortificado, que matura em barricas de carvalho. Mas não como whisky – em que o barril seria esvaziado e depois usado mais um par de vezes, até ser descartado. Na indústria do jerez, a maioria da maturação ocorre pelo sistema solera.

O funcionamento é relativamente simples. Imagine uma pequena montanha de barris, todos cheios de jerez. Os barris da parte superior contém jerez mais jovem, e foram preenchidos mais recentemente. Os próximos ao solo são mais maturados. Ao engarrafar o vinho, a bodega, ou vinícola, esvazia 1/3 dos barris de baixo, e preenche com o líquido do andar imediatamente superior, e assim sequencialmente. A ideia é manter o padrão.

Os barris jamais são esvaziados. Algumas bodegas de jerez possuem barricas que têm sido usadas por mais de duzentos anos. A ideia aqui é que as barricas funcionem como um recipiente neutro para o vinho. Elas não transmitem mais qualquer sabor à bebida. O tempo de maturação funciona apenas para que o vinho mature, seja biologicamente ou oxidativamente. Mas vamos deixar esse papo para outro momento.

A maioria dos apaixonados por whisky pensa que os cobiçados barris de jerez são aqueles que maturaram os vinhos. Pela lógica, depois de maturados, estes barris seriam esvaziados e enviados para Escócia, para serem preenchidos pelo líquido divino que mais tarde se tornará whisky. Mas isso não é verdade. Por conta do sistema solera, as bodegas de jerez praticamente nunca descartam seus barris.

E AFINAL, O QUE SÃO?

De uma forma bem direta, atualmente, a grande parte das barricas de jerez utilizadas pela indústria são reproduções do que eram as barricas de transporte até 1986. Como tudo na vida, a frase faz pouco sentido, se não houver contexto. Então, vamos a ele.

Desde o final do século dezenove até mais ou menos 1980, as bodegas de jerez importavam seu vinho para o Reino Unido em barricas de transporte. Não eram as mesmas barricas da solera. As barricas das soleras geralmente eram – e são – feitas de carvalho americano. Já aquelas, tinham carvalho europeu, quercus robur, como matéria prima. Na época, era mais barato.

Barris sendo exportados no El Puerto de Santa María

Ao chegarem ao Reino Unido, estes barris eram esvaziados, e o jerez engarrafado. Não fazia sentido economicamente, porém, enviar os barris vazios de volta pra Espanha. Então, eles eram vendidos para as destilarias de whisky. Um barril destes, recém-esvaziado mas ainda encharcado, continha em torno de doze litros de puro jerez. Você, que já bebeu um “sherry cask whisky”, deve imaginar para onde ia todo esse vinho.

Mas nem tudo são flores na relação entre jerez e whisky (viu o que eu fiz aqui?). Em 1986, o Conselho Regulador de Jerez – um órgão que dita as regras para preservar o bom nome do tal vinho espanhol – proibiu que qualquer jerez fosse engarrafado fora da Espanha. O impedimento trouxe um problema para as destilarias de whisky. Não haveria mais barricas de transporte disponíveis no Reino Unido, uma vez que o vinho já chegaria engarrafado aos portos.

E AGORA?

A indústria do scotch whisky já estava preparada para a mudança. A solução preguiçosa, a princípio, foi usar paxarette. Uma espécie de mistura entre vinho jerez PX e xarope feito do mosto das uvas. O resultado era tão doce, mas tão doce, que chegava a grudar nas mãos. Este líquido pegajoso então era adicionado ao barril, que ficava sob pressão por algum tempo, forçando a gosma a preencher os poros da madeira. A técnica, entretanto, foi abandonada na década de oitenta, por ser terrível em diversos níveis, sejam eles produtivos, sensoriais ou glicêmicos.

A alternativa vencedora foi a de reproduzir o perfil sensorial dos barris de transporte. Atualmente, a vasta maioria dos barris de jerez que entram no mercado de scotch whisky são fruto dessa técnica. Note, no entanto, que isso não ocorre com os demias barris, como vinho do porto, bourbon, tequila, rum, etc. E que mesmo dentro da indústria do jerez, há exceções (Tobermory, Dalmore, Arran e Bruichladdich são algumas destilarias que já utilizaram, em algum release, whisky maturado em barricas de solera).

Barris de jerez na The Macallan

Atualmente, há um acordo comercial entre as destilarias e as tonelerías – as tanoarias, responsáveis por produzir os barris. As marcas de scotch podem fazer especificações finas sobre os barris, como o tipo de madeira e nível de tosta. Estes barris são então enviados a uma bodega, que os preencherá com um vinho jerez feito sob medida. Aqui, mais uma vez, a destilaria pode escolher exatamente o perfil de vinho que deseja. Depois de preenchidos, os barris descansam por um a dois anos. Depois, são esvaziados, e enviados para a Escócia para serem preenchidos com new-make. O vinho jerez utilizado para preencher tais barris não é consumido. Quer dizer, ao menos não como vinho jerez. Ele é transformado em vinagre de jerez, ou então destilado, para se tornar brandy.

Quanto aos whiskies que maturam efetivamente em barricas que previamente faziam parte de soleras, há uma diferença. Como estes barris normalmente são exauridos, a madeira faz pouca diferença na maturação. Entretanto, a oxidação ainda tem papel importante, assim como o tipo de jerez que maturou naquele barril. É dele que vem a maior influência, neste caso.

E o que eu faço com isso?

Nada muda, exceto pelo fato de que, agora, você ficou um pouco mais sábio. Você pode utilizar essa sabedoria ao ler, com cuidado, o rótulo de algum whisky. Não porque ele dirá expressamente se o barril foi proveniente de uma solera ou não. Mas a cor, aliada ao tempo de maturação, e o sabor, trarão uma ideia mais precisa de sua história. Uma simbiose de (literalmente) dar gosto.

Elk’s Own – Genialidade

Há alguns anos, András István Arató, um engenheiro de meia idade da cidade de Koszeg, na Hungria, recebeu a ligação de um fotógrafo desconhecido. O homem havia encontrado as fotos do Sr. Arató no Instagram, e lhe convidou a fazer um ensaio fotográfico – e não do tipo que você está pensando. András, que provavelmente vivia bem entedidado numa cidade provinciana no meio de um país sem muita coisa para fazer, aceitou.

O fotógrafo fez imagens de Arató desempenhando diferentes profissões. Médico, pintor, professor e até mesmo engenheiro – algo bem autêntico para o Sr. András. Satisfeito, o fotógrafo agradeceu, pagou o cachê e foi embora. Meses depois, András se deparou com uma imagem e ficou chocado. Era ele, segurando uma caneca, com uma expressão que – apesar do sorriso – parecia reservar uma dor excruciante. Aliás, seu rosto estava por todo canto na internet. E seu nome havia mudado, também. Agora era Harold. Hide Your Pain Harold. Esse mesmo, do meme.

Bela matéria, Cão

No começo, Harold, quer dizer, Arató, ficou aborrecido. Afinal, ninguém quer virar meme na internet. Mas, depois de algum tempo, percebeu que aquela era uma oportunidade perfeita. Ele passou a aceitar – e buscar – oportunidades comerciais. Fez propaganda para a Coca-Cola, TEDx e LadBible, apenas para citar alguns. Em todas, sorrindo efusivamente. Ao menos, com a boca. Do nada, apenas por sua expressão facial marcante, András se tornou uma celebridade.

Uma história parecida aconteceu no mundod a coquetelaria, lá por mil e oitocentos. Havia um coquetel chamado Chicago Fizz. Levava rum, vinho do port tawny, suco de limão siciliano, açúcar e club soda, ou água com gás. Aqui há um paralelo engraçado. Quem conhece a história do New York Sour, sabe que ele não foi criado na conhecida Big Apple. Bom, o Chicago Fizz nasceu em Chicago, mas ficou popular em Nova Iorque. O que comprova, mais uma vez, que os americanos não têm a menor noção sociogeográfica ao batizar coquetéis.

Mas enfim, havia lá o Chicago Fizz. Um grande gênio, revolucionário da coquetelaria, chamado Peter Sindar, teve a impressionante ideia de substituir o rum por rye e renomear o coquetel “Elk’s Fizz“. E é isso. Só isso. Por conta desta revolução na coquetelaria, senão talvez na indústra da hospitalidade inteira, Sindair recebeu uma medalha. A “Bartender’s Medal of the National Police Gazette“. Algo porcamente traduzido como “Medalha de Bartender da Gazeta Policial Nacional“. O que torna o feito ainda mais assombroso. Afinal, qual o sentido de um jornal de polícia ter uma medalha de bartenders?

Finalmente, em 1927, no Barflies and Cocktails de Harry McElhone, surge o Elk’s Own. Uma versão do Elk’s Fizz, mas sem a soda. Uma mudança que transformou o antigo fizz em um sour. Este Cão, entretanto, só foi tomar conhecimento do drink em 2023, num papo com o bartender e embaixador da Bacardi, Romário Barbosa. “Esse eu sempre tenho na manga, pra quem já bebeu tudo“.

Dizer que há uma história de genialidade e criatividade na invenção do Elk’s Own, é, certamente, hiperbólico. Mas não só pela singeleza da troca de ingredientes. Havia, na época, um certo zeitgeist em coquetéis pesados. Alguns anos mais tarde, o Old Waldorf-Astoria Bar Book – que, diga-se de passagem, popularizou o Chicago Fizz – publicou uma receita próxima, mas, sem limão. O delicioso Suburban – que ja teve matéria nestas páginas caninas. Vamos à receita.

ELK’S OWN

INGREDIENTES

  • 60ml rye whiskey
  • 22,5ml Porto Tawny
  • 22,5ml limão siciliano
  • 15ml xarope de açúcar
  • 22,5ml de clara de ovo ou aquafaba (explicarei isso em breve)

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em um mixing glass sem gelo. Bata vigorosamente. Isso é um “dry shake” e garantirá mais espuma na parte superior do seu drink.
  2. Adicione gelo e bata novamente
  3. Desça o conteúdo, filtrando o gelo, em uma taça coupe previamente resfriada

Sobre a aquafaba: aquafaba é, originalmente, a água proveniente do cozimento de algum grão. Na coquetelaria, geralmente, é grão de bico. Há um vídeo do bartender Rafael Mariachi explicando o preparo. Você pode também utilizar o soro do grão de bico em conserva, enlatado.

Cinco Destilarias (quase) Novas para prestar atenção em 2024

Um paralelepípedo de polaca do alasca empanado, um queijinho safado e molho tártaro, que nem é tão tártaro assim. Tudo isso, emoldurado por duas metades de um brioche fofinho. Não parece grande coisa, mas causou um enorme rebuliço. É o McFish, lanche que saiu do cardápio do McDonald’s em 2019 – justamente porque vendia pouco. Em 2024 a rede anunciou sua volta, por tempo limitadíssimo. Anúncio recebido com gritos de glória pelos fãs da (discutivel) refeição. Eu incluso.

Entendo, perfeitamente, o alvoroço. É que o McFish realmente não é nada demais. Exceto pelo que representa. Ele é visto como o útlimo bastião de algo gastronomicamente aceitável para os foodies, na rede de lanchonetes. Quando saiu, ninguém ligou. Mas depois de um tempo, bateu saudades. E e o que quase não vendia, passou até a ter campanha pra sua volta. Que, aliás, durou pouquíssimo.

O mundo do whisky já passou por umas dessa, também. Exemplo é a Port Ellen. A destilaria foi fechada em 1985, numa época que o mercado de whisky passava por maus bocados. A Diageo possuía três destilarias em Islay – Lagavulin, Caol Ila e Port Ellen – e buscava reduzir custos. A escolha foi justamente fechar aquela que fosse menor e menos conhecida. O que eles não imaginavam é que, em quarenta anos, uma garrafa que custava pouco menos de cinquenta libras, passaria a ser vendida por quatro mil. Tudo por conta do fechamento e escassez dos estoques.

O frenesi foi tamanho que a Diageo anunciou, décadas mais tarde, planos para reabrir a Port Ellen. E não apenas ela. Brora também, irmã da Clynelish, fechada pelo mesmo motivo, pouco tempo depois. Os anúncios, entretanto, são tempestivos. Atualmente a indústria do whisky vive uma época maravilhosa, especialmente para single malts. Há um interesse crescente por produtos exclusivos, e o acesso à informação aumentou muito a curiosidade do consumidor sobre a categoria. Assim, separei aqui cinco destilarias para ficar de olho em 2024. De clássicas rejuvenescidas até bebês etílicos.

PORT ELLEN

Como narrado acima, a Port Ellen foi fechada em 1983 pela DLC – mais tarde, Diageo – por repercussões do whisky loch. Na época, era um malte pouco conhecido, e de produção bem limitada. A maioria de seus whiskies era destinada a produção de blends. Porém, por conta de seu perfil sensorial, ela podia ser facilmente substituída por Caol Ila ou Lagavulin no caso da DLC.

A Port Ellen somente não foi completamente demolida porque as demais destilarias de Islay entraram em uma espécie de acordo informal, pela qual se comprometiam a comprar cevada maltada lá produzida. A destilaria funcionou por mais de trinta e cinco anos, então, como um “malting floor” – uma espécie de fábrica de cevada maltada. Em 2017, percebendo o crescente interesse do mercado por “ghost distilleries“, a Diageo anunciou que a reabriria – projeto que foi concluído em 2024.

ROSEISLE

A Roseisle nasceu da Diageo em meados de 2010, como uma super-destilaria projetada para produzir maltes para blends. Assim como numa destilaria japonesa, a palavra de ordem é variedade. Assim, doze de seus quatorze alambiques podem ter o material de seus condensadores “shell and tube” trocados – entre cobre e inox. A troca permite produzir whiskies mais sulfúricos e pesados, ou adocicados. O tempo de fermentação também pode ser ajustado, para obter um malte mais ou menos herbal.

Ainda que tenha sido projetada para fornecer maltes para blends, e que não tenha exatamente uma identidade como single malt, a Roseisle lançou, em 2023, seu primeiro single malt. Parte dos Special Releases da Diageo, era um whisky de corpo médio, herbal e adocicado.

DALMUNACH

A Dalmunach foi construída em 2014 pela Pernod-Ricard, onde antes ficava a finada Imperial – demolida um ano antes. Projetada como uma das mais modernas e tecnológicas destilarias de toda Escócia, a Dalmunach, ainda assim, preservou algumas características arquitetonicas de sua predecessora.

Assim como a Roseisle, a Dalmunach é capaz de produzir maltes com diferentes perfis sensoriais, e seu principal objetivo é abastecer o mercado de blends da Pernod-Ricard. Especialmente Chivas e Ballantine’s. Há, entretanto, alguns engarrafamentos oficiais de Dalmunach, que podem ser comprados ao visitar as destilarias do grupo Pernod-Ricard.

HOLYROOD

2023 teve uma boa quota de novos whiskies. Em setembro, a Holyrood Distillery, localizada no coração de Edimburgo, anunciou também seu primeiro whisky. Inaugurada em 2019, a fábrica produzia especialmente gim – aguardando pacientemente os três anos necessários para que seu new-make envelhecido pudesse ser considerado whisky aos olhos da SWA.

Foram produzidas 8.188 garrafas, que acabaram em poucos dias pela The Whisky Shop. De acordo com a Holyrood, os próximos lançamentos terão foco em diferentes leveduras – algumas, pouco utilizadas na produção de whisky.

RAASAY

Ela é a primeira destilaria legalizada da ilha de Raasay. Foi aberta em 2017 pela R&B Distillers. Dedicada a produzir single casks, a destilaria lançou em 2021 seu primeiro malte de linha. Era composto de whiskies turfados e tradicionais, maturados em barris de ex-rye, carvalho virgem e carvalhou europeu de ex-vinho tinto da região de Bordeaux.

Sobre o Inovador e o Trivial

Fiquei curioso ao saber da novidade, mas imaginei que levaria mais tempo para vê-la ao vivo. Essas coisas são assim. Você ouve a notícia, mas acha que elas jamais chegarão a você. Tanto é que, quando vi, demorei alguns segundos para registrar. Era sábado, no meio do shopping. Um cara magrinho, com uma máscara que lhe dava ares de cosplay do frango da Sadia. Braços na altura do peito, como se regesse uma orquestra. Era o Apple Vision Pro.

Mais surpreendente do que o rapaz, porém, era seu entorno. Algumas pessoas paravam e ficavam olhando, como se estivessem testemunhando uma manifestação do capiroto. Outras, andavam apressadas, olhando pro lado. Provavelmente também imaginando que aquilo fosse uma encarnação do tinhoso. O ser humano mais indiferente, em toda situação, era o próprio usuário. Que agora parecia tocar air guitar.

Maurício de Sousa – VISIONário

Fiquei pensando se essa não teria sido a reação das pessoas ao ver um carro pela primeira vez – lá, em mil, oitocentos e muitos. Ou uma tela de projeção de cinema. Há um mito, inclusive, que durante uma das primeiras exibições de L’arrivée d’un train en gare de La Ciotat, dos Lumiére, a audiência se abaixou, imaginando que o trem projetado fosse atingí-la. Seja como for, inovações quase sempre trazem sentimentos mistos.

O mundo dos whiskies é um micro-universo disso. Entusiastas, como nós, buscam experimentar sabores novos. É a curiosidade que nos move. Não fosse assim, permaneceríamos em nossa zona de conforto bebendo sempre aquele mesmo whisky que primeiro arrebatou nosso coração etílico. O conceito macroeconômico da escassez define bem este ímpeto: os recursos são limitados, enquanto o desejo, ilimitado. Não é possível – nem financeiramente, nem hepaticamente, experimentar tudo.

E como o que nos move é a curiosidade, naturalmente, a menção de alguma inovação é sedutora. Um Glenfiddich finalizado em barris de sidra de Sommerset. Ou talvez um Lagavulin que passa por barricas de tequila. Um Dewar’s finalizado em barricas de mezcal, também. Nossa mente já começa a divagar sobre a união daqueles sabores.

E, obviamente, a industria sabe disso. Divulgar algo que soa inédito traz muito mais retorno – midiático e financeiro – do que focar sempre no mesmo produto. O exemplo mais claro, ainda que pouco conhecido no Brasil, são os Diageo Special Releases. São edições anuais limitadas dos mais famosos single malts da Diageo. A cada ano, a linha muda. E, muitas vezes, trazem inovações – uma forma inteligente, inclusive, de medir a receptividade de algo no mercado sem se comprometer com um produto perene. Há whiskies espetaculares lá no meio. E outros, nem tanto.

Pokemon Go versão whisky geek

Mas o sabor da bebida, neste caso, é menos importante. Porque ele já terá sido comprado antes de ter seu lacre cuidadosamente removido, ou violentamente arrancado, a depender do ímpeto do bebedor. É, mais ou menos, como o ingresso para um filme. Depois da bilheteria, tudo é por conta e risco do cinéfilo. O que vende é o trailer – ou melhor, o rótulo – não o filme.

Certa vez, há muito tempo, o embaixador de uma marca me confidenciou que um whiskey finalizado em IPA foi escolhido em detrimento de outro, em Stout, porque todo mundo bebe IPA. Ainda que a maioria das IPAs do mundo passe longe de barris. E que ele não concordava, porque o último era bem melhor que o primeiro. Mas que o apelo do marketing foi mais alto. Relembrar essa história, inclusive, torna inevitável fazer o paralelo com a própria indústria cervejeira – onde quase tudo hoje é Hazy, NEIPA ou Pastry, com textura pastosa e ABV capaz de embebedar um pequeno rinoceronte. Não é culpa das cervejarias – é o que o mercado consome.

A estratégia é inteligente, mas esbarra no conceito macroeconômico de alguns parágrafos acima. Os recursos são limitados, o desejo, não. Assim, em alguns casos, produz-se whiskies medíocres ou, no máximo, curiosos, em detrimento daqueles que realmente seriam de beber de joelhos. Mas, infelizmente, menos inovadores e sedutores. É mais fácil ficar curioso sobre o sabor de um Mortlach maturado em porto do que o ducentésimo segundo Glenfarclas maturado em jerez. Por falta de uma palavra melhor e menos chocante, há uma vulgarização do que é produzido, em prol da decisão imediatista do consumidor.

Tentação

Em uma outra oportunidade, um brand manager de uma grande importadora me disse uma frase que me impactou. “Mau, se não dá pra explicar em duas frases, não vai vender“. Fiquei intrigado, mas concordei, e comecei a traçar paralelos. Se um reels no Instagram não te impacta de cara, a tela é rolada pra baixo. Se os quatro primeiros compassos de uma música do Spotify não agradam, a próxima está a um clique. A abundância de oferta traz essa urgência. Não faria nem sentido ser diferente no mundo do whisky.

E é uma pena, mas, é também bacana. Não há nada de errado em ter abundância de oferta. O problema é que esta abundância leva a um comportamento superficial. A decisão de comprar uma garrafa é tomada nas primeiras frases. “Aged in Apple Cider Brandy Casks” é o suficiente para trazer curiosidade ao consumidor a ponto de adquirir a bebida.

Devo, aqui, porém, deixar claro que não sou, de forma alguma, contrário a inovação. É a inovação que mantém a indústria viva. É por meio dela que novos consumidores são recrutados. Divulgar a inovação é a espinha dorsal de meu trabalho, inclusive – o Cão não existira, não fosse ela. E com ela, coisas maravilhosas surgem, também. Como um certo Port Charlotte MRC:01, um Chivas 18 Mizunara ou um Lagavulin finalizado em mezcal.

É importante, portanto, encontrar um equilíbrio entre a busca por inovação e a valorização da tradição. Devemos celebrar a criatividade e as novas experiências, mas não podemos esquecer que o mais importante em um bom whisky é que ele seja bom. Sensorialmente bom. No nariz e na língua. Não no plano das ideias.

Assim como as primeiras pessoas que presenciaram o cinema ou o automóvel, a indústria do whisky está em constante evolução, e cabe a nós, consumidores conscientes, navegar por esse universo com discernimento, apreciando as inovações genuínas e reconhecendo o valor daquilo que já é consagrado. No final, o que importa é a experiência individual de cada um com a bebida. Que cada um explore, experimente e encontre os whiskies que lhe tragam mais prazer, sejam eles inovadores ou clássicos, raros ou acessíveis.