(Ainda mais) quatro personagens que amam whisky

Este é um post sazonal sobre personagens que amam whisky. Para ler os demais posts, clique aqui para o primeiro, aqui para o segundo e aqui para o terceiro.

Que o whisky é um catalisador de criatividade, ninguém duvida. O escritor William Faulkner, por exemplo, sempre mantinha uma garrafa ao alcance das mãos enquanto escrevia. Já Charles Bukowski, com todo seu ar hipster maldito, adorava boilermakers mesmo antes deles terem se tornado cool.

Dalton Trumbo – roteirista responsável por filmes como Papillon, Arenas Sangrentas e Spartacus – também não dispensava um bom whisky escocês ao exercer sua criatividade. E Samuel Clemens, conhecido pelo pseudônimo de Mark Twain, sempre possuía um bom pretexto para consumir a melhor bebida do mundo: “Eu sempre tomo whisky escocês a noite para prevenir dor de dente. Eu nunca tive dor de dente, e vou lhe dizer mais, eu não pretendo ter também

Muitas vezes o whisky permanece do lado real da obra ficcional. No entanto, ocasionalmente, o whisky passa a fazer parte da história. Afinal, há uma pletora de personagens que, assim como nós, compartilham do amor pela melhor bebida do mundo. Assim queridos leitores, aí vai mais uma lista com quatro indivíduos da ficção que, assim como nós, não dispensam um bom whisky.

Ron Swanson

Olha, tenho que admitir que somente ressuscitei este tema por conta de Ron Swanson, do seriado Parks & Recreation. Ron é um funcionário público mau-humorado, que trabalha ativamente para que a prefeitura da cidade ficcional de Pawnee, Idiana, seja mais morosa e ineficiente.

Ele despreza quase todo mundo, mas ama tudo que se relaciona ao universo eminentemente masculino. Carne, caça, embutidos e, claro, whisky. Seu malte de preferência é o incrível Lagavulin. A relação do personagem – e de Nick Offerman, ator que o impersonaliza – é tão forte que a própria destilaria convidou Nick para realizar alguns vídeos sobre ela. Para saber mais, acesse My Tales of Whisky, no YouTube

Arthur Bach

Arthur é o protagonista do filme homonimo, de 1981. Vivido por Dudley Moore, Arthur é um ébrio milionário novaiorquino à beira da falência. Para se salvar da miséria, arranja um casamento com Susan Johnson, herdeira de outro afortunado senhor, relacionado a seu pai. Arthur, porém, se vê dividido entre a conveniência e a paixão ao conhecer uma garota chamada Linda Marolla, estrelada por Liza Minelli.

Uma das frases mais famosas do filme vem de Arthur em uma inspiração etílica “Nem todos nós que bebemos somos poetas. Alguns de nós bebemos por não ser poetas“.

Tenente Archie Hicox

Há um espaço no inferno especial para quem desperdiça um bom scotch“. É com essa frase que o Achie Hicox, tenente britânico, começa seu discurso ao se ver no impasse final do filme Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino – no que, na opinião deste Cão, é a melhor cena do filme.

Não há menção sobre a marca do whisky, mas, pelo semblante do militar, é daquele tipo bom de morrer.

Rooster Cogburn

Rooster Cogburn é um Agente Federal (US Marshall) norte-americano, veterano da Guerra Civil, que é tão destemido quanto ébrio. Sua primeira aparição foi no filme True Grit, de 1968, vivido por John Wayne, e, posteriormente, Rooster Cogburn (1975) e True Grit: A Further Adventure (1978). Mais recentemente, foi reencarnado no corpo de Jeff Bridges, na regravação pelos Irmãos Coen do primeiro filme, em 2010.

Rooster não faz muita distinção do whiskey que bebe. Mas seu tipo preferido é um “genuíno estoura cabeça duplamente retificado, envelhecido em um tonel” ou, no original – que faz mais sentido – “Genuine, double-rectified bust head. Aged in the keg

Entrevista com Alexandre Campos – Especialista e sócio da Single Malt Brasil.

Escrever o Cão Engarrafado, para mim, na maioria das vezes, é um prazer imensurável. Também, pudera. Sou um entusiasta do whisky, e apaixonado por ler e escrever. E a espinha dorsal do trabalho é justamente este – beber e teclar, algo que eu já faria mesmo se não tivesse o blog. Na maioria dos dias, a escrita segue desatada. Mas, muito raramente, não. Tem dias que eu mesmo não aguento o som da minha voz – quero dizer, o tlec tlec das teclas do meu computador.

Além disso, eu sou um só, e a gente sabe que o tempero da vida é a diversidade. E o imprevisto também, nada como ser quase visto nu na frente da geladeira pela sua sogra, mas isso é outro papo, e estou a divagar. Assim, resolvi diversificar. Este é o primeiro de uma série especial de posts do Cão Engarrafado que eu não escrevi. É isso aí. São entrevistas com nomes importantes do mundo do whisky, seja no Brasil ou, quando possível, internacionalmente. A ideia é que o entrevistado diga o que pensa. Este Cão apenas transcreverá as palavras – o que, de certa forma, soa tentadoramente relaxante.

E para estrear este espaço, o Cão Engarrafado convidou Alexandre Campos. Alexandre é especialista em whisky formado pela Wine and Spirits Education Trust de Londres. É colecionador de whisky e ministra cursos voltados para o destilado no Brasil. Tanto é que, bem, foi ele um dos professores deste Cão Engarrafado que vos escreve. E, por isso, é uma enorme honra canina poder entrevistá-lo.

Campos é também sócio da Single Malt Brasil – uma loja virtual de bebidas, especialmente voltada para whisky. Recentemente, a empresa realizou sua primeira importação – single malts da destilaria Arran, localizada nas ilhas escocesas, e uma das mais jovens e promissoras do país.

1) Alexandre, você é um dos maiores especialistas em whisky no Brasil. Além da Single Malt Brasil, sei que é colecionador e um grande entusiasta deste inebriante mundo da melhor bebida do mundo. Como começou essa sua paixão por whisky?

Em tecnologia há um conceito chamado early adopters. Que são os pioneiros a adotar certa tecnologia. Eu sou um pouco assim com as bebidas. Sempre fui inteirado nas novidades e lançamentos no Brasil. Na década de 90 tomava Erdinger, que foi uma das primeiras cervejas especiais a chegar ao Brasil. Tinha também uma ligação com o mundo do charuto, que fumo desde meus vinte e três anos. E por isso sempre procurei experiências sensoriais novas.

Mas o grande turning point foi quando me mudei para o Reino Unido. Em 2005 fui para a universidade de Manchester, para fazer meu MBA. Manchester fica até mais perto da Escócia que Londres. E eu pude fazer seguidas viagens à escócia para visitar destilarias de whisky.

Lugar feio pra estudar.

Antes eu tinha uma coleção pequena de whiskies, com rótulos tradicionais. Com minha ida ao Reino Unido, fiz uma coleção mais criteriosa, com whiskies considerados de coleção. E durante meu MBA fiz um projeto de seis meses para a Diageo, e pude me inteirar do que era o mundo das bebidas onde não conhecia – o marketing, comercial, prospecção de mercados. E é nesse ambiente, de 2005 pra cá, que fui aprendendo cada vez mais do mundo do whisky. Prestando inclusive consultoria para destilarias na Escócia que querem importar para o Brasil, e na parte comercial.

6) Bom, você deve ter tido a oportunidade de provar whiskies incríveis. Quais mais te marcaram? Ou melhor, a pergunta que todo mundo faz pra mim – qual seu whisky preferido?

Bom, eu tive a oportunidade de provar whiskies bem caros e envelhecidos, Whiskies de 50, 60 e até 70 anos, que foi o caso do Glenlivet 70 da Gordon McPhail que provei no Whisky Show de Londres. Mas o curioso é que os whiskies que mais me marcaram não tem uma relação direta com o tempo de envelhecimento.

Por exemplo o Bowmore Port Cask 16 anos, que foi uma edição de 1990. Esse whisky eu bebi num cruzeiro, e minha sogra tava junto. A gente bebeu uma garrafa inteira, eu e minha sogra. O whisky era muito bom.

Talisker 10 é outro. Eu estava começando a ampliar meu horizonte no mundo do whisky, estava em um bar de musica latina em Londres. Olhei pra prateleira, vi o nome, Talisker. O barman colocou a dose e, ao prová-la, veio aquele aroma defumado, de algas marinhas, que me cativou. O Talisker 10 marcou.

Talvez o melhor que eu tenha provado na vida foi o Macallan Oscuro, que nada tem a ver com tempo de envelhecimento. Provei no Whisky Live de Londres, e gostei tanto que comprei duas garrafas. Essas duas não existem mais, foram bebidas ao longo desses anos, infeliz – ou felizmente. Bowmore 8 anos foi outro, do Feis Ile Festival de 2008, com 8 anos de envelhecimento. 800 garrafas no mundo, apenas. Um whisky jovem, que me marcou e que, inclusive, trouxe para degustação do Rio de Janeiro que fiz e foi eleito o preferido do dia. Prevaleceu até sobre o Bunnahabhain 25.

Um bem maturado foi o Glenfarclas 52, que tomei no Whisky Show de Londres. Quem serviu a dose foi o John Grant, da Glenfarclas. Na época o Glenfarclas era importado para o Brasil por outra importadora, e o John Grant estava bem entusiasmado de ter entrado no Brasil. Quem sabe agora a gente não resgata esse trabalho né?

2) Pegando aí o lado acadêmico. Para o pessoal que está começando a estudar sobre whisky. O que recomenda que façam? Recomenda algum livro ou curso?

Tem dois livros que acho muito interessantes. O World Whiskey do Charles Maclean, e o Atlas Mundial do Whisky, do Dave Broom. Esses são especiais, mas qualquer literatura desses dois é boa.

Eu recomendo aos iniciantes que procurem livros que tenham como elemento central a história e a produção de whisky. E que evitem livros voltados para reviews de whisky. Porque reviews são pessoais, vão muito do gosto. É uma coisa muito superficial se atentar somente a o que é o “melhor” whisky do ponto de vista de um escritor ou profissional do mundo das bebidas. Essa parte dos reviews vem natural, à medida que a pessoa vai provando mais whiskies.

World Whiskey, de Charles Maclean

Existe outro caminho, que é bem interessante, que é dos cursos e degustações. A própria Single Malt Brasil promove esses cursos introdutórios e avançados, e degustações de whisky. A gente tenta promover no mínimo um curso por mês, em alguma cidade do Brasil. No momento nossos cursos estão mais concentrados em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. É legal, para entender de whisky em si, mas para também conhecer pessoas, fazer networking e novas amizades.

2.1.) Legal. E o que acha desses cursos mais genéricos, que falam de diferentes bebidas?

Os cursos mais genéricos são interessantes. Os destilados seguem processos muito parecidos. O processo de produão de single malt é parecido com o processo de conhaque e da cachaça de alambique. Então, nesses cursos mais genéricos, as pessoas aprendem processos que são familiares não só a whisky mas a outros destilados também.

Tem uma escola em São Paulo, chamada Enocutura, que promove cursos no Brasil inteiro, e a Single Malt Brasil também pretende promover esses cursos mais genéricos no futuro.

3) Bom, vamos à parte prática. Eu acho que já sei a resposta disso. Mas como você enxerga o cenário do whisky no Brasil?

O mercado de whisky não é nada trivial no Brasil. É um mercado difícil de ser desenvolvido, e boa parte disso se deve a elevada tributação que a bebida sofre, tanto do governo estadual quanto federal. É considerado um produto supérfluo, de luxo, e tem uma alíquota de ICMS muito elevada. E isso faz com que o desenvolvimento seja difícil.

Além disso, há uma grande burocracia para aprovar whiskies no Brasil antes de realizar uma importação. A combinação dessa carga tributária elevada com a burocracia rigorosa, para aprovação e importação dos whiskies, acaba tornando o mercado difícil de ser desenvolvido.

Por outro lado, é um mercado promissor. Fazendo uma comparação com outros países da America do Sul, estamos atrás em termos de ofertas de rótulos e versões diferentes de whiskies. Especialmente single malts. Então há um espaço grande para desenvolver a importação de rótulos diferentes. É um mercado diferente, e o Brasil carece desses rótulos. É isso que a Single Malt Brasil tem tentado desenvolver nos últimos anos. Fizemos a nossa primeira importação, dos Arrans, e pretendemos importar outras versões da própria Arran quanto de outras destilarias.

A Arran

3.1) Especificamente em relação aos single malts, como você enxerga nosso mercado?

Olha, se o mercado de whisky já é dificil de ser trabalhado por causa de tributação e burocracia, o de single malt é ainda mais complicado. A oferta de single malts é menor do que a de whiskies blended. Então, isso faz com que as destilarias procurem mercados mais atrativos. Não apenas de volume, mas de preço. E os mercados atrativos atualmente são Estados Unidos, Europa Ocidental e Ásia. Então a America do Sul e Africa, por terem renda per capita menor, são menos atrativos.

Convencer uma destilaria a vender seus produtos no brasil não é fácil. Por causa do volume baixo, aliado a tributação alta e excesso de burocracia documental, muitas destilarias refutam exportar pro Brasil. Isso pode ser visto pelo lado ruim. É um mercado difícil de ser trabalhado. Mas vendo o lado bom, é que, uma vez vencida a burocracia inicial, os processos vão se repetindo. Quando vencemos uma barreira documental com certa destilaria, fica mais fácil seguir com essa destilaria. E uma destilaria acaba animando a outra a exportar. É um processo que pode se retro-alimentar num futuro próximo. E é nesse sentido que a Single Malt Brasil vem tentado desenvolver esse trabalho pioneiro e vencer barreiras, que não são intransponíveis, mas são elevadas para importação.

4) Recentemente a sua empresa, a Single Malt Brasil, fez sua primeira importação. Alguns rótulos da destilaria Arran. Como nasceu esse projeto e se desenvolveu?

Bom, a Single Malt Brasil trabalha no varejo. O projeto nasceu da atuação da loja no varejo. Observamos que faltava variedade de rótulos no mercado. Por conta dessa carência, e considerando desinteresse das destilarias na Escócia e importadores de aumentar a oferta de single malts, decidimos atuar no segmento de importação também. A single Malt acredita que o mercado brasileiro tem potencial, e os brasileiros precisam ter acesso a whiskies de melhor qualidade sensorial. Então o projeto nasceu com essa ideia, de oferecer mais single malts ao mercado brasileiro, ampliando a oferta e dentro da ideia de que nosso mercado tem atrativo e potencial.

Hoje são poucos single malts importados para o Brasil. São umas trinta versões diferentes. Nossos próprios vizinhos da America do Sul importam o dobro que a gente importa. O Brasil é um país grande que tem um mercado grande e precisa de uma empresa que faça esse trabalho pioneiro de oferecer whiskies de melhor qualidade. É o que temos tentado fazer nos últimos anos.

4.1) E a repercussão tem sido boa?

Até o momento, a repercussão de nossa importação dos Arran não podia ter sido melhor. Há interesse pela imprensa e entusiasmo pela Arran. A Arran estava tentando entrar no Brasil faz tempo. Tentaram anteriormente por dois importadores e não conseguiram. Então ficamos muito felizes por ter conseguido concluir esse projeto e colocar a Arran no Brasil.

E com os consumidores, a repercussão tem sido boa. Muitas perguntas, gente que não conhece a Arran no Brasil mas tem interesse em conhecer. E muita gente que já adquiriu os primeiros single malts que lançamos – o Arran Lochranza, Machrie Moor Cask Strength e o Arran 18. Então, até aqui, estamos muito felizes de ter efetivado esse projeto, e em breve, vamos lançar outras versões da Arran também.

Arran 18, expressão mais sofisticada da Arran trazida pela SMB

5) Bacana. Planos para trazer mais destilarias? Alguma marca/destilaria você adoraria poder trazer para o Brasil?

Tem muitas destilarias que a Single Malt teria interesse de trabalhar no Brasil. Mas tem duas que a gente gostaria especialmente de importar. Que são dois maltes excepcionais. Glen Scotia e Bunnahabhain. A primeira já começamos a ter uma conversa preliminar, e talvez consigamos importar num futuro próximo. E a Bunnahabhain, por ser uma destilaria icônica de Islay, que destoa um pouco da tradição de Islay, conhecida por ter whiskies enfumaçados. São maltes não defumados em seu core range, e belíssimos.

Essas duas teríamos vontade grande de trabalhar com eles. Compass Box é outra marca que adoraríamos trazer para o Brasil. Já entramos em contato com eles também. Mas, no momento, não sabemos se seguiremos adiante com a ideia de trazê-los para cá.

Bonus Track, Ale. Gostei da história do Bowmore e da sua sogra. Alguma outra história diremos, pitoresca?

Cara, em 2010 fui no Feis Ile, festival de Islay. Eu tinha reservado um bed and breakfast, mas não conhecia a dona. Quem me recebeu na porta foi o esposo dessa senhora. Ao me receber ele disse “Alex, do Brasil, você veio pro Feis Ile, então vem cá, vamos beber uns whiskies especiais que eu tenho”. Esse sujeito era o Harold Hastie, uma figura muito querida em Islay. Ele trabalhava na guarda costeira e era pescador. Ele recebia edições especiais das destilarias de Islay. Ele até tem uma edição que a Bruichladdich lançou, em sua homenagem.

Foi o Harold que descobriu o tal do yellow submarine. Era um submarino pequeninho para detectar minas, que pertencia à marinha britânica, que eles tinham esquecido em Islay em 2005. Aí o Harold Hastie e o cunhado dele pescaram o submarino. Naturalmente, avisaram a marinha britânica. Mas a marinha negou, disse que não tinha esquecido submarino nenhum. Aí o Harold resolveu pegar o submarino e colocar no quintal dele.

Só que Islay recebe muitos turistas. E eles ficavam tirando foto do equipamento no quintal do Harold. E isso gerou repercussão, chamou atenção da BBC, que fez um documentário sobre o tal do submarino esquecido. Aí a marinha pediu desculpas e disse que ia lá tirar o submarino no quintal do Harold, porque, de fato, era deles.

Mas enfim, naquela noite eu fui lá, bebi os whiskies com o Harold. Começamos às 10 da manhã. Tinha coisas incríveis, Port Ellen, Lagavulin 25, Laphroaig 30. Eu não recusei nenhum. As quatro eu estava completamente bêbado. Só fui acordar as seis horas da tarde do dia seguinte, e perdi dois dias de festival. Foi complicado.

Resiliência – Arran 18 anos

O rapper Will-I-Am uma vez disse que o mundo não precisa de mais uma opinião. Verdade. O mundo, na verdade, não precisa de mais um de uma porção de coisas. Brigaderia, paleteria mexicana, barbearia com cerveja. Escritório de advocacia, broker de bitcoin, partido político. Gente que reclama sem apresentar solução. Gente que reclama. Gente.

Apesar disso, admiro quem envereda por alguns destes caminhos. É preciso mais do que coragem para tomar a iniciativa de abrir mais uma hamburgueria artesanal, por exemplo. É preciso certa inconsequência, uma resiliência que beira a teimosia, e – talvez acima de tudo – amor próprio e autoconfiança tão grandes que quase chegam ao delírio de vaidade.

O mesmo acontece com whisky na Escócia. Em um país de aproximadamente oitenta mil quilômetros quadrados e que conta com mais de cem destilarias de whisky, é difícil imaginar que alguém pudesse ter o destemor para abrir mais uma. Mas foi justamente o que aconteceu em 1995. Naquele ano, Harold Currie (cuja história oportunamente será contada por aqui), ex-diretor da Chivas Regal, fundou a Arran Distillers próxima ao vilarejo de Lochranza, na ilha de Arran.

Harold (fonte: scotchwhisky.com)

Em 1998 a Arran lançou seu primeiro single malt. De lá para cá, o portfólio se expandiu de forma inacreditável. Atualmente, são mais de dez expressões. Há, por exemplo, single malts com idade declarada, como o 10, 14 e 18 anos. E também alguns sem idade definida, como Lochranza e Quarter Cask. Existe também uma linha com finalizações especiais, em barricas de vinho jerez, vinho do porto e sauternes. Há até mesmo uma linha de single malts defumados – os conhecidos Machrie Moor. Apesar da juventude, a Arran conta com um dos portfólios mais variados de toda Escócia.

E dentre todas estas expressões, uma das mais respeitadas é o Arran 18 anos. Inicialmente lançado para comemorar os vinte e um anos da destilaria como uma edição especial, o Arran 18 anos passou a integrar o portfólio permanente da Arran, graças a seu enorme sucesso. Na época, James MacTaggart, Master Distiller, declarou “Este é um engarrafamento muito importante para nós. Como a expressão mais madura dos maltes da Arran, ele representa o melhor de nossa destilaria, neste nosso vigésimo primeiro aniversário“.

A Arran

O Arran 18 anos é maturado em uma combinação de barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey e carvalho americano de ex-jerez. A proporção é de 70% bourbon para 30% vinho. A graduação alcoólica é de 46%. Assim como a maioria das expressões da destilaria, O Arran 18 anos não é filtrado a frio (saiba mais sobre isso aqui) e nenhum corante é utilizado (entenda).

O resultado é um single malt equilibrado e frutado com aroma cítrico e de caramelo, e com um incrível final que poderia definir como achocolatado. É uma demonstração incrível do que a Arran foi capaz de alcançar em tão pouco tempo.

Em 2016, o Arran 18 anos recebeu premio máximo na Scottish Field Whisky Challenge, e em 2018 foi vencedor da World Whisky Awards na categoria de single malts das ilhas com idade entre 13 e 20 anos. Nada mau para o primeiro whisky a atingir a maioridade na história da jovem destilaria.

Realmente, o mundo não precisa de mais uma opinião. Mas – se me permitirem que dê a minha – ele precisa de muitas, mas muitas novas destilarias. Destilarias como a Arran, destemidas o suficiente para produzir whiskies incríveis. O Arran 18 anos é a prova de que a Arran, apesar de sua juventude, está longe de ser apenas mais uma mediocre hamburgueria, paleteria mexicana, escritório de advocacia ou blog de whisky.

Ela é a prova de que o mundo jamais ficará saturado de coisas boas.

ARRAN 18 ANOS

Tipo: Single Malt 18 anos

Destilaria: Arran

Região: Higlands (Islands)

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: frutas vermelhas, creme brulée. Malte.

Sabor: Frutado, com um fundo cítrico muito agradável. Caramelo. Final longo frutado, com baunilha. Pouco apimentado.

Com água: A água ressalta os aromas de baunilha e torna o whisky um pouco mais seco.

Preço: R$ 625,00 na importadora oficial, a Single Malt Brasil.

Jameson Caskmates IPA Edition – Simbiose

Eu não vejo muita televisão. Normalmente, quando me sento à frente do aparelho, é para ver um filme ou – mais raramente – série em algum serviço de streaming. Não tenho nem o costume e nem a disciplina necessária para acompanhar qualquer programa transmitido em horário fixo. Tanto que tenho uma contraditória relação de desprezo e admiração por quem consegue, religiosamente, acompanhar uma novela, por mais prosaica que seja.

Mas na semana passada, sei lá por que, resolvi ligar a TV. E logo fui absorvido por um documentário no Discovery Channel que mostrava a relação entre os crocodilos e uma destemida ave chamada tarambola. Que você conhece, apesar de não saber que conhece. É aquele passarinho que fica palitando os dentes do réptil, que, por sua vez, se abstém de transformá-lo em tira-gosto em troca da satisfação de limpeza bucal. E olha, acho que é um tradeoff bem bom, porque, pra um jacaré, satisfação bucal deve ser algo bem importante.

Fale Aaaaaaligator.

A relação dos dois é conhecida como uma espécie de simbiose. Uma cooperação animal, onde espécies diferentes se relacionam para o benefício de ambas. Há outros infinitos exemplos, como a anêmona e o peixe-palhaço, e a moreia e aquele peixinho azul. E como tudo na minha vida se relaciona a whisky, logo pensei em um exemplo próprio no mundo etílico. A destilaria Midleton, produtora do Jameson Irish Whiskey e a cervejaria Franciscan Well com seu Jameson Caskmates IPA Edition, que acaba de chegar ao Brasil.

Essa é a segunda simbiose – digo, colaboração, entre a destilaria e a cervejaria. Em 2014, a Midleton lançou somente na Irlanda uma expressão de Jameson finalizada em barris de de whiskey que foram usados para maturar cerveja stout da Franciscan Well. Deixe-me deixar mais claro: Barris de carvalho utilzados para maturar Jameson, posteriormente usados para a cerveja e retornados à Jameson para finalizar seu whiskey. A expressão foi um sucesso, e, em 2015, a destilaria lançou seu Jameson Caskmates Stout Edition mundialmente. E o que seguiu, dois anos mais tarde, foi a segunda edição da série, dessa vez, finalizado em barris de cerveja India Pale Ale, e tema desta prova.

O processo de maturação do Jameson Caskmates IPA Edition é bem semelhante àquele da Stout Edition. A Jameson – ou melhor, a Midleton – cedeu à Franciscan Well alguns barris previamente usados para maturar seu whiskey, para que essa envelhecesse sua Chieftain IPA. Algum tempo depois, a cervejaria retornou as barricas à Midleton, que as preencheu com seu whiskey.

Não há indicação de idade no Caskmates, nem de seu prazo de finalização. Este Cão, porém, num palpite educado, diria que é bem semelhante à do Jameson tradicional. A influência do destilado é, sensorialmente, parecida, ainda que Jameson Caskmates IPA Edition possua uma nota vegetal bem discreta que não se encontra na expressão clássica – e que, obviamente, é trazida pela finalização nos barris de cerveja.

De acordo com a Jameson “tendo descansado em barricas de IPA, este whiskey irlandês triplamente destilado apresenta a suavidade que os consumidores esperam do estilo, mas com notas de lúpulos, cítricas florais. O whiskey pode ser servido puro, com gelo ou harmonizado com uma cerveja. ” O que, apesar de não ter testado até então, reconheço que é uma ideia excelente.

Uma refeição completa

No Brasil, uma garrafa de 750ml do Jameson Caskmates IPA Edition custa, em média, R$ 150,00 (cento e cinquenta reais). É aproximadamente trinta reais mais caro do que o tradicional Jameson Irish Whiskey de um litro, com volume menor. Porém, mesmo assim, é uma diferença que compensa – nem que seja somente pela experiência de se provar um irish whiskey finalizado em barris de cerveja. Algo bem incomum, até mesmo no exterior.

Se você, assim como este Cão, é um entusiasta também do mundo da cerveja, ou se já é fã do Jameson Irish Whiskey tradicional, prove o Jameson Caskmates IPA Edition. E, se puder, combine com a India Pale Ale de sua preferência. Dentre todas, esta é, certamente, a mais inebriante simbiose do mundo.

JAMESON CASKMATES IPA EDITION

Tipo: Irish Whiskey

Marca: Jameson

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado e floral, com baunilha.

Sabor: Frutado, adocicado. O final é progressivamente mais vegetal, mas não chega a ser amargo.

Preço: R$ 150,00

(travel) Drops – Glenlivet Master Distillers Reserve Small Batch

Há nove anos viajei com a Cã para o Peru. Foi uma viagem incrível, apesar de alguns nauseantes detalhes. Coisas bobas, tipo não conseguir respirar, comer ou beber água durante quatro dias a tres mil e trezentos metros de altitude, na maravilhosa cidade de Cuzco. Naquela oportunidade, conhecemos também Macchu Picchu, Lima e a região de Paracas e Ica – o que compensou um pouco o estado vegetativo trazido pela soroche.

Gostamos tanto da viagem que resolvemos repeti-la, nove anos depois. Menos a parte de Cuzco, porque, bom, porque a gente é teimoso, mas valorizamos nossa liberdade respiratória e cardíaca. E como não poderia carregar todos meus whiskies comigo, resolvi escolher um companheiro de viagem etílico. A decisão foi fácil – logo no aeroporto comprei um Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch. Um single malt polivalente e muito saboroso, perfeito para uma pletora de situações, como aquelas proporcionadas por essas incríveis viagens internacionais.

O Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch é o mais sofisticado dos maltes da linha Master Distiller’s Reserve da The Glenlivet, vendida exlcusivamente no travel retail – os nossos conhecidos freeshops. Além dele, há a versão de entrada, o Master Distiller’s Reserve original, e uma versão intermediária, que parte da maturação ocorre numa solera vat – um enorme tanque de madeira, que nunca é totalmente esvaziado.

A linha Master Distiller’s Reserve

A maturação do Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch é um tanto misteriosa. De acordo com a destilaria, é uma “combinação de ex-jerez, carvalho americano e carvalho tradicional“. O que, traduzindo, significa que o wisky passa por barricas de carvalho americano de ex-bourbon, carvalho europeu de ex-jerez e – pausa dramática para algo bem inusual – barricas de carvalho virgens. O tipo de carvalho destas últimas não é divulgado, porém, este Cão suspeita que seja europeu.

Pouco se sabe sobre os detalhes da maturação do Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch. Seu tempo de envelhecimento e a proporção exata das barricas não é divulgada. Muito provavelmente, porque varia de lote para lote, para padronização. O que se sabe é que a proporção de barricas de primeiro uso é maior do que nas demais expressões da linha. O que é ótimo. Barricas de primeiro uso transferem compostos responsáveis por certos aromas e sabores mais rapidamente para o whisky, aumentando a influência da madeira e os tornando mais intensos, na maioria dos casos.

Tive bons dez dias para me acostumar com os sabores e aromas do whisky. Sensorialmente, o Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch traz um interessantíssimo sabor de café, com amargor e especiarias em evidência. Há um residual cítrico, bastante discreto, mas excelente. É um whisky muito fácil de ser bebido e sensorialmente bem acessível. O álcool, a 40%, é pouquíssimo sentido – e, na opinião deste canídeo, poderia até mesmo ter percentual mais elevado, o que tornaria o whisky mais intenso.

Se você gosta de whiskies frutados e amadeirados, com excelente drinkability, o Glenlivet Master Distiller’s Reserve Small Batch é seu whisky. Ele é perfeito para acompanhá-lo em qualquer viagem, e se sai bem nos mais variados ambientes – de um ensolarado e cálido dia numa bela praia até um dia frio numa bela paisagem montanhosa. Mas se este for o caso, siga o conselho deste Cão – certifique-se antes que há ar suficiente para respirar.

GLENLIVET MASTER DISTILLER’S RESERVE SMALL BATCH

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutado e adocicado, com café e laranja.

Sabor: frutado e amargo com um certo aroma torrado que lembra café. Final longo e progressivamente cítrico e carregado de baunilha.

Disponibilidade: Duty Frees. Preço médio de US$ 150,00 (cento e cinquenta dólares)

Relevância – Arran Machrie Moor Cask Strength

A cobertura jornalística de alguns veículos é fascinante. Desde que o Caetano Veloso parou o carro no Leblon, me deslumbro com a relevância de algumas notícias. Como, por exemplo, da galinha que sobreviveu a um incêndio no Acre, e foi rebatizada de Fênix. Mas acho que a que mais me enfeitiçou recentemente foi de um rapaz que foi hospitalizado após comer uma pimenta – talvez por conta de meu interesse gastronômico em condimentos.

A pimenta pivô do quase trágico acidente é a Carolina Reaper. Ela foi criada pelo californiano Ed Currie, proprietário de uma companhia com um nome bem sugestivo: Pucker Butt Pepper Company – numa tradução esdrúxula, Cia. de Pimentas Bunda Enrugada. Algo que, suspeito, tenha algo a ver com o processo, diremos assim, pós-digestivo da Carolina Reaper.

A tal pimenta é considerada desde 2013 a mais forte do mundo pelo Guiness. Algumas delas chegam a dois milhões e duzentas unidades de Scoville (SHU) – escala usada para medir a picância destes belos frutos. Para você ter uma ideia, aquele Tabasco tradicional que você tem em casa mede de 2.500 a 5.000 SHU. E aquela habanero, que você acha super ardida e pinga só uma gotinha, como se temperasse a comida com ácido sulfúrico, tem só sete mil SHU.

a Fênix, depois de comer uma Carolina Reaper

No mundo dos whiskies, se houvesse algo comparado à Carolina Reaper, seriam os whiskies Cask Strength. Mas antes de prosseguir, permita-me uma breve explicação sobre este conceito. A maioria dos whiskies – do clássico Jack Daniel’s até o sofisticado Glenfiddich 25 – quando são retirados das barricas e misturados, sofrem certa diluição com água. A ideia é que os whiskies tenham sabor mais suave, e agradem a mais paladares. Além disso, mais diluição significa que, para um mesmo número de barris, mais garrafas serão produzidas.

Porém, há whiskies que não sofrem qualquer diluição – a graduação alcoólica do engarrafamento é a mesma do barril. Estes são conhecidos como Cask Strength. Isso resulta em graduações alcoólicas muitas vezes estapafúrdias para a maioria dos seres humanos – algo entre cinquenta e sessenta e cinco por cento.

O Arran Machrie Moor Cask Strength é um desses whiskies. E mais. Ele é o primeiro whisky assim a ser vendido oficialmente em terras brasileiras. Fruto da primeira importação da Single Malt Brasil, loja especializada na bebida, sediada no Rio de Janeiro. De acordo com Alexandre Campos, sócio da empresa “Inauguramos uma nova fase para o whisky no Brasil. Conseguimos importar um malt Cask Strength da Arran. Feito inédito até então. Estamos muito entusiasmados com as possibilidades que temos. Nosso maior objetivo é colocar o nosso país na rota dos whiskies de prestígio. E trabalharemos para levar o melhor aos consumidores brasileiros

Tamanha empolgação tem motivo. A graduação alcoólica do Machrie Moor Cask Strength é de 56,2% – a maior já vista por aqui. Isso lhe traz maior intensidade de sabor. Além disso, permite que você, nobre entusiasta, escolha quanto de água adicionará a seu whisky. A quantidade de água adicionada alterará suas características sensoriais, e ressaltará aromas e sabores diferentes. É como se, dentro de uma garrafa, você tivesse uns três whiskies diferentes

A maturação do Machrie Moor Cask Strength ocorre em barricas de carvalho americano. Não há indicação de idade. Porém, este Cão estima que a média seja de uma década. Ocorre que a defumação do Machrie Moor é próxima dos 20 ppm. E, para atingir tamanha sensação de fumaça, é necessário um destilado jovem, já que, à medida que matura, os fenóis responsáveis por essa impressão são atenuados.

Barrica de Peated Whisky da Arran

Sensorialmente, e sem a adição de água, o Machrie Moor Cask Strength é um whisky extremamente enfumaçado e picante, com uma nota frutada doce que remete a pêssegos. Com um pouco de água – algo como um terço da dose – a pungência é aliviada, e certos aromas salinos e marítimos podem ser sentidos. Não é um whisky fácil. Mas é extremamente recompensador.

A destilaria Arran tem uma história curiosa. Ela foi fundada por Harold Currie – que não tem qualquer relação com o Ed da pimenta – em 1993, com produção inciada em 1995. Perto de certas destilarias bicentenárias da Escócia, ela é somente um adolescente. Porém, nestes poucos anos, a Arran produziu um extenso portfólio de whiskies. De whiskies fortemente enfumaçados até florais e delicados, a destilaria encontrou seu espaço e demonstrou polivalência em um mercado considerado, por muitos, difícil e saturado.

Se você é do tipo que coloca pimenta até na sobremesa, acha que o bacon sempre podia ser um pouquinho mais defumado ou acha que tem muito gelo na sua caipirinha, o Machrie Moor Cask Strength será sua paixão etílica por muito tempo. E vá por mim, essa é a notícia mais relevante que você lerá sobre o mundo do whisky em um bom tempo. Sobre o mundo do whisky, claro – porque não dá pra concorrer com a Fênix, ou o Caetano e seu carro no Leblon.

ARRAN MACHRIE MOOR CASK STRENGTH

Tipo: Single Malt sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Arran

Região: Higlands (Islands)

ABV: 56,2%

Notas de prova:

Aroma: fumaça, iodo. Frutas em calda.

Sabor: Frutado e salgado. Pimenta do reino. Final longo, enfumaçado e picante.

Com água: a água ressalta as notas adocicadas e picantes, e reduz a impressão de fumaça.

Preço: aproximadamente R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais) – à venda exclusivamente na Single Malt Brasil.

Especial de Páscoa – Harmonização de Whisky e Chocolate

Ah, a Páscoa. Só de pensar na data comemorativa, meu índice glicêmico já sobe. A páscoa é como um mini-natal. Nos reunimos com familiares que não se interessam por nós, para conversar sobre assuntos que não nos interessam e para comer de forma desenfreada, numa vã tentativa de evitar mais conversa. As únicas reais diferenças entre a Páscoa e o Natal é que tem menos uva passa na comida e, ao invés de presentes, ganhamos chocolate.

O que, pra mim, é um problema, já que não sou muito fã do doce. Curioso isso, porque quando eu era criança, eu amava chocolate. Mas, à medida que cresci, o fascínio foi se dissipando. Hoje, não apenas como pouco chocolate, como poucos doces em geral. É que – aliada à mudança de meu paladar – veio a idade. E, com ela, a prerrogativa de comer de tudo em quantidades gargantuais e não sofrer consequências desapareceu. Por isso, faço uma troca: como poucos doces, mas bebo.

E pelo fato de chocolate não faça parte de minha dieta diária, tenho uma enorme dificuldade em acabar com os poucos ovos que recebo. Para solucionar este problema que não precisa ser solucionado, então, resolvi realizar uma atividade bastante extenuante neste ano. Combinar os ovos de páscoa com whisky. E é isso que ofereço a vocês, queridos leitores. Dividido em tópicos, pra ficar mais fácil.

Chocolate Branco

Chocolate branco era meu preferido quando era criança. Doce, gorduroso e absolutamente delicioso. Para combinar com ele, escolhi um whisky com maturação predominantemente em barricas de carvalho americano de ex-bourbon. O Glenlivet Founder’s Reserve – que, aliás, apresenta notas de prova bem semelhantes ao chocolate, e ainda traz um frutado cítrico muitíssimo agradável à combinação.

Ao Leite

Esse é o tipo mais comum na páscoa. A maioria dos ovos são de chocolate ao leite, que traz cremosidade e dulçor na medida certa. Costumam ser equilibrados, e agradar à maioria dos paladares.

Para combinar com ele, escolhi um de meus blended scotch whiskies preferidos. O Chivas 18. Delicado, mas com um equilíbrio perfeito entre especiarias e frutas, com um aroma floral que sou absolutamente apaixonado. O Chivas 18 é incrível. Olha, pra falar a verdade, esqueçam o chocolate ao leite, bebam só o Chivas 18.

Amargo

Meu estilo preferido de chocolate. O amargo traz intensidade, e combina, também, com whiskies mais intensos. Meu melhor resultado foi com aqueles maturados em barricas de vinho, como o Aberlour 15 anos. Um single malt escocês da região de Speyside, com perfil de sabor apimentado e vínico. Intenso, mas muito agradável.

A combinação trouxe ao chocolate um sabor frutado seco. O chocolate contribuiu para a finalização do whisky, ressaltando suas especiarias e caramelo.

Chocolate (ao leite) com amêndoas

Aqui, escolhi um whisky delicado, mas cuja maturação pudesse trazer complexidade à combinação, e que tivesse, também, notas de amêndoas. O Royal Salute 21 anos. Delicado, equilibrado e bastante amadeirado, o scotch whisky premium tornou o chocolate um pouco mais amargo, e ressaltou as amêndoas de sua receita.

Johnnie Walker Swing – Doce Balanço

Calça jeans. Depois de quase um século e meio, a peça de vestuário que começou como indumentária de cowboys e mineradores no velho oeste passou a ser usada por praticamente todo mundo. Homens, mulheres, crianças. Porém, poucos conhecem sua real origem.

A calça jeans foi criada por Jacob Davis, um minerador que participou da febre do ouro nos Estados Unidos, no século dezenove. Sua matéria prima é o denim, material outrora utilizado para revestir as tendas dos trabahadores das minas, inicialmente produzido na cidade de Genoa, na Itália. Daí o nome Jeans – Genoa, com sotaque americano. Jacob comprava o material de um tal de Levi-Strauss, que, mais tarde, se juntou a ele para fundar a conhecia Levi Strauss & Co.

Atualmente, a calça jeans está por toda parte, numa infinidade de desenhos diferentes. Mas há uma coisa em seu design que resistiu à passagem do tempo, e permanece desde sua concepção. Um pequeno bolso, dentro de um dos bolsos da frente. Esse bolsinho sempre me intrigou, de forma que, certo dia, resolvi pesquisar para que ele servia.

Pra que, Levi?

Imaginem o tamanho de minha surpresa quando descobri que aquele pequeno continente teria sido projetado, inicialmente, para o relógio de bolso. Sim, para evitar que ele se quebrasse, já que muitos mineradores e cowboys os utilizavam na época do oeste selvagem.

Olha, talvez eu não seja hipster o suficiente, ou tenha usado meus jeans errados a vida toda. Mas acho esse um uso meio específico. Quantas pessoas efetivamente usam a calça ou a compraram porque ela tem um minibolso que não cabe quase nada, exceto, bem, um relógio de bolso? Penso que bem poucas.

No mundo do whisky, o bolsinho da calça jeans poderia ser facilmente comparado à garrafa do Johnnie Walker Swing. É que ela foi projetada para que o whisky fosse levado em viagens navais, e não caísse da prateleira do navio com o balanço do mar. O que, bem, pressupõe que você possua uma embarcação, ou vá levar um whisky na embarcação de alguém. Para mim, esse é o tipo de solução para um problema que ninguém tem.

Quase ninguém

Seja como for, o Johnnie Walker Swing está no mercado já há bastante tempo. É o terceiro produto mais antigo da linha Johnnie Walker, sendo mais novo apenas que os clássicos Red Label e Black Label. Ele foi lançado em 1932, e desenvolvido pelo próprio Alexander Walker.

Segundo a marca, Alexander Walker notou que, durante uma viagem naval, as garrafas no bar da embarcação se moviam por conta do balanço do navio, e o bartender tinha dificuldades em deixá-las todas no lugar, e evitar que se quebrassem. O cavalheiro então, ao voltar para a Escócia, encomendou uma garrafa com um fundo convexo, que se mantinha no lugar, apesar do balanço.

Sensorialmente, o Johnnie Walker Swing é um blended whisky leve, adocicado e relativamente complexo. Ainda que a marca não divulgue sua composição, é quase seguro afirmar que leva uma boa proporção de Cardhu. O single malt domina seu paladar, ainda que haja uma discreta fumaça e influência vínica.

Se você gosta de whiskies leves e adocicados, ou é um fã da marca do andarilho mas procura algo com perfil de sabor um pouco distinto, o Johnnie Walker Swing é para você. Para você e para todos aqueles que querem uma garrafa que não se estilhace no chão durante viagens navais, claro.

JOHNNIE WALKER SWING

Tipo: Blended Whisky com sem idade declarada.

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: baunilha, caramelo. Adocicado e muito agradável.

Sabor: Delicado e adocicado. Compota de frutas, com final levemente enfumaçado e ainda doceC

Preço: R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais) aproximadamente.

Lagavulin 9 anos Lannister – Game of Thrones – Drops

“É isso que eu faço. Eu bebo e eu sei das coisas”. Esta é a frase mais famosa de Tyrion Lannister, um dos mais famosos personagens da mais famosa série televisiva atual. Game of Thrones. É fama demais. Se não fosse tão famosa, eu mesmo, Cão, adotaria – não sem alguma presunção – como punchline pessoal.

Quando a Diageo anunciou que lançaria uma linha de single malts dedicados à série Game of Thrones, mesmo sem acompanhá-la, logo relacionei o Lagavulin a Lannister. A começar pelo brasão dos Lannister, que é muito semelhante àquele da destilaria de Islay. Além disso, Lagavulin tem fama de ser um whisky “para esclarecidos” – algo que este Cão, de certa forma, discorda. Mas, nada mais natural, então, do que atribuí-lo a alguém que sabe das coisas.

E qual foi minha surpresa, em 2018, quando a coleção finalmente foi revelada. Um jovem Lagavulin justamente relacionado à casa daquele que “bebe e sabe das coisas”. O Lagavulin 9 Anos Lannister. Talvez eu devesse mesmo adotar a frase de efeito.

De acordo com matéria veiculada na Forbes, a escolha das casas não foi, de nenhuma forma, aleatória. O time da Diageo trabalhou em conjunto com cada uma das destilarias e sua arquivista chefe, Joanne McKerchar, para que a história das destilarias remontasse aquela das casas escolhidas. As casas de cada expressão foram determinadas pela história da destilaria e sua localização geográfica. E não pelas características sensoriais, como muitos poderiam pensar.

As casas e seus maltes.

De acordo com a Diageo “Lagavulin é uma das marcas mais lendárias de single malt, e foi produzido nas costas de Islay por mais de 200 anos – espelhando os cálculos meticulosos e tenacidade empregada pelos Lannister em sua ascenção pra conquistar o Trono de Ferro. Este single malt é um malte rugidor, que remonta as riquezas dos Lannister, e é melhor servido puro ou com um pouco de água

A maturação do Lagavulin 9 Anos Lannister acontece inteiramente em barricas de primeiro uso de carvalho americano, previamente utilizadas para maturar bourbon whiskey. Isso explica sua juventude – barricas de primeiro uso tendem a transferir seus aromas e sabores mais rapidamente para o new-make spirit. E o equilíbrio entre a fumaça do malte e a influência da barrica é atingido mais rapidamente. É importante notar que whiskies com idades avançadas costumam usar boa parte de barris de segundo uso ou reuso, justamente para não eclipsar o sabor proveniente do destilado – algo ainda mais importante quando falamos de um whisky defumado.

Sensorialmente, o Lagavulin 9 Anos Lannister lembra bastante seu irmão mais velho, o popstar Lagavulin 16 anos. Porém, é mais adocicado e floral. O aroma característico de hospital e carvão estão lá, e muito bem acompanhados por sabor apimentado e salgado.

Infelizmente – e como é de se prever – O Lagavulin 9 anos Lannister não desembarca em nosso país. Porém, se o encontrar em algum lugar no exterior, experimente. Sem justificativas ou explicações, apenas confie em mim. Afinal, é isto que eu faço. Eu bebo e sei das coisas.

LAGAVULIN 9 ANOS LANNISTER – GAME OF THRONES

Tipo: Single Malt com idade definida – 9 anos

Destilaria: Lagavulin

Região: Islay

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: enfumaçado e medicinal, com baunilha e açúcar refinado.

Sabor: bastante defumado e rico, com balinha de caramelo (butterscotch), baunilha e pimenta do reino. Final longo e progressivamente mais turfado.

Algonquin Cocktail – Hábito

A vida é repetição. Há uma pletora de coisas que fazemos todos os dias, e que são praticamente incontornáveis. Acordar, comer, trabalhar. Se você for uma pessoa com padrões razoáveis de higiene, tomar banho e escovar os dentes. Algumas vezes, essas coisas nos trazem prazer. Outras, são mera obrigação.

Para adicionar um hábito à rotina que não seja absolutamente necessário, ele tem que ser muito bom. Mas muito bom mesmo. Não imagino nada assim, nem, sei lá, beber whisky. E olha que eu realmente gosto de beber whisky. Mas foi isso que aconteceu com um grupo chamado
Algonquin Round Table (ou A Távola Redonda de Algonquin) – formado por escritores, dramaturgos, atores e outros artistas que se reuniam praticamente todo dia no hotel Algonquin, em Nova Iorque, para o almoço.

O grupo foi fundado pelo agente teatral John Peter Toohey e pelo crítico literário Alexander Wolcott. Ao longo do tempo, outras figuras proeminentes da cultura literária dos Estados Unidos se juntaram aos comensais. Harpo Marx, Dorothy Parker, Franklin Pierce Adams e Harold Ross eram alguns deles. Os almoços – que aconteciam praticamente todos os dias – duraram mais de dez anos, de 1919 até o começo da década de 30.

O hotel

É bem improvável, no entanto, que essa história tenha algo a ver com a coquetelaria. O Algonquin Round Table começou a se reunir bem na época em que vigorava a Lei Seca Norte-Americana. O próprio hotel, aliás, não servia bebidas alcoólicas, mesmo antes disso. E ainda que alguns membros fossem relativamente inclinados a diversões etílicas, suas preferências eram, na maior parte, highballs e, ocasionalmente, martinis – como aponta em um brilhante artigo o historiador de coquetelaria David Wondrich.

Isso, no entanto, não impediu que bartenders criassem coquetéis em homenagem àquele grupo. Ou, talvez, ao hotel. Dentre eles, triunfou – mais ou menos – um Algonquin que leva rye whiskey, vermute e suco de abacaxi. Criado na década de 30, o Algonquin jamais alcançou o prestígio de um Manhattan. Mas ganhou popularidade suficiente para sobreviver na memória da coquetelaria até os dias atuais. O que já é bem louvável, já que a maioria dos coquetéis que eu crio, eu mesmo esqueço no dia seguinte.

Talvez seja pro melhor…

O Algonquin é um coquetel curioso. Porque, aparentemente, é feito de ingredientes que não combinam. Se eu os recitar para alguém, no tom literário tão apreciado pelos membros da Távola Redonda de Algonquin, é bem provável que a pessoa coloque um semblante duvidoso, de quem lê poesia concretista. Porém, no paladar, o Algonquin funciona bem. Ele está longe de ser doce ou enjoativo, como dita a intuição etílica. É cítrico e seco, com perfil de sabor muito interessante.

Devo também alertar que o Algonquin não é um drink fácil. Não de ser bebido. Mas de ser bem executado. Como na boa literatura, chegar a um equilíbrio é difícil. Exige exatidão nas medidas e uma certa experiência ao escolher as palavras corretas, ou melhor, o vermute. Para mim, é algo quase contra-intuitivo: um vermute mais seco, no papel, parecia ser uma boa ideia, como pede a receita (dry vermouth). Mas o que mais me agradou, na prática, foi o Martini Riserva Speciale Ambrato – que fica no meio do caminho entre um vermute seco e doce.

Mas chega de subliteratura etílica. Preparem seus paladares, queridos leitores, para um coquetel inspirado em um dos mais famosos convescotes da alta cultura norte-americana. Mas muito cuidado. Porque é capaz que você goste tanto dele que o transforme em um hábito.

ALGONQUIN COCKTAIL

INGREDIENTES

  • 45ml rye whiskey (este Cão usou o Wild Turkey Rye, mas qualquer bourbon com uma boa proporção de centeio na mashbill funcionará. Se utilizar um bourbon, talvez seja uma boa ideia procurar um vermute mais seco)
  • 25ml vermute seco (ou nem tão seco assim – vide acima)
  • 25ml sumo de abacaxi*
  • taça coupé
  • parafernália para bater (shaker, strainer etc.)

PREPARO

  1. Adicione os ingredientes em uma coqueteleira e bata, com bastante gelo.
  2. desça a mistura numa taça coupé, passando por um strainer (ou peneira).

*OBSERVAÇÕES:

A receita acima foi a que mais agradou este Cão que vos escreve. Notem, porém, que a proporção pode ser simplificada para 2-1-1 em situações emergenciais.

Existe uma variação do Algonquin onde você pode macerar (isso é amassar com um pilão) o abacaxi na coqueteleira ao invés de usar o sumo. Deve-se macerar a fruta e adicionar os demais ingredientes, na proporção acima. Depois, basta coar com um strainer para remover pedaços do abacaxi.

Lembre-se que sumo de abacaxi, quando batido, cria espuma. Se não quiser um coquetel com espuma, faça o coquetel mexido, e não batido, como o da foto.