Jack Daniel’s Bottled in Bond Rye – Transcendência

Há objetos feitos para pessoas cuidadosas. Copos de coquetelaria da Kimura Glass, sapatos de camurça bege, bonsais, sistemas de arrefecimento de Alfa-Romeos da década de 70 e relações afetivas estáveis. São coisas que exigem cuidado, manutenção fina, temperatura controlada, ausência de crianças, ausência de gatos e, preferencialmente, ausência de seres humanos. O que, existencialmente falando, resolve tudo.

E há objetos feitos para a pessoas que existem no mundo real. Tipo o tijorola (que me lembro, até hoje, de ter nadado um medley inteiro na piscina com um desses, que sobreviveu). Ou a panela de ferro, Honda Civic, o copo americano, as Havaianas, e aquelas mesas plásticas de boteco que sobrevivem a chuva, sol, gordura, cigarro, bêbado, criança e o tio do zap. São coisas cuja promessa não é de tanscendência, mas de resistência. A famosa palavra dos coaches, resiliência, que é ficar inteiro depois de qualquer uso indevido. O que, convenhamos, já é uma forma bastante honesta de transcendência.

Design e precisão

Na coquetelaria, essa diferença existe também. Há destilados que precisam ser tratados com delicadeza. Os whiskies japoneses, por exemplo, exigem precisão técnica e equilíbrio impecáveis. Lembro-me até hoje de um drink de Hibiki, que fizemos para um evento da Suntory. Equlibrá-lo foi uma das tarefas mais ingratas do mundo, ainda que o resultado tenha sido quase divino.

E há destilados com uma espécie de colete à prova de incompetência. Não fazem milagre, claro, porque nem todo Sazerac sobrevive a uma imperícia tão grande quanto a minha. Mas aguentam mão pesada e diluição errada. E mantém sua personalidade com uma resiliência inacreditável.

É mais ou menos aí que entra o Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Rye, um whiskey de centeio que tem dois grandes trunfos. O primeiro, sua graduação alcoólica. Que é especialmente conveniente na hora de fazer coquetéis, especialmente para os bartenders de fim de semana. Com 50% ABV, o whisky aguenta mais diluição, e é menos sucetível a erros. Assim, a chance de ter um Sazerac ou Vieux Carré que mais se assemelha a um highball, é menor.

O segundo é a mashbill. Ele tem 70% centeio (rye), 18% milho e 12% cevada maltada. Isso o coloca no meio do caminho entre os ryes que atendem o mínimo regulamentar de 51% de centeio – como é o caso de Jim Beam Rye e Wild Turkey Rye – e aqueles que prestam homenagem à receita clássica, pré lei-seca, com uma carga insana de centeio, como é o caso do High West Double Rye.

Jack Daniel’s Unaged Rye, o primeiro lançamento da destilaria com a mashbill

Essa, talvez, seja sua melhor qualidade. Porque ele tem drinkability para ser consumido puro, sem parecer monótono, monotemático, ou demasiado agressivo. Mas é capaz, também, de sustentar um coquetel clássico como um La Louisiane sem desaparecer. E essa não é uma opinião sem prova. Durante os dois primeiros meses no Caledonia – meu querido bar – foram consumidas três vezes mais Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Rye do que Triple Mash ou o tradicional.

Um outro ponto, que não é tão divulgado pela marca, é a idade. Dentre os Bottled-in-Bond, o Rye é o que tem a idade média mais alta. Ainda que não divulgue por quantos anos o líquido maturou, a média é de sete anos. Isso de acordo com Chris Fletcher, master distiller da Jack Daniel’s, que recentemente veio ao Brasil para uma série de masterclasses.

Outros rótulos da série Bottled-in-Bond

Sensorialmente, o Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Rye traz notas de pimenta, cravo, canela e aquele clássico herbal, mentolado, dos whiskeys de centeio. Ele tem também a conhecida nota química de Jack Daniel’s, mas mais contida, e um adocicado com baunilha, que equilibra bem com a graduação e as notas apimentadas.

Uma garrafa de Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Rye custa algo como R$ 230 (duzentos e trinta reais). É um valor excelente para um whiskey de centeio, especialmente considerando sua versatilidade – tanto para se beber puro, quanto para coquetelaria.

No fim, o Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Rye não é um bonsai. Não exige pinça, oração ou contemplação. É um whiskey versátil, potente o bastante para segurar um coquetel, e equilibrado o bastante para ser bebido puro. Ele não promete transcendência, ainda que essa possa ser encontrada, mas resistência. E pra quem, como este Cão, que consegue fazer de um Sazerac um highball, isso é uma enorme virtude.

JACK DANIEL’S BOTTLED-IN-BOND TENNESSEE RYE

Tipo: Rye Whiskey

Marca: Jack Daniel’s

Região: N/A

ABV: 50,0%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, pimenta, baunilha, cravo, hortelã

Sabor: seco, com especiarias, hortelã, cravo e pimenta do reino. Um certo adocicado de açúcar mascavo. O final é apimentado e seco.

Archibald’s Last Memory

Um abandonou o nome. O outro jamais existiu no mundo real. E um terceiro, fidalgo, foi executado. Todos eles, batizados de Archibald. Um nome que parece mais uma sina, dado destino de seus denominados.

O primeiro Archibald nasceu em Bristol, portando o aristocrático sobrenome de Leach. Virou ator de teatro, e depois se mudou para Hollywood. Mas para um jovem artista dos anos trinta nos Estados Unidos, Archibald Leach parecia antiquado e britânico demais. Assim, o estúdio que o descobriu – a Paramount – o rebatizou de Cary Grant. O Cary Grant.

O segundo Archibald é fictício, ainda que indiscutivelmente célebre. Achibald Haddock, o capitão Haddock, das Aventuras de Tin Tin. Este, em oposição a Cary Grant, encarnou, mesmo sem carne e osso, o arquétipo arquibaldesco e virou alcoólatra funcional e capitão. O que faz sentido, dado que nunca existiu de verdade, e podia ter qualquer característica atribuída a ele.

E gosta(va) de Loch Lomond

O último Archibald é o Campbell, marquês de Argyll, que se envolveu nas recorrentes disputas religiosas e políticas do século XVII contra a coroa inglesa. Como costuma acontecer com Archibalds que acreditam demais em suas convicções, acabou acusado de traição e foi executado em 1685. O que também é coerente com o nome.

Dada a sina, é compreensível que ninguém saiba ao certo porque o Archibald’s Last Memory, drink criado em 2010 no Flatiron Lounge de Nova Iorque, tenha esse nome. Não há registro claro de qual Archibald teria dado origem ao coquetel. Nenhuma dedicatória, nenhuma anedota de bar.

Mais impressionante que isso, ainda que o drink faça parte da história recente, sua autoria é também incerta. O mais provável é que tenha nascido das mãos de Ryan McGrale, bartender que trabalhou no Flatiron Lounge e depois abriu um bar em Boston, chamado Tavern Road. Lá, há um drink com os mesmos ingredientes, mas proporções um pouco distintas, chamado Down & Brown.

Flatiron Lounge

Independentemente da história, o Archibald’s Last Memory é, como o nome mesmo indica, memorável. É uma espécie de Sazerac ou La Louisiane, mas com o herbal pungente da Fernet Branca. Inclusive, seu serviço original – ao contrário do que fiz na foto – é feito em copo baixo, sem gelo. E por mais estranho que pareça, é um drink bem equilibrado.

Aqui, como sempre, a escolha do rye whiskey faz toda diferença. Este Cão optou pelo recém-chegado Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Tennessee Rye. Com seus 70% de centeio e 50% de graduação alcoólica, ele consegue enfrentar a intensidade da Fernet Branca sem problemas, e não é tão doce a ponto de deixar o licor de maraschino (no caso, Luxardo) e o Bénédictine se subressaírem.

Sem mais ressalvas, porém, vamos à receita. Seja qual for o Archibald referido, sua última memória foi, decerto agradável.

ARCHIBALD’S LAST MEMORY

INGREDIENTES

  • 60ml Rye Whiskey
  • 15ml Fernet Branca
  • 15ml Benedictine D.O.M.
  • 5ml licor de maraschino (Luxardo)
  • Parafernália para mexer
  • copo baixo ou taça

PREPARO

  • Adicione todos os ingredientes em um mixing glass com bastante gelo, mexa, e desça numa taça coupé ou copo baixo resfriado, sem gelo (a moda de um Sazerac)

*agradecimentos à Suemi Uemura por apresentar este coquetel por acaso, em um papo no balcão do Caledonia

The Macallan M Copper – Grand Tour

Fui, esses dias, com Cã mãe no shopping, porque ela queria ver o Iphone Pro. Passamos na frente de uma adega, cheia de vinhos, que orgulhosamente exibiam a designação de Reserva. Daqueles, que a gente paga com um cartão de crédito signature, antes de uma refeição em alguma padaria gourmet com qualquer nome francês. É engraçado como certas expressões nunca significaram grande coisa. E outras, que já significaram, tiveram seu sentido cuidadosamente saqueado pelo marketing. No mundo dos carros – que eu adoro – acho que a mais devassada é GT.

Deixe-me trazer algum embasamento histórico. Antes de habitar a traseira do Peugeot 208 e do VW Polo, a sigla “GT” fazia referência aos grand tourers, carros concebidos para uma versão motorizada do velho Grand Tour. Que, por sua vez, era aquela viagem de formação feita por jovens aristocratas europeus, sobretudo ingleses, que passavam anos rodando o continente para estudar arte, arquitetura, história e, presumivelmente, desenvolver opiniões muito firmes sobre qualquer coisa cuja opinião é absolutamente dispensável.

O GT herdou esse nome porque propunha uma versão motorizada da mesma fantasia: cruzar grandes distâncias não só com velocidade, mas com conforto, luxo e alguma pretensão cultural elitista. Há inclusive um episódio de The Grand Tour (veja só) em que Jeremy Clarkson resume isso com surpreendente clareza: “o carro GT, antes de mais nada, precisa ser um lugar agradável para se estar. Porque, por definição, você vai passar muito tempo nele.”

#worstspec

Acho que o exemplo mais claro e óbvio de um GT real é o Bentley Continental GT. Ele é um carro absolutamente funcional. Tem um belo porta-malas, bancos, volante e essas concessões burocráticas à ideia de mobilidade. Mas, na prática, é uma maneira obscenamente cara de transformar um deslocamento banal numa deliciosa experiência de isolamento acústico e desprezo silencioso pelo restante da humanidade.

E é justamente isso que o torna interessante. Porque o Continental GT não abandonou a função original de um carro (como, sei lá, um Ariel Atom). Ele continua servindo para sair de um ponto e chegar a outro, parar na frente do restaurante caro, enfrentar o mesmo semáforo que o HB20 (mas com alguma dignidade aristocrática) e levar o dog no vet. A diferença é que o cachorrinho estará cercado por couro com pesponto manual e mogno polido no painel. E é justamente isso que faz dele, depois desta longa e talvez desnecessária digressão, a analogia perfeita para o The Macallan M Copper.

O The Macallan M Copper faz parte da série M da The Macallan, que celebra os seis pilares fundamentais da destilaria, que, traduzidos, perdem um pouco da pompa: a cor natural, a maestria, a propriedade, os barris de carvalho excepcionais, o vinho Jerez e seus alambiques curiosamente pequenos. Este último, o pilar representado pelo The Macallan M Copper. De acordo com a The MacallanM Copper é uma homenagem aos pequenos alambiques que desempenham um papel fundamental na produção do nosso precioso destilado. É uma expressão vibrante e elegante que reflete a autenticidade que impulsiona a marca e a nossa dedicação à inovação.

Os singelos alambiques da The Macallan

Sensorialmente, o The Macallan M Copper é irretocável. Mesmo com seus 42% de graduação alcoólica, há um equilíbrio que demonstra o controle total que a destilaria tem sobre seus produtos. Ele traz notas de açúcar mascavo, damasco, pêssego, pimenta do reino e especiarias. À medida que evolui no copo, surgem outros aromas – inclusive um leve traço sulfuroso e algo de cereal – num contraponto curioso à fruta e às especiarias. É, aliás, um whisky que trabalha com contrapontos: o peso do destilado da The Macallan, com a delicadeza da maturação em carvalho americano, e o equilíbrio de sua concepção.

A apresentação do M Copper deve ser mencionada. Ele vem em um decanter de cristal, produzido pela Lalique, e dentro de um estojo enorme, que se abre em dois. É luxo puro, como um Bentley Continental GT. E, assim como o carro, o The Macallan M Copper cobra o preço por isso. Uma garrafa, no Brasil, custa (deixe-me dar um suspiro de suspense aqui) setenta mil reais. O equivalente, provavelmente, a um par de discos de freio do supracitado Bentley.

Mas convém não fingir ingenuidade. O líquido, sozinho, não explica o preço. Ou, para ser mais preciso, não explica este preço. Porque há outros whiskies tão maturados (alguns, inclusive, mais transparentes sobre a idade), tão raros e tão bons quanto custando bem menos. O que o M Copper vende não é apenas maturação ou seleção rigorosa. Vende também o decanter Lalique, a produção limitada, a construção estética, o pedigree da marca e essa capacidade extraordinária que a Macallan desenvolveu de transformar whisky em algo muito além de líquido.

Lifestyle

E aqui reside sua esperteza. O M Copper não concorre exatamente com outros single malts. Ele concorre com relógios, esculturas, canetas que ninguém usa, carros que ninguém dirige e obras de arte contemporânea que pouca gente entende. Seu preço não serve apenas para refletir custo: serve para comunicar posição. É alto porque precisa ser alto. Se custasse pouco, ou mesmo “apenas bastante”, perderia parte da aura.

É um exercício inútil indagar se o The Macallan M Copper “vale o que custa”. Porque quase nada que reside nesta altura estratosférica de ar rarefeito, onde poucos sobrevivem, vale. O líquido é maravilhoso, mas há muito mais por trás. Há também cristal, escassez – real e construída – fetiche e prestígio. E, convenhamos, poucas marcas no mundo fazem isso com tanta competência quanto a The Macallan.

Talvez a Bentley. Não sei.

THE MACALLAN M COPPER

Tipo: Single Malt

Destilaria: The Macallan

Região: Speyside

ABV: 42%

Notas de prova:

Aroma: açúcar mascavo, damasco. A medida que evolui no copo, traz uma nota sulfúrica.

Sabor: Açúcar mascavo, damasco, pêssego, pimenta do reino, gengibre. O final é levemente sulfuroso e pouco apimentado. Extremamente equilibrado e resinoso.

*agradecimentos ao amigo Nilo Perez por permitir que provasse este single malt – cheers!

The Botanist Cask Aged Gin – Narrativa Torta

Estamos em 2026, e você, provavelmente, já ouviu falar da teoria do multiverso. Eu falei dela aqui muito antes de ter sido sequestrada pela Marvel, e, assumo, tinha bem mais graça outrora. Mas é inevitável recorrer a esta analogia. A teoria do multiverso diz que existe um universo pra cada possibilidade, e que tudo acontece ao mesmo tempo em todo lugar (que, aliás, é mais ou menos o título de outro filme bem supervalorizado, na minha opinião impopular).

Mas, enfim, o que a teoria postula é que, em determinado universo, ou, dimensão, você virou médico. Noutro você tem uma vaca de estimação, e, no outro, você é o bicho de estimação da vaca, que é superinteligente. A ideia é que nenhuma versão cancela a outra. Todas coexistem, em paralelo, sem se encontrar, ao mesmo tempo. E que como há infinitas realidades, as possibilidades são infinitas, então tudo acontece, por menor que seja a chance.

A regra de ouro, entretanto, é que essas realidades não se misturam (exemplo: não dá pra ser pet da vaca e ter a vaca de pet no mesmo mundo). Quer dizer, para a maioria das pessoas, mas não para Steven Seagal. Esse decidiu ser tudo nesse nosso universo mesmo, no mesmo corpo, na mesma linha do tempo, totalmente alheio a qualquer barreira dimensional.

Com dedos de salsicha seria mais difícil.

Seagal foi ator de ação dos anos 90, usava rabo de cavalo e parecia que tinha cheirado leite talhado. Ganhou muito dinheiro, depois faliu. Concomitantemente, foi acusado de uma quantidade impressionante de coisas. Virou cidadão russo por decreto pessoal de Putin, e, depois, embaixador cultural do Kremlin, para, finalmente, despontar como músico de blues e lançar um álbum chamado – maravilhosamente, se você me perguntar – Mojo Priest.

Mas o que torna sua história genuinamente perturbadora não é o caos. É que cada passo tem uma lógica interna torta que faz sentido individualmente. Não há nenhum leap of faith, a narrativa não quebrou, ela seguiu fluida. Até virar outra coisa completamente. E foi isso que, de uma outra forma, e finalmente no final deste quinto parágrafo, aconteceu justamente com o The Botanist Cask Aged Gin – que acabou de chegar ao Brasil pela Interfood, com seu irmão mais novo, o The Botanist Cask Rested Gin.

Imagino que você conheça a Bruichladdich. Mas, falemos dela. Ela é uma destilaria de whisky de Islay, que foi fundada em 1881. Passou muito tempo fechada, e depois foi revitalizada por Mark Reynier em 2001. Tornou-se um bastião da transparência no mundo do whisky, e expandiu as barreiras da técnica e do marketing com alguns de seus whiskies. Eles se autodenominam “Progressive Hebridean distillers”, sem nenhuma ironia detectável. São, também, os criadores de um dos whiskies que mais gostei de beber na vida: o MRC:01.

Variedade de whiskies da Bruichladdich

O The Botanist é o gim da Bruichladdich. Pelo parágrafo anterior, já dá pra imaginar que não é um produto tradicional, um London Dry qualquer. Ele é um gim criado para representar a filosofia de sua destilaria. Por isso, usa botânicos coletados à mão em Islay, e é destilado em um alambique especial, que procura ressaltar as características destes ingredientes e de sua matéria prima.

Envelhecer esse gim em algum barril é, assim, uma decisão que parece polêmica. Um produto perfeitamente acabado não precisaria de mais uma camada. Ademais, tradicionalmente, gins não maturam (nem IPAs, mas isso é outra discussão). Mas mesmo assim o The Botanist Cask Aged Gin faz todo sentido, porque ele não quebra a narrativa do The Botanist tradicional, mas, só adiciona mais um capítulo. Tipo o Mojo Priest.

O The Botanist Cask Aged Gin é, basicamente, o gim Botanist, mas maturado em diversos barris de carvalho por, no mínimo, três anos. Neste ponto, para uma destilaria que levanta a bandeira da transparência, a falta de informação é estranha. A destilaria afirma que “O Cask Aged passa no mínimo três anos em seis tipos diferentes de barris de carvalho americano”. Não diz se se foram previamente usadas para maturar Bruichladdich, tampouco a quantidade de usos destas barricas. Mas, pela lógica, devem ser refill (ou seja, receberam Bruichladdich uma vez, depois foram para a Botanist).

Algo intrigante, também, é a ausência do termo “dry” nos rótulos. O Botanist tradicional se denomina “dry gin”, mas, nas versões maturadas, a palavra foi omitida. O termo “dry gin” descreve um estilo de gin produzido sem adição de açúcar, aromatizantes ou corantes artificiais. A destilaria confirmou que não utiliza açúcar, xaropes ou corantes, mas optou por retirar a designação “dry”, talvez para evitar complicações legais, de acordo com as terminologias de diferentes mercados.

Stillhouse da Bruichladdich

Por fim, vale uma nota sobre seu uso. Em exaustivos testes – alguém tem que fazer – este Cão percebeu, sem surpresa, que o The Botanist Cask Aged Gin funciona muito melhor em coquetéis que possuem variações que utilizam gim e bourbon (não no mesmo universo, Seagal!). Por exemplo, um Negroni ou Boulevardier, ou um Manhattan ou Martinez.

O The Botanist Cask Aged Gin é, portanto, um produto do multiverso que deu certo nesse universo mesmo. Não é whisky, não é mais bem um gim, não pede licença pra existir no meio termo. Como Seagal, ele seguiu sua lógica interna torta até o fim, e o resultado é algo que você não sabia que queria até ter na taça. A diferença, claro, é que o Mojo Priest não funciona num Negroni. Pelo menos não neste multiverso

THE BOTANIST CASK AGED GIN

Tipo – Dry Gin

ABV – 46%

Região: Islay

País: Escócia

NOTAS DE PROVA

Aroma: zimbro, limão siciliano, laranja lima, caramelo, jasmim.

Sabor: Menta, cítrico, com limão siciliano. Final médio, com alcaçuz, caramelo e pimenta.

Lamas Founder’s Selection – Antes da Fama

Necromaquiador. Ou necrocosmetologista, num neologismo meio etimológico. Esse é o nome do profissional que ajeita o cabelo e maquia aqueles que partiram de seus corpos, antes do velório. Não deve ser um trabalho fácil. Exige cuidado, técnica – nem sempre é fácil disfarçar uma causa mortis – e uma boa parcela de sangue frio e estômago. É também um trabalho silencioso, de bastidores. Dificilmente poderíamos imaginar que algum famosão desempenhasse esse papel.

Mas este foi, justamente, o caso de Danny DeVito. Ele, o Pinguim do Batman, de 1992; o Frank de It’s Always Sunny in Philadelphia; e o pai picareta da Matilda. DeVito revelou que começou sua carreira – de maquiador de necrotério, não ator – quando trabalhava como esteticista no salão de beleza de sua irmã. Uma cliente que atendia faleceu, e lhe pediram que arrumasse seu cabelo para a última aparição pública.

Podia ter arrumado o próprio cabelo, também.

O mundo, na verdade, está cheio dessas histórias curiosas. Todo mundo foi alguém antes de ser outro alguém. Harrison Ford foi carpinteiro. Brad Pitt se fantasiava de frango gigante para ganhar um troco, e Daniel Craig sempre foi ator, mas passou por uns bons apertos. E a destilaria Lamas, de Minas Gerais, antes de produzir os whiskies que hoje conhecemos, bem, produzia mais whisky. E é essa a história contada pelo mais recente lançamento da marca, o Founder’s Selection.

O Lamas Founder’s Selection foi destilado em um período que a Lamas não havia, ainda, sido constituída como uma destilaria. Em outras palavras, fora produzido pela família Lamas antes de registrar o negócio, numa época que ainda não destilavam profissionalmente. Daí, a aparente contradição na idade – um whisky de dez anos, produzido por uma destilaria com sete.

Nas palavras da própria Lamas, no estojo que acompanha a garrafa “Antes de existir formalmente a Lamas Destilaria, existia apenas o desejo de criar um whisky que fosse expressão pura de paciência e curiosidade.
Naquele tempo, a destilação era apenas um hobby de irmãos, movidos pela paixão e pelo fascínio do processo artesanal. Entre experimentos e descobertas, alguns barris de carvalho americano foram reservados — não por ambição, mas por intuição. Guardados por uma década, eles amadureceram lentamente, absorvendo a doçura da madeira e o caráter do tempo
.”

Sensorialmente, o Lamas Founder’s Selection traz uma nota adocicada, de caramelo e mel, clássica da maturação em carvalho americano. O final é levemente apimentado, e menos adocicado, e traz também aquele característico sabor de cereais, presente em diversas expressões da destilaria, mas mais contido – muito provavlemente por conta do tempo em barril. O que é ótimo.

Alambiques da Lamas

Foram produzidas 1.500 garrafas do Lamas Founder’s Selection, individualmente numeradas. O whisky foi engarrafado a 46%, não tem corante caramelo adicionado, e nem passou por fltragem a frio. É praticamente a essência da Lamas, com uma atuação digna de premiação. Que aliás, já veio. O Lamas Founder’s Selection recebeu 94 pontos por Jim Murray, o autor da Whisky Bible.

A parte mais interessante sobre o Founder’s Selection talvez seja, na verdade, o propósito ligado à sua origem. Porque antes do holofote e do papel passado, havia um trabalho nos bastidores, com destilação e barris maturando. Um trabalho focado no desejo de produzir um whisky que não almejava receber prêmios ou ser nacionalmente reconhecido. Mas, simplesmente, apreciado também nos bastidores, por aqueles que tanto se dedicaram a criá-lo.

LAMAS FOUNDER’S SELECTION

Tipo: Single Malt

Destilaria: Lamas

País: Brasil

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, baunilha, cereais

Sabor: Mel, caramelo. Final longo, adocicado, levemente achocolatado e apimentado.

Dupla Nacionalidade – Nomad Outland Whisky

Se você acessou o Cão Engarrafado, é muitíssimo provável que tenha notado o cachorro ali de cima. Aquele lá é o Sazerac, o atual Cão do Cão. Mas ele tem apenas sete anos, e, este site, mais de 10. O que significa que, antes dele, havia outro dog alí. Que fora o Maverick

O Maverick, ou Mavi, para os íntimos, era um mini-collie – também conhecido como Sheltie – ainda que a gente ache que a parte do “mini” foi esquecida durante sua concepção. Ele pesava seus dezoito quilos, e era constantemente confundido com um collie “full-size”. Ele era um pouco grande, mas tudo normal até aqui.

Acontece que o Maverick, na verdade, era um gato em sua alma. Ou melhor, um gatorro. Porque por mais estranho que pareça, ele raramente buscava algum contato. Passava o dia andando pela casa e olhando com desdém para as pessoas e não era muito chegado em gente nova. Além disso, desprezava biscoito de cachorro, mas era apaixonado por atum em lata. O Maverick pode ter nascido cão, mas, por dentro, bate um coração cheio daquele ódio passivo tão característico dos gatos.

Se eu pudesse comparar o Maverick com algum whisky, este certamente seria o Nomad: Outland Whisky. Um blend de whiskies escoceses, mas com alma incontestavelmente espanhola. Ou, como a garrafa mesmo diz: Nascido na Escócia, mas criado na Espanha. Um whisky que, finalmente, chega ao Brasil oficialmente, por meio da divisão de destilados da La Pastina, a Inspirits.

Aliás, sua genética ibérica é tão forte que ele nem pode ser chamado de blended scotch whisky. Porque, para isto, ele teria que ter passado sua maturação integralmente na Escócia, de acordo com a Scotch Whisky Regulations de 2009. E não é isso que acontece. O Nomad é finalizado na Espanha, mais especificamente, na vinícola Gonzalez Byass, em Jerez.

Um brinde a boas ideias como esta!
Um brinde a boas ideias como esta!

O Nomad é fruto da colaboração entre Richard Paterson – o homem por trás do single malt The Dalmore e os blends da Whyte & Mackay – e Antonio Flores, master distiller da Gonzalez Byass, famosa bodega de vinhos espanhola. Pelos nomes dos envolvidos, podemos, facilmente, cojecturar o que está dentro da garrafa.

De acordo com a Gonzalez-Byass, o Nomad Outland Whisky é composto por mais de trinta whiskies, entre single malts e whiskies de grão, cuja idade varia entre cinco e oito anos. Considerando seus idealizadores, o portfólio de produtos à disposição, e um nariz relativamente educado, meu palpite é que a maior parte seja composta por Invergordon (o whisky de grão), com Tamnavulin, Fettercairn e, talvez, Jura. Mas, até aqui, como o Maverick, tudo bem. Nada o diferenciaria de um blended scotch whisky tradicional.

A grande diferença está na sua maturação. Depois de reunidos, os whiskies passam mais três anos em barricas que antes continham vinho Jerez, num processo semelhante àquele do Whyte & Mackay the Thirteen. Depois, e aqui está a parte curiosa, o líquido é enviado para a vinícola Gonzales Byass, em Jerez, na Espanha, onde é transferido para barricas de Jerez Pedro Ximénez (PX). Lá ele passa mais um ano. E é por conta deste último passo em sua maturação que o Nomad se auto denomina Outland Whisky – e não Scotch Whisky.

E este derradeiro ano em território estrangeiro que muda sua alma. Porque sob influência do clima quente da região da Andaluzia, a maturação nas barricas de PX ocorre muito mais rápido. Há mais expansão e contração, graças à maior amplitude térmica. E ainda que este intercâmbio seja relativamente breve, é ele que molda o caráter definitivo do outland whisky e lhe concede a personalidade jerezana.

A Gonzalez Byass

O Nomad é bastante puxado para o vinho Jerez PX. Possui aroma claro de uvas passas, panetone, especiarias e chocolate amargo. O final é doce e frutado. Se este Cão o provasse em um teste cego, muito provavelmente pensaria se tratar de um single malt.

O veredicto? Assim como o Maverick, que nasceu cachorro com alma felina, o Nomad nasceu escocês, mas exala (literalmente) personalidade espanhola. Não é um whisky para quem busca aquela escocesidade clássica. É, antes, um whisky para quem aprecia Jerez, gosta de surpresas e de personagens que fogem ao tipo. Como um nômade, que é a amalgama de todos os lugares onde viveu. E como um certo cãozinho que, lá no fundo, sempre soube que era um gato.

NOMAD OUTLAND WHISKY

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: Nomad

Região: N/A – Escócia / Espanha

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, frutas vermelhas, frutas em calda. Vinho fortificado.

Sabor: frutas vermelhas, açúcar mascavo. Um certo amargor final próximo àquele de vinhos do porto e vinhos jerez. Final longo e persistente.

Jack Daniel’s Bottled in Bond Triple Mash

Eu estava pensando aqui. A gastronomia tem umas coisas muito legais e absolutamente improváveis. Por exemplo, o chocolate. O cara foi lá, pegou o fruto, ou amêndoa, de uma árvore, torrou, descascou e moeu. Depois, desenvolveu um processo todo intrincado, com agitação e aquecimento só para tirar acidez. Por fim, decidiu que seria prudente dar um choque térmico na mistura e moldá-lo para, finalmente – e essa é a parte que mais me surpreende – comê-lo.

Mas ele não parou por aí. Pegou barriga de porco, salgou, curou, defumou, fritou e fatiou. Comeu, achou uma delícia, batizou de bacon. E séculos depois, no clima de juntar duas coisas deliciosas para produzir algo ainda melhor, misturou os dois. Bacon com dip de chocolate. Algo que jamais, mesmo nas infinitas possibilidades do multiverso, aconteceria de forma natural, sem intervenção de um ser pensante e faminto.

É lindo de ver, como o humano se esmeira quando o assunto é comer e beber, combinando elementos improváveis em busca de novas sensações, equilíbrio e complexidade. No mundo do whisky, esta é, de certa forma, o trabalho do master blender. Que, além de supervisionar a qualidade e padrão de produção, utiliza sua criatividade para combinar barris e ingredientes, e produzir algo novo e inusitado.

O mais perfeito exemplo disso é o Jack Daniels Bottled-in-Bond Triple Mash, criado pelo master blender da marca, Chris Fletcher, e que mistura três whiskies distintos, produzidos pela Jack Daniel’s. O Tennessee Whiskey tradicional, o Rye e um single malt, denominado por eles de Tennessee Malt. Um híbrido, que, aparentemente, não é nenhum dos três.

Fletcher

Assim, naturalmente, a primeira indagação que veio à minha mente, ao saber do produto, foi também uma das mais inúteis: qual o grão predominante na receita, ao juntar as três mashbills. Porque, talvez, somando uma coisa ali e outra aqui, o resultado pudesse ser um rye, ou um whiskey de milho. A resposta exigiu uma certa matemática. Assim, não garanto grandes doses de entretenimento no próximo parágrafo. Se médias ponderadas e percentuais não forem muito emocionantes para você, querido leitor, recomendo que pule a reflexão a seguir.

Para os que ficaram, regojizem-se comigo neste exercício. Ele é composto por 60% Jack Daniel’s Tennessee Rye, 20% Jack Daniel’s tradicional e 20% do American Malt. Considerando que o Rye possui 70% de centeio, 18% de milho e 12% de cevada, o Tennessee Whiskey tradicional leva 80% de milho, 8% de centeio e 12% de cevada maltada, e o American Malt é um single malt, com 100% cevada maltada, considerando o “peso” que cada um tem na receita, temos uma mashbill composta por 43,6% centeio, 26,8% milho e 29,6% cevada maltada.

A dúvida sobre a composição, no entanto, não é totalmente despropositada. Ela ajuda a entender o perfil sensorial do Jack Daniel’s Bottled in Bond Triple Mash. No olfato, ele parece herbal e adocicado. Na língua, traz um certo seco, com hortelã, mas o final não é doce, como seria de um bourbon ou tennessee whiskey. Ele é mais seco, menos floral e mais frutado. É tampouco apimentado, como seria um rye tradicional.

Outra questão curiosa – ao menos para mim – é a idade do Jack Daniels Bottled in Bond Triple Mash. Para que seja um Bottled-in-Bond, de acordo com a lei norte-americana, ele deve ser destilado em uma mesma temporada (season) de destilação em um mesmo ano, e maturar por, no mínimo, 4 anos. Em um bottled-in-bond normal, não é necessário que o conteúdo da garrafa provenha de um mesmo barril, mas, naturalmente, todo conteúdo terá a mesma idade, por conta da regra das temporadas. E aí é que está o ponto interessante.

O release para a imprensa do Jack Daniel’s Bottled in Bond Triple Mash diz “Cada expressão é destilada em Lynchburg, Tennessee, na mesma temporada de destilação, envelhecida de acordo com as exigências do Bottled in Bond Act, depois misturada e engarrafada a 100 proof (50%ABV). O Jack Daniel’s American Malt vem sendo destilado pela empresa desde 2013, é feito com 100% de cevada maltada e, no Triple Mash, atende aos requisitos do Bottled in Bond — o que significa que esse malte tem pelo menos quatro anos de idade. Esta é a primeira vez que o whiskey de cevada maltada da companhia está sendo utilizado em um lançamento.

os grãos no centro de visitantes da Jack Daniel’s

O trecho deixa claro que os componentes – ou seja, o Tennessee Whiskey, o Rye e o Malt – seguem as regras do Bottled-in-Bond Act. Mas não afirma, nem nega, que a mistura em si tenha a mesma idade integralmente. Podemos conjecturar que são três whiskies Bottled-in-Bond, de idades distintas, combinados. Sendo que, muito provavelmente, a parcela mas jovem seja do single malt, com no mínimo 4 anos de maturação. Se for este o caso, isso torna a invenção ainda mais heterodoxa.

No fim, o Jack Daniel’s Bottled in Bond Triple Mash é quase um exercício jurídico: três whiskies que cumprem o Bottled-in-Bond individualmente, possivelmente de idades distintas, reunidos numa mistura que não quebra a regra, mas a estica um pouquinho. É tradição usada como estrutura de engenharia. Mais ou menos o tal do bacon com chocolate: no papel soa oportunismo gastronômico, quase provocação de marketing — mas, quando há equilíbrio real, funciona. A diferença entre truque e arquitetura está no resultado. E aqui, goste-se ou não da ousadia, a conta fecha.

JACK DANIEL’S BOTTLED IN BOND TRIPLE MASH

Tipo: American Whiskey (!)

Destilaria: Jack Daniel’s

ABV: 50%

Notas de Prova:

Aroma: caramelo, baunilha, mel, hortelã, pimenta do reino.

Sabor: caramelo, mel, cravo, canela. Adocicado, com final longo, e frutado, pouco apimentado.

Work & Trust Terceira Edição

Deixe-me começar transcrevendo um trecho de uma publicação importante. O livro de geografia do primário de minha filha. “O Estado do Espírito Santo é um dos 27 estados brasileiros e se localiza na Região Sudeste do país. (…) A maritimidade exerce grande influência no seu clima, que é predominantemente tropical úmido. O estado é também um grande produtor de café“.

Me arrisco a completar as informações com algumas que descobri ao longo dos anos. O Estado do Espírito Santo também é o maior produtor de gengibre do Brasil. E é lá que fica o terceiro ponto mais alto do país. Além disso, eles chamam lagartixa de taruíra, sentem gastura e têm uma rivalidade inexplicável sobre a moqueca com a Bahia. E, por fim – mais importante que tudo isso – eles agora engarrafam whisky.

É que foi fundada, no ano passado, no Espírito Santo, a Work & Trust, engarrafadora independente de Afonso Takemoto, empresário e gestor operacional do Alambique Princesa Isabel. Já é a segunda engarrafadora independente brasileira. A ideia é escolher, de forma criteriosa, barricas de destilarias nacionais, finalizar seu líquido (ou não) e engarrafá-los sob o selo da marca.

Como um apaixonado por single malts, Takemoto foi bastante criterioso ao elaborar o ethos de sua engarrafadora. “Nossa graduação alcoólica é sempre igual ou superior a 46%, não recorremos a filtragem fria e nunca abriremos mão da cor natural de nossos whiskies“. A ideia é justamente apelar para o entusiasta, trazendo, também, o máximo de transparência sobre a produção dos whiskies – o que fica claro nos rótulos, muito bem elaborados.

Princesa Isabel

Ano passado foram lançados dois whiskies, com mais de dez anos, finalizados em barricas de vinho. Ambos produzidos pela Union. Agora, chegou a hora da terceira edição, também curada da destilaria gaúcha. É um single malt maturado por 6 anos em barricas de carvalho americano de segundo uso, e finalizado, por 12 meses, em barris de primeiro uso de ex-bourbon.

Entre uma coisa e outra, porém, há um detalhe importante. A finalização não ocorreu na Union, mas sim no Alambique Princesa Isabel, no Espírito Santo. O whisky foi levado até lá, para que fosse finalizado, envasado e cortado. O clima do estado capixaba, por ser mais quente, acelerou a maturação, trazendo um apimentado doce bastante pronunciado.

De acordo com Takemoto, a Work & Trust tem duas missões. A primeira, é quebrar o paradigma de muitos consimidores que ainda pensam que o whisky nacional é um produto de qualidade inferior. A outra – invariavelmente conectada à primeira – é de ajudar a inserir o Brasil no grupo de países internacionalmente reconhecidos pela qualidade do destilado que produzem. Indagado se há planos para exportar, Afonso é resoluto “se surgir a oportunidade, estaremos prontos“.

Sensorialmente, a terceira edição do Work & Trust traz notas de grãos, mel, baunilha, pimenta do reino e um herbal seco, de especiarias. É um whisky jovem, e que não esconde a idade, mas, ainda assim, equilibrado. A graduação alcoólica de 46% ajuda, e traz um pouco mais complexidade para o destilado. Na opinião deste Cão, é o melhor engarrafamento da marca, e o que mais reflete seus valores.

Além da edição tradicional, limitada a 275 garrafas, a Work & Trust lançou também uma versão ainda mais limitada do mesmo whisky, com graduação alcoólica turbinada para 54% – o máximo permitido pela legislação brasileira. É o “Committee Release”. Foram apenas 30 garrafas, individualmente numeradas. Esta edição, porém, rapidamente se esgotou. A versão tradicional, porém, pode ainda ser comprada no website da empresa.

Committee

Há, neste momento, dois pontos interessantes. O primeiro, é o engarrafamento em si. Mas, mais do que ele, o momento que ele ajuda a revelar. Temos a maior destilaria de single malts da América Latina, e duas engarrafadoras independentes, com propostas um pouco diferentes, mas preocupadas com qualidade e coerência. Isso mostra que nosso país, começa, aos poucos, a sair da posição de espectador para assumir um lugar no univrso do whisky. É um movimento que vale a pena ser observado, debatido e, mais do que tudo, incentivado.

WORK & TRUST TERCEIRA EDIÇÃO 1.3.25

Tipo: Single Malt

Destilaria: Union – engarrafado pela Work & Trust

País: Brasil

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, mel, cereais.

Sabor: Mel, especiarias, cereais. O começo é adocicado e levemente floral, que se desenvolve para um sabor mais seco e apimentado.

5 Whiskies que adoraríamos ver no Brasil em 2026

No final do ano passado viajei para Barcelona. Fiquei uns oito dias – tempo suficiente para percorrer boa parte dos bares da cidade. Bebi bem, e comi extraordinariamente. Tanto de quantidade, quanto qualidade. E como não podia deixar de ser, comprei também algumas garrafas de whisky (e vermute) para trazer para cá. Mas, de longe, a minha melhor compra etílico-gastronômica foi uma Kewpie. Sim, a maionese. Aquela japonesa, do bebezinho. Que é a melhor maionese do mundo, na minha obesa opinião.

Mas a que trouxe não foi a Kewpie tradicional, que tem por aqui. Mas sim uma versão com wasabi, que fica uma delícia numa porção de coisas, especialmente salmão defumado. Me arrependi, inclusive, de não ter comprado duas embalagens, mas assumo que fiquei com medo de tudo explodir na mala, e meus whiskies ganharem um curioso aroma de raiz forte.

A Kewpie, lá fora, tem várias versões. Tem uma low-fat, uma doce, uma com sriracha, e outra com yuzu. Mas, por aqui, só recebemos a tradicional mesmo. O que já está ótimo pra mim, porque não pretendo virar um sommelier de maioneses. Whisky, entretanto, é outra história. Como um entusiasta, e, especialmente, sócio de um bar de whiskies, sinto falta de alguns rótulos icônicos em nosso país.

Separei cinco abaixo. Alguns, desejados por mim. Mas, a maioria, indagado por clientes do bar, inconformados com a impossibilidade de encontrá-los oficialmente em nossa bela nação.

1. Michter’s

Em 2022, era Buffalo Trace. Agora, o queridinho inatingível dos american whiskey lovers é Michter’s. Mais especificamente, seu Rye Whiskey. Ele fica no meio do caminho entre um rye whiskey da nova era, com baixo centeio, e um old-school rye, como seriam aqueles produzidos pela MGP, com mais de 90% do cereal na receita. Por conta disso, é extremamente versátil em coquetéis, e ótimo para se beber puro.

A Michter’s ganhou bastante destaque recentemente, especialmente depois de passar a produzir os próprios destilados. São, também, patrocinadores do 50 Best Bars, e têm até uma categoria própria dentro da premiação. Isso faz a marca mais conhecida, e mais desejada, especialmente dentro da comunidade do bar.

2. Four Roses

Mais um americano que, há muito, deveria estar por aqui. É um bourbon low-rye, com perfil adocicado e pouco apimentado. A marca possui três expressões mais famosas: o tradicional, Small Batch e Single Barrel. O terceiro é o favorito deste Cão que vos escreve. Porém, o mais famoso é, seguramente o primeiro. É um whisky extremamente acessível de preço – ao menos fora de terras brasileiras – e que entrega uma bela qualidade sensorial.

Infelizmente, a Four Roses não tem o menor interesse em vir para o Brasil. O volume do mercado brasileiro é pequeno, e as dificuldades de importação fazem com que a marca fique mais interessada em se aventurar para a Europa ou permanecer mesmo nos EUA, onde é amplamente consumida.

3. Tobermory / Ledaig

Essa é a única destilaria da ilha de Mull, na Escócia. Ela produz uma variedade grande de whiskies, turfados e não-turfados. A primeira linha é chamada Ledaig, e conta com um dos whiskies preferidos de todos os tempos deste Cão, o Ledaig 18 anos. Têm também o Ledaig Sinclair, recém-lançado, que une fumaça e maturação em barricas de vinho tinto, por um preço inacreditável. A segunda é homônima à destilaria, e traz rótulos não turfados, alguns com pesada influência vínica, mas sem perder a elegância.

A Tobermory praticamente gabarita em todos os requisitos para whisky-geeks. ABV relativamente alto, barricas diferentes, equilíbrio e, quando aplicável, turfa na medida. O preço é ótimo também.

Mas, infelizmente, a marca não quer saber de nós. A Interfood, importadora também responsável pela maravilhosa Bruichladdich, chegou a trazer o gim deles. Mas depois, parou. A Tobermory é controlada pelo pessoal da Amarula, que, aparentemente, está mais interessada em elevar o nível glicêmico do Brasileiro do que ensiná-lo a beber bem.

4. Redbreast (ou outro irlandês qualquer)

A Irlanda possui, atualmente, mais de 40 destilarias operacionais. Há uma gama enorme de whiskies, dentre single malts, pot stills (algo exclusivo deles), blends e grains. Há whiskies turfados, vínicos, leves, intensos, frutados e herbais. Inobstante – como outrora escreveria em alguma petição – o povo brasileiro só pode beber Jameson. E um Jameson só, porque, vamos combinar, que há bem pouca diferença entre o tradicional e o IPA (aliás, IPA maturada?).

Meu sonho seria ver um Redbreast por aqui. Que, ironicamente, também é produzido pela Midleton, a mesma destilaria da Jameson. E que é controlada, obviamente, pela mesma empresa, a Pernod-Ricard. Mas tamanho é o nível de desespero, que eu ficaria satisfeito em ver qualquer outro irlandês além do filho de Jaime. Teeling, Connemara, Bushmills. Até um Tullamore Dew aplacaria essa deficiência.

5. Lagavulin

Devo confessar que, originalmente, tinha pensado em colocar aqui Mortlach, porque já falei 3x de Lagavulin em outras matérias por aqui. Mas, fiz uma enquete, e Lagavulin foi o mais pedido, de longe. Perdão por ser repetitivo, mas, é vox popoli. Não vou nem me dar ao trabalho de trazer novas razões, mas só me auto-parafrasear.

Infelizmente, por algum motivo que foge à lógica deste Cão, o Lagavulin 16 anos não está à venda em nosso país. Sua proprietária, a Diageo, prefere trazer whiskies com preço de combate e sabor amável, por talvez imaginar que, nós, brasileiros, possuímos paladar doce e pouco desenvolvido para single malts. E nem adianta argumentar sobre o preço. Se há um whisky capaz de se vender sozinho, independentemente de seu valor, é o Lagavulin. Quiçá no futuro.

Five Keys -Mona Lisa

Você já deve ter visto a imagem abaixo. Quero dizer, a única, certamente viu. Mas talvez essa, com trinta. A obra se chama Thirty Are Better Than One e foi criada em 1963 pelo artista pop Andy Warhol. Ele reproduziu, em serigrafia, a Mona Lisa tritna vezes. Trinta minimonalisas, lado a lado, como se fosse um item em um supermercado. O legal que, ao contrário de outras reproduções, que contam com uma ou outra distorção visual, ele não mudou nada. A violência está na repetição.

Deixa eu tentar explicar isso melhor. Ao reproduzir uma obra única trinta vezes, ela perde singularidade, e se torna um produto seriado. A crítica de Warhol não é à pintura, mas ao sistema que transforma obras em ícones replicáveis até a exaustão. É genial, porque não é um ataque direto à obra, mas mais uma dissolução dela, por excesso.

Clássicos muito bem resolvidos costumam sofrer desse destino. Quando a estrutura é sólida demais, ela vira molde. A coquetelaria tem uma porção de drinks assim, também. Mas talvez, o primeiro da lista seja o Manhattan. Ele é – discutivelmente – um original tão bem construído que passou a ser reproduzido quase por inércia. O Five Keys, tema deste post, é mais uma variação dele.

Mas ele funciona, justamente por ser uma variação tão descarada, que nem quer competir com nada. Ele foi criado originalmente para o bourbon Blade and Bow, que é produzido na destilaria Stitzel-Weller, em Louisville. O nome – Cinco Chaves, em português – do coquetel faz referência ao logo da Stitzel-Weller, que está ilustrado no centro do rótulo do Blade and Bow. E não aos cinco bairros de Nova Iorque, como apontado em algumas outras publicações.

Aqui, cabe uma curiosidade para os whiskey geeks. A Stitzel-Weller foi, por muito tempo, a destilaria responsável pelo lendário Pappy Van Winkle – que, atualmente, é feito na Buffalo Trace. O nome é, inclusive, familiar. A Buffalo Trace hoje produz uma série de bourbons sob a alcunha de “Weller” – uma homenagem ao antigo fundador da destilaria que outrora produzia os Pappy. É, eu sei, é confuso mesmo.

As Chaves

A origem do nome não é apenas uma curiosidade. Mas, a peça-chave (viu o que eu fiz aqui?) para um dilema. Não há Blade and Bow no Brasil. Portanto, deve-se substituir a base por outro bourbon. Ainda que a Stitzel-Weller não divulgue claramente a sua mashbill – a combinação de grãos de sua receita – sabe-se que se trata de um wheated bourbon – o Pappy Van Winkle, inclusive, é um. Assim, para manter a autenticidade e equilíbrio, este Cão recomenda o uso de Maker’s Mark. Ou, até, se estiver se sentindo sofisticado, um Maker’s 46.

Exceto pelo curioso detalhe de trocar o bitter não-potável por Cynar, o Five Keys tem pouca novidade. Ele não reinventa o Manhattan, não acrescenta nenhuma camada conceitual revolucionária e não muda o curso da coquetelaria. Mas ele funciona porque a estrutura que sustenta o original continua sólida, e porque repetir algo bem feito ainda pode ser prazeroso. Nem toda variação precisa justificar sua existência com um manifesto. Algumas existem porque são boas de beber.

FIVE KEYS

INGREDIENTES

  • 45ml Bourbon Whiskey
  • 22,5ml Vermute Tinto
  • 7,5ml licor de maraschino
  • 7,5ml Cynar
  • Parafernália para misturar

PREPARO

  • Adicione todos os ingredientes no mixing glass e mexa com gelo
  • desça em uma taça coupe gelada
  • aproveite