Como (não) escolher um whisky – Do Storytelling

Este, talvez, seja o post mais metalinguístico já escrito neste blog. Há alguns anos, uma marca conhecida de sorvetes recebeu um puxão de orelha abstrato por conta da história estampada em suas embalagens. História que, para usar um eufemismo, eram uma versão alternativa da verdade, com personagens fictícios. Tipo aqueles filmes como Rain Man e American Hustle – que aconteceram mais ou menos daquele jeito, mas com gente mais feia. Só, que no caso da tal fabricante de picolés, não tinha a Amy Adams e o Tom Cruise.

Enfim, aconteceu que, após a revelação de haver poucos pontos de tangência entre a realidade e a história do antepassado do fundador, a empresa achou melhor tirá-la do ar. Apagou a memória do velhinho que jamais existiu, deu uma explicação semelhante àquela que minha filha quando tenta explicar por que não fez a lição de casa e seguiu em frente. Mas, do caso, extrai-se uma lição óbvia – contar uma história, de preferência uma com lampejos de verdade, é importante. E não só com picolés. Em tudo, na verdade. Quando enrolo você, querido leitor, por três breves parágrafos com algum assunto aleatório antes de falar sobre determinado whisky, quero, na verdade, afinar o tom da prova por meio daquela analogia.

Ou isso.

Com whiskies, este storytelling é importante também. Não se trata apenas de uma historinha bonitinha, romantizada, que irá lubrificar seu interesse e fazer com que escolha uma garrafa em detrimento de outra. Bem, é isto também, e o resultado final é este. Mas, na verdade, é bem mais. É a coisa mais essencialmente humana que há – identificação. Quando você escolhe uma garrafa de Bruichladdich porque eles são obcecados por terroir – mas assumem que padronização não é o forte – ao invés de um The Macallan, que fala sobre padrão de qualidade e luxo, há um julgamento de valor. Ou não também, porque às vezes você é só um maluco que pensa que degustar é um numbers game.

Na maioria das vezes, há um juízo. Um juízo baseado em conhecimento ou identificação. A paixão por whiskies raramente é algo racional – fosse assim, beber qualquer coisa funcionaria bem. Pelo contrário, ela trata de experiências e conceitos. Você pode gostar de The Glenlivet por ter sido uma das destilarias pioneiras da Escócia, ou dos blends da Suntory por terem introduzido o whisky no Japão. Pode gostar de Bruichladdich pela transparência, e de Springbank pela autenticidade e ligação com os métodos mais artesanais e tradicionais de produção. Storytelling pode ser um papo vazio de marketing, claro. Mas, pode também, transmitir valores reais, que contextualizam aquilo que está no seu copo.

E há, também, aqui, a faceta pessoal. Você pode ser apaixonado por determinada destilaria por algum episódio significante em sua vida. Eu, por exemplo, tenho uma leve queda por Lagavulin, por ter sido o whisky que fez minha cabeça rodar – literalmente – e consolidou minha paixão por whiskies. E Bowmore, claro, como vocês sabem, que me surpreendeu absurdamente durante uma visita à destilaria, e, mais tarde, se mostrou um dos maiores ícones do meu estilo favorito de whisky. Os vínicos e turfados.

A história pode ou não envolver submarinos.

E é por isso também – veja bem, este não é um sofismo – que degustações às cegas geralmente não funcionam. Degustações às cegas servem para remover preconceitos infundados. Como, por exemplo, que whiskies sem idade declarada são todos engodos, ou que blends são piores que single malts. Mas, por focarem totalmente no líquido, removem boa parte da paixão. Um whisky de oito anos maravilhoso é muito mais admirável do que um single malt de três décadas sensorialmente incrível. Na verdade, é como gente – ninguém assistiria aquele programa do Raul Gil cheio de criança se isso fosse mentira.

Simplificando (mas não muito): há um discurso que justifica aquilo que você está para beber. Um whisky no copo é muito mais do que uma combinação de congêneres, etanol, água e talvez E-150. É a culminação do trabalho, conhecimento e posicionamento de todo um grupo. O storytelling, ouso dizer, é metade de toda a importância. Jamais uma história inflamada de qualquer entusiasta começou ou terminou com “eu bebi um whisky extraordinário outro dia em casa, mas, não faço a mais rasa ideia do que ele seja, de onde ele veio ou de seu sabor.” É a pesquisa, o conhecimento e o interesse que valem.

Há, entretanto, uma ressalva. Assim como no caso dos whiskies sem idade declarada (NAS) e quase tudo na vida, o discurso pode ser usado para o bem ou para o mal. Produzir um single malt turfado, sem filtragem a frio e cuja cevada e barris podem ser rastreados até a última gota é algo extraordinário. Assim como manter a qualidade e padrão sensorial de um blend com mínimo de vinte e um anos de idade.

Calma!

O que não é nem um pouco extraordinário é inventar uma historia qualquer que não tenha qualquer relação com a verdade – ou utilizar artifícios linguísticos como “premium” e uma porção de outros que não vem ao caso. Estampar atores ou fazer garrafas em forma de submetralhadora também. A não ser que, claro, o artista seja um grande entusiasta de determinado whisky, como o Nick Offerman com Lagavulin.

Resume, por favor.

Na verdade, tudo se resume a uma única palavra. Autenticidade. O storytelling é importantíssimo. Ele é a razão pela qual escolhemos uma garrafa, e, muitas vezes, o motivo de nossa admiração. Mas, ele, sozinho, não vale. O argumento deve se sustentar sob escrutínio. Todos nós conhecemos a história daquele bourbon que foi criado pelo bisavô de certo empresário, mas na verdade o bisavô sequer existiu – quer dizer, existiu, porque todo mundo tem bisavô, mas não daquele jeito. Ou o rye whiskey feito numa destilaria que não existe, porque é comprado da MGP.

Assim, meu caro leitor, deixe-se levar pela emoção. Ou pela razão, claro. Não escolha apenas pelo sabor. Escolha com base em sua experiência, em seu conhecimento, e em seus valores. Escolha pela afinidade – seja ela qual for. Não há nada mais esclarecido do que isto.

Union Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish Signature Series

Uma vez me disseram que, quando explico meu amor por whiskies para uma pessoa normal, pareço um pouco um entusiasta de metais de banho justificando as maravilhosas inovações de um chuveiro recém-lançado. Realmente, me parece um tanto sonífero ouvir sobre os grandes avanços tecnológicos da nova Lorenzetti. E eu devo ser muito chato, porque whiskies não são minha única paixão impopular e inexplicável. Tenho outras também. Como, por exemplo, dirigir. Eu amo dirigir.

É inexplicável, mas eu vou tentar. Ainda que uma extensão de asfalto livre seja essencial, não é nem dirigir rápido que eu gosto. São as pequenas coisas. Trocar a marcha na rotação exata para que o automóvel deslize sem qualquer balanço perceptível. Frear e acelerar precisamente no traçado de determinada curva. E ouvir música. Não há momento melhor para ouvir a discografia inteira da sua banda preferida do que ao fazer uma longa viagem dirigindo. É quase catártico.

Exceto quando a natureza chama.

Aliás, recentemente me vi voluntariamente obrigado a fazer um percurso relativamente longo. Quase nove horas num bate-volta para uma cidade do interior de São Paulo – totalmente sozinho, sem cã e cãezinhos. Como trilha sonora, escolhi uma banda a altura da peregrinação – Rolling Stones. É óbvio, eu sei, mas poucos grupos teriam um repertório tão extenso e variado. É quase como – transportando a analogia para minha paixão etílica – a destilaria Union, com seus três lançamentos da série Signature Wine Cask.

E a idade da banda também é bem comparável àquela da destilaria. A Union tem mais de sessenta anos na produção de destilados. Atualmente, sua linha permanente conta com quatro whiskies. Um blend e três single malts – Pure Malt, Pure Malt Turfado e Pure Malt Extra-Turfado. Em 2020, lançaram também uma edição limitada, precursora da linha Autograph – o Union Virgin Oak . E, agora, acabam de divulgar mais três – limitadas a 1.100 garrafas cada. Versões finalizadas em barris de vinho de seus whiskies de linha. Dentre eles, está o Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish.

Os new-make que compõe a linha dos Wine Cask Finish foram destilados na unidade de Veiranópolis da Union – a nova unidade, de Bento Gonçalves, começou a produção somente em 2015. De acordo com Luciano Borsato, diretor executivo da Union os “malte turfado e extra-turfado (que são usados de base para os whiskies) são importações que fazemos do norte da Escócia, sob especificação”. Para o Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish, a medida de fenóis no malte é de quarenta partes por milhão (40ppm), intermediária entre a especificação da Talisker (20ppm) e Ardbeg (55ppm) – a mesma do Extra-Turfado de linha.

O processo de maturação e finalização do Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish ocorre em barris de carvalho americano. Primeiro, o new-make matura em barris second-fill de ex-bourbon. Depois, é transferido por um prazo não especificado pela Union para barris de carvalho americano de ex-vinho tinto. A idade estampada no rótulo é a do componente mais jovem. Oito anos. Este processo de finalização – transferência do whisky para um barril de natureza distinta – aumenta a complexidade sensorial do whisky. O whisky é engarrafado com 46% de graduação alcoólica – três por cento a mais do que o Extra-Turfado de linha.

Sensorialmente, o Union Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish é enfumaçado, com notas de frutas vermelhas e pimenta do reino. E ainda que o malte turfado esteja em primeiro plano, a influência vínica é notável. O whisky é mais leve, frutado e arredondado que o Pure Malt Extra-turfado tradicional, e menos salino também. A finalização é mais longa – justamente ai que o emprego das barricas de vinho fica mais evidente. É um whisky que traz uma complexidade surpreendente, ainda mais considerando sua idade e país de origem.

Extra-Turfado

Eu poderia, aqui, recomendar a compra do Union Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish. Mas sei que isto é uma redundância. É como o mais singelo prazer de dirigir e ouvir boa música. Para entusiastas como nós, querido leitor, este é um lançamento que prescinde quaisquer explicações.

UNION PURE MALT EXTRA TURFADO WINE CASK FINISH (AUTOGRAPH SERIES)

Tipo: Single Malt

Destilaria: Union Malt

País: Brasil

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: enfumaçado, adocicado e maltado. Frutas vermelhas.

Sabor: defumado, medicinal e frutado. Corpo médio. O final é progressivamente menos enfumaçado e mais frutado.

Onde encontrar: Caledonia Whisky & Co.

Glen Scotia 15 anos – Darwinismo

Você provavelmente já ouviu falar de Charles Darwin. Charles Darwin foi um naturalista britânico, que fez uma longa expedição a bordo de um navio chamado HMS Beagle, comendo tudo de exótico que encontrava pela frente. Aliás, um de seus traços era justamente a curiosidade para saber o gosto de tudo vivo que encontrava. Durante sua viagem no Beagle, Darwin se esbaldou em bichos como iguanas, tatus (sem piadinhas com os Mamonas, por favor) e tartarugas gigantes. Darwin foi o primeiro hipster gastronômico.

Mas não foi por conta de seu gosto excêntrico que Darwin ficou famoso. Foi porque ele que cunhou a teoria da evolução. De acordo com sua teoria – que, convenhamos, é uma certeza – todas as espécies de organismos se desenvolvem por meio da seleção natural. Essa seleção faz com que apenas os organismos mais capazes de sobreviver conseguissem se reproduzir. O que garante mais chances de manutenção daquela espécie, em um meio ambiente selvagem e desafiador.

O exemplo clássico é a girafa. A girafa parece um bicho desajeitado e pescoçudo, mas é, na verdade genial. Por conta de sua altura e pescoço, ela é capaz de alcançar os frutos mais altos das árvores, impossíveis para espécies – ou mesmo outras girafas – mais baixas. De acordo com a teoria de Darwin, ao longo de milhares de anos, girafas progressivamente mais pescoçudas foram selecionadas, porque mais comida estava disponível para elas. O mesmo se aplica ao leão com sua força, e ao ornitorrinco. Ainda que eu não saiba bem qual o talento do ornitorrinco.

Suar leite, talvez?

Mas a teoria da evolução (ou melhor, a seleção natural) não funciona apenas para animais. Ela poderia perfeitamente ser aplicada a destilarias. Em especial, aquelas de Campbeltown. É que a região outrora fora conhecida como a capital mundial do whisky. O vilarejo chegou a contar com trinta e quatro destilarias, mas, atualmente, possui apenas três. O maior responsável foi o Volstead Act, mais conhecido como a Lei Seca Norte-Americana da década de 20.

Ocorre que naquela época, um dos mercados consumidores mais importantes de scotch whisky eram os Estados Unidos. E com a proibição, as destilarias de Campbeltown se viram, da noite para o dia, com estoque enorme de scotch whisky e nenhum comprador. Endividadas e sem ter muito para onde correr, a vasta maioria fechou suas portas. Apenas um par delas sobreviveu até os dias de hoje. As mais fortes: Springbank e Glen Scotia.

E ao provar o Glen Scotia 15 anos, é fácil entender o porquê. Ele é um whisky pungente, mas com complexidade e equilíbrio incríveis. Há um sabor frutado, de laranja e damasco, que vai se desenvolvendo para baunilha e caramelo, provenientes da maturação em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Não é um whisky demasiadamente pesado, a ponto de ser intimidador. Mas não é leve e delicado a ponto de carecer de personalidade.

Assim como o Victoriana e Double Cask,  já revistos nestas páginas caninas, o Glen Scotia 15 faz parte do portfólio permanente da destilaria. Recentemente outras expressões foram introduzidas, como o 16 anos, 18 anos (talvez a Glen Scotia queira ter uma expressão para cada idade?) o incrível 25 anos e o defumado Campbeltown 1932. Todas são parte de uma reformulação na linha da Glen Scotia, que mudou drasticamente sua identidade visual e seus maltes.

O Glen Scotia 15 anos recebeu uma miríade de prêmios desde seu lançamento. Entre eles, medalha de ouro na San Francisco World Spirits Competition na World Whiskies Awards e IWSC, todas em 2016. Em 2017, recebeu outro ouro pela Scotch Whisky Masters. E, se você me perguntar, direi que foram merecidas. Se a teoria da seleção natural fosse aplicada aos whiskies, seria fácil entender como a Glen Scotia sobreviveu.

GLEN SCOTIA 15 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 15 anos

Destilaria: Glen Scotia

Região: Campbeltown

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: frutado, um pouco de cereais, cítrico.

Sabor: açúcar mascavo, baunilha, compota de frutas. Final levemente seco, com pêssego e especiarias (canela, pimenta do reino).

Quatro coquetéis de whisky para o frio

Eu adoro o frio. Poucos pequenos prazeres são tão grandes em sua singeleza como sentir o ar gelado nas têmporas. Perceber aquela deliciosa letargia nos dedos ao digitar. Contemplar o aveludado formigamento na ponta do nariz ao franzi-lo. E o vapor. Eu devo ser completamente maluco, mas a fumacinha que sai do nariz ao respirarmos no frio é uma lembrança contundente de que estou vivo.

Trabalhar, tomar café, ler. Pra mim, até fazer exercício é melhor no frio, porque não tenho que beber o correspondente à vazão das cataratas do Iguaçu para repor o líquido perdido com o suor. Aliás, quase tudo fica melhor no frio. Inclusive, uma das minhas atividades preferidas, que não é a que você tá pensando. Ou talvez seja, se me conhecer bem: beber. Porque na verdade beber é meio como se vestir. Você faz o ano inteiro, mas o frio abre um leque muito maior de possibilidades.

O que, claro, não significa que você deva beber qualquer coisa. Pelo contrário. Aqui no Brasil, a temporada de frio é uma rara oportunidade para você se esmerar em novas experiências. Ou aproveitar para revisitar aquele raro clássico, que pareceria até incivilizado em qualquer outra época do ano. Como os coquetéis dessa lista. E se reclamarem, já sabe – você só está tentando ficar mais aquecido.

Irish Coffee

Não dá para começar essa lista de outra forma. Mesmo que o Irish Coffee não esteja entre meus drinks preferidos, ele é o coquetel de frio por excelência. Até o mito ao redor de sua criação envolve frio. Reza a lenda que ele foi criado na década de quarenta por Joe Sheridan, um chef de cozinha responsável por um restaurante e café localizado no terminal aeroportuário de Foynes, na Irlanda. O restaurante de Joe era conhecido naquela época como um dos melhores do país.

O coquetel teria sido concebido quando um grupo de passageiros americanos desembarcou de um hidroavião, em uma manhã de inverno, em 1940, naquele condado. Sheridan, prestativo e criativo, adicionou whiskey irlandês ao café, para aquecer ainda mais aqueles pobres viajantes. Quando indagado se aquilo era café brasileiro – uma iguaria na época – Sheridan simplesmente respondeu “é Café Irlandês”.

Para a receita e mais curiosidades, clique aqui.

Hot Toddy

Outro coquetel quente com a melhor bebida do mundo, o Hot Toddy é basicamente um quentão aprimorado. Aprimorado porque leva whisky, claro. O drink chegou a ser recomendado, durante o século dezenove, como uma panaceia para crianças. ““se sua criança começar a fungar, ter olhos vermelhos ou perder um pouquinho da audição, se sua pele ficar seca e quente, e se o halito estiver febril – você agora terá a oportunidade de agir muito mais rapidamente do que antes (…) dê a ela drinques estimulantes e quentes, sendo o hot toddy o melhor deles

Um século e tanto mais tarde, adquirimos razoabilidade, conhecimento e bom senso (mais ou menos). E sabemos que isto é um absurdo. A mistura, no entanto, continua sendo um ótimo remédio para aquecer o corpo, se tomado com moderação. As receitas para sua preparação variam muito, mas você pode conferir uma delas aqui.

Rob Roy

Frio combina com lareira. Nem que a lareira esteja dentro do seu copo. E é esta a experiencia que o Rob Roy oferece, especialmente se produzido com whiskies defumados, como Johnnie Walker Double Black e Talisker. Ainda que não seja um coquetel quente – ele é servido gelado – a força alcoolica, aliada ao sabor enfumaçado são perfeitos para aquecer até nos dias mais gelados.

Você pode mexer nas proporções e base do coquetel para criar um que lhe agrade. Para mais dicas sobre ele, leia nossa matéria completa , meu caro.

Scaffa

Scaffa não é exatamente um coquetel, mas uma classe. São drinks servidos à temperatura ambiente, e tem ganhado bastante popularidade recentemente. Eles podem ou não ter diluição, e não necessariamente usam whisky de base. Mas, óbvio, que se você for beber um coquetel à temperatura ambiente, escolherá como base algo que faz algum sentido ser bebido sem refrigeração. Whisky é uma escolha óbvia.

É importante notar que nossa percepção de sabor muda de acordo com a temperatura do líquido. Um manhattan devidamente gelado terá um sabor bem diferente de um à temperatura ambiente – que ressaltará seu dulçor. Assim, o equilíbrio dos scaffas deve ser bem minucioso. Não há como se esconder atrás de um iceberg de gelo.

Para começar, sugerimos uma receita desenvolvida no balcão do Caledonia, num papo entre Rodolfo Bob e Marcelo Sant’Iago, do Difford’s Guide Brasil. É o Sant’iago Scaffa, que leva vermute, fernet, whiskey e bitters. Simples, direto, pequeno e perfeito para os dias de preguiça gelada que você não quer nem passar do lado do freezer.

INGREDIENTES

  • 50 ml rye whiskey (Jim Beam Rye)
  • 5ml Fernet Branca
  • 5ml vermute tinto (Carpano)
  • 5ml Fernando de Castilla vermute – esta parte é importante. O Fernando de Castilla usa como base vinho jerez. O perfil sensorial muda. Mas, se for absolutamente necessário, use 10ml ao todo de algum vermute que tiver.
  • 1 dash de cocoa bitters (no Caledonia, fazemos um artesanal. Mas pode usar o novo da Angostura)
  • zest largo siciliano.
  • spray (ou 5ml) de whisky turfado – Laphroaig 10.

PREPARO

  1. Junte todos os ingredientes em um mixing glass e misture. Sem gelo.
  2. Descarte o zest de limão siciliano.
  3. transfira o conteúdo para um copo, e prepare um novo zest, adicionando-o ao copo em seguida.
  4. finalize com um spray ou algumas gotas de whisky turfado.

Suntory Hibiki 21 – Drops

Drops são nossos posts menores, de análise ou curiosidades do mundo do whisky, e que contam com rótulos indisponíveis no Brasil – mas com alguma particularidade interessante. Para ler outros drops, clique aqui


For Relaxing Times, make it a Suntory Time. Quando assisti Encontros e Desencontros da Sofia Coppolla pela primeira vez, nem conhecia whisky direito, mas achei a referência engraçada. O filme explorava justamente a sensação de estranhamento, alienação e isolamento entre as pessoas. Relações, aliás, realçadas pela sensação de distanciamento cultural do Japão.

E nada melhor para potencializar este estranhamento do que whisky. Em 2003, o whisky japonês estava longe da febre que é atualmente – e eu tinha apenas dezoito anos. E um ficcional ator decadente americano estrelando um comercial para um produto que parecia tão desconectado daquele país quanto ele próprio era uma analogia genial. O que eu não sabia, no entanto, é que o whisky japonês era excepcional.

Um dos exemplos mais claros é o premiadíssimo Suntory Hibiki 21 anos – aliás, o irmão mais velho do whisky que aparece no filme. O Hibiki 21 anos é um blended whisky cujo coração é o single malt Yamazaki, e que leva whiskies das destilarias Hakushu – single malt – e Chita – grain whisky. Whiskies, estes, maturados em barricas de carvalho americano, europeu e japonês – o famoso Mizunara.

bomdimais.

O Suntory Hibiki 21 recebeu diversos premios internacionais, como Melhor Blended Whisky do Mundo em 2019, 2017, 2016, 2013, 2011 e 2010 pela World Whisky Awards, e medalha de ouro na International Spirits Challenge de 2012. Aliás, foi ele um dos causadores da febre de whiskies japoneses e a consequente escassez de estoques mais maturados.

Sensorialmente, o Hibiki 21 traz notas frutadas, gengibre, pimenta do reino e chocolate. Há algo como uma ameixa seca, ou em calda, no fundo, que amarra as proverbiais pontas do blend, e o torna um produto conciso. O final traz creme brulee e mais ameixa em calda – quase um umeshu . É um blend incrivelmente bem equilibrado e complexo, capaz de superar facilmente single malts de renome – uma pena, aliás, que além da garrafa da foto, tinha apenas uma generosa dose fracionada em outra garrafinha.

O Suntory Hibiki 21 anos é um blend histórico. Ele foi um dos principais responsáveis – ao lado de seu primo Yamazaki Sherry Cask – por provar que whiskies produzidos com técnicas escocesas mas fora da Escócia podiam ser tão bons quanto aqueles. Mas isso não importa. O que importa é que ele é um whisky absolutamente incrível até nos dias de hoje. Sem alienação ou estranhamento – apenas um blend magistralmente bem feito.

SUNTORY HIBIKI 21 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 21 anos

Marca: Suntory

Região: N/A

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutado e floral, com baunilha e ameixa.

Sabor: Mel, ameixa em calda, gengibre, pimenta do reino, chocolate. Final longo, adocicado, com baunilha, caramelo e ameixa.

Johnnie Blonde – Katsuobushi

Katsuobushi. Katsuobushi é a mais nova adição ao meu léxico de alimentos esquisitos que tanto aprecio. Num jeito bem rudimentar de explicar, katsuobushi é peixe seco ralado. Ou, mais especificamente, uma conserva seca, desidratada, às vezes defumada, de carne de peixe – geralmente atum-bonito – em finíssimas fatias, quase transparentes. E, como a descrição sugere, sozinho, tem o mesmo sabor de uma meia úmida utilizada por quatro horas para atravessar um manguezal. Mesmo que eu nunca tenha comido meia suja de manguezal.

Só que, em conjunto com outros ingredientes, katsuobushi é incrível. Em sopas orientais fica fantástico, no sanduíche de gravlax – aliás, temos isso em nosso bar – é maravilhoso. O tal ingrediente oriental faz parte daquele conjunto incrível de ingredientes que não faz o menor sentido puro, mas, quando misturado, ganha vida e profundidade. Como também coisas bem mais elementares, como farinha, sal, e tofu. Se bem que tofu continua ruim, mesmo depois de misturar com quase qualquer coisa. Mas, enfim, são ingredientes que foram concebidos para serem combinados.

Nham.

No mundo das bebidas alcoólicas, há elementos assim também – bitters, normalmente. Mas whisky, por convenção, não. Até hoje, pouquíssimos whiskies foram criados e desenvolvidos especialmente para misturas. É necessário uma boa dose de coragem para subverter o costume, embarcar na nova onda da coquetelaria, e declarar que determinado produto – que faz parte de uma classe usualmente bebida sozinha – foi criado para ser misturado. Mas é justamente isso que acontece com o novo Johnnie Blonde, lançado recentemente pela Johnnie Walker no Brasil.

O Johnnie Blonde foi concebido pelo blender George Harper para ser utilizado em coquetéis de baixa graduação alcoólica, como collins e highballs. O site oficial da marca declara que “para os apaixonados por whisky curiosos, ou os que não bebem whisky, Johnnie Blonde é uma doce surpresa que irá confundir seus sentidos. Feito para ser misturado, ele desabrocha para vida com a intensidade cítrica de uma limonada, combinada com uma fatia de laranja“.

De acordo com a Johnnie Walker, numa declaração um pouco lacônica “O Johnnie Blonde é feito usando trigo e whiskies de malte com perfil frutado. Maturado em carvalho americano doce, o resultado é um whisky cheio de sabores vívidos e vibrantes“. A declaração, ainda que interessante, explica pouca coisa sobre a real natureza do Johnnie Blonde. E nós sabemos que você, querido leitor, veio até o Cão Engarrafado para saber mais. Apenas sua sede de conhecimento supera a sua voracidade pela melhor bebida do mundo. E, aqui, quero corresponder a esta expectativa. Então, aí vai.

Ainda que não haja informação oficial, o whisky de grão usado no Johnnie Blonde é, provavelmente, Cameronbridge – uma das maiores destilarias de whisky de grão do mundo. É ela, atualmente, a grande fornecedora de grain whisky para a linha Johnnie Walker e também de outros rótulos da Diageo, como White Horse e Black & White. A destilaria também produz alcool neutro para o gim Tanqueray e a vodka Smirnoff. Ao todo, são mais de 130 milhões de litros por ano – quase oito vezes a The Macallan. A suspeita que o Johnnie Blonde leva Cameronbridge como seu grain whisky ganha força considerando que a receita clássica de mosto da destilaria é 91% trigo e 9% cevada maltada.

A maturação dos componentes do Johnnie Blonde acontece em barris de carvalho americano. É isto, somado ao whisky de grão utilizado, que traz suavidade e dulçor para o blend. Aliás, este é um ponto interessante. O Johnnie Blonde não traz o clássico perfil enfumaçado e amendoado da maioria dos whiskies da linha do andarilho. Ele está mais próximo do que é o Gold Label Reserve. É adocicado, com um fundo de mel e caramelo claros, e com pouca ou nenhuma defumação. A experiência de bebê-lo puro pode ser definida como interessante – não é um whisky complexo, mas, surpreende por não apresentar as arestas pontudas de álcool que blends em sua faixa de preço costumam ter.

Mas é na hora de misturar que o Johnnie Blonde realmente mostra a que veio. A versatilidade para coquetelaria é inegável. Além do “hero drink” acima descrito, este Cão tem mais uma sugestão – um collins com ginger ale e limão. Rodolfo Bob, consultor de nosso querido Caledonia Whisky & Co., no entanto, vai além. Ele criou o J. Bardot, um coquetel que leva  xarope de demerara, creole bitters, Angostura bitters, licor de flor de sabugueiro e espumante brut – numa incrível fusão franco-escocesa, baseado no clássico French 75′.

J, Bardot

Para os apaixonados por coquetelaria, para aqueles que nunca provaram scotch whisky na vida, ou para os bebedores experientes que gostam do perfil adocicado e caramelado, o Johnnie Blonde é uma recomendação certeira. Prove-o em um highball clássico, à moda oriental, ou teste sua mistura favorita – só não vá colocar katsuobushi. Criatividade tem limite.

JOHNNIE BLONDE

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Doce, com mel e caramelo.

Sabor: creme de baunilha, mel, caramelo, malte. O final é adocicado, com mais baunilha.

Disponibilidade: disponível no Caledonia Whisky & Co (WhatsApp) e mercados selecionados.

Drops – Compass Box The Peat Monster Arcana

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Expectativa é uma coisa engraçada. Há whiskies que, só de ler, me dão nervoso para experimentar. Mas que são decepção do momento de abrir o lacre a dar o primeiro – e algumas vezes o último – gole. Há outros que são o oposto. Não provocam nem um arquear de sobrancelhas durante a leitura. Mas, ao primeiro gole, me deixam acenando positivamente com a cabeça – depois, claro, de dizer algum palavrão de enaltecimento qualquer.

E há aqueles que são os dois. O Compass Box Peat Monster Arcana está nesta classe. Aliás, a Compass Box Whisky Co. quase gabarita esta classe. A empresa foi fundada em 2000 por John Glaser, ex executivo da Diageo, como uma espécie de produtora boutique de whiskies de altíssima qualidade. A maioria de seus rótulos possui alguma invencionice, ou iconoclastia. A empresa procura sempre trazer inovações, e expandir as fronteiras da produção de whisky – e claro, com um storytelling perfeito.

O Compass Box Peat Monster Arcana é, de certa forma, a conjunção de duas dessas histórias. O Peat Monster e o Spice Tree. Para ser mais preciso – parte do blend do Peat Monster, e as criativas barricas do Spice Tree. De acordo com a própria Compass Box “uma combinação de barris cujo corpo é de carvalho americano, e as tampas de carvalho europeu tostado, nossos barris customizados geram um sabor que nos agrada. Entretanto até 2016, os efeitos destes barris em whiskies defumados permanecia um mistério.”

Proporções dos barris do Arcana. Clique abaixo para baixar.

O blender responsável pelo Peat Monster Arcana foi James Saxon, parte do time da Compass Box. O whisky partiu de uma versão cask strength do peat monster tradicional. O whisky foi colocado em três barricas híbridas – com corpo de carvalho americano e tampas de carvalho europeu tostado – e deixado para maturar por mais de dois anos. Aquelas barricas, aliás, já tinham sido utilizadas pela própria Compass Box para maturar seu “highland blend”, um dos elementos que compõe parte de sua linha. Depois, o whisky foi misturado com outros três single malts.

A composição do Compass Box Peat Monster Arcana é abertamente divulgada pela Compass Box. Ele contém 72,9% de Talisker, 10,6% de Miltonduff e 6,9% de Ardbeg, além de 9,6% daquele Peat Monster experimental, que fora colocado nos barris customizados da Compass Box. O resultado foi um blended malt que ainda mantém o DNA do Peat Monster, mas, mais refinado, menos medicinal e pungente, e mais equilibrado e frutado.

Infelizmente – e como acontece com todos os nossos Drops – o Peat Monster Arcana não está à venda em nosso país. O que torna esta prova quase um exercício de maldade gratuita. Porque você, querido leitor, agora terá sentido exatamente o que senti. Deve ser o feitiço dos grandes whiskies.

COMPASS BOX PEAT MONSTER ARCANA

Tipo: Blended Malt sem idade definida

Marca: Compass Box Whisky Co.

Região: N/A

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: fumaça de bacon, levemente cítrico, iodo. Frutas vermelhas.

Sabor: Frutas vermelhas, pimenta do reino. O final é longo e vai se tornando progressivamente enfumaçado. A sensação de trazida pela turfa é menor do que no tradicional Peat Monster. As barricas estão mais evidentes.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

Lamas Smoked Single Malt – Combinações

Vou começar o post de hoje com uma auto-paráfrase. Não por falta de criatividade, mas, porque creio que se aplica perfeitamente à harmonização de hoje ” Goiabada e queijo, hot dog e mostarda, limão e cachaça. Batata palha e estrogonofe, vermute e campari, linguiça e feijão. TPM e chocolate, Microsoft Windows e Ctrl + Alt + Del. Chuva e Netflix, hambúrguer e batata frita e bacon com absolutamente tudo. Há coisas que foram criadas para combinarem, involuntariamente, com outras. Coisas cujo resultado é maior do que a soma das partes. 

Charutos e whiskies são assim. É raro que uma combinação entre charuto e whisky saia terrivelmente errado. Porém, isso não significa que qualquer uma funcionará. Algumas ficam desequilibradas – como um charuto delicado com um whisky enfumaçado e potente. Outras, ficam simplesmente sem graça. Mas quando eu acerto, ah, aí é absolutamente incrível. Os dois se complementam, e extraem do outro sabores e aromas que eu jamais sequer imaginaria que existissem lá.

E foi pensando justamente nesta combinação – esta soma que não tem nada de matemática – que o professor Cesar Adames, em parceria com a destilaria Lamas, de Minas Gerais, lançaram o Smoked Single Malt Whisky – um whisky criado especialmente para ser combinado com charutos. O nome, diremos assim, sintético, já dá uma boa ideia do que é o líquido. Um single malt defumado, cuja base é o Lamas Nimbus, limitado a 400 garrafas. Mas, com uma graduação alcoolica bem mais generosa, de 51%. E finalizado em barris de carvalho que antes contiveram a stout Durak, também da Lamas.

A Lamas

A defumação do Lamas Smoked Single Malt Whisky é bem sui-generis. É a mesma do Lamas Nimbus e do nosso querido Caledonia II. Não há turfa envolvida no processo. A cevada maltada é umedecida novamente na Lamas, e passa por uma segunda secagem, mas utilizando madeira de reflorestamento. Isso traz uma nota enfumaçada mais aromática, que remonta a incenso e especiarias. Não há a tradicional nota medicinal dos single malts turfados, mas, há um aroma de madeira em brasa bastante característico.

A maturação aconteceu de forma escalonada. Primeiro, maturou em barris de carvalho americano. Depois, foi transferido para barris – também de carvalho americano – mas que contiveram a imperial stout da Lamas, a Durak. Há, inclusive, a versão contrária da brincadeira. Uma Durak envelhecida em barris de single malt da destilaria. Essa segunda maturação trouxe notas amargas, de café e chocolate ao whisky. Uma adição muito bem vinda, especialmente considerando a combinação com charutos mais potentes.

Por fim, a graduação alcoólica é de 51%, o que torna o Lamas Smoked Single Malt Whisky o whisky mais alcoólico produzido no Brasil oficialmente. Aqui, há um ponto muito interessante. O whisky é vendido somente em um kit, que acompanha uma garrafa de água VOSS – reconhecida por sua pureza e neutralidade. A ideia é que o consumidor, ao harmonizar, e dependendo do charuto que escolher, possa reduzir o ABV do whisky, até atingir o ponto de equilíbrio perfeito.

Mas, mais do que um whisky criado para combinar com puros, o Lamas Smoked Single Malt Whisky é também uma homenagem à cultura charuteira. O rótulo faz alusão às caixas de charutos cubanos, e o selo de edição limitada presta homenagem àqueles usados nas tiragens mais exclusivas dos habanos. A embalagem está apinhada de pequenas referências bem-humoradas, como a imagem do charuto na rolha. A graduação alcoólica, aliás, é uma delas: “é que se alguém perguntar, vou dizer que foi uma boa ideia” declarou Adames.

Adames, estudando whiskies no Whisky Show de Londres

A garrafa (de generoso um litro ) do Lamas Smoked Single Malt Whisky está à venda exclusivamente em dois pontos. Na loja oficial da Lamas Destilaria e no Caledonia Whisky & Co., em São Paulo. Em ambos, o preço é de R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais). Outros pontos especializados em charutos receberão também o whisky em dose, como a Caruso Lounge e a Tabacaria Lenat – habitat natural do Lamas Smoked Single Malt Whisky.

Se você gosta de whiskies maturados em barris de cerveja, e se é um apaixonado por charutos, o Lamas Smoked Single Malt Whisky é uma peça indispensável em sua coleção. Ele é a máxima homenagem brasileira à cultura charuteira. Há coisas que foram criadas para combinarem, involuntariamente, com outras. Mas, quando elas são criadas voluntariamente, ah, aí é melhor ainda.

LAMAS SMOKED SINGLE MALT WHISKY

Tipo: Single Malt

Destilaria: Lamas

País: Brasil

ABV: 51%

Notas de prova:

Aroma: baunilha, caramelo, cedro, incenso.

Sabor: herbal e enfumaçado, com notas de cravo, canela, pimenta do reino, chocolate e café. Final longo, apimentado, com incenso e madeira.

Disponibilidade: a venda com a destilaria e no Caledonia

*a degustação do whisky tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

Drops – Alberta Premium

Drops são nossos posts menores, de análise ou curiosidades do mundo do whisky, e que contam com rótulos indisponíveis no Brasil – mas com alguma particularidade interessante. Para ler outros drops, clique aqui


Há muitos fatos interessantes sobre o Canadá. Aí vão alguns exemplos. A bandeira do Canadá somente foi criada 100 anos depois de ter se tornado um país. Setenta e sete por cento de todo xarope de bordo do mundo é produzido no Canadá. E agora, uma curiosidade realmente aleatória. A região de Manitoba, no Canadá, é o lar da maior orgia a céu aberto de cobras-liga do mundo, com mais de sete mil répteis. E no Canadá, a maioria dos whiskies de centeio (rye whisky) levam muito pouco centeio.

É isso aí. No Canadá, para que um whisky seja chamado de “rye whisky” (whisky de centeio), ele não precisa necessariamente ter predominância de centeio. Parece estranho e é mesmo. Acontece que no século dezenove, os canadenses começaram a produzir whisky com o excedente de sua produção de trigo. Como você sabe, ou deveria saber porque segue o Cão Engarrafado, trigo traz suavidade ao whisky. Naturalmente, em algum ponto da história, algum gênio resolveu adicionar um tantinho de centeio à mistura. O que faz todo sentido.

E voce achava que só na Austrália que tudo queria te matar

Centeio traz um sabor apimentado e herbal e é perfeito para dar tempero a um whisky cujo destilado seja essencialmente leve ou adocicado. É, basicamente, como colocar um pouquinho de pimenta do reino no seu carbonara. De acordo com Davin de Kergommeaux, da Whisky Magazine “Este novo whisky trazia mais sabor que o whisky comum, e quase todo mundo o preferiu. Os consumidores passaram a pedir ‘rye’, um whisky com uma pequena adição de centeio. Eventualmente, a palavra ‘rye’ passou a fazer parte do léxico canadense como sinônimo de whisky”.

O problema de tudo isso é que, recentemente, o rye whiskey americano voltou à voga. Este, de acordo com a legislação norte-americana, deve ser feito com, no mínimo, 51% de centeio. E isso causou – e causa – uma certa confusão entre os consumidores da bebida. O curioso, entretanto, é que é raríssimo encontrar um whisky de centeio canadense que use predominantemente centeio em sua fórmula. E este é o caso do Alberta Premium. Que, aliás, gabarita o quesito, porque o único grão usado é justamente centeio.

A maturação do Alberta Premium acontece em barricas de carvalho americano por um prazo não divulgado. Especula-se, entretanto, que esteja pelos cinco anos. Ele é engarrafado com a graduação alcoólica original do barril – cask strength. Não há diluição com água entre a retirada dos barris e o engarrafamento. Por conta disso, o percentual alcoolico varia de lote para lote. A garrafa provada, do segundo lote, orgulhosamente estampava a preocupante graduação de 66%. O que torna o Alberta Premium Cask Strength Rye o whisky mais alcoólico a figurar nestas páginas até hoje.

O Alberta Premium Cask Strength Rye foi eleito por um certo crítico do mundo dos whiskies como o melhor whisky do mundo em 2020. Este Cão não iria tão longe. Não por causa do whisky em si, mas, por uma questão de lógica. Coisas de naturezas distintas não podem ser comparadas de forma isonômica. Como colocar, ombro a ombro, um rye whisky canadense e um turfado de Islay? Ou um elegante single malt de speyside, com mais de três decadas de maturação, ao lado de um bourbon barrel-proof?

Seja como for, o Alberta Premium Cask Strength Rye é um whisky excelente. No nariz, há pimenta do reino, cravo, canela e um herbal, que permeia toda a prova. O ataque alcoolico, mesmo no nariz, é muito intenso. Para reduzir esta percepção, recomendo um pouquinho de água. No paladar, a impressão etílica continua, com um certo dulçor acompanhado de um final longo – aliás, muito longo – herbal e apimentado. O melhor do Alberta Premium Cask Strength Rye, aliás, na humilde opinião deste canídeo, é justamente isso. Uma finalização persistente, que te convida ao próximo gole quase involuntariamente – quando você já esqueceu a voadora etílica do gole anterior.

Prova da prova.

Se você procura um whisky diferente, que possa adicionar algo à sua biblioteca mental etílica, ou se simplesmente quer provar um whisky canadense que realmente vale a pena, o Alberta Premium Cask Strength Rye é sua escolha. Uma pena que, por conta de leis e disponibilidade, o rótulo não esteja à venda em nosso país. Ainda temos que caminhar muito, sobre um enorme tapete de cobras, até que rótulos como este desembarquem em nossas terras.

ALBERTA PREMIUM CASK STRENGTH RYE

Tipo: Canadian Whisky (100% rye)

Marca: Alberta

Região: N/A

ABV: 66%

Notas de prova:

Aroma: álcool, cravo, canela, pimenta, hortelã.

Sabor: Mel e caramelo, mas com punch alcoolico muito alto. Pimenta do reino, hortelã, cravo. Final persistente, com especiarias e herbal.

Ward Eight – Sufragistas

A variedade é o que dá tempero a vida. Pense, por exemplo, no brigadeiro. O docinho, aquele, com leite condensado, chocolate e manteiga. Hoje tem brigadeiro de tudo. Laranja, doce de leite, macadamia, nozes, nutella, pistache. Tem até brigadeiro de outros doces, tipo brigadeiro de pé de moleque e brigadeiro de beijinho, que é um negócio que eu nunca vou entender. E brigadeiro de brigadeiro mesmo, só que com uma miríade de chocolates. A quantidade de variações é tão grande que justifica – mais ou menos – a existência de um dispensário exclusivo da guloseima. As brigaderias.

Mas antes de se tornar uma classe inteira, o brigadeiro era apenas um doce. Um doce com viés político. Ele fora criado por Heloísa Nabuco de Oliveira, uma senhora que apoiava a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes à Presidência da República de 1946. A criação tinha tudo a ver com o momento histórico – por conta da Segunda Guerra Mundial, produtos frescos ainda rareavam nas prateleiras dos mercados. E, por isso, o doce foi concebido com leite condensado – um substituto que começara a ser comercializado na década de 40.

O brigadeiro era servido nas festas dos correligionários e cabos eleitorais de Gomes, e de porta em porta, para divulgar sua candidatura. A eleição de 1945, aliás, era a primeira que contava com voto feminino. E, por isso, o partido do brigadeiro lançou um slogan de gosto e baseado em valores duvidosos – “Vote no brigadeiro, que é bonito e solteiro“. Apesar dos esforços tanto na frente da misoginia quanto da pâtisserrie, o militar perdeu as eleições. E o país ficou com a melhor parte de seu legado – uma deliciosa bolinha de chocolate envolta em granulados.

Herança política

Na história da coquetelaria, há também um caso muito parecido com o do brigadeiro. É um coquetel chamado Ward Eight. A criação do Ward Eight é debatida. Sabe-se que ele foi criado na virada do século vinte em Boston. A história mais aceita é que o drink surgiu em 1898 no Locke-Ober, e foi batizado em referência ao oitavo distrito da metrópole (8th Ward). O coquetel surgiu das mãos do bartender Tom Hussion, quando seu chefe Martin Lomasney concorreu à prefeitura do distrito. E venceu. A história, aliás, é material para um belo film-noir. Há inclusive uma subtrama, com representantes de Lomasney entregando cédulas pré-preenchidas na boca das urnas.

O Ward Eight é, basicamente, um whiskey sour, com um poquinho de grenadine – também conhecido como xarope de romã. Assim como o brigadeiro, há infinitas variações para o coquetel. Do serviço aos ingredientes. Algumas variações pedem por uma taça coupé sem gelo, com tudo misturado. Outras, por um copo alto com bastante gelo e o grenadine no fundo, à moda de um sunrise. A diversidade é tão grande que a única linha imaginária que poderia de alguma forma ligar tantas versões é o uso de whisky – que não é necessariamente americano – grenadine e algum cítrico Se bem que, às vezes, nem isso, porque tem versões sem cítrico.

Existe aqui um ponto importante sobre o coquetel. O xarope de romã. O equilíbrio de seu drink dependerá, essencialmente, do grenadine utilizado. E a melhor alternativa não é, na maioria das vezes, viável: fazer seu xarope artesanalmente, utilizando melaço de romã, água, açúcar e um tantinho de vodka. Para evitar que você, querido leitor, morra de tédio enquanto eu descrevo a produção desta iguaria adocicada, darei um conselho quiçá preguiçoso. Compre pronto, mas use com consciência. Dependendo do xarope, um sabor de bala – a lícita – poderá aparecer. Se for o caso, tente mudar o Grenadine. Usei o Marie-Brizard com bons resultados.

Vamos à receita.

WARD EIGHT

INGREDIENTES

  • 60ml rye whiskey (este Cão usou Jim Beam Rye)
  • 25ml (isso é 3/4 de dose) de suco de limão siciliano
  • 25ml de suco de laranja
  • 5ml de simple syrup (xarope de açúcar 2:1)
  • 5ml de xarope de grenadine
  • parafernália para bater

PREPARO

  1. Adicione os ingredientes (menos o grenadine) em uma coqueteleira com gelo. Bata vigorosamente
  2. Desça o conteúdo em um copo à sua escolha, com ou sem gelo, do tamanho e do formato que você quiser. Do jeito que esse drink é, você nem precisa usar copo. Pega um vaso, um prato fundo de sopa, sei lá.
  3. Finalize com grenadine.