Smokin’ Bob Negroni – Negroni Week

(foto: Tales Hideki)

Uma noite de inverno em Oakland, em 1905.  Frank Epperson, um garoto de onze anos de idade, esquece um copo com água, refresco em pó e um palitinho de misturar do lado de fora de sua casa. Naquele momento, Frank não fazia a menor ideia do que acabara de criar.

No dia seguinte, o menino encontra seu refresco congelado, com um conveniente palito espetado, perfeito para manipulação. Nascia o primeiro picolé do mundo. O próprio Epperson, alguns anos mais tarde, tratou de patentear aquela sua serendipidade.

Um século depois, a criação de Epperson está no mundo todo. E apesar de algumas curvas erradas – as paletas mexicanas e aquele negócio comprido e roliço de iogurte, por exemplo – jamais saiu de moda. É como o Negroni. Quase um século de vida e em perfeita forma.

Volta, que deu ruim.

Aliás, o negroni foi criado também de uma forma bem despretensiosa. Sua história é contada no livro Sulle Tracce del Conte: La Vera Storia del Cocktail Negroni, de Lucca Picchi, bartender do Caffe Rivoire, localizado em Florença, na Itália.

De acordo com o livro, o coquetel foi criado em 1919 no Bar Casoni, também em Florença, quando o conde Camillo Negroni pediu ao bartender Forsco Scarselli que lhe preparasse um Americano, mas substituísse a água com gás por gim. O conde não imaginava que teria acabado de inventar um dos maiores clássicos da coquetelaria. Mas foi justamente o que aconteceu.

Atualmente o coquetel é tão famoso que há até uma semana dedicada a ele. A Negroni Week, apresentada pela Campari e Imbibe Magazine. A semana foi lançada em 2013 e é anual. Neste ano de 2018, ela aconteceu no Brasil de 4 a 10 de junho. Naquele período, os bares participantes criaram variações da receita do Negroni, e parte do valor arrecadado com a venda destes drinks foi revertida para instituições de caridade.

Inspirado pela semana e a pedidos deste Cão, o professor e bartender Rodolfo Bob, do Axado Bar e proprietário do site O Bar Virtual, criou uma versão do coquetel. O Smokin’ Bob Negroni. Assim, queridos leitores, prepara i tuoi quaderni, e tomem nota. É um negroni que leva o único ingrediente que seria capaz de melhorar um coquetel mitológico destes. É claro que estou falando de whisky. E do melhor tipo – o defumado, obviamente.

SMOKIN’ BOB NEGRONI

INGREDIENTES

  • 1 dose de gim
  • 1 dose de vermute (Bob usou Antica Formula)
  • 1 dose de campari
  • 1/2 dose de licor de elderflower (St. Germain)
  • 1/2 dose de Laphroaig Select (você pode tentar substituir por outro whisky defumado. Mas tenha em mente que algo mais enfumaçado dominará o coquetel. Então reduza a quantidade)
  • Flor de sal
  • pétalas de flor desidratada (vou deixar isso aqui como opcional…)
  • parafernália de costume para mexer (bailarina, mixing glass etc.)
  • copo baixo
  • gelo

PREPARO

  1. Misture os ingredientes líquidos (gim, vermute, campari, St. Germain e Laphroaig) em um mixing glass com bastante gelo.
  2. Desça a mistura em um copo baixo, com gelo (de preferência, um gelo grande).
  3. salpique o sal e as pétalas (se decidir usá-las) sobre o gelo. Vá com calma no sal, campeão. Lembre-se que ele derreterá o gelo.

Beer Drops – Maniacs Moscow

Nunca fui muito de futebol. Mas assumo que tenho acompanhado a Copa do Mundo com algum empenho e até torcido com entusiamo em algumas partidas, mesmo que o Brasil tenha sido elimado. Além disso, tenho um certo interesse pela Rússia. Talvez seja por conta de seus grandes escritores – como Gogol, Dostoievski e Tólstoi. Ou pela música, que contava com personalidades como Borodin e Stravinski (que, aliás, era um apaixonado por whisky).

Aliás, a Rússia não é apenas um país de gigantes da literatura e música. Mas é também uma nação de coisas gigantes. O maior avião do mundo, por exemplo, é deles. Seu nome é Antonov An-225, e ele mede mais de oitenta e quatro metros de comprimento. O maior helicópteros – o Mil Mi-26 – também. E um dos maiores cachorros, o pastor caucasiano, que chega a pesar noventa quilos.

Cãozíneo grandíneo.

Nada mais justo, então, que o estilo de cerveja batizado em homenagem ao país seja também superlativo. É a Russian Imperial Stout. Com alta graduação alcoólica e malte torrado, essas cervejas  foram criadas pelos ingleses no século XVIII, e podiam facilmente sobreviver à longa viagem entre o Reino Unido e a Rússia, onde eram consumidas – especialmente pela corte russa.

Embalada pela Copa do Mundo, pelo frio e pela história cervejeira, a Maniacs Brewing Co. lançou recentemente a Moscow, uma Russian Imperial Stout com aromas de café, madeira e baunilha. E claro – como não poderia faltar no Cão Engarrafado – uma finalização longa que remete a bourbon whiskey. Isso se deve ao uso de espirais de carvalho americano envelhecidas em Bourbon, usadas na maturação da cerveja.

A Maniacs Moscow faz parte de uma linha especial da cervejaria, chamada Rebellion. Segundo seu CEO “Nossa linha exclusiva foca em trazer a verdadeira experiência Maniacs. Queremos que todos degustem o que há de melhor no mundo cervejeiro. Com a Maniacs Moscow, temos uma cerveja única, que reúne os melhores maltes e lúpulos para este estilo. E o resultado vocês podem sentir aqui, uma cerveja poderosa, densa e complexa.

A Manacs Moscow utiliza maltes Pilsen, Swaen Aroma, Swaen Chocolate B, Swaen coffee Light e Swaen Black, e lúpulos Magnum e Cascade. A graduação alcóolica – como tudo russo – é hiperbólica. 12,7%. E o vasilhame não fica para trás. A Moscow é vendida em garrafas de 600 ML, para que nenhum russo ou brasileiro, por mais gigante que seja sua sede, reclame.

Se você estiver procurando uma cerveja para acompanhá-lo nesta final da Copa do Mundo, ou apenas para lhe prestar companhia durante um momento de leitura de algum clássico russo, a Maniacs Moscow é uma ideia ótima. Ou melhor. Uma grande ideia.

MANIACS MOSCOW (REBELLION)

Cervejaria: Maniacs Brewing Co.

País: Brasil

Estilo: Russian Imperial Stout (RIS)

ABV: 12,7%

Notas de Prova:

Aroma: café, chocolate. Levemente floral.

Sabor: Encorpada, pouco carbonatada. Café, chocolate meio amargo, um certo malte. Final com baunilha e madeira, bastante longo.

 

Monomito – A História do Whiskey Irlandês – Parte 1

Você sabe o que A Pequena Sereia, O Senhor dos Anéis e Harry Potter tem em comum? Não, não é um protagonista irritante, ainda que isso seja verdade para as três sagas. É o monomito. Também conhecido como a Jornada do Herói, ele é uma estrutura narrativa bastante usada na ficção e, claro, em mitos, como o de Perseu. Se você analisar cuidadosamente, essas histórias – e uma porção de outras – possuem exatamente o mesmo esqueleto.

O termo monomito foi descrito pela primeira vez por Joseph Campbell em seu livro “The Hero With a Thousand Faces”. Campbell pegou o termo emprestado de uma obra de James Joyce, chamada Finnegan’s Wake. O monomito é dividido em três atos: a partida, a iniciação e o retorno. Cada um deles possui subcapítulos, como o mundo cotidiano e a chamada À aventura, a estrada de provas, o momento em que tudo está perdido, a apoteose e o retorno.

E talvez seja porque a Irlanda possui alguns dos mais importantes escritores do mundo – Como Joyce, aliás – ou não. Mas o whiskey irlandês, ao longo dos séculos, descreveu um caminho muito semelhante àquele do monomito. Das portas dos monastérios à gloria e ao posterior declínio, para depois renascer e tomar seu lugar no mundo, o whiskey irlandês é um verdadeiro Perseu das bebidas, enfrentando deuses etílicos. Vou aqui, em duas partes, descrever sua jornada. Prepare-se, leitor, para um Senhor dos Anéis etílico. Mas sem nenhum hobbit chato.

Não adianta chorar.

Nossa jornada começa na Península Ibérica. O processo de destilação de álcool – antes bastante rudimentar – teria sido aperfeiçoado pelos alquimistas árabes do século VIII, na Espanha. Foi daí que surgiu aquilo que podemos considerar o primeiro alambique. Com o tempo, a técnica teria sido passada para monges cristãos de diversos países europeus, e levada por eles para a Irlanda e a Escócia, durante os séculos XI e XII.

Ainda que não exista qualquer documento histórico que comprove esta teoria, a Irlanda provavelmente foi o primeiro lugar a produzir whisky. Foi ela a ilha de escolha para abrigar os monges cristãos, fugidos de outros países europeus por conta das invasões bárbaras. Missionários irlandeses, liderados pelo – atualmente mundialmente famoso – São Patrício, teriam se estabelecido no país e, com isso, trazido a técnica de se produzir a melhor bebida do mundo, aprendida com os árabes na Península Ibérica. Segundo esta teoria, o whisky teria sido levado para a Inglaterra e a Escócia quando o rei Henrique II invadiu a Irlanda e encontrou seus oponentes destemidamente embriagados.

Aliás, a palavra “whisky” é uma redução anglicizada da expressão “uisge beatha”, que significa, literalmente, “água da vida”. Os monges que produziam o destilado acreditavam que ele possuía capacidades medicinais e curativas, e que poderia ser usado para prolongar a vida e melhorar males corriqueiros como a cólica, a varíola e o irremediável tédio existencial causado pela vida em um lugar úmido e congelante sem televisão, internet, smartphones e cinemas.

Ê vidão.

O whisky poderia ter continuado a ser produzido exclusivamente em monastérios por muito tempo, não fosse o Rei Henrique VIII, com sua Supressão dos Monastérios, em 1536. A Supressão foi um conjunto de regras administrativas e legais que ordenava a dissolução daqueles lugares e a apropriação de seus bens e receitas. E é aqui que a jornada de nosso herói etílico, o Whiskey Irlandês, começa. A chamada para a aventura e o abandono do mundo comum. Aqui, não houve espaço para reticência ou medo.

Com a ordem do Rei, os monges cristãos tiveram que, então, enveredar para algo que poderia ser definido hoje em dia como iniciativa privada. Foram obrigados a produzir whisky sozinhos e fora da reclusão monasterial. Porém, algo – nem tão imprevisto assim, já que o assunto é whisky – aconteceu: a popularidade da bebida cresceu imensamente.

Durante o século dezesseis,  novas e novas destilarias surgiram.Estima-se que a Irlanda contava com mais de duzentas destilarias de whiskey na virada para o século dezessete. É curioso, aliás, como naquela época o whiskey irlandês era conhecido como um produto refinado, e o escocês, algo bruto e desequilibrado.

Mas o caminho de nosso herói etílico é permeado de dificuldades. E o primeiro deles, incrivelmente, foi fogo amigo. A invenção do destilador contínuo por um irlandês, chamado Sir Anthony Perrier. A invenção – um tanto rudimentar no começo – foi melhorada pelo escocês Robert Stein, e, posteriormente, aperfeiçoada por outro irlandês. Aeneas Coffey, um fiscal da receita irlandesa, especializado em taxação de bebidas alcoólicas.

Diagrama de um Coffey Still

O destilador contínuo – conhecido como Coffey Still – permitiu que a Escócia criasse uma nova classe de whiskies. O blended scotch whisky. Unindo seus maltes pesados e oleosos com o destilado leve dos destiladores contínuos, os escoceses criaram um produto extremamente palatável e cujo método de produção custava apenas uma fração do método irlandês (a destilação em alambiques). A eficiência produtiva, aliada a incessantes esforços de marketing por conta dos escoceses, reduziram sensivelmente o consumo de whiskey irlandês no mundo.

Mas o futuro guardava ainda mais alguns percalços para o destilado símbolo da Irlanda. Porém, por hoje, o capítulo se encerra. Aguardem que, em breve, teremos o all-is-lost moment e a apoteose de nosso herói etílico.Mas antes, um intervalo para um anúncio importante. Se você estiver interessado em conhecer de perto as destilarias, aprender bastante sobre Irish Whiskey e provar, in loco, alguns dos melhores whiskeys da ilha natal de James Joyce, este Cão realizará uma viagem como guia para lá, em conjunto com a operadora Freeway Viagens. Quer saber mais? Clique aqui.

Até o próximo capítulo!

 

 

Worldclass 2018 – Sobre a Copa

Não foi dessa vez. Lutamos com garra, mas apesar de toda torcida, do canarinho pistola e do russo esquisitão, fomos derrotados pela Bélgica. Numa copa bem atípica, sem Argentina, Alemanha e Espanha, o Brasil também ficou de fora.

Mas apesar de nossa derrota no futebol, ainda podemos trazer a taça para casa. Mas não da Copa do Mundo. De uma outra competição que, na opinião – assumo que um pouco enviesada – desse Cão, é ainda mais importante: o Worldclass Competition.

O Worldclass, pertencente à Diageo, é um dos maiores campeonatos de coquetelaria do Brasil, e dos mais importantes do mundo. São mais de dez anos de competição, em mais de cinquenta países. Nessa década de existência, mais de sessenta mil profissionais participaram do campeonato. Em 2018, foram 250 inscritos apenas em nosso país.

Após diversas etapas, foram selecionados oito semifinalistas. Adriana Pino, Anderson Santos,  Gabriel Santana, Gustavo Guedes, Heitor Marín, Miguel Paes, Rafael Domingues e Romero Brito. Os jurados da final regional foram os reconhecidos bartenders Ale D’Agostino, Fabio la Pietra, Jean Ponce, Márcio Silva e Spencer Amereno.

A final da etapa brasileira do Worldclass aconteceu no restaurante Seen – localizado no último andar do hotel Tívoli Mofarrej, em São Paulo. Lá, os finalistas foram submetidos a diversas provas, como a preparação de um coquetel autoral inspirado em algum país em que o Brasil venceu a copa.

Uma das mais divertidas etapas – ao menos para os espectadores – foi o speed challenge, em que os bartenders participantes deveriam preparar cinco coquetéis distintos em menos de cinco minutos, e, se sobrasse tempo, mais outros nos poucos segundos excedentes. Tudo isso ao som de alguma música tensa (adorei ouvir Misirlou) e os berros da platéia.

Speed challenge

Após a avaliação dos jurados e um já tradicional mistério, a campeã foi anunciada por Nicola Pietroluongo, embaixador da Diageo. Adriana Pino. A atuação de Adriana naquele dia foi extraordinária. Um coquetel inspirado no Japão, que contava até mesmo com um peixe vivo de decoração.

E no speed challenge, ela não apenas preparou cinco coquetéis (Negroni com Tanqueray Nº10, Rabo de Galo com Ypióca 5 Chaves, White Lady feito também com Tanqueray Nº10, Paloma com tequila Don Julio, Cuba Libre com o rum Zacapa) como conseguiu fazer uma capirinha extra, com Ypióca 5 Chaves.

Na área há 14 anos, Adriana passou pelos balcões de casas como Brasserie Erick Jacquin, Brown Sugar, Duke Bistrot (Campinas) e Méz. Hoje, ela atua como consultora, com clientes em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Acre.

Após a premiação houve a grande festa de celebração que contou com um guest bartending estrelado pelos cinco jurados da competição, com incríveis receitas exclusivas. Receitas, que, aliás, você mesmo, querido leitor, poderá experimentar. Os coquetéis dos jurados estarão disponíveis para os clientes do Seen durante todo o mês de julho.

Adriana viajará em outubro para Berlim, para competir na final global do Worldclass. Este Cão deseja a ela boa sorte, boa viagem e que – para compensar nossa campanha na copa do mundo – traga a taça para nossas terras.

Vai Adriana!

 

 

Dadiva Odonata 2018 – Sobre Referências

Finalmente assisti Solo: A Star Wars Story. E não me decepcionei, mas não fiquei muito impressionado. É engraçado, porque não há nada intrinsecamente ruim sobre o filme. Ele é bem dirigido, o ritmo é bacana, e o Alden Ehrenreich está excelente como Han Solo,  a ponto de reproduzir com exatidão até pequenos tiques do personagem de Harrison Ford. Tipo atirar de perna aberta e fazer aquela cara de mau ator tentando expressar surpresa. Tem que ser muito bom ator para parecer mau ator.

O problema, acho, não está no filme. Está na mística. Ou melhor, na ausência dela. É que quando Han contava vantagem para Luke sobre, por exemplo, o fato da Millennium Falcon ter feito o Kessel Run em menos de 12 parsecs, a falta de detalhes fazia nossa imaginação preencher as lacunas. Não sabíamos como a nave tinha conseguido aquele feito. Sabíamos apenas que ela era rápida. Poxa, eu nem sei o que é um parsec, mas isso não importa, porque todos os personagens ficavam impressionados.

Mas ver como a Millenium Falcon conseguiu – ou melhor, Han – acaba destruindo essa mística. Agora a gente sabe como aconteceu, e, longe de mim dar algum spoiler, mas parece um mérito muito mais atribuível ao desespero ou destemor do que efetivamente à espaçonave. Ver Solo: A Star Wars Story é na verdade ouvir explicações sobre uma porrada de coisas que eu não queria explicações.

Aprendam.

Mas esse é o problema de sequências – ou prequels. Sempre esperamos algo tão bom quanto o anterior, ou melhor. Criar uma franquia de sucesso, como Star Wars, é uma grande responsabilidade. E não apenas no cinema. No mundo da bebida também. Como, por exemplo, a Dádiva Odonata. Em 2016, foram três versões, com frutas vermelhas, café e baunilha. E em 2017, mais três edições especiais, maturadas em barricas de carvalho e assinadas por Cesar Adames, Dinah Paula e – a melhor de todas, claro – este Cão.

Após essas seis edições, a expectativa era alta para as edições de 2018. Mas a Dádiva – ao contrário da Disney – conseguiu impressionar. Para este ano, foram produzidas 4 edições. Em parceria com os especialistas Isadora Fornari e Maurício Maia, foram escolhidas quatro madeiras brasileiras para compor as Odonatas, #7 (envelhecida em barricas de Jaqueira), #8 (envelhecida em barricas de Jequitibá), #9 (envelhecida em barricas de Bálsamo) e #10 (envelhecida em barricas de Amburana).

Este Cão teve a oportunidade de provar os quatro lançamentos. É incrível a influência sensorial que apenas as madeiras diferentes causam. Em certas situações – como comparando a #8 com a #10 – a impressão é que são cervejas distintas. Porém, na verdade, compartilham a mesma base. Uma Russian Imperial Stout de 11,5% de graduação alcoólica.

Matt aprova.

A versão #7, com Jaqueira, é relativamente leve, frutada e adocicada. A Odonata #8, com Jequitibá, é mais seca e floral, e adquiriu um curiosíssimo aroma enfumaçado. O Bálsamo, da #9, por sua vez, trouxe um certo hortelã, e uma espécie de amargor de madeira queimada. A Odonata #10, por fim – a preferida deste Cão – apresentou um potente aroma de anis e alcaçuz, que harmonizou perfeitamente com a base da stout.

As Odonatas serão lançadas oficialmente dia 04 de julho, no Empório Alto dos Pinheiros, em chope e garrafa. E assim como Solo, tem sido ansiosamente aguardadas. Porém, ao contrário daquele, não há nenhuma dúvida que a estréia será um absoluto sucesso.

A Disney deveria aprender uma ou duas coisas com a Dádiva.

DÁDIVA ODONATA 2018 (#7, #8, #9 e #10).

Cervejaria: Dádiva

País: Brasil

Estilo: Russian Imperial Stout

ABV: 11,5%

 

Whiskies para comprar no Duty Free

Este é um post sazonal, que já teve três edições. Depois, leia a primeira, segunda e terceira aqui, se quiser.

Ah, o prazer de viajar.  Preparar uma lista de tudo que precisa levar, com cuidado, para não esquecer nada. Escova de dentes, pasta, shampoo, sabonete, desodorante. Camisetas, camisa, blazer, malha. Calça jeans. Meias, sapatos. Calção para praia, se tiver praia, óculos escuros. Checar tudo de novo, e mais uma terceira vez, só para garantir. Passar dois dias arrumando mala, acordar as quatro e meia da manhã para pegar um voo.

Usar seu corpo e boca para bater papo com o taxista por uma hora, enquanto sua alma silenciosamente cochila até chegar ao aeroporto. Fazer força para tirar as malas do táxi. Fazer força para colocá-las no carrinho. Descobrir que a roda direita do carrinho está emperrada e novamente fazer força, para compensar o atrito. Tentar não cair no sono. Tentar não cair. Aproximar-se vagarosamente do guichê. Fazer força ainda mais uma vez para colocar as malas na esteira e despachá-las. Tentar não cair na esteira, duro, dormindo, durante essa inglória tarefa.

Check-in, polícia federal. Aguardar sentado, naquele estado entre o sono e a realidade e equilibrar a cabeça para não se aconchegar confortavelmente em seu vizinho de cadeira, numa intimidade embaraçosa e involuntária. Embarcar. Ser atingido na cabeça pela mala de mão de outra pessoa enquanto tenta acomodar sua própria, no compartimento superior. Passar horas sentado no avião, nariz seco, sem conseguir dormir. Comer aquele salgadinho ou prato requentado, pelando. Queimar a língua. Acordar do sono não dormido, pousar.

Não deu.

Recuperar a mala de mão, desembarcar. Resgatar suas malas despachadas, que foram vandalizadas pelos carregadores do aeroporto na esteira de número nove, que, por acaso, é a mais distante. Imigração. Fazer força tudo de novo para colocar as malas no táxi, chegar no hotel quase desacordado. Desarrumar as malas apenas para descobrir que esqueceu de colocar cuecas, e agora terá que andar esquisito até algum lugar para comprar algumas.

Eu adoro viajar. Mas tudo, da porta da sua casa até o quarto do hotel é privação. Tudo menos o Duty Free. O Duty Free é o oásis. É um dos únicos prazeres conferidos ao apaixonado por whiskies durante essa via-crucis aeronáutica. Ele é muito importante. E é por isso que este Cão, sempre preocupado com a sanidade de seus leitores, preparou uma lista com cinco whiskies à venda em nossos freeshops. Os whiskies estão organizados por preço, do mais caro para o mais barato. Aproveitem.

BRUICHLADDICH BLACK ARTS

O Bruichladdich Black Arts é um mistério. Apenas Jim McEwan, ex master distiller da Bruichladdich, conhece sua composição – e ele provavelmente jamais a revelará. A ideia é que o whisky seja intrigante para o consumidor. A única informação é obtida no website da destilaria, que diz “trabalhando com os melhores carvalhos americanos e franceses para explorar ao máximo a relação esotérica entre destilado e madeira, o Black Art é uma viagem pessoal de Jim McEwan ao coração da Bruichladdich.”

Temos que admitir que a destilaria tem um senso de humor refinado. Assim como pessoas, não há qualquer relação esotérica entre destilado e madeira. E a Bruichladdich sabe disso – tanto é que Jim já admitiu que o Black Arts é quase uma paródia com as histórias muitas vezes hiperbólicas contadas nos rótulos de whiskies de outras destilarias. Além disso, cobrar mais de U$ 300,00 (trezentos dólares) por um whisky sem idade e com pouquíssima informação, é quase uma pegadinha.

Aliás, seria uma pegadinha, se o Black Arts não fosse divino, independente de seu signo do zodíaco. É um whisky carregado no vinho jerez, com especiarias, baunilha e canela. A especialidade da Bruichladdich, cujo armazém é povoado de barricas de vinhos como Mouton Rotschild, Château d’Yquem e Château Margaux. O preço dessa garrafa mágica? US$ 370,00 (trezentos e setenta dólares).

ROYAL BRACKLA 16

O Royal Brackla 16 anos é a realeza engarrafada. Aliás, a destilaria foi a primeira a receber o Royal Warrant – uma espécie de selo de qualidade concedido pela família real, para produtos por eles apreciados. O Royal Warrant da Brackla foi concedido pelo Rei William IV em 1833, quando a destilaria possuía apenas 23 anos de idade. Em 1838 a Rainha Victória renovou o Warrant. Por conta dessa história os whiskies da Brackla até hoje são vendidos com os dizeres “The King’s Own Whisky” ou “O Whisky do Próprio Rei” em seus rótulos.

O Royal Brackla 16 é maturado em barricas de carvalho americano de bourbon whiskey e finalizado em barricas de carvalho europeu de ex-jerez. É um whisky leve – todo processo da Brackla valoriza o refluxo e busca um destilado pouco oleoso – com caramelo, baunilha e um final floral com vinho fortificado que é absolutamente incrível. Mais sobre ele aqui.

O preço deste líquido real é também digno da realeza. Ainda mais se for em nosso Duty Free – que inflacionou levemente o preço, por conta da novidade. US$ 200,00 (duzentos dólares).

ROYAL SALUTE THE ETERNAL RESERVE

O que pode ser melhor do que um whisky muito envelhecido? Bem, um whisky envelhecido eternamente. E é mais ou menos essa a proposta do Royal Salute The Eternal Reserve, que utiliza um método de maturação semelhante àquele de soleira utilizado por vinhos jerez. O primeiro lote do Eternal Reserve começou com a escolha de 88 barricas de diversas destilarias, que atendessem a dois critérios. Primeiro, que cada um possuísse uma finalização longa que pudesse ser extendida por meio da mistura e maturação, e, em segundo, que pudessem ser harmonizados em cada novo lote, de forma que o caráter do whisky se mantivesse inalterado ao longo do tempo. Isso tudo, e claro, tivessem ao menos 21 anos de idade.

Uma vez selecionados, as barricas são misturadas em uma soleira – um enorme tanque de madeira – e depois recolocados em oitenta e oito barricas, para passar por mais seis meses. Essa mistura é então misturada com outras 88 barricas para completar o primeiro lote. Depois, metade do blend resultante é engarrafado, enquanto a outra metade volta para as 88 barricas até que o próximo lote seja produzido, e assim por diante. Por conta disso, sempre haverá uma pequena parcela do lote original nos lotes subsequentes. Quer saber mais? Clique aqui.

O Royal Salute The Eternal Reserve é um whisky leve e floral, com álcool perfeitamente integrado e quase nenhuma fumaça. Há uma discreta nota cítrica, com alcaçuz e açúcar mascavo. O preço não é infinito, mas chega perto. US$ 180,00 (cento e oitenta dólares).

HIGHLAND PARK SIGURD

A Highland Park tem uma certa monomania com os vikings. Talvez seja por conta de sua localização – a ilha de Orkney, que era povoada por eles na antiguidade. Ou talvez porque alguém, há muito tempo, tivera resolvido batizar os whiskies da destilaria com nomes vikings, e ninguém teve uma ideia melhor desde então. Há uma série de deuses vikings – que conta com Loki, Freya, Odin e toda a turma de divindades que você conhece, porque assistiu Thor. Há outra com sentimentos, como honra viking, orgulho viking e cicatrizes (tá, isso não é uma emoção) vikings. E há a série de guerreiros vikings, da qual o Sigurd faz parte.

O Sigurd é a quarta de seis expressões que fazem parte da “warrior series” da destilaria. O primeiro, Svein, é maturado exclusivamente em barricas de carvalho americano. E a última, Thorfinn, passa apenas por barricas de carvalho espanhol. À moda da série 1824 da Macallan, as quatro expressões intermediárias utilizam as duas barricas, em proporções diferentes. Sigurd é a primeira delas que tem predominância de carvalho espanhol sobre o americano – aproximadamente 60 para 40 por cento. É um whisky levemente enfumaçado, vínico e extremamente equilibrado. Tudo isso por US$ 175,00 (cento e setenta e cinco dólares)

BLACK BOTTLE

Defumado, mas não muito. Adocicado, mas nem tanto. Apimentado, mas na medida. O Black Bottle pode não ser o mais complexo ou sofisticado dos blends, mas é um excelente custo-benefício, em um pacote inegavelmente bonito. Caso você não tenha percebido – o que indicaria uma acentuada falta de perspicácia de sua parte – o nome faz alusão à garrafa preta, adotada desde a época de fundação da marca.

O Black Bottle foi, por muito tempo, um malte inspirado em Islay. Mas desde seu renascimento, em 2013, o whisky perdeu um pouco de seu caráter defumado e marítimo, e passou a primar pelo equilíbrio – ainda que haja um percentual bem razoável de malte turfado. Incrivelmente, o único whisky de Islay utilizado em sua composição não possui qualquer traço de turfa. É o Bunnahabhain.

O preço – bem convidativo, se você me perguntar – é de US$ 33,00 (trinta e três dólares). Pela garrafa grande, não a miniatura da foto. Claro.

 

Beer Drops – Adnam’s Two Bays

Cervejas maturadas em barricas de carvalho ou com chips de carvalho. Nossas televisões mentais projetam, imediatamente, a imagem de alguma imperial stout ou porter, quase tão oleosa quanto petróleo. Se fosse um pouquinho mais densa, nem caberia na proverbial frase de Jânio. Bebo porque é líquido. Ela estaria lá, no limiar dos dois estados físicos. Tipo vidro. Uma vez me disseram que vidro é um líquido de altíssima densidade. Certamente essa pessoa não provou imperial stouts o suficiente para entender o que é a fronteira entre o sólido e o líquido.

É natural. A maioria das cervejas maturadas pertencem a estes estilos. O que não significa, de forma nenhuma, que uma cerveja mais leve não possa sofrer maturação e ficar boa. É o caso, por exemplo, da Two Bays, uma colaborativa entre as cervejarias Cigar City e Adnam’s – que aliás, possui uma belíssima linha de destilados – e que acaba de chegar ao Brasil pelas mãos da Get Trade.

Broadside, um quase-whisky, também produzido pela Adnam’s.

A Adnam’s Two Bays é uma pale ale com graduação alcoolica de 4,4,%, produzida com malte de cevada e aveia, e maturada com chips de carvalho. Os lúpulos utilizados são Citra, Cashmere, Lemondrop, Enigma e Calypso. O website da Adnam’s sugere que a cerveja possua notas de baunilha, coco e groselha. O paladar pouco treinado para cervejas deste Cão, porém, percebe um certo aroma frutado e cítrico, com toranja, e que aos poucos se torna mais adocicado, com baunilha e caramelo.

O nome Two Bays faz referência à localização das duas cervejarias, que colaboraram para produzí-la. A Adnam’s fica em Sole Bay, em Southwold, no Reino Unido. E a Cigar City – famosa por produzir cervejas maturadas em barricas – está instalada na baía de Tampa, na Flórida.

A Adnam’s Two Bays chega ao Brasil com preço médio de R$ 30,00 (trinta reais), bastante convidativo para cervejas maturadas. Mas se você se interessou, é melhor correr e procurar bem. Menos de mil garrafas chegaram às baías de nossas terras em maio. E a expectativa é que acabem bem rápido. Se você gosta daquele característico sabor de caramelo e baunilha, tão comum em nossos queridos whiskies, mas prefere cervejas com corpo mais leve, a Two Bays será um agradável avistamento.

ADNAM’S TWO BAYS

Cervejaria: Adnam’s

País: Reino Unido / Estados Unidos

Estilo: Pale Ale

ABV: 4,4%

Notas de Prova:

Aroma: baunilha, levemente cítrico (grapefruit?) e capim santo.

Sabor: Corpo médio, cítrica, capim santo. Final longo e progressivamente mais adocicado e floral, com baunilha e caramelo.

Commodore – O lado doce da vida

Ah, o excesso. Como diria Oscar Wilde, a moderação é algo fatal. Nada tem tanto sucesso quanto o excesso. E ainda que a frase de Wilde deva ser vista com reticências, e não como uma carta branca para cometer todo tipo de atrocidade, tenho que concordar com ele. O excesso melhora bastante tudo aquilo que já é naturalmente prazeroso. Se você não concorda, deixe-me fartamente exemplificar, com abundâncias corriqueiras.

Dormir até as duas da tarde no domingo. Comer meio bolo de fubá numa sentada. Assistir oito episódios seguidos da sua série favorita na companhia de um pote de sorvete ou pipoca. O clássico quarto – ou quinto – pedaço de pizza. Só mais uma cervejinha de saideira e a gente vai embora. O oitavo cafezinho do dia, depois do jantar. Mas é claro que eu quero a batata e a coca-cola grande com o duplo quarteirão, que pergunta mais óbvia. E coloca aí um chorinho na caipirinha, fazendo favor.

Essa almôndega/polpettone S2

É engraçado como somos atraídos pelo excesso, mas o renegamos. Entendo que em muitas situações, o exagero pode ser extremamente danoso, e nada mais natural do que buscar o equilíbrio. Mas em outras, às vezes, o excesso é bom. Há uma infinidade de whiskies desequilibrados – excessivamente defumados ou vínicos – que são absolutamente deliciosos e bem mais interessantes do que seus pares balanceados. Exemplos são o Bruichladdich Octomore e o Aberlour A’Bunadh.

Na coquetelaria, algo semelhante acontece. Muitos de nós temos uma quase obsessão pelo equilíbrio, que na maioria dos casos faz sentido. Mas isso não impede que um coquetel puxado para o amargo ou para o adocicado, se bem executado, seja prazeroso e tenha seu valor. Mas antes que você me condene, isso não é uma apologia à batida de leite condensado com Halls e vodka e aos Sex-On-The-Beach de balada ruim. Não. Isso é um aceno em direção a um coquetel que poucos conhecemos e que, ainda assim, sofre um enorme preconceito. O Commodore.

O Commodore leva bourbon whiskey, creme de cacau, suco de limão siciliano e grenadine. Só de ler os ingredientes, o nível glicêmico já sobe até a pré-diabetes. O Commodore é um coquetel naturalmente e incontornavelmente doce, apesar do limão. E talvez, neste ponto, você esteja silenciosamente aí me condenando, enquanto se convence que encontrei a receita em alguma revista de receitas de segunda. Mas não. O drink originalmente fez parte do menu do bar do hotel Waldorf-Astoria, na era pré Lei Seca.

É mais velho que o Opala Comodoro!

E esta não é a única referência. O Savoy Cocktail Book também apresentou uma versão do Commodore, mas que levava whiskey canadense ao invés de bourbon, além de xarope de açúcar e bitters de laranja. Mas a receita que apresentarei aqui é mais próxima da original, do Waldorf, com as proporções propostas por David Wondrich. Bem, por que? Porque é a receita que eu mais gosto, independente de ser equilibrada ou não. Nas palavras do próprio Wondrich “Eu amo o Commodore. Por que? Porque é delicioso. E é apenas um coquetel“.

Assim, meus caros, podem deixar de lado seus leite condensados, esqueçam o picolé de manga e nem pensem em abrir aquele pacote de drops de hortelã. Tomem nota de um coquetel que adoçará a vida de vocês sem nenhuma culpa. Porque às vezes mesmo, tudo que precisamos é um pouquinho de excesso.

COMMODORE

INGREDIENTES

  • 1 e 1/2 doses de bourbon whiskey
  • 1 dose de creme de cacao (a receita de wondrich não especifica qual. Este Cão preferiu com creme de cacao branco)
  • 1 dose de suco de limão siciliano
  • 1 colher de café de grenadine
  • Taça de Martini
  • parafernália usual para bater (shaker, coador, gelo).

PREPARO

  1. adicione todos os ingredientes na coqueteleira, com bastante gelo.
  2. Bata até gelar
  3. Desça, coando, em uma taça de martini ou coupé.

 

Drops – AnCnoc Blas

Guardamos relação sentimental com uma porção de coisas. Aquele carro que nos acompanhou numa viagem incrível, aquele filme que assistimos com certa companhia especial e aquela música que pautou algum grande desafio. Não é necessariamente algo bom ou ruim. Mas é uma sensação de que aquilo é especial somente para você, por mais prosaico que possa aparentar para todas as outras pessoas. São aquelas coisas que participaram de momentos de epifania, ou que marcaram alguma passagem em nossas vidas.

Um dos whiskies que guarda espaço especial em minha memória etílica é o AnCnoc. O AnCnoc foi meu predileto na degustação mais importante que participei em minha primeira viagem à Escócia.  Fiquei tão impressionado que a última coisa que fiz, vinte minutos antes de embarcar de volta para o Brasil, foi correr em uma loja do Duty Free para levar uma garrafa para casa – um AnCnoc 16 anos.

Naturalmente, imaginei que com o tempo e depois de provar outros maltes, a sensação se dissiparia. Mas, na verdade, ela se manteve. Depois daquele 18 anos, tive mais umas quatro garrafas diferentes. E gostei de todas elas. Todas guardavam a mesma característica de suavidade, de uma oleosidade quase de manteiga derretida, que me fascinava. Mas a minha preferida dentre todas é este AnCnoc Blas – cujo nome significa “sabor” em gaélico.

O AnCnoc Blas é uma versão turbinada – em uma palavra mais técnica, Cask Strength – do clássico perfil de sua destilaria. Que, aliás, não se chama AnCnoc, mas sim Knockdhu. A incomum diferença entre o nome do whisky e da destilaria possui uma razão bem clara. É para evitar que os ébrios amantes de whisky o confundam com a Knockando, outra destilaria, cujos whiskies se chamam também Kockando.

A Knockdhu localiza-se em Aberdeenshire, nas Highlands escocesas, e possui uma impressionante e variada gama de expressões. Há whiskies sem idade – como o Blas – e outros bastante maturados, como um incrível 25 anos. Há também edições especiais turfadas, que possuem diferentes níveis de defumação. A destilaria é bastante versátil e, na opinião parcial deste canídeo,  uma das mais injustiçadas da Escócia, juntamente com a Ben Nevis.

O AnCnoc Blas é uma edição especial da Knockdhu, em colaboração com o estilista escocês Patrick Grant. Se você acha esquisito que um estilista tenha se envolvido na produção de um single malt, eu explico. É que Grant ficou responsável por ilustrar a embalagem e o rótulo do whisky. Segundo o desenhista, “passei bastante tempo na Knockdhu, não apenas observando a paisagem e os arredores, mas conhecendo as pessoas que trabalham lá e os métodos que utilizam. Tudo na gravura é da montanha, da vila de Knock ou de dentro da destilaria, e conta a história da produçao do Blas. Eu tentei interpretar a história e tradição da AnCnoc de uma forma moderna, e espero que isso tenha sido traduzido pela estética da garrafa”.

Patrick e o Blas

Não é a primeira vez que a Kockdhu se une a uma personalidade para uma colaboração improvável. Outras edições limitadas da destilaria contaram com ilustrações de Peter Arkle, conhecido ilustrador escocês. Mas se você acha que todo esse papo de desenho é uma besteira, acalme-se. O AnCnoc Blas não é diferente apenas em sua roupagem. Como mencionado acima, ele é engarrafado diretamente do barril, sem qualquer diluição, e possui 54% de graduação alcoólica – algo bem incomum para os AnCnocs.

Talvez eu esteja exagerando. Talvez o AnCnoc Blas seja apenas mais um bom whisky, dentre tantos whiskies bons. Talvez ele tenha se beneficiado de um momento extraordinário. Afinal, é mais fácil apaixonar-se na Escócia do que na sala de casa. Mas é justamente esta dúvida, esta sensação de que ele é melhor para mim do que para todo mundo, que o torna ainda mais especial.

ANCNOC BLAS

Tipo: Single malt sem idade definida

Destilaria: Knockdhu

Região: Highlands

ABV: 54%

Notas de prova:

Aroma: Mel, baunilha, castanhas caramelizadas.

Sabor: Frutado, levemente cítrico, com mel, baunilha e capim santo. O final é adocicado e muito suave.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais

Seis whiskies que fazem muita falta no Brasil

Hiraeth. Não poderia começar este post de outra forma, senão por hiraeth. O correspondente galês de nossa intraduzível saudade. Mas com um significado extra. Hiraeth também se refere àquele vazio existencial causado pelo desejo de algo que você jamais teve. As saudades que um filho único sente de seu irmão que jamais nascera. Ou que eu tenho de possuir um Bowmore 1957 de 54 anos. Ah, que me falta faz esse Bowmore.

De certa forma, hiraeth é um sentimento um pouco paradoxal. É a nostalgia de tudo aquilo que não vemos e não podemos ter. Mas pior que ela, é mesmo aquela saudade de algo que já tivemos, mas que acabou. Um amor, uma época da vida. E claro, uma garrafa de whisky. Aquela, que trouxe de uma viagem, e que bebi sofrendo a cada gotinha que escorria no copo à medida que a garrafa esvaziava.

Como um brasileiro apaixonado por whiskies, devo dizer que exerço bastante esse sentimento. Vontade de provar de novo um rótulo que já tive. Ou de poder abrir um que jamais provei, mas que não posso, porque ele simplesmente in existe em nossas terras.

Neste post, selecionei seis especiais. São aqueles que já tivemos mas foram embora, ou que jamais desembarcaram por aqui. Mas deveriam. Acompanhe-me, querido leitor, nesta jornada de nostalgia, e vamos passar vontade juntos.

LAGAVULIN 16

Não poderia começar a lista de outra forma. O Lagavulin é um clássico absoluto dos single malts, e talvez o mais nobre e proeminente representante de Islay e seus whiskies enfumaçados e medicinais. Assim como para muitas pessoas, foi ele o responsável por acender minha paixão por whiskies.

Infelizmente, por algum motivo que foge à lógica deste Cão, o Lagavulin 16 anos não está à venda em nosso país. Sua proprietária, a Diageo, prefere trazer whiskies com preço de combate e sabor amável, por talvez imaginar que, nós, brasileiros, possuímos paladar doce e pouco desenvolvido para single malts. E nem adianta argumentar sobre o preço. Se há um whisky capaz de se vender sozinho, independentemente de seu valor, é o Lagavulin. Quiçá no futuro.

SPRINGBANK (LONGROW & HAZELBURN)

A Springbank possui status de malte cult entre os entusiastas, e suas edições limitadas praticamente sublimam das estantes, quase instantaneamente depois de terem sido lançadas. É também uma das únicas destilarias independentes de toda a Escócia, e uma das poucas que realiza todo o processo – da maltagem ao engarrafamento – totalmente em casa. Eles possuem três linhas diferentes de single malts. Springbank (levemente defumado), Longrow (indiscutivelmente defumado) e Hazelburn (triplamente destilado).

Longrows

A Springbank é uma das únicas três destilarias sobreviventes de Campbeltown, cidade que fora, por muito tempo, considerada a capital mundial do whisky. A região, que chegou a contar com trinta e quatro destilarias durante a década de cinquenta, hoje possui apenas três delas. As outras duas são Glengyle e Glen Scotia. Infelizmente, o sucesso da Springbank é tanto que sua produção está absolutamente alocada, e não há planos para vir para terras tupiniquins. Ao menos por enquanto.

BUFFALO TRACE (EAGLE RARE & BLANTONS)

Eagle Rare

A Buffalo Trace é uma das maiores destilarias de todos os Estados Unidos, e é responsável por marcas de renome, como George T. Stagg, E. H. Taylor, W. L. Weller, Sazerac Rye, a preciosíssima linha de Pappy Van Winkle e os Blanton’s e Stagg. Jr. Um de seus bourbons mais queridos – e com custo benefício fantástico em sua terra natal – é o Eagle Rare. Ele foi o único whiskey a conseguir cinco medalhas de duplo ouro na San Francisco Spirits Competition, sendo que três delas foram concedidas em anos consecutivos – de 2003 a 2005.

Infelizmente, nenhum Buffalo Trace desembarca no Brasil. Nem mesmo os mais humildes. A marca não possui contrato com qualquer importadora, e nenhuma representação em nosso país.

COMPASS BOX

A Compass Box Whisky Co. foi criada por John Glaser, executivo que antes trabalhou como diretor de marketing na Johnnie Walker. Glaser resolveu abandonar a empresa e fundar sua própria marca, dedicando-se a produzir apenas whiskies de altíssima qualidade, especialmente blended malts. Atualmente, a empresa possui cinco expressões em seu portfólio permanente (Asyla, Oak Cross, Hedonism, Spice Tree e Peat Monster), além da linha Great King Street. Além disso, constantemente lança edições limitadas especiais. E são todos uma delícia.

Edição Limitada The Lost Blend

Apesar de serem facilmente encontráveis em países vizinhos, como a Argentina, a Compass Box nunca desembarcou em nosso país. Sorte minha: entraria em insolvência instantânea tentando comprar todas as garrafas que encontrasse, especialmente de seu Peat Monster.

SUNTORY (HIBIKI, YAMAZAKI, HAKUSHU)

A Suntory, fundada na década de vinte por Shinjiro Torii, um japonês maluco que resolveu que produziria whisky no Japão. Atualmente, a empresa é a maior produtora da bebida naquele país, e tem sob seu guarda-chuvas os incríveis Yamazaki, Hakushu, Kakubin, Toki e Chita, para citar alguns. Os produtos são mundialmente reconhecidos, e foram também os principais responsáveis pela febre de consumo dos whiskies japoneses ao redor do globo.

Alguns produtos da Suntory – como o Kakubin, Yamazaki e Hakushu 12 anos – até chegaram às nossas remotas terras tupiniquins. Porém, a importação (que era feita pela Tradbrás) foi pouco a pouco suspensa, e a Suntory resolveu focar seus produtos em mercados emergentes, como a Ásia. Com sorte – ou algum garimpo – ainda se pode encontrar uma ou outra garrafa dessas maravilhas em empórios e mercados da vida. Mas o preço muito provavelmente será o equivalente a uma passagem de ida e volta pro Japão.

OUTRO IRLANDÊS

É isso mesmo. O único whisky irlandês a desembarcar em nossas terras é o Jameson. E tudo bem, porque ele é bem bom, muito versátil e tem preço de combate.

Mas para aqueles que apreciam variedade, isso é quase um suicídio. Um outro rótulo da própria marca – como o Black Barrel – já ajudaria bastante. Ou, talvez, o Tullamore Dew, que em muitos países é uma alternativa ao nosso conhecido irish whiskey. Sonhando mais alto, não seria nada mal ter um Midleton ou Redbreast por nossas terras.