Caledonia Whisky & Co – Abrimos um Bar!

Quando, há mais de cinco anos, começamos com o Cão Engarrafado, não sabíamos direito para onde iríamos. Sabíamos, por exemplo, que provaríamos muitos whiskies. Suspeitávamos que nossa paixão por drinks e cervejas também encontraria uma forma de participar deste espaço virtual. Mas jamais pensamos que chegaríamos ao ponto de, por exemplo, julgar um campeonato de coquetelaria, ou viajar para o outro lado do mundo apenas para provar, em primeira língua, dois novos e maravilhosos whiskies de certa marca de luxo.

Alguns caminhos pareciam naturais. Incorporar receitas e abordar os universos tangentes àquele do whisky, por exemplo. Outros exigiram uma certa apneia. Desenvolver cursos e degustações, por exemplo, e sair do ambiente virtual para o palpável. Mas, de todos estes, de longe, o que mais exigiu fôlego, temeridade e quiçá uma boa quantidade de imprudência é este que vos apresento. Um bar totalmente voltado para a cultura do whisky em São Paulo. O Caledonia Whisky & Co.

Se pudesse resumir, de uma forma bem simples, sobre a essência do Caledônia, seria esta: Ele é o Cão Engarrafado materializado. É um bar em que o vedete é o whisky – escocês, japonês, americano, irlandês ou de qualquer parte do mundo. Mas que também abraça tudo aquilo de bom que se relaciona à bebida.

Nosso coração

Há coquetéis autorais (como o delicioso King James e o lúdico Volstead), clássicos clássicos (manhattan) e clássicos obscuros (BeelzeBob), com e sem whisky. Há cervejas incríveis, dentre elas, uma Imperial Stout criada pela Cervejaria Dádiva, e maturada em barris de carvalho, somente para nós. E pratos. Pratos que são ora britânicos, ora brasileiros, como o querido Scotch Egg (o nosso bolovo), hambúrgueres americanos com um toque inglês, e pratos essencialmente ingleses.

Na carta do Caledônia, há algo como cento e trinta whiskies. Reunimos quase tudo que há disponivel oficialmente no Brasil – dos blends standard, como Passport, Bells e Teacher’s, até single malts super exclusivos, como o Macallan Reflexion – uma das pouco mais de dez garrafas que desembarcaram por aqui. As doses são de 25ml, para permitir que o cliente prove uma boa variedade de whiskies diferentes sem machucar fígado ou bolso, mas há também doses duplas, de 50ml. Réguas de degustação temáticas – de escolhas sérias como o Speyside Trio, até uns mais descontraídos, como os preferidos deste Cão que vos escreve.

Já nossa carta de coquetéis – que não poderia faltar – foi criada por Rodolfo Bob, bartender premiado, vencedor do Patrón Perfeccionists. Ela conta a história do whisky em cinco drinks. Da migração dos monges da península ibérica até a Escócia, passando pela Irlanda, até os tempos atuais, com a retomada da coquetelaria e o consumo dos single malts. Sem olvidar de períodos importantes da história, como a Lei Seca (Volstead) e o começo da destilação nos Estados Unidos (Mount Vernon). Há também uma boa quantidade de clássicos incontornáveis, como o Penicillin, Manhattan, Maker’s Mark Old Fashioned e New York Sour. E uma carta periódica de obscuros, que hoje conta com o incrível e – de sugestivo nome – BeelzeBob, uma singela homenagem ao pai de nossa carta.

King James, um de nossos autorais.

E o Caledônia não é apenas um bar. É loja também. Por exemplo – se você experimentou um belo Glenlivet Code como dose no salão, terá desconto para levar uma garrafa pra casa. A preço de empório mesmo, não de bar. Há alguns produtos bem exclusivos, como a linha dos single malts da Arran, e um certo gim japonês com alma de whisky, o Roku Gin, que acabou de desembarcar no brasil pelas mãos da Beam Suntory.

E, claro, não poderíamos esquecer daquilo que mais nos incentivou a ter um espaço próprio. A parte educacional. Nossos eventos agora possuem um ambiente dedicado e fixo. Há um andar de salão conversível em sala de aula. Periodicamente, promoveremos degustações e cursos por lá. O espaço também poderá funcionar como uma sala privada, para eventos de marcas e empresas.

Temos uma ótima equipe, e estamos bem animados com o Caledonia. E um tanto apreensivos também. Ter um espaço e cuidar de pessoas não é algo trivial. Mas, pensando aqui, depois de tantos parágrafos, talvez tenha sido a mais natural das consequências do Cão Engarrafado. A gente não sabia, mas era tudo uma questão de tempo.

Sala de aula

CALEDONIA WHISKY & CO.

Endereço:

Rua Vupabussu, 309, Pinheiros, São Paulo – SP

Funcionamento:

Bar: de terça a sábado, das 18:00 às 24:00. Domingo e segunda-feira fechado.

Loja: de segunda a sábado, das 12:00 às 24:00. Domingo fechado.

Capacidade máxima: 70 pessoas

Telefone: 11 3031-0840

Instagram: @caledoniawhiskyco

Patsy Cocktail – Jack Daniel’s Tennessee Calling

Já contei isso por aqui, mas vou contar novamente. Quando era criança, me perguntavam constantemente o que eu queria ser quando crescer. Por uma efêmera fase, queria ser astronauta, até descobrir que eles bebiam o próprio xixi (leia mais sobre isso aqui). Depois, pensei em ser caminhoneiro. Mais tarde, piloto de helicóptero. Quando atingi a pseudo maturidade da adolescência, resolvi que seria desenhista. E quando menos percebi, por pura e espontânea pressão paterna, virei advogado.

Gosto de minha profissão, e não me arrependo. Mas, assumo, durante o exercício, poucas vezes vi espontaneamente acesa a chama da paixão pelo ofício. Longe de ser uma atividade natural, ser advogado foi um gosto adquirido. E por muito tempo permaneci assim, até, finalmente, descobrir a razão pela qual eu nasci. Ou não. Graças a um convite da Brown Forman.

É que os malucos da Brown, responsáveis pela Jack Daniel’s, resolveram me convidar para ser jurado da semifinal de um concurso de coquetelaria. O Jack Daniel’s Tennessee Calling, que aconteceu no final de novembro de 2019, no Tulum Bar, em São Paulo. E, devo dizer, foi um dos trabalhos mais divertido das minha vida. Avaliar coquetéis, ouvir histórias e inspirações e discutir com meus pares – e que pares – sobre as impressões sensoriais de cada criação foi uma experiência absolutamente fantástica. Eu faria isso todo dia. Ainda bem que, para minha própria segurança, é impossível.

Trabalho difícil

Mas vamos aos fatos. O Tennessee Calling é a competição de Jack Daniel’s voltada à coquetelaria e concebida para o desenvolvimento de bartenders. É o segundo ano da competição, cujo vencedor ganha uma viagem para o Tennessee, para ver com os próprios olhos os segredos da criação do tennessee whiskey mais famoso do mundo. Neste ano, a semifinal ocorreu no mesmo dia da final, e contou com dez competidores.

O corpo de jurados deste ano foi bastante heterogêneo: Adriana Pino, eleita em 2018 a melhor bartender do país no World Class Competition, Jéssica Sanchez, eleita em 2018 melhor bartender do ano pela Veja Comer & Beber e Prazeres da Mesa, Marquinhos Felix, Bead Bartender do grupo DRK e responsável pelo balcão do bar Fortunato, Gilberto Almendola, responsável pelo Balcão do Giba, do Paladar – Estadão e este Cão, que não fazia a menor ideia do que estava fazendo lá.

A proposta do campeonato seria preparar um coquetel para um encontro entre o Jack Daniel e o Frank Sinatra – uma reunião memorável, se fosse possível distorcer o espaço-tempo. E após uma acirradíssima disputa e um árduo trabalho de provar dez coquetéis incríveis, o finalista foi Raul Dias, bartender do próprio Tulum, com seu Patsy Cocktail. O drink leva Shrub de tomate clarificado, licor de amêndoas, mix cítrico, queijo grana padano – destaque para este incrível e delicioso ingrediente – e Jack Daniel’s Old No.7, claro.

De acordo com Raul “O nome Patsy é uma homenagem ao restaurante favorito de Frank Sinatra, o Patsy’s Italian, em Nova Iorque” e continua “me inspirei no prato preferido de Frank, um parmegiana de berinjela que a avó dele fazia, e usei o Old No. 7 – que representaria o presente de Jack para o Frank. Um shrub de tomate representa o parmegiana, e o licor de amêndoas é um tempero italiano. Já o mix cítrico representaria o segredo do chef“. E o grande toque especial – uma lasca de queijo grana padano, para harmonizar.

Ficou curioso? Então aí vai a receita do coquetel de Raul para que você, querido leitor, tente reproduzi-lo no conforto de seu lar – ainda que este Cão recomende que você prove o coquetel original das mãos do criador.

Raul e uma passagem aérea bem grande

PATSY COCKTAIL (por Raul Dias)

Ingredientes

  • 60 ml Jack Daniel’s Old No.7
  • 35 ml Shrub de tomate clarificado
  • 10 ml licor de amêndoas italiano
  • 20 mix cítrico
  • lasca de grana padano
  • tomilho
  • parafernália para bater

Preparo

  1. adicione todos os ingredientes (menos o queijo e tomilho) em uma coqueteleira e bata vigorosamente
  2. desça em uma taça, e finalize com a lasca de queijo e tomilho.
  • O shrub é feito de tomate italiano, açúcar, água, vinagre e vodka, e clarificado com claras em neve. Leia mais sobre ele aqui (em inglês)

Tamnavulin Double Cask – Derradeiro

Ano novo. Uma das poucas festas que realmente aprecio. O otimismo exacerbado e a hipocrisia de fazer planos para um ano inteiro, mas mergulhar na inconsequência de uma noite. Minha imagem mental do ano novo sempre trazia fogos de artifício – normalmente refletidos em um mar de sorrateiras ondas – e um burburinho animado de pessoas de branco, tomando espumante.

Mas aqui estou, no silêncio de meu quarto, na frente do computador, escrevendo. Não há fogos, nem champagne, nem barulho. Apenas um copo de single malt à meia luz e o tlec tlec produzido pelos meus dedos. Meu traje – no singular – neste momento não apenas seria inapropriado para participar de uma festa de ano novo como, provavelmente, seria impróprio para ir a qualquer lugar sem correr o risco de ser preso ou gerar um escândalo. E apesar disso tudo, sinto que estou justamente onde deveria.

Dois mil e dezenove foi um ano agitado. Foram mais de quarenta e dois whiskies revistos, dezessete coquetéis apresentados e dez matérias sobre todo tipo de abobrinha relacionada a whisky. Mas meu trabalho não estaria completo por aqui sem um último post. A prova de um single malt de Speyside que corajosamente entrou em nosso mercado sem muito alarde – como minha atual situação – mas que merece ser celebrado. O Tamnavulin Double Cask.

O Tamnavulin Double Cask é um single malt sem idade declarada, produzido pela destilaria Tamnavulin, em Speyside. Sua maturação ocorre principalmente em barricas de carvalho americano de ex-bourbon, antes de ser finalizado por um período não declarado em carvalho europeu de ex-jerez. Isso traz a ele notas adocicadas de mel e amêndoas e um certo (e curioso) marzipã. O final é médio e vínico. É um whisky sensorialmente simples, mas perigosamente fácil de beber – bem mais do que espumante no reveillón.

A Tamnavulin e sua acolhedora placa.

Mas não é apenas na língua que o Tamnavulin não faz feio. No bolso também. Seu preço médio está próximo dos duzentos reais. É bem bom para um single malt – ainda mais um que passa parte de sua vida em barricas previamente usadas para vinho jerez.

A Tamnavulin é uma destilaria relativamente jovem. Ela foi fundada em 1966 pelo grupo Invergordon, mais tarde, Whyte & Mackay. Seu objetivo era suprir uma demanda crescente por blended whiskies – razão pela qual era tão raro ver engarrafamentos de single malt da Tamnavulin. A destilaria, porém, foi fechada em 1995, devido ao declínio do consumo de whisky no mundo, e somente reaberta em 2007, quando sua proprietária, a Whyte & Mackay, foi comprada pela United Spirits.

O Tamnavulin Double Cask é como um ano novo passado em silêncio, trajes mínimos, calmamente fazendo aquilo que se gosta. Não é necessário muito alarde ou pirotecnia para trazer satisfação.

TAMNAVULIN DOUBLE CASK

Tipo: Single Malt sem idade declarada

Destilaria: Tamnavulin

País/Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: mel, amêndoas, gengibre, caramelo.

Sabor: frutado, com frutas vermelhas, uvas passas, marzipã. Final adocicado e vínico.

Quatro Coquetéis de Whisky para o Verão

Você, querido leitor, deve estar ansioso para o verão. Quase todo mundo está. Mas eu não. Peço perdão por emitir aqui uma nota dissonante, mas detesto o calor. E, consequentemente, nosso escaldante verão tropical.

É que são seis e meia da manhã de um sábado. Acordei há trinta minutos, em uma poça de suor, depois de passar metade da noite virando o travesseiro, em busca do lado mais fresco. Eu não percebi quando aconteceu, mas imagino que em algum momento no meio da madrugada o ar-condicionado parou de funcionar. E inexplicavelmente, como num processo de auto-imolação, meu quarto chegou à temperatura do sétimo círculo do inferno.

Bom dia.

No frio, temos escolha. É só colocar casaco, cobertor. Ou ligar um aquecedor. O frio traz oportunidades talvez até românticas. Como acender uma lareira – se você tiver uma, que não é meu caso. O calor não. O calor é desagradavelmente incontornável. No calor, mesmo com todo ar condicionado do mundo, a chance de você grudar na mobília ou no banco do carro é de cem por cento.

E tem a parte do whisky. Beber whisky é sempre uma delícia, mas é bem melhor no frio. O que, claro, não significa que haja certos artifícios que tornem o consumo da maravilhosa bebida mais fácil no calor. Como seu uso em coquetéis leves e refrescantes. Como, por exemplo, os quatro drinks abaixo. Vamos a eles.

Whiskey Mule

Se você vive no Planeta Terra da coquetelaria, é bem capaz que já tenha provado a versão clássica deste coquetel, o Moscow Mule. O drink galgou uma inacreditável fama nos últimos anos. Em boa parte, por conta de sua improvável apresentação na canequinha de cobre. Que, aliás, suspeito, alçou à fama também todo tipo de instrumento acobreado, de palitos de dente a luminárias de chão.

O Whiskey Mule é a versão melhorada do drink. Claro, porque leva whiskey. E, de quebra, a também já tão popular espuminha de gengibre e limão. Descubra como fazê-lo aqui.

Morning Glory Fizz

Foto: Tales Hideki

Como sugere o nome, o Morning Glory Fizz é um coquetel de café da manhã. Um hábito que, nos dias de hoje, parece tão anacrônico quanto perigoso. Mas nem sempre foi assim. Durante o século XIX, essa era uma prática muito comum. Os coquetéis traziam mais disposição e vigor aos jovens pela manhã. Muitos drinks que hoje conhecemos nasceram deste hábito, como o Between the Sheets, Pick me Up e o Red Snapper.

O perfil de sabor do Morning Glory Fizz é leve e refrescante, com alcaçuz ou anis em evidência, dependendo do ingrediente utilizado. Aprenda a prepará-lo aqui.

Seelbach

Se você, sofisticado leitor, adora degustar um espumante à beira da piscina para refrescar-se nestes tão tórridos dias de verão, o Seelbach é seu drink. Ele une o frisante fermentado com o melhor destilado do mundo. Whiskey. Além disso, a história de sua criação é digna de um filme de trapaça norte-americano. Leia tudo sobre ele aqui.

Jack Honey Lemonade

O Jack Honey Lemonade é uma criação da própria Jack Daniel’s, e uma aposta para a mais insuportavelmente quente estação do ano. Que, talvez, se torne um pouco menos insuportável com a ajuda de um coquetel como ele. A receita é quase tão fácil quanto beber:

  1. – Encha um copo alto com gelo;  
  2. – Despeje 50 ml de Jack Honey;  
  3. – Cubra com 30ml de limão siciliano;  
  4. – Complete com refrigerante de limão; 
  5. – Mexa. 

Dalmore Cigar Malt Reserve – Forma e Função

Esta matéria foi originalmente escrita para o website charutando.com.br . Porém, com o lançamento oficial do Dalmore Cigar Malt Reserve no Brasil, reproduzimos aqui o conteúdo.


Ferdinand Porsche uma vez disse “Se analisarmos a função de um objeto, seu formato geralmente se tornará óbvio”. Em outras palavras, a concepção, o desenho de certo objeto, deve ser escrava de seu propósito. Ferdinand Porsche realmente entendia muito sobre o design de automóveis, mas, provavelmente, nunca viu um talher de peixe na vida.

Vou começar pelo garfo. O garfo de peixe é simplesmente um garfo comum, sensivelmente menor, mais gordo e com um dente a menos. E não há nada de especial nele além disso. Nada em seu projeto torna a tarefa de levar o animal marinho à boca mais fácil. Por essa razão, o garfo de peixe simplesmente não deveria existir. Mas o pior não é ele. O pior mesmo é a faca de peixe.

A faca de peixe é um dos objetos da cutelaria que mais me intriga. Porque, para falar a verdade, ela não é boa para nada. Mas ela é especialmente ruim para se usar no peixe. Aquela reentrância – cujo propósito deveria ser auxiliar na separação das espinhas – é absolutamente inútil. Além disso, por não ter uma extremidade afiada, a faca acaba amassando o peixe, e deixando aqueles minipedacinhos impossíveis de serem comidos no prato. A faca de peixe é tão boa para comer peixe quanto um martelo de amassar carne seria.

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Por conta de minha experiência com talheres de peixe, já começo a desconfiar quando alguém me diz que existe algo especialmente e quase exclusivamente desenhado para uma função muito específica. A primeira vez que tive essa sensação com whiskies aconteceu quando fui apresentado ao Dalmore Cigar Malt Reserve. Segundo a destilaria Dalmore, o Cigar Malt foi especialmente desenvolvido para se harmonizar com bons charutos. É uma declaração corajosa, essa da Dalmore.

O Dalmore Cigar Malt Reserve é, na verdade, uma reinvenção do Dalmore Cigar Malt, descontinuado em 2009. A versão anterior, entretanto, era muito mais simples, e preenchia o espaço entre as expressões de doze e quinze anos da destilaria. A atual orgulhosamente se posiciona acima destas e abaixo do cobiçado Dalmore King Alexander III.

O Dalmore Cigar Malt Reserve foi desenvolvido por Richard Paterson, master blender da própria Dalmore e da marca Whyte & Mackay. O charuto utilizado por Paterson como referência para desenvolver o single malt foi o Partagas Serie D nº 4. E por essa escolha, eu somente poderia parabenizar Paterson.

O Cigar Malt Reserve é maturado em três diferentes tipos de barricas. Setenta por cento delas, botas de carvalho europeu que antes contiveram vinho jerez espanhol. Mais especificamente, vinho oloroso da Gonzalez Byass. O restante – trinta por cento – advém de barricas de carvalho americano que contiveram bourbon whisky e barricas de vinho Cabernet Sauvignon.

Segundo Paterson “meu objetivo ao criar o Cigar Malt Reserve foi proporcionar aos fãs de single malt uma experiência incomparável, mas produzir também uma expressão que harmonizasse com a maioria dos charutos extraordinários no mercado. Eu acredito que este novo whisky é uma expressão sucinta de prazer” – e continua – “Para realmente tirar o máximo da experiência, harmonize-o com chocolate amargo, café preto (sugiro colombiano, javanês ou de Ruanda) e um charuto robusto, como um Hoyo de Monterrey, Partagás ou Cohiba. Aqueça sua boca com um pouco de café, morda um pedaço do chocolate e agora tome um pequeno gole do whisky. Agora termine com uma boa baforada no charuto. Repita até o paraíso”.

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Na opinião deste Cão, se provado puro, o Cigar Malt Reserve é um excelente whisky, e provavelmente uma de suas expressões preferidas da famosa destilaria das highlands. Ele é um whisky oleoso, com aroma e sabor marcados claramente pelo jerez, mas mais seco e apimentado. Algo que, intuitivamente, combinaria muito bem com um belo habano.

Para realmente entender como o single malt funcionaria com charutos, entretanto, foi necessária árdua dedicação. Foram feitas quatro harmonizações com charutos diferentes, em dias diferentes – um Hoyo de Monterrey Serie Le Hoyo, um Partagas Serie E nº 2, um brasileiro Artist Line Robusto e, por fim, o Romeo y Julieta Churchills da foto. Na humilde opinião deste que vos escreve, o Cigar Malt se saiu melhor com os charutos mais suaves, ainda que seu benchmark tenha sido um charuto forte, como o Partagás.

Acontece que os charutos mais potentes acabaram eclipsando grande parte das sutilezas do whisky. Há, por exemplo, um certo sabor adocicado, que relembra, de longe, frutas em calda, e que fica quase completamente imperceptível com o Partagás.

O Dalmore Cigar Malt Reserve, entretanto, é um whisky polivalente, que entrega complexidade e sabor se tomado puro, e que corajosamente enfrenta qualquer charuto e se sai – quase sempre – muito bem. Posso garantir que ele está realmente longe de ser uma faca de peixes.

THE DALMORE CIGAR MALT RESERVE


Tipo: Single Malt sem idade definida (NAS)
Destilaria: The Dalmore
Região: Highlands
ABV: 44%


Notas de prova:


Aroma: aroma de caramelo e com frutas em calda. Leve cítrico.
Sabor: caramelho, frutas cristalizadas, frutas vermelhas. Final longo e progressivamente mais frutado (para frutas vermelhas). Leve sabor de baunilha.
Com Água: A agua ressalta o sabor frutado e reduz o final. É um whisky que se sai melhor puro.

Blue Label Ghost & Rare Glenury Royal

Sol alto no limpo céu de verão de 1809. Uma multidão tão vasta quanto eclética se reunia sobre a grama de Newmarket Heath. Havia homens, mulheres e crianças de tão distintas classes sociais que aquele mais parecia um experimento babélico da estratificação social inglesa do século dezenove. Fazendeiros locais dividiam espaço com fidalgos e burgueses. Em comum, semblantes que ora demonstravam curiosidade, ora antecipação. Do meio do burburinho – tão comum nestas grandes aglomerações – se podia distinguir uma frase “mil milhas em mil horas, por mil guineas“.

Aquela era a aposta de um homem e a razão de tamanha reunião. Seis semanas antes, o Capitão Robert Barclay havia apostado contra seu conhecido, James Wedderburn-Webster, que ele conseguiria correr mil milhas em mil horas por mil guineas. Um desafio que, mesmo para os padrões atuais, seria um tanto arrojado. Não apenas fisicamente, ainda que correr vinte e quatro milhas por dia, ao longo de seis semanas, já esteja no limiar do impossível. Mas financeiramente também. Mil guineas, atualmente, corresponderiam a aproximadamente quatro milhões de libras – ou vinte e quatro milhões de reais. Aquele realmente não era um desafio para um homem qualquer.

Destaque para a indumentária de corrida do capitão

Mas o Capitão Barclay estava longe de ser um homem qualquer. Sua força física e estamina eram extraordinárias, e somente se equiparavam a seu espírito empreendedor e destemor. Tanto é que em 1825, fundou a destilaria Glenury, próxima ao rio Cowie, na Escócia – muito provavelmente com parte dos proventos recebidos de suas apostas. Destilaria, esta, que mais tarde se tornaria uma das únicas três a receber o royal warrant (leia mais sobre isso aqui) graças ao bom gosto de um certo Rei William IV – o que permitiu que a destilaria orgulhosamente se rebatizasse de Glenury Royal.

Mas toda gloriosa história não seria tão gloriosa não tivesse algum percalço. Neste caso, uma série de percalços enfrentados pela Glenury Royal – dentre eles um enorme incêndio – que culminaram em seu fechamento um século e meio mais tarde, em 1985. Naquele ano, sob a batuta da Diageo, a Glenury Royal foi fechada e demolida. Seu estoque, porém, sobreviveu – centenas de barricas maturando um líquido que jamais seria novamente produzido. E é justamente este precioso destilado que compôs o coração do mais novo – e último – lançamento da série Blue Label Ghost & Rare. O Blue Label Ghost & Rare Glenury Royal.

Lançado em julho de 2019 no Reino Unido, e em Dezembro no Brasil, O Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare veio para completar o “trio de Blues” que evidencia destilarias que já foram demolidas ou desativadas. Os outros dois lançamentos da série foram o enfumaçado Ghost & Rare Port Ellen, e o carnudo Ghost & Rare Brora. Além de Glenury Royal, o blend leva boa parte de outras duas destilarias fantasmas, Pittyvaich e Cambus – esta última, uma destilaria de grão. Outros maltes como Glen Elgin, Inchgower, Glenlossie, Glenkinchie e Cameronbridge completam o blend.

A finada Glenury Royal (fonte: Malt and Oak)

Em comparação aos outros Blue Label Ghost & Rare, o último lançamento é mais adocicado e vínico, e menos turfado. De certa forma, sensorialmente ele se aproxima mais do Johnnie Walker Blue Label tradicional – aliás, do trio, é o que mais se parece com o queridinho Blue – mas traz uma experiência mais amplificada. É mais intenso em seus aromas frutados, e também traz a impressão de ser mais oleoso e complexo.

No Brasil, o Blue Label Ghost & Rare Glenury Royal custa a pechincha de R$ 1.400,00 (mil e quatrocentos reais) aproximadamente. É bastante dinheiro – menos talvez para um certo Capitão Barclay. Mas, de certa forma, é um preço bem próximo àquele praticado em sua terra natal, o Reino Unido. Por lá, a garrafa custa algo como duzentas e setenta e cinco libras.

Determinar se este preço é justificado é bastante subjetivo. São aproximadamente quatrocentos reais a mais do que o Blue Label tradicional. Mas é apenas uma fração do preço de uma garrafa de Glenury Royal – o single malt – que custa mais de mil libras, ou seis mil reais, no mercado britânico. Assim, esta talvez seja uma ótima oportunidade para provar o whisky de uma destilaria silenciosa – uma oportunidade que jamais se apresentará desta forma. Ainda que, bem, esta lógica seja um tanto discutível.

E ainda que o Blue Label Ghost & Rare Glenury Royal não tenha sido o favorito da série para este Cão Engarrafado – este titulo pertence ao Port Ellen – este continua sendo um blend extraordinário. Daqueles capazes de converter os apaixonados por single malts, e demonstrar todo conhecimento e talento da maior marca de whiskies do mundo – a Johnnie Walker. Se o Ghost & Rare Glenury Royal existisse na época do capitão Barclay, ele certamente seria o destino de certas mil guineas.

JOHNNIE WALKER BLUE LABEL GHOST & RARE GLENURY ROYAL

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 43,8%

Notas de prova:

Aroma: Adocicado e frutado, com frutas vermelhas, mel e baunilha.

Sabor: frutado (frutas em calda), nozes. Final longo, com açúcar mascavo, baunilha e frutas vermelhas. Álcool extremamente bem integrado.

Preço Médio: R$ 1400,00 (mil e quatrocentos reais)

Presentes para quem ama whisky – 2019

Estamos quase lá no Natal. Época de reencontrar todo mundo que você evitou o ano inteiro. De fazer aquela terrível retrospectiva do ano, e planejar o futuro, só para fazer uma nova retrospectiva desastrosa no ano seguinte. De descobrir que todo mundo da sua família detesta uva passa, mas, que por alguma razão que desafia a lógica, sempre tem uva passa na comida.

O Natal é a época de suar. Suar deitado, suar de pé. Suar parado e suar andando. Ligar o ar-condicionado do carro e mesmo assim ficar com as costas suadas, porque estão em contato com o banco. Porque nosso natal tropical acontece no comecinho do verão, e aquela tradicional decoração de neve é tão irritante quanto brega.

E, mais do que qualquer dessas coisas, Natal é época de presentes. Para aquela sua amiga que já tem tudo, aquele seu conhecido do escritório que é a pessoa mais desinteressante do mundo e você acha que ele devia ganhar meias, e também para seu amiguinho que adora whisky. E é aí que eu entro.

Aí vai uma lista de quatro whiskies para aquele seu amigo antenado nos últimos lançamentos. E para sua amiga que tem tudo também, porque whisky nunca é demais. E para o coleguinha chato, para ver se ele fica mais legal. Bom, sem mais tergiversações, vamos a eles.

JOHNNIE WALKER SONG OF ICE AND FIRE

Sério gente, eu até vou pular a descrição desses daqui. São dois blended whiskies inspirados em Game of Thrones. Precisa falar mais? Bom, então eu falo.

O Song of Fire é um whisky enfumaçado e medicinal, mas bastante leve. Sua inspiração é Daenerys Targaryen, e a garrafa estampa um imponente Drogon. Já o song of Ice é frutado, leve e adocicado, e relembra o Johnnie Walker Gold Label Reserve. Sua homenagem é a Jon Snow e seu pet espiritual, o Ghost.

Johnnie Walker Song of Ice e Johnnie Walker Song of Fire custam, juntos, R$ 215,00, e podem ser comprados clicando aqui. Individualmente, cada um custa R$ 119,90.

ARRAN THE BOTHY

O Arran The Bothy é um whisky frutado e cítrico, com final longo e apimentado. É um whisky sensorialmente bem acessível. Mas há um detalhe importante. Sua graduação alcoolica. O The Bothy possui 53,2% ABV. É bastante. Comparativamente, blends conhecidos como o Johnnie Walker Black Label e Chivas 12 possuem 40%.

Ele é produzido pela Arran, destilaria escocesa da região das ilhas, que possui também outras expressões bastante interessantes. Como, por exemplo, o Arran Port Cask Finish, finalizado em barricas de carvalho que antes continham vinho do porto, e o Arran Machrie Moor, defumado.

O The Bothy chega ao Brasil pela Single Malt Brasil, e-commerce especializado em whiskies. Por enquanto, ele somente pode ser comprado por lá. O que te garante pontos extras, afinal, você encontrou uma garrafa que nem mesmo seu amiguinho sabia que existia em terras tupiniquins. Custa R$ 375,00, e pode ser comprado clicando aqui.

MACALLAN DOUBLE CASK 12

(Fonte: creativegourmet.com)

Recém-chegado ao Brasil, o Macallan Double Cask 12 anos possui um intrigante processo de maturação. Ele é uma combinação de barris virgens de carvalho americano (não de ex-bourbon, como seria a tradição) temperados com vinho jerez espanhol e barricas de carvalho europeu previamente utilizados também para jerez. Tudo isso, maturado por, no mínimo, 12 anos.

Para os apaixonados pela destilaria preferida de James Bond e Harvey Specter, o Macallan Double Cask 12 anos é perfeito. E também para todos aqueles que adoram whiskies vínicos, oleosos e complexos. Sério, quem não gostaria de receber um desses?

O Macallan Double Cask 12 anos custa, em média, R$ 550,00.

ROYAL SALUTE SNOW POLO EDITION

Este é para aquele seu amigo de gosto refinado. O Royal Salute Snow Polo Edition faz parte de uma categoria de whiskies inédita em nosso mercado – e bem rara mesmo na Escócia. Ele é um blended grain scotch whisky, produzido somente com whiskies de grãos, em destiladores contínuos. Mas whiskies de grão bastante especiais. Seguindo a tradição da Royal Salute, o Polo Edition possui 21 anos de maturação mínima. Ele foi criado por Sandy Hyslop, diretor de blending da Chivas Regal

O Snow Polo edition da Royal Salute é a terceira expressão da Polo Collection, uma linha de whiskies de edição limitada – lançados em um único lote, uma única vez – que celebram (bem, acho que isso será óbvio) o pólo equestre. Sofisticação galopante.

O Royal Salute Snow Polo Edition custa aproximadamente R$ 1.000,00 , e está à venda na DrinksandClubs.

DALMORE CIGAR MALT RESERVE

Seu presenteado gosta de charutos e whisky? Então nada mais perfeito do que o Dalmore Cigar Malt Reserve, recém-chegado ao Brasil e importado pela Casa Flora. Ele foi desenvolvido por Richard Paterson, master blender da própria Dalmore e da marca Whyte & Mackay. O charuto utilizado por Paterson como referência para desenvolver o single malt foi o Partagas Serie D nº 4. E por essa escolha, eu somente poderia parabenizar Paterson.

Segundo Paterson “meu objetivo ao criar o Cigar Malt Reserve foi proporcionar aos fãs de single malt uma experiência incomparável, mas produzir também uma expressão que harmonizasse com a maioria dos charutos extraordinários no mercado. Eu acredito que este novo whisky é uma expressão sucinta de prazer”

O Dalmore Cigar Malt Reserve custa em torno de R$ 1.100,00.

Bourbon Rickey – O Avô do Highball

Recentemente fui ver o filme Joker no cinema. Não vou entrar aqui no mérito do filme e dizer tudo aquilo que você já sabe, que o roteiro não está aos pés da atuação de Phoenix; e que essa mania de americano de explicar as coisas demais acaba tirando todo o mistério sobre um personagem que encapsula tudo que é caótico. Não vou porque você já deve ter visto o filme ou lido isso, então não vou me repetir.

Mas vou contar a história de um senhor que eu conheço, que foi no cinema sem saber que o filme era sobre o Joker do Batman. E aí, ele ficou lá na cadeira, por duas horas, assistindo a película sobre um palhaço que só se ferra. E longe de mim dar qualquer spoiler, mas essa é uma enorme ironia, ainda mais por se tratar de Joker. Porque o filme meio que subverte a lógica do cinema – ele só faz sentido porque você sabe o final. Você sabe que o Arthur Fleck vai virar o Joker, e tem uma curiosidade meio mórbida em saber como.

Um palhaço qualquer

O filme me fez lembrar também de um aforismo, geralmente atribuído a Winston Churchill. “A história é normalmente escrita pelos vencedores“. Porque até hoje, só sabíamos da versão do Batman. Mas o Coringa é um perdedor tão distinto que sua história – seja ela qual for – merece ser contada.

E isso acontece no mundo real também. Como, por exemplo, com um homem chamado Joseph Kyle Rickey – ou simplesmente Joe Rickey, um coronel do exército confederado dos Estados Unidos, no final do século XIX. Um cara que certamente não teve muitas vitórias na vida – e nem na morte. Aliás, só teve uma, que ele nem queria – o Bourbon Rickey. Vou contar tudo pra vocês.

Antes, algumas palavras sobre o coquetel. O Bourbon Rickey. O Bourbon Rickey é um coquetel bem simples, que remonta a um higball. É, aliás, um predecessor deste drink tão em voga ultimamente. Ele leva apenas três ingredientes – club soda ou água com gás, whiskey e limão. A proporção muda de receita para receita. A receita abaixo é do bartender e consultor Marco De La Roche, e figurou em uma matéria especial escrita por ele, aqui no Cão Engarrafado. Mas, se você preferir mais diluído, é obviamente mais fácil adicionar mais água até acertar do que preparar todo um novo coquetel para reduzir o whiskey. Mas vamos ao que interessa. Joseph Rickey.

A primeira vez que Joseph Rickey foi heroicamente salvo das garras da vitória aconteceu durante a guerra civil norte americana. Ele estava do lado errado do confronto – os confederados – e perdeu. Mas Joseph era um homem resiliente e inflexível. Assim, depois do conflito, resolveu que mudaria de vida para se dedicar à política. Primeiro no Missouri, depois em Washington. A meteórica carreira de derrotas de Rickey seguiu durante essa intentada, tendo acumulado fracassos tanto estaduais quanto federais. Num deles, inclusive, perdeu um considerável valor em dinheiro, apostando num presidente que jamais fora eleito.

Um brinde a isso

Para buscar conforto depois de sua dose diária de desgraça, Joe Rickey costumava frequentar um bar em Washington, chamado Shoomaker’s. E numa dessas idas, inventou – com o auxílio do bartender George Williamson – o coquetel que o imortalizaria, e que levava seu nome. Com o tempo, o Joe Rickey – o drink, não a pessoa – passou a se chamar Bourbon Rickey, e inspirou toda uma classe de coquetéis. O que seria uma vitória para qualquer pessoa, menos para Joseph – o homem preferia ser lembrado por seu legado político do que o etílico.

O sucesso do coquetel fica claro em um artigo de Ted Haig, da Imbibe, ao citar uma matéria de um jornal da época de Joseph: “A convenção (democrática) seguiu até quase duas e meia da manhã, e daquele horário em diante, até muito depois do nascer do sol, havia felicidade em todo canto. Os maiores responsáveis por essa felicidade eram Rickey’s de todo tipo e força. Havia gin Rickeys, whisky Rickeys e Brandy Rickeys, e todo e qualquer tipo de Rickey conhecido pelo homem mortal“.

Com o tempo, porém, o Bourbon Rickey perdeu popularidade, e foi lentamente substituído pelo gin rickey: basicamente, o mesmo drink, só que com gim. E é engraçado, porque mesmo depois de falecido, Rickey perdeu mais duas vezes. Na primeira, por não ter conseguido que seu coquetel fosse esquecido. E, na segunda, porque mesmo substituindo bourbon por gim, algo que Rickey certamente detestaria, a mistura continuou com seu sobrenome. O que, de certa forma, é uma ironia que mesmo o Coringa do Batman – e alguém que não sabe quem ele é – apreciaria.

BOURBON RICKEY

INGREDIENTES

  • 60 ml de bourbon whiskey
  • 25 ml de suco de limão tahiti
  • 75 ml de água com gás / club soda
  • Parafernália para mexer
  • copo alto

PREPARO

  1. Em um copo longo com cubos de gelo, coloque o bourbon e o limão e mexa rapidamente para homogenizar.
  2. Finalize com água com gás, mexa novamente e sirva com uma rodela fina de limão tahiti.

Glenlivet Code – Spoiler

Cã para mim, na farmácia. Você não vai comprar os Cotonetes? Claro que vou, olha aqui. Mas isso não são Cotonetes. Olhei intrigado, talvez por não ter notado o cê maiúsculo próprio da marca na frase falada. Não são Cotonetes, são hastes flexíveis genéricas, será que são tão boas quanto? Expirei de insatisfação. Olha, são palitinhos com algodão na ponta, acho que meu ouvido não é muito discriminatório em relação a marca das coisas que eu enfio nele.

Pode parecer uma discussão boba, mas não é. A marca de um produto influencia diretamente em como o percebemos. Recentemente a Nielsen, empresa especializada em estudar o comportamento de consumidores, fez uma descoberta interessantíssima. Seis em aproximadamente dez consumidores preferem comprar novos produtos de marcas familiares, simplesmente porque inspiram confiança. Faz sentido – na maioria das vezes, nós, humanos, buscamos segurança. Segurança essa, representada por algo que já nos é familiar. Nós já sabemos o que esperar.

Mas não são apenas marcas. Quando conhecemos algo, criamos um conceito ao redor daquilo. Conceito que usamos de base de comparação para outras coisas da mesma natureza. Antes de experimentarmos o novo, acessamos essa biblioteca de conceitos e criamos um, bem, pré-conceito sobre aquilo. Por exemplo, quando alguém me diz que certo whisky passou por barris de vinho jerez, já imagino algo frutado e apimentado. O que, algumas poucas vezes, não acontece. Mas eu acho que acontece, porque meu cérebro está condicionado a procurar sempre o mesmo resultado, depois de ter experimentado uma pletora de whiskies maturados em ex-jerez que tinham esse perfil.

Uma certeza: tem aroma de whisky (fonte: www.theglenlivet.com)

Sabendo disso, a Glenlivet – uma das três maiores destilarias da Escócia – resolveu fazer um experimento bem pouco ortodoxo. Ela acaba de lançar no Brasil o Glenlivet Code, single malt que não possui nenhuma informação na embalagem sobre idade ou maturação dos componentes. A única informação é a graduação alcoólica, de 48%. A ideia é que o consumidor não seja levado a sentir determinado aroma ou sabor por conhecer a composição das barricas usadas na expressão. Em outras palavras, ele convida os consumidores a degustar, refletir e produzir suas próprias notas de prova, sem pré-conceitos (separado mesmo, com hífen, para eliminar o viés depreciativo)

Nas palavras de Alan Winchester, master distiller da Glenlivet “com o Glenlivet Code, tivemos a oportunidade única de criar um whisky que jamais fora criado antes, utilizando novas barricas e técnicas para expandir as fronteiras do que as pessoas esperam da The Glenlivet. A edição limitada deste ano é um labirinto de sabores que testará seus sentidos, e estamos animados para convidar os consumidores ao redor do mundo a aceitar o desafio de decodificar seus mistérios“.

Para tornar a experiência mais interativa, a Glenlivet lançou um hotsite. Lá, o apreciador é convidado a decifrar o código daquele single malt. Ou, em outras palavras, comparar suas notas de prova com as de Alan Winchester, indicando, em um teste de multipla escolha, o que sentiu no Glenlivet Code. No final, o site lhe apresenta um resultado com percentual de acerto.

O Glenlivet Code foi lançado em março de 2018, e é a terceira edição de uma série de maltes misteriosos da Glenlivet. O primeiro foi o Alpha, em 2013, acompanhado pelo Cipher, em 2016. A ideia dessas edições, na opinião deste Cão, é excelente. Elas permitem que o consumidor esclarecido indague a si próprio sobre o que lhe agrada no paladar de um whisky, e qual a idade e a composição daquela bebida. E, por consequência, reflita também sobre o que torna uma bebida boa. Afinal, a idade é importante? A composição das barricas?

Alguns meses após o lançamento – e antes que o Code tivesse a chance de desembarcar em nosso país – a Glenlivet revelou suas notas de prova completas, beom como a composição de barricas. Porém, para evitar spoilers, não explicarei aqui. Mas me limitarei a dizer que seu processo de maturação utiliza uma espécie bem pouco tradicional de barricas. Se quiser saber, basta acessar o website da Glenlivet.

Ao colocar as patas em uma garrafa, imaginei que logo faria o teste. Afinal, não sou o tipo que se furta de um desafio etílico. No entanto, antes, decidi prová-lo sem me preocupar com as notas, para me aclimatar. E fiquei muito impressionado. É um whisky com o álcool extremamente bem integrado, e um sabor frutado e apimentado – sem spoilers aqui – um tanto incomum para os Glenlivet. Seja o que for que estiver naquela garrafa preta-fosca, é excelente, e merece ser provado com cuidado.

Devo dizer que fiquei ao mesmo tempo orgulhoso e frustrado com meu teste. O website faz com que você escolha entre notas diferentes, porém, em certos estágios, me vi dividido: sentia duas notas, e deveria escolher apenas uma. Mais uma vez, sem spoilers aqui. Talvez meu olfato canino não esteja afinado. Ou, talvez, a ideia seja justamente essa – mostrar que diferentes pessoas possuem diferentes percepções, baseadas em sua memória olfativa.

Alan rindo do resultado do meu teste.

No Brasil, uma garrafa do Glenlivet Code custa, em média, R$ 700,00 (setecentos reais). É um preço comparável a outra prata da casa, o Glenlivet 18 anos – o que sugere que há uma boa parcela de whiskies bem maturados no misterioso lançamento. Impressão, esta, que se reflete também no paladar.

Se você não aguenta um mistério, ou se é um apaixonado pelos maltes da Glenlivet, não deixe de provar o Glenlivet Code. Aliás, prove o Glenlivet code mesmo se não gostar da destilaria. Afinal, a ideia é justamente abandonar conceitos pré-concebidos.

Ou, melhor dizendo, nem todas as hastes flexíveis são iguais.

THE GLENLIVET CODE

Tipo: Single Malt sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 48%

Notas de prova:

Aroma: ?

Sabor: ?

Com água: ?

Kilchoman Port Cask Matured (2018)

Uma vez, contei a vocês como me apaixonei à segunda vista pela incrível Bowmore. O que não contei é que, na mesma viagem, me desiludi com uma destilaria que antes nutria altas expectativas. A Kilchoman – na data de minha viagem, a menor, mais jovem e mais promissora destilaria da ilha de Islay, famosa por seus whiskies enfumaçados.

Não que tenha detestado o lugar. Longe disso. Considerando seu tamanho e juventude, a Kilchoman se saía muito bem. Mas a comparação, talvez injusta de certo ponto de vista, com algumas de suas vizinhas, como Bruichladdich e Bowmore, à deixava em desvantagem. Não havia nada de errado com os maltes da Kilchoman. Mas, minha impressão, é que não havia nada de extraordinário também.

Porém, foi apenas bons dois anos depois, em outra viagem e do outro lado do Oceano Atlântico, que minha impressão se dissipou. Durante uma visita ao incrível Flatiron Room de Nova Iorque, pude provar o Kilchoman Port Cask Matured – single malt da destilaria com 50% de graduação alcoólica, e finalizado em barris de vinho do porto. E, como vocês sabem, tenho uma certa obsessão por whiskies e vinhos do porto.

Flatiron Room

O Kilchoman Port Cask Matured 2018 é o segundo lançamento da Kilchoman de um single malt maturado em barricas de vinho do porto. O primeiro foi lançado em 2014, data em que o new-make spirit (o destilado sem maturação) da segunda edição, lançada em 2018, foi colocada nos barris.Trinta deles, para ser mais exato. A breve maturação ocorreu inteiramente nessas trinta barricas de vinho do porto, o que é algo bem raro.

Sensorialmente, o Kilchoman Port Cask Matured é um whisky enfumaçado e relativamente alcoólico, mas com um dulçor frutado bastante claro, especialmente na finalização. Na opinião – suspeita – deste Cão, há um equilíbrio excelente entre o perfil do destilado e a influência das barricas de porto, ainda que o whisky pareça bastante jovem.

A Kilchoman é uma destilaria bem jovem. Seus primeiros barris foram preenchidos em dezembro de 2005 e seu primeiro whisky – o Inaugural release – foi lançado somente em 2009. Por conta disto, a destilaria não possui estoque com maturação superior a treze anos. Para tentar contornar a quase inevitável juventude de seus maltes, a destilaria emprega uma longa fermentação em seus washbacks – de 85 horas – e alambiques que promovem bastante refluxo, apesar de seu tamanho diminuto.

O Kilchoman Port Cask Matured é um malte jovem e desafiador – adjetivos perfeitamente aplicáveis também à sua destilaria. E é também um testemunho de que a Kilchoman rapidamente despontará como uma das mais incríveis destilarias daquela que já é a mais incrível ilha para um apaixonado por whiskies. Se algum dia eu voltar para Islay, a Kilchoman será minha primeira visita.

KILCHOMAN PORT CASK MATURED

Tipo: Single Malt sem idade declarada – NAS

Destilaria: Kilchoman

Região: Islay

ABV: 50%

Notas de prova:

Aroma: defumado, com frutas secas e cristalizadas

Sabor: Início defumado e medicinal, com carvão e esparadrapo. Frutas cristalizadas. Figo. Uvas passas. Final defumado e frutado.

Com Água: Adicionar água torna o whisky menos agressivo e mais frutado.