Drops – AnCnoc Blas

Guardamos relação sentimental com uma porção de coisas. Aquele carro que nos acompanhou numa viagem incrível, aquele filme que assistimos com certa companhia especial e aquela música que pautou algum grande desafio. Não é necessariamente algo bom ou ruim. Mas é uma sensação de que aquilo é especial somente para você, por mais prosaico que possa aparentar para todas as outras pessoas. São aquelas coisas que participaram de momentos de epifania, ou que marcaram alguma passagem em nossas vidas.

Um dos whiskies que guarda espaço especial em minha memória etílica é o AnCnoc. O AnCnoc foi meu predileto na degustação mais importante que participei em minha primeira viagem à Escócia.  Fiquei tão impressionado que a última coisa que fiz, vinte minutos antes de embarcar de volta para o Brasil, foi correr em uma loja do Duty Free para levar uma garrafa para casa – um AnCnoc 16 anos.

Naturalmente, imaginei que com o tempo e depois de provar outros maltes, a sensação se dissiparia. Mas, na verdade, ela se manteve. Depois daquele 18 anos, tive mais umas quatro garrafas diferentes. E gostei de todas elas. Todas guardavam a mesma característica de suavidade, de uma oleosidade quase de manteiga derretida, que me fascinava. Mas a minha preferida dentre todas é este AnCnoc Blas – cujo nome significa “sabor” em gaélico.

O AnCnoc Blas é uma versão turbinada – em uma palavra mais técnica, Cask Strength – do clássico perfil de sua destilaria. Que, aliás, não se chama AnCnoc, mas sim Knockdhu. A incomum diferença entre o nome do whisky e da destilaria possui uma razão bem clara. É para evitar que os ébrios amantes de whisky o confundam com a Knockando, outra destilaria, cujos whiskies se chamam também Kockando.

A Knockdhu localiza-se em Aberdeenshire, nas Highlands escocesas, e possui uma impressionante e variada gama de expressões. Há whiskies sem idade – como o Blas – e outros bastante maturados, como um incrível 25 anos. Há também edições especiais turfadas, que possuem diferentes níveis de defumação. A destilaria é bastante versátil e, na opinião parcial deste canídeo,  uma das mais injustiçadas da Escócia, juntamente com a Ben Nevis.

O AnCnoc Blas é uma edição especial da Knockdhu, em colaboração com o estilista escocês Patrick Grant. Se você acha esquisito que um estilista tenha se envolvido na produção de um single malt, eu explico. É que Grant ficou responsável por ilustrar a embalagem e o rótulo do whisky. Segundo o desenhista, “passei bastante tempo na Knockdhu, não apenas observando a paisagem e os arredores, mas conhecendo as pessoas que trabalham lá e os métodos que utilizam. Tudo na gravura é da montanha, da vila de Knock ou de dentro da destilaria, e conta a história da produçao do Blas. Eu tentei interpretar a história e tradição da AnCnoc de uma forma moderna, e espero que isso tenha sido traduzido pela estética da garrafa”.

Patrick e o Blas

Não é a primeira vez que a Kockdhu se une a uma personalidade para uma colaboração improvável. Outras edições limitadas da destilaria contaram com ilustrações de Peter Arkle, conhecido ilustrador escocês. Mas se você acha que todo esse papo de desenho é uma besteira, acalme-se. O AnCnoc Blas não é diferente apenas em sua roupagem. Como mencionado acima, ele é engarrafado diretamente do barril, sem qualquer diluição, e possui 54% de graduação alcoólica – algo bem incomum para os AnCnocs.

Talvez eu esteja exagerando. Talvez o AnCnoc Blas seja apenas mais um bom whisky, dentre tantos whiskies bons. Talvez ele tenha se beneficiado de um momento extraordinário. Afinal, é mais fácil apaixonar-se na Escócia do que na sala de casa. Mas é justamente esta dúvida, esta sensação de que ele é melhor para mim do que para todo mundo, que o torna ainda mais especial.

ANCNOC BLAS

Tipo: Single malt sem idade definida

Destilaria: Knockdhu

Região: Highlands

ABV: 54%

Notas de prova:

Aroma: Mel, baunilha, castanhas caramelizadas.

Sabor: Frutado, levemente cítrico, com mel, baunilha e capim santo. O final é adocicado e muito suave.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais

Seis whiskies que fazem muita falta no Brasil

Hiraeth. Não poderia começar este post de outra forma, senão por hiraeth. O correspondente galês de nossa intraduzível saudade. Mas com um significado extra. Hiraeth também se refere àquele vazio existencial causado pelo desejo de algo que você jamais teve. As saudades que um filho único sente de seu irmão que jamais nascera. Ou que eu tenho de possuir um Bowmore 1957 de 54 anos. Ah, que me falta faz esse Bowmore.

De certa forma, hiraeth é um sentimento um pouco paradoxal. É a nostalgia de tudo aquilo que não vemos e não podemos ter. Mas pior que ela, é mesmo aquela saudade de algo que já tivemos, mas que acabou. Um amor, uma época da vida. E claro, uma garrafa de whisky. Aquela, que trouxe de uma viagem, e que bebi sofrendo a cada gotinha que escorria no copo à medida que a garrafa esvaziava.

Como um brasileiro apaixonado por whiskies, devo dizer que exerço bastante esse sentimento. Vontade de provar de novo um rótulo que já tive. Ou de poder abrir um que jamais provei, mas que não posso, porque ele simplesmente in existe em nossas terras.

Neste post, selecionei seis especiais. São aqueles que já tivemos mas foram embora, ou que jamais desembarcaram por aqui. Mas deveriam. Acompanhe-me, querido leitor, nesta jornada de nostalgia, e vamos passar vontade juntos.

LAGAVULIN 16

Não poderia começar a lista de outra forma. O Lagavulin é um clássico absoluto dos single malts, e talvez o mais nobre e proeminente representante de Islay e seus whiskies enfumaçados e medicinais. Assim como para muitas pessoas, foi ele o responsável por acender minha paixão por whiskies.

Infelizmente, por algum motivo que foge à lógica deste Cão, o Lagavulin 16 anos não está à venda em nosso país. Sua proprietária, a Diageo, prefere trazer whiskies com preço de combate e sabor amável, por talvez imaginar que, nós, brasileiros, possuímos paladar doce e pouco desenvolvido para single malts. E nem adianta argumentar sobre o preço. Se há um whisky capaz de se vender sozinho, independentemente de seu valor, é o Lagavulin. Quiçá no futuro.

SPRINGBANK (LONGROW & HAZELBURN)

A Springbank possui status de malte cult entre os entusiastas, e suas edições limitadas praticamente sublimam das estantes, quase instantaneamente depois de terem sido lançadas. É também uma das únicas destilarias independentes de toda a Escócia, e uma das poucas que realiza todo o processo – da maltagem ao engarrafamento – totalmente em casa. Eles possuem três linhas diferentes de single malts. Springbank (levemente defumado), Longrow (indiscutivelmente defumado) e Hazelburn (triplamente destilado).

Longrows

A Springbank é uma das únicas três destilarias sobreviventes de Campbeltown, cidade que fora, por muito tempo, considerada a capital mundial do whisky. A região, que chegou a contar com trinta e quatro destilarias durante a década de cinquenta, hoje possui apenas três delas. As outras duas são Glengyle e Glen Scotia. Infelizmente, o sucesso da Springbank é tanto que sua produção está absolutamente alocada, e não há planos para vir para terras tupiniquins. Ao menos por enquanto.

BUFFALO TRACE (EAGLE RARE & BLANTONS)

Eagle Rare

A Buffalo Trace é uma das maiores destilarias de todos os Estados Unidos, e é responsável por marcas de renome, como George T. Stagg, E. H. Taylor, W. L. Weller, Sazerac Rye, a preciosíssima linha de Pappy Van Winkle e os Blanton’s e Stagg. Jr. Um de seus bourbons mais queridos – e com custo benefício fantástico em sua terra natal – é o Eagle Rare. Ele foi o único whiskey a conseguir cinco medalhas de duplo ouro na San Francisco Spirits Competition, sendo que três delas foram concedidas em anos consecutivos – de 2003 a 2005.

Infelizmente, nenhum Buffalo Trace desembarca no Brasil. Nem mesmo os mais humildes. A marca não possui contrato com qualquer importadora, e nenhuma representação em nosso país.

COMPASS BOX

A Compass Box Whisky Co. foi criada por John Glaser, executivo que antes trabalhou como diretor de marketing na Johnnie Walker. Glaser resolveu abandonar a empresa e fundar sua própria marca, dedicando-se a produzir apenas whiskies de altíssima qualidade, especialmente blended malts. Atualmente, a empresa possui cinco expressões em seu portfólio permanente (Asyla, Oak Cross, Hedonism, Spice Tree e Peat Monster), além da linha Great King Street. Além disso, constantemente lança edições limitadas especiais. E são todos uma delícia.

Edição Limitada The Lost Blend

Apesar de serem facilmente encontráveis em países vizinhos, como a Argentina, a Compass Box nunca desembarcou em nosso país. Sorte minha: entraria em insolvência instantânea tentando comprar todas as garrafas que encontrasse, especialmente de seu Peat Monster.

SUNTORY (HIBIKI, YAMAZAKI, HAKUSHU)

A Suntory, fundada na década de vinte por Shinjiro Torii, um japonês maluco que resolveu que produziria whisky no Japão. Atualmente, a empresa é a maior produtora da bebida naquele país, e tem sob seu guarda-chuvas os incríveis Yamazaki, Hakushu, Kakubin, Toki e Chita, para citar alguns. Os produtos são mundialmente reconhecidos, e foram também os principais responsáveis pela febre de consumo dos whiskies japoneses ao redor do globo.

Alguns produtos da Suntory – como o Kakubin, Yamazaki e Hakushu 12 anos – até chegaram às nossas remotas terras tupiniquins. Porém, a importação (que era feita pela Tradbrás) foi pouco a pouco suspensa, e a Suntory resolveu focar seus produtos em mercados emergentes, como a Ásia. Com sorte – ou algum garimpo – ainda se pode encontrar uma ou outra garrafa dessas maravilhas em empórios e mercados da vida. Mas o preço muito provavelmente será o equivalente a uma passagem de ida e volta pro Japão.

OUTRO IRLANDÊS

É isso mesmo. O único whisky irlandês a desembarcar em nossas terras é o Jameson. E tudo bem, porque ele é bem bom, muito versátil e tem preço de combate.

Mas para aqueles que apreciam variedade, isso é quase um suicídio. Um outro rótulo da própria marca – como o Black Barrel – já ajudaria bastante. Ou, talvez, o Tullamore Dew, que em muitos países é uma alternativa ao nosso conhecido irish whiskey. Sonhando mais alto, não seria nada mal ter um Midleton ou Redbreast por nossas terras.

Chivas Masters – Final

Ah, sempre segunda-feira. Desde que comecei a escrever este blog, minhas segundas-feiras têm sido bem mais animadas. É que segunda é o dia preferido para os mais diferentes eventos de coquetelaria. Talvez porque muitos bares não abram. Ou talvez porque os organizadores têm a mesma sensação que eu – que uma semana que começa numa segunda feira dessas não pode ser ruim.

E nessa segunda, 11 de junho, aconteceu na Lions Club a final do Chivas Masters, uma competiçao global, que pela primeira vez teve participação brasileira. Ela celebra bartenders que demonstram conhecimento e criatividade, e compartilham dos valores como comunidade, colaboração e generosidade. A ideia do campeonato é justamente reforçar estes valores, tidos como pilares da marca.

Para o Chivas Masters, o bartender deveria criar um coquetel que contivesse na receita, ao menos, trinta mililitros de Chivas Regal – no Brasil, a regra ditava que o rótulo deveria ser o Chivas Extra. O concurso engajou 100 casas de coquetelaria pelo Brasil inteiro.

Após avaliação de Marina Rufino, embaixadora da marca, e outros mixologistas experientes (como Rafael Mariachi e João Morandi, ambos da Pernod Ricard), e uma semifinal (leia mais sobre ela aqui) foram escolhidos cinco finalistas: Alex Sepulchro, do Frank Bar (São Paulo – SP), Bento Mattos, do Cocktelitas House of Drinks (Fortaleza – CE), Dilton Sales, do Borsói Café Clube Pina (Recife – PE), Eduardo Amorim, do Butchery BBQ & Drinks (Goiânia – GO) e Nicola Bara, do Subastor (São Paulo – SP).

Os jurados da final foram Jessica Sanchez, Zulu, Marcelo Serrano e Patrícia Ferraz, além do embaixador global de Chivas, Max Warner. E após apresentações excelentes dos cinco competidores, o vencedor foi finalmente anunciado. Alex Sepulchro, do Frank Bar, com seu coquetel “Amereno”, que homenageia Spencer Amereno. O coquetel de Alex leva, além do whisky Chivas Extra, xarope artesanal de café e especiarias, bitter de chocolate, grade de caramelo artesanal, grão de café e cardamomo.

Jurados e João Morandi

Alex se formou em hotelaria e foi conhecendo o mundo da coquetelaria durante seus estágios na faculdade. Desde que se apaixonou por esse mundo, Alex investiu no aperfeiçoamento na área com cursos no Barones, ABB, Senac e Academia de Bartenders. Ele também fez um intercâmbio na Austrália e diversos cursos na área. Foi bartender do Skye do Unique, head bartender do Grand Hyatt e desde de 2017 é subchefe no Frank.

Alex montando seu Amereno

Este Cão deseja a Alex boa sorte na final global, e, acima de tudo, uma excelente viagem para o país natal da melhor bebida do mundo.

 

Palestra – O Renascimento do Whiskey Irlandês

(fonte: Irish Whiskey Museum)

Prezados leitores, interrompemos nossa programação normal para um anúncio de enorme importância.

Na próxima quinta-feira, dia 14, este Cão realizará uma palestra sobre a história e o renascimento do Irish Whiskey na Livraria Martins Fontes da Av. Paulista. A palestra é parte de um projeto conjunto entre O Cão Engarrafado e a agência de viagens Freeway: Uma viagem para a Irlanda, com foco no whiskey irlandês.

Durante a palestra, este Cão também abordará o roteiro da viagem, que conta com visitas a destilarias como Jameson, Teeling, Tullamore D.E.W. e Waterford – uma destilaria que é fechada para visitantes, mas que aceitou nos acolher. Mas nem tudo é whiskey. Visitaremos castelos incríveis, faremos uma parada estratégica na fábrica da mundialmente famosa cerveja Guinness, e aprenderemos sobre o Poitin, um curioso destilado produzido no país.

Se quiser saber mais detalhes, ou ouvir um pouquinho sobre Irish Whiskey, é necessário confirmar presença encaminhando e-mail para confirmacao@freeway.tur.br . Mais detalhes sobre o evento e a viagem abaixo ou clicando aqui.


Você gosta de viajar? Apreciar Whiskey? Viver novas experiências? Conhecer novos amigos? Tudo na companhia de um especialista…então essa palestra e viagem são para você!

A Irlanda. O país de James Joyce, Oscar Wilde, Samuel Beckett e – porque não Colin Farrel e Liam Neeson. Uma nação fundada nos costumes e na cultura celta, mas com um enorme apetite pela inovação. E claro, pelo whiskey.

A Irlanda possui tradição secular na produção de whiskey, inclusive, com técnicas e identidade próprias. Ela é tão importante que até mesmo compete com a Escócia pelo título de quem inventou a chamada “água da vida”.

Atualmente, a indústria passa por movimento conhecido como “O Renascimento do Whiskey Irlandês”. Atualmente, o Irish Whiskey é o destilado cujo consumo mais cresce no mundo, graças à fundação de diversas novas – e inovadoras – destilarias. Estima-se que entre 2014 e 2019, a indústria do Whiskey Irlandês cresça 60%!

Neste roteiro, elaborado pela Freeway e o especialista em whiskies Maurício Porto, autor do blog O Cão Engarrafado e formado pela Wine and Spirits Education Trust de Londres, você terá a oportunidade de conhecer, a fundo, o sabor do destilado símbolo deste país e entender seu sucesso.

Serão 10 dias, 6 destilarias e 2 cervejarias, museus e paisagens naturais incríveis. Uma viagem (às vezes literalmente) inebriante e inesquecível.

QUANDO: 14 de Junho às 19h
ONDE: Livraria Martins Fontes – Av. Paulista, 509 (próximo ao metrô Brigadeiro)
QUANTO: Gratuito. Confirmação com Kelly pelo email confirmacao@freeway.tur.br. VAGAS LIMITADAS.

Wild Turkey 81 – Sobre aves granjeiras

 

Não é segredo pra ninguém que eu odeio frango. Não é que eu não como frango, porque eu como quase qualquer coisa. Sério, se você me servir algo bem nojento, como, sei lá, olho de bode ou aquele ovo verde chinês, talvez eu tenha alguns segundos de ponderação. Mas, depois disso, há uma enorme possibilidade que eu vá provar. Aí, talvez, depois, eu vá dizer que aquele negócio é bem ruim ou absolutamente asqueroso, e ele entre no rol de coisas que eu provavelmente vou comer de novo porque sou teimoso, mas não gosto.

E o frango está aí. Eu como frango com desgosto. Não é um preconceito – preconceito seria se eu nunca tivesse provado – mas um pós-conceito. Eu já comi frango. Várias vezes. Em. Infinitos. Lugares. E é sempre ruim. Eu odeio tanto frango que uma vez fui pra uma fazenda no interior e visitei um galinheiro. Uma galinha, talvez farejando (galinhas farejam?) o ódio no ar, não pensou duas vezes. Me atacou em um voo tão agressivo quanto ridículo. E aí passei a não gostar de frango vivo, também.

Mas a beleza do mundo é a diversidade. Do outro lado do espectro da ojeriza por frangos, está Matteo Tranchellini. Matteo é um fotógrafo italiano que adora galináceos. Tanto é que ele tem um projeto – meio brega, se você me perguntar – em que fotografou mais de uma centena de galinhas e galos, ressaltando suas (discutíveis) belezas. Há aves de todos os jeitos. Umas bem empenadas, outras pernudas, outras com uma crista enorme. Tem até uma bem ridícula, que parece o Chewbacca.

Wookie ou frango?

Mas acho que o esquisito sou eu. Porque as pessoas gostam de galináceos. Tanto é que um dos whiskeys mais famosos e vendidos do mundo é nomeado em homenagem a um. O Wild Turkey, ou peru selvagem. Sua destilaria é uma das mais importantes dos Estados Unidos, e seus dois bourbons mais conhecidos são o 101 – já revisto aqui – e o 81, tema desta prova.

Talvez você esteja se perguntando porque a marca do peru selvagem resolveu batizar seus whiskeys com números. Bem, os algarismos se referem à graduação alcoólica do bourbon. Só que ao invés de utilizar a métrica do ABV (Alcohol By Volume, como usado atualmente no Reino Unido), a marca optou pelo proof – que é simplesmente o dobro da graduação expressa em ABV. Assim, o Wild Turkey 101 possui 50,5% e 81, 40,5% de graduação alcoólica.

Aliás, para mudar um pouco o papo sobre as galinhas, talvez essa seja uma oportunidade legal para contar a história sobre “proof“.O termo foi cunhado no século 16, na Inglaterra, quando as bebidas eram taxadas de acordo com seu volume de álcool. Os destilados eram testados molhando um pouco de pólvora com eles. Se a pólvora ainda pudesse queimar, então a bebida era taxada com maior severidade, por estar acima daquela prova (proof). Naquela época, o proof se referia a 1,75 vezes a graduação alcoólica. Quando o conceito foi transportado para a terra do frango frito – pelo jeito, frango é um assunto incontornável – passou a ser o dobro, exatamente.

De volta ao bourbon. O Wild Turkey 81 foi lançado em 2011, para comemorar o trigésimo ano de Eddie Russell – filho do master distiller Jimmy Russell e gerente da destilaria – na Wild Turkey. Quatro anos mais tarde, Jimmy juntou-se a seu pai no papel de master distiller, somando mais de noventa anos de experiência no processo de fabricação de bourbon. Em 2016 a identidade visual do whiskey foi revista, e o 81 foi rebatizado para simplesmente Wild Turkey Bourbon. Um nome tão bom quanto vago.

Novo visual

Como em todo bourbon whiskey, o cereal predominante na mashbill do Wild Turkey 81 é o milho – o preferido das detestáveis aves granjeiras que não mencionarei o nome novamente. A receita é a mesma de seu irmão 101: 75% de milho, 13% de centeio e 12% de cevada maltada. A maturação ocorre em barricas de carvalho americano virgens e torradas. A torra é  mais alta possível, e conhecida como “alligator char”, por conta do aspecto da madeira após o processo, que remonta a pele do réptil.  O Whiskey é retirado das barricas com graduação alcoolica média de  54,5%, e é posteriormente diluído com água para chegar aos 40,5%.

O Wild Turkey 81 é um whiskey bastante adocicado, nada agressivo, e com um claro sabor de caramelo, açúcar mascavo e baunilha. Por conta de seu sabor e da graduação alcoólica baixa, é uma bebida pouquíssimo desafiadora. Mesmo aqueles que não estão acostumados a beber whisky puro, não terão qualquer dificuldade em experimentá-lo desta forma. Assim, se você está começando no mundo dos whiskeys americanos, ou se simplesmente procura algo para bebericar sem muita preocupação e dificuldade, o Wild Turkey 81 é para você.

Ah, se todos os galináceos fossem iguais a este.

WILD TURKEY 81 BOURBON

Tipo: Bourbon Whiskey

Marca: Wild Turkey

Região: N/A

ABV: 40,5%

Notas de prova:

Aroma: Caramelo, açúcar mascavo, baunilha.

Sabor: Caramelo e mel, açúcar mascavo, baunilha. Final médio, muito suave, com mais baunilha e balinha de caramelo.

Com Água: A água torna o bourbon um pouco menos adocicado, e ressalta a baunilha.

Drops – Innis & Gunn Original Oak Aged

 

Hoje falarei de um assunto polêmico, mas frequente. Um assunto discutido em quase todas as mesas de bar do Brasil. Algo que todo mundo faz, ainda que, às vezes, a gente prefira acreditar o contrário. Vou falar de cocô. Isso mesmo. Porque toda conversa de adultos regada a álcool termina, invariavelmente, em algo escatológico. Ou sexo.

Cocô é quase tudo aquilo que ingerimos, mas que não é aproveitado por nosso organismo. Não importa o quão gostoso ou sofisticado foi seu prato. Aquele frango (que nojo), o spaghetti a bolonhesa, o medalhão de kobe beef e o caviar Almas de esturjão albino, todos eles, virarão a mesma repugnante coisa. E você sabe qual é.

O que não significa, é claro, que ele não possa ser aproveitado por outras criaturas. É uma extensão do conhecido provérbio “lixo de uns, luxo dos outros”. Há bactérias que se alimentam das fezes. Vegetais retiram delas algumas substâncias importantíssimas para seu crescimento. Tirando o quase inevitável preconceito nojento, é uma história linda, na verdade. Uma história de aproveitamento, de ciclo e de eternidade. Seria quase transcendental, se não envolvesse titica.

Mas não é apenas no vaso que histórias de reaproveitamento de – desculpe se algo gráfico vier à mente – dar gosto acontecem. Elas ocorrem também na indústria das bebidas alcoólicas. Uma vez já comentei sobre isso, ao falar da Highland Park e da cervejaria Harviestoun. Um caso muito semelhante, mas bem mais engraçado, ocorreu entre a segunda maior destilaria do mundo, a Glenfiddich, e a cervejaria Innis & Gunn.

Ah, e pensar que eu te jogava fora! (foto: Telegraph.co.uk)

Reza a lenda que em 2003 Douglas Sharp, o mestre-cervejeiro da Innis & Gunn (que na época nem era a Innis & Gunn, mas apenas uma pequena cervejaria local) fora contratado pela destilaria escocesa Glenfiddich para produzir uma cerveja qualquer, cujo único objetivo era maturar por um tempo nos barris de carvalho americano da destilaria, somente para condicionar os barris. Depois, a cerveja seria descartada.

Mas Doulgas era um cara caprichoso. Mais do que uma “cerveja qualquer”, Sharp desenvolveu uma receita especial de Ale, bastante encorpada, que aumentaria muito a eficiência do condicionamento e traria para o whisky as incríveis notas pretendidas pela Glenfiddich. Mas, mesmo assim, a cerveja continuaria a ser jogada fora ao esvaziar os barris.

Um gerente da Innis & Gunn, então, que claramente achava aquilo um desperdício, resolveu ingerir aquele descarte. Ele achou tão bom que ligou para Sharp imediatamente. E Sharp, ao invés de demitir o gerente que estava se embriagando com lixo industrial durante o expediente, notou a oportunidade que estava em suas mãos. Assim, ele desenvolveu uma série de cervejas maturadas em diferentes barris.

As cervejas maturadas em barricas de carvalho americano de bourbon lançadas por Sharp fizeram sucesso. Tanto sucesso que o mestre-cervejeiro resolveu fundar a Innis & Gunn. Atualmente, a cervejaria possui – além de sua fábrica – quatro bares na Escócia e um portfólo considerável, entre edições perenes e permanentes. A original, batizada de Oak Aged – que deu origem a toda essa história – é a que ilustra este post.

A Innis & Gunn Oak Aged é uma cerveja clara, com carbonatação média, e um sabor incrivelmente pronunciado de baunilha e madeira. Se você gosta de cervejas encorpadas e daquele irresistível sabor de bourbon whisky, você se apaixonará facilmente por ela. Mesmo que, fatal e inariavelmente, ela vá virar xixi. Pois é. Todo papo etílico de adulto termina mesmo nisso.

INNIS & GUNN OAK AGED

País: Escócia

Cervejaria: Innis & Gunn

Tipo: Ale

ABV: 6,6%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, com um certo aroma de malte bem presente.

Sabor: Balinha de caramelo, herbal. Bastante encorpada. O final puxa incrivelmente para taninos e baunilha provenientes da barrica.

 

Estrelas da Música que amam whisky

Pensem em um advogado. Se você não for um, provavelmente recorrerá a um ficcional. Como, sei lá, o John Milton (Al Pacino), Martin Vail (Richard Gere), Harvey Specter e aquela doida do Jessica Jones que só quer ver o mundo pegar fogo. Todos tem o mesmo estereótipo. Egoístas, obstinados, oportunistas. Geralmente alcoólatras ou meio drogados. Não existem muitas variações para o advogado ficcional. Vêm tudo num pacote.

É, eu sei que há uns tantos outros que são o oposto, como o Atticus Finch e o Fred Gailey, mas ninguém pensa neles. Na cultura popular, nós – é, eu sou advogado – somos os operadores do apocalipse. Tipo os leprechauns irlandeses, mas ao invés de gorrinho e camisa verde, a gente usa terno e gravata. E ao invés de esconder a faca do bolo ou quebrar aquele copo, somos responsáveis por arruinar vidas.

Outra profissão com um estereótipo bem forte é a de músico. Músico normalmente é um advogado, mas menos egoísta e com mais talento musical. Em comum, temos o estereotipado hábito de enxugar qualquer garrafa que contenha álcool. Porém, ao contrário do que acontece com advogados (ressalvado o Harvey Specter aqui), as pessoas realmente querem saber o que seus ídolos musicais bebem. Por conta disso – e a pedidos – resolvi elaborar uma eclética lista com alguns expoentes da música e suas preferências etílicas. Aqui, tentei ser o mais eclético possível na escolha dos músicos. Porém, em breve, haverá uma nova edição apenas com ícones do rock.

Assim, meus caros, abram seus Jack Daniel’s (parece ser uma preferência no meio musical), escolham seu couvert artístico preferido e aproveitem. Estas são seis estrelas da música que, como você, adoram whisky.

BONO

Quando ele não está salvando criancinhas famintas, levantando capital para campanhas filantrópicas ou cantando, Bono – que nasceu na Irlanda – toma whiskey. Mas não irlandês, apesar do uso do E na grafia. Bono, que na maioria das vezes faz o papel do moço comportado e altruísta, tem um gosto bem rebelde pela bebida. O vocalista do U2 prefere Jack Daniel’s, o famosíssimo whiskey americano.

LADY GAGA

Stefani Joanne Angelina Germanotta, ou melhor, a Lady Gaga, é praticamente uma criatura conjurada pela cultura pop. Visual eclético (isso é um eufemismo), atitudes polêmicas, gostos pouco ortodoxos. Menos para whiskey – mais uma vez, com “e”. Ao contrário de Bono, Gaga – que é americana – é apaixonada por Jameson, o mais tradicional whiskey irlandês.

MUMFORD AND SONS

Se você sabe o que é uma bergamota, alcaçuz, gosta de ruibarbo e usa echarpe, certamente conhece a banda formada por Marcus Mumford, Ben Lovett, Ted Dwane e Winston Marshall. O conjunto britânico de folk rock é um expoente hipster.

Apesar disso, as preferências etílicas do grupo passam longe do gim-tônica. Os integrantes gostam tanto de whisky que prometeram criar seu próprio rótulo no futuro. I will wait.

RIHANNA

Tenho que assumir que acho as músicas da Rihanna meio chatas. A pior delas é Diamond. Porque, bom, porque diamantes não voam, então a metáfora “como diamantes no céu” só funciona se você tiver sob o efeito de drogas pesadas, ou for completamente ignorante sobre astrofísica.

Apesar disso, Rihanna tem bom gosto quando o assunto é álcool. Sua bebida de preferência – assim como Gaga – é Jameson. Ela até cita o whiskey em uma de suas músicas, que dedicou a “todos os semi-alcoolatras do mundo“. Me senti representado. É, talvez ela não seja tão chata assim.

FRANK SINATRA

Bom, quando o assunto é álcool, as celebridades podem ser separadas entre amadores e profissionais. E o Frank Sinatra. Frank – em conjunto com seus amiguinhos do Rat Pack – enxugavam qualquer coisa etílica que cruzasse seus caminhos.

Apesar do gosto (realmente) eclético por bebida, reza a lenda que a preferência de Frank Sinatra era o tennessee whiskey Jack Daniel’s. Ele o tomava em copo baixo, com pouco ou sem gelo. Na verdade, ele tomava de qualquer jeito, em qualquer copo. Ele gostava tanto, mas tanto do Tennessee Whiskey, que a marca homenageou seu célebre ébrio com a edição especial “Sinatra’s Select”.

KEITH RICHARDS

Todo ano alguém diz que Keith morreu. E todo ano a notícia é desmentida. Keith é praticamente o Gandalf dos guitarristas. Se o Gandalf enchesse a cara como se não houvesse amanhã e usasse todo tipo de substâncias lícitas, mágicas e ilícitas. Assim como Frank – outro profissional dos copos – a preferência de Keith é clara. Jack Daniel’s.

 

 

Drops – Royal Salute Eternal Reserve

O meu tem dez. Ah, já o meu tem quinze. Coitados, o meu aqui tem vinte e um. Nossa, vinte e um só – o meu é infinito. Pode parecer brincadeira de moleque. Mas é, na verdade, um dos mais recentes lançamentos da Royal Salute, marca super-premium de blended whisky escocês. O Royal Salute Eternal Reserve. Cuja idade – apesar do sugestivo “eternal” – na verdade, é de 21 anos. Mas que leva whiskies cada vez mais maturados em sua mistura.

A ideia por trás do Royal Salute Eternal Reserve é bem simples, na verdade. Nas palavras da Royal Salute “A primeira criação do Royal Salute The Eeternal Reserve começou com a preparação de 88 barricas de whiskies incrivelmente raros e preciosos, todos com idade superior a vinte e um anos.

Estes whiskies foram cuidadosamente selecionados utilizando dois critérios. Primeiro, que cada whisky possuísse um final excepcionalmente longo, e que poderia se estendido posteriormente mediante um processo de blending e harmonização e, em segundo, que os whiskies escolhidos pudessem ser maravilhosamente harmonizados em cada novo lote e ainda mantivessem seu estilo próprio para sempre

Uma vez selecionados, os preciosos whiskies foram blendados, e depois harmonizados em 88 barricas no Royal Salute Vault por seis meses. Este blend original é então misturado com outras 88 barricas de whiskies precioso, excepcionalmente maturados, par completar o primeiro lote.

Antes do engarrafamento deste lote, nosso grupo de especialistas reserva uma parte do blend, devolvendo-o para as 88 barricas originais, de forma que sirvam de base para o próximo lote. Estas 88 barricas são sempre guardadas na Royal Salute Vault na destilaria de Strathisla. Cada vez que um novo lote é produzido, o mesmo processo – a circulação das 88 barricas – é repetido; os whiskies das 88 barricas do lote anterior são adicionados ao novo blend para o próximo lote.

E não é que o tal vault existe?

Se você excluir certos adjetivos e hipérboles, como excepcionalmente, excepcional, maravilhosamente e preciosos, verá que o método é muito semelhante àquele de solera, bastante utilizado por certos vinhos jerez, em que parte do blend de um lote anterior é misturado ao próximo lote. A ideia é que uma pequena fração do lote original sempre esteja presente nos futuros lotes, devido às sucessivas misturas.

Na prática, essa técnica traz uma certa consistência ao whisky, evitando que existam diferenças muito sensíveis entre um e outro lote. Além disso, apelas para um lado emocional. Imagine que, daqui duas dezenas de anos, uma pequena parcela dos whiskies presentes no blend terá descansado por esse tempo nas oitenta e oito barricas. O que significa que parte dele será composto por whiskies com mais de quarenta anos de idade.

Sensorialmente, o Royal Salute Eternal Reserve é um whisky bem leve e pouco oleoso, bastante frutado, com mel, caramelo e baunilha. O álcool é perfeitamente integrado e pouquíssimo agressivo. Se você gosta de whiskies leves e frutados, ou é um absoluto apaixonado pela Royal Salute, deve experimetnar o Royal Salute Eternal Reserve. Você ficará eternamente apaixonado.

ROYAL SALUTE ETERNAL RESERVE

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 21 anos (é gente, não é eterno)

Marca: Royal Salute

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Frutado, com baunilha e caramelo.

Sabor: Como seu irmão 21 anos de linha, é um whisky adocicado, com mel e frutas secas e frescas. Final médio, com baunilha e alcaçuz. Álcool pouquíssimo aparente.

 Preço: em torno de US$ 180 (cento e oitenta) dólares.

Drink do Cão – Blackthorne

Às vezes as coisas precisam apenas ser resgatadas para alcançarem o sucesso. Foi o que pensei, após assistir o filme The Disaster Artist, dirigido pelo ator James Franco. The Disaster Artist conta a história de outro filme, por muitos considerado o pior do mundo. The Room, escrito e dirigido por um curioso indivíduo chamado Tommy Wiseau. O filme de Franco – que é bem legal – me deixou genuinamente curioso para assistir àquele de Wiseau. E eu não fui o único. A internet está povoada de relatos de pessoas que viram este depois daquele.

E olha, eu não poderia afirmar que The Room é o pior filme do mundo, porque eu não vi todos os filmes do mundo. Mas vou te garantir que ele é bem ruim. A pior parte é o roteiro. O roteiro não faz o menor sentido. Sabe, a próxima informação que vou passar vai parecer meio aleatória. Mas enfim. Aqui em casa a gente tem um gato, e às vezes eu noto que ele me olha meio angustiado quando estou fazendo algo que ele não entende a razão, como tomando banho ou escovando os dentes. Acho que se o gato em algum momento ficasse mais inteligente e resolvesse dirigir um filme, ele provavelmente faria algo como The Room ao tentar reproduzir o comportamento humano.

Um panda gorfando um arco-íris em um soldado. Faz mais sentido do que The Room.

De certa forma, eu já esperava uma película desastrosa, mas também achava que poderia haver alguma qualidade redentora. Não há. Tudo é horrível. Mas não para os padrões normais de horrível. The Room é horrível especial. Tão ruim que apesar de seu fracasso de bilheteria, anos mais tarde, ganhou status de “cult”. Em boa parte, por conta da internet, que se regojiza com qualquer coisa inacreditavelmente ruim, e do filme de James Franco. The Room foi resgatado do oblívio – onde, aliás, ele deveria ter ficado – e tornou-se um ícone trash.

Algo bem parecido aconteceu com um coquetel. O Blackthorne. Sua primeira aparição foi em 1900, no Bartender’s Manual de Harry Johnson. Depois, o drink figurou também no livro Cocktails, How to Mix Them, de Robert Vermeire, publicado em 1922. A receita do Blackthorne – que naquela época se chamava Blackthorn, sem o elegante “e” no final – de Johnson e Vermeire levava partes iguais de vermute e whiskey irlandês, além de dashes (sacodidelas) de absinto e bitters. Um coquetel desinteressante e desequilibrado, fadado ao esquecimento.

Porém, Gary Regan, em seu The Joy of Mixology de 2003 resolveu resgatar o drink. E com duas alterações relativamente simples, o transformou em um que merece lembrança. Regan aumentou a proporção de whiskey irlandês – de forma que a base se sobressaísse um pouco mais – e substituiu os dashes de absinto por um wash da taça. Aproximando-o de algo conhecido – um Manhattan – Regan garantiu sobrevida ao marginalizado Blackthorn. Que  ainda ganhou um “e” no final para ficar mais charmoso.

Ficou bom, né Tommy?

Há um fenômeno curioso sobre o coquetel, que deixei de mencionar antes. Ele possui um homônimo que leva Sloe Gin e bitters de laranja. O que faz bastante sentido para o nome, já que o fruto da árvore blackthorn (em português abrunheiro) é utilizado na produção de sloe gin. Porém, para evitar confusão, muitos se referem ao Blackthorn de whiskey como Irish Blackthorn(e), enquanto o coquetel de gim é referido como English Blackthorn.

A receita do Blackthorne possui ainda uma série de variações. Como, por exemplo, a do Difford’s Guide, que muda as proporções da receita de Regan, emprega bitters Boker’s e dois vermutes diferentes – um seco e um tinto. O que, na opinião deste canídeo, é uma ideia excelente. Essa alteração traz ao coquetel mais frescor, e o coloca mais alguns passos longe do Manhattan, contribuindo para que tenha uma identidade própria. O Bartender Paulo Cesar Corghis, que me apresentou o coquetel, inclusive, utiliza apenas vermute seco.

Assim, caros leitores, abram seus caderninhos mentais em uma página em branco, para não esquecer jamais. Este é o Blackthorne, primo irlandês do Manhattan, salvo da desmemória para tornar as coisas um pouco melhores. Quer dizer, ao menos aquelas que merecem ser resgatadas.

BLACKTHORNE

INGREDIENTES

  • 2 doses de Irish Whiskey (no Brasil, o único que temos é o Jameson. Pode ir sem medo, funciona muito bem).
  • 1 dose de Vermute tinto (ou 1/2 dose de vermute tinto e 1/2 dose de vermute seco. Vide nota na parte do preparo)
  • 3 dashes de Angostura Bitters
  • Licor de Absinto para untar a taça.
  • Toda parafernália que você já conhece (mixing glass, bailarina, taça coupé ou de martini, gelo. Claro, gelo)

PREPARO

  1. Unte a taça de martini com o licor de absinto. Tome cuidado para não exagerar. O absinto poderá facilmente sobrepujar alguns dos aromas do coquetel. Descarte o excesso (ou beba, eu já fiz isso, eu sei que você também quer fazer).
  2. Adicione, em um mixing glass, gelo, o Irish Whiskey, o vermute* e a angostura. Mexa até resfriar e desça na taça, coando o gelo.
  3. Pronto. Beba assistindo a um bom filme. E não, bebê-lo ao ver The Room não melhora a experiência.

* Se você achar que o coquetel está muito puxado para o vermute, ou muito doce, tente substituir metade da dose por um vermute branco seco, como Noilly Prat. Isso fará com que o Irish Whiskey se sobressaia um pouco mais, e adicionará uma nota herbal bem interessante ao Blackthorne. Há uma variação, inclusive, que utiliza apenas vermute seco, da Cocktail Larousse.

The Botanist Gin – Spinoff

Quando eu era adolescente, eu via bastante televisão. Aliás, talvez a única coisa que eu fazia mais do que ver TV fosse comer. Mesmo porque dava para comer vendo TV. Assumo que o hábito de passar horas na frente da tela com um pacote de bolacha recheada e um balde de coca-cola normal do meu lado não era nada saudável. E provavelmente não ajudou muito na construção de relações interpessoais durante meus anos áureos. Mas, por outro lado, fomentou meu interesse por cinema e, indiretamente, literatura.

Uma das séries que mais gostava de assistir era Friends. Friends certamente não era um expoente da alta cultura, mas foi uma febre durante minha adolescência. A série durou dez temporadas – uma expectativa de vida quase impensável para qualquer show televisivo de hoje em dia – e terminou bem onde deveria. Na transição da pós-adolescência para a vida adulta, onde a comédia, a esperança e o sonho perdem território para, bem, deixa pra lá. Mas Friends possui uma mancha em sua alva reputação. Um spin-off, lançado pouco tempo depois, e entitulado singelamente de Joey.

O que foge à minha lógica é como alguém poderia achar aquela uma boa ideia. Acompanhar Joey Tribbiani em sua jornada para tentar se tornar um ator consagrado. Quero dizer, como disse a Rolling Stone uma vez, seria melhor acompanhar a Phoebe em seu Central Perk. Ou a Rachel e o Ross em sua vida de casados, criando seus filhos. Afinal, a vida em casal com filhos proporciona muitas oportunidades tragicômicas. E, como era de se esperar, a série fracassou.

Já sei, e se a gente fizesse a mesma série, só que dez anos depois?
Este é o grande problema de spin-offs. O grande sucesso de algo não garante que seu derivado seja amado. É um risco que se corre. Aliás, eu diria que um risco até maior, porque envolve a reputação também de algo que já tem sua boa-fama consolidada. Mas foi justamente isso que a Bruichladdich, uma das mais conhecidas, respeitadas e inovadoras destilarias de whisky da Escócia fez, ao lançar um gim. O Botanist. Só que, ao contrário de Friends e Joey, o Spin-off deu certo.

A destilação do Botanist acontece em um incomum alambique – que fora recuperado da destilaria Inverleven – e conhecido como Lomond, e carinhosamente apelidado pelos funcionários da destilaria de “Ugly Bett” (Bete, a Feia). O apelido, que se refere à pouco atrativa aparência do equipamento não poderia ser mais preciso. O alambique é bem feio. Tão feio que o escritor escocês Tom Morton o descreveu em seu livro “Spirit of Adventure” como “uma lixeira gigante, de ponta cabeça, feita de cobre“.

Apesar de estarem bem lá embaixo na escala estética de equipamentos pesados, os Lomond são muito eficientes. Eles foram projetados por um senhor chamado Alastair Cunningham em 1955, como uma espécie de híbrido entre um destilador de coluna e um alambique de cobre. Seu pescoço possui placas de cobre, que podem ser retiradas ou adicionadas, para simular um pescoço mais curto ou mais longo de um alambique tradicional. E a seção superior poderia ser facilmente alterada, imitando diferentes inclinações de braço do destilador. Isso permite produzir diferentes perfis de destilado utilizando somente um alambique.

Bete

O Botanist leva 31 botânicos diferentes, sendo 22 deles nativos da ilha de Islay. São eles – e não vou me arriscar a traduzi-los para não passar ridículo: angelica root, apple mint, birch leaves, bog myrtle leaves, cassia bark, chamomile, cinnamon bark, coriander seed, creeping thistle flowers, elder flowers, gorse flowers, heather flowers, hawthorn flowers, juniper berries, lardy’s bedstraw flowers, lemon balm, lemon peel, liquorice root, meadow sweet, orange peel, oris root, peppermint leaves, mugwort leaves, red clover flowers,tansy, thyme leaves, water mint leaves, white clover, wood sage leaves.

A Bruichladdich é uma das destilarias mais inventivas de toda Escócia. Talvez por isso se auto intitulem “Progressive Hebridean Distillers” –algo como “Destiladores Progressistas das Hébridas”. Isso fica claro ao observarmos seu enorme portfólio. Além do Botanist, a destilaria produz três linhas de whisky. Uma é razoavelmente defumada; outra, sem nenhuma defumação e uma terceira absurdamente defumada – Octomore.

O Botanist é um gim seco, com aroma e sabor herbal bastante pronunciados. Apesar da miríade de botânicos, a impressão deste Cão é que se sobressaem os aromas refrescantes de menta e cítricos. Aliás, é aí é que está seu frágil equilíbrio – a força do zimbro é contrastada pelo aroma herbal da menta e laranja, que – em conjunto com os demais botânicos – lhe proporcionam uma complexidade incrível.

Se você gosta de gins encorpados, complexos e com personalidade, ou se apenas está curiosíssimo para saber como é um gim produzido por uma destilaria de whisky, experimente o Botanist. Este sim, é um spin-off que merce muita audiência.

THE BOTANIST ISLAY DRY GIN

Tipo – Dry Gin

ABV – 46%

Região: Islay

País: Escócia

NOTAS DE PROVA

Aroma: zimbro, limão siciliano, laranja lima. Há um aroma floral bastante intenso.

Sabor: Menta, cítrico, com limão siciliano. Final médio, com alcaçuz e bastante floral.