Union Vintage 2005 – Flashback

Cento e sessenta e quatro milhões de reais em notas de cinquenta. São três milhões, duzentas e oitenta mil cédulas. Se alguém resolvesse, algum dia, empilhá-las, a torre chegaria a trinta e três metros de altura. E se pesadas, dariam aproximadamente três toneladas e meia. Três toneladas e meia de dinheiro, em notas de cinquenta reais. Em volume, dariam para preencher mais de seis caixas d’agua de um metro cúbico. Só pelo puro volume e peso, pode parecer uma quantidade infurtável de dinheiro. Mas foi justamente isso que aconteceu em Fortaleza, no segundo maior roubo a bancos do mundo – o tal assalto ao Banco Central, que até deu origem a um filme da Netflix.

Os ladrões agiram por mais de três meses, planejando cada detalhe. Cavaram um túnel até o cofre e tiraram, pacientemente, todas as seis toneladas e meia com o uso de bacias e cordas. Nenhum alarme foi disparado. A notícia do roubo chegou a imprensa apenas no dia seguinte. Que você, querido leitor, provavelmente leu ao utilizar algum sistema de busca como o Altavista e o Yahoo. Ou, se fosse conectado as últimas tendências digitais, viu no recém-fundado YouTube. Pois é. O evento aconteceu em 2005.

Em 2005, voce tinha que apertar três vezes a mesma tecla pra escrever “C”.

Foi em 2005 também que a Halle Berry apareceu durante a premiação da Framboesa de Ouro para receber seu prêmio de pior atriz por Mulher Gatoe quando o YouTube foi fundado. Foi também o ano que o Kyle MacDonald começou seu projeto de conseguir uma casa utilizando apenas um clipe vermelho de papel – projeto que mais tarde foi narrado em seu blog “one red paper clip“. E enquanto tudo isso acontecia, a destilaria brasileira de whisky Union, localizada em Veiranópolis, preenchia alguns barris de carvalho americano com seu new-make spirit.

Na época, a gente não sabia que o YouTube viraria o que é hoje. E não fazia ideia que o Google em breve superaria Altavita e Yahoo – muito provavelmente, pela facilidade de transformar seu nome em verbo (afinal, você já viu alguém falar “Yahooza isso aí”?). Não fazíamos ideia também sobre os barris da Union. Aliás, muitos de nós não fazíamos ideia nem do que era a Union. Mas, em 2022, soubemos destes barris – foram eles que deram origem ao Union Vintage 2005.

Como o nome sugere, o Union Vintage 2005 foi todo destilado em 2005, e os barris preenchidos no mesmo ano. Estes maturaram por longuíssimos dezesseis anos até que foram finalmente esvaziados e seu conteúdo engarrafado. Ao todo, renderam duas mil e cinco garrafas – uma coincidência suspeita, se alguém me perguntar. O whisky foi engarrafado com sua cor natural, na graduação alcoolica de 48%.

A maturação aconteceu totalmente em barris de carvalho americano de ex-bourbon. Intuitivamente, imaginaríamos um whisky extremamente maturado – ainda mais considerando que o clima brasileiro acelera a maturação, se comparada a padrões escoceses. Mas, não é bem o que acontece. O Union Vintage 2005 é elegantemente equilibrado. O tempo suavizou o new make, mas não o ofuscou. O que sugere que os barris usados foram de primeiro e segundo uso, e cuidadosamente misturados para que nenhum dos elementos se sobrepusesse ao outro.

A Union em Veiranópolis

Sensorialmente, o Union Vintage 2005 traz notas de baunilha, mel, açúcar mascavo, gengibre e pimenta. Há um curioso frutado também, que surge especialmente na finalização. Em comparação aos demais whiskies da Union, o Vintage 2005 é bastante delicado e lapidado. Para o entusiasta que procura sempre intensidade e personalidade, talvez seja uma quebra de expectativa. Mas há uma troca clara aqui – equilíbrio e sofisticação versus pungência.

O Union Vintage 2005 está a venda no site oficial da destilaria e em varejistas selecionados por, aproximadamente R$ 465,00. Parece caro, mas o preço se justifica pela matéria prima e barricas – quase todos importados – o tempo de maturação e, não menos importante, a embalagem caprichada. Para os entusiastas por single malts Brasileiros, ele é prova obrigatória. Só não recomendo o assalto a bancos como forma de comprar um.

UNION VINTAGE 2005

Tipo: Single Malt

Destilaria: Union Malt

País: Brasil

ABV: 48%

Notas de prova:

Aroma: adocicado e floral, com baunilha e mel.

Sabor: mel, gengibre, baunilha, açúcar mascavo. Final apimentado, frutado e com gengibre.

Cinco whiskies que deixaram saudades

Naquela época, os carros eram bem melhores – disse meu amigo, afagando, numa direção só, o teto de seu Opala. Olha o design disso, olha o motor. Apertei os lábios em aprovação e pedi: Liga aí, vamos ouvir o barulho dele. Empolgado, colocou a chave no contato. O motor de arranque girou, girou, mas nada daquele reconfortante barulho dos gases em combustão saíndo do escape. Deve estar frio, concluiu. É, normal, naquela época era normal – concordei – abrindo a porta e sentando ao seu lado, no banco inteiriço.

Me conta, faz quantos quilômetros por litro, indaguei. Cara, quando tô descendo a serra, uns quatro. Dei uma risadinha. Puxa, não é nada econômico. Mas né, mesmo com a gasolina custando o mesmo que o PIB de um país europeu, vale a pena. Naquela época eles eram muito mais legais – comentei, firme. Ele concordou com a cabeça e completou: A única coisa que fico um pouco cabreiro é com a frenagem e segurança. Só cinto de segurança, e não tem ABS, nada, só o freio a disco mesmo. Levantei as palmas pra cima e dei de ombros – normal, coisa daquela época, que era bem melhor.

Bi-xenon.

Meu amigo baixou as sobrancelhas e me olhou em tom de piada – você tá de sacanagem? Eu, eu não, magina, é que nem whisky, antigamente era bem melhor, mó saudades de beber um White Horse de procedência duvidosa. Ele riu. É, acho que não era melhor. Era só diferente, mas dá saudades. Dessa vez, eu concordei de verdade.

As coisas mudam – e às vezes a gente não tá pronto para aceitar. Podem ser coisas prosaicas, como carros ou whiskies. Ou coisas mais complicadas. Mas, a sensação de saudades fica lá. Como diria algum filósofo, as coisas são fluídas – tanto as que são fluídas de verdade, tipo whisky, como as que não são, como carros. È normal sentir saudades. Aqui, reuní cinco whiskies que não são mais produzidos, e que deixaram saudades como o automóvel de meu amigo.

Macallan Ruby

Esse deve ser o número um da lista de muita gente. O Macallan Ruby já veio para o Brasil por importação oficial. Quando chegou, custava menos de mil reais. Foi encarecendo à medida que rareava. Até que a The Macallan anunciou que o whisky seria descontinuado. Aí, ele sumiu das prateleiras – e os poucos que ficaram, passaram a ser vendidos por preços astronômicos.

O Macallan Ruby era o topo da Linha 1824 da The Macallan. Ele não tinha idade definida, e fora envelhecido exclusivamente em barris de carvalho europeu de primeir uso que antes contiveram jerez. Essa era uma característica da Linha 1824 – os whiskies eram escolhidos pelo perfil sensorial, e não pela idade. Como não havia uso de corante caramelo, a The Macallan tinha que acertar padrão de cor, sabor e aroma só pela combinação de barris. Coisa de louco.

Sensorialmente, o The Macallan Ruby parecia que você era um grego antigo e tinha morrido, e bebia da fonte de vinho de Dionísio enquanto faunos produziam vinho jerez em soleras encantadas. Ou isso, ou tinha notas de caramelo, passas, ameixas, pimenta do reino e gengibre. Maravilhoso.

Laphroaig 18 anos

Mais um que deve encabeçar a lista de muito apaixonado. O Laphroaig 18 também já desembarcou no Brasil oficialmente. Da primeira vez, custava uns seiscentos reais, em meados de 2014. Aí subiu para oitocentos e depois pra algo como dois mil e quinhentos. E se eu dissesse que não dá pra entender a lógica, estaria mentindo. Porque é um whisky incrível.

A interrupção de produção do rótulo foi anunciada em 2015, e se efetivou no final de 2016. Uma tragédia anunciada – ostensivamente – pela Beam Suntory, proprietária da destilaria. A notícia, como você pode imaginar, foi recebida com alvoroço e inflação pelo mercado de entusiastas.

Sensorialmente, o Laphroaig 18 lembrava muito o 10 anos, mas com a turfa mais delicada, e uma suavidade e harmonia sem paralelos na linha da Laphroaig. Depois de um tempo, a destilaria lançou seu 15 anos – o que até aplacou um pouco as saudades. Mas não resolveu.

Suntory Hibiki 12 anos

O terceiro whisky desta lista também arranca lágrimas, especialmente dos apaixonados pelos destilados orientais. O Suntory Hibiki 12 anos foi descontinuado em 2015 – quase conjuntamente com o Laphroaig 18 – e substituído pelo Hibiki Japanese Harmony. A razão era fácil. Whiskies japoneses rareavam no mundo todo, e a própria Suntory não possuía estoque suficientemente maturado para atender a demanda.

O que pouca gente sabe – ou se lembra – é que o Hibiki 12 anos passava por uma maturação bem pouco ortodoxa. Barris que antes continham umeshu, licor de ameixa japones – o tal Plum Dew da Suntory. Isso é esquisito até para padrões ocidentais. Na Escócia, é proibido pela SWA maturar whiskies em barris que antes contiveram licor.

Sensorialmente, o Suntory Hibiki 12 anos trazia notas de baunilha, açúcar mascavo, ameixa seca e frutas vermelhas. Incrivelmente encorpado para um blend – discutivelmente até mais robusto que seu irmão mais velho e cobiçado, o Hibiki 17 anos.

Jura Prophecy

Jura Prophecy

É, eu sei, é polêmico colocar um Jura nessa lista. Mas ainda que a lista seja minha e eu não deva satisfação pra ninguém, vou me justificar. É que o Prophecy é tão melhor, mas tão melhor, do que qualquer dos outros atualmente no core range da Jura, que ele já merece estar aqui. Boa parte dessa minha predileção pouco diplomática se deve a uma simples razão. O Jura Prophecy era turfado – e possuía um aroma marítimo enfumaçado maravilhoso.

O Prophecy veio para o Brasil oficialmente pr bastante tempo. Porém, foi internacionalmente descontinuado lá por 2018, para dar lugar à nova linha de whiskies da Jura – Jura Journey, 10, 12, Seven Wood e 18 anos. Nenhum deles defumado. Segundo a destilaria, o consumidor ficava confuso ao ser apresentado com whiskies de uma mesma linha que ora eram turfados, ora não. Por conta de posicionamento de mercado – a Jura busca ser um whisky de entrada – decidiram cortar completamente a turfa.

A maturação do Prophecy acontecia em um conjunto de barris, dentre eles, carvalho europeu de Limousin, e carvalho europeu que antes contiveram jerez oloroso. Como na maioria dos Jura, a maturação não se sobressaía ao sensorial do malte, o que trazia um equilíbrio muito interessante para o whisky. Era delicado, defumado e apimentado ao mesmo tempo.

Mortlach Flora & Fauna

Flora e Fauna

Essa é uma história enevoada. Eu tenho aqui em meu armário uma garrafa de Mortlach Flora & Fauna com selo do IPI e contrarrótulo em português. Sinal de que, em algum momento, essa maravilha já apareceu por aqui oficialmente. Entretanto, o que é mais curioso é que não há qualquer referência a isso na internet. Indagar às pessoas envolvidas também fora infrutífero – ninguém sabia de nada. A verdade é que o Brasil já recebeu boa parte dos maltes mais famosos da Diageo, mas em pequenas quantidades. Então, em algum momento, o carinhosamente conhecido como Mortlach FF pode ter vindo pra cá desavisado.

Alguns whiskies são bons. Outros são muito bons. Alguns, excelentes. Mas há poucos que são tão formidáveis que conseguem retirar da obscuridade sua destilaria, outrora quase negligenciada – ou melhor, subvalorizada – e torná-la uma das mais desejadas entre os apreciadores e engarrafadores independentes. Este é o caso do Mortlach Flora & Fauna.

A linha Flora & Fauna da Diageo tem como objetivo colocar em foco as destilarias menos conhecidas de seu enorme portfólio, e dar a chance ao público de provar, como single malts, muitos dos whiskies utilizados em sua seleção de blended whiskies. Ao longo dos anos, foram vinte e seis rótulos diferentes. O Mortlach foi descontinuado para dar origem a uma série “oficial” da Mortlach – com três expressões. Que não fizeram, nem de longe, tanto sucesso quanto seu predecessor.

Levou alguns anos, mas a Diageo notou que havia algo errado. E inspirando-se na fama daquele primeiro Flora & Fauna, lançou um novo portfólio. Com um novo dezesseis anos, que presta tributo direto àquela primeira expressão, tão admirada – não é tão bom quanto o querido FF, mas ainda assim, é maravilhoso. A garrafa é quadradinha.

 

A História do whisky japonês – Parte II

Na semana passada contamos os primeiros capítulos da história do whisky japonês. Do desembarque de Matthew Perry no porto de Edo, até a fundação da Suntory por Shinjiro Torii e Masataka Taketsuru. Por ora, tudo estava em paz. Mas sossego nenhum dura pra sempre, então, retomaremos a história com:

Conflitos domésticos e internacionais

Em 1934, Masataka Taketsuru resolveu alçar voo solo. Demitiu-se da Kotobukiya e começou a trabalhar no projeto de sua nova destilaria. Essa, onde ele sempre sonhara. A ilha de Hokkaido. Por não ser um empreendedor tão nato quanto Torii, Masataka resolveu batizar seu novo empreendimento de Dainipponkaju – perfeito para se falar depois de algumas doses de Kakubin. Depois, e provavelmente ao ouvir a voz da razão de Rita, mudou o nome da empresa para algo mais pronunciável mesmo alcoolizado. Nikka.

Em 1940 a Yoichi, primiera destilaria do grupo Nikka, passou a funcionar. Foi nessa época que a Kotobukiya também alterou a denominação, e passou a atender por Suntory. Que, caso não tenha notado, é Torii-San ao contrário. E você, que achava que “Daslu” ou “Apple” eram ideias cretinas.

A Yoichi

Ao longo da década de trinta, o consumo de whisky no Japão ainda era pequeno e – apesar do público fiel – as contas da Yoichi e Yamazaki ainda fechavam no vermelho. Isso incrivelmente mudou com a segunda guerra mundial. O exército nipônico consumia, quase literalmente, rios de whisky. O consumo era tanto que a Yoichi recebeu título de instalação militar. E, depois da guerra, o consumo não diminuiu. Ele aumentou, porque os americanos e britânicos lá estacionados também passaram a beber whisky japonês. Tanto a Nikka e a Suntory não apenas sobreviveram à guerra, como tiveram superávits históricos.

Mizunara e a Segunda Guerra

A guerra, entretanto, trouxe algumas consequências curiosas para a indústria do whisky no Japão. Havia, antes do conflito, dependência da importação de barricas do ocidente, em especial, carvalho europeu. Importação, esta, que diminuiu sensivelmente. Por diversos motivos, como o perigo apresentado às rotas comerciais inerente à guerra; e claro, o fato de o Japão estar do lado errado do conflito.

A produção de whisky, porém, não podia se dar ao luxo de permanecer estática. Era um momento extremamente prolífico para eles. Ademais, uma época em que era quase imperativo ficar bêbado. Com a falta de madeira vinda do ocidente, os Japoneses tiveram que se virar com o que tinham. E o que tinham eram carvalhos extremamente antigos, de mais de trezentos anos de idade, de duas espécies jamais utilizadas antes na indústria do whisky. Quercus Mongolica e Quercus Crispula – o que conhecemos hoje como Mizunara. Nesta parte do texto, vou fazer uma digressão de três parágrafos e me parafrasear. Esta explicação já apareceu por aqui, quando falei sobre o Chivas Mizunara. Caso tenha lido, te vejo daqui três períodos. Senão, siga comigo.

A madeira de Mizunara é clara – próxima àquela do carvalho americano – bastante porosa e um tanto quebradiça. Para se produzir um barril de mizunara, as árvores de quercus mongolica devem ter aproximadamente trezentos anos. Já as de quercus crispula, duzentos anos de idade. Uma madeira muito jovem é ainda mais frágil e maleável.

Mizunara

Por conta disso, o preenchimento e armazenamento de barricas de mizunara demanda um cuidado especial. A madeira é bastante propensa a rachaduras e vazamentos. Assim, mesmo no Japão, tradicionalmente se usa mizunara mais para finalizar whiskies, aportando complexidade sensorial, do que maturar totalmente a bebida. Soma-se a isso o fato de que, por conta da porosidade, a madeira do quercus mongolica é bastante potente, e pode desequilibrar a bebida, se maturada excessivamente.

E para piorar ainda mais, apenas uma pequena fração de Mizunara pode ser usada para produzir barricas. O tronco dessas espécies é cheio de nós e porosidades. A taxa de aproveitamento da madeira de mizunara tangencia os 10% – contra mais de 20% do carvalho americano, por exemplo. Isso tudo faz com que as barricas sejam extremamente caras. Para cada barril de mizunara, dá pra comprar mais de vinte de carvalho americano.”

Independente das dificuldades produtivas, a utilização de mizunara foi um dos elementos que colocou o Japão como um player relevante dentro do cenário mundial de whisky. Abordaremos isso em breve, quando falarmos sobre o sucesso internacional do whisky japonês. Mas, antes, vamos falar do que todo mundo gosta, que é…

Treta, ódio e rancor.

Talvez você já tenha esquecido, porque esta matéria tem quase a extensão de Os Lusíadas. Mas, a indústria do whisky Japonês nasceu de uma dupla – Shinjiro Torii e Masataka Taketsuru. No final da década de 30, eles brigaram e Taketsuru resolveu abrir sua propria empresa, a Nikka. Por conta deste desentendimento histórico, não há tratativas comerciais entre as empresas até hoje. Se você conhece alguém rancoroso, agora já sabe – pode escolher o nome do seu personagem preferido e dar um novo apelido a ele.

Este silencio é diferente da Escócia. Por lá, há bastante intercâmbio de matéria prima e barricas. Caso determinada empresa fique sem certo whisky em um momento, eles podem pedir para o vizinho. É uma espécie de toma-lá-dá-cá do scotch whisky. Faz mais sentido emprestar e cobrar o favor, do que fechar as portas para o concorrente e ter que se municiar completamente sozinho. Que é justamente o que ocorre no Japão.

Como não há intercâmbio de barris, para trazer complexidade sensorial a seus whiskies, os japoneses recorrem a duas alternativas. A primeira delas, comprar whiskies importados. A Nikka, por exemplo, possui uma destilaria na Escócia, a Ben Nevis. E os maltes da Ben Nevis eram – até poucos anos atrás – parte integrante de um de seus blends mais queridos, o Nikka From The Barrel. Isso é normal e inclusive era totalmente permitido. Como o Japão possuía pouquíssimas destilarias, e elas não se conversavam, a melhor forma de trazer complexidade e conseguir ingredientes que rareavam era comprar de fora.

Outra saída era transformar as destilarias em Kaijus ou Megazords – escolha o que preferir – do mundo do whisky. Enormes, com dezenas de alambiques de diferentes formatos, tamanhos, e formas de aquecimento. Cada uma destas destilarias seria capaz, então, de produzir destilados com perfis completamente distintos uns dos outros, e suprir a necessidade dos blenders. E foi isso que aconteceu com a Yamazaki e, especialmente, a Hakushu – a nova destilaria do grupo Suntory, instalada no meio da de uma floresta próxima ao monte Kaikomagatake. Ela foi aberta na década de 70, e produz inclusive whiskies turfados.

A esquerda, destilaria Hakushu. à direita, o vilarejo de Hakushu

Imagina isso – você prefere construir uma destilaria gigante, do tamanho de uma cidade, no meio de uma floresta enorme, ao invés de ir lá e fazer as pazes com seu ex amiguinho. É muito ódio e rancor. O que é curioso, porque, com o tempo, novos pequenos produtores apareceram, como, por exemplo, a Chichibu.

Os Artesanais

Um dos personagens mais importantes da ascenção das destilarias artesanais de whisky no Japão é Ichiro Akuto. Seu avô começou a produzir whisky de forma independente apenas um pouco depois de Taketsuru, na década de 40. Sua destilaria chamava-se Hanyu, e localizava-se na região de Saitama. Por conta de fatores econômicos do Japão, a Hanyu fechou suas portas no ano de 2000. Mas, como ocorre com (quase) todo stilent still, o estoque permaneceu.

Ichiro Akuto então aguardou pacientemente. Até os anos 2008, quando transferiu as barricas da Hanyu para sua nova destilaria – a Chichibu – e engarrafou boa parte do estoque numa série que é parte do sonho de todo colecionador. A Card Series, composta por 54 garrafas diferentes, cada uma representando uma carta do baralho. Mas não é apenas o rótulo que é diferente – o perfil sensorial de cada um destes whiskies muda.

Ichiro Akuto

A própria Chichibu, no entanto, é muito mais interessante do que a Hanyu. A destilaria, tocada de perto por Akuto, é quase um laboratório de produção para todo entusiasta de whisky. E Ichiro insiste em tentar, ao máximo, internalizar todos os processos de produção. A maltagem, por exemplo. A cevada é local, e parte é cultivada pela própria Chichibu. Há diferentes variedades também – Sainohosi, Myosi-Nijo, e outros nomes que mesmo para um apaixonado por whiskies, parecem tão misteriosos quanto fascinantes.

Além da Chichibu, muitas outras destilarias surgiram – e algumas fecharam – ao longo deste um século de história do whisky japonês. A Karuizawa, por exemplo, próxima ao monte Asama. E a Shinshu Mars, de Hombo Shuzo em Nagano, que produz alguns single malts finalizados em barricas à moda dos escoceses, como Manzanilla e Oloroso. Mas agora vamos falar de outra coisa que todo mundo ama.

Fama

Estamos nos anos dois mil. Passado o medo ridículo do bug do milênio, os whiskies japoneses já eram bem consumidos no Japão e em parte do leste asiático. Mas, para o mundo inteiro, eles ainda eram algo que parecia proveniente de uma realidade alternativa. Mas em 2003, Bill Murray deu uma ajudinha. Ou melhor, o cinema. Foi o ano de lançamento do filme Lost in Translation (Encontros e Desencontros) de Sofia Coppolla. Na película, Bill Murray interpreta o ator decadente Bob Harris, contratado pela Suntory para fazer um comercial de whisky a la rat pack. For Relaxing Times, Make it Suntory Times!

A fama internacional cresceu em 2014, por conta de um fator improvável. Uma novela, chamada Massan, que contava a história de Masataka e Rita. E ainda que o foco da novela fosse o romance dos dois, a história do whisky japonês finalmente atingiu o mundo. Hordas de consumidores ensandecidos quase pilharam as prateleiras de whiskies japoneses mundo afora. Ou, talvez não. Talvez isto seja uma hipérbole, mas a procura realmente aumentou.

O derradeiro empurrão veio de dentro do mundo do whisky. Em 2015, Jim Murray – um dos mais conhecidos especialistas em whisky da atualidade – elegeu o Yamazaki Single Malt Sherry Cask 2013 como melhor whisky do mundo. Segundo o autor, em uma declaração eivada de humildade, aquela escolha era uma chamada para que a indústria do whisky escocês despertasse. Porque claro, cabia a Murray esta messiânica tarefa.

Nem mesmo os japoneses esperavam tamanho sucesso. Para eles, isso era ótimo, mas, também era um problema. O estoque rareava cada vez mais. E whiskies não são como celulares, que podem ficar prontos da noite para o dia. Há um ponto meio que incontornável, que é o tempo da barrica. Whiskies demandam tempo para amadurecer. De forma a atender a crescente demanda, as marcas consagradas fizeram aquilo que podiam: deixaram de produzir seus engarrafamentos mais maturados – como o Hibiki 17 anos – e lançaram expressões sem idade declarada no mercado, compostas por maltes mais jovens, misturados com parte dos estoques mais maturados.

Houve, porém, outro grupo de japoneses que, muito espertamente, resolveu surfar na fama dos whiskies japoneses para engarrafar whiskies provenientes de outras partes do mundo no Japão, e batizá-los de whisky japonês. Entenda sobre essa polêmica aqui. Por conta disso, em 2021, a JSLMA, entidade de autorregulação criada pelos maiores participantes da indústria, criaram um conjunto de regras para determinar – no ambito da associação – o que pode ser considerado whisky japonês. Entenda sobre isso aqui.

A História do Whiskey Japonês – Parte I

Todos nós conhecemos o estereótipo de cientista maluco. Aquele cara que tem um sonho bizarro, quase inalcançável, é socialmente inapto e meio esquisitão. Se for personagem de um filme, ele usa jaleco branco, não penteia o cabelo e às vezes dá umas tremidas esquisitas, como se estivesse possuído pelo capiroto. Mas, por trás da bizarrice toda, está um gênio, capaz de criar algo que mudaria a história da humanidade. É uma hipérbole, como todo estereótipo. Mas, isso não significa que ele não poderia existir.

Um exemplo quase perfeito é John Whiteside Parsons – conhecido como Jack Parsons. Caso você não conheça, vou preguiçosamente transcrever aqui a descrição do primeiro parágrafo da Wikipedia. “Parsons foi um engenheiro de foguetes, químico e ocultista Telemita americano“. Convenhamos, é um currículo impressionante. Pouca gente é ocultista e mexe com foguetes. Parsons era justamente isso. Ele foi um dos principais fundadores do Jet Propulsion Laboratory, e desenvolveu um combustível sólido para jatos composto, basicamente, por amida, nitrato de amônia e amido de milho.

Além de ser um cientista brilhante, Parsons era também um ocultista. Mergulhou fervorosamente no mundo da magia negra em 1945, quando conheceu o escritor L. Ron Hubbart. Ambos conduziram uma série de rituais oculstitas através do sexo, cujo objetivo era – pasmem – que o espírito da deusa Babalon encarnasse em Sarah Hollister, namorada de Parsons. No final, deus nenhum tomou o corpo de Sarah, mas Hubbart fugiu com ela e todo seu dinheiro, e deixou Parsons sozinho.

Hubbart: falando sobre estereótipos…

Mesmo assim, o cientista ainda conseguiu se reerguer parcialmente. Casou-se com a atriz Marjorie Cameron – que também se tornou ocultista – e passou a trabalhar para o governo de Israel. Sua vida ao lado de Cameron, entretanto, durou pouco, porque ele acidentalmente se transformou em uma bola de fogo num experimento privado com explosivos em 1952.

Mas, seja como for, Parsons mudou a história da humanidade, desenvolvendo combustíveis que mais tarde seriam usados por ônibus especiais. É um legado impressionante. Tão impressionante quanto o de Shinjiro Torii e Masataka Taketsuru – dois senhores que fundaram e moldaram toda a indústria do whisky japonês, transformando-a na febre que é hoje. Vou contar um pouco sobre ela aqui. Mas antes, vamos fazer uma regressão não-ocultista:

Um passinho pra trás

A história do whisky japonês é um pouco mais antiga que o conhecido binômio Torii-Taketsuru. Ela começa na verdade em 1853, com o desembarque norteamericano sob o comando do comodoro Matthew Perry (não, não é o ator de Friends) no porto de Edo. Foi quando o Japão abriu suas fronteiras para o comércio com os Estados Unidos. Perry trouxera em seus navios algumas barricas de whiskey americano. Por dois motivos. O primeiro, e mais importante, era o consumo próprio – nada melhor do que um pouco de whiskey para aquecer os corpos e corações dos marinheiros durante a longa travessia do Pacífico.

Não é o Chandler

O segundo, comercial. Seria redundante eu, querido leitor, expor poeticamente a capacidade sócio-lubrificante do álcool. Afinal, se está neste parágrafo da matéria, é porque já é cliente. Entretanto, além de aplainar as arestas mais pontudas do choque sociocultural, o whiskey era prova da criatividade norte-americana. Afinal, frango frito e hambúrguer não resistiriam à viagem. E na época os filmes da Marvel não haviam sido lançados ainda. Whiskey era, seguramente, a melhor opção.

A importação oficial de whisky para o Japão, no entanto, levou ainda duas décadas para acontecer. Foi apenas no final do século dezenove que os japoneses começaram a trazer whisky para consumo próprio, bem como tentar criar versões nacionais rudimentares da bebida – adaptados de destilados como o sochu, que, como o nome sugere, já era produzido por lá.

O chamado para aventura

O chamado para ação do super-herói que é o whisky japonês aconteceu, na verdade, somente em 1920 e teve como pivôs Shinjiro Torii e Mastaka Taketsuru. Nomes que você deve reconhecer, ao menos, do primeiro parágrafo de conteúdo desta matéria. Já aos vinte e poucos anos de idade, Torii era proprietário de uma revendedora de produtos farmacêuticos que havia prosperado bastante. Num movimento meio parecido com o doidão da Virgin, Shinjiro resolveu ramificar para um segmento bem distinto (ou talvez nem tanto). O de vinho do porto.

A importação de vinho do porto de Torii também foi prolífica – em poucos anos, ele tinha inclusive um rótulo próprio, o Akadama Sweet Wine. E como todo empreendedor, Shinjiro se viu compelido a subir o sarrafo, e passar para um outro patamar de loucura: produzir whisky japonês. Ou melhor, produzir algo que legitimamente pudesse ser chamado de whisky no Japão. Algo genuíno, mas que ao mesmo tempo fizesse sentido para o paladar do público médio nipônico. O que – e perdão pelos spoilers dos próximos parágrafos – provou ser um desafio enorme antes de dar certo.

Antiga propaganda do Akadama Sweet Wine

Shinjiro Torii, entretanto, apesar de ser um entusiasta dos copos, nunca havia produzido whisky. Ele era um empreendedor, não um produtor. Assim, precisava de alguém que lhe ajudasse a destilar sua ambição. Foi aí que ele conheceu Masataka Taketsuru, um jovem químico. Os detalhes sobre como estas duas lendas do whisky japonês se conheceram são um pouco enevoados. Alguns afirmam que Torii contratou Taketsuru e pagou sua viagem à Escócia, onde aprendeu em destilarias como Longmorn e Hazelburn como produzir whisky. Outros dizem que Taketsuru já estivera na terra do whisky, aprendera química oganica na Universidade de Glasgow, e estagiado nas supramencionadas destilarias. A verdade está provavelmente na conjunção das duas narrativas.

Seja como for, Taketsuru passou mais de dois anos na Escócia. Lá, aprendeu detalhes de produção e maturação de whisky. Mais importante que isso, foi lá que encontrou o amor de sua vida. Jessie Roberta Cowan, uma jovem escocesa, com quem se casou. Os dois se casaram em 1920, e Jessie – que passou a atender pelo nome Rita Taketsuru – se mudou para o Japão com Masataka, e teve grande participação na fundação da Nikka, anos mais tarde. Mas, vamos chegar lá ainda.

Geografia e paladar japonês

Em meados de 1920, Torii e Taketsuru começaram a discutir sobre a localização da primeira destilaria de whisky japonês. Shinjiro, como todo bom empreendedor, preocupava-se com os custos, especialmente a logística. Seu local predileto era o vilarejo de Yamazaki, entre Kioto e Ozaki. Sua localização fora especialmente escolhida por ser a convergência dos rios Katsura, Uji e Kizu. E isso garantiria suprimento de água de excelente qualidade para a destilaria numa época em que acesso a este recurso não era tão fácil quanto hoje.

Taketsuru, porém, preferia instalar a destilaria ao norte, na ilha de Hokkaido. Em seu entender, a ilha mantinha as condições climáticas ideais para maturação, por serem semelhantes às escocesas. O clima frio e úmido auxiliaria numa maturação mais longa. No entanto, o custo de transporte da matéria prima, bem como a distribuição de Hokkaido para as principais cidades japonesas da época fez com que a dupla decidisse, finalmente, por Yamazaki. E foi assim que nasceu a destilaria homônima.

A Yamazaki, nos dias de hoje.

A construção da destilaria levou aproximadamente três anos. A Yamazaki, custeada pela empresa de Torii, Kotobukiya (que mais tarde mudou seu nome para Suntory), iniciou suas operações em 1924, com o Sr. Taketsuru na função de gerente da destilaria. O primeiro whisky – um blended que incluía o destilado próprio, bem como alguns whiskys escoceses – foi lançado em 1929. Seu nome era Shirofuda e foi um completo desastre. O whisky era defumado, e os japoneses acharam bem bizarro algo com aquele sabor. A dupla, entretanto, não desistiu. E o segundo whisky lançado se tornou um enorme sucesso. O Suntory Kakubin, que hoje é um dos blended whiskies mais longevos da história.

Em benefício do tempo, paciência e sua vida, querido leitor, vamos suspender a história por aqui. Na semana que vem, continuaremos a partir de onde paramos. Sem ocultimo e gente se auto-explodindo. Mas, eivada de conflitos, rancor, ódio e, claro, sucesso. Voltem.

Drops – Compass Box Menagerie

A humanidade já teve uns períodos bem esquisitos. E nem tô falando da década de oitenta, em que tudo era horroroso a ponto de até o Almodóvar fazer um filme inassistível. Me refiro a épocas bem mais remotas. Como, por exemplo, a idade média. Além da inexistência de padrões mínimos de higiene, o povo medieval curtia uns troços bem esquisitos. Especialmente os nobres. Por exemplo, muitos deles mantinham coleções de animais exóticos em suas cortes reais. Algo que, pra mim, e talvez aqui denuncie a idade, parece coisa do Sigfried & Ross.

Essas coleções malucas se chamavam Menageries, e eram símbolos de poder, usados com o único fim de ostentar. Ao invés de ter uma Lamborghini – mesmo porque Lambos não existiam – o cara comprava um par de, sei lá, hipopótamos. E aí, tinha que ter um cara só pra limpar a montanha de caca no meio do palácio. E evitar que o tigre de bengala, que fora presente de outro nobre sem noção, não tentasse devorá-los – ou devorar o cuidador. Mas tudo era recompensador, porque quando a corte inteira ficava fedendo a cocô, o nobre podia dizer “ah, esse aroma é porque eu ganhei um casal adorável de hipopótamos, quer ver?”

Nossa, que aroma delícia, abriu meu apetite.

A Menagerie mais famosa do mundo foi a de Torre de Londres. Ela começou lá por 1200, com o Rei John, e contava com leões e ursos. Há um registro de 1235 de um outro monarca maluco dando de presente pra ele três leopardos. No século 16, a Royal Menagerie, como era conhecida, ainda estava por lá, e virou uma espécie de zoologico aberto ao público. As pessoas podiam pagar pra entrar, ou levar um cachorro ou gato pra virar comida desses bichos que nem deveriam estar lá pra começar a conversa.

É baseado nessa história completamente maluca que a Compass Box Whisky Co., famosa empresa de blended whiskies para entusiastas, criou sua nova expressão. O Compass Box Menagerie, que, não por acaso, tem estampado no rótulo um punhado de animais curiosos. De acordo com a própria Compass Box, o nome “menagerie” vem do perfil animalesco – ou selvagem – de alguns whiskies usados em sua mistura. “Algumas destilarias são famosas por seu destilado carnudo, sob uma camada frutada ou maltada, que é só um pouquinho selvagem. Nós nos inspiramos para procurar maltes com este toque – seja da destilação ou da maturação subsequente – e juntá-los em nosso Menagerie”

Como quase todo Compass Box, a receita é divulgada quase em detalhes. Os whiskies que compõe o Menagerie são: 42,5% de Mortlach, 5,4% de Laphroaig, 5% de Glen Elgin em barris de jerez, 13,1% de Glen Elgin em barris retostados, 2,5% de Deanston em barris de jerez, 14,6% de Deanston em barris de reuso e, 16,7% de seu Highland Malt Blend, que possui, muito provavelmente, Clynelish. São, em boa parte, maltes que tem algum perfil sulfúrico ou – numa tradução horrível do inglês – carnudo.

Como você já deve supor, o Compass Box Menagerie não está à venda por aqui. Mas, é uma curiosidade fantástica para aqueles que buscam entender um pouco mais sobre o processo de “blendagem” dos scotch whiskies, e a transparência do mercado. E confie em mim, tem um aroma infinitamente melhor do que o de manter um zoológico em casa.

COMPASS BOX MENAGERIE

Tipo: Blended Malt

Marca: Compass Box Whisky Co.

Região: N/A

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: especiarias, cravo, canela, muito gengibre.

Sabor: Seco e frutado, com frutas amarelas e especiarias. Final seco, longo e apimentado, com gengibre e pimenta do reino

Lamas Robustus – Slogan

Tem mil e uma utilidades. A primeira impressão é a que fica. Uma boa idéia. Vale por um bifinho. Quem pede um, pede bis. Seria até redundante dizer, mas, vou fazê-lo mesmo assim. Estes são os slogans de algumas marcas conhecidíssimas de produtos. Bombril, Axe, 51, Danoninho e Bis. Mais do que frases que colam ao seu cérebro mais do que super bonder – cujo slogan devia ser “cola tudo, até mesmo a tampa do tubo” – são frases que definem, com precisão, a essência de suas marcas.

Bombril, por exemplo, é perfeito. Há usos bem tradicionais, como limpar fogão, talheres e pratos. Há usos mais criativos, mas, ainda assim, lícitos, como usar de booster para a antena do televisor de tubo, ou esculpir uma lagartixa de ferro e dar pra alguma criança. E há todos aqueles que desafiam a lógica e a lei. Como, por exemplo, extensor para gato na rede elétrica (cuidado, vocês não ouviram isso aqui).

Ah pronto, olha lá eu ensinando coisa errada.

Outros, no entanto, são como bombril. Servem pra quase tudo – por exemplo “uma boa ideia”. Qualquer coisa pode ser uma boa ideia. Até mesmo ideias cujo resultado é bem ruim, quando concebidas, parecem ser boas ideias. Tipo beber uma garrafa inteira da proprietária do slogan. Outro deles é “potência não é nada sem controle”. Um slogan que funciona perfeitamente também na industria do whisky – especialmente, se falarmos do novo Lamas Robustus – nova adição à linha permanente da destilaria Lamas, de Minas Gerais.

O Lamas Robustus é, essencialmente, uma versão mais robusta – perdão pela obviedade – do Lamas Nimbus. A maior diferença está na graduação alcoolica, de 54%. É a mais alta permitida pela lei brasileira. Este é um fato curioso para vocês, queridos entusiastas. Por conta de nossa legislação, dificilmente haverá um whisky cask strength oficialmente à venda em nosso mercado. Boa parte destes ultrapassa o máximo de graduação alcoolica permitida para que uma bebida possa ser considerada whisky por aqui. O que não impede, claro, que tentem chegar perto do máximo – como é o caso da Lamas.

Para aqueles que não conhecem, o Nimbus – e o Robustus – são defumados num curioso processo desenvolvido pela Lamas. A destilaria utiliza madeira de reflorestamento. Para isso, umedece novamente os grãos secos, para, em seguida, os secar num defumador projetado especialmente para esse trabalho. A madeira, quando queimada, libera compostos com aldeídos e fenóis, tornando o malte enfumaçado – um enfumaçado bem diferente daquele da turfa. Mais picante e amadeirado, e menos medicinal. A temperatura de secagem é importante aqui, e é este cuidado especial que traz o resultado desejado pela Lamas.

Alambiques da Lamas

O Lamas Robustus nasceu de uma visita de Alexandre Tito e Felipe Vidal – os criadores da WhiskyRio – à Lamas. De acordo com a dupla “Incentivamos a Lamas a engarrafar esse produto com graduação alcoólica mais alta, pois percebemos que isso traria mais características aromáticas e nuances da defumação, devido à concentração de alguns congêneres que, até então, estavam atenuados pela maior diluição. Assim, essa expressão apresenta aromas e sabores mais nobres e complexos”.

A maturação do Robustus acontece em barris de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. A Lamas toma especial cuidado com este processo – ela tem controle de proveniência de todos os barris em seus armazéns. Na opinião deste Cão, no caso do Lamas Robustus, a maturação alivia um pouco a graduação alcoolica, mas acentua a impressão de defumação, e traz mais complexidade ao whisky.

O Lamas Robustus está a venda no website da Lamas e, em breve, no Caledonia. Por tempo limitado, este Cão tem, inclusive, um cupom de desconto: ao fazer o pedido no e-commerce da destilaria, coloque o cupom OCAOENGARRAFADO. Viu, essa sim é uma boa idéia. E lembre-se: Quem pede um, pede bis.

LAMAS ROBUSTUS

Tipo: Single Malt

Destilaria: Lamas

País: Brasil

ABV: 54%

Notas de prova:

Aroma: baunilha, caramelo, cedro.

Sabor: adocicado, com especiarias e fumaça de sândalo. O final é longo e progressivamente defumado e apimentado.

*a degustação do whisky tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

Macallan Sherry Oak 12 – Superabundância

Superabundância de escolha. Não, eu não tenho nenhuma forma mais sucinta – ou menos espalhafatosa – de descrever o fenômeno. E, para falar a verdade, foneticamente, até gosto. A palavra superabundância, com sua retumbante aliteração, cria um eco capaz de exaltar o conceito. Que vou explicar a seguir, depois desta pequena digressão introdutória.

A superabundância de escolha acontece quando tomar uma decisão se torna um processo mentalmente esgotante, por conta do enorme número de variáveis e possíveis resultados. O conceito foi primeiro cunhado pelo escritor Alvin Toffler, em um livro de 1970, chamado A Terceira Onda. De acordo com Toffler, não ter alternativa é quase tão ruim quanto ter alternativas demais. Há uma espécie de arco de sastifação. Deve haver escolha, mas não tanta escolha a ponto de trazer insegurança. Tipo quando fui na farmácia comprar absorventes para a Cã, não sabia se era noturno, com ou sem abas, soft, ultra soft ou qualquer coisa assim, e fiquei morrendo de medo de levar bronca chegando em casa.

f****-se . Vou comer um hambúrguer.

Pode até parecer meio complicado, mas não é. Quando escolhi, por exemplo, ser advogado, ponderei uma infinidade de alternativas antes disso. Algumas pareciam obviamente equivocadas – como, por exemplo, jogador de basquete, visto que minha habilidade e estatura eram comparáveis à de um gnomo de jardim. Outras, entretanto, pareciam ter contornos mais enevoados. Do alto de meu autoconhecimento aos dezessete anos de idade, como decidir entre jornalismo, letras, direito ou, sei lá, ser simplesmente um andarilho?

Mas eu sei lá porque resolvi explicar superabundância para você, leitor de um blog de whisky. Porque, se você está aqui, é porque, justamente, sente – e às vezes até mesmo se regozija – nesse excesso de escolha. É o excesso de escolha que alimenta nosso entusiasmo. E as destilarias e marcas entendem isso. Algumas, perfeitamente. Como, por exemplo, a The Macallan.

A The Macallan tem mais de uma dezena de linhas diferentes, entre whiskies para o mercado doméstico e o de duty free. Triple Cask, Double Cask, Sherry Cask, Edition Series, Concept Series, Quest Collection, Rare Cask, Harmony Collection. Mas, dentre todas elas – das mais improváveis como o Rich Cacao – até as mais simples, como o Triple Cask 12, talvez a mais clássica e admirada seja a Sherry Oak. Da qual faz parte o The Macallan Sherry Oak 12 anos, tema desta prova, e que finalmente acaba de desembarcar no Brasil.

Superabundância de alambiques?

De acordo com a destilaria, o The Macallan Sherry Oak 12 é maturado exclusivamente em barris de carvalho temperados com vinho jerez oloroso espanhol. Em uma entrevista concedida por Stuart McPherson, master of wood da The Macallan, as espécies utilizadas são Quercus Robur e Quercus Petrea. A própria The Macallan escolhe os barris. O processo de “tempero” também é levado com esmero. As barricas são preenchidas com vinho oloroso produzido sob especificação da The Macallan, e deixados para descansar. Este processo leva de doze a dezoito meses. Todo este cuidado tem um motivo – conforme a McPherson, quase 80% do sabor de seu whisky vem da maturação.

A diferença entre as linhas Triple, Double e Sherry Oak reside, justamente, no carvalho usado. E ainda que pareça contra intuitivo, quanto menor o número, mais exclusivo é o whisky. Isso tem a ver com o preço das barricas. A linha triple cask utiliza maior proporção de carvalho americano, inclusive, barris de ex-bourbon. A double cask, tanto europeu quanto americano, mas, tão somente, temperados com jerez. Já a sherry oak emprega apenas carvalho europeu. E estas barricas de carvalho europeu – do qual Quercus Robur e Quercus Petrea fazem parte – são mais caros e raros do que aqueles de carvalho americano.

Há outro ponto a ser ressaltado, também. Whiskies cuja maturação ocorre exclusivamente em barris de ex-jerez, normalmente, devem possuir um new-make intenso, oleoso e congenérico, para garantir o equilíbrio. A curva de maturação de barricas de carvalho europeu de ex-vinho, em média, é mais acentuada do que aquele do carvalho americano – um new make frágil ou muito tempo de maturação pode resultar em um single malt desequilibrado. Este não é o caso do The Macallan Sherry Oak 12. O destilado da The Macallan tem um perfil de sabor claro, que complementa os sabores e aromas trazidos pela maturação.

Sensorialmente, o The Macallan Sherry Oak 12 anos traz notas de açúcar mascavo, frutas secas, como ameixas e uvas passas e um final apimentado, com cravo, canela e pimenta do reino. É o perfil mais clássico de um whisky maturado em ex-jerez. É curioso, inclusive, que apesar da maturação, o whisky pareça sensorialmente tão acessível e equilibrado. É impossível não gostar do The Macallan Sherry Oak 12 anos. Exceto, talvez, por seu preço!

Como a maioria dos rótulos da destilaria, o The Macallan Sherry Oak 12 anos não usa corante caramelo. Isso significa que a padronização deve ser dupla. Tanto em relação ao sabor quanto à cor. O time de whisky makers, liderado por Kirsteen Campbell, deve se cetificar que toda garrafa de Sherry Oak 12 anos tenha o mesmo perfil sensorial e também cor, sem recorrer ao corante, para padronização. Isso é feito pela mistura de barricas de diferentes idades e perfis sensoriais, em proporções cuidadosamente estudadas.

O time da The Macallan

O The Macallan Sherry Oak 12 anos é provavelmente uma das mais acertadas escolhas para os apaixonados por whiskies maturados em barris de jerez. Ainda que seja inegável que para nós, entusiastas de whisky, que há uma superabundância de escolha. E que decidir entre um e outro whisky cabe tão somente a nós – nosso gosto pessoal, capital disponível e oportunidade. Mas, finalmente ter o The Macallan Sherry Oak 12 anos no Brasil, à nossa disposição, quiçá torna o processo decisório bem mais fácil. Ou não.

MACALLAN SHERRY OAK 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade declarada (12 anos)

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: açucar mascavo, frutas secas, especiarias.

Sabor: Caramelo, pimenta do reino, uvas passas, ameixas secas. Alcaçuz, final longo, com especiarias e geléia de frutas.

Outras 4 celebridades que amam whisky

Este post é uma sequência de outro, lançado há alguns anos. Para ler o primeiro, clique aqui.


Celebridades fazem todo tipo de anúncio. Alguns fazem muito sentido. Outros, nem tanto. Como, por exemplo, uma propaganda de 2006 de margarina, que conta com ninguém senão Ozzy Osbourne. Na verdade, um não, mas dois Ozzy Osbournes. A peça – de uma genialidade toda cretina – apresenta o Príncipe da Escuridão cozinhando com seu clone (!). Por motivos que não vem ao caso, ambos tem dificuldades de distinguir manteiga de margarina (também brilhantemente batizada de algo como “Não Consigo Acreditar que Não é Manteiga!”).

Outras peças publicitárias até fazem sentido, mas só estão lá na tênue linha entre o humor e o mau gosto. Tipo o Fabio Junior falando “você tempera e eu como“, e a Kim Kardashian endossando uma marca ultra macia de papel higiênico . E ainda que não faça o maior sentido, a gente entende a existência dessas coisas – é só pelo dinheiro mesmo.

Mas, outras – poucas – vezes, a história é quase a inversa. Uma celebridade é tão apaixonada por algo, que faz com que sua paixão transpareça na tela. E algumas dessas celebridades tem esta relação com whiskies. Esta lista reúne (mais) quatro delas. De Han Solo a Meg Griffin.

HARRISON FORD

Quando você é Indiana Jones, Rick Deckart e Han Solo, é realmente difícil que seu bom gosto por whisky seja destaque. Mas, Harrison Ford tem um entusiasmo todo especial pela bebida escocesa. Especialmente a destilaria Bruichladdich. Aliás, há uma edição de Bruichladdich Valinch – garrafas especiais que somente podem ser compradas na destilaria – com uma imagem de Indiana Jones no rótulo. A garrafa ainda conta com um autógrafo todo especial: “para as damas da Bruichladdich, amo seu trabalho. Harrison Ford”.

No filme “Morning Glory”, inclusive, Ford faz uma homenagem a sua destilaria favorita. Ele explica à personagem de Rachel McAdams o poder revigorante de um Bruichladdich 40 anos. Todas as garrafas usadas no filme aliás, são reais. Foram fornecidas pela Bruichladdich especialmente para o ator.

A Bruichladdich também aparece em outros filmes como personagem importante, mesmo sem seu entusiasta mais famoso. “Deus da Carnificina”, que ainda conta com atuações incríveis de Christoph Waltz, Kate Winslet, Jodie Foster e John C. Reilly, por exemplo – que aliás, seria um filme bem bom mesmo sem o Bruichladdich.

MILA KUNIS

A paixão por whiskey de Mila Kunis não é nenhuma novidade para os entusiastas da bebida. A atriz se tornou uma espécie de embaixadora e “face visível” da Jim Beam há alguns anos. Mas, sua paixão por whiskey é bem mais antiga que isso. Segundo ela “eu queria algo que pudesse bebericar e que fosse delicioso. Para mim, é dificil degustar vodka. E bourbon dá formigamento gostoso ao beber“. Bem, Mila, acho que todo mundo que lê um blog de whisky concorda plenamente com você.

JAMES ROBERTSON JUSTICE

O ator de filmes clássicos James Robertson Justice era um apaixonado por single malts. Tanto é que uma vez declarou que “nasceu sob uma destilaria em Skye”. O que é mentira, porque na verdade Justice nasceu em Londres. Mas – e isso tem que contar para alguma coisa – seu pai era escocês, então ele resolveu que seria escocês. Aprendeu a tocar gaita de fole e passou a usar kilt.

Para falar a verdade, o talento como ator de James estava aquém de sua personalidade. Apesar de ter aparecido em filmes bem conhecidos – como Guns of Navarone – Justice ficou mais conhecido por sua corpulência, voz grossa, barba longa e amizade com o príncipe Philip. O jovem e recém-falecido monarca, inclusive, o convidou para fazer parte de seu Thursday Club e confiou Charles, seu filho, ao ator, para que este lhe ensinasse falcoaria e caça.

No mundo dos whiskies, Justice tinha uma paixão curiosa pela Glenmorangie.

NICK OFFERMAN

Fonte: NBC/Universal

Já falamos por aqui de seu personagem Ron Swanson. O que não dissemos é que a paixão por whisky – especificamente, o single malt Lagavulin – do personagem de Parks and Recreation foi sugerido pelo próprio ator. Nick Offerman, que vive o personagem na série, é um absoluto apaixonado pela destilaria de Islay. Seu amor pelo monstro enfumaçado é tamanha que ele fez uma série chamada “My Tales of Whisky” com alguns capítulos inteiramente dedicados à Lagavulin.

Como reconhecimento pela paixão de Offerman, a Lagavulin criou uma edição especial com seu nome – a Offerman Edition. É um Lagavulin 11 anos, escolhido especialmente por Nick.

Lamas 1000 Dias – Experimento

No Alabama, há uma lei que proíbe amarrar uma aligator num hidrante. É expressamente proibido, também, dirigir com os olhos vendados. Já na Suíça, se precisar fazer um número dois antes de dormir, provavelmente terá que suportar sua malcheirosa companhia até o dia seguinte. Porque, por lá, você não pode dar descarga na privada depois das dez da noite. Não pode também praticar alpinismo pelado – que me parece que até faz sentido, afinal, a sensação das cordas roçando na virilha deve ser bem aflitiva.

Por falar em virilha, na Itália, você não pode mexer nas partes baixas em público. Mais especificamente, é contra a lei aprumar o seu amigão na companhia de outras pessoas. Se tá esquisito lá dentro da cueca, virado de lado ou coçando, esquece – nem a boa e velha manobra do bolso da calça é permitida. Por lá, homens também eram proibidos de usar saia. O que talvez fosse um problema para os escoceses mais tradicionalistas.

Na Itália, nem pensar.

O mundo está cheio de leis malucas. Cada país tem as suas próprias. E ainda que seja engraçado indagar as razões de suas criações, há um ponto genial nelas. São reflexo da cultura, ambiente e das prioridades de cada nação. Aquelas cujo objeto é whisky são assim também. Por exemplo, na Escócia, de acordo com a regulamentação da SWA, o tempo mínimo de maturação para que algo seja considerado whisky é de três anos. No Brasil, entretanto, é apenas dois – em boa parte, para atender a lei americana, que não traz limite mínimo. Mas, também, porque aqui, nosso clima quente acelera a maturação.

Esta curiosa diferença foi tema de um lançamento da Destilaria Lamas, de Matosinhos-MG, e do professor Cesar Adames. Um single malt denominado 1000 dias. Que, como você já deve ter presumido, é maturado por este tempo em um único barril de carvalho americano que antes conteve whiskey americano – para ser mais preciso, Jack Daniel’s.

De acordo com a Lamas “Na Escócia, o tempo mínimo de maturação exigido pela legislação é de 3 anos (1.095 dias); enquanto no Brasil, assim como nos Estados Unidos, esse tempo é de 2 anos (730 dias). Isso evidencia a relevância da temperatura média onde o whisky é maturado; quanto mais quente, mais acelerada é a cinética da maturação, considerando, naturalmente, a qualidade dos barris.” Mil dias não está nem tão para a Escócia, nem tanto para o Brasil – é quase a média de ambos.

Para que o barril fique em evidência, o Lamas 1000 Dias não usa qualquer malte defumado. Apenas malte pilsen, sem defumação – o mesmo usado nos Lamas Verus e Plenus. Sensorialmente, o single malt traz notas de caramelo, mel, baunilha, pão e um curioso herbal, que evidencia a personalidade do new-make spirit da Lamas. É um whisky jovem, sem nenhuma sombra de dúvida, mas é também uma experiência curiosa sobre a maturação no Brasil. O Lamas 1000 dias não parece algo inacabado – pelo contrário, tem uma personalidade bem clara.

Prof. Cesar Adames

O Lamas 1000 Dias foi lançado em Março de 2022, com tiragem única de trezentas garrafas – o que rendeu um único barril de ex-Jack Daniel’s. O single malt foi engarrafado a 40% de graduação alcoolica, e vendido a, aproximadamente, R$ 150 (cento e cinquenta reais). No momento de lançamento desta prova, de acordo com Adames, mais da metade da produção já havia sido vendida – uma marca surpreendente, que revela o apetite (ou melhor, a sede) do entusiasta brasileiro por lançamentos nacionais.

Para todos os apaixonados por whiskies nacionais ou simplesmente curiosos sobre a indústria do whisky, o Lamas 1000 dias é uma prova interessantíssima, que coloca em discussão a razão das regras por trás da melhor bebida do mundo. Mas cuidado, não vá aplicar a experiência em outras áreas. Nada de amarrar crocodilianos em hidrantes, dirigir vendado, se aliviar antes de dormir na Suíça ou dar aquela aprumada estratégica na Itália. Reserve a rebeldia para o mundo do whisky.

LAMAS 1000 DIAS

Tipo: Single Malt

Destilaria: Lamas

País: Brasil

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: baunilha, caramelo, mel.

Sabor: Mel, caramelo. Açúcar demerara. Herbal, com hortelã e pimenta do reino. Final seco que evidencia o new-make spirit.

Presbyterian – Nome de batismo

Coca-cola, Apple, Virgin. Há um monte de marcas com nomes curiosos. O refrigerante, por exemplo, tem uma explicação bem concreta. A receita original da Coca-Cola, inventada em 1885 pelo farmacêutico John Pemberton, de Atlanta, levava, literalmente, cocaína. Obviamente não o pó, mas um extrato da folha de coca, semelhante ao chá usado para o mal de altitude no Peru. A “cola” vinha da noz de kola, que contém cafeína.

A Apple, por outro lado, é um caso mais misterioso. Há infinitas teorias que tentam explicar a obsessão de Steve Jobs por maçãs. Uma delas é quase a síntese da navalha de Ockham – ele simplesmente curtia o gosto. Outras são mais sofisticadas. O nome Apple vem antes de Atari na lista telefônica, e Jobs trabalhara para a Atari. Ou seria uma homenagem ao matemático Alan Turing, um dos pais da computação e que morrera ao comer uma maçã com cianeto. Ou, talvez, seja uma conjugação de tudo isso. Como normalmente é no mundo real. As coisas tem mais e uma explicação. Mas, até hoje, muita gente se pergunta sobre a origem da Apple e da maçãzinha mordida em seu logo.

Quando você menciona o Presbyterian – o coquetel, claro – para alguém, a reação é parecida. Ninguém pergunta sobre os ingredientes, o que é raro. Mas, sim, sobre o curioso nome. Devo, aqui, no entanto, e de forma apologética, admitir que não sei a real razão de um Presbyterian se chamar Presbyterian – assim como a Apple. Na verdade, provavelmente, ninguém sabe. Uma teoria é que haja uma referência a um de seus ingredientes, como o drink leva scotch whisky, e a igreja presbiteriana foi fundada na Escócia. Ou isso, ou é só uma forma passiva-agressiva de algum ébrio homenagear a temperança cristã.

Uma certeza temos: não foi criação dele.

Independe da origem de seu curioso nome, porém, o Presbyterian é um drink extremamente versátil. E ridiculamente fácil de fazer também. É mais fácil até do que um Boulevardier, porque, no Boulevardier você usa três ingredientes, e no Presbyterian, só dois. Uma matéria do Liquor.com tem uma citação interessante de Alex Day e David Kaplan, do Death&Co, que ora transcrevo e traduzo de uma forma porca: “O Presbyterian clássico é parecido com o Moscow Mule ou Dark and Stormy, sendo, simplesmente, um destilado misturado com ginger ale”. A versão do bar – e do livro – inclusive, não pede scotch, mas Rye.

De certa forma, o Presbyterian é uma variação de outros infinitos coquetéis que já conhecemos, como o Highball e o Mamie Taylor. A ideia é a mesma. E o objetivo também – um drink fácil de beber e equilibrado, que pega emprestada a complexidade do whisky e devolve drinkability e refrescância. Perfeito para os momentos mais abrasadores de nosso ano. Como, por exemplo, o atual.

É importante mencionar aqui a questão do destilado. A versão mais clássica – e presbiteriana – do Presbyterian leva scotch whisky. Entretanto, atualmente, o coquetel pode ser feito com qualquer whisky que desejar. Além dos clássicos blends defumados, um que realmente me agrada é a versão com Rye. O apimentado herbal, que às vezes remete a hortelã do Rye realmente combina com uma ginger ale mais seca. Assim, querido leitor, use sua criatividade.

Por fim, vale apontar que algumas versões do Presbyterian pedem por partes iguais de ginger ale e água com gás, ou club soda. Faz sentido, se você utilizar um whisky leve, e que pode ficar escondido pela intensidade da Ginger Ale. A receita deve ser adaptada para cada gosto e de acordo com o destilado usado. Aliás, vamos a ela.

PRESBYTERIAN COCKTAIL

Ingredientes

  • 50ml whisky (teste com Rye!)
  • 100ml ginger ale, ou 50-50, ginger ale e club soda.

Preparo

  1. Num copo Highball, adicione bastante gelo
  2. Adicione o whisky e depois a ginger ale e a club soda (ou não).
  3. com o auxilio de uma colher bailarina, dê uma mexidinha no fundo do copo, para certificar-se que os ingredientes foram misturados.