Outros seis personagens que adoram whisky

 

Esta é a terceira edição de um texto sobre personagens ficcionais que gostam de whisky. A primeira lista, elaborada por mim há mais de um ano, era um exercício mental. Queria lembrar-me dos mais conhecidos personagens que, assim como este Cão, apreciam um belo whisky. Consegui rememorar James Bond, Jessica Jones, Harvey Specter, Jack Torrance, Ron Burgundy e Desmond Hume. E, nos primeiros dias, fiquei muito feliz com o resultado. Afinal, imaginava que pudesse ter olvidado um ou dois, mas aquela era uma lista bastante completa.

Qual foi minha surpresa, porém, quando os leitores deste infame blog começaram a citar dezenas de outros personagens que havia esquecido ou, pior, nem conhecia. Eram tantos, e de tantas obras diferentes, que demorei um pouco para fazer minha lição de casa. Assisti aos filmes e às séries – quer dizer, ao menos a maioria delas – e elaborei uma segunda lista. Agora, apenas com as sugestões recebidas. Fizeram parte dela John Constantine, Charlie Harper, Don Draper, Barney Stinson, Raymond Reddington e Abe Lucas. Mais uma vez, regojizei-me com aquilo. Doze. Não devia ter muito mais do que doze amantes ficcionais de whisky.

Mas, mais uma vez, estava enganado. Não levou nem mesmo duas horas até receber a primeira sugestão. O tentente-coronel Frank Slade, de Perfume de Mulher. Uma avalanche de outros seguiram. Assim, me vi mais uma vez obrigado a voltar às telas e preparar mais uma lista. Abaixo estão seis personagens que amam whisky e – bônus – um que não temos certeza, mas que não poderia faltar. Todos, sugestões de nossos esforçados leitores. Não terei a presunção de imaginar que desta vez concluí o assunto. Não. Desta vez, aguardarei os comentários com um copo de whisky na mão e um controle-remoto na outra. Hoo-ah.

Dr. House

Mau humorado, sarcástico e politicamente incorreto, Dr. House é um dos mais famosos médicos da ficção. Utilizando métodos um tanto pitorescos, House consegue – entre um ou outro erro – realizar os mais improváveis diagnósticos. Diagnósticos de doenças que, aliás, podem ser qualquer coisa. Qualquer coisa menos lupus.

O personagem possui uma sinceridade quase extrema, que todos nós – e principalmente este Cão – adoraríamos ter. Ainda que ele se meta em bastante confusão por conta dela. Mas há um ponto que nos une a este (nem tanto) amável doutor. O amor pelo whisky. House bebe bastante e de tudo, mas seu frio coração bate mais forte pelo bourbon Maker’s Mark.

Ray Donovan

O protagonista da série homônima da Showtime possui um trabalho que tangencia um mundo cheio de glamour. Porém, a natureza de seu ganha pão não possui qualquer encanto. Ele é uma espécie de solucionador profissional de problemas dos famosos e poderosos de Los Angeles. E por problemas, eu não quero dizer consertar a pia, trocar o pneu do carro ou instalar um lustre. Mesmo porque, se fosse este o caso, a série seria muito chata.

Donovan trabalha para o escritório de direito Goldman & Drexler. Sua função é subornar, entregar propinas e chantagear autoridades, para evitar que seus clientes sejam responsabilizados por seus atos. Apesar de bastante desagradável, o ofício de Ray lhe proporciona algumas coisas boas. Como, por exemplo, apreciar um Highland Park 25 anos de vez em quando.

Archer

Sterling Archer é o personagem principal da série Archer, veiculada pela FX. Sterling começa como um espião que trabalha para a International Secret Intelligence Service (incrivelmente, ISIS). Porém – e evitando aqui um spoiler – mais tarde resolve diversificar sua linha de trabalho para campos, diremos assim, ainda menos usuais. Há grandes semelhanças entre Archer e outro espião alcoolatra que amamos. James Bond.

Autoindulgente, misógino, egoísta e sexualmente promíscuo, não há muito o que se apreciar em Archer. Porém, por alguma razão – assim como ocorre com Bond – desenvolvemos uma estranha simpatia pelo personagem. Talvez seja por causa de seu sarcasmo. Ou seu gosto refinado, que inclui whiskies. Especialmente aquele da marca ficcional Glengoolie.

Radamanthys de Wyvern

Se você viveu sua infância na década de oitenta ou noventa, é bem provável que tenha sido viciado em Cavaleiros do Zodíaco, e sabia quase tudo que se tem para saber sobre os personagens. Porém, algo que talvez tenha olvidado é que um deles possui um gosto bem parecido com o seu. O Radamanthys, nascido na curiosamente batizada ilha de Fellows, no Reino Unido.

Wyvern despreza quase tudo que se move. Porém, é um adorador da melhor bebida do mundo. Em determinada cena, o cavaleiro de Wyvern relembra sobre Pandora, enquanto vagarosamente beberica algum whisky on the rocks. Seu preferido somente pode ser assunto de divagação. Mas eu chutaria um Glenfiddich Snow Phoenix. Nossa, essa foi fraca.

Tenente Coronel Frank Slade

O personagem vivido por Al Pacino no clássico Perfume de Mulher também não é uma pessoa lá muito fácil. Mas na verdade, por baixo da aparência mal humorada, exigente e direta, Frank é um homem de bom coração e princípios. Ainda que ele mesmo seja insuportável. Seus momentos de redenção estão no tango, nos carros esportivos e – algumas vezes – em sua retórica fascinante.

Em certo ponto do filme, o tenente-coronel pede a Charlie Simms, seu acompanhante, que substitua todas as garrafas na prateleira de seu quarto de hotel por John Daniel’s. Charlie, observando o gabinete de bebidas, retruca com certa ironia “você quis dizer Jack Daniel’s?“. Mas Frank já tem a resposta pronta. “Ele pode ser Jack para você, meu filho, mas quando você o conhece por tanto tempo quanto eu…. estou brincando“.

Sugar Kane Kowalczyk

O sugestivo nome é da personagem de Marilyn Monroe, no clássico filme de Billy Wilder, Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot). Sugar Kane é integrante de uma banda de jazz formada apenas por mulheres, até que dois homens se juntam a ela disfarçados. O filme é uma espécie de As Branquelas da década de sessenta, com a diferença que Quanto mais Quente Melhor é bom. A personagem é uma apaixonada por whiskies, especialmente bourbons.

Bob Harris

Há cenas icônicas, que transcendem o filme e bastam-se sozinhas. Uma delas é Bill Murray, em Encontros e Desencontros, de Sofia Coppolla. No filme, Murray interpreta Bob Harris, um decadente ator de meia idade, contratado pela  Suntory Whisky para estrelar um comercial. Harris, com seu olhar blasé, repete para a câmera algo que poderia ser porcamente traduzido como “para momentos relaxantes, tome Suntory“. A frase, em inglês no original, tornou-se tão famosa que atualmente é impossível pensar na marca de whiskies japoneses sem associá-la ao filme.

Não conseguimos saber se Murray é realmente um apaixonado pelo malte. Na cena, ele desdenha, de leve, o que está em seu copo. Mas também, o olhar de Murray a tudo desdenha.

Drops – Jungle Gin

Recententemente lancei uma prova sobre um whisky italiano. Enquanto escrevia, pensava no que seria um correspondente nacional para isto. Porque a Itália tem tradição em um punhado de coisas. De música erudita a alta costura, passando por literatura clássica, automóveis superesportivos, gravatas fininhas e gondoleiros. Mas whisky, realmente, era um território ainda a ser desbravado pelo povo italiano.

Aí pensei em Minas Gerais. Na cultura, nos artistas. Alejadinho, Amílcar de Castro, Farnese de Andrade, Guignard – um carioca com alma mineira – e Lygia Clark. Segui por Milton Nascimento e Skank, e após uma sensível descida, cheguei no Eike Batista e na Isis Valverde. Daí descrevi uma curva e cheguei à comida típica. Doce de leite. Pão de queijo. Aliás, centenas de tipos diferentes de queijos. Dezenas de alambiques de cachaças. Realmente, os mineiros têm uma tradição gastronômica incrível.

Porém, mesmo lá, há o improvável. O diferente, que desafia a tradição. Neste caso, o Jungle Gin. O Jungle Gin é um gin seco, produzido na cidade de Camanducaia, no alambique da cachaça Quinta das Castanheiras, em Minas Gerais. Uma selva de alambiques de cachaça, mas uma planície absolutamente intocada para a bebida holando-britânica.

Ele foi concebido em 2017 por Augusto Simões Lopes, que, após quase três décadas no exterior, retornou ao Brasil para realizar seu sonho. Criar um gim com qualidade internacional. E, aparentemente, a ideia deu certo. o Jungle Gin recebeu medalha de prata da Spirit Selection no Concours Mondial de Bruxelas. Segundo Augusto “Ganhar o reconhecimento da Spirit Selection não é só um grande passo para o Jungle Gin, más para todos os pequenos produtores do Brasil” e continua “este prêmio desmistifica a história de que apenas o produto importado tem valor. O exterior reconheceu a capacidade brasileira

Augusto e seu Jungle Gin

Augusto, após muita pesquisa, encontrou o alambique Quinta das Castanheiras. Segundo ele, aquele fora um achado. O equipamento era perfeito para implementar sua ideia pouxo ortodoxa. Porém, não é a primeira vez que a Quinta das Castanheiras desbrava selvas desconhecidas. O alambique foi fundado pela mestre cachacier Dinah Ribeiro de Paula, que recentemente assinou também uma cerveja. A Dádiva Odonata #6, uma Russian Imperial Stout com graduação alcoolica de 12%, e maturada em barricas de carvalho europeu que antes contiveram, justamente, sua cachaça.

O destilado base do Jungle Gin é um álcool de cana neutro. Como todo gim, o sabor advém dos botânicos escolhidos em sua produção. No caso do Jungle Gin, são sete. Zimbro, cardamomo, kummel, anis estrelado, canela, pimenta rosa e manjericão. Não ha qualquer cítrico. É um gim absolutamente floral, com um final levemente picante.

Talvez você ache estranho a prova de um gim em um blog sobre whisky. Ainda mais um gim mineiro. Pode ser que esteja ai, esperando uma boa ligação entre ele e o destilado escocês. Desculpem-me pelo desapontamento, mas dessa vez não farei este nó. Porque, afinal de contas, se o importante fosse seguir a tradição, nem mesmo o Jungle Gin existiria. E isso seria uma pena.

JUNGLE GIN

Tipo: Dry Gin

ABV: 45%

Alambique: Quinta das Castanheiras

Notas de prova:

Aroma: aroma floral. Além do zimbro, o cardamomo e o anis estrelado se sobressaem.

Sabor: vegetal, adocicado e floral. Há uma picância residual basante adocicada e muito interessante.

 

Dewar’s 12 anos

Não poderia começar esta prova de outra forma senão falando do Bolovo. Sim, este alimento incrível, um clássico da baixa gastronomia brasileira. O bolovo é uma mistura de um monte de coisa boa, que, óbvio, fica ótima. No bolovo vai um ovo inteiro, farinha de rosca, temperos, leite, litros de óleo pra fritar e carne. A princípio, carne moída, mas que pode ser qualquer coisa, dependendo do nível de gourmetização. De ragu de porco a filé kobe.

Mas eu nem preciso explicar isso. Porque você já deve saber o que é um bolovo, claro. O bolovo – assim como outros salgadinhos igualmente oleosos e deliciosos – ascendeu no boteco, e lá encontrou seu lugar de direito. O bolovo está completamente à vontade em seu lar, com aquela parede de azulejos brancos, a cadeira de plástico, mesas retráteis, cerveja com camisinha e bom papo. Mas o que pouca gente sabe é que o bolovo, na verdade, fala inglês.

É isso mesmo. O bolovo possui um antepassado escocês. Um prato que tem um nome bem menos genial do que bolovo, mas também bem mais concreto. O Scotch Egg (ovo escocês). O scotch egg é basicamente a mesma coisa nosso querido prato tupiniquim, com algumas pequenas mudanças. A maior diferença está justamente na carne utilizada. No caso da versão estrangeira, usa-se algum embutido, como salsicha de porco.

E aí alguém resolve fazer uma torta de bolovo.

Mas não é só isso. O bolovo também possui uma relação muito estreita com whisky. Especialmente com a marca Dewar’s. É que Tommy Dewar – um dos filhos do fundador da marca, John – além de ser um um apaixonado por whisky e um bon-vivant extremamente espirituoso, possuía uma outra paixão arrebatadora. Galinhas. O rapaz possuía uma enorme coleção de galináceos, alguns com plumagem bastante exótica, e os criava com muito esmero.

Daí veio a inspiração da Dewar’s para uma campanha publicitária recentemente lançada. O clube do bolovo. Perdão, digo o Scotch Egg Club – uma série de eventos envolvendo o whisky, coquetelaria de alto nível, ovos e jogos inspirados em galináceos. Seja lá o que for isso. E o rótulo a receber destaque durante esse projeto é o Dewar’s 12 anos.

O Dewar’s 12 anos é um blended whisky leve e adocicado, que leva como base o single malt Aberfeldy. Além dele, há outros maltes que compõe o portfólio da Bacardi, proprietária da Dewar’s. Entre eles, Brackla, MacDuff (Deveron) e Aultmore. Como não há qualquer single malt enfumaçado no portfólio da companhia, a Dewar’s compra barricas de outros grupos para compor seus blends, ainda que nenhuma de suas expressões possua característica marcante de fumaça.

Todos os whiskies da Dewar’s passam por um processo comum, conhecido como Double Aging. Após o processo de blending, o whisky é transferido para tonéis de carvalho, onde passa mais seis meses. Segundo a marca, ainda que esta maturação encareça o processo produtivo, ela também torna o whisky mais suave e harmônico. Nas palavras de Stephanie MacLeod, master blender da Dewar’s “com isso permitimos que as diferentes partes do blend se unam, e, basicamente, possam se conhecer (…). Isso adiciona outra dimensão de suavidade

O processo é tão importante para a Dewar’s que em 2015 a empresa abriu uma central de blending na Escócia. O procedimento é quase totalmente automatizado e controlado nos menores detalhes. Pode-se ajustar a graduação alcoólica do whisky e controlar o perfil do whisky. Além disso, a marca investiu bastante na divulgação desta técnica – um diferencial importante de mercado frente à maioria dos outros blends.

Teve até comercial com um cara voando como o Grande Lebowski.

O Dewar’s 12 anos ganhou uma série de prêmios internacionais ao longo dos anos, como medalha de prata em 2017 pela International Wine and Spirits Competition e em 2014 pela Scotch Whisky Masters.

Se você gosta de whiskies leves e adocicados, ou é apaixonado por um irish whiskey, talvez o Dewar’s 12 anos tenha espaço em seu rol de paixões. Pode até ser que ele tenha nascido na Escócia. Mas assim como o bolovo, ele tem tudo para se tornar um clássico também aqui no Brasil.

DEWAR’S 12 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 12 anos

Marca: Dewar’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma floral, sem presença de fumaça. Mel, balinha de caramelo.

Sabor: leve, com frutas em calda e bastante mel. Final médio e adocicado, com amêndoas.

Com água: A água deixa o whisky mais doce.

Drops – Woodford Reserve Double Oaked

Se você gosta de corridas de cavalos, ou se é fã de Hunter S. Thompson – o jornalista bêbado – há grandes chances de já ter ouvido falar do Kentucky Derby. De toda forma, deixe-me aqui defini-lo com uma auto-paráfrase: O Kentucky Derby é conhecido como a mais famosa corrida de cavalos do mundo. O tempo rendeu-lhe o título de  “os dois minutos mais emocionantes do esporte”. É a primeira das três disputas que compõe a Tríplice Coroa, juntamente com o Preakness Stakes e Belmont Stakes. Realizada em Louisville, Kentucky, o Derby é um festival de roupas extravagantes e indivíduos excêntricos. Chapéus vitorianos dividem espaço com fraques, monóculos e cartolas.

O Kentucky Derby é, na verdade, uma espécie de festa a fantasia universitária, onde todo mundo bebe loucamente e faz de tudo um pouco. Só que no Kentucky Derby também há cavalos. Muitos justificam que os belos equinos são, na verdade, os protagonistas do espetáculo. Eu, no entanto, tenho minhas dúvidas. Afinal, o evento possui um coquetel oficial – o Mint Julep. O que sugere que os animais de grande porte estão lá apenas para justificar uma coisa ou outra.

Essa impressão fica mais forte ao saber que a corrida possui também um bourbon whiskey oficial, usado como matéria prima do drink. O Woodford Reserve. Se você acha isso besteira, deixe-me apresentar aqui alguns números. Em 2015, foram usados 5.040 litros de Woodford Reserve para produzir 127.341 mint juleps durante as festividades equídeas. É whiskey demais para uma simples corrida de cavalos.

Ah, aquilo lá longe é um cavalo?

A escolha do Woodford Reserve como bourbon whiskey oficial do Kentucky Derby não é por acaso. A destilaria – chamada Labrot & Graham – pertence à Brown-Forman, o mesmo grupo por trás da Jack Daniel’s. Porém, os Woodford possuem um perfil mais refinado e são conhecidos por trazer belas inovações ao mercado. Como, por exemplo, seu Woodford Reserve Double Oaked, lançado em 2012.

O Woodford Reserve Double Oaked começa sua vida como um Distiller’s Select. Porém, após sua primeira maturação, é transferido para barricas altamente torradas e levemente tostadas para ser finalizado por um período de, aproximadamente, nove meses. Esta pequena gestação traz ao whiskey um sabor enfumaçado, mas não à moda dos whiskies turfados. É algo como um caramelo queimado, algo adocicado e ao mesmo tempo picante.

O processo de finalização no mundo dos bourbon whiskeys não é algo exclusivo da Woodford Reserve. Basta pensar no Angel’s Envy, finalizado em barricas de vinho do porto. Porém, a inovação do Woodford Reserve Double Oaked é a utilização de barricas de carvalho americano virgens. Não há a influência de qualquer outra bebida que teria ficado naqueles recipientes antes. A diferença está, simplesmente, no processo de torra e tosta do barril. Aliás, as barricas virgens de carvalho que maturam o Woodford são produzidas na Brown Forman Cooperage, que também é responsável por fabricar aquelas usadas pela Jack Daniel’s. Isso permite que a destilaria escolha a dedo apenas as melhores barricas para maturar seu bourbon.

Torra dos barris

A Labrot & Graham possui também a curiosa tradição de fermentar seu mosto por um período maior do que o costumeiro. A maioria das destilarias de bourbon whiskey realizam o processo em 3 dias, produzindo um distiller’s beer com graduação alcoólica em torno de 9%. A Labrot, no entanto, fermenta seu mosto por 6 dias, elevando a graduação para aproximadamente 11%. Este fermentado é então destilado três vezes em alambiques de cobre. O produto resultante é então reunido com outro destilado, produzido em destiladores contínuos da Brown Forman Distillery, no Kentucky.

Apesar do Woodford Reserve Double Oaked não estar disponível em lojas brasileiras, ele pode ser facilmente encontrado nos freeshops de nossos aeroportos internacionais. Seu preço é de US$ 50,00 (cinquenta dólares). E não, não é necessário usar chapéus extravagantes e nem admirar equinos para comprá-lo.

 WOODFORD RESERVE DOUBLE OAKED

Tipo: Bourbon

Marca: Woodford Reserve

Região: N/A

ABV: 43,2%

Notas de prova:

Aroma: Caramelo. Açúcar mascavo e baunilha.

Sabor: Calda de caramelo queimada. Pudim. Final longo, com caramelo e açúcar mascavo.

Disponibilidade: Duty Frees de aeroportos brasileiros / lojas internacionais

 

Drink do Cão – Flying Scotsman

Há uns cinco anos atrás viajei para o Peru com a querida Cã. Uma viagem que no papel parecia no máximo interessante, mas que superou muito minhas expectativas. Muito provavelmente porque, também, eu não tinha tantas expectativas assim. Aliás, talvez este seja o segredo para a repentina alegria. Não esperar nada. Nunca. É como aquele whisky barato, que não promete muita coisa, mas entrega o mundo.

Mas estou a digressionar. De volta à viagem que muito me surpreendeu. Fiquei apaixonado pelas ruínas de Macchu Picchu – ainda que ruínas de civilizações antigas não sejam muito minha preferência – e adorei voar sobre as linhas Nazca. Mas o ponto alto, o melhor mesmo, foi a viagem ferroviária entre Cuzco e Aguas Calientes, à bordo do Hiram Bingham. Um trem incrível, decorado no estilo dos Pullmans da década de vinte, que conta com um vagão-bar, inteiramente de vidro. Achei aquela ideia magnífica. Era a união de três elementos: a tontura causada pelo mal de altitude, o sacolejar do vagão sobre os trilhos e um balcão open-bar de coquetéis. A receita perfeita para um Cão confortavelmente trôpego.

Ah, mas infelizmente tinha música ao vivo.

Achei aquela a melhor experiência que alguém poderia ter sobre trilhos. Quer dizer, até descobrir que a mesma empresa que operava aquele comboio também possuía outra locomotiva. Na Escócia. É o Royal Scotsman, criado com base em outro incrível trem, o incrível Flying Scotsman. E será sobre ele – e sobre o coquetel em sua homenagem – que falarei hoje. Mais sobre o trem do que sobre o coquetel, mesmo porque há poucos registros sobre este último.

Considerado por muitos como o mais famoso trem de todos os tempos, o Flying Scotsman (em uma tradução direta, o Escocês Voador) entrou em serviço em 1862, como ligação entre as cidades de Edimburgo e Londres e uma parada na cidade de York, para o almoço. Em meados de mil oitocentos e oitenta, ele foi modernizado e reformado. A viagem inteira, que originalmente levava pouco mais do que dez horas, passou para oito horas e meia. Tempo suficiente para comer bem e se embriagar.

Talvez você esteja se perguntando quão veloz era a locomotiva, para levar este sugestivo nome. Bem, sua incrível velocidade era de, aproximadamente, cento e vinte quilômetros por hora. O que na nossa realidade não parece muita coisa, mas que era algo fora do comum no começo do século XX. Porém, com o avanço tecnológico, e a medida que o tempo passava, as locomotivas foram reformadas ou mesmo trocadas. Atualmente, a máquina a vapor cedeu espaço para uma elétrica, e a viagem passou a ser feita em menos de quatro horas.

O clássico trem

A conexão entre o trem e o coquetel é um mistério. Poderia dizer que ele fora criado no bar sob trilhos que leva seu nome. Mas isso seria apenas uma conjectura. O que sabemos é que o Flying Scotsman é uma versão um pouco diferente de outro coquetel que leva scotch whisky. O Rob Roy.  Como a expectativa – e quase tudo na vida – o importante é a dosagem. A receita mais conhecida pede duas partes iguais de vermute e whisky, com apenas 1/4 de colher de chá de calda açúcar. O que já é bem pouco. Porém, o dulçor dos vermutes disponíveis no mercado varia bastante. Assim, teste e adapte a receita para seu gosto, sem temor. Um vermute mais doce demandará ainda menos calda, já um mais seco exigirá mais calda.

Assim, prezados leitores, preparem-se para embarcar em um coquetel que faz jus às mais incríveis viagens férreas de todos os tempos. E podem manter as expectativas altas. Ele é excelente.

FLYING SCOTSMAN

Antes de explicar o preparo, é preciso advertir. Há uma bifurcação no trilho de sua escolha. A forma mais frequente de serviço deste coquetel é em uma taça coupé ou de martini. Mas você pode preferir servi-lo em copo baixo com uma pedra grande de gelo, ou algumas menores, à moda de um negroni ou Old Fashioned. O que faz sentido também. Ninguém irá te repreender. Dê asas a seu escocês voador.

INGREDIENTES

  • 1/2 dose de scotch whisky (pode ser o blended whisky que preferir. Note que whiskies mais adocicados, como os Chivas Regal ou o Johnnie Walker Red Rye demandarão reduzir a calda de açúcar. Este Cão recomendaria algo como um Johnnie Walker Black Label ou até um Teacher’s)
  • 1/2 dose de vermute tinto (Este Cão usou o Miró Etiqueta Negra, bastante seco e um pouco ácido. Se utilizar um vermute adocicado – como o Martini Rosso, por exemplo – também será necessário diminuir o açúcar para atingir o equilíbrio).
  • 1/3 colher de chá de calda de açúcar (aprenda a prepará-la aqui)
  • 2 dashes (sacudidelas) de Angostura Bitters
  • gelo (bastante. Sério)
  • copo baixo, taça coupé ou de martini
  • strainer
  • mixing glass

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em um mixing glass – ou algum recipiente para misturar – com bastante gelo. Mexa, com o auxílio de uma colher bailarina ou algo equivalente.
  2. Desça o coquetel coado (com ajuda de uma peneira ou strainer) em uma taça coupé ou de martini, ou no copo baixo com gelo, conforme sua escolha.

 

Novidade do Cão – Lançamentos – Dewar’s e Aberfeldy

O que você faria se fosse convidado para beber com um de seus ídolos? Nunca havia pensado na resposta para esta pergunta. Mesmo porque, até semana passada, era uma questão totalmente hipotética e etérea. Afinal, a grande maioria dos famosos que admiro já morreu, ou habita um local altíssimo, de atmosfera rarefeita e muito pouco acessível para um Cão. Assim, este era problema que imaginava que jamais fosse ter. E que, portanto, não era um problema. Ocorre, no entanto, que graças a um magnífico convite da Bacardi, me vi obrigado a sair da zona de conforto e enfrentar este excelente – porém um pouco temeroso – problema.

É que nos dias 04 e 05 deste mês de setembro, Fraser Campbell, bartender e embaixador mundial do whisky Dewar’s esteve de passagem pelo Brasil. Sua missão foi a de divulgar duas linhas de whisky pertencentes à empresa, que em breve estarão em nosso mercado. E este Cão, orgulhosamente, foi convidado a encontrá-lo, para provar, em primeira mão, estas novidades. São duas expressões dos já conhecidos blended whiskies da Dewar’s – sendo um inédito – e mais um single malt, o Aberfeldy 12 anos.  Como diria um amigo deste Cão, em um momento espirituoso – a indústria de parafusos certamente não concede oportunidades como esta.

Mas antes, vamos a Campbell. O bartender, nascido na Escócia, possui mais de treze anos de experiência em bares e hospitalidade. Recentemente foi chamado pela Barcardi para assumir a face revelada da marca de blended whiskies mais vendida nos Estados Unidos, e uma das quatro no mundo. A Dewar’s. Fraser – além de um bartender genial – é um exímio entendedor de whiskies, e conhece detalhes do processo de produção de cada um dos single malts pertencentes à Bacardi.

I’m also here for the scotch.

Segundo Fraser “O mercado consumidor de whisky no Brasil é muito relevante, principalmente o de marcas premiuns, nicho que Dewar’s é um dos principais players globais. Nos diferenciamos muito de nossos concorrentes, pois, somos uma marca mais descolada e jovem, que busca entender o que o nosso cliente quer através de suas experiências de vida, por isso, precisamos utilizar o nosso conhecimento adquirido aqui e em outros países para aumentar ainda mais a nossa presença no cotidiano do brasileiro”. Em sua masterclass, que aconteceu na terça-feira no excelente The Juniper 44º, Campbell nos apresentou três whiskies distintos. Os Dewar’s, nas expressões 12 e 18 anos, e o Aberfeldy 12 anos. Estes últimos desembarcam pela primeira vez em nosso mercado.

Campbell explicou que o coração das expressões da Dewar’s é, justamente, o Aberfeldy. A composição dos blends, porém, leva outros sigle malts e whiskies de grão, especialmente aqueles pertencentes à Bacardi. Os principais são Royal Brackla, Aultmore, Craigellachie e Macduff (Deveron). Aliás, historicamente, estes single malts raramente apareciam isolados. Porém, em 2014, com a criação dos Last Great Malts of Scotland – que reúne os maltes sob o comando da Bacardi – o acesso a estes whiskies tornou-se mais fácil.

Aliás, é curioso que em uma indústria cuja clara tendência seja não declarar a idade, todas as expressões de single malts sob o guarda-chuva da Bacardi possuem número estampado no rótulo. Nas palavras – mal traduzidas por este Cão – de Fraser, ainda que esta seja uma tendência natural devido à demanda de um mercado que está em franca ascensão, a idade é o mais claro indicador aos consumidores de qualidade. Por isso, com exceção do White Label, a Dewar’s continuará a declarar a idade de seus whiskies. E para selar qualquer polêmica, Fraser citou Tommy Dewar, um dos fundadores da companhia: “nós respeitamos muito a idade avançada quando ela é engarrafada”

Ao final, foram servidos ainda três coquetéis elaborados com Dewar’s 12 anos. Dentre eles, merece destaque o excelente Dramble, praticamente uma marca registrada de Fraser Campbell. O coquetel é uma releitura do famoso Bramble, feito com lico de amora, limão, calda de açúcar e gim. Mas, nesta versão, troca-se o gim pelo whisky.

AS NOVIDADES

Mas vamos às novidades. O Aberfeldy 12 e o Dewar’s 18 anos. O primeiro é um single malt bastante floral. Há um certo aroma vegetal muito agradável, e um sabor bastante claro de mel. Já o Dewar’s 18 é um blend  seco, com notas florais e de pão de mel (é isso mesmo!) e frutas cristalizadas. Quase um panetone líquido. Aliás, a leveza e este aroma floral – fruto do Aberfeldy – está presente em toda linha Dewar’s.

Novidades a vista.

Se você ficou ansioso para provar as novidades, saiba que as novas expressões estarão brevemente disponíveis em lojas especializadas. Além disso, este Cão visitará cada uma delas em provas isoladas, com certa periodicidade. Serão três provas ao todo – incluindo o Dewar’s 12 anos – com informações mais aprofundadas sobre cada rótulo.

Realmente, meu amigo tinha toda a razão. A indústria de parafusos não concede oportunidades como esta. Mesmo.

 

Jameson Tea & Lime – Drink do Cão

Hoje, meu caros leitores, falarei de um assunto bastante improvável. Falarei de botânica. Mais especificamente de uma fruta. O Prunus persica. Talvez você não o conheça pelo nome científico, mas certamente já experimentou. Ele é rosado, arredondado e possui uma textura curiosamente aveludada e agradável. É bastante consumido em sua forma natural e muito saboroso. Falo do pêssego.

Uma rápida pesquisa na internet revela que o fruto também é muito benéfico. O pêssego é rico em fósforo, potássio e vitamina A, importantes nutrientes para os ossos e a visão. Além disso, eles contém muitos fenóis e carotenoides, que – conforme minha pesquisa de duvidável autenticidade – combatem tumores e são extremamente benéficos para a pele. E como se tudo isso não fosse suficiente, a pele do pêssego é rica em fibras, excelente para regular o intestino.

Reúna o pêssego com o limão e você terá uma panaceia em forma de fruta. O limão auxilia na digestão – produzindo um interessante combo com o pêssego – e é riquíssimo em vitamina C, essencial para o sistema imunológico. Você poderia, claro, consumir as duas frutas em sua forma pura, sentindo-se saudável e recompensado. Porém, este Cão possui uma solução melhor. Uma solução que envolve um ilustre Irish Whiskey. O Jameson.

É que as duas frutas são também ingrediente do Jameson Tea & Lime, o coquetel oficial da marca de Irish Whiskey aqui no Brasil. Ele está presente em quase todas as festividades que envolvem o ilustre irlandês. No começo deste mês, por exemplo, o coquetel foi o protagonista da arena Jameson, no Coala Festival, que aconteceu no Memorial da América Latina em São Paulo.

Coala Festival (fonte: flashbang.com.br/)

Este Cão infelizmente não pode comparecer à festividade. Porém, preocupado com a saúde de seus leitores, conseguiu a receita do drink. Que, aliás, é tão fácil quanto jogar uma pastilha efervescente de vitamina na água, mas muito melhor. O Jameson Tea & Lime:

JAMESON TEA AND LIME

INGREDIENTES

  • 1 e 1/2 dose de Jameson Irish Whiskey
  • Gelo
  • Chá de pêssego até encher o copo (você pode comprar um pronto, ou, se tiver tempo sobrando, preparar seu próprio. Este Cão sugerirá uma receita a seguir. Há uma recompensa pelo trabalho extra, mencionado abaixo. Desnecessário dizer, mas só para garantir: chá de pêssego frio, meus caros. Não quero ver ninguém perdendo dedos quando o copo explodir com o choque térmico porque colocou chá quente.)
  • Limão

PREPARO

  1. Coloque, em um copo, 50 ml de whiskey Jameson
  2. Complete o copo com gelo
  3. despeje o chá até cobrir o gelo
  4. Esprema 1/4 de limão

CHÁ DE PÊSSEGO:

  • 1 xícara de chá de açúcar
  • 1 xícara de chá de água
  • 2 pêssegos maduros, cortados finos
  • 3-4 saquinhos de chá de pêssego bom (Quer dizer, a receita pede chá de pêssego. Mas e se você usar a criatividade e trocar por outro? Alguém aí pensou em um Lapsang Souchong?)
  • 8 xícaras de chá de água

PREPARO DO CHÁ DE PESSEGO:

  1. Ferva água com o açúcar e os pêssegos em uma panela. Use uma colher de madeira para dar uma esmagadinha nos pêssegos e ajudar na infusão
  2. Depois do açúcar ter se dissolvido (note que você deve desligar o fogo bem antes do ponto de fio. É apenas para que o açúcar se dissolva – ou seja, desapareça), remova do fogo e deixe descansar por uns 30 minutos.
  3. Prepare o chá preto, com infusão de mais ou menos 4 minutos. Remova os saquinhos e deixe esfriar.
  4. A calda de açúcar e pêssego já deve ter esfriado, não? Talvez seja uma boa ideia colocá-la em uma garrafa vazia. Coe antes, com uma peneira fina, para remover os pedaços de pêssego.
  5. Aqui está a grande recompensa dessa trabalheira: você pode controlar o dulçor do seu coquetel. Basta aumentar a proporção de calda de açúcar para chá de pêssego se quiser um drink mais doce. Isso seria impossível usando o chá pronto.

 

 

O Cão Econômico – William Lawson’s

Vou começar o texto de hoje com uma citação de Voltaire. Aquilo a que chamamos acaso não é, não pode deixar de ser, senão a causa ignorada de um efeito conhecido. Voltaire, ao escrever esta frase, discutia sobre o papel do acaso na criação da vida. Para ele, não há uma definição de acaso – ele é simplesmente um coringa, um substituto para tudo aquilo que desconhecemos a razão, mas que produz determinado efeito. Porém, não soubesse disso, poderia pensar que Voltaire falava de ter filhos pequenos.  Filhos pequenos são a encarnação da causa ignorada de um efeito conhecido.

Um exemplo disso aconteceu comigo justo na semana passada. Havia terminado de jantar, e sentara-me no chão com o cãozinho para brincar com fofoblocos e assistir algum desenho no meu celular. Quando ele fosse dormir, iria comprar online algum belo whisky para uma prova. Algo inédito e sofisticado. O Cãozinho, porém, estava um pouco agitado. Gritava e atirava os fofoblocos pela sala e pouco se concentrava naquela curiosa formiga azul que cantava na tela de meu telefone. Num destes arremessos – e enquanto eu desadvertidamente tentava reunir as pecinhas já jogadas – meu celular foi atirado contra a parede.

Comportamento digno da realeza.

Não poderia dizer que aquele era um resultado surpreendente. Na idade do querido Cãozinho, os objetos são divididos em apenas dois tipos. Os que são arremessados e os que são mordidos. Eu sabia que aquilo aconteceria.  Logo que o aparelho caiu de tela para baixo e piscando em flashes agonizantes, percebi que o prognóstico não era bom. Tela rachada. Uma pesquisa na internet revelou que o preço da troca era quase comparável àquele de um aparelho novo. E pior, bem maior do que de qualquer whisky que planejava adquirir.

Por conta disto, desta minha culpa consciente (não dolo eventual) me vi obrigado a mudar meus planos. Não havia problema. Como já disse antes por aqui, devemos crescer na presença da adversidade. O que, claro, não significa deixar de beber. Por conta disso, a sofisticação e a exclusividade deram espaço para o singelo, mas agradável. O eleito, desta vez, foi um whisky que sempre relevei ao observar na prateleira – talvez em busca de algo mais caro, ou mais conhecido. Os otimistas dirão que em todo desastre há uma oportunidade. Bem, esta foi a vez dele. A vez do William Lawsons.

O William Lawsons é um blended scotch whisky sem idade definida, hoje pertencente à Bacardi. Além da expressão ora provada, há também uma versão com doze anos de maturação mínima e outra com treze, finalizada em barricas de bourbon. Há também uma bebida composta, o Super Spiced, com infusão de baunilha e pimenta. Nenhuma destas expressões chega oficialmente ao Brasil.

O protagonista do William Lawsons é MacDuff. Não, não é um spin-off de Macbeth, ainda que isto combinasse bem com o tema de oportunidades e desgraças. MacDuff é o nome da destilaria que produz o single malt Glen Deveron, base deste blended whisky. Além dele, em sua composição há diversos outros whiskies de malte e de grão com perfil frutado, porém não há o emprego de qualquer malte defumado. Algo bastante incomum na elaboração de qualquer blended scotch whisky.

Glen Deveron

 

A história da William Lawson’s também é eivada de pequenos e grandes desastres. William – seu fundador – nasceu na Escócia, em meados do século XIX. Na contramão da tendência mundial, mudou-se para a Irlanda em busca de sucesso, numa época em que muitos irlandeses migravam para outros países justamente por este motivo. Lá, tornou-se gerente e depois diretor de uma empresa de blended whiskies, a E&J Burke’s, de Dublin. Porém, por algum motivo desconhecido, foi demitido da empresa em 1903. Sem emprego, Lawson voltou para sua terra natal. A E&J Burke’s, porém, continuou a utilizar a marca de William. Em 1960 foi construída a MacDuff, e em 1963, William Lawson’s foi adquirida pela Martini & Rossi, que, por sua vez, fundiu-se com a Bacardi em 1993.

O William Lawson’s é um whisky com corpo médio e sabor bem leve e adocicado. Como é de se esperar, não há qualquer aroma ou sabor enfumaçado ou medicinal. O álcool é um pouco agressivo, o que torna a tarefa de perceber os discretos sabores do whisky um pouco difícil. É um perfil de sabor próximo ao do Cutty Sark, mas com álcool mais pronunciado. A ampola de um litro custa, em média, R$ 75,00. O que o coloca frente a frente com outros blended whiskies standard, como o Ballantine’s Finest e o White Horse.

Para falar a verdade, se este Cão pudesse escolher livremente, o William Lawsons provavelmente não seria – como efetivamente não foi – sua primeira escolha. Em sua faixa de preço, teria facilmente ficado com a marca do cavalo níveo. No entanto, é um whisky que oferece uma experiência honesta dentro de seu custo. Assim, se estiver com orçamento apertado e buscando algum whisky agradável e despretensioso, vá de William Lawson’s. Mas se não tiver, também, experimente mesmo assim. Não precisa deixar que a causa ignorada de um efeito conhecido te surpreenda.

WILLIAM LAWSON’S

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: William Lawsons

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: álcool, um pouco de malte, açúcar refinado.

Sabor: Açúcar de confeiteiro, mel. Um certo sabor de cereais. Álcool. Final médio e seco.

Com água: A água reduz um pouco a agressividade do álcool, mas torna o sabor de cereais mais evidente.

Benefícios do whisky para a saúde

Recentemente a internet entrou em convulsão ao saber que a Rainha Elizabeth bebe quatro drinks diferentes todos os dias. A rotina etílica da monarca inclui dry martini, gim com dubonnet, vinho e champanhe. Destes, três são consumidos à luz do dia, antes, durante e depois do almoço. Isso significa que durante seus compromissos reais, Elizabeth provavelmente está bem embriagada. O que explica, de certa forma, porque ela sai nas fotos sempre com o semblante lhano e aquele sorrisinho besta.

Talvez ela esteja apenas antecipando tendências. Afinal, gim entrou na moda há pouco tempo, mas a monarca já bebia muito antes de se tornar cool. Mas o mais incrível de tudo não é isso. O mais incrível é que a rainha da inglaterra tem 91 anos de idade. E apesar de visualmente não parecer nem um dia mais jovem, ela continua forte, saudável e absolutamente lúcida. Quer dizer, tão lúcida quanto uma pessoa que começou a beber gim antes do almoço pode aparentar. Por conta disso, muitos tem se perguntado qual a razão desta saúde inabalável.

Hipster

Porque falta de stress certamente não é. Como uma figura pública cujas responsabilidades transcendem muito o âmbito profissional, a rotina de Elizabeth é corrida e extenuante, ainda mais para uma senhora como ela. A genética talvez ajude. Basta lembrar que sua mãe, Isabel, faleceu aos cento e um anos. Porém, seu pai – o rei George VI – não viveu muito além de meio século, tendo falecido de problemas de saúde.

A nós, resta apenas conjecturar. Mas à rainha, suspeito que não. Porque se ela bebe tanto e já viveu tanto tempo, é bem possível que ela saiba de algo. Assim, resolvi seguir a tendência da mais conhecida figura real do mundo e pesquisar. Mas não sobre gim. Sobre a melhor bebida do mundo, o whisky. Os benefícios trazidos pelo whisky à saúde. Os resultados de minhas incansáveis – e ébrias – buscas seguem abaixo. É como dizem os ingleses – a dram of whisky a day keeps the doctor away (uma dose de whisky por dia te deixa longe do médico):

É LIGHT

É sério isso. Whisky não possui gordura e tem pouquíssimo sódio. Tudo bem que minha pança adquirida nos últimos anos ateste o contrário. Mas tenho certeza que não é culpa do whisky. Não, de forma alguma. A culpa é certamente do molho de mostarda com mel da salada. O molho da salada engorda demais.

Por isso a Kate é tão magra!

PREVINE A DIABETES

Pode parecer um contrasenso, mas não é. O website da fundação Livestrong – é isso mesmo, aquele das pulseirinhas amarelas – aponta também que o consumo moderado da bebida diminui a chance de desenvolver diabetes em 30 a 40 por cento. Este número foi apresentado em estudo conduzido pelo Dr. David J. Hanson. Não, não é aquele do grupo pop. É um médico pesquisador da Universidade de Nova Iorque.

PREVINE A DEMÊNCIA E ALZHEIMER

Há estudos que, discutivelmente, apontam que o whisky é um poderoso remédio contra a demência e o mal de Alzheimer. É claro, aqui a moderação é chave. Segundo a pesquisa, pessoas que consumiam até seis doses do destilado por semana tiveram os melhores resultados.  Este Cão acha que, como tudo na vida, há um trade-off: esqueça das coisas agora para lembrar melhor de outras no futuro. É quase um investimento a longo prazo. Aliás, o melhor deles.

Dorothy Howe concorda.

É NUTRITIVO

Tá, falar que whisky é nutritivo talvez seja uma hipérbole. Mas de acordo com o Dr. Jim Swan, em trabalho apresentado na EuroMedLab de Glasgow, em 2005, o whisky é rico em ácido elágico, também presente nas framboesas. O ácido elágico inibe certos cânceres, como de pâncreas, esôfago, pele, cólon e próstata. É claro que você sempre pode deixar o destilado para lá e comer framboesas. Mas duvido que framboesas te deixem tão feliz quanto whisky.

PREVINE DERRAMES

De acordo com um estudo da universidade de Harvard sobre bebidas alcoólicas, o consumo de whisky moderadamente pode auxiliar na prevenção de derrames e doenças cardiovasculares. Você até pode duvidar de alguns pontos deste texto. Mas vamos combinar que este é difícil de refutar. Afinal, é Harvard. Obrigado, Harvard.

Outro estudo, conduzido pelo Rowett Research Institute de Aberdeen, chegou a conclusão semelhante. Em nome da ciência, o instituto embriagou nove homens de formas diferentes. Alguns com single malt, outros com vinho, e outros com destilado não maturado (direto dos alambiques). Foi descoberto que os single malts forneceram a maior concentração de antioxidantes, importantíssimos para a saúde cardiovascular.

É FANTÁSTICO

Eu sou uma draga. Como já mencionei diversas vezes por aqui, tenho pouquíssimas restrições alimentares. Mas isso não significa que considere tudo delicioso. Como meus vegetais sem nenhum sacrifício e até gosto de alguns, como palmito, cebola e rúcula. Mas se você me fizer escolher entre qualquer deles e whisky, a balança penderá para este último. Talvez, só talvez, a rainha não saiba de nada. Ela bebe porque é bom mesmo.

Drops – Puni Alba – Single Malt Italiano

Antes de começar a escrever este texto, resolvi fazer um teste. Perguntei a dez pessoas – dentre elas a Cã, o Pai Cão e certos amigos – qual a primeira coisa que vinha à mente quando falava-se daquele curioso e comunicativo país que é a Itália. E a resposta, para minha total estupefação, foi gondoleiros.

Gondoleiros. Dentre todas as coisas pelas quais a Itália é famosa, gondoleiros foi a resposta de quatro entre dez pessoas a quem fiz a indagação. Os gondoleiros remaram na frente dos automóveis superesportivos. Dos pratos ricos em carboidratos. De Dante, Virgílio, Correggio – com os cumprimentos do Cão Pai – Da Vinci, e da Mona Lisa. Superaram a tarantella. Sobrepujaram Fellini, Spaghetti Western e Bernardo Bertollucci. Era um resultado que eu jamais esperaria.

Eu sabia, por exemplo, que jamais alguém falaria whisky. E esse era justamente o motivo daquele meu experimento. Queria saber quantas coisas poderiam ser evocadas antes de chegar à bebida. Porém, o resultado me demonstrou uma curiosa obsessão de meus conhecidos por estes tão caricatos choferes de canoa.

Acontece que, para mim, os gondoleiros ocupam uma posição bem baixa da lista daquilo que define a essência italiana. Uma posição certamente abaixo de whisky. Ainda mais agora, que a Itália possui a Puni, uma inovadora e destemida destilaria. Fundada em 2010 por Albrecht Ebensperger e sua família, a Puni localiza-se no coração dos alpes italianos, próxima ao vilarejo de Glurns. Em 2012 lançou seus primeiros single malts, dentre eles, o Alba, que ilustra este texto.

Essa é a destilaria. Feia, né?

O Puni Alba é uma criação tão improvável quanto sofisticada. Seu destilado é composto por cevada, centeio e trigo, todos maltados, o que é bastante incomum. E o que, aliás, é uma adaptação italiana do conceito de single malt, que, pelas regras escocesas, deve ser produzido somente com cevada maltada. Bourbons, por exemplo, podem possuir trigo e centeio em sua mashbill, mas estes gãos não são maltados. Sua maturação ocorre por três anos em barricas de vinho Marsala siciliano, para depois ser finalizado em barricas de segundo uso que contiveram whisky defumado da ilha de Islay, na Escócia (estes mauraram single malt escocês por um período entre dez e vinte e cinco anos)

Além do líquido, a ampola merece um parágrafo somente dela. A garrafa foi desenhada pelo designer italiano Chrisian Zanzotti. Seu visual colecionou prêmios como o de melhor design pela World Whiskies Awards e International Wine & Spirits Competition. Claro, um desenho impecável é outra coisa que poderíamos esperar dos italianos. Que, aliás, é outra coisa que vêm na frente dos gondoleiros em minha lista.

O Puni Alba é um whisky leve e equilibrado, com aroma apenas levemente enfumaçado e picante. O uso das barricas de uma forma criativa e cuidadosa disfarçam a pouca idade do single malt, que se passa por um produto ainda jovem, mas bem mais maturado. O final é curto e adocicado. Aliás, este é um dos pontos de destaque do Puni Alba. A prova de que whiskies jovens não são necessariamente  agressivos ou monotemáticos. O bom emprego de técnicas de forma criativa podem produzir resultados excelentes.

Nada de gondoleiros, artistas, massas e cinema. Pensando bem, Puni é a primeira coisa que vêm a minha mente quando sou indagado sobre a Itália.

PUNI ALBA

Tipo – Single Malt

ABV

Destilaria: Puni

País: Itália

Notas de prova

Aroma: frutas secas, pimenta do reino.

Sabor: discretamente enfumaçado no começo, com borracha queimada. Frutas vermelhas, cravo. Final mais adocicado e frutado.

Disponibilidade: Apenas lojas internacionais