Method and Madness Single Pot Still

Esses dias sonhei que tinha ido a uma festa, de pijama. Caso você não tenha se atentado ao artigo, deixe-me ressaltá-lo. Não uma festa do pijama, o que já seria bem estranho na minha idade. Mas uma festa convencional, só que vestindo um pijama. Aliás, um desses bem clássico, listradinho, com um calção azul marinho.

No sonho, eu parecia ser o único ciente de que estava com roupa de dormir. O que, independente da opinião alheia, me dava bastante vergonha. Tentava me convencer que podia ser pior. Que eu podia estar fantasiado. Fantasiado de frentista de filme pornô ou de Barney – o dos Flintsones, claro, não o Stinson. Mas aquilo não adiantava. É uma espécie de sentimento de reluzente inadequação.

Fiquei pensando, depois, como seria se isso acontecesse no mundo real. Se eu fosse de pijama pro trabalho, por exemplo. Imagino que as pessoas me mandariam para casa, ou me dariam algo pra vestir. Ou secretamente tirariam fotos para postar nas redes sociais. Ou, talvez, me respeitassem. Eu estaria lá, vestido confortavelmente para desafiar tradições e mostrar que eu poderia ser melhor usando pijamas.

Se elas podem, eu posso.

Talvez o pessoal da destilaria irlandesa Midleton tenha sonhado isso também. Ou talvez tenham simplesmente decidido, após uma noite bem dormida, desafiar tradições. Porque acabaram de lançar um Irish Whiskey que não é finalizado em barricas de carvalho europeu de ex-jerez. Nem ex-porto. Tampouco em carvalho americano de ex-bourbon. Ou carvalho virgem. Ou simplesmente carvalho. Ele é finalizado em (preparem-se para o choque) barricas de castanheira.

Convenientemente batizado de Method & Madness Single Pot Still, o whiskey é maturado em uma combinação de barricas de carvalho que antes contiveram vinho jerez e bourbon, para ser finalizado, por um período não divulgado, em barricas de castanheira (french chestnut, em inglês, mas para uma tradução mais exata para nós, castanha portuguesa).

Talvez você esteja em dúvida sobre o conceito. Então deixe-me abrir um parêntesis proveribal para explicar. Whiskeys irlandeses single pot still são diferentes de single malts. A denominação indica que o whisky foi destilado em alambiques de cobre, à moda dos maltes. Porém, cevada maltada e não maltada foi utilizada em sua receita – ao contrário do que seria um single malt, que utiliza apenas cevada maltada.

De volta ao Method & Madness Single Pot Still. Nas palavras da destilaria “Method & Madness (Método e Loucura) é uma marca de whiskey nascida das mentes dos mestres e aprendizes na Midleton. (…) Quando mentes colidem, criações incríveis podem surgir (…). Haverá tentativas, erros e brilhantes avanços engarrafados, que nasceram da indagação “e se?”. (…). A inovação não é novidade para o Midleton, mas a nova microdestilaria forneceu a tela de cobre para a livre experimentação. Os whiskeys que saem deste playground de destiladores proporcionam um novo sabor da história do Irish Whiskey.

Alguns whiskeys da linha Method & Madness

E sobre o lançamento  “Um single pot still maturado em barricas de castanha, uma combinação daquilo que sempre fizemos na Midleton, e o que nunca havíamos tentado antes. Não é sempre que desviamos do tradicional carvalho, mas uma pequena bebericada sugere que este desvio valeu a pena”. Aliás, a linha Method & Madness é consistente com o conceito

O Method & Madness Single Pot Still é um whisky picante, com aroma de amêndoas (ou serão castanhas?), e levemente floral. Ao experimentá-lo, me peguei em mais de um momento tentando separar, em minha cabeça, o que seria influência do tradicional carvalho e qual teria sido a contribuição da castanheira para o whiskey.

Imagino que a graça seja justamente essa. A curiosidade e a indagação. Seja como for, o Method & Madness Single Pot Still é um whiskey interessantíssimo, que vale a pena ser experimentado. E – vá por mim, eu testei – ele fica ainda melhor se você estiver usando pijamas.

METHOD & MADNESS SINGLE POT STILL IRISH WHISKEY

Tipo: Irish Whiskey

Destilaria: Midleton

País: Irlanda

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Amêndoas, floral, grama.

Sabor: Picante, com mais amêndoas (castanhas?), e um final leve de alcaçuz, bastante picante.

Gadgets de Barris de Whisky Usados

Reencarnação. Transmigração. Metempsicose. Palingênese. O desagravante conceito da vida após a morte. A crença que, de alguma forma, parte de nosso efêmero ser perdure mesmo após o derradeiro suspiro. Conceito chave em muitas religiões e, obviamente, vividamente presente neste belíssimo sincretismo religioso do povo brasileiro.

Eu, para falar a verdade, tenho minhas dúvidas. Uma vez uma mulher me parou na rua e disse que eu era a reencarnação de Winston Churchill. Eu sorri, porque claro, aquilo era quase um elogio. Mas desacreditei. Minha senhora, só sou a reencarnação de Churchill na parte do whisky, porque, como líder, sou um lixo. Não consigo nem mandar meu cachorro se aliviar no jardim, quiçá conduzir uma nação numa época bélica.

E ainda que eu duvide do conceito relacionado ao ser humano, não tenho a menor dúvida que ele se aplica ao whisky. Ou melhor, aos barris de whisky. É que, a cada ano, a Escócia deixa de utilizar mais de vinte mil barricas, que, exauridas, não conseguem mais transferir seus tão desejados sabores ao destilado. Porém, isso não significa que não possam ser utilizados de outras formas. Como, por exemplo, para decoração. Transformados em pé de mesa ou vaso de plantas, por exemplo.

Tudo Jack (foto: DrinkIT)

Mas mesmo aí há formas bem criativas e inovadoras de se reutilizar um barril que já cumpriu sua função. Juntamos aqui cinco delas. De pranchas de surfe de single malt a óculos de irish whiskeys, aí vão cinco objetos de desejo absolutos para um amante de whisky. E o melhor – feitos com o casco que dá vida à melhor bebida do mundo.

JACK DANIEL’S PERFECT GIFT GUITAR

O que traduz melhor o espírito de liberdade norte-americano incarnado pela Jack Daniel’s que não Rock n Roll? Foi com essa proposta que a mundialmente famosa marca de Tennessee Whiskey desenvolveu, em parceria com o designer Matias Flocco, de Buenos Aires, uma Guitarra especial.

O instrumento é feito com barris que foram previamente usados para maturar Jack Daniel’s, e faz parte de um projeto semelhante àquele da Glenmorangie, que conta também com uma prancha e uma bicicleta.

Nas palavras de Luiz Schmidt, diretor de Marketing da Brown Forman para a América do Sul “Cada um desses barris conta um pouco de nossa história, revela nossa essência e diz como acreditamos que o nosso jeito de fazer whiskey pode até não ser o mais fácil, mas é o jeito Jack, feito da mesma forma e na mesma destilaria há mais de 150 anos

TOCA DISCOS LINN E HIGHLAND PARK

Talvez você goste daquele programa clichê, que envolve jazz, vinil e um bom single malt. Não há nada de errado com isso. Clichês são assim porque realmente funcionam. Adicione um charuto, então, que você será o maior lugar comum do mundo. Mas certamente um bem satisfeito.

Sabendo deste – delicioso – hábito, a destilaria Highland Park firmou uma parceria com a Linn, famosa marca de aparelhos de som de luxo, para produzir um toca-discos que utiliza barricas de carvalho espanhol de ex-jerez, que maturaram o single malt. Junto com ela, o afortunado (literalmente) comprador, leva ainda uma garrafa de Highland Park 40 anos.

O preço total da brincadeira é 25.000,00 libras. Isso que é um clichê caro.

GLENMORANGIE SURFBOARD

A prancha da Glenmorangie leva a frase “surfar na onda dos single malts” a um nível completamente novo. Ela é uma parceria entre a destilaria e a Grain Sufboards, da cidade de Maine, nos Estados Unidos, e faz parte de um projeto chamado Beyond The Cask, que usa barricas exauridas de forma criativa.

Cada uma das pranchas usa 12 ripas de barricas previamente usadas pela Glenmorangie para maturar seu whisky, além de um revestimento especial de madeira de cedro. O preço, porém, é tão salgado quanto o mar em que ela será colocada. U$ 5.500,00 cada.

 

ÓCULOS SHWOOD E BUSHMILLS

Se você ficou de ressaca mas não quer largar o whiskey nem por algumas horas, aqui está a solução de seus problemas. Óculos escuros da marca american Shwood, feitas em parceria com a destilaria irlandesa Bushmills.

Os óculos escuros são feitos com barricas de carvalho americano de mais de cem anos, que foram utilizadas para maturar Bushmills. E, para completar, lentes escuras Carl Zeiss. O preço deste verdadeiro escudo conta a fotofobia trazida pela veisalgia é U$ 225,00.

AMPLIFICADOR FENDER 80 PROOF BLUES JUNIOR

Realmente, a música é a melhor harmonização para um bom whisky. Num espírito semelhante àquele da Jack Daniel’s, a mítica Fender produziu uma edição limitada de amplificadores, com barricas de bourbon usadas, garimpadas de diversas destilarias. São apenas cem peças no mundo todo.

De acordo com a Fender, assim como acontece com barricas, não há dois amplificadores visualmente idênticos. As marcas características das barricas usadas ficam à mostra. E quando ligado e propriamente aquecido, é até possível sentir o aroma do whisky emanando dos poros do carvalho.

O preço desta aromática e musical peça? U$ 1.999,00.

 

Drops – Bowmore Feis Ile 2008

Você sabe o que é a Feis Ile? Feis ile é a maior festa anual da ilha de Islay, famosa pela produção dos whiskies turfados. Feis Ile celebra a cultura de Islay. Há aulas de gaélico, peças tradicionais, campeonatos de golfe e boliche e infinitas degustações de whisky. Há também uma miríade de atividades curiosas. Como, por exemplo, observação pública de aves e campeonato de pesca com mosca, além de shows de grupos de folk-rock. Mas nada disso é muito importante. O importante são as garrafas comemorativas.

Para a Feis Ile, as destilarias de Islay costumam lançar edições limitadas comemorativas, muitíssimo concorridas por colecionadores – e por certas lojas, que preferem comprar direto da fonte e guardar as garrafas, para que valorizem. Por conta disso, durante a festa, a ilha é invadida por centenas de turistas e entusiastas da melhor bebida do mundo. Alguns chegam a acampar do lado de fora das destilarias para ter a chance de colocar as mãos em uma dessas edições.

Outros, porém, tem mais sorte. Graças à generosa insanidade da Single Malt Brasil este Cão teve a oportunidade de provar uma dessas singelas jóias. O Bowmore Feis Ile 2008, servido em uma degustação no Rio de Janeiro.

O Bowmore Feis Ile foi destilado exatamente em 14 de junho de 1999, e engarrafado ainda jovem – com oito aninhos – para a Feis Ile de 2008. Foram produzidas oitocentas garrafas numeradas, com a estonteante (literalmente) graduação alcoólica de 57,4%. Sua maturação aconteceu exclusivamente em barricas de carvalho europeu da região de Limousin, algumas das mais caras e concorridas barricas da indústria do whisky.

Aliás, a Bowmore é famosa justamente por conta de sua maturação em uma extensa variedade de barricas. Há carvalho americano, carvalho europeu e até mesmo carvalho japonês, conhecido como Mizunara. A destilaria é bem conhecida por saber equilibrar com maestria o sabor enfumaçado com a influência vínica do porto e jerez. Uma técnica bem difícil, já que o sabor de vinho fortificado briga com o defumado da turfa. Inclusive, uma das maiores atrações da Bowmore  são seus armazéns – especialmente aquele conhecido como No.1 Vaults é o mais antigo da Escócia inteira, datado de 1779.

Nesse dungeon eu entro (fonte: http://cocktailchem.blogspot.com.br)

O Bowmore Feis Ile 2008 é um whisky bastante picante e enfumaçado, com um claro aroma cítrico, de laranja. O sabor é picante, enfumaçado e frutado, com laranja lima e passas. É incrível como um whisky jovem como ele pode desenvolver uma complexidade como esta. Mérito do destilado da Bowmore, da cuidadosa maturação e da qualidade superior de suas barricas. E prova de que whiskies com pouca idade podem facilmente superar aqueles muito maturados, dependendo de seu perfil de sabor.

Parece óbvio, mas, infelizmente, o Bowmore Feis Ile não está disponível em nosso país. Aliás, nenhum Bowmore está. Mas se quiser saber um pouco mais sobre essa – que na opinião deste Cão é uma das mais incríveis destilarias de toda Escócia – clique aqui.

BOWMORE FEIS ILE 2008

Tipo: Single Malt com idade definida – 8 anos.

Destilaria: Bowmore

Região: Islay

ABV: 57,4%

Notas de prova:

Aroma: turfado e defumado, com laranja lima e limão siciliano.

Sabor: Início picante e enfumaçado, que rapidamente se desenvolve para frutado e cítrico, com laranja lima e passas. O final é longo e enfumaçado.

Com Água: Adicionar água torna o whisky menos agressivo e o torna ainda mais cítrico.

 

 

Cocktail à La Louisiane – Da Rivalidade

 

Rivalidade. Este sentimento de inquieta e prolongada animosidade. Certas rivalidades podem ser apenas destruidoras. Outras, porém, se mostram bastante benéficas, e trazem avanços que jamais existiriam, não fosse a insaciável vontade de superar o rival. Um exemplo clássico é a Guerra das Correntes – protagonizada por Nikola Tesla e Thomas Edison.

Esta (literalmente) eletrificante rivalidade começou no ano de 1884, quando um jovem Nikola Tesla passa a trabalhar no renomado laboratório de Thomas Edison. Que, caso você não saiba, foi o cara que inventou a corrente elétrica contínua (DC), a lâmpada incandescente e uma porrada de ógrafos e cópios, como o fonógrafo, o vitascópio e o mimeógrafo.

Um ano depois apenas, Tesla se demitiu para começar sua própria empresa elétrica. Fundeado por um banqueiro chamado George Westinghouse, o inventor propôs que o sistema padrão para trazer luz à nação norte-americana deveria ser o de corrente alternada (AC), e não contínua, que era o vigente, e cuja patente era detida por Edison.

Em 1903 – temeroso de perder os proventos de sua patente – Edison lançou uma campanha publicitária para promover a corrente contínua. Em uma de suas demonstrações, o inventor eletrocutou um elefante chamado Topsy utilizando corrente alternada, para mostrar seus riscos. O que – na opinião deste cão – dá na mesma que moer a mão de alguém num moinho de café para mostrar que cafeína faz mal.

Rivalidade em “Alta Voltagem”.

A campanha de Edison não funcionou, e, aos poucos, a corrente contínua foi substituída pela alternada. Mas a corrida para encontrar o melhor modelo para iluminar os Estados Unidos trouxe enormes benefícios. E a troca do sistema permitiu que a eletricidade pudesse chegar mais facilmente a locais mais remotos, e alavancou o avanço tecnológico daquele tempo.

Outra animosidade bem benéfica aconteceu em Nova Orleans – ou New Orleans, se preferir – na década de vinte do século XX. A cidade possuía dois belíssimos hotéis, com notáveis bares: o Monteleone e o La Louisiane. O primeiro criara o clássico Vieux Carré, coquetel que hoje figura entre os mais conhecidos de todo mundo.

O La Louisiane, porém, sentiu que – para não ficar para trás – deveria também criar um coquetel autoral. O resultado foi o Cocktail à La Louisiane. Talvez criatividade em nomear coisas não fosse o forte deles. Mas isso não importava, porque misturar bebidas certamente era.

Cartaz do hotel La Louisiane

Por algum motivo que foge à luz (viu o que eu fiz aqui?) o Cocktail à La Louisiane jamais atingiu o prestígio internacional de seu rival. Sua primeira aparição foi no Famous New Orleans Drinks and How to Mix ‘Em, de Stanley Clisby Arthur. Mais tarde, o coquetel figurou também no The PDT Cocktail Book, de Jim Meehan e Chris Gall. Ao longo de seu percurso, também ganhou uma variação em seu nome: De La Louisiane.

O Cocktail à La Louisiane pode ser considerada um híbrido entre o Vieux Carré e o Sazerac. E assim como seus conterrâneos, leva os tão famosos Peychaud’s bitters, produzidos na cidade. A receita original pedia partes iguais de rye whiskey, vermute tinto e Benedictine. Essa receita que foi reproduzida no livro de Stanley.

Porém, a versão do The PDT Cocktail Book pedia um sensível aumento na dose de whiskey, de forma a balancear o dulçor trazido pelo Benedictine. E é essa a receita que ensinarei por aqui. Porém, caros leitores, se desejarem mexer na proporção, sintam-se à vontade. Aqui não há rivalidade. Apenas a incessante busca pelo coquetel que mais agradará seu paladar.

COCKTAIL A LA LOUISIANE

INGREDIENTES

  • 2 partes de rye whiskey (é, eu sei, o único que temos no Brasil é o Wild Turkey 101 Rye, e é difícil de conseguir. Recentemente recebemos um lote de Wild Turkey Rye com ABV mais baixo. Pode substituir por um desses, ou por algum bourbon com alta concentração de centeio na mashbill, como Bulleit)
  • 1/2 parte de vermute tinto (este Cão utilizou o Miró Etiqueta Negra)
  • 1/2 parte de Benedictine (se não tiver, substitua por Drambuie, mas tenha em mente que o coquetel ficará mais spicy e doce)
  • 3 dashes de Peychaud’s (se não tiver, vá sem)
  • 2 dashes de absinto
  • cereja maraschino, de guarnição (vou deixar isso opcional, antes que você, prezado, coloque uma cereja de chuchu no seu drink).

PREPARO:

  1. Use o absinto para untar a taça. Descarte o excesso (eu sei que você vai descartar na sua boca. Vá em frente).
  2. Adicione, em um mixing glass, bastante gelo e os demais ingredientes líquidos. Mexa por aproximadamente cinco segundos.
  3. Com o auxílio de um strainer, coe a mistura e desça em uma taça coupé.
  4. finalize com a cereja maraschino.

Macallan Classic Cut – Elegância Violenta

Fígado, favas e um bom chianti. Ou um grande amarone, se você preferir a versão literária à película. Literatura clássica, em especial a Divina Comédia de Dante. As Variações Goldberg de Johann Sebastian Bach. A belíssima cidade italiana de Florença. Parecem gostos de uma pessoa de sofisticação e cultura extraordinárias. E, na verdade, são mesmo.

Incrivelmente, estes também são os interesses de um dos mais famosos vilões da ficção. O psiquiatra Hannibal Lecter, que aparece em obras como Dragão Vermelho e O Silêncio dos Inocentes. Lecter seria um cavalheiro quase perfeito, não fosse um pequeno detalhe. Ou melhor, um único gosto, que não tem nenhuma sofisticação. Hannibal gosta de comer gente. Gastronomicamente falando.

Aliás, o sucesso de seu personagem, na opinião deste canídeo, está justamente aí. No equilíbrio entre a erudição e a mais gráfica e selvagem violência. Entre a polidez e a agressividade. Hannibal é Jekyll e Hyde, com o bônus do canibalismo. Em um mesmo personagem estão características aparentemente antagônicas, mas que se complementam lindamente.

Tá, lindamente não é uma boa palavra.

Se Lecter fosse um whisky, ele certamente seria o The Macallan Classic Cut. Uma edição especial da destilaria, que traz sua tradicional elegância e sofisticação, mas com um extra. E – ainda bem – não é a adição de carne humana. É a graduação alcoólica de 58,4% – a parte vilanesca deste lançamento, e, claro, a que o torna fascinante.

O Macallan Classic Cut é o primeiro de uma série de lançamentos da destilaria que, segundo ela, visam “revelar o (seu) caráter único e o espírito eterno“. Sua identidade visual – o rótulo branco com a faixa vermelha – prestam homenagem a uma expressão descontinuada da destilaria bastante concorrida entre colecionadores. O The Macallan Cask Strength, outra expressão da destilaria que possuía uma graduação alcoólica bastante saudável.

Segundo a The Macallan “maturado exclusivamente em barricas de carvalho americano e europeu de vinho jerez da Espanha individualmente selecionadas, e engarrafado para perfeitamente demonstrar seu perfil único de sabor, este lançamento limitado oferece uma visão especial e memorável sobre a The Macallan“. É uma descrição que até Lecter acharia interessantíssima.

Porém, mais interessante do que aquilo que está descrito é aquilo que não está. Há um curioso silêncio (não dos Inocentes) sobre a expressão “cask strength“, que indicaria um whisky engarrafado diretamente do barril, sem qualquer diluição. Em nenhuma parte do rótulo ou qualquer material relacionado ao Macallan Classic Cut, há o uso daquela expressão – algo que é esperado para um whisky engarrafado acima dos cinquenta por cento. Essa omissão poderia indicar que houve diluição com água, ainda que pequena.

Alguns conjecturaram que a The Macallan tenha feito isto justamente para evitar qualquer forma de comparação com o The Macallan Cask Strength, descontinuado pela destilaria há alguns bons anos. Porém, não é necessário ser uma Clarice Strarling para ver que o argumento não se sustenta. O rótulo branco e vermelho do Classic Cut faz uma referência direta – quase presta uma homenagem – ao Cask Strength.

Qualquer semelhança (não) é mera coincidência (fonte: Winesearcher).

Seja como for, sensorialmente, o Macallan Classic Cut é incrível. A tradicional oleosidade dos The Macallan está lá, mas ainda mais clara. Assim como seu tradicional perfil frutado e vínico, com gengibre, madeira e marzipan. Apesar da alta graduação, o álcool é bem integrado, e surge apenas como um certo apimentado seco, na finalização.

Assim como Hannibal Lecter, o The Macallan Classic Cut foi, desde seu lançamento, incessantemente procurado. Isso torna a tarefa de encontrar uma garrafa à venda hoje em dia – ainda que em lojas internacionais – uma tarefa quase impossível. Porém, se tiver a sorte de encontrar uma garrafa, não deixe de experimentar. Ou então pacientemente aguarde o próximo lançamento. Como diria certo médico assassino ficcional “tudo de bom para aqueles que esperam“.

THE MACALLAN CLASSIC CUT

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 58,4%

Notas de prova:

Aroma: cítrico, frutado, com gengibre e baunilha.

Sabor: Frutado, compota de frutas, tabaco. Finalização longa, e com sabor de vinho fortificado. Apimentada e seca.

Com água: O frutado se evidencia, assim como o vínico. O whisky fica mais adocicado e menos picante.

Temos nosso próprio copo – Glencairn Glass

Você sabia que o whisky possui seu próprio copo oficial de degustação? É o Glencairn Glass.

O Glencairn Whisky Glass partiu de um projeto desenvolvido por Raymond Davidson há mais de vinte e cinco anos. O sonho de Raymond era criar um copo próprio, símbolo da bebida escocesa, e absolutamente perfeito para oferecer a melhor e mais equilibrada experiência sensorial com whisky.

Porém, após desenhar o copo, Raymond interrompeu seu projeto. O desenho do copo perfeito para a melhor bebida do mundo permaneceu arquivado por mais de 25 anos, até que os filhos de Raymond – Paul e Scott – o reativaram.

A pedidos destes, o design do copo foi então aprimorado pelos master blenders das cinco maiores companhias de whisky no mercado mundial. Estes peritos, cuja profissão demanda sentir o aroma de dezenas de whiskies por dia, sugeriram mudanças para tornar seu formato perfeito. E o resultado foi o Glencairn Glass.

O Glencairn Glass permite apreciar todos os sabores e aromas do whisky. Ele não ressalta qualquer característica específica, mas potencializa o conjunto de elementos que formam a bebida. Eles são excelentes para qualquer single malt, blended whisky, irish whisky ou mesmo bourbon. Suas bordas estreitas concentram os aromas, e permitem perceber todas as nuances do whisky.

Hoje, o Glencairn Glass pode ser encontrado em praticamente todas as destilarias da Escócia, Irlanda e Gales, além de boa parte dos Estados Unidos. A Glencairn Crystal recebeu o Queen Award por ele – um dos mais importantes prêmios para negócios no Reino Unido.

Até o príncipe Charles tem um.

E agora você, querido leitor, poderá desfrutar deste lindo copo no conforto de sua residência. E ainda demonstrar todo seu amor por este infame blog etílico. É que o Cão Engarrafado, em parceria com a Single Malt Brasil, trouxe uma edição limitada deste belíssimo vasilhame, gravado com a – um tanto singela – logomarca do Cão Engarrafado.

O Glencairn Glass do Cão Engarrafado vem com embalagem e uma charmosa tampinha, que serve para duas coisas. Uma delas é preservar por mais tempo os aromas mais delicados dos whiskies, após serem servidos. E a outra é fazer com que você pareça sofisticado e elegante ao tirar a tampinha e dar uma fungada na bebida.

Para comprar um belíssimo exemplar deste recipiente, clique aqui, ou acesse o website da lojadewhisky.com.br e procure na aba “taças / copos”. Há também outros modelos, sem gravação do Cão Engarrafado, se preferir. Tudo bem, pode ir em frente – eu não vou ficar sabendo.

Degustação com Robin Coupar – Global Brand Ambassador Wild Turkey

 

Quinta-feira, 14:30. Três taças de whiskey posicionadas à minha frente. Na sala contígua, bartenders preparam coquetéis com whiskey para convidados – entre eles, uma espécie de smash, criado por Paulo Freitas, embaixador brasileiro de Wild Turkey e Campari. Dado o horário e a assemblage etílica, este não é um dia normal de trabalho.

É que Robin Coupar, embaixador global da Wild Turkey, esteve no Brasil para uma série de degustações da marca, e este Cão teve o prazer de participar de uma delas. Durante a apresentação, Robin – que é escocês e apaixonado por tudo relacionado a whisky – contou alguns detalhes sobre a história e produção de Wild Turkey.

As degustações fazem parte do concurso Behind The Barrel, que contou com 30 participantes brasileiros. A competição é um convite do bourbon Wild Turkey, marca do Campari Group para que bartenders criem um “Coquetel Verdadeiramente Seu”, utilizando Wild Turkey 101.

Not your regular thursday

Uma das características mais interessantes é a pouca diluição. O produto da destilação – o white dog – entra nas barricas quase com a força que sai dos destiladores contínuos. Isso faz com que o sabor trazido pela mashbill do whiskey fique mais evidente, mesmo depois de totalmente maturado.

Durante o evento, tivemos a oportunidade de provar três whiskeys do portfóio da marca. O Wild Turkey Bourbon  (anteriormente conhecido como Wild Turkey 81), o Wild Turkey 101 e o Wild Turkey Rye. Este último, uma versão com graduação alcoólica reduzida do conhecido 101 Rye, já revisto aqui.

Robin explicou que a mashbill do Wild Turkey Bourbon e seu irmão 101 é a mesma. Como todo bourbon, há predominância de milho. A diferença entre os dois está na graduação alcoólica e na maturação média, que é maior na versão mais etílica. No caso do 101 Rye, naturalmente, a mashbill muda, e o cereal predominante passa a ser o centeio.

Robin, pensando sobre whiskey.

O embaixador também mostrou como todo processo de fabricação do Wild Turkey é feito, ainda, de forma artesanal e supervisionado por Eddie e Jimmy Russell, gerentes e master distillers da Wild Turkey, que somam mais de noventa anos de experiência no processo de fabricação de bourbon.

Por fim, uma surpresa. Fomos presenteados com uma dose de Russell’s Reserve Single Barrel, um bourbon whiskey produzido pela Wild Turkey em quantidades limitadas, com 55% de graduação alcoólica, e proveniente de barricas especialmente selecionadas por sua qualidade e maturação.

Realmente, aquele estava longe de ser um dia normal de trabalho.

Reminiscência – Jim Beam Black

Sábado, São Paulo, oito horas da manhã. Saudáveis dez graus centígrados. Janela aberta, pouca luminosidade. Nuvens de chuva se formando. Fecho os olhos numa vã tentativa de dormir novamente. Sonho, por uma fração de segundo, na minha ex-professora de geografia, que explica, flutuando sobre uma espécie de algodão doce, a formação dos cirros, cúmulos e nimbos. Caramba, quanta coisa que aprendi e nunca usei. Platelmintos, angiospermas, actinopterígeos, lactobacillus.

Trovão. Acordo num ressalto e espio o despertador. Oito e sete. Deslizando como um nematelminto até o chão, me coloco de pé. Banho, dentes. Mas que diazinho mais ou menos para fazer qualquer coisa.  Lembro-me, ainda reminiscente de minha professora voadora, que convidei alguns amigos da época do colegial para tomar alguns coquetéis – temerariamente feitos por mim – e jantar. Era o que precisava: propósito. Decido ir a um supermercado novo que abriu perto de casa. Fico animado a ponto de até dar um discreto salto de resolução.

Se você não acha supermercado um programa, então deveria experimentar o tédio e a fome proporcionados por uma manhã de sábado. Vou caminhando e chego em menos de cinco minutos. Lugar amplo, teto alto, prateleiras de madeira. Tem até um pequeno pinheiro – uma gimnosperma – no meio, iluminado por uma claraboia que proporciona uma bela luz difusa, ainda que fraca. Preciso decidir o menu. Folheio as páginas imaginárias de meu caderninho mental de receitas. Algo fácil e ao mesmo tempo sofisticado. Já sei, whisky-carbonara. Perfeito.

Sonho

Resoluto, separo os ingredientes no carrinho. Spaghetti, ovo, alho. Pimenta e sal eu tenho em casa. Falta o whiskey e actinopterígeo curado. Digo, o salmão defumado. Escolho um congelado. Agora o whiskey. Paro, na frente da gôndola, balançando a cabeça para trás e para frente, como se isso me ajudasse a refletir melhor. Precisava de algo versátil. Algo que funcionasse tanto para o prato, quanto para a coquetelaria. E que não ofendesse ninguém que decidisse tomá-lo puro, também. Olho e imediatamente sei. Jim Beam Black. Pego duas garrafas.

Observo o rótulo lateral de uma delas, que diz, em uma tradução simples “ao dar ao nosso clássico Jim Beam Black o importante ingrediente do tempo em nossas barricas de carvalho branco torradas, descobrimos suaves notas de caramelo e madeira acalentadora deste bourbon premium extra-maturado. Um caráter encorpado, que definitivamente vale a espera”. Passo os olhos pela graduação alcoólica. 43%.

Uma rápida pesquisa no Google refresca minha memória. A Mashbill do Jim Beam Black é a mesma de seu irmão mais jovem: 75% de milho, 13% de centeio e 12% de cevada maltada. Porém, a maturação é consideravelmente maior. Em uma versão anterior da garrafa, o número 8 – indicando uma idade de oito anos – era orgulhosamente apresentada em seu rótulo. Algo que foi excluído nos engarrafamentos mais novos. O que me fez supor que o líquido da ampola que tinha em mãos fosse um pouco mais jovem que isso, ainda que mais maturado que o White Label.

Ando vagarosamente até o caixa, conferindo os itens do carrinho mentalmente. Ao passar pela geladeira dos sushis, um pensamento paralelo furta minha atenção. Lembro que o Jim Beam pertence à Beam-Suntory. que também detém marcas importantes como os single malts japoneses Yamazaki e Hakushu e as destilarias Laphroaig e Bowmore. Além de uma série de outros whiskeys americanos de produção menor, como Maker’s Mark, Knob Creek, Basil Hayden’s, Booker’s, Baker’s, Old Grand-Dad e Old Crow.

Alguns representantes do portfólio da Beam-Suntory

Me detenho, ao lembrar do queijo pecorino, que faltara. Dou meia volta. Mais uma vez, me distraio. Queijos são produzidos por fermentação láctea, muitas vezes feitas por lactobacillus. O processo de fermentação do mosto do whiskey, porém, é feito por saccharomyces, uma levedura. E a Jim Beam leva sua levedura bem a sério. Ela pertence à mesma linhagem desde o final da Lei Seca. Essa linhagem é tão preciosa à Jim Beam que exemplares são guardados em locais distintos, evitando que fosse perdida em algum acidente.

Finalmente passo no caixa. Ao chegar lá, choque. Logo na minha frente, minha antiga professora de geografia. Ela olha para mim apertando os olhos, como se isso ajudasse sua memória. Digo meu nome e ela, com um sorriso ainda desconcertado – talvez pela coincidência, talvez um pouco acanhada de não ter lembrado – acena com a cabeça. Mas logo se recompõe. Tá muito frio, ex-aluno, mas vejo que você pegou alguma coisa para te esquentar – e aponta para os Jim Beam Black, enquanto dá uma risada mais aberta.

Pois é, professora. Nesses sábados frios cheios de nimbos no céu, nada melhor que um whiskey versátil, com boas memórias e ao lado de bons amigos para ficarmos aquecidos.

JIM BEAM BLACK

Tipo – Kentucky Straight Bourbon

ABV – 43%

Região: N/A

País: Estados Unidos

Notas de prova

Aroma: adocicado, açúcar, caramelo, baunilha.

Sabor: adocicado, com madeira e caramelo. Açúcar demerara e pimenta. Final levemente alcoólico, com baunilha e caramelo.

Com água: A água retira um pouco do apimentado do whiskey, e o torna mais suave.

Ole Smoky Harley Davidson Moonshine – Drops

Easy Rider, estrelado por Peter Fonda e Dennis Hopper é, provavelmente, o filme de motocicletas mais conhecido do mundo. Apesar de não ter muita história, a película celebra o clichê sexo, drogas e rock n’ roll perfeitamente. Porque, claro, com tanto rock, maconha e sexo, ninguém vai lembrar do roteiro mesmo. O filme foi o ícone de uma geração e definiu um gênero. E com ele, tudo que o acompanhava – cabelos ao vento, jaqueta de couro e corrente no pescoço.

Mas nada – e nada mesmo – é mais representativo do estilo Easy Rider do que uma certa marca de motos. Uma que talvez, pelo título do post, você já imagine qual é. Harley Davidson. As Harleys são a versão motorizada do espírito iconoclasta e anti-establishment dos motoqueiros de Easy Rider. Ainda que – convenhamos – ela sempre fora bem alinhada com esse establishment.

É obvio que todo esse sucesso deve ser aproveitado. Harley Davidsons não são apenas motos. Como disse, são símbolos máximos de um estilo de vida. E nada mais natural que a marca enverede então para produtos relacionados com esse lifestyle. A loja oficial da Harley tem de tudo. Jaquetas, capacetes, botas, luvas. Copos baixos, posteres. E uma miríade de acessórios.

Ah, o espírito norte americano!

Pegando carona (viu o que eu fiz aqui?) nessa fama, a Ole Smoky, conhecida produtora de moonshines americana, lançou uma edição especial, em conjunto com a Harley Davidson. O Ole Smoky Harley-Davidson Road House Customs Moonshine. Um moonshine maturado em barricas de carvalho americano altamente tostadas. Visualmente, o produto é incrível: uma espécie de pote de conserva, com rótulo torto e uma tampa metálica. Ele transpira toda a rebeldia da motocicleta.

No paladar, no entanto, não há muita agressividade. O Ole Smoky Harley-Davidson Road House Customs Moonshine é bastante adocicado – aliás, quase reminiscente de uma calda de pudim que queimou demais – e tem álcool pouco integrado, ainda que não exatamente agressivo. A graduação alcoólica, aliás, é bem elevada: 51,5%, mas ela se esconde por trás do dulçor excessivo do moonshine. Aliás, essa graduação é proposital. Na medida americana, ela corresponde a 103 proof – uma homenagem ao motor twin-cam 103 da Harley Davidson.

O Ole Smoky Harley-Davidson Road House Customs Moonshine é produzido pela Ole Smoky Tennessee Moonshine, uma destilaria de whiskey de milho, localizada em Gatlinburg, no Tennesee. Além dele, a destilaria produz mais de vinte expressões diferentes, entre moonshines maturados ou não e whiskeys.  Há, por exemplo, um moonshine com pêssegos dentro. Outro, com morangos. E um bem esquisito, azul, com graduação alcoólica acima dos sessenta por cento.

É difícil compará-lo com qualquer bourbon whiskey. Talvez o melhor seja usar uma metáfora aqui. Imagine que um bourbon qualquer – um Woodford Reserve, por exemplo – é uma canção de rock. Agora amplifique alguns instrumentos, distorça a voz e mude o tempo. O resultado será um conjunto cujos elementos pouco combinam. O Ole Smoky Harley-Davidson Road House Customs Moonshine é justamente isso. A justaposição de elementos de whiskeys, mas que não chegam a conversar muito.

Mas nada disso importa. Porque o Ole Smoky Harley-Davidson Road House Customs Moonshine possui uma linda cor caramelo, e é vendido em um pote de conserva. Um pote de conserva com um rótulo preto, exibindo a marca da mais cobiçada fábrica de motocicletas do mundo. A Harley Davidson. E como disse – com um visual tão rebelde, quem é que vai se ater ao roteiro?

OLE SMOKY HARLEY-DAVIDSON ROAD HOUSE CUSTOMS MOONSHINE

Tipo: moonshine (milho)

Marca: Ole Smoky

Região: N/A

ABV: 51,5%

Notas de prova:

Aroma: Bala de caramelo, açúcar queimado, álcool.

Sabor: Mais açúcar queimado. Um adocicado de melaço. Álcool, pimenta.

Disponibilidade: Lojas internacionais

 

 

Para onde foi todo o whisky japonês

Quando era criança, possuía um livro sobre animais extintos. Eram mais de vinte páginas, que ilustravam bichos como o cão da tasmânia, o dodo e o rinoceronte do oeste africano. Varridas de nosso mundo pela ação humana, mudança climática ou qualquer outra hecatombe. Animais outrora majestosos ou, no mínimo, curiosos, cujas espécies tornaram-se parte do passado. Ficava verdadeiramente triste em saber que jamais poderia ver um quagga ao vivo, por exemplo.

Por outro lado, havia alguns que não exerciam tanto fascínio. Tipo a Aranha Teia de Funil Cascada (Hadronyche pulvinator). Uma das aranhas mais venenosas do mundo, responsável por mais de duas dúzias de mortes registradas. Nativa da Tasmânia, este aracnídeo sórdido – isso é um pleonasmo – foi vítima da urbanização na pequena ilha, e acabou declarada extinta em 1995. Se você me perguntar, vou dizer com sinceridade que não me pego lamentando a inexistência da Aranha Teia de Funil Cascada. E nem me venha com o papo de equilíbrio ecológico, porque a Tasmânia tem uma boa quantidade de bichos desagradáveis para tomar seu lugar.

Foi tarde vlw flw

Mas não foram apenas animais – sejam eles vis ou não – que desapareceram. O whisky japonês também. E este fará realmente falta. Mesmo no Brasil, há poucos anos, não era difícil encontrar nas prateleiras de alguma loja uma garrafa de Hibiki 17 anos ou Yamazaki 12. Hoje, porém, é uma tarefa quase impossível. Mencionei isso por aqui expressamente, inclusive, ao falar sobre um de meus japoneses favoritos – o Hakushu 12 anos – e seu repentino sumiço.

A resposta sobre esse sumiço é simples. Sucesso. O que poucos sabem é que esta procura desenfreada é recente. Há dez anos, o quadro era diametralmente oposto. O whisky japonês não era popular nem mesmo em sua terra natal. A bebida era vista como algo da geração passada. Os jovens preferiam consumir outros produtos – especialmente destilados importados, como a vodka. De acordo com uma matéria veiculada na Asian Review – e conforme apurado pela National Tax Agency japonesa – o conusmo de whisky japonês caiu para um terço do que era, entre 1989 e 2008.

A reviravolta ocorreu quando a gigante Suntory – desesperada para elevar novamente o consumo de seus whiskies – lançou uma campanha publicitária em 2009. Ela associava o Kakubin, um de seus rótulos mais conhecidos e populares, ao coquetel highball (uma mistura simples entre whisky e alguma bebida gaseificada). Segundo a Suntory, o highball é um drink refrescante, que combina com climas mais quentes. A campanha funcionou, e o whisky japonês viu um discreto aumento em consumo.

Tem até versão em latinha

Cinco anos depois, em 2014, foi a vez da indústria do entretenimento alavancar as vendas do whisky nipônico. Foi lançada uma novela contando a história de Masataka Taketsuru, o fundador da Nikka e um dos personagens centrais na criação da Suntory. Como você sabe (ou não), Nikka e Suntory são os dois maiores produtores de whisky no Japão.

Mas o derradeiro empurrão veio do exterior. Em 2015, Jim Murray – um dos mais conhecidos especialistas em whisky da atualidade – elegeu o Yamazaki Single Malt Sherry Cask 2013 como melhor whisky do mundo. Segundo o autor, em uma declaração eivada de humildade, aquela escolha era uma chamada para que a indústria do whisky escocês despertasse. Porque claro, cabia a Murray esta messiânica tarefa.

Tudo isso trouxe uma busca pelo líquido nipônico sem precedentes. Uma busca que nem mesmo os produtores de whisky japonês – encabeçados pela Nikka e Suntory – imaginariam. Aqui, alguém poderia argumentar que bastava então aumentar a produção. Só que acontece que whiskies não são celulares. Whiskies demandam tempo. O tempo da barrica. O estoque maturado de whisky japonês era bem limitado, e não pôde acompanhar a enorme procura.

E o resultado seguiu a ordem natural da oferta e demanda. Com garrafas rareando, o preço decolou. De forma a atender a crescente demanda, as marcas consagradas fizeram aquilo que podiam: deixaram de produzir seus engarrafamentos mais maturados – como o Hibiki 17 anos – e lançaram expressões sem idade declarada no mercado, compostas por maltes mais jovens. Algo que, convenhamos, os escoceses também fizeram. Com isso, as destilarias ganhariam fôlego para recuperar o estoque mais maturado, vendendo o que podiam.

Barricas na Hakushu (fonte: Yamanashi-Kankou)

Outras marcas menos conhecidas, porém, adotaram uma estratégia um pouco diferente. Uma estratégia baseada na esparsa legislação japonesa sobre whisky, que jamais poderia ser implementada na Escócia. Tão chocante que acho que darei uma pausa aqui, e iniciarei um novo capítulo neste texto, chamado de…

NEM TODO WHISKY JAPONÊS É JAPONÊS

Deixe-me abrir um metafórico parêntesis aqui para explicar isso, que é bem importante. Acontece que quase não há leis no Japão relativas à produção e comercialização de whisky. E, por conta disso, é permitido – ou melhor, não é ilegal – que um whisky destilado e maturado em outro país e engarrafado no Japão seja rotulado como whisky japonês.

É quase um sofismo. Se um carro alemão pode levar duas centenas de peças produzidas na China, para baratear seu custo, este racional poderia ser facilmente também aplicado a uma bebida, como um whisky. É uma logica – porcamente – defensável, mas, por outro lado, enganadora. Carros são produzidos com base em acordos de nível de serviço, com estritas especificações sobre cada um de seus componentes. Uma Mercedes-Benz produzida no Brasil não é menos do que uma produzida na terra natal da marca.

Deixe-me mudar para um exemplo mais direto, caso ainda tenha dúvidas. Se você coloca o Emile Hirsh vestido de Speed Racer, o Justin Chatwin com o cabelo espetado do Goku, ou a – meu deus, maravilhosa – Scarlett Johansson como Major de A Vigilante do Amanhã, eles não viram automaticamente japoneses. Então, por que isso seria diferente com whisky?

Linda, mas vacilou. Mal aí.

Ocorre que essa é uma prática antiga no Japão. E mesmo marcas consagradas o fazem há algum tempo. Normalmente, estes whiskies importados são destinados às expressões mais baratas destes grupos, de forma a criar diversidade sensorial e – por que não – volume. O problema é que, devido à escassez de whiskies verdadeiramente japoneses, novas marcas surgiram, dispostas a explorar este nem tão pequeno e pouco louvável nicho. O nicho de enganar o consumidor, simplesmente engarrafando whiskies importados a granel e rotulando-os como nipônicos.

A Scotch Whisky Association (SWA) possui números que comprovam essa tendência. A quantidade de whisky exportado da Escócia para o Japão a granel aumentou quatro vezes nos últimos anos. Conforme matéria veiculada no Scotchwhisky.com, a exportação de blended malts para o Japão subiu para 1,4 milhões de litros, e de whisky de grão, 1,7 milhões. É bastante whisky repatriado.

O problema disso é que a utilização descuidada – e muitas vezes de má-fé – destes whiskies importados pode ser extremamente danosa. Estas novas marcas são, em sua extensa maioria, blends produzidos de forma descuidada, apenas para suprir um público ávido por whiskies japoneses. Mesmo que nem produzidos no Japão eles tenham sido. É tragicômico. O whisky japonês, na última década, ganhou fama em boa parte devido à sua irrepreensível qualidade sensorial. E, agora fora vítima de seu próprio sucesso.

A SOLUÇÃO?

A solução do problema da escassez de whiskies verdadeiramente japoneses passa por um cliché. O tempo.

Meu avô poderia dizer, em tom profundo e reflexivo, que o tempo tudo resolve. E eu concordaria com ele, com olhar condescendente. Mas nem tudo é resolvido pelo tempo. Num mundo regido pela entropia, o maior papel do tempo é destruir. Mas  se o assunto fosse whisky, meu avô estaria corretíssimo. É necessário tempo para maturar mais whisky. Os grandes produtores japoneses sabem disso e elevaram sua produção. Porém, há o tempo de maturação. E esse não pode ser acelerado.

Em relação a isso, pode-se apenas aguardar. Aguardar o tempo passar e tomar medidas para que essa escassez não volte a acontecer.

Mas há algo que deve ser feito com urgência. A criação de leis e regras que imponham limites a essa prática. Algo que a Scotch Whisky Association – apesar das inúmeras críticas – faz com maestria na Escócia. É apenas assim que o whisky japonês terá a chance de preservar sua reputação – e não encontrar o aniquilamento como centenas de espécies de animais. Porque isso seria uma pena. Uma pena, menos no caso da Aranha Teia de Funil. A Aranha Teia de Funil pode continuar não existindo.