Whisky in Church – Clássicos Sagrados

Clássicos são clássicos por resistirem ao tempo. Por permanecerem relevantes, apesar da enorme força centrifuga do oblívio. Clássicos atravessam eras intocados, em detrimento do caos. E clássicos são, invariavelmente e inevitavelmente, copiados. Copiados, modificados, adaptados. Pense, por exemplo, na clássica cena das escadarias de Odessa, do filme Encouraçado Potemkin. Você não precisa nem ter visto o filme para ter a referência. A cena apresenta um carrinho de bebê descendo sozinho e sem controle uma escadaria, em meio a um enorme massacre promovido por soldados czaristas.

A cena da escadaria de Odessa foi uma das primeiras vezes que o cinema utilizou uma sequência de diferentes planos, cortados e montados, para trazer emoção. E funcionou – a cena foi infinitamente reproduzida e homenageada, a ponto de se tornar um clássico maior do que o próprio filme. Ela é referenciada, por exemplo, em Os Intocáveis de Brian de Palma, no tiroteio entre Al Capone e os policiais. Cena essa, que, por sua vez, foi homenageada na paródia Corra que a Polícia vem aí.

Clica aqui caso você não tenha a mais rasa ideia do que eu esteja falando.

É engraçado como, apesar da enorme diferença de tema nas cenas – e mesmo de humor – a essência a torma imediatamente reconhecível. Mesmo em exemplos menos óbvios, como Correspondente Estrangeiro, de Alfred Hitchcock. Os elementos são os mesmos. Escadas, desespero, queda. Nem precisa mais do carrinho de bebê. Mas não é apenas no cinema que um clássico é reproduzido quase à exaustão, mas mantém sua essência. Na coquetelaria também. Um dos grandes exemplos é o Manhattan.

Há infinitas variações de Manhattan. Troque bourbon por scotch whisky e você terá um Rob Roy. Mude os vermutes e terá um Perfect Manhattan. Coloque licor de maraschino e vermute seco e terá um Brooklyn. Com um pouco de Cherry Herring, cria-se um Remember the Maine. Com Fernet e xarope de açúcar, consegue-se um Toronto. Scotch defumado e PX dão origem ao Rapscallion. Mas todos estes drinks, apesar da miríade de ingredientes, buscam um perfil de sabor em comum. O vínico, meio ácido e ao mesmo tempo adocicado do whisky – o mesmo do Manhattan clássico.

O que nos leva, finalmente, ao coquetel tema desta prova. O Whisky in Church. Criado por Erik Reichborn-Kjennerud e Todd Smith do Dalva, de São Francisco, o drink é basicamente um Manhattan – ou melhor, um Rob Roy, que é um manhattan de scotch – só que com oloroso ao invés de vermute, e um pouquinho de maple (xarope de bordo) para equilibrar. O frutado fica por conta de bitters de cereja, que, na singela opinião deste cão, podem muito bem ser substituídas por Cherry Herring, com uma pequena adaptação.

É curioso que com um nome tão sugestivo e deliciosamente pecaminoso, não haja qualquer explicação sobre seu batismo. Nos resta apenas conjecturar. Talvez Whisky in Church seja um convite? Ou uma pequena indulgência realizada por um clérigo? Não sei. Certamente não é referência aos ingredientes. A receira original leva Smokehead, um single malt de destilaria não divulgada que pouca coisa tem de sagrado. Caso algum abençoado leitor saiba, favor destacar nos comentários.

Dalva. Templo?

Jerez – especialmente oloroso – e scotch whisky não parecem uma combinação exatamente criativa. Décadas de maturação deste em barricas daquele mostra, entretanto, que é uma prática que já atingiu sua excelência. Assim como, aliás, o Manhattan e, talvez, o cinema. Bem, sem mais, vamos à receita.

WHISKY IN CHURCH

INGREDIENTES

  • 60ml whisky defumado
  • 22,5ml jerez oloroso
  • 5ml maple syrup
  • 6 dashes de bitters de cereja, ou 5ml Cheery Heering.
  • parafernália para misturar

PREPARO

Adicione os ingredientes num mixing glass com bastante gelo. Misture e verta em um copo baixo com gelo.

Garnish: zest de limão siciliano.

The Macallan Double Cask 15 anos

Três de Janeiro, onze da manhã. Nenhum compromisso à vista pelos próximos dois dias. Que delícia, fazia um tempão que almejava pela mais cândida agenda – penso. Acho que vou aproveitar para resolver algumas bobeirinhas que não conseguira, por falta de tempo. Tipo cortar o cabelo. Passo os dedos pela nuca, como se para reafirmar a necessidade da toza. Três meses sem cortar, meus mullets reminescem a um cruzamento entre o Billy Ray Cyrus do anos oitenta e uma samambaia. Ligo na barbearia costumeira, mas o telefone só toca. Naturalmente, em dois mil e vinte e dois, recorro ao Instagram. Recesso até o dia sete. Melhor esperar e pensar em alguma outra pendência.

Já sei. Revisão do carro – que, aliás, há quatro meses suplica por um tal “serviço A”. Não estivesse acostumado à minha displicência, certamente já teria terminado em uma poça de óleo e chamas. Mas carros são tipo cachorros – quase o reflexo dos donos. E a única certeza que teríamos, pudesse meu carro pensar, é que ambos já tivemos tempos mais gloriosos. WhatsApp para a concessionária “oi”. Mensagem automática. Olá, agradecemos sua mensagem, estamos de férias coletivas até o dia onze, boas festas e um feliz 2022.

Esperando voltar do recesso.

Dia onze. Que capricho. Me resigno que não será hoje que resolverei nenhum de meus problemas. Quando no dia seis tentar ligar o carro e ele explodir em um enorme cogumelo ígneo, a perícia poderá se certificar que o corpo carbonizado em seu interior é realmente eu por conta das displicentes madeixas. Repenso minhas opções. Limpar a casa, trocar as luzes queimadas. Nada disso me parece muito animador. Observo o relógio, que marca meio dia em ponto. Acho que vou tomar um whisky e pensar no que fazer.

A escolha não leva mais do que dois segundos. The Macallan Double Cask 15 anos. Uma garrafa que me auto-presenteei de Natal, e que havia tomado menos de cinco mililitros – só pra degustação. Verto uma dose padrão na taça. Com todo tempo do mundo, melhor experimentar sem pressa. No aroma, frutas vermelhas, ameixa seca, e um fundo adocicado característico dos whiskies da destilaria. De certa forma, me remete ao The Macallan Sienna – mas um pouco mais vínico.

Paladar. A primeira coisa que me chama a atenção é a oleosidade. É engraçado como os The Macallan tem essa característica quase inconfundível. Um certo resinoso, com untuosidade. Em tese, isso se deve aos alambiques da destilaria – os mais baixos de toda Escócia. E incrivelmente pequenos, também, apesar do enorme volume da destilaria. São trinta e seis alambiques – doze de primeira destilação, vinte e quatro de segunda. A carga é de três mil e novecentos litros e aproximadamente treze mil litros, respectivamente.

Aliás, o processo de destilação todo da The Macallan prima por trazer o máximo de congêneres. Essa é a razão dos alambiques diminutos. E de suas engenharia também. Lyne arms voltados para baixo evitam o refluxo, assim como pescoços largos e baixos dos spirit stills. A moeda de troca é o corte. Por permitir a passagem de compostos pouco voláteis, a separação da cabeça, coração e cauda devem ser bem restritivos. Apenas 16% é aproveitado e vira single malt.

Alambiques da The Macallan

Pausa para contemplar este fato. O new-make, extremamente oleoso, leva tempo para maturar, e exige barricas de qualidade. A The Macallan usa predominantemente barricas de grande volume – acima dos quinhentos litros. Isso significa que o ponto de equilíbrio é somente atingido lá entre os doze e quinze anos. O carvalho europeu ajuda – é ele que traz taninos e especiarias, e agrega complexidade ao whisky. Aliás, a coloração do whisky é totalmente natural. Não é usado corante caramelo. Assim, o trabalho de padronização é redobrado. Deve-se observar aroma, paladar e também a cor.

Notas de frutas secas, pimenta do reino, cravo, canela e um pouco de gengibre. Mais uma vez, o The Macallan Sienna vem à minha mente. Um pouco menos apimentado, talvez, e mais frutado. Aliás, bem mais frutado que seu irmão Triple Cask 15 anos. Aqui, o perfil é mais próximo àquele clássico da The Macallan. Isso se deve à maturação, que ocorre somente em barris que foram previamente temperados com vinho jerez espanhol. Barricas, estas, tanto de carvalho americano quanto europeu.

Finalmente, tenho uma epifania e sei exatamente o que farei com meu tempo. Sento-me confortavelmente no sofá, meia dose na mão. Mullets e automóveis podem esperar. Hoje, preencherei o dia com whisky e cinema. Não há iniciativa que resista à inércia do terceiro dia do ano. O melhor a fazer é se render.

MACALLAN DOUBLE CASK 15 ANOS

Tipo: Single Malt com idade declarada (15 anos)

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com uvas passas e especiarias.

Sabor: Frutas secas, ameixas, uvas passas. Final longo, com pimenta do reino, cravo e frutas.

Whiskies para comprar no Duty-Free – 2021 / 2022

Tenho que confessar uma coisa óbvia. Estou com saudades de viajar. É tanta que eu tô com saudades até da parte ruim. De ficar com o nariz ressecado no avião, sentir aquela encostadinha constrangedora do passageiro do lado enquanto ele tenta se acomodar na cadeira justamente para não dar aquela encostadinha constrangedora. E do barulho, de dormir meio na vertical e de ficar horas sem fazer nada. Aliás, esses dias sentei na cadeira mais apertada aqui de casa, liguei o ar-condicionado no máximo e o secador de cabelo do lado, só pra tentar simular aquele desconforto aéreo-sonoro-ortopédico.

Talvez, em 2022, essa minha ressaca passe, e eu finalmente possa alçar voo novamente. Entretanto, apesar de meu hiato aeronáutico, minha obrigação de apontar as melhores compras aos nobres e destemidos viajantes não foi olvidada. Por isso, preparei este derradeiro post – o último de 2021 – de um jeito meio que teórico, meio que por proxy. Então, não estranhem que não há foto para algumas garrafas, tampouco aquela tradicional composição da mala com as bebidas dentro, lá em cima. Fato é que provei todos os wiskies, com exceção do submencionado Maker’s Mark. Mas não as tenho mais – e também, nem foto.

Apologias concluídas, vamos ao que interessa. Preparei uma lista de whiskies que podem ser encontrados nos Duty-Free (freeshops) de aeroportos brasileiros. A base de pesquisa foi o terminal de desembarque de Guarulhos (GRU). Portanto, caso esteja chegando em outra localidade – meio insone e seco – lembre-se de conferir antes a disponibilidade destas belezinhas. E de outras, como Glenmorangies, que não estão à venda em SP. Organizado do mais caro pro mais barato.

Macallan Enigma

Apesar do nome cretino e quase apologético (afinal, o que é o Macallan Enigma? Ah, isso é um enigma), este single malt é incrível. O perfil é o clássico da The Macallan, com maturação em barris de carvalho europeu de ex-jerez, com notas de frutas vermelhas, uvas passas e ameixa.

É quase uma sacanagem recomendá-lo, especialmente por conta do preço. Duzentos e noventa e cinco Bidens, só pra não ficar feio quando arredondar pra trezentos. E isso no Duty Free. Não é fácil, mas é bom. E o estojo é lindo, você pode depois usar pra guardar aquele monte de tralha de lojinha de 1,99 que trouxe da viagem e nunca mais vai ver na vida.

Laphroaig PX

Defumado, ioado, intenso, oleoso, medicinal. Difícil pensar em algo que falte num Laphroaig. Mas, isso não significa que não pode ficar um pouquinho melhor. Ou, talvez, apenas diferente. Essa é a ideia do Laphroaig PX, que passa por uma finalização em barris de ex-jerez Pedro Ximenes. Que como vocês sabem porque leem o Cão, é um vinho fortificado e adocicado espanhol.

Laphroaig PX

O resultado é um single malt (e agora desculpem-me por ser redundante) defumado, iodado, intenso, oleoso, medicinal, frutado e licoroso!

Longbranch

Alright, alright, alright, this is a nice whiskay, diria Matthew Mcconaughey. Ou melhor, diria não, provavelmente disse. O Longbranch foi criado em parceria entre o ator e Wild Turkey. Mas este está longe de ser só um produto promocionado por uma celebridade. Matthew e Eddie Russell – master distiller – passaram quase dois anos ajustando a fórmula e os processos para finalmente chegar a um resultado com personalidade e delicadeza.

O Wild Turkey Longbranch é um Wild Turkey com aproximadamente oito anos de maturação, e que passa por um processo bastante conhecido, mas improvável para a destilaria do peruzão. A filtragem por carvão. Na verdade, duas. A primeira, usando carvalho americano, e, a segunda, madeira de Mesquite – uma árvore comum no Texas. O resultado é um bourbon muito suave, adocicado na medida e amadeirado. Perfeito para se beber puro ou misturar.

Jack Daniel’s Tennessee Rye

Não é apenas um rye whiskey. É um Rye Whiskey da Jack Daniel’s. E histórico. O Jack Daniel’s Tennessee Rye é o primeiro lançamento da Jack Daniel’s com uma mashbill – a composição do mosto – diferente desde a época da Lei Seca Norte-americana, que aconteceu de 1920 a 1933. São mais de oitenta anos utilizando uma única receita, e com um sucesso literalmente entorpecedor.

O Jack Daniel’s Tennessee Rye possui uma mashbill de 70% centeio, 18% milho, e 12% cevada maltada. É quase o inverso da receita do onipresente Jack Daniels Old No. 7 ou seu irmão o Gentleman Jack, que leva mais de 80% de milho, 8% de centeio e 12% de cevada maltada. Isso traz ao Tennessee Rye um sabor de especiarias, cravo e canela, além de uma sensação seca, bastante incomum para os Jack Daniel’s.

Maker’s Mark 101 Proof

Gosta do Maker’s Mark mas acha que podia ter um pouquinho mais de intensidade? Bem, este aqui é para você. O Maker’s Mark 101 é a versão mais alcoolica do Maker’s, com – como sugere o nome – 50,5% de graduação alcoolica. Por cinquenta e um dólares, numa garrafa de um litro. Ah, edição limitada, com o pomposo nome de “exclusive edition”, exclusiva de Duty Free. Só não vá vacilar tentando encontrar a garrafa com a cerinha mais bonita, porque, senão, acaba.

Union Virgin Oak Finish – Truco

Sábado, dezoito de dezembro, oito horas da manhã. Sentado à mesa, observo a querida Cã verter um balde de coado numa xícara que mais parece um ofurô. A gente precisa comprar os presentes de natal das crianças, dos seus pais e dos meus, e tem que ser hoje, diz ela. Finjo ouvir apenas de forma contemplativa, por estar absorvido por alguma futilidade no celular. Como se ela fosse desistir. Achei que ela já tivesse comprado, e a perspectiva de gastar horas de meu sábado em algum shopping lotado não me agrada em nada. Dois segundos de silêncio. Faço um esforço descomunal para continuar com os olhos na tela e não olhar para ela e denunciar meu blefe.

A gente precisa comprar os presentes de natal das crianças. E dos nossos pais. De novo, ai meu deus. Ao menos ela não perguntou nada, então eu não preciso responder. Ah, e eu preciso comprar seu presente, o que você quer ganhar? Por um segundo me sinto apunhalado pela indagação. Admitindo derrota, respondo – ah, um whisky tá bom – e dou um sorrisinho. Ah, que bom, sabia que você ia pedir whisky, então vamos hoje no shopping, a gente já compra seu whisky naquela adega e resolve o presente das crias, vou tomar banho – diz ela, que termina a piscina de café numa golada só e levanta, animada. Meu semblante derrete para o pânico, preciso pensar rápido. O whisky que eu quero não tem no Shopping! grito.

Pausa, ela vira a cabeça meio de lado e aperta os olhinhos, como se suspeitasse de algo. Ah, e qual whisky é esse e onde compra? / Ah, é difícil, mal começou a vender, melhor a gnete deixar tudo pra outro dia. É o novo Union Virgin Oak Finish. É um lançamento bem legal da Union, finalizado em barris de carvalho americano virgem. / Entendi. Então me passa o link quando der que eu compro. Mas vamos pro Shopping agora. Vou. tomar. banho. Essas ultimas palavras, indicadas pela pontuação propositalmente inserida para dramatização, proferidas vagarosamente, como uma sentença prestes a ser executada pelo carrasco. Aceno com a cabeça. Tá, vamos.

Tá, vamos.

Fast foward para o carro. Escuta, eu lembro que você já comprou esse whisky há um par de anos, não comprou não? Você estava só tentando me enganar pra não ir no Shopping? Eu, então, sem titubear, respondo É que você deve estar confundindo com o Autograph. O Union Virgin Oak Finish não é exatamente o mesmo que o Union Virgin Oak da Autograph Series. A maior diferença entre eles está na maturação, e no fato de que um é precursor do outro. Enquanto o Virgin Oak da série Autograph é um whisky maturado por cinco anos em barris virgens, o Virgin Oak novo matura por cinco anos em barricas de carvalho americano de ex-bourbon, e depois é finalizado por dois anos em barris virgens. E completo – já meio azul de não respirar – “não tô te enganando não, você sabe que eu gosto de novidade”.

Ué, mas o que esse whisky tem de especial pra você querer tanto? Não dá pra gente comprar algo parecido lá na adega? Acenei de lado com a cabeça, porque, agora, afinal, tenho que manter a coerência. Não tem nada parecido lá não. respondi, mas, notando que ela não estava satisfeita, justifiquei. É que as barricas do Union Virgin Oak Finish foram encomendadas da World Cooperage – uma tanoaria especializada em produzir barris por encomenda – pela Union. Assim como o Union Virgin Oak Autograph, os barris virgens utilizados na finalização do Virgin Oak Finish foram carbonizados na origem, e tem níveis 1, 3 e 4 de carbonização. Cada um deles traz um perfil sensorial distinto. Nível um traz floral e frutado, nível 3, caramelo e mel. Já o nível 4, notas de café e chocolate. E como base está a maturação em carvalho americano de ex-bourbon, com o tradicional trio de caramelo, mel e baunilha. É um perfil de sabor bem único, sabe?

Entendi. Você parece saber bastante desse whisky, acho que você realmente pesquisou e quer mesmo. Me conta mais. Estranhei, não é muito do feitio da Cã se interessar tanto pelos meus whiskies, mas, segui com o geeking. Tem uma coisa bem legal. O new-make spirit utilizado no Union Virgin Oak Finish é ainda proveniente da destilaria de Veranópolis, porque a nova unidade, de Bento Gonçalves, começou a produção somente em 2015, e a cor dele é totalmente natural, e não é filtrado a frio. / Ah, e é daquele jeito defumado? / Não, não é não. Não tem nada de turfa.

As barricas do Union Autograph Virgin Oak originais

Observo o Waze, que indica que estamos já bem próximos do destino. Utilize as duas faixas da esquerda para virar à esquerda, e depois, vire a direita. Pronto. sentença em vias de ser executada. Você acha que eu ia gostar desse whisky aí também? / Ah, sei lá, você gosta dos turfados, mas é bem diferente, eu acho que é capaz sim. É aquele tipo de whisky que não tem muito como desagradar, o perfil de sabor é adocicado e floral. Tem complexidade e personalidade. Ela acena com a cabeça, enquanto se aproxima vagarosamente da cancela do shopping. Tá bom, vou comprar um pra você porque eu sei que você quer muito, mas então temos que escolher com cuidado e sem pressa o presente de todo mundo.

Puxo o ticket como se desligasse os aparelhos que mantém viva minha felicidade. Ela sorri, vitoriosa no blefe. Dou uma risadinha. Pelo menos vou ganhar um whisky bom. Nem tudo está perdido.

UNION VIRGIN OAK FINISH

Tipo: Single Malt

Destilaria: Union Malt

País: Brasil

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, baunilha, chocolate, mel. Levemente floral.

Sabor: Adocicado, com baunilha, caramelo e mel. O final é longo e levemente apimentado, com mais mel.

*a degustação do whisky tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

Whiskies para dar de presente – Edição 2021

Eu até tento fugir, mas o fim do ano me persegue. Desta vez, foi meu Spotify. As musicas que você mais curtiu este ano, todas reunidas em uma só playlist. O ano é de dois mil e vinte e um, mas minha seleção musical reminesce de algum ponto entre noventa e nove e setenta e cinco. Noventa e nove e setenta e cinco para um redneck americano recém-mudado para Louisiana, bêbado, irritado e obeso.

Esses dias, inclusive, comentei isso com minha querida Cã. Há uma pletora – para usar uma palavra incomum – de motivos que me fizeram casar com ela. Mas, o gosto musical certamente não foi um deles. Não há sequer um único ponto de tangência entre nossas mais ouvidas. Tudo bem, exceto por algum protesto durante uma eventual viagem de carro, isso não nos preocupa. Somos pessoas maduras. Mais ou menos.

E já que o tom aqui é de maturidade, listas e final de ano, vamos ao tema perfeito desta matéria. Um apanhado de presentes para os apaixonados por whisky. Separei aqui alguns dos mais importantes lançamentos deste ano. Uma lista que não tem a pretensão de ser exaustiva, obviamente – mas vocês já sabem e não ligam pra isso, porque somos maduros, como eu já disse. Foi um ano agitado para o fígado dos apaixonados pela melhor bebida do mundo.

Os whiskies foram separados por ordem de preço, do mais caro pro mais barato, porque eu quero que você leia até o final.

ROYAL SALUTE POLO ESTANCIA

Uma edição limitada de um Blended whisky com 21 anos de idade mínima, finalizado em barris de vinho malbec argentino. A garrafa, de cor terracota, se junta a um estojo ilustrado pelo artista Charlie Davis, num visual elegante mas sem afetação. O tema é igualmente elegante – o polo equestre argentino.

De acordo com Sandy Hyslop, master blender da Royal Salute “Para esta expressão singular, integramos perfeitamente os sabores robustos e altamente reconhecíveis dos barris de vinho Malbec com nossos delicados whiskies de 21 anos – uma tarefa que requer cuidado e atenção constantes” e continua “O Royal Salute Polo Estancia Edition” é um blended whisky excepcional (…) onde apenas os melhores barris de vinho malbec argentinos foram usados para finalização. A incorporação desta finalização em vinho Malbec não apenas nos permitiu dar ao blend uma nova dimensão, mas também ajudou a contar a história do lifestyle do polo argentino de uma forma multifacetada. “

A venda no Drinks&Co e varejistas selecionados. Para saber mais clique aqui.

MACALLAN DOUBLE CASK 12 ANOS

Este não é exatamente uma novidade. Minha vontade seria recomendar o recém-lançado Edition 6. Este, porém, sublimou das prateleiras das lojas em menos de um mês. E de nada adianta recomendar aqui algo que não pode ser comprado por ninguém. Então, à moda de minha playlist do spotify, voltei meus olhos para os clássicos. Mas clássicos revisitados. Como o The MAcallan Double Cask 12 anos – o mais jovem da linha Double Cask, que agora conta também com as expressões de 15 e 18 anos à venda no Brasil.

O Macallan Double Cask 12 anos é maturado em dois tipos distintos de barricas, ambas “temperadas” – nas palavras da destilaria – com vinho jerez espanhol. Barris de carvalho americano e carvalho europeu. Isso se traduz como um whisky adocicado e frutado no começo, que, progressivamente vai se tornando mais seco e apimentado no paladar. É o DNA clássico da The Macallan. Para saber mais, clica aqui.

BOWMORE 12 ANOS

Esta lista jamais estaria completa sem o Bowmore 12 anos. Recém chegado ao Brasil, é um single malt defumado, mas elegante e sofisticado. Ele é indiscutivelmente um single malt de Islay. Todas as credenciais estão lá: enfumaçado, medicinal e iodado. Mas, há também espaço para que o barril brilhe, e um equilíbrio que perigosamente te convida para o próximo gole. É uma das destilarias favoritas deste canídeo que vos escreve, e um lançamento há muito antecipado.

O Bowmore 12 anos é maturado principalmente em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. E ainda que a influência vínica pela qual os Bowmore sejam admirados não esteja lá – ao menos não escancarada – o Bowmore 12 anos traz a mesma genética de sofisticação de seus irmãos mais maturados. Quer saber mais sobre essa maravilha? Então clica aqui.

LAMAS CALEDONIA III

O Lamas Caledonia III é fruto da terceira colaboração entre a destilaria Lamas, de Minas Gerais, e o nosso querido bar de São Paulo, o Caledonia Whisky & Co. Nas primeiras duas edições, a fumaça estava em evidência. Já o Lamas Caledonia III é um pouco diferente dos dois últimos single malts. Na verdade, um pouco não. O oposto. Mantivemos a maturação em vinho licoroso, mas invertemos a base. Agora, o que está mais em evidência é a porção não enfumaçada – com apenas um toque de fumaça no background. Ele utiliza 80% de malte tradicional, e 20% de malte defumado. Aqui, a defumação não é o tema, mas, tão somente, o tempero.

Como a maior parcela é composta de malte não defumado, a Lamas caprichou na maturação. Aqui, a finalização em barricas de vinho licoroso é realmente longa, especialmente para padrões brasileiros. Dezoito meses ao todo. Assim, a parcela não enfumaçada não é apenas um Lamas Verus. Mas, um whisky mais maturado, que pende para as notas frutadas e apimentadas do carvalho europeu – algo que foi muito bem vindo por conta da graduação alcoólica de 50%.

A venda no Caledonia Whisky&Co

JOHNNIE BLONDE

De acordo com a Johnnie Walker, numa declaração um pouco lacônica “O Johnnie Blonde é feito usando trigo e whiskies de malte com perfil frutado. Maturado em carvalho americano doce, o resultado é um whisky cheio de sabores vívidos e vibrantes“. A maturação dos componentes do Johnnie Blonde acontece em barris de carvalho americano. É isto, somado ao whisky de grão utilizado, que traz suavidade e dulçor para o blend. É adocicado, com um fundo de mel e caramelo claros, e com pouca ou nenhuma defumação.

O Johnnie Blonde foi concebido pelo blender George Harper para ser utilizado em coquetéis de baixa graduação alcoólica, como collins e highballs. O site oficial da marca declara que “para os apaixonados por whisky curiosos, ou os que não bebem whisky, Johnnie Blonde é uma doce surpresa que irá confundir seus sentidos. Feito para ser misturado, ele desabrocha para vida com a intensidade cítrica de uma limonada, combinada com uma fatia de laranja“.

A venda no TheBar.

Campbeltown Cocktail – Especificidade

Me vê com ketchup, mostarda, maionese, batata palha, um pouquinho de vinagrete e purê“, dizia pro Roger, que tinha uma van de hot dog na frente do colégio, na minha época do colegial. Van de hot dog, não foodtruck. E colegial, não segundo grau. Dois termos propositalmente aqui usados, para auntenticidade, que talvez denunciem um pouco minha idade. Toda quinta-feira, esse era meu almoço, e o preferido da semana. O Roger acenava com a cabeça, cortava o pão torto, pegava a salsicha que já estava lá na água há umas boas duas horas, e, em menos de trinta segundos, entregava o lanche prontinho.

Apesar da época quase medieval – quando não havia segundo grau e nem dijon no foodtruck – o Roger já tinha um cuidado todo especial com padronização e composição. O Ketchup tinha que ser do mais barato, aquele, quase vermelho neon. A mostarda, amarelo enxofre. Podia parecer só economia, mas ele sabia que, se melhorasse, piorava. O Hot Dog do Roger custava o equivalente a meio litro de gasolina hoje em dia. Mas transbordava de sabor.

No entanto, como quase tudo no mundo, há opostos. E no universo do cachorro quente, não é diferente. Do outro lado do espectro do dogão do Roger, está o mais caro hot dog do mundo. O do restaurante novaiorquino 230 FIfth. Dois mil e trezentos dólares. O prato – uma edição especial – tinha que ser pedido com antecedência de dois dias, e contava com uma linguiça de wagyu curada por dois meses, com cebolas Vidalia caramelizadas em champagne Dom Perignon, chucrute com Cristal e caviar. De graça, você levava dois potinhos – um de ketchup e outro de mostarda.

Lanchinho

Há, porém, muito mais em comum entre os dois sanduíches do que um pão com salsicha. Que é a escolha dos ingredientes. Tanto o Roger quanto o maluco do 230 Fifth, seja lá quem for, sabem que a é importante ser bem específico ao escolher os ingredientes para o prato. Seja uma mostarda radioativa, seja ovas de esturjão virgem. E, na coquetelaria, isso não é diferente. Alguns coquetéis exigem bebidas bem específicas. É isso que traz equilíbrio. Mesmo que – assim como o caso do dog milionário – estas não sejam necessariamente baratas.

O Campbeltown, coquetel tema desta prova, é um destes. São basicamente três líquidos nada singelos. Single malt de campbeltown, que na receita original, é Springbank 10 anos (algo que seria impensável para a maioria dos apaixonados por whisky). Cherry Herring, um licor de cereja pouco acessível, também usado no clássico Blood & Sand. E. por ultmo, Chartreuse verde – um licor de ervas francês de alta graduação alcoólica, produzido pelos monges cartuxos. Além de ser relativamente difícil de ser encontrado, seu preço não é nada amigável. Uma garrafa da bebida tem preço semelhante àquele de excelentes single malts.

Dito tudo isso, sinto a obrigação de me contradizer. Ocorre que o Campbeltown foi inventado em 2006 no Bramble Bar & Lounge de Edimburgo, atualmente considerado um dos melhores da cidade. Localizado na Queen Street, pertence a Mike Aikman e o bartender Jas Scott – o criador do coquetel. Por lá, por uma série de fatores, como a cotação da libra e o acesso a bebidas distintas, o uso de um single malt pomposo como Springbank parece justificável. Aqui, entretanto, a escolha não me parece razoável. Mesmo porque Springbank nem chega oficialmente ao Brasil. E, ademais, os dois licores são insubstituíveis – nem pense em colocar Luxardo, é completamente diferente.

Horroroso, mas uma delícia.

Assim, minha sugestão é apostar em um blend com perfil sensorial levemente enfumaçado, e que tenha força suficiente para domar Chartreuse e Cherry Herring, que são bem intensos. Ou um single malt um pouco – mas não muito – mais acessível. Meu melhor resultado foi, pouco surpreendentemente, com Bowmore 12 anos. Mas reduzindo um pouco a proporção dos licores, uma versão com Famous Grouse Smoky Black funcionou também maravilhosamente bem.

Lembre-se, entretanto, que a receita original é equilibrada ao redor de Springbank. Um single malt discretamente defumado, amadeirado e salino. Não vá chutar qualquer scotch whisky. Escolha com conhecimento. Aliás, com conhecimento, e não preço. Lembre-se do Roger, com seu delicioso dogão multicolorido. Se melhorar muito, estraga.

CAMPBELTOWN

INGREDIENTES

  • 60ml whisky levemente defumado e intenso
  • 30ml Cherry Heering
  • 15ml Chartreuse verde
  • parafernália para misturar

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes num mixing glass com bastante gelo.
  2. gire, até resfriar bem. Cuidado com a diluição. A ideia é que este coquetel seja bem intenso
  3. desça em uma taça coupé previamente resfriada

Yamazaki Distiller’s Reserve – Confinamento

Tempo. Tempo é a coisa mais importante do mundo, de acordo com o lugar comum. Também é a essência de nossa existência, ou, para parafrasear Borges, é a substância da qual todos nós somos feitos. Ter pouco tempo a disposição é terrível, ainda que seja algo bem comum em nossa rotina. E, na maioria das vezes, ter bastante tempo – aquele, para contemplar as nuances de um bom whisky enquanto seu pescoço se encaixa suavemente naquela deformação do sofá criada pelo tempo, por exemplo – é uma dádiva.

Mas, nem sempre. Ontem, por exemplo, me vi numa situação sui generis. A de ter bastante tempo, mas não poder disfrutar como deveria. Sui generis e um pouco claustrofóbica. Tudo começou como deveria. O interfone tocou, avisando da chegada de alguma encomenda feita pela cã nessas lojas chinesas de gadgets inúteis. Desci até a portaria, resgatei o pequeno pacote com etiquetas em mandarim e entrei no elevador. Foi quando notei que estava sem meu celular. Tudo bem. A porta fechou vagarosamente, meio à la twilght zone. Senti que havia algo de errado, mas, já era tarde para qualquer reação.

kkkk morri.

O elevador começou a subir lentamente – talvez não lentamente, mas eu estava ansioso – até que, num balanço abrupto, parou. Pronto. Nunca tive medo de elevador, mas nunca é tarde para desenvolver uma nova fobia. No interfone, o zelador murmurou algo ininteligível, o que me deixou ainda mais angustiado. Silêncio. Meia hora. Olhei para o pacote em minha mão e notei uma nota em alfabeto ocidental “choque elétrico lifting facial aparelho“. Por um momento, fui absorvido pela ordem aleatória das palavras, até que comecei a considerar auto-aplicar choques no meu ouvido para não morrer de tédio.

Mais uma hora. Sem celular e sentado no canto do elevador. Finalmente ouvi alguns ruídos metálicos, uma conversa alta. Mais ruídos e, finalmente, movimento. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, o elevador voltou a se movimentar, e me deixou a salvo em meu andar – assim, como se fosse a coisa mais casual do mundo. Resolvi que precisava beber algo para comemorar que não morreria de inanição em confinamento. Escolhi um rótulo que há pouco havia comprado. Yamazaki Distiller’s Reserve – recém chegado ao Brasil.

Resolvi pesquisar a respeito dele. O Yamazaki Distiller’s Reserve é um whisky sem idade declarada, resultado de uma comibnação de barricas de diferentes idades e usos. Há um whisky jovem, maturado em barris de vinho tinto de Bordeaux, bem como um bem mais maturado em barris de jerez. Há também a participação dos famosos barris de carvalho japonês Mizunara, que trazem uma nota floral, de baunilha, e côco para o single malt.

Relembrei, rapidamente, a história por trás do rótulo. Ele foi lançado para substituir o Yamazaki 10 anos, num momento em que os whiskies japoneses viram seu consumo disparar. Tanto que os próprios produtores não estavam totalmente preparados para atender essa demanda. Por isso, descontinuaram alguns de seus rótulos com idade, e recorreram a técnicas novas e criativas de maturação e produção. Uma produção, que, apesar de tudo, já tinha bastante tradição.

A Yamazaki foi a primeira destilaria do Japão. Ela foi fundada em 1923 no vilarejo de homônimo, entre as cidades de Kyoto e Osaka. Sua localização foi especialmente escolhida por ser a convergência dos rios Katsura, Uji e Kizu. Isso garantiu suprimento de água de excelente qualidade para a destilaria numa época em que acesso a este recurso não era tão fácil quanto hoje. Além disso, a variação térmica e umidade criam condições favoráveis à maturação – Yamazaki é mais quente que a média escocesa. Isso acelera a maturação, e faz com que os whiskies cheguem ao ponto de equilíbrio mais cedo.

Dose no copo, dei meu primeiro gole. Indiscutivelmente, um whisky intenso e bem acabado. O new-make spirit da yamazaki usado em seus single malts é oleoso e bem congenérico. Mas, nem sempre é essa a regra. A destilaria possui dezesseis alambiques, de sete diferentes formatos e tamanhos – algo quase sem paralelo na Escócia. A ideia é que a destilaria possa, sob o mesmo teto, criar diversidade sensorial para antender tanto a indústria dos blends quanto dos single malts. Para o Yamazaki Distiller’s Reserve, parte dos alambiques, inclusive, utiliza aquecimento por fogo direto. Uma técnica também bastante rara nos dias de hoje, por conta da alta manutenção.

Os alambiques da Yamazaki

Além disso, a Yamazaki utiliza dois diferentes processos de fermentação, com washbacks de madeira e de aço inoxidável de cinquenta mil litros. A fermentação leva em torno de 65 horas. Por fim, a Yamazaki conta com mais de quinhentos mil barricas em maturação (trinta mil delas, na própria destilaria), de tipos distintos. São principalmente barris de carvalho americano de ex-bourbon, puncheons de carvalho americano de produção própria, hogsheads, barricas de carvalho europeu de ex-jerez e vinho tinto e, claro, o tal Mizunara, acima mencionado. Ficar preso na Yamazaki, ao contrário de um elevador, me parece uma dádiva!

Definir o Yamazaki Distiller’s Reserve como um single malt de entrada não me parece correto, ainda que seja o whisky mais acessível da destilaria atualmente. O conceito pressupõe que o produto seja simples, o que, certamente, é um equívoco. A complexidade de seu processo de maturação demonstra claramente isto, bem como seu preço. O mais correto, talvez, seja uma recomendação. Para aqueles que procuram entender a essência do whisky japonês, ou procuram uma primeira experiência com o destilado nipônico, o Yamazaki Distiller’s Reserve é uma excelente escolha. E claro, para todos aqueles que desejam desfrutar do tempo justamente como deveriam.

YAMAZAKI DISTILLER’S RESERVE

Tipo: Single Malt 12 anos

Destilaria: Yamazaki

País/Região: Japão

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: Frutado, com maçã, coco e baunilha.

Sabor: Frutas cristalizadas, coco, pimenta do reino e baunilha. Oleoso e intenso, mas bastante equilibrado. Final longo e floral, com coco e baunilha.

Disponibilidade – A venda em varejistas selecionados e no Caledonia Whisky & Co.

Macallan Edition No 6 – Flyfishing

Esses dias, numa noite de preguiça, decidi rever um filminho despretensioso. Amor Impossível, ou, em seu original, Salmon Fishing in Yemen (“A Pesca de Salmão no Iêmen”). O que é bem interessante, porque, se você mencionar o título original do filme para qualquer pessoa, poucos indagarão sobre o roteiro, direção ou atores. A maior parte das pessoas perguntará algo como “dá pra pescar salmão no Iêmen?“.

Bem, vou adiantar para vocês que, na realidade, não dá não. Por infinitos motivos, como a temperatura. E a possibilidade de você ser dilacerado por uma Browning M2 .50 montada numa base giratória em cima de uma picape Toyota pertencente a uma milícia, ao graciosamente tangenciar a mosca de sua vara na correnteza imaginária de algum rio fictício do país. Ah, e pelo fato de não haver salmão no Iêmen no mundo real.

É logo ali que a gente fica dando banho no anzol…

E ainda que – pelos motivos elencados acima – a pesca de salmão não seja uma atividade muito prolífera no Iemen, ela é na Escócia. Mais, especificamente, no Rio Spey. O Rio Spey é tão importante para a pesca que há uma técnica toda própria de flyfishing, desenvolvida pelos pescadores escoceses no século dezenove, que é usada até hoje para apanhar salmão. Relativamente desocupado, o rio Spey já possuiu uma enorme população de salmão atlântico – hoje, protegido. O que o tornou, por muito tempo, fonte importante de subsistência dos povoados que se instalaram em suas margens.

Mas a importância do rio Spey não se limita somente à pesca. Ele – como você já deve saber – é também importantíssimo para a produção de whisky. A região de Speyside, como o nome sugere, é cortada pelo rio Spey. No passado, acesso fácil à água era importante. Assim, muitas destilarias preferiram se instalar próximas àquele rio ou seus afluentes – um dos maiores da Escócia em extensão, apenas atrás dos rios Tay e Clyde. É a região que atualmente mais concentra destilarias, e é lar de três das campeãs de venda. Dentre elas, a The Macallan.

E foi inspirado no rio Spey que o novo The Macallan Edition No. 6 foi lançado. Correndo o risco de ser prolixo, resolvi traduzir e transcrever, quase na integridade, a descrição que pesquei no site oficial da The Macallan, sobre o single malt. “O sexto e último lançamento da série The Macallan Edition, Edition No. 6 se inspira nas maravilhas naturais do lendário River Spey e The Macallan Estate, onde cada barril de The Macallan é amadurecido antes de ser selecionado manualmente para uso pelos nossos especialistas fabricantes de whisky.” (…) O lendário rio Spey atravessa a propriedade e é mundialmente conhecido por abrigar o poderoso salmão do Atlântico. (…) O salmão selvagem do Atlântico corre o risco de se tornar uma espécie em extinção. Portanto, a The Macallan está trabalhando com o Atlantic Salmon Trust para ajudar a aumentar a conscientização sobre isso e apoiar o trabalho de conservação vital no rio Spey e além.

Pescando salmão na The Macallan (fonte: The Macallan)

Mas vamos ao whisky. O The Macallan Edition No. 6 foi criado por Steven Bremner, whiskymaker da The Macallan, com cinco tipos de barris que – em sua concepção – possuem histórias relacionadas ao rio Spey e à paisagem que circunda a destilaria. E por mais que eu aqui adore um storytelling, acho que somente serei prolixo e desinteressante ao engatar num papo esotérico sobre por que hogsheads first-fill lembram um senhorzinho simpático trajando tons de verde.

Então, vamos ao que interessa. São elas: barricas de primeiro uso (botas) de carvalho americano da tanoaria Tevasa; hogsheads de primeiro uso JMM de carvalho europeu; botas e hoghseads de carvalho europeu de primeiro uso (first-fill); botas de segundo uso (second-fill) de carvalho americano e europeu; e botas da tanoaria Vasyma. De acordo com a The Macallan, as barricas foram temperadas com vinho jerez espanhol. As barricas usadas para compor o Edition No. 6 são, portanto, e em resumo, barris de carvalho americano e europeu, dentre elas, hogsheads e butts que contiveram jerez. E é essa toda informação que temos. O whisky não possui idade declarada no rótulo, e é engarrafado à curiosa graduação alcoolica de 48,6% – o número fracionado, um pequeno easter egg (alguém ai disse easter elchies?) dos whiskies da The Macallan Edition Series.

Sensorialmente, o The Macallan Edition 6 traz notas de uvas passas, frutas cristalizadas e pimenta do reino. Há também as clássicas notas de baunilha e açúcar mascavo. O tema é claramente vínico, mais até do que o Macallan Double Cask 15 anos, por exemplo. É o perfil mais clássico da The Macallan, e também o mais celebrado entre entusiastas. Um whisky que é perfeito para entusiastas da destilaria, colecionadores e apaixonados por whiskies vínicos. Excelente para se beber com atenção aos detalhes, mas, também, para acompanhar em um momento de prazer. Como, talvez, uma pescaria. Só não no Yemen.

THE MACALLAN EDITION NO . 6

Tipo: Single Malt sem idade declarada

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 48,6%

Notas de prova:

Aroma: uvas passas, especiarias, frutas cristalizadas.

Sabor: Caramelo, baunilha, frutas secas, uvas passas. Final longo e equilibrado, com açúcar mascavo e frutas secas.

Drops – Hazelburn 13 Oloroso

Drops são nossos posts menores, de análise ou curiosidades do mundo do whisky, e que contam com rótulos indisponíveis no Brasil – mas com alguma particularidade interessante. Para ler outros drops, clique aqui


Poucos whiskies tem tanto apelo por um entusiasta quanto Springbank. A destilaria está localizada em Campbeltown, um outrora importante polo de produção de whisky na Escócia. No começo do século, Campbeltown possuía mais de vinte destilarias. Porém, por conta de fatores econômicos e históricos – dentre eles, as guerras e a lei-seca norteamericana – muitas fecharam.

Uma destas destilarias foi a Hazelburn. Quer dizer, a Hazelburn original. Ela operou entre 1825 e 1925, e fazia parte do grupo dos Greenlees Brothers – os mesmos cavalheiros que fundaram a marca Old Parr. Em 1921, entretanto, a Greenlees foi liquidada, e a Hazelburn colocada a venda. A compradora foi a Mitchell & Co., que talvez vocês reconheçam (ou não) pelo nome impresso nas garrafas de Springbank. Esta sim, uma das únicas sobreviventes de Campbeltown.

Ocorre que o Hazelburn de hoje não é o mesmo daquela destilaria. Como contei no spoiler do parágrafo acima, A Hazelburn foi desativada em 1925. A marca, entretanto, permaneceu no cinturão da Mitchell & Co., que a ressucitou em 2005. Ressucitou como um whisky produzido na Springbank – uma de suas três linhas, e a única triplamente destilada. É este, inclusive, seu diferencial.

A tripla destilação da Springbank acontece de uma forma curiosa. Há três alambiques (óbvio). O primeiro, wash still, é aquecido por fogo direto. O resultado são low-wines de aproximadamente 20-25%. Tudo normal até aqui. A maior parte (80%) destes low-wines vão para um alambique intermediário, chamado “feints still” ou “alambique de cauda”. Estes low-wines são então destilados uma segunda vez, resultando em um outro low-wine, ou destilado, com graduação alcoolica sensivelmente mais alta. Tudo quase normal até aqui, mesmo que ninguém tenha separado cabeça e cauda ainda. Mas, agora complica.

O destilado descrito acima é combinado com a cabeça e cauda da destilação da batelada anterior (lembrem-se, alambiques operam em bateladas ou lotes) e carregado em um terceiro alambique, junto com os 20% que faltaram da primeira destilação! Aí, acontece uma terceira destilação, que resulta em um new-make de aproximadamente 72% de graduação alcoolica.

Alambiques da Springbank (fonte: Whisky.com)

Como você pode notar, o processo não é exatamente direto. A tripla destilação serve, na verdade, para tornar o new-make mais neutro, floral. O “blank run” – como é chamada a segunda destilação sem cortes – aumenta o tempo de contato com o alambique. O resultado é um whisky com perfil floral, que deixa o barril transparecer. E que barril! O Hazelburn Oloroso 13 anos é maturado em barris que antes contiveram vinho jerez oloroso, que lhe empresta notas de uvas passas, pimenta do reino e especiarias.

Infelizmente – e como você já deve ter suposto – o Hazelburn não chega ao Brasil. Na verdade, nenhum Springbank chega oficialmente. O que talvez torne este post uma das maiores maldades já feitas por aqui nos últimos meses. Entretanto é a prova líquida (literalmente) que a tripla destilação não é sinônimo de baixa complexidade. E que a Springbank merece sua posição no coração dos apaixonados por whisky.

HAZELBURN 13 ANOS OLOROSO

Tipo: Single Malt com idade definida – 13 anos

Destilaria: Springbank (Hazelburn)

Região: Campbeltown

ABV: 50,3%

Notas de prova:

Aroma: uvas passas, cravo, canela, frutas cristalizadas.

Sabor: Vínico e frutado, com uvas passas e frutas secas. O final é longo e adocicado. Apesar da graduação alcoolica, o whisky é pouco agressivo.

Whisky gentilmente oferecido e provado em companhia do amigo Nilo. Obrigado!

Drunk Uncle – Metamorfose

Estamos em novembro, mas o comércio já sinaliza a – relativa – proximidade do natal. E com ele, vêm guirlandas, luzinhas coloridas, música brega e decorações verdes e vermelhas. Ah, e neve artificial num calor de trinta graus à sombra. Mas nada disso supera o mais temido personagem desta época do ano. Que não é o Grinch, caso tenham tentado adivinhar antes de chegar à próxima frase. Mas o tiozão do pavê.

O tiozão do pavê vem em várias formas. Às vezes, ele nem é um tio. Mas um primo, uma tia, um amigo da família. É aquela pessoa que voce evita o ano inteiro, apenas para ter a insatisfação de ficar preso em uma conversa angustiante nas festividades de fim de ano. Sóbrio, ele já é desagradável, mas, manobrável. Bêbado – e você sempre o verá bêbado – fica pior. Porque lança mão de piadinhas como o tomate que foi no banco tirar extrato. Ou resolve que vai discutir política, religião, diversidade sexual ou a receita do dry martini como se aquela conversa fosse determinar o futuro da humanidade.

Às vezes ele vem fantasiado.

O encontro com o tiozão do pavê é quase irremediável. Quase, porque há uma forma quase quântica de evitá-la. Algo absolutamente contraintuitivo, mas extremamente eficaz. Que é se tornar, você mesmo, este sinistro personagem. E nisso, talvez, um ou dois coquetéis ajudem bem. Como, por exemplo, o Negroni.

Assim como o tiozão do pavê, o Negroni tem infinitas variações. Algumas não escondem sua inspiração, como é o caso do Negroni Sbagliato e Negroni Bianco. Outras se denunciam pela lista de ingredientes, como é o caso do Valentino. E outras, ainda, não parecem muito óbvias, mas ficam claras depois de uma análise bem superficial – algo que às vezes também acontece no seio familiar. Este é o caso do Drunk Uncle. O coquetel tem a mesma estrutura de um negroni – um destilado base, um amaro e vermute. Mas a lista de ingredientes muda um pouquinho.

Sai o Campari, assinatura clássica do Negroni, e entra o Cynar – um improvável bitter de alcachofra, que na verdade prescinde explicações para os mais versados nos copos. No lugar do vermute tinto, entra um vermute bianco, como o Martini Riserva Speciale Ambrato. E, finalmente, fazendo as vezes do gim, surge uma maravilha etílica capaz de tornar tudo maravilhoso. O scotch whisky turfado – um single malt, de preferencia, para equilibrar a estrutura do drink, como um Laphroaig ou Bowmore. A guarnição fica por conta de um twist de grapefruit.

Grapefruit a.k.a. Toranja

De acordo com matéria da Liquor.com , o Drunk Uncle foi criado pelo bartender canadense Shawn Soole. “De certa forma, todos os negronis procuram o mesmo perfil de sabor: forte, equilibrado, amargo e com certo dulçor do vermute. Mas cada um tem sua personalidade própria“, diz Soole. E completa, ao justificar a escolha dos ingredientes “Um single malt defumado de Islay vai funcionar bem com Cynar e vermute bianco, mas não com Aperol ou Campari. Algo ficará desequilibrado“.

Vamos à receita. Um drink que perdeu a chance de ser chamado de Drunkle, assim como o coletivo de capivara em português, que devia ser capivárias. Mas deixe-me parar por aqui antes que a transformação seja completa. Com vocês, uma mistura que é quase mágica. Uma poção inevitável, que trará resiliência ao bebedor para suportar as festividades de fim de ano. Mas, também, um elixir que transformará pessoas aparentemente normais em temidas criaturas mitológicas do folclore natalino. Com vocês, vocês mesmos. O Drunk Uncle.

DRUNK UNCLE

INGREDIENTES

  • 45ml single malt turfado, como Laphroaig Select
  • 25ml vermute bianco
  • 10ml cynar
  • parafernália para misturar

PREPARO

  1. juntar os ingredientes no mixing glass. Acrescentar gelo e mexer .
  2. passar o líquido sem o gelo para uma taça previamente gelada.
  3. aromatizar com um zest (um pouquinho da casca) de grapefruit ou toranja. Ou não.