Royal Salute Estancia – Hermanos

Fiquei pensando muito tempo sobre como começar este post, cujo tema é a Argentina. Pensei em falar de futebol, do Diego Maradona e da mano de dios. Ou do Papa Francisco, que é argentino. Mas não tenho propriedade pra falar de futebol, nem de religião. Meu conhecimento de futebol se equipara a aquele de um bidê. E religião não é tão diferente.

Então, vou falar de algo que eu entendo. Comida. Ou melhor, comer. A gastronomia da Argentina é indiscutivelmente maravilhosa. Das carnes com nomes esquisitos, como ojo de bife e tapa de cuadril (que mais soa como uma manobra sexual) à medialuna. A medialuna com dulce de leche, claro. Na área dos salgados, a Argentina também marca gol. Tem a empanada. E das bebidas, dribla outras nações facilmente com seus vinhos. Especialmente Malbec.

Pra falar a verdade, a Argentina é boa também em outras coisas. No cinema, por exemplo, eles tem o Ricardo Darin, que só perde do Nicholas Cage em ser o melhor ator que mais fez filmes ruins da história. E na música, com a única sofrência aceitável, o Tango. Isso todo mundo sabe. O que pouca gente tem conhecimento é que não é só no futebol e no bandoneón que a Argentina arrasa. Eles tem também são campeões mundiais em polo equestre.

Las pezuñas de Dios

A Argentina é tão famosa no Polo que o Tommy Lee Jones – sim, o do MIB – criou um haras lá para cuidar de seus cavalos e montou uma equipe toda própria. E foi essa vocação de nossos hermanos que recebeu a última homenagem da Royal Salute em sua linha de whiskies que fazem referência ao Polo equestre. O Royal Salute Estancia, finalizado em barris de vinho malbec argentino. A terceira melhor opção, mas a única que poderia ser aceita pela SWA – duvido que um blend com um ojo de bife ou uma alofajor dentro passaria sem restrições.

De acordo com Sandy Hyslop, master blender da Royal Salute “Para esta expressão singular, integramos perfeitamente os sabores robustos e altamente reconhecíveis dos barris de vinho Malbec com nossos delicados whiskies de 21 anos – uma tarefa que requer cuidado e atenção constantes” e continua “O Royal Salute Polo Estancia Edition” é um blended whisky excepcional (…) onde apenas os melhores barris de vinho malbec argentinos foram usados para finalização. A incorporação desta finalização em vinho Malbec não apenas nos permitiu dar ao blend uma nova dimensão, mas também ajudou a contar a história do lifestyle do polo argentino de uma forma multifacetada.

Ainda que a Royal Salute não divulgue abertamente qual vinho malbec argentino foi usado, podemos especular. A marca afirma que o Polo Estancia foi totalmente finalizado em Malbecs com “terroir boutique” da região de Cafayate. Não é preciso ser nenhum Roberto Bermúdez para deduzir que, muito provavelmente, foram usadas barricas da Bodega Etchart. A vinícola pertence ao grupo Pernod-Ricard, e localiza-se justamente em Cafayate. Corroboram com a tese o fato de que eles possuem um vinho Malbec que é, inclusive, comercializado no Brasil.

Elementar, meu caro Darín

Como os demais lançamentos da série de polo, e seguindo a tradição da Royal Salute, a idade estampada na garrafa é de vinte e um anos. Ou seja, o whisky mais jovem em sua composição passou mais de duas décadas maturando em barricas. O blend, entretanto, é diferente do tradicional Royal Salute. O Polo Edition não é simplesmente um Signature Blend com uma finalização extra. O whisky foi desenvolvido do zero, para garantir harmonia com a finalização em vinho tinto.

No mundo dos blends de ultra-luxo, a apresentação é essencial – e o Royal Salute Estancia marca ponto aqui também. A garrafa, de cor terracota, se junta a um estojo ilustrado pelo artista Charlie Davis, num visual elegante mas sem afetação. De acordo com a Royal Salute, a cor escolhida representa o sol argentino brilhando sobre as estancias de polo do país. Que, aliás, caso você esteja se perguntando, são grandes fazendas onde se pratica polo equestre por lá.

Sensorialmente, o Royal Salute Polo Estancia traz o floral característico da Royal Salute, com um final mais frutado e intenso. A finalização é mais longa, e remete a frutas vermelhas e especiarias. É um whisky bem diferente da última edição da série, o Snow Polo – um blended grain extremamente leve e adocicado. Aqui, a suavidade abre espaço para um whisky mais intenso, mas, também, extremamente equilibrado – DNA de todos os whiskies da marca de ultra-luxo.

É difícil não recomendar o Royal Salute Estancia. Apesar do preço de quatro dígitos, é um blended scotch que agradará tanto o entusiasta por whiskies, que sempre busca criatividade e intensidade, quanto o consumidor mais leigo, mas que procura experiências exclusivas e luxuosas. Assim como nossos hermanos, o whisky tem múltiplas vocações. Ah, e fica perfeito também ao som de Astor Piazzolla e acompanhado de um delicioso asado.

ROYAL SALUTE ESTANCIA

Tipo: Blended Whisky
Marca: Royal Salute
País/Região: Escócia – N/A
ABV: 40%
Idade: 21 anos

Notas de prova:

Aroma: frutas vermelhas, com um fundo de mel com especiarias.
Sabor: Frutado e complexo, com frutas vermelhas, gengibre e mel. Final longo, com gengibre e baunilha.

Sobre milho – Especial Bourbon Month

Quando eu era criança, uma vez, coloquei uma espiga de milho dentro do forno do fogão ligado, sem ninguém ver. Eu queria comer pipoca e fora ignorado por meus pais, apesar de meus protestos. Não sei quanto tempo esperei – deve ter sido bem mais do que uma hora – porque o resultado da experiência foi a carbonização da espiga e consequente imolação do forno. Depois que as chamas foram controladas, fiquei proibido de comer pipoca por tempo indeterminado, e descobri que milho de pipoca é diferente do milho da espiga, que a gente come.

Quando cresci e comecei a me interessar por whisky, aprendi também que o milho da espiga que comemos também é diferente do milho do bourbon. E por sorte, dessa vez, não foi necessário qualquer empirismo. Mesmo porque secar, moer, fermentar e destilar uma espiga encontrada na feira é bem mais difícil do que botar fogo em utilidades domésticas. E é isto que vou contar para vocês hoje – como há milhares de milhos!

Vamos começar a destrinchar esta espiga com uma rememoração. Para que um bourbon whiskey possa ser assim chamado, ele deve seguir as seguintes premissas, dispostas no Code of Federal Regulations, title 27, part 5, subpart C. (i) o destilado deve ser produzido nos Estados Unidos, e sair dos destiladores com o máximo de 80% de graduação alcoólica; (ii) deve ser feito com ao menos 51% de milho; (iii) o destilado deve ir para os barris tostados (charred) e virgens de carvalho com o máximo de 62.5% de graduação alcoólica (normalmente diluído com água, para que se alcance essa quantidade limite de álcool); e (iv) deve ser engarrafado com no mínimo 40% de graduação alcoólica. 

Esqueça as demais regras para concentrar na alínea (ii). Cinquenta e um por cento ou mais de milho. Naturalmente – tá bem, talvez não tão naturalmente assim – a próxima indagação seria sobre o tipo de milho. E isso é importante. Numa analogia quiçá um pouco forçada, se você perguntar a uma vinícola sobre qual uva é usada para produzir determinado vinho, dificilmente a resposta será “uva vermelha” – e se for, melhor fugir rapidamente.

Há subespécies e nuances de uvas. E, com o milho usado na produção de bourbon whiskey, a história não é tão diferente. Nem todos os milhos são criados igualmente. O milho da espiga que comemos é distinto daquele da pipoca. Que, por sua vez, é diferente também do usado na produção de whiskey. Vamos a eles.

Variedades de milho – não seja um pamonha.

Milho doce

Milho doce (sweet corn – Zea mays convar. saccharata var. rugosa) é a variedade mais consumida por nós como alimento. Ele é resultado de uma mutação recessiva nos genes do milho, que controlam a conversão de açúcar em amido. A colheita do milho doce acontece, também, precocemente se em comparação com as outras variedades. Ele é colhido e consumido em sua “fase de leite” – quando os açúcares ainda não se converteram em amido, e o grão está mole.

O teor de açúcar do milho doce é maior do que das demais variedades. Por isso, e como você já deve ter suspeitado por conta do nome, ele é mais doce que os outros. Isso o torna perfeito também para fazer todo aquele tipo de delícia com milho que amamos, como pamonha, curau e broas. Só, por favor, tenham um pouco de bom senso e não coloquem no pastel. Milho no pastel não faz o menor sentido. Nem na pizza.

Sério, precisa?

Milho de pipoca

O milho da pipoca é de uma variedade denominada Zea mays everta. Ele é colhido maduro – ao contrário do doce. Seu cultivo é feito para que ele tenha uma pequena quantidade de umidade e óleo em seu interior, com bastante amido. Ao ser aquecido, a parte líquida de seu interior se expande, rompe a casca dura, resfria e se torna, bem, pipoca. Se você observar atentamente, notará, inclusive, que o formato dos grãos é diferente. O milho doce é mais achatado, enquanto que o milho da pipoca é arredondado.

E como nenhum assunto é suficientemente complexo, o milho da pipoca possui uma subdivisão, de acordo com a forma com que ele se torna pipoca: cogumelo ou floco de neve. Os que explodem em forma de cogumelo normalmente são usados para pipoca doce, porque são menos propensos a quebrar, e talvez fiquem mais bonitinhos coloridos. Já o que parece um floco de neve é servido salgado – em cinemas, por exemplo – porque tendem a formar uma pipoca maior.

Outros Milhões de usos

Há ainda outras variedades de milho, com milhões (pega essa) de propósitos. Há, por exemplo, o Flint Corn (Zea mays var. indurata), usado muitas vezes como ração animal e para fazer polenta – por mais específico que isso possa parecer. Ou o flour corn (Zea mays var. amylacea), que é mais mole, e fácil de moer. Por isso, é usado bastante para fazer amido de milho.

Existe também o pod corn (Zea mays var. tunicata), ou milho selvagem, que não é cultivado pra nada porque tem umas folhinhas ao redor dos grãos que deixam tudo difícil e desagradável. E também o milho peruano, conhecido como choclo, que possui grãos bem grandes, e normalmente é seco, frito e salgado, e fica uma delícia acompanhando seu bourbon preferido. Nenhum destes tipos, entretanto, é usado amplamente para se produzir whisky. Para isto, há uma variedade diferente, conhecida como Dent Corn.

Aí sim, bem-vindo no Ceviche (fonte: Saveur)

Milho de bourbon

O milho mais utilizado na indústria do Bourbon Whiskey é o Dent Corn (Zea mays var. indentata) ou, em português de uma forma cretinamente traduzida, milho dentado. Mais especificamente, yellow dent No. 1 ou 2. O nome vem do formato de seus grãos, que tem (adivinhem) uma espécie de cavidade, que lembra um dente. O Dent Corn é amplamente cultivado no Kentucky e o Tennessee, e é usado também para outros fins, além do whiskey. Como, por exemplo, para alimentar gado, fazer etanol – o combustível mesmo, não o potável – e produtos plásticos.

Dent Corn

O milho dentado possui mais amido e menos açúcar do que a variedade doce, o que o torna perfeito para ser moído e fermentado. Para tanto, ele é colhido maduro, em uma fase que seus grãos já estão secos e, normalmente, avermelhados ou amarronzados – o que torna todo o processo de transformá-lo em pó bem mais fácil, e garante que há mais amido que açúcar em sua composição.

A maioria das destilarias americanas compra seu dent corn como commodity. Isso significa que, para os grandes produtores de whiskey, a origem específica do grão é irrelevante. Contando que ele seja dent corn. Isso garante estabilidade no preço da principal matéria prima para produção da bebida. Ou, em outras palavras, garante que o milho seja sempre comprado barato, para que a produção de whiskey continue economicamente viável.

Apesar disso, muitas destilarias menores, pertencentes ao movimento das craft distilleries norte-americanas, tem resgatado variedades diferentes de milho. Como por exemplo a Firestone & Robertson, tema de uma interessante matéria para a Food & Wine , ou a famosa Widow Jane, que possui um projeto com duas variedades de “heirloom corn” – Bloody Butcher e Wapsie Valley – chamado Baby Dent. O argumento é que, primando por especificidade e não por rendimento, pode-se ter variedades de milho capazes de trazer sabores específicos à bebida.

Assim, da próxima vez que experimentar um bourbon, comer milho da espiga ou enlatado, fizer pipoca ou polenta, lembre-se que o milho tem um milhão de utilidades, mas, também, milhares de usos, com milharais distintos (gente, estou bom nisso!). E pode tudo, a única coisa que não pode é colocar milho na pizza e no pastel. Aí não, aí é muita humilhação.

Auchentoshan American Oak – Da resiliência

Mauro Prosperi teria sido apenas um policial italiano comum, não fosse seu apetite por aventura. Em 1994, se inscreveu na Marathon de Sables, uma corrida de seis dias e duzentos e cinquenta quilômetros no deserto do Saara, considerada até hoje uma das mais perigosas e difíceis do mundo. O ponto de partida é Foum Zguid e a linha final é Zagora, ambos no Marrocos. E talvez você esteja aí imaginando que o policial se tornou uma incrível subcelebridade depois de ter vencido com louvor a árdua prova. Mas não foi bem isso que aconteceu. Mauro tornou-se notável por permanecer vivo.

No quarto dia, correndo sozinho no sétimo lugar, Prosperi foi atingido por uma tempestade de areia. A tormenta foi tão forte que o obrigou a se enrolar em um cobertor, para evitar que fosse mortalmente ferido. Mas, ainda que desorientado, Prosperi estava determinado a manter seu sétimo lugar. Por isso, correu mais de trezentos quilômetros. Trezentos quilômetros na direção errada. Trezentos quilômetros, na direção errada, por nove dias. Trezentos quilômetros, na direção errada, por nove dias até atravessar a fronteira do Marrocos e chegar a Tindouf, na Argélia.

Ao perceber que estava perdido, Mauro tentou se suicidar cortando os pulsos usando uma caneta esferográfica. Mas, felizmente, graças à enorme competência de seu corpo em sobreviver, apesar do pouco auxílio do sistema nervoso central, o esforço foi infrutífero. Seu sangue tinha tão pouca água que, com a areia do deserto, aglutinou e fechou os ferimentos. Percebendo que o suicídio não seria uma opção fácil, Mario decidiu sobreviver. Depois de nove dias comendo morcegos e bebendo urina, o italiano foi encontrado por um grupo tuaregue, refugiado em uma mesquita abandonada, e resgatado.

Logo ali, pertinho!

Uma história de sobrevivência parecida, talvez, seja a da Auchentoshan, tradicional destilaria das Lowlands escocesas. A Auchentoshan foi fundada em 1823 próxima ao vilarejo de Clydebank por um fazendeiro chamado John Bullock, e sobreviveu a provações inacreditáveis para uma jovem destilaria. Em 1828 Bullock faliu, e passou a Auchentoshan para seu filho, Archibald, que faliu também um ano depois. Em 1834 ela foi comprada por John Hart e Alexander Filshie, com quem permaneceu por 44 anos. Em 1877, Filshie quase faliu, e se viu obrigado a vender a Auchentoshan para a empresa C. H. Curtis, que então a vendeu em 1903 para John & George MacLachlan. Nessa época, a taxação do scotch whisky era tão pesada que quase inviabilizava qualquer operação totalmente legalizada – as destilarias das Lowlands começaram a fechar, uma a uma.

O começo do século vinte viu a região de Clydebank tornar-se um enorme polo industrial, com um importante porto e um dos maiores estaleiros da Escócia. O que podia ter sido incrível, não fosse a Segunda Guerra Mundial. Por conta da indústria naval e de seu porto, Clyde foi incessantemente bombardeada pela Luftwaffe. Para proteger a fábrica de navios, os ingleses utilizaram um artifício curioso. Com o uso de luzes e refletores, disfarçaram a A82 – uma estrada que passa próxima à destilaria – fazendo-a parecer com o rio Clyde. O que foi ótimo para o estaleiro e péssimo para a destilaria, que foi equivocadamente bombardeada e viu mais da metade de seu estoque em maturação ir, literalmente, pelos ares.

Mas, apesar de todos os percalços, a Auchentoshan sobreviveu. E sobreviveu mantendo seus tradicionais métodos produtivos – a tripla destilação, por exemplo, atualmente raríssima não apenas nas Lowlands, como em toda Escócia. Após passar de mãos em mãos mais um par de vezes, terminou com a Morrison Bowmore Distillers Ltd., que foi comprada pela Beam-Suntory – atual proprietária da destilaria, e importadora oficial do Auchentoshan para o Brasil. O que nos leva, finalmente, ao tema desta prova. O recém lançado Auchentoshan American Oak – seu single malt de entrada, e um excelente custo-benefício.

O estaleiro de Clydebank, com o famoso Queen Mary em construção.

O Auchentoshan American Oak é o single malt de entrada da Auchentoshan, e é maturado exclusivamente em barris de primeiro uso de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Ele foi lançado originalmente em 2014 para substituir o Auchentoshan Classic. Ainda que não seja divulgado oficialmente, o timing sugere que os barris usados pela Auchentoshan sejam de Jim Beam e Maker’s Mark. Foi em 2014 que a Suntory se fundiu à Jim-Beam, e deu à empresa japonesa (e à Auchentoshan) acesso quase irrestrito à tanoaria americana.

Sensorialmente, o Auchentoshan American Oak é um single malt leve e aromático, com uma suave nota vegetal. Por conta da tripla destilação, seu new-make é pouquíssimo oleoso e congenérico, e coloca o barril em evidência. Barris, estes, que trazem notas de caramelo, mel e baunilha. Apesar de ser um whisky sem idade declarada e jovem, a maturação traz equilíbrio ao single malt, e o torna perfeito para qualquer momento em que seja socialmente aceitável beber um single malt. Aliás, talvez seja por isso que os habitantes de Glasgow tenham batizado a Auchentoshan de “breakfast whisky” ou “whisky de café-da-manhã”.

O traço mais marcante do Auchentoshan American Oak – e de sua destilaria – é, certamente, a tripla destilação. Outrora tradição nas Lowlands escocesas, o processo caiu em desuso. Tanto é que, atualmente, talvez a tripla destilação seja sinônimo de Irlanda, e não Escócia. Aliás, mesmo com o atual retorno das destilarias de single malt à região, com Rosebank, Ailsa Bay e Glenkinchie, por exemplo, a Auchentoshan é a única que destila seu wash três vezes. E não é um processo simples – não é como simplesmente colocar o resultado da segunda destilação em um terceiro alambique. Eu explico – simplificadamente, pra ninguém tentar suicídio com canetas Bic.

Alambiques da Auchentoshan (fonte: Whisky Science)

A primeira destilação acontece normalmente. O wash é carregado no wash still, que produz os tradicionais low-wines. Estes, então, são carregados no spirit still de segunda destilação. Aqui, tradicionalmente, cabeça e cauda (foreshots e feints) seriam separadas do coração. Mas, na Auchentoshan, apenas a cauda é cortada na segunda destilação. Todo produto da cabeça e do coração é então carregado no alambique de terceira destilação. E, aí sim, há o corte da cabeça. Já a cauda – aquela, da segunda destilação – é reservada, e recolocada no wash still da próxima batelada. Este processo (aparentemente) maluco tem um motivo. Economia. Redestilando a cauda na próxima carga e a cabeça na terceira destilação, aproveita-se o máximo de álcool possível, trazendo leveza e personalidade ao new-make.

O Auchentoshan American Oak está à venda em nosso país, e custa aproximadamente R$ 260 (duzentos e sessenta reais – em agosto de 2021). É um excelente custo-benefício, e um ótimo whisky tanto para os entusiastas quanto para aqueles que agora começam a provar single malts. E você nem precisa correr uma maratona ou realizar grandes percalços para experimentá-lo – apenas ter bom gosto e um leve apetite por aventura.

AUCHENTOSHAN AMERICAN OAK

Tipo: Single Malt (NAS)

Destilaria: Auchentoshan

Região: Lowlands

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Predominantemente de caramelo e baunilha, com um pouco de canela e grama cortada.

Sabor: Caramelo, mel, baunilha. Pouco oleoso, com um fundo vegetal bem interessante. Final médio, com canela, pimenta do reino e mais baunilha.

A venda no Caledonia Whisky & Co. , (e na Loja Virtual) em varejistas selecionados.

Kentucky Buck – Whiskey de bermudas.

Trinta graus. Trinta graus no meio do inverno, em São Paulo. Céu tão limpo que parece até que passaram aquele filtro do Photoshop que usavam na Playboy na década de noventa, e de vez em quando sumia o umbigo de alguma modelo. Cara, como eu odeio calor. Ainda mais um calor assim inesperado, no meio da mais deliciosa estação do ano, que é o inverno. Inverno é pra ser deliciosamente frio, cinza, nublado e taciturno.

Aliás, já que abri a porta mimizenta, tem outra coisa que me dá raiva no calor. Quando alguém chega e diz que tá um dia tão lindo, só porque faz sol e tá quente. Não tá não, meu jovem, tá um tempo desgraçado de quente, propenso a todo tipo de coisa nojenta, tipo virilha suada, proverbiais pizzas debaixo do braço, meias úmidas e mullets pegajosos pingando. Não há elegância que resista a trinta graus no inverno. Se o príncipe William duque de Cambridge morasse aqui, a indumentária tradicional seria bermuda, chinelos e litrão na mão. É, eu sei que litrão é cringe. Sabe o que mais é cringe? Passar calor.

A única vantagem desse clima incivilizado é a possibilidade de beber coisas refrescantes. O que, pra falar a verdade, nem é bem uma vantagem, porque eu posso beber coisas refrescantes no frio, e passar mais frio, que é uma delícia. Mas, enfim, é um pretexto para testar algo novo. Como, por exemplo, o ridiculamente simples Kentucky Buck. Um coquetel tão fácil, mas tão fácil de fazer que você nem vai ficar suado.

Meu sonho.

Antes, vamos a algumas informações importantes. Buck não é o coquetel em si, mas uma classe de drinks. Uma classe bem permissiva, aliás. São aqueles que consistem em um destilado (qualquer, não precisa ser whisky), ginger beer, talvez algum agente de dulçor e algum cítrico. Que pode ser limão, laranja, toranja, blood orange, chinotto, grapefruit ou seja lá o nome que você dá praquelas laranjas. Aliás, será que alguém da geração Z pode me dizer se é cringe chamar toranja de grapefruit ou o contrário?

O Kentucky Buck, no caso, leva bourbon whiskey, suco de limão siciliano, xarope de açúcar, angostura bitters e ginger beer. A receita original contém morangos. Mas como todos os morangos poderiam ser extintos da face da terra em conjunto com os frangos (leia mais sobre esse meu outro ódio clicando aqui), deixar isso como opcional, e alternativamente recomendar um elegante zest de limão siciliano. Porque o blog é meu, e o drink tem que ficar bom pra mim. Mas, tenha em mente que o coquetel original foi criado com morangos. Nada é perfeito.

Aliás o autor desta mistura refrescante foi o bartender Erick Castro, na época que trabalhava no Bourbon & Branch and Rickhouse, em São Francisco. Mais tarde, em 2013, Erick abriu seu próprio bar, o Polite Divisions. Em pouco tempo, o Kentuck Buck se tornou um drink bem conhecido, especialmente por conta de sua familiaridade de sabores – realmente, é difícil não gostar – leveza e versatilidade. Bem, sem mais enrolações, vamos à receita. Afinal, já estou suado de tanto digitar.

KENTUCKY BUCK

INGREDIENTES

  • 50ml de bourbon whiskey (este cão usou Maker’s Mark)
  • 25ml de suco de limão siciliano
  • 1 dash (isso é uma sacodida, cuidado pra não passar calor) de Angostura Bitters
  • Ginger Beer (usei London Essence. A maioria vai funcionar. Se pegar uma ginger muito doce, reduza o xarope de açúcar)
  • 15ml xarope de açúcar
  • 2 morangos com as folhinhas cortadas (respira fundo, ou não respira e deixa de fora)
  • copo alto
  • parafernália para bater

PREPARO

  1. Adicione o xarope de açúcar, limão e um morango (ou não!) numa coqueteleira. Amasse tudo, como se estivesse fazendo uma caipirinha.
  2. adicione o whisky e bastante gelo, e bata.
  3. desça a mistura em um copo alto, com bastante gelo, e complete com a ginger beer
  4. finalize com mais um morango, ou um zest de limão siciliano e um dash de Angostura Bitters.

Lagavulin 11 Offerman Edition Guiness Cask Finish – Drops

Drops são nossos posts menores, de análise ou curiosidades do mundo do whisky, e que contam com rótulos indisponíveis no Brasil – mas com alguma particularidade interessante. Para ler outros drops, clique aqui


Eu viajei pelo mundo e experimentei muitas tentativas de criar néctares agradáveis, mas é apenas esta destilação de Islay; uma pequena e carismática ilha escocesa que conquistou meu paladar. Sim, e meu coração junto.” A frase é de Nick Offerman, o ator que vive – ou melhor, que é – Ron Swanson na vida real. Offerman é um fã incondicional da Lagavulin. Tão apaixonado que criou e produziu uma série de curtas sobre sua paixão – o que, pra falar a verdade, não é tão estranho assim, eu faria o mesmo.

Ocorre que Offerman é uma celebridade. E, como uma celebridade, há a possibilidade de exercer sua paixão de uma forma pouco acessível para pessoas normais. Como, por exemplo, lançar sua própria série de whiskies em parceria com a Lagavulin. E é daí que surgiu o Lagavulin Offerman Edition: Guiness Cask Finish, tema desta prova.

Na verdade, o Lagavulin 11 Offerman Edition: Guiness Cask Finish não é a primeira colaboração entre Offerman e a destilaria de Islay, mas sim, a segunda. A primeira edição – um Lagavulin 11 anos – foi lançado em Outubro de 2019. Daquela vez, sem finalizações especiais. Apenas um single malt de uma das melhores destilarias da Escócia, produzido com todo cuidado, escolhido e curado por Nick.

O storytelling aqui é bem elaborado. Um curta-metragem estrelado por Offerman e seu pai (no mundo real!) ilustram os dois tomando Guiness. Nick recebe uma ligação emergencial da Lagavulin, que lhe explica que acabaram os barris. O entusiasta, então, resolve o problema de uma forma pouco ortodoxa – considerando a paixão do pai pela Guiness, encomenda barricas daquela cervejaria para que envelheçam seu single malt favorito. Recomendo assistir o vídeo – que leva uns dez minutinhos – e é bem melhor que esta descrição com spoilers.

Tá, talvez seja um pouco estranho ter um telefone de disco na mesa do bar.

Como você já deve ter presumido, o Lagavulin 11 Offerman Edition: Guiness Cask Finish é um Lagavulin com 11 anos de maturação, finalizado em barris de cerveja Guiness. Mais especificamente, barris utilizados pela Guiness em sua Open Gate Brewery, localizada em Baltimore, Maryland. De acordo com a Lagavulin, o single malt é uma rica combinação das “notas intensas de turfa e madeira carbonizada” provenientes do whisky, com notas mais doces de café, chocolate escuro e caramelo dos antigos barris Guinness.

Sensorialmente, o Lagavulin Offerman Edition é, curiosamente, quase um whisky didático. Todas as notas que deveriam estar lá, estão. É como se Nick pegasse em sua mão, com sua tradicional delicadeza, e explicasse. Agora, você vai perceber fumaça. Iodo e sal, com um pouco de medicinal. Agora você vai começar a sentir um sabor de chocolate, café, malte. Mais um pouquinho de fumaça, pimenta do reino – agora vá lá e faça uma cadeira de marcenaria. É incrível como a complexidade deste malte está distribuída ao longo da prova.

Infelizmente e como você já deve ter presumido, o Lagavulin 11 Offerman Edition: Guiness Cask Finish não está à venda no Brasil. Nem qualquer Lagavulin, para falar a verdade. Mas, caso você tenha a sorte de pescar um destes peixes raros – outro passatempo de Nick e seu pai – não deixe de prová-lo. É sim, um single malt endossado por uma celebridade. Mas, não daquele jeito que conhecemos. É um whisky incrível, com um storytelling capitaneado por um verdadeiro entusiasta.

LAGAVULIN 11 ANOS OFFERMAN EDITION GUINESS CASK FINISH

Tipo: Single Malt com idade definida – 11 anos

Destilaria: Lagavulin

Região: Islay

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: carvão, esparadrapo, chocolate, café.

Sabor: bastante defumado e rico. Os sabores se sucedem como em uma fila: fumaça, iodo, esparadrapo, chocolate e café. Final defumado e apimentado.

Whisky gentilmente oferecido e provado em companhia do amigo Nilo. Obrigado!

Bowmore 12 anos – Renúncias

O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre escreveu que somos livres porque podemos escolher. Mas que cada escolha é uma renúncia. Já o dinamarquês Søren Kierkegaard – aliás, não faço a menor ideia de como se pronuncia um ó cortado – delineou que é o ato de fazer escolhas que traz significado à vida. O que é bem curioso vindo de um cara cujo sobrenome é uma variação de Kirkegård, que significa cemitério em sua lingua, e que morreu aos quarenta e dois anos de idade. Mas deixemos o senso deturpado de ironia de lado.

Pela doutrina da dupla sertaneja do existencialismo Søren e Sartre, somos a soma de nossas escolhas. Não das pequenas, claro, porque você pode escolher comer um dogão um dia, miojo na outra e depois uma pizza, e isso não fará muita diferença na sua existência, exceto se continuar se alimentando estupidamente por um longo prazo. Mas, das maiores. Escolher um ofício significa renunciar a todos os outros, por exemplo. Deixar de escolher algo também, porque não tomar qualquer decisão é, na verdade, decidir pela passividade.

Nem comecem com o “te tornas…”.

Entretanto, as escolhas são limitadas por nossas possibilidades. A liberdade, para eles, na verdade não está em poder ser YOLO e sair correndo pelado no meio da Avenida Paulista cantando a música da fazendinha do Bita e os Animais. Mas de ter arbítrio, e se responsabilizar por aquilo que escolheu – e saber que correr nu em lugares públicos entoando canções infantis traz consequências. A liberdade carrega uma boa carga de responsabilidade. Por isso, algumas escolhas são terrivelmente angustiantes. Eu, por exemplo, não tive muitas dúvidas quando decidi que queria aprender violoncelo aos quatorze anos, porque não tinha muito a perder. Mas refleti por um bom tempo antes de seguir a profissão de advogado – algo que, pensando em retrospectiva, não adiantou muita coisa.

Desde que comecei a me interessar por whiskies, até agora, já fui algumas vezes indagado sobre minha destilaria favorita. E, por muito tempo, deixei de escolher. Talvez porque elegendo um, sentisse que excluiria os demais. Mas, pensando bem, o fascínio que tenho pelo destilado resida, em boa parte, nisso. Eu posso escolher um preferido – isso não me impede de apreciar os outros. É uma escolha sem muitas consequências. Então, está aí. Pela primeira vez, escrito aqui, neste Cão Engarrafado, notícias de ontem. Minha destilaria favorita é Bowmore. E ela acaba de desembarcar no Brasil com seu Bowmore 12 anos – o tema desta prova.

O Bowmore 12 anos é maturado principalmente em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. E ainda que a influência vínica pela qual os Bowmore sejam admirados não esteja lá – ao menos não escancarada – o Bowmore 12 anos traz a mesma genética de sofisticação de seus irmãos mais maturados. A palavra de ordem, aliás, parece ser sofisticação, e não intensidade. Ele é indiscutivelmente um single malt de Islay. Todas as credenciais estão lá: enfumaçado, medicinal e iodado. Mas, há também espaço para que o barril brilhe, e um equilíbrio que perigosamente te convida para o próximo gole.

O malte usado no Bowmore 12 anos é produzido em boa parte na própria destilaria. Ela é uma das únicas da Escócia que mantém ativos seus malting floors. E ainda que não seja autossuficiente em seu processo de malteação – parte dele é comprado da Port Ellen Maltings – aproximadamente 40% de toda cevada utilizada é malteada sob seu teto. O malte é turfado a a 25 partes por milhão de fenóis – quase cirurgicamente no meio do caminho entre Ardbeg e Laphroaig e os amenos Bunnahabhain e Bruichladdich.

Vamos a alguns fatos para geeks. A fermentação da Bowmore leva entre quarenta e sessenta horas, e produz um wash (mosto fermentado) com 7% de graduação alcoólica. Os alambiques de primeira destilação são carregados com 65% de sua capacidade. Já os de segunda destilação – à moda da Lagavulin – são quase inteiramente preenchidos: 92% de sua capacidade total. A destilação é rápida (7 horas). O corte começa aos 74% e termina aos 61,5%. Os braços dos alambiques são retos, com pouco refluxo. Tudo isso contribui para um destilado bastante oleoso, e com um caráter vegetal que este Cão absolutamente idolatra.

Washbacks da Bowmore

A fermentação da Bowmore acontece até hoje em washbacks de pinho. São cinco ao todo. Cada um, batizado com o nome de um fundador da destilaria. Na década de oitenta, a Bowmore tentou trocar seus washbacks por versões de aço inox. Mas, notando que havia uma sensível diferença de sabor, voltaram aos tradicionais tanques de fermentação. Diz-se que parte do caráter frutado e vegetal presente no new-make da Bowmore advém, justamente, da maturação em tais washbacks.

O Bowmore 12 anos começa a ser vendido no Brasil em Agosto de 2021, e o preço proposto é de R$ 420,00 (quatrocentos e vinte reais). O que parece um valor razoável, considerando o preço dos demais single malts de Islay disponíveis em nosso mercado. Seja como for, experimente o Bowmore 12 anos. Afinal, de acordo com Kierkegaard , são essas escolhas que trazem (um excelente) significado à vida.

BOWMORE 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos.

Destilaria: Bowmore

Região: Islay

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: turfado, defumado e iodado. Aroma vegetal.

Sabor: Início defumado e seco, com caramelo e baunilha. Herbal, com pimenta do reino, fumaça e esparadrapo.

A venda no Caledonia Whisky & Co. em dose e garrafa.

Old Parr 18 anos – Iguaria

Recentemente, um grupo de comensais elegeu uma iguaria islandesa, conhecida como hákarl, como a pior comida do mundo. Um dos corajosos provadores inclusive, disse que aquilo era “a pior coisa que eu já coloquei na minha boca“. Sem julgamentos de valor aqui. Ainda que eu nunca tenha provado, as descrições menos sintéticas fazem alusão a palavras pouco convidativas à mesa, como podre, ácido, putrefeito, urina e – brilhantemente em minha opinião – cocô. O que não é surpreendente. Hákarl faz parte do Þorramatur – o prato nacional da Islândia – e é feito de tubarão podre. Mais especificamente, o tubarão-da-groenlândia. Que possui carne venenosa devido à alta concentração de ácido úrico. É este processo de putrefação e cura que o torna (discutivelmente) consumível.

O tubarão-da-Groenlândia não é lá um bicho muito aprazível quando preparado como alimento. Mas, é menos ainda quando encontrado vivo. Suas barbatanas são pequenas, atrofiadas e cheias de marcas. O couro é áspero e irregular. O maxilar protuberante faz com que os dentes fiquem à mostra, e parasitas asquerosos se penduram em seus olhos e se alimentam de sua córnea – que aliás não servem para muita coisa além de reforçar já um ar repulsivo. Mas, apesar de tudo isso, o tubarão da Groenlândia é um bicho espetacular. Especialmente, por conta da longevidade.

Eu imagino um islandês dizendo “nossa, isso deve ficar uma delícia podre”. Gente.

Cientistas já sabiam que o tubarão-da-groenlândia era um bicho bem longevo. Mas, depois de um estudo aprofundado – com mais de vinte indivíduos – fizeram uma descoberta extraordinária. Ele é, provavelmente, o animal com maior expectativa de vida do mundo. O estudo mediu o nível de carbono-14 nas fibras das lentes oculares destes animais e descobriu que o maior deles – uma fêmea – tinha meio milênio de idade. E como se só isso não fosse incrível o suficiente, aprenderam que estes tubarões atingiam a idade reprodutiva apenas aos cento e cinquenta anos. Gente, sério, imagina esperar cento e cinquenta anos para, bem, enfim. Esqueçam.

Tudo bem que números como estes prescindem explicações. Mas, a história fica ainda mais esquisita quando pensamos que Thomas Parr – um homem conhecido por ser o mais longevo da história – faleceu aos cento e cinquenta e dois anos e nove meses. Se fosse um tubarão-da-Groenlândia, Parr esbarraria apenas na maioridade. Mas, como um homem, teve uma vida incrivelmente longa. Diz-se que seu segredo – assim como o dos tubarões – era a de ter poucas restrições alimentares. E tomar pouco banho, que lhe trazia um aroma próximo àquele do hákarl. O que não o impediu de ter um caso extraconjugal ao fazer um século de idade.

Por conta de sua longevidade, Thomas Parr – outrora um camponês comum – tornou-se uma celebridade. Logo antes de falecer, viajou para Londres, para conhecer o rei Charles I e foi tratado como um espetáculo. Adquiriu tamanha notoriedade que, após seu (cada vez mais improvável) falecimento, foi sepultado na abadia de Westminster – reservada para pessoas de grande proeminência na história britânica, como monarcas, primeiros-ministros, atores e cientistas. Parr também recebeu diversas homenagens. Dentre elas, uma de singela significação para os apaixonados por whisky. O blended scotch Old Parr – da qual o Old Parr 18 faz parte.

Depois de 152 anos, por que parar?

O Grand Old Parr foi lançado em 1871 pelos irmãos James e Samuel Greenlees, conhecidos comerciantes de bebida do século dezoito. Batizar seu mais importante blended whisky de Old Parr ressaltaria o tempo de maturação do produto, algo que, na época, era considerado sinônimo de qualidade – o que hoje é bem discutível. Após uma série de fusões e aquisições, o Grand Old Parr passou a fazer parte do portfólio da Diageo, a gigante por trás também da Johnnie Walker. Que mais tarde estendeu a linha e lançou o Old Parr 18 anos – antes conhecido como Old Parr Superior.

Em 2019, o Old Parr Superior passou por um rebranding, perdeu sua alcunha e colocou a idade em evidência. A garrafa, antes fosca, passou a ser a mesma de seu irmão mais jovem, o Old Parr 12 anos, e ganhou uma textura mais brilhante. O whisky passou a ser conhecido simplesmente como Old Parr 18 anos. O perfil do blend, entretanto, de acordo com a informação oficial, permaneceu inalterado – inclusive pelos seus malts base, que são Cragganmore e Glendullan. A diferença ficou por uma discreta redução na graduação alcoolica, de 43% para 40% – algo que, convenhamos, é uma tendência absolutamente natural do mercado de whiskies atual.

Em 2007 um importante jornalista internacional especializado em whisky escolheu o Old Parr Superior como whisky do ano, atribuindo-lhe uma nota de noventa e sete pontos. Nas palavras do especialista, o whisky era capaz de “incorporar muitas características distintas e criar algo único (…). Ele tem complexidade incrível, e é exatamente isso que um blend deve ser“. Outros, definiram o whisky como “extremamente enfumaçado“. Se este for o caso, e com toda vênia, meu olfato canino é pior que a visão do tubarão-da-Groenlândia.

Old Parr Superior

O Old Parr 18 me pareceu um whisky complexo – tudo bem – mas com defumação extremamente discreta. Ele é menos defumado e agressivo, inclusive, que seu irmão mais novo – o Old Parr 12 anos. E ainda que a complexidade esteja lá, ela advém, especialmente, da madeira. A maturação está claramente em evidência no Old Parr 18 anos, em detrimento de quaisquer características sensoriais trazidas pelo new-make. Inclusive a turfa. A nota predominante é a de nozes, com frutas cristalizadas e açúcar mascavo. O final que é apenas sensivelmente enfumaçado.

Um ponto importante a respeito do Old Parr 18 anos, e que não deve ser olvidado, é seu preço. O whisky custa, em média, 300 reais (em Agosto de 2021). É um preço espetacular para um blend com essa maturação. Quase tão espetacular quanto um bicho horroroso que vive meio milênio. E um custo-benefício excepcional para quem busca um whisky bastante maturado, complexo e fácil de ser bebido. Nada de notas improváveis e sabores desconcertantes e escatológicos. Ao contrário de hákarl, apenas um blended scotch whisky de perfil sensorial agradável e perfeito para quase qualquer situação.

OLD PARR 18 ANOS

Tipo: Blended Whisky
Marca: Old Parr
País/Região: Escócia – N/A
ABV: 40%
Idade: 18 anos

Notas de prova:

Aroma: caramelo, frutado e amadeirado.

Sabor: Nozes, madeira, frutas cristalizadas. Final longo e levemente enfumaçado.

Affinity Cocktail – Semelhança

Você já reparou como às vezes dois filmes praticamente idênticos estreiam quase ao mesmo tempo? Às vezes, isso é maravilhoso, porque os dois são ótimos. Tipo Failsafe e Doctor Strangelove. Outras vezes, um é melhor que o outro, como Braveheart – que é um clássico – e Rob Roy. Que não é realmente ruim. Mas podia focar menos no Liam Neeson satisfazendo sua esposa na grama, e mais na história da Escócia.

E em outras situações, todos são ruins mesmo. Muito provavelmente porque a ideia era péssima já no começo, e a turma entrou numa espécie de delírio e esforço coletivo para tornar a vida dos cinéfilos um pouco mais miserável. Como com O Inferno de Dante com Volcano. Ou Striptease e Showgirls (desculpa, Verhoeven, você é ótimo!). Ah, e aqueles quatro – sim, gente, quatro – filmes sobre meteoros que ameaçam acertar a Terra. Num deles todo mundo morre, no outro o Bruce Willis explode o asteroide por causa da Liv Tyler e nos outros eu nem lembro o que acontece. Só vem, meteoro.

O fenômeno, aliás, tem nome. Twin Movies, ou, Filmes Gêmeos. E não é coincidência, transmissão de pensamento ou uma espécie de reiki aplicado ao cinema. Mas o resultado de espionagem, conversas entre pessoas de diferentes estúdios ou distribuição de um mesmo roteiro para várias empresas. O que resulta em uma corrida para produzir e distribuir o filme para o público. Ou, simplesmente, são filmes iguais baseados no mesmo filme anterior. Porque o que mais tem na indústria do cinema é originalidade.

No shit, Sherlock.

O coquetel Affinity é, de certa forma, como um desses filmes. Ele é parecido com uma porção de outras misturas, como o Rob Roy e o Perfect Manhattan. Aliás, é bem provável que você, querido leitor e entusiasta de coquetelaria, tenha numa noite de ébria criatividade reinventado o Affinity. Eu sei, porque eu já fiz isso. Lá, depois do segundo coquetel, a gente fica criativo, e começa a pensar poxa, e se eu fizer um Perfect Manhattan com um scotch docinho, deve ficar bom. Em nome de Thomas, Baker, Coleman e Dale, vou virar uma lenda quando divulgar isso daqui.

Acontece que – assim como o cara que em 2018 resolveu filmar a história de Robin Hood pela enésima vez – estamos pouco mais de um século atrasados. O primeiro registro é uma matéria do Washington Post de 1907, que dizia “Há um novo coquetel na Broadway. Eles o chamam de Affinity. Depois de beber um, os provadores sobreviventes declararam que o horizonte adquire um tom rosado; já o segundo traz Wall Street para frente e para o centro, oferendo a você uma quantidade de lã reluzente de cordeiro (seja lá o que significar isso…); e quando você termina o terceiro, a grama cresce ao seu redor, passarinhos começam a cantar nas árvores de figo e a afinidade aparece.

Mas, a parte mais interessante vem depois. Que é a receita original “esta nova ambrosia contém os seguintes ingredientes: uma colher de chá média de açúcar de confeiteiro, uma pitada de bitters de laranja, uma dose de uísque escocês e meia dose de vermute italiano. Estes são batidos em gelo picado, como um coquetel, até ficarem bem misturados e resfriados, então coados e servidos rapidamente.” Essa receita – e perdão pela ironia cretina – tem pouca afinidade com a atual. Que, se baseia naquela divulgada por Harry Craddock no clássico The Savoy Cocktail Book de 1930. E que, por sua vez, deve ter bebido (gente, estou muito criativo hoje mesmo!) da mesma fonte, ou inspirado, a receita de David Embury, divulgada em seu “The Fine Art of Mixing Drinks“.

Não é mais uma versão do médico de Frankenstein. É Craddock.

A diferença principal entre a receita de Craddock e Embury é a proporção. O primeiro sugere partes iguais dos três ingredientes principais. Já o segundo, uma (caprichada) prevalência de scotch. O que sugere, na realidade, que o equilíbrio deve ficar por conta do paladar do bartender por impromptu. Caso prefira um coquetel com a base mais aparente, aumente a proporção do whisky, como fez Embury. Entretanto, se preferir navegar para longe dos dois clássicos e testar algo mais vínico e licoroso, vá de partes iguais – à moda de Craddock.

Bem, sem mais plot twists, vamos à receita. De Craddock – porque ninguém precisa de mais uma versão filmada de Guerra e Paz.

AFFINITY COCKTAIL

INGREDIENTES

  • 30ml de scotch whisky – escolha um scotch adocicado, como um Chivas Regal 12 anos.
  • 30 ml de vermute tinto
  • 30 ml de vermute seco
  • 2 dashs de angostura
  • zest de laranja (isso é uma fatia da casquinha da laranja)
  • Parafernália para misturar (mixing glass, bailarina etc.); ou
  • parafernália para bater (shaker, strainer etc.)

PREPARO

Batido, e não mexido? Aqui a máxima do espião menos secreto do mundo (aliás, quanto filme que copia ou satiriza Bond, não?) faz sentido. O Affinity pode ser batido ou mexido. A técnica usada dependerá, essencialmente, de seu gosto. Ainda que faça mais sentido mexer – afinal, você vai aerar bebidas que não se beneficiam muito disso – talvez, apenas para dar contraponto, faça sentido batê-lo. Só para ficar um pouquinho diferente. Este é o conselho também dado pelo Difford’s Guide.

  • Batido: adicione tudo na coqueteleira (menos a parafernália para misturar) e bata com bastante gelo. Desça em uma taça coupé previamente refrigerada e decore com o zest de laranja.
  • Mexido: adicione tudo num mixing glass (menos a coqueteleira, gênio) e mexa, com bastante gelo. Com o auxílio de um strainer, ou coador, desça em uma taça coupé previamente refrigerada e decore com o zest de laranja.

Como (não) escolher um whisky – Do Storytelling

Este, talvez, seja o post mais metalinguístico já escrito neste blog. Há alguns anos, uma marca conhecida de sorvetes recebeu um puxão de orelha abstrato por conta da história estampada em suas embalagens. História que, para usar um eufemismo, eram uma versão alternativa da verdade, com personagens fictícios. Tipo aqueles filmes como Rain Man e American Hustle – que aconteceram mais ou menos daquele jeito, mas com gente mais feia. Só, que no caso da tal fabricante de picolés, não tinha a Amy Adams e o Tom Cruise.

Enfim, aconteceu que, após a revelação de haver poucos pontos de tangência entre a realidade e a história do antepassado do fundador, a empresa achou melhor tirá-la do ar. Apagou a memória do velhinho que jamais existiu, deu uma explicação semelhante àquela que minha filha quando tenta explicar por que não fez a lição de casa e seguiu em frente. Mas, do caso, extrai-se uma lição óbvia – contar uma história, de preferência uma com lampejos de verdade, é importante. E não só com picolés. Em tudo, na verdade. Quando enrolo você, querido leitor, por três breves parágrafos com algum assunto aleatório antes de falar sobre determinado whisky, quero, na verdade, afinar o tom da prova por meio daquela analogia.

Ou isso.

Com whiskies, este storytelling é importante também. Não se trata apenas de uma historinha bonitinha, romantizada, que irá lubrificar seu interesse e fazer com que escolha uma garrafa em detrimento de outra. Bem, é isto também, e o resultado final é este. Mas, na verdade, é bem mais. É a coisa mais essencialmente humana que há – identificação. Quando você escolhe uma garrafa de Bruichladdich porque eles são obcecados por terroir – mas assumem que padronização não é o forte – ao invés de um The Macallan, que fala sobre padrão de qualidade e luxo, há um julgamento de valor. Ou não também, porque às vezes você é só um maluco que pensa que degustar é um numbers game.

Na maioria das vezes, há um juízo. Um juízo baseado em conhecimento ou identificação. A paixão por whiskies raramente é algo racional – fosse assim, beber qualquer coisa funcionaria bem. Pelo contrário, ela trata de experiências e conceitos. Você pode gostar de The Glenlivet por ter sido uma das destilarias pioneiras da Escócia, ou dos blends da Suntory por terem introduzido o whisky no Japão. Pode gostar de Bruichladdich pela transparência, e de Springbank pela autenticidade e ligação com os métodos mais artesanais e tradicionais de produção. Storytelling pode ser um papo vazio de marketing, claro. Mas, pode também, transmitir valores reais, que contextualizam aquilo que está no seu copo.

E há, também, aqui, a faceta pessoal. Você pode ser apaixonado por determinada destilaria por algum episódio significante em sua vida. Eu, por exemplo, tenho uma leve queda por Lagavulin, por ter sido o whisky que fez minha cabeça rodar – literalmente – e consolidou minha paixão por whiskies. E Bowmore, claro, como vocês sabem, que me surpreendeu absurdamente durante uma visita à destilaria, e, mais tarde, se mostrou um dos maiores ícones do meu estilo favorito de whisky. Os vínicos e turfados.

A história pode ou não envolver submarinos.

E é por isso também – veja bem, este não é um sofismo – que degustações às cegas geralmente não funcionam. Degustações às cegas servem para remover preconceitos infundados. Como, por exemplo, que whiskies sem idade declarada são todos engodos, ou que blends são piores que single malts. Mas, por focarem totalmente no líquido, removem boa parte da paixão. Um whisky de oito anos maravilhoso é muito mais admirável do que um single malt de três décadas sensorialmente incrível. Na verdade, é como gente – ninguém assistiria aquele programa do Raul Gil cheio de criança se isso fosse mentira.

Simplificando (mas não muito): há um discurso que justifica aquilo que você está para beber. Um whisky no copo é muito mais do que uma combinação de congêneres, etanol, água e talvez E-150. É a culminação do trabalho, conhecimento e posicionamento de todo um grupo. O storytelling, ouso dizer, é metade de toda a importância. Jamais uma história inflamada de qualquer entusiasta começou ou terminou com “eu bebi um whisky extraordinário outro dia em casa, mas, não faço a mais rasa ideia do que ele seja, de onde ele veio ou de seu sabor.” É a pesquisa, o conhecimento e o interesse que valem.

Há, entretanto, uma ressalva. Assim como no caso dos whiskies sem idade declarada (NAS) e quase tudo na vida, o discurso pode ser usado para o bem ou para o mal. Produzir um single malt turfado, sem filtragem a frio e cuja cevada e barris podem ser rastreados até a última gota é algo extraordinário. Assim como manter a qualidade e padrão sensorial de um blend com mínimo de vinte e um anos de idade.

Calma!

O que não é nem um pouco extraordinário é inventar uma historia qualquer que não tenha qualquer relação com a verdade – ou utilizar artifícios linguísticos como “premium” e uma porção de outros que não vem ao caso. Estampar atores ou fazer garrafas em forma de submetralhadora também. A não ser que, claro, o artista seja um grande entusiasta de determinado whisky, como o Nick Offerman com Lagavulin.

Resume, por favor.

Na verdade, tudo se resume a uma única palavra. Autenticidade. O storytelling é importantíssimo. Ele é a razão pela qual escolhemos uma garrafa, e, muitas vezes, o motivo de nossa admiração. Mas, ele, sozinho, não vale. O argumento deve se sustentar sob escrutínio. Todos nós conhecemos a história daquele bourbon que foi criado pelo bisavô de certo empresário, mas na verdade o bisavô sequer existiu – quer dizer, existiu, porque todo mundo tem bisavô, mas não daquele jeito. Ou o rye whiskey feito numa destilaria que não existe, porque é comprado da MGP.

Assim, meu caro leitor, deixe-se levar pela emoção. Ou pela razão, claro. Não escolha apenas pelo sabor. Escolha com base em sua experiência, em seu conhecimento, e em seus valores. Escolha pela afinidade – seja ela qual for. Não há nada mais esclarecido do que isto.

Union Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish Signature Series

Uma vez me disseram que, quando explico meu amor por whiskies para uma pessoa normal, pareço um pouco um entusiasta de metais de banho justificando as maravilhosas inovações de um chuveiro recém-lançado. Realmente, me parece um tanto sonífero ouvir sobre os grandes avanços tecnológicos da nova Lorenzetti. E eu devo ser muito chato, porque whiskies não são minha única paixão impopular e inexplicável. Tenho outras também. Como, por exemplo, dirigir. Eu amo dirigir.

É inexplicável, mas eu vou tentar. Ainda que uma extensão de asfalto livre seja essencial, não é nem dirigir rápido que eu gosto. São as pequenas coisas. Trocar a marcha na rotação exata para que o automóvel deslize sem qualquer balanço perceptível. Frear e acelerar precisamente no traçado de determinada curva. E ouvir música. Não há momento melhor para ouvir a discografia inteira da sua banda preferida do que ao fazer uma longa viagem dirigindo. É quase catártico.

Exceto quando a natureza chama.

Aliás, recentemente me vi voluntariamente obrigado a fazer um percurso relativamente longo. Quase nove horas num bate-volta para uma cidade do interior de São Paulo – totalmente sozinho, sem cã e cãezinhos. Como trilha sonora, escolhi uma banda a altura da peregrinação – Rolling Stones. É óbvio, eu sei, mas poucos grupos teriam um repertório tão extenso e variado. É quase como – transportando a analogia para minha paixão etílica – a destilaria Union, com seus três lançamentos da série Signature Wine Cask.

E a idade da banda também é bem comparável àquela da destilaria. A Union tem mais de sessenta anos na produção de destilados. Atualmente, sua linha permanente conta com quatro whiskies. Um blend e três single malts – Pure Malt, Pure Malt Turfado e Pure Malt Extra-Turfado. Em 2020, lançaram também uma edição limitada, precursora da linha Autograph – o Union Virgin Oak . E, agora, acabam de divulgar mais três – limitadas a 1.100 garrafas cada. Versões finalizadas em barris de vinho de seus whiskies de linha. Dentre eles, está o Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish.

Os new-make que compõe a linha dos Wine Cask Finish foram destilados na unidade de Veiranópolis da Union – a nova unidade, de Bento Gonçalves, começou a produção somente em 2015. De acordo com Luciano Borsato, diretor executivo da Union os “malte turfado e extra-turfado (que são usados de base para os whiskies) são importações que fazemos do norte da Escócia, sob especificação”. Para o Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish, a medida de fenóis no malte é de quarenta partes por milhão (40ppm), intermediária entre a especificação da Talisker (20ppm) e Ardbeg (55ppm) – a mesma do Extra-Turfado de linha.

O processo de maturação e finalização do Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish ocorre em barris de carvalho americano. Primeiro, o new-make matura em barris second-fill de ex-bourbon. Depois, é transferido por um prazo não especificado pela Union para barris de carvalho americano de ex-vinho tinto. A idade estampada no rótulo é a do componente mais jovem. Oito anos. Este processo de finalização – transferência do whisky para um barril de natureza distinta – aumenta a complexidade sensorial do whisky. O whisky é engarrafado com 46% de graduação alcoólica – três por cento a mais do que o Extra-Turfado de linha.

Sensorialmente, o Union Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish é enfumaçado, com notas de frutas vermelhas e pimenta do reino. E ainda que o malte turfado esteja em primeiro plano, a influência vínica é notável. O whisky é mais leve, frutado e arredondado que o Pure Malt Extra-turfado tradicional, e menos salino também. A finalização é mais longa – justamente ai que o emprego das barricas de vinho fica mais evidente. É um whisky que traz uma complexidade surpreendente, ainda mais considerando sua idade e país de origem.

Extra-Turfado

Eu poderia, aqui, recomendar a compra do Union Pure Malt Extra Turfado Wine Cask Finish. Mas sei que isto é uma redundância. É como o mais singelo prazer de dirigir e ouvir boa música. Para entusiastas como nós, querido leitor, este é um lançamento que prescinde quaisquer explicações.

UNION PURE MALT EXTRA TURFADO WINE CASK FINISH (AUTOGRAPH SERIES)

Tipo: Single Malt

Destilaria: Union Malt

País: Brasil

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: enfumaçado, adocicado e maltado. Frutas vermelhas.

Sabor: defumado, medicinal e frutado. Corpo médio. O final é progressivamente menos enfumaçado e mais frutado.

Onde encontrar: Caledonia Whisky & Co.