5 Whiskies que adoraríamos ver no Brasil em 2026

No final do ano passado viajei para Barcelona. Fiquei uns oito dias – tempo suficiente para percorrer boa parte dos bares da cidade. Bebi bem, e comi extraordinariamente. Tanto de quantidade, quanto qualidade. E como não podia deixar de ser, comprei também algumas garrafas de whisky (e vermute) para trazer para cá. Mas, de longe, a minha melhor compra etílico-gastronômica foi uma Kewpie. Sim, a maionese. Aquela japonesa, do bebezinho. Que é a melhor maionese do mundo, na minha obesa opinião.

Mas a que trouxe não foi a Kewpie tradicional, que tem por aqui. Mas sim uma versão com wasabi, que fica uma delícia numa porção de coisas, especialmente salmão defumado. Me arrependi, inclusive, de não ter comprado duas embalagens, mas assumo que fiquei com medo de tudo explodir na mala, e meus whiskies ganharem um curioso aroma de raiz forte.

A Kewpie, lá fora, tem várias versões. Tem uma low-fat, uma doce, uma com sriracha, e outra com yuzu. Mas, por aqui, só recebemos a tradicional mesmo. O que já está ótimo pra mim, porque não pretendo virar um sommelier de maioneses. Whisky, entretanto, é outra história. Como um entusiasta, e, especialmente, sócio de um bar de whiskies, sinto falta de alguns rótulos icônicos em nosso país.

Separei cinco abaixo. Alguns, desejados por mim. Mas, a maioria, indagado por clientes do bar, inconformados com a impossibilidade de encontrá-los oficialmente em nossa bela nação.

1. Michter’s

Em 2022, era Buffalo Trace. Agora, o queridinho inatingível dos american whiskey lovers é Michter’s. Mais especificamente, seu Rye Whiskey. Ele fica no meio do caminho entre um rye whiskey da nova era, com baixo centeio, e um old-school rye, como seriam aqueles produzidos pela MGP, com mais de 90% do cereal na receita. Por conta disso, é extremamente versátil em coquetéis, e ótimo para se beber puro.

A Michter’s ganhou bastante destaque recentemente, especialmente depois de passar a produzir os próprios destilados. São, também, patrocinadores do 50 Best Bars, e têm até uma categoria própria dentro da premiação. Isso faz a marca mais conhecida, e mais desejada, especialmente dentro da comunidade do bar.

2. Four Roses

Mais um americano que, há muito, deveria estar por aqui. É um bourbon low-rye, com perfil adocicado e pouco apimentado. A marca possui três expressões mais famosas: o tradicional, Small Batch e Single Barrel. O terceiro é o favorito deste Cão que vos escreve. Porém, o mais famoso é, seguramente o primeiro. É um whisky extremamente acessível de preço – ao menos fora de terras brasileiras – e que entrega uma bela qualidade sensorial.

Infelizmente, a Four Roses não tem o menor interesse em vir para o Brasil. O volume do mercado brasileiro é pequeno, e as dificuldades de importação fazem com que a marca fique mais interessada em se aventurar para a Europa ou permanecer mesmo nos EUA, onde é amplamente consumida.

3. Tobermory / Ledaig

Essa é a única destilaria da ilha de Mull, na Escócia. Ela produz uma variedade grande de whiskies, turfados e não-turfados. A primeira linha é chamada Ledaig, e conta com um dos whiskies preferidos de todos os tempos deste Cão, o Ledaig 18 anos. Têm também o Ledaig Sinclair, recém-lançado, que une fumaça e maturação em barricas de vinho tinto, por um preço inacreditável. A segunda é homônima à destilaria, e traz rótulos não turfados, alguns com pesada influência vínica, mas sem perder a elegância.

A Tobermory praticamente gabarita em todos os requisitos para whisky-geeks. ABV relativamente alto, barricas diferentes, equilíbrio e, quando aplicável, turfa na medida. O preço é ótimo também.

Mas, infelizmente, a marca não quer saber de nós. A Interfood, importadora também responsável pela maravilhosa Bruichladdich, chegou a trazer o gim deles. Mas depois, parou. A Tobermory é controlada pelo pessoal da Amarula, que, aparentemente, está mais interessada em elevar o nível glicêmico do Brasileiro do que ensiná-lo a beber bem.

4. Redbreast (ou outro irlandês qualquer)

A Irlanda possui, atualmente, mais de 40 destilarias operacionais. Há uma gama enorme de whiskies, dentre single malts, pot stills (algo exclusivo deles), blends e grains. Há whiskies turfados, vínicos, leves, intensos, frutados e herbais. Inobstante – como outrora escreveria em alguma petição – o povo brasileiro só pode beber Jameson. E um Jameson só, porque, vamos combinar, que há bem pouca diferença entre o tradicional e o IPA (aliás, IPA maturada?).

Meu sonho seria ver um Redbreast por aqui. Que, ironicamente, também é produzido pela Midleton, a mesma destilaria da Jameson. E que é controlada, obviamente, pela mesma empresa, a Pernod-Ricard. Mas tamanho é o nível de desespero, que eu ficaria satisfeito em ver qualquer outro irlandês além do filho de Jaime. Teeling, Connemara, Bushmills. Até um Tullamore Dew aplacaria essa deficiência.

5. Lagavulin

Devo confessar que, originalmente, tinha pensado em colocar aqui Mortlach, porque já falei 3x de Lagavulin em outras matérias por aqui. Mas, fiz uma enquete, e Lagavulin foi o mais pedido, de longe. Perdão por ser repetitivo, mas, é vox popoli. Não vou nem me dar ao trabalho de trazer novas razões, mas só me auto-parafrasear.

Infelizmente, por algum motivo que foge à lógica deste Cão, o Lagavulin 16 anos não está à venda em nosso país. Sua proprietária, a Diageo, prefere trazer whiskies com preço de combate e sabor amável, por talvez imaginar que, nós, brasileiros, possuímos paladar doce e pouco desenvolvido para single malts. E nem adianta argumentar sobre o preço. Se há um whisky capaz de se vender sozinho, independentemente de seu valor, é o Lagavulin. Quiçá no futuro.

Five Keys -Mona Lisa

Você já deve ter visto a imagem abaixo. Quero dizer, a única, certamente viu. Mas talvez essa, com trinta. A obra se chama Thirty Are Better Than One e foi criada em 1963 pelo artista pop Andy Warhol. Ele reproduziu, em serigrafia, a Mona Lisa tritna vezes. Trinta minimonalisas, lado a lado, como se fosse um item em um supermercado. O legal que, ao contrário de outras reproduções, que contam com uma ou outra distorção visual, ele não mudou nada. A violência está na repetição.

Deixa eu tentar explicar isso melhor. Ao reproduzir uma obra única trinta vezes, ela perde singularidade, e se torna um produto seriado. A crítica de Warhol não é à pintura, mas ao sistema que transforma obras em ícones replicáveis até a exaustão. É genial, porque não é um ataque direto à obra, mas mais uma dissolução dela, por excesso.

Clássicos muito bem resolvidos costumam sofrer desse destino. Quando a estrutura é sólida demais, ela vira molde. A coquetelaria tem uma porção de drinks assim, também. Mas talvez, o primeiro da lista seja o Manhattan. Ele é – discutivelmente – um original tão bem construído que passou a ser reproduzido quase por inércia. O Five Keys, tema deste post, é mais uma variação dele.

Mas ele funciona, justamente por ser uma variação tão descarada, que nem quer competir com nada. Ele foi criado originalmente para o bourbon Blade and Bow, que é produzido na destilaria Stitzel-Weller, em Louisville. O nome – Cinco Chaves, em português – do coquetel faz referência ao logo da Stitzel-Weller, que está ilustrado no centro do rótulo do Blade and Bow. E não aos cinco bairros de Nova Iorque, como apontado em algumas outras publicações.

Aqui, cabe uma curiosidade para os whiskey geeks. A Stitzel-Weller foi, por muito tempo, a destilaria responsável pelo lendário Pappy Van Winkle – que, atualmente, é feito na Buffalo Trace. O nome é, inclusive, familiar. A Buffalo Trace hoje produz uma série de bourbons sob a alcunha de “Weller” – uma homenagem ao antigo fundador da destilaria que outrora produzia os Pappy. É, eu sei, é confuso mesmo.

As Chaves

A origem do nome não é apenas uma curiosidade. Mas, a peça-chave (viu o que eu fiz aqui?) para um dilema. Não há Blade and Bow no Brasil. Portanto, deve-se substituir a base por outro bourbon. Ainda que a Stitzel-Weller não divulgue claramente a sua mashbill – a combinação de grãos de sua receita – sabe-se que se trata de um wheated bourbon – o Pappy Van Winkle, inclusive, é um. Assim, para manter a autenticidade e equilíbrio, este Cão recomenda o uso de Maker’s Mark. Ou, até, se estiver se sentindo sofisticado, um Maker’s 46.

Exceto pelo curioso detalhe de trocar o bitter não-potável por Cynar, o Five Keys tem pouca novidade. Ele não reinventa o Manhattan, não acrescenta nenhuma camada conceitual revolucionária e não muda o curso da coquetelaria. Mas ele funciona porque a estrutura que sustenta o original continua sólida, e porque repetir algo bem feito ainda pode ser prazeroso. Nem toda variação precisa justificar sua existência com um manifesto. Algumas existem porque são boas de beber.

FIVE KEYS

INGREDIENTES

  • 45ml Bourbon Whiskey
  • 22,5ml Vermute Tinto
  • 7,5ml licor de maraschino
  • 7,5ml Cynar
  • Parafernália para misturar

PREPARO

  • Adicione todos os ingredientes no mixing glass e mexa com gelo
  • desça em uma taça coupe gelada
  • aproveite

Chivas Regal Crystalgold – iPad

Quando vi um iPad pela primeira vez, achei graça. Não era um telefone que cabia no bolso, nem um computador que aguentava o tranco do trabalho pesado. Era um troço híbrido.Como um triciclo, que é grande demais para usar o corredor de moto, mas que não tem capota para te proteger da chuva. Não vi nenhuma boa razão para ter um até lá pela terceira geração, quando resolvi que ia usar para desenhar – algo que gosto de fazer desde criança.

Aí, descobri outros usos para aquela televisãozinha. Tipo ver filmes enquanto corro na esteira, que é o único exercício possível para mim, por ser totalmente mecânico, desprovido de qualquer raciocínio. Até comprei um mini-teclado que se acoplava a ele, para poder escrever uma coisa ou outra para este blog, quando a ideia surgia. Não comprei outro depois, mas assumo que, depois de um tempo, achei bem confortável para uma porção de coisas. E que muita gente usa profissionalmente, hoje em dia.

Ao contrário disso, que só é usado por segurança de shopping

Aos olhos de um ser humano normal – como eu – aquele fora um tremendo de um risco, para a Apple. Porque era um produto desnecessário, uma inovação que ninguém pedira. Mas que, aos poucos, foi encontrando função no cotidiano. A genialidade do Ipad estava justamente em criar um desejo antes de resolver uma carência. É da mais genial arrogância, vender uma solução para um problema que ninguém tem. Lembrei dessa história ao provar, pela primeira vez, uma inovação da Pernod-Ricard. O Chivas Regal Crystalgold.

Vamos, primeiro, aos sinais vitais. O Chivas Regal Crystalgold é uma mistura entre um blended whisky filtrado em carvão, para remover coloração e moléculas mais pesadas, com um pouco de new-make spirit. Aqui começa o papo interessante. Ele não é, exatamente, um whisky. Ao menos, não tecnicamente, de acordo com as regras da Scotch Whisky Association. Por dois motivos, que explicarei abaixo.

Ocorre que, para que seja assim considerado whisky, a bebida deve maturar integralmente por no mínimo três anos em barris de carvalho de no máximo 700 litros. E a adição do new-make ao final do processo descumpre a regra. Além disso, o whisky deve reter a cor dada a ele pela maturação, e o Chivas Regal Crystalgold faz exatamente o oposto: ele matura, mas remove a cor.

A ciência por trás da criação do Chivas Regal Crystalgold é, no mínimo, engenhosa. A maior parte dele é um blend próprio, criado por Sandy Hyslop, master blender da Chivas. Esse blend matura por um tempo não divulgado em barris de carvalho – extra-oficialmente, fala-se de três a doze anos – especialmente first-fill ex-bourbon. Este whisky passa então por um filtro especial de carvão, que remove sua coloração, e o new-make é adicionado.

O processo de filtragem merece foco. Ainda que possa parecer, não é a mesma coisa que ocorre com Jack Daniel’s, por exemplo. No caso do Tennessee Whiskey, a filtragem é bem mais grosseira – no bom sentido. Basta pensar que, mesmo o Gentleman Jack, que passa duas vezes pelo processo, retém a cor da maturação.

Charcoal Mellowing na Jack Daniel’s

O paralelo mais preciso do Crystalgold são as tequila cristalino. São tequilas maturadas – normalmente añejo ou extra añejo – mas depois filtradas para não terem coloração, e ainda assim, reter os sabores e aromas provenientes da maturação. No Chivas Regal Crystalgold, o processo é realizado com atenção exaustiva aos detalhes. A graduação alcoolica é mais alta, e a temperatura e fluxo da filtragem são controlados com precisão, justamente para remover a cor, mas, teoricamente, manter o sabor.

Na opinião deste Cão, sensorialmente, no produto final, o resultado é discutível. Ele traz as tradicionais notas de maturação da Chivas – com pêra, caramelo e baunilha – mas há, claramente, um sabor de cereais que permeia toda experiência. Isso provavelmente é dado justamente pelo new-make, adicionado no final do processo. E ainda que a textura seja delicada, a impressão é de que ele foi desenhado como um ingrediente – não como algo para se beber puro.

É bem difícil, para um entusiasta de whisky, não racionalizar uma bebida. Mas, neste caso, talvez seja a melhor alternativa, para evitar a estranheza. Ele não é um parente da tequila – nem de longe, ainda mais porque, na tequila, a base alcoólica de agave já traz muita informação. Também não é um whisky, pelos motivos supra enumerados. E tampouco uma versão de algo como um moonshine ou poítin, porque há (pouca) informação de madeira.

E aí que acho que está o maior problema. Não pela inerente necessidade humana de definir e classificar tudo. Mas por conta de sua função. Me pergunto, honestamente, qual o público alvo desta inovação. Bebedores fiéis de white spirits teriam resistência, por conta da bandeira Chivas. Bebedores mais eventuais de whisky, talvez gostassem, se provassem. Mas seria necessária uma mente bem aberta, para se aproximar pela primeira vez – algo que bebedores eventuais têm pouco. É uma inovação interessante, mas, também, um enorme risco.

Crystalgold

No fim das contas, o Chivas Regal Crystalgold parece sofrer da mesma crise de identidade que afligia o iPad em seus primeiros dias: é uma resposta sofisticada para uma pergunta que ninguém se deu ao trabalho de fazer. A diferença é que a Apple tinha o ecossistema e o carisma de um culto para dobrar a realidade a seu favor. Aqui, no balcão da vida real, a inovação pela inovação corre o risco de ser apenas um exercício técnico estéril. Resta saber se o mercado vai aprender a desejar esse “não-whisky”.

CHIVAS REGAL CRYSTALGOLD

Tipo: Spirit Drink

Marca: Chivas Regal

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: floral, com baunilha e cereais

Sabor: suave, nada agressivo. Álcool bem integrado. Cereais, pão cru molhado, mel, baunilha

The Macallan Art is the Flower – A Fonte

Dizem que a função primordial de um mictório é oferecer um destino higiênico ao subproduto de uma noite regada a whisky. Em 1917, porém, o artista Marcel Duchamp decidiu transmutar a essência de uma porcelana branca. Comprou um urinol na loja de ferragens Mott, virou de ponta-cabeça, assinou com o pseudônimo canastrão “R. Mutt” e o batizou de “The Fountain” (ou A Fonte). Por fim, enviou a exposição de Artistas Independentes de Nova Iorque.

A Fonte, porém, jamais participou da mostra. Ela foi rejeitada, por ser considerada imoral e vulgar. A diretoria da exposição decidiu que ela não era arte, e a escondeu atrás de uma divisória, longe do público. Duchamp, ciente da rejeição, levou a obra ao estúdio de Alfred Stieglitz, onde foi fotografada e depois devolvida à exposição. Este fora o único registro da versão original daquele objeto. Porque, ironicamente, ao final do evento, a Fonte foi jogada no lixo por algum faxineiro, que provavelmente achou que aquilo fosse só mesmo um urinol, vandalizado por um tal Mutt.

The art is the urinal

E me perdoe se estou postergando chegar ao ponto desta matéria, que é o The Macallan Art is The Flower, mas prometo que fará sentido, no final. Mesmo sem sua belíssima porcelana, que fora maltratada (viu o que eu fiz aqui?) pela sociedade, Duchamp conseguiu provar um ponto importante. A arte não habita na porcelana, mas no divórcio entre a coisa e sua própria utilidade. O conceito, obviamente, é bem discutível, e este foi exatamente o objetivo de Duchamp.

A escola de Bauhaus, está aí, por exemplo, para contrariar o conceito. Para Gropius e seus asseclas, a forma deveria seguir a função, mas com dignidade estética. Eles queriam que a sua chaleira ou a sua cadeira fossem obras de arte produzidas em série. Forma com função, arte utilitária. Immanuel Kant, por outro lado, postulava que a arte demanda que o indivíduo deixe de querer usá-la ou possuí-la como uma ferramenta. Já Nietzsche via na arte o grande estimulante da vida, a força dionisíaca que nos resgata da sobrevivência morna.

Mais ou menos próximo a Nietzche nessa não-briga filosófica está Charles Rennie Mackintosh, designer e artista escocês. Seu vitral “The Spirit of the Rose” é a materialização desta crença. Segundo ele, a vida é uma planta: a “folha verde” é o suporte, mas a “flor” é o objetivo. A “flor” é a manifestação mais bela, colorida e sublime da planta. É a transcendência do prático. É a arte. Que só existe, obviamente, se existir a vida prática. Essa explicação, inclusive, é parte de uma palestra de Mackintosh, que começa com (ruflem os tambores) “The Art is The Flower”.

O novo The Macallan Art is The Flower é inspirado no Spirit of The Rose. A ilustração da caixa – que se abre como duas portas de correr – é parte do vitral, e a prelação está transcrita em seu interior. De acordo com a marca, o whisky foi respeitavelmente criado para celebrar a circularidade da natureza, apresentada no painel. A The Macallan até mesmo produziu uma série de curtíssima-metragens para explicar todo o storytelling do whisky, com a participação de artistas, arquitetos e historiadores.

Mas, agora, aos sinais vitais. O The Macallan Art is The Flower é maturado em barricas de carvalho europeu de ex-jerez, selecionadas por suas características de frutas secas, figos, cerejas, amêndoas e pimenta do reino. De acordo com a marca, a ausência de uma idade declarada tinha como objetivo, justamente, permitir mais liberdade de escolha por seus whiskymakers – algo já explorado pela destilaria em sua finada 1824 Series.

Mas o que mais chama atenção no The Macallan Art is The Flower é sua graduação alcoolica. Saudáveis 50,4%. A curiosa fração é mais um “easter egg”: uma homenagem ao grupo de Mackintosh “The Four”. É um dos The Macallan com maior ABV à venda no Brasil, lado a lado com os Classic Cut. Mas – ao menos pelo palpite deste Cão – é um whisky bem mais maturado e polido.

A obra de Mackintosh

Sensorialmente, o The Macallan Art is The Flower cumpre justamente o que promete. Frutas secas, passas, tâmaras e um final seco e apimentado. O álcool, porém, é muito bem integrado. Aqui, reminesce de outro The Macallan. O Edition Number 3, que também trazia bastante pimenta do reino em sua finalização, muito provavelmente, por conta de barricas de carvalho europeu de primeiro uso.

No final, o The Macallan Art is The Flower nos apresenta um dilema, que flerta justamente com o utilitarismo da arte. Fechado em uma estante, ele é objeto de apreciação – para alguns, apenas um objeto, para outros, uma obra de arte. Ao ser aberto, cumpre sua função, mas deixa de existir. É engraçado, porque sua utilidade pressupõe sua destruição. Cada gole é um ato de vandalismo estético e, ao mesmo tempo, o cumprimento de sua finalidade utilitária. Mas talvez o objetivo seja mesmo aquele da arte. Transcender a vida prática.

E não, não vou dizer que ele terminará no urinol. Sejam melhores que isso.

THE MACALLAN ART IS THE FLOWER

Tipo: Single Malt

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 50,4%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com frutas secas e cereja.

Sabor: Tamaras, frutas secas, ameixa. Finalização longa, seca e levamente apimentada.

Visita à Angel’s Envy Distillery

A aposentadoria é uma invenção ofensiva para muitos. Ela parte do princípio de que, depois de certa idade, o ser humano deveria se dedicar a coisas como jardinagem, palavras cruzadas e discussões sobre colesterol. É um conceito que exclui a classe do workaholic funcional. Que, ao se ver livre de reuniões, metas e relatórios, começa a procurar problemas novos apenas para não morrer de tédio. Para esse tipo de pessoa, descansar é uma forma de falência moral. Um destes é Lincoln Henderson, fundador da Angel’s Envy — destilaria que visitei em minha última viagem a Louisville.

A história da Angel’s Envy é recente. Ela foi fundada por Lincoln e seu filho Wes. Lincoln trabalhara por mais de 40 anos na indústria do bourbon, especialmente com a Woodford Reserve, e se aposentara em 2004. Naquela época, já fazia parte do Bourbon Hall of Fame e havia poupado um bom dinheiro. Mas, como era o caso de qualquer workaholic, achou que a vida estava boa demais pra ele e resolveu se aventurar num novo projeto.

A ideia da dupla era explorar um interesse em comum: whiskies americanos com finalizações em barricas pouco ortodoxas. Lincoln, inclusive, fora um dos precursores da técnica, enquanto trabalhava para a Woodford, tendo criado o (delicioso, em minha singela opinião) Woodford Reserve Sonoma-Cutrer Finish, finalizado em barricas de vinho tinto da vinícola pertencente à Brown-Forman.

Um dos melhores bourbons que já provei

Após um período de teste, em 2010, Lincoln e Wes lançaram a Angel’s Envy. O produto inaugural foi o bourbon, finalizado em barris de vinho do porto ruby. A princípio, a marca não possuía uma destilaria própria. Eles compravam whiskies — rye e bourbon — de outras produtoras, como a MGP, e finalizavam nos barris escolhidos a dedo por eles. O projeto rapidamente evoluiu e, em 2013, pai e filho inauguraram a Angel’s Envy, uma das únicas destilarias cem por cento operacionais do Whiskey Row — no coração de Louisville.

Deixe-me explicar isso, porque é importante. O Whiskey Row é uma avenida em Louisville, que reúne algumas das mais famosas destilarias de whiskey do Kentucky. Porém, boa parte delas não é totalmente operacional – funcinam apenas como um posto avançado, para receber turistas e promover as marcas. A Angel’s Envy não. Ela está realmente e (quase) totalmente lá. Este fato, ligado à localização privilegiada, e aliado à conveniente proximidade de meu hotel, que me fez decidir visitar a destilaria.

COMO É O TOUR?

Ainda que autêntica, visitar a Angel’s Envy é uma experiência bem mais turística do que qualquer destilaria escocesa. O lugar foi planejado para receber viajantes. O alambique fica numa espécie de vitrine de vidro, que pode ser vista da rua, e a sala dos washbacks é bem cenográfica, com guarda-corpos bonitinhos e pé-direito triplo. O acesso se dá pela escada de emergência, mas mesmo essa parte é bem cuidada e decorada.

Cenográfico

Há diversos níveis de tour. No mais sofisticado, o participante pode engarrafar o próprio bourbon. Não foi este que fiz, porque meu horizonte de planejamento é de apenas quatro horas (exceto para comida; aí eu sei até o que vou jantar amanhã) e não havia mais vaga. Então, peguei a experiência mais simples. Ela começa no centro de visitantes, em frente a um enorme portão que parece a entrada para o paraíso. Ali, o guia explica um pouco da história da marca e algumas informações básicas sobre a produção de bourbon. O portão então, de forma meio dramática, é aberto, e a destilaria é revelada.

A Angel’s Envy não esconde, em nenhum momento, sua inspiração na Woodford Reserve. A mashbill usada em seu bourbon é a mesma: 72% de milho, 18% de centeio e 10% de cevada maltada. A mistura é moída, cozida e misturada com o sour mash da fermentação anterior. Em seguida, recebe as leveduras, que a fermentam por aproximadamente 70 horas — o que também é parecido com a Woodford. Há uma serpentina com água fria dentro dos washbacks, que reduz a temperatura do mosto e auxilia na fermentação.

O resultado é uma cerveja bem rudimentar, com 10% de graduação alcoólica. Neste ponto, o guia permite que provemos a iguaria. Ninguém do meu grupo se voluntariou — exceto, óbvio, por mim. Afinal, nem toda experiência recompensadora é deliciosa. O sabor é doce e levemente azedo. O mosto provado estava ali havia mais ou menos um dia — o que significa que, nas próximas trinta e tantas horas, a tendência é que azede e ganhe mais álcool.

Washbacks à direita, no amplo salão da Angel’s Envy

Este mosto fermentado é então bombeado para um destilador de coluna ligado a um doubler (não um thumper, como seria o caso da Jack Daniel’s). O resultado é um new-make spirit, ou white dog, de aproximadamente 69%. Esse líquido é então diluído até 62,4%, e embarrilhado. Todo esse processo é feito dentro da própria Angel’s Envy.

A maturação é o único estágio que ocorre longe do Whiskey Row. Os armazéns, ou rickhouses, da marca ficam no condado de Henry, aproximadamente 70 quilômetros da destilaria. Lá, as barricas descansam entre quatro e dez anos. Depois de certo período, algumas barricas são combinadas, e o líquido restante — deduzida a famosa parte dos anjos — é colocado em barris de vinho do porto ruby, comprados de alguma vinícola misteriosa de Portugal. O tempo de finalização é incerto, mas leva, em média, cinco meses.

Por fim, estes barris são misturados e diluídos até a graduação de engarrafamento, de 43,4% para o bourbon. Neste estágio, o whiskey já está de volta à destilaria em Louisville, que possui uma linha de engarrafamento bem extensa. O equipamento é importado da Alemanha e, de acordo com nossa guia, é um dos melhores do mercado. Uma informação pouco condizente com o que acontecia naquele dia, quando oito funcionários, chaves de fenda e alicates na mão, olhavam com decepção para um motor todo aberto. A linha, inerte.

E agora pra saber qual parafuso caiu?

OS FINALMENTES

Depois de visitar os alambiques e a linha de engarrafamento, fomos conduzidos novamente ao centro de visitantes, para degustar três expressões de Angel’s Envy, harmonizadas com três chocolates diferentes, todos produzidos por uma empresa de Louisville. O tour termina no bar da Angel’s Envy, que dá oportunidade de provar alguns coquetéis feitos com os whiskies da marca, além de algumas edições limitadas raras do passado. Vale a pena reservar meia hora – e um pouco de fígado – para isto.

Saí de lá com a impressão que havia conhecido, ao vivo, Lincoln Henderson. Quando ele se aposentou, não aceitou que aquele seria o fim de seu trabalho. A Angel’s Envy foi, para ele, como aquelas últimas cenas de pós-créditos de um filme, que explicam muita coisa e abrem espaço para uma sequência. Ela não era ruptura com o que fazia antes, mas, sim, continuidade. E é bom saber que seu legado segue sendo destilado.

Prince of Wales – Reveillon

Tá quase acabando. Foram uns seis meses de Negroni Month. E umas vinte e sete Black Fridays, sendo que nenhuma valeu de verdade. Teve atrocidades como Labubu, bebê reborn e morango do amor. Mas está em seus derradeiros momentos, ainda que, sinceramente, preveja uma igual dose de barbaridade para o ano vindouro.

A vantagem é que, entre os dois, tem uma noite. O reveillon. Que segue mais ou menos o mesmo rito reconfortante – chegar em algum lugar, beber, comer algo, beber mais, cinco quatro três dois um ê, tomar mais uma taça de espumante e dormir de costas, com um só pé no chão para o mundo não girar, respirando pela boca.

Neste ano, porém, para quebrar, ou talvez, intensificar este ciclo, proponho um drink. Feito com alguns ingredientes bem comuns de festas de ano novo, dentre eles o onipresente espumante. O – nem tão – famoso Prince of Wales.

A história do Prince of Wales – a pessoa e o drink – podem ser encontradas no livro Imbibe, de David Wondrich. O coquetel fora criado pelo próprio príncipe de Gales, Albert Edward, filho da rainha Victoria. Acontece que as matriarcas reais britânicas tendem a viver bastante. O que torna o reinado de seus filhos um tanto curtos e tardios, como é o caso do atual Rei Charles e de seu tataravô, Albert Edward, que foi coroado apenas aos 60 anos de idade.

Edward

Antes disso, Edward, que, assim como Charles, era o prícipe de Gales, trabalhou oficialmente como representante internacional da coroa britânica. E, não oficialmente, como um playboy que viajou e bebeu o mundo inteiro. Era um apreciador de coquetéis com champagne, e foi autor de alguns “riffs” do champagne cocktail. Em 1860 ele visitou os Estados Unidos. O resultado da viagem foi este drink – o que explica por que um coquetel batizado com o título de um monarca britânico usa Rye Whiskey de base.

Existem algumas variações do Prince of Wales por aí. A mais clássica pede um torrão de açúcar e angostura bitters, bem como um pedacinho de abacaxi. A ideia é próxima de um classic champagne cocktail ou old fashioned – imbeber o torrão no bitter e marcerar – com a diferença que a técnica aqui precede um shake com um pedacinho de abacaxi. Este Cão não vê nenhuma boa razão para usar um torrão de açúcar ao invés de xarope de açúcar. O restante do ritual, porém, deve ser seguido, e será explicado no prólogo desta matéria.

Essa imagem será explicada em breve.

Algumas notas rápidas. David Wondrich diz que se pode usar abacaxi enlatado ao invés de fresco. O que até faz sentido fora do Brasil, mas, aqui, nenhum. Então, atenha-se a fruta original. A receita original pede champagne, mas sabemos que a maioria de nós beberá um espumante brasileiro ou uma cava durante as festividades e não há nenhum problema em utilizá-los. Nem todo mundo nasceu na família real britânica. Apenas tente escolher algo não muito doce. Nada de moscatel ou um lambrusco safado aqui.

Por último, escolha um rye decente. Este Cão utilizou Sazerac, mas um High West também fará maravilhas. A nota mentolada e apimentada do rye é a chave para equilibrar o drink. Por isso, um bourbon fará menos sentido neste caso – mesmo que seja um de high-rye mashbill.

Uma dica final, para os afoitos Millenials como eu, que não são muito apegados a manuais de instrução porque acham que já sabem operar tudo: leiam o método de preparo até o final, sob risco de encontrar pedaços de abacaxi espalhados pela casa até o ano novo seguinte. Agora, vamos ao único coquetel a figurar nestas páginas que foi criado por um sangue azul. O Prince of Wales.

PRINCE OF WALES

INGREDIENTES

  • 60ml Rye Whiskey
  • 22,5 (mais ou menos, considerando o top up médio de uma taça) de Espumante (brut, de preferência)
  • 5ml xarope de açúcar 1:1
  • 5ml Luxardo Maraschino
  • 1 dash Angostura Aromatic Bitters
  • Um pedacinho de abacaxi (meia fatia grossa, ou uma fatia fininha. É um pouco porco tirar a fatia da decoração do chester, se estiver pensando nisso)
  • Gelo
  • parafernália para bater (!)
  • taça flute

PREPARO

  1. Adicione o pedacinho de abacaxi e macere, com a ajuda de um macerador (ou qualquer coisa que você tenha aí para amassar outras coisas e seja higiênico. Não, não recomendo o cabo de um martelo)
  2. adicione gelo, o rye whiskey, o Luxardo, o xarope de açúcar e os bitters. Jamais, nunca, nem pense em adicionar o espumante. Se você fizer isso, passará o ano novo limpando o teto da sua sala ou cozinha de pedaços de abacaxi, depois do shaker explodir na sua mão.
  3. Desça o conteúdo para uma taça flute
  4. complete com o espumante.

6 Whiskies para dar (e receber) de natal em 2025

Observo a fila de carros parados, que faz curva até a outra esquina, onde fica a entrada do estacionamento do shopping. Você já sabe o que vai dar para a sua mãe? – indaga a cã, ao meu lado. Não sei, mas do jeito que tá indo rápido essa fila, o presente vai ser pro natal do ano que vem, retruco. Ela vira a cara, e ouço uma bufada. Nenhuma resposta. Olho pela janela do carro e vejo um cara fantasiado de papai noel, dentro do shopping, sentado numa poltrona cercada de neve artificial. Tá ruim pra mim, mas pra ele, tá certamente pior, penso. Natal é época de agradecer mesmo.

Acho uma tremenda sacanagem. Tudo remete ao frio. Mas no Brasil, o natal quase sublima tudo. Ele escorre pela nuca suada como se o Papai Noel tivesse desistido do trenó e viesse a pé, soturno, tropeçando nas poças de derretimento humano. Se em algum canto do hemisfério norte crianças montam bonecos de neve, aqui a gente só é cozido lentamente enquanto finge alegria familiar.

E eu sei que beber whisky na temperatura do penúltimo círculo do inferno dantesco não é exatamente uma atividade gostosa. Especialmente cercado da turma que você ignorou o ano inteiro. Mas receber – e presentear – whisky é ótimo.

É quase um voto de esperança de que, em breve, o inverno chega novamente, e a gente para de sentir aquelas gotinhas se precipitando embaixo do braço, mesmo imóveis. E pode trocar os parentes por ficar sozinho no escuro. Pensando nisso, preparei uma lista de seis novidades no Brasil. Divididas por preço, do mais barato pro mais caro, para agradar a todas as carteiras – e presenteados.

Vamos a eles.

Wild Turkey 101

Esse não é bem uma novidade, mas é um retorno. Seu maior diferencial é a pequena diluição entre a saída dos barris e o engarrafamento.  A maioria das destilarias americanas embarrilha a 62,5% (125 proof), – que é o limite legal superior. Na Wild Turkey, porém, isso acontece aos 57,5% (115 proof). O whisky é então cortado até chegar a 51% – é uma diferença pequena. O que significa um sabor mais pungente de madeira.

O Wild Turkey 101 possui sabor adocicado e ao mesmo tempo picante, com caramelo e mel. O final é médio, seco e também picante. Custa uns R$ 180.

Sazerac Rye

Este whiskey é quase sinônimo de Rye Whiskey, nos Estados Unidos. O Sazerac Rye é produzido pela Buffalo Trace Distillery, e traz um adocicado de açúcar mascavo, com cravo, pimenta, canela e hortelã. Não é um rye “old-school”. Ele troca pungência por equilíbrio e versatilidade. Isso o faz perfeito para os coquetéis clássicos, mas, também, excelente para se beber puro.

A mashbill do Sazerac Rye não é divulgada oficialmente – a Buffalo Trace, proprietária da marca, é bem reservada quanto à receita de seus produtos. Mas, estima-se que tenha algo como 51% de centeio, 39% de milho e 10% de cevada maltada. É o estilo mais tradicional “low-rye” dos whiskies de centeio do Kentucky. Custa em torno de R$ 250.

Maker’s Mark 46

O Maker’s Mark tradicional já é um bourbon bem decente. Mas o salto de qualidade sensorial para o Maker’s Mark 46 é grande. Ele segue a mesma receita de mashbill do Maker’s tradicional – um wheated bourbon. Mas a graduação alcoolica é um pouquinho mais alta – 47%. A maturação é mais longa, e há uma finalização em barricas de carvalho americano com ripas tostadas de carvalho francês em seu interior.

Este é um ponto curioso. As ripas, ou estacas, são inseridas dentro dos barris contendo Maker’s Mark totalmente maturado. É praticamente um processo de finalização – mas cuja segunda maturação ainda acontece nos barris originais de Maker’s Mark. Isso aumenta a área de contato da madeira com o líquido, e traz um tempero novo ao whiskey.

Para este Cão, este é um dos melhores bourbons à venda no Brasil atualmente. Custa em torno de R$ 350.

Glenmorangie Tale of Spices

Essa é uma edição limitada bastante criativa. O whisky começa a vida em barris de carvalho americano de ex-bourbon – algo bem comum. Porém, fica mais interessante na finalização. Parte do whisky finaliza em barris de carvalho europeu que antes contiveram vinho tinto do Marrocos – algo inédito para a Glenmorangie. Outras partes são finalizadas em barricas virgens de carvalho, vinho jerez PX e famosos e polêmicos barris de vinho STR. Uma sigla para “shaved, toasted and recharred”

O resultado é um whisky levemente apimentado, com cítrtico e baunilha. Há um pouco de gengibre, noz moscada e alcaçuz no paladar, também. Custa em torno de R$ 750, e, sinceramente, vale cada centavo disso.

The Macallan Vibrant Oak

O The Macallan Vibrant Oak é uma edição limitada, criada em parceria com o Cirque du Soleil A maturação acontece em barris de carvalho americano de primeiro uso de jerez, e refil de ex-jerez. Lembra um pouco o The Macallan Amber, mas um pouco mais apimentado. A The Macallan não diz claramente se carvalho europeu é utilizado no whisky. Porém, pelo perfil de cor – que é natural – e sensorial, a predominância é da madeira americana.

Sensorialmente, o The Macallan Harmony Vibrant Oak traz notas de baunilha, caramelo e frutas secas, com apimentado e gengibre. É mais adocicado e mais intenso do que um Sherry Oak, por exemplo. O final é médio e apimentado, com especiarias e mel. Não é um perfil sensorial muito frequente nos The Macallan, especialmente, não nos últimos anos. Custa em torno de R$ 2.200

Yamazaki 18 anos

Este foi escolhido como melhor whisky do mundo (Supreme Champion Spirit) pela ISC (International Spirits Challenger), em 2026. Tê-lo no Brasil, aliás, é um milagre. Nem países com mercado muito mais consolidado que o nosso conseguem recebê-lo. E no exterior, muitas vezes, ele é comprado com o único propósito de ser revendido – ainda mais caro. Por conta disso, o preço médio d R$ 6.500 até começa a parecer razoável.

O Yamazaki 18 anos é maturado, essencialmente em barricas de carvalho que antes contiveram vinho jerez. Aproximadamente 80% da maturação acontece em tais barris. O restante é desigualmente dividido entre barricas de carvalho americano de ex-bourbon, principalmente de segundo uso, e barricas de carvalho japonês, o famoso Mizunara. Sensorialmente, nota-se um overaging razoável. Mas nada que seja oficialmente informado pela marca.

Sobre malte, eficiência e romance

Não sou um cara muito romântico, e a Cã é testemunha disso. Foi na faculdade, quando fizemos um ano de namoro, que escrevi a primeira e última carta a mão, para ela, numa desesperada tentativa de me desculpar por ter esquecido da tal data. Na verdade, minto. Há um mês fiz outra, que terminava com “te amo“, e começava com “não se esqueça de comprar a ração do Sazerac“. A gente vai ficando mais prático com a idade, mesmo.

Também nunca a surpreendi com a música preferida dela – mesmo porque não suporto aquele kpop. Mas, pensando bem, preparo o jantar para ela frequentemente, ainda que o menu seja sempre o que eu esteja com vontade de comer, e não ela. Mas, enfim, é importante ressaltar que não ser romântico não tem nada a ver com não acreditar no romantismo, na poesia, do mundo. E nisso eu acreditava, até demais.

Por exemplo, quando resolvi abrir o Caledonia, imaginiava que meu trabalho teria uma belíssima dose de romantismo. Estudar e explicar sobre whiskies, ajudar a criar drinks deliciosos, que potencializariam a alegria no coração de meus comensais. E a realidade é quase essa, mas entremeada por uma quantidade insuportável de planilhas, boletos, DARFs, licenças e gente, espera um pouquinho aí, deixa eu pedir pra desligarem o gás porque a mangueira do broiler deve estar furada.

Trabalhar com A&B não é estressante, diz Haroldo, aos 33 anos de idade.

O mundo do whisky é meio assim, também. A gente vê – quer dizer, o marketing nos mostra – uma boa parte de romance. Os master blenders girando suas taças e analisando as minúcias de cada whisky, os washbacks borbulhando de felicidade ao fermentarem o mosto, e o new-make spirit escorrendo no spirit safe como uma cachoeira de alegria etílica. Mas, por trás, há bastante processo, padrão, minúcia. Como é o caso da produção e uso do malte.

Este é um dos assuntos mais chatos – e lindos – do mundo do scotch whisky. É tão lógico, que até faz a volta toda, e passa a ser poético. É bonito ver como a engrenagem funciona sem que ninguém de fora olhe para ela. Deixa eu explicar para vocês.

Malte, Então.

Vamos do começo. No mundo do Scotch Whisky, quando falamos “malte”, nos referimos à cevada maltada. A malteação é um processo pelo qual o grão é umedecido, para que comece a germinar. O processo de germinação é interrompido pela secagem, que ocorre pela elevação da temperatura. Quando se usa um forno alimentado por turfa, temos malte turfado. Este grão seco será posteriormente moído, cozido e fermentado, produzindo uma espécie rudimentar de cerveja – o wash.

E por falar em cerveja, os cervejólatras que porventura lerem esta matéria provavemente apontarão que “malte” pode ser de qualquer grão, porque qualquer grão pode ser malteado. E que já beberam várias cervejas de centeio, trigo, triticale, sorgo ou sei lá qual outro grão possível, maltado. E eu, sereno, responderei que sim, verdade, que nos Estados Unidos isso até acontece com algumas destilarias de whiskey, como a New Riff. Mas, no mundo do whisky, em geral, quando falamos apenas “malte”, nos referimos a cevada maltada. Ponto.

Dentro da categoria de malte, digo, de cevada maltada, há diferentes tipos, que se diferenciam especialmente pelo nível de torra. Mais ou menos como café. Exemplos são base, caramelo e chocolate. O mais amplamente usado é o malte base, pouco torrado. É o padrão da indústria, ainda que algumas destilarias tenham se aventurado com outros tipos. A experiência mais célebre neste sentido é, provavelmente, o The Glenmorangie Signet, um single malt produzido, parcialmente, com malte chocolate. É um malte mais torrado – o mesmo usado em cervejas escuras, como a Guinness. Sensorialmente, ele traz, justamente, o que o nome diz. Um sabor achocolatado, quase de café.

Signet

Por enquanto está fácil

Vamos elevar nível do whisky-geeking então. O malte é produzido de cevada maltada. Mas a cevada maltada, em si, possui centenas de varietais – que possuem cargas genéticas levemente distintas, e se comportam de formas diferentes ao serem malteadas, fermentadas ou destiladas. O paralelo natural aqui, para fins de clareza, é o mundo do vinho. Tudo é cevada, como tudo é uva. Mas dentre as uvas, temos Merlot, Chardonnay, Syrah, etc.

Durante a história do scotch whisky, centenas de variedades de cevada foram usadas. Algumas bem familiares, novamente, para os cervejólatras. Prisma, Chariot, Golden Promise e Optic, por exemplo. Mais recentemente, Concerto e Laureate. A indústria do scotch whisky tende a se voltar, de tempos em tempos, para uma determinada variedade, e depois abandoná-la em prol de outra mais nova. Uma das razões para isso é a adaptação de certas pragas a varietais que poderiam antes ser resistentes.

Mas a razão mais fundamental é o rendimento. Tanto para o agricultor, em termos de toneladas por hectare, quanto para a destilaria, em termos de litros por tonelada de malte. A complexidade do new-make spirit importa, obviamente, mas bem menos do que o rendimento. Ninguém produz whisky por caridade. Por conta disso, variedades antes amplamente usadas e muito celebradas por seus sabores e aromas – como Golden Promise, que falaremos a seguir – foram substituídas por mais novas, mais eficazes.

Golden Promise

No caso do whisky escocês, especificamente, toda variedade de cevada nova deve ser aprovada por um comitê chamado “Malting Barley Committee”, que faz parte da “Maltsters’ Association of Great Britain” – um consórcio de fazendeiros, malteadoras e destilarias que, juntas, aprovam as variedades a serem usadas no Reino Unido. A ideia é proteger a cadeia de produção, com variedades adequadas para todos os players no processo.

Atualmente a variedade mais utilizada de cevada é a Laureate, que foi aprovada para uso comercial em 2017 pelo MBC. Antes dela, Concerto e Optic predominavam. O que – fazendo uma conta meio porca de idade – significa que a maioria das garrafas que você tem aí na sua prateleira são, provavelmente, produzidas destas duas varietais.

Mas, obviamente, há também exceções aqui. Um exemplo é o Yamazaki Golden Promise, single malt japonês produzido com a alardeada cevada da década de sessenta. Não seria exagero, inclusive, dizer que há uma tendência entre alguns produtores de resgatar variedades mais antigas. A Bruichladdich já fez isso diversas vezes – como com seu Bere Barley – e a (quase) finada Waterford Distillery também. O que talvez indique que a tendência atende pelo nome de Mark Reynier.

E o sabor, não faz diferença?

Não é que o sabor não importa. Mas a prioridade, em termos de sabor, é padronização, e não aperfeiçoamento. Ocorre que a indústria deve poder mudar de uma variedade para outra sem trazer impacto no sabor para o consumidor final. Então, o objetivo, quando se desenvolve uma nova variedade, não é melhorar o sabor, mas sim mantê-lo igual, elevando o rendimento. Isso garante padrão, que é extremamente importante, especialmente para os grandes produtores.

Por fim, o uso de uma ou outra variedade deve, fatalmente, acompanhar as mudanças climáticas. Variedades menos resistentes ao aquecimento global, ou a grandes variações climáticas, tendem a desaparecer. A produção de malte é um negócio. E como tal, com riscos inerentes. Mas é papel da indústria mitigar estes riscos e proteger a cadeia produtiva.

No fim das contas, a história das variedades de cevada no whisky é menos uma epopeia sensorial e mais uma narrativa de eficiência, ainda que alguns rebeldes tentem o contrário. É por isso que, apesar do romantismo de nomes como Golden Promise e Bere Barley, o copo que você levanta hoje provavelmente nasceu de uma cevada moderna, pragmática e silenciosamente competente.

E está tudo bem. No whisky, como em um relacionamento longo, o romance às vezes vem justamente daquilo que permanece igual, mesmo quando tudo por trás muda o tempo todo.


Leituras interessantes sobre o tema:

Glenmorangie Tale of Spices – Das Índias

Tom Hardy tem algumas séries bem legais. Mobland, por exemplo, que no começo parece mais uma série genérica de gângsteres — e depois confirma justamente a primeira impressão. Mas com suspense, ação e um ritmo impecável. Outra é Taboo. Hardy interpreta James Delaney, um ex-marinheiro britânico meio místico e totalmente desajustado. Ele desafia o governo e a Companhia das Índias Orientais por conta da herança de seu pai: um pedaço de terra chamado Nootka Sound.

A parte mais interessante da série é o retrato da Companhia das Índias Orientais. Ela aparece como uma corporação militarizada, quase um estado paralelo. Eles espionam, assassinam, compram juízes, torturam gente, afundam navios e reorganizam o parlamento. Tudo isso para controlar rotas comerciais de escravos, sal, pólvora e, principalmente, as especiarias.

Acho engraçado — e, ao mesmo tempo, profundamente ofensivo e cínico — perceber que a humanidade moveu frotas, assassinou povos e redesenhou mapas para que, séculos depois, eu temperasse arroz com Sazon, enquanto a noz-moscada e a pimenta-do-reino observam, incrédulas, sua irrelevância. Isso sem mencionar o curry, que eu comprei, venceu em 2022 e eu nem abri.

E ainda assim, de vez em quando, surge um líquido que devolve alguma dignidade ao legado das especiarias. É o caso do The Glenmorangie Tale of Spices. Ele é a sexta edição limitada da série de “Tales” (ou, traduzindo de uma forma pouco fiel, Fábulas) da Glenmorangie. A série evoca aromas e sabores inspirados em alimentos e locais. As edições anteriores são Cake, Winter, Forest, Tokyo e Ice Cream. O que é engraçado e aleatório, e me faz acreditar que qualquer coisa pode virar um Tale pra Glenmorangie.

A tale of wet socks. Ah, calma, esse já é Ardbeg.

O Tale of Spices é uma das criações mais complexas do maluco Dr. Bill Lumsden, diretor de criação de whiskies do grupo Louis-Vuitton Moet Hennessy – sim, a Glenmorangie é do mesmo grupo das bolsas de grife – e o master blender Gillian MacDonald. O ponto de partida é normal, barris de carvalho americano que antes contiveram bourbon – o arroz e feijão (temperados com glutamato?) do mundo do whisky.

Mas, depois, a história fica mais maluca. Parte do whisky finaliza em barris de carvalho europeu que antes contiveram vinho tinto do Marrocos – algo inédito para a Glenmorangie. Outras partes são finalizadas em barricas virgens de carvalho, vinho jerez PX e famosos e polêmicos barris de vinho STR. Uma sigla para “shaved, toasted and recharred”, uma técnica de, diremos assim, rejuvenescimento da madeira, atualmente bem usada pela indústria.

O resultado é surpreendente, da melhor forma possível. O aroma é clássico da Glenmorangie, com um cítrico doce, e baunilha. Mas no paladar, é muito mais. Há um pouco de gengibre, noz-moscada, pimenta, menta e – um dos aromas que mais me agrada em whiskies – anis e alcaçuz. O equilíbrio é bem interessante, também, porque as especiarias estão claramente lá, mas não são intensas o suficiente a ponto de dominar completamente o sabor. A graduação alcoólica, de 46% ajuda nessa impressão.

STR

No Brasil, uma garrafa do Tale of Spices custa, mais ou menos, R$ 700. É um excelente preço, considerando a natureza limitada do lançamento, e sua complexidade. É também coerente com o preço cobrado pelos demais whiskies da linha, disponíveis no Brasil. O que, aliás, merece aplausos. A marca expandiu bastante seu portfólio em nosso país, no último ano, e trouxe whiskies excepcionais e bastante exclusivos, como o 18 anos e o Signet.

O grande truque do Tale of Spices é, praticamente, o mesmo das especiarias no século dezenove. Trazer intensidade, personalidade e exclusividade para o sabor. É curioso e reconfortante encontrar um whisky com perfil clássico e inovador ao mesmo tempo – e que não é só mais um frango temperado com glutamato monossódico, envolvido numa bela embalagem de marketing vazio. E, honestamente, se a Companhia das Índias Orientais tivesse conhecido o Tale of Spices, talvez tivesse poupado a humanidade de algumas guerras.

GLENMORANGIE TALE OF SPICES

Tipo: Single Malt Scotch Whisky

Destilaria: Glenmorangie

Região: Highlands

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: frutado, cítrico, baunilha, anis.

Sabor: adocicado e frutado no começo. Rapidamente se torna apimentado e floral, com gengibre, noz-moscada, pimenta e menta.

Midnight Stinger – Reincidência

Na semana passada, viajei com a Cã para Barcelona. Visitamos mais de meia dúzia de bares, e comemos muito bem. Fizemos os programas de turista também, claro. E nas escadarias da Sagrada Família, depois de ter também visitado a Casa Batlo, me veio uma reflexão. Ninguém mais lembra do Gotye.

O cara foi um estouro. Sampleou o Luiz Bonfá, chamou a Kimbra – aliás, quem? – pra cantar e depois foi sublimado da cena musical. Nada, nenhum outro sucesso, notícia. Somente silêncio e ostracismo. O Gaudí, no entanto, todo mundo quase sabe quem é.

Acontece que certos criadores têm o azar de se tornarem – relativamente – conhecidos por uma única ‘obra’. Outros, como Gaudi, emplacam uma série inteira de marcos, como se cada projeto fosse inevitavelmente destinado a virar referência. O cara foi tão importante que até a Cãzinha, com seus dez anos de idade, estudou suas obras arquitetônicas na escola.

No balcão, com certa hipérbole, um paralelo possível é Sam Ross. O australiano nos deu o Penicillin, discutivelmente o mais clássico dos new age classics; e o Paper Plane, que se alastrou pelos bares do mundo mais rápido do que a música que lhe inspira. E, como se já não bastasse, também o Midnight Stinger — um terceiro (ou quarto, porque tenho a impressão de ter esquecido algo) novo clássico, que parece ter sempre existido.

Ross

Assim como o Penicillin nasceu de um Gold Rush, e o ponto de partida do Paper Plane foi o Last Word, o Midnight Stinger teve, também, um clássico que lhe inspirou. Ou melhor, dois. O primeiro é bem mais óbvio do que parece. O Whiskey Sour. O segundo – e como o nome sugere – é o Stinger: uma mistura de conhaque e licor de menta.

É divertido até pensar na árvore genealógica da birita: o Stinger é um coquetel pré Lei-Seca norte americana, que trazia um certo frescor ao conhaque. Mas, eminentemente, um drink pesado, álcool-no-álcool, como a maoria das combinações daquela época. Trazê-lo ao mundo novamente, em forma de um whiskey sour, e trocar o licor de menta por algo também mentolado, mas não tão ostensivo, faz todo sentido. Mas, ainda assim, é genial.

Devo, aqui, fazer uma ressalva importante sobre o bourbon. Um whiskey com muito centeio ressaltará a nota de hortelã do coquetel, e o tornará mais apimentado. Uma das notas-chave dos rye whiskey é, justamente, um herbal mentolado. Isso pode ser bom, mas, se passar do ponto, remontará higiene bucal mais do que um drink. Então, prefira low-rye ou wheated bourbons, como Buffalo Trace e Maker’s Mark.

De todo modo, creio que aqui está o real mérito da coisa. Não basta levantar um prédio — ou um copo — que chame atenção por um instante. O feito está em criar algo que se torna parte da paisagem, tão natural que parece sempre ter estado ali. Com vocês, o Midnight Stinger.

MIDNIGHT STINGER

INGREDIENTES

  • 60ml bourbon Whiskey (Maker’s Mark ou Buffalo Trace)
  • 60ml Fernet Branca
  • 45ml limão siciliano
  • 45ml xarope de açúcar
  • parafernália para bater
  • copo baixo
  • gelo

PREPARO

  • Bata todos os ingredientes (menos o copo) numa coqueteleira com bastante gelo
  • Desça em um copo baixo, com gelo, e decore com um ramo de hortelã
  • se puder, use gelo britado para cobrir o gelo do copo