Arran Machrie Moor – O Cão Defumado

Tendo nascido numa época que predatava o uso indiscriminado da internet, vi minha infância afligida por muitas dúvidas de grande relevância. Uma delas – que me atormentava toda vez que tomava café da manhã – era: quem, afinal, estava representado na caixa da farinha Quaker? E outra indagação ainda mais angustiante, mas da mesma natureza: quem era o simpático velhinho do luminoso do KFC?

Se pudesse pesquisar essas coisas online, seria fácil. Saberia que o distinto senhor do frango frito é o Coronel Sanders, importante personagem da história norte-americana. E que o – tampouco jovem – homem da farinha de aveia Quaker é, na realidade, ninguém. Ele fora desenhado de acordo com a fé dos Quaker, para representar os valores de honestidade, integridade, pureza e força. Todo esse conhecimento estaria na ponta de meus dedos, bastasse uma rápida pesquisa pela Internet. Mas não. Tive que esperar a democratização da tecnologia para aplacar minha aflição indagatória.

E se ele é Mercurio, cadê o capacete com asinhas?

Recentemente me vi mais uma vez curioso sobre a embalagem de algo. Desta vez, um whisky. O Machrie Moor, expressão defumada da destilaria Arran, localizada na ilha homônima. É que o whisky possui um simpático cão ilustrado em seu rótulo. Uma imagem bonita, mas que me parecia um pouco desconexa. Afinal, qual seria a relação entre um cachorro e um whisky defumado? Porém, desta vez, graças ao avanço tecnológico, minha curiosidade foi rapidamente saciada.

Antes de avançar e responder à pergunta, porém, deixe-me falar um pouco sobre o whisky. O Arran Machrie Moor é um single malt sem idade definida, engarrafado a 46% de ABV. Seu aroma é claramente defumado, marítimo e um pouco medicinal. O sabor é defumado e cítrico, com final longo e enfumaçado. É um whisky perigosamente agradável. Se não estivesse preso à coleira da moderação, poderia facilmente beber meia garrafa em uma noite.

Os Machrie Moor são edições especiais anuais. A garrafa provada para este post é a do lote (batch) no. 8, de 2017. Ela é uma de 18.300 garrafas produzidas naquele ano. Isso é importante. Ainda que o nível de defumação tenha permanecido igual, houve certas mudanças na composição dos lotes mais novos, que foram mais bem recebidos pelo mercado do que os primeiros.

A Arran é uma destilaria bastante jovem. Ela foi fundada em 1995 por Harold Currie, um ex-diretor da Chivas Regal. Porém, apesar da juventude, é uma destilarias com portfólio mais extenso da Escócia. Há, por exemplo, single malts com idade declarada, como o 10, 14 e 18 anos. E também alguns sem idade definida, como Lochranza e Quarter Cask. Existe também uma linha com finalizações especiais, em barricas de vinho jerez, vinho do porto e sauternes. E existem, claro, os defumados – dos quais o Machrie Moor faz parte.

Harold (fonte: scotchwhisky.com)

Aliás, vamos falar do nome. O Machrie Moor foi batizado em homenagem a um depósito de turfa – um peat bog – localizado na costa oeste da ilha de Arran. Lá estão alguns círculos de pedras celtas, datadas da era do bronze (as famosas standing stones). Um destes círculos é chamado Fingal’s Cauldron Seat, onde uma das pedras apesenta um orifício. De acordo com o folclore de Arran, foi nesta pedra perfurada que o gigante Fingal prendeu seu mitológico cão Bran, enquanto aproveitava uma nutritiva refeição no centro do círculo.

E aí está. O cachorro estampado no rótulo do Machrie Moor é Bran. Um cão de caça pertencente à mitologia do povo celta. Segundo seu próprio mito, Bran fora um cachorro gerado do ventre de uma humana, e, por isso, herdara a inteligência (que hoje em dia anda em falta) de nossa espécie. Sua rapidez de raciocínio e habilidade para caça somente se equiparavam a sua lealdade a Fingal.

Assim, se você quer um whisky defumado e cítrico, mas com excelente drinkability, não é necessário se angustiar por anos a fio sem uma resposta definitiva. Tampouco aguardar que uma nova tecnologia – ou uma antiga – lhe dê a resposta. A partir de agora, você já pode ficar offline. O Arran Machrie Moor é seu whisky.

ARRAN MACHRIE MOOR

Tipo: Single Malt sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Arran

Região: Higlands (Islands)

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: fumaça, frutas cítricas.

Sabor: discretamente frutado, com abacaxi. Predominantemente defumado e levemente salgado.

Preço: R$ 351,00 na importadora oficial, a www.lojadewhisky.com.br

Drops – Ardbeg Twenty One

Uma Lamborghini. A imagem que me veio à mente imediatamente ao provar o belíssimo Ardbeg 21 (Twenty One) foi uma Lamborghini. Um automóvel com acabamento luxuoso, com materiais faustosos, todos milimetricamente encaixados, costurados, colados. Algo cuja delicadeza no feitio contrasta diametralmente com sua performance – que poderia ser definida como selvagem.

Há, no Ardbeg Twenty One, uma certa sofisticação selvagem. Uma elegante exorbitância. Algo bem diferente de outros rótulos da destilaria. Ao contrário do queridíssimo Corryvreckan e Uigedail, a selvageria no Ardbeg Twenty One parece incrivelmente contida. Ela está lá, latente, você sabe que ela está lá, mas não transparece tanto. É algo subliminar.

O Ardbeg Twenty One não sofre filtragem a frio. A garrafa não deixa claro se corante caramelo é utilizado. Mas, considerando os demais whiskies do portfólio da destilaria, é bem mais provável que sua belíssima cor seja absolutamente natural. O whisky é engarrafado na graduação alcoólica de 46% – perfeita para um líquido de contida selvageria.

A maturação do Ardbeg Twenty One ocorre exclusivamente em barris de carvalho americano de 200 litros que antes contiveram bourbon whiskey. Apesar disso, sensorialmente, é um single malt extremamente complexo. A turfa (o defumado e medicinal) não é tão forte como nos Ardbeg mais jovens – como é de se esperar. O cítrico característico da destilaria, porém, está bem mais evidente, e é reforçado por um sabor residual de amêndoas e caramelo absolutamente incríveis. Há também um apimentado – a parte selvagem – que harmoniza os demais elementos.

Há uma curiosidade sobre o Ardbeg Twenty One. Seu lançamento aconteceu em 2016. O que significa que sua destilação se deu no ano de 1995 – uma época bastante atribulada para a destilaria. O Website Malt, em um belíssimo artigo, explica a história. Durante a década de 80 a Ardbeg esteve fechada, até ser comprada em 1989 pela Allied Distillers Ltd – que passou a utilizar seu malte especialmente para blended whiskies.

Porém, pouco tempo depois a Allied Distillers comprou também a Laphroaig. Com isso, reduziu a produção de malte na Arbeg, até finalmente fechá-la em 1996. O que significa que o Ardbeg Twenty One foi destilado em seu último ano de funcionamento antes de cair em silêncio e retornar, apenas em 1997, nas mãos da Glenmorangie Company. E uma curiosidade da curiosidade – o alambique que hoje está fincado na entrada da destilaria, saudando os visitantes, foi aquele que destilou o Twenty One, naquele terrível ano de 1995.

Ex-Alambique

Aqui, adoraria recomendar a todos que provassem o Ardbeg Twenty One. É um malte maravilhoso. Porém, é um whisky bastante raro – este Cão somente conseguiu experimentá-lo por sorte, ao encontrar uma solitária garrafa que resplandecia na prateleira de um sofisticado bar, durante uma viagem internacional.

Além disso – e acima de qualquer coisa – recomendá-lo seria de uma presunção inimaginável. Seria como se concluísse este texto aconselhando que, se alguém encontrasse por aí uma Lamborghini, não perdesse a oportunidade de comprá-la e dirigi-la. Mas que fique registrado – O Twenty One é um testemunho da enorme qualidade dos Ardbeg, mesmo contida pelas maiores adversidades. Selvageria seria não reconhecer isso.

ARDBEG TWENTY ONE

Tipo: Single Malt (21 anos)

Destilaria: Ardbeg

Região: Islay

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Fumaça, frutas cítricas, baunilha, caramelo.

Sabor: Frutas cítricas e amarelas, amêndoas. O final é salino e defumado, com um incomum dulçor de caramelo e baunilha.

 Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

As garrafas de whisky mais bonitas à venda no Brasil

Minha chaleira elétrica de casa quebrou. Tudo bem. Ela já tinha mais de cinco anos e era utilizada implacavelmente por minha esposa quase todo dia. Após uma rápida ligação à assistência técnica, soube que estava além de reparação. Decidi, então, passar na loja de eletrodomésticos mais próxima para conseguir uma substituta. Ao chegar lá, fiquei completamente perdido.

Chamei a vendedora. Quanto é essa daqui, muito bonita? Ah, essa é novecentos. Ela tem cinco temperaturas, pode ser controlada do smartphone, fala e faz chá quase sozinha. Puxa, legal, mas tá meio fora do orçamento. E aquela ali, bem feia? Ah, essa é cento e cinquenta. Ela esquenta água e pronto. Puxa, mas é feia. E aquela vermelhinha alí? Aquela é igual a esta, só que é bonita. Custa quatrocentos. Parei. Não tenho maturidade para comprar uma chaleira sozinho. Quase o triplo só porque é bonita?

Saí da loja, mas fiquei pensando. Não comprei a feia porque era feia, mas e com whisky? Se certo Dalmore, por exemplo, viesse numa garrafinha de cerveja sem graça, acharia ele tão bom assim? Provavelmente sim. Compraria para provar? Capaz que não. A embalagem é o primeiro contato que temos com o produto. Ela cria expectativa, e antecipa seu conteúdo. Uma garrafa bonita é uma promessa de uma bebida fantástica – promessa, essa, que pode ou não se cumprir.

Por conta disso, resolvi produzir uma matéria lúdica. Um post, com as quatro garrafas dos whiskies à venda em nosso país que mais admiro – aquelas que gritam para serem compradas, independente de seu conteúdo, simplesmente por serem visualmente maravilhosas.

Devo, porém, fazer uma ressalva. Beleza é algo bem relativo. Prova disso é que a Cã me acha bonito, minha mãe também – já o resto do mundo discorda. Assim, talvez, você tenha uma opinião diferente da minha neste assunto. O que é ótimo, afinal, a variedade é o tempero da vida. A variedade, o imprevisto e a agonia de uma existência sem propósito em um mundo descartável. Mas isso é outro papo.

Sem mais delongas existencialistas, vamos à lista:

1 – Macallan Reflexion

Pelo preço de aproximadamente R$ 10.000,00 (dez mil reais), o Macallan Reflexion tem a obrigação de ser bonito. É tipo uma BMW X6, só que no Macallan Reflexion não parece que arrancaram metade da parte de trás da garrafa.

Para falar a verdade, a garrafa do Macallan Reflexion é quase over. Ela se equilibra na tênue linha entre o elegante e o exagerado, mas sem jamais pender para o segundo. Um equilíbrio com sofisticação que apenas uma das mais respeitadas – e caras – destilarias do mundo poderia ter.

2 – Royal Salute 21 Anos

Poucas garrafas de whisky são tão icônicas quanto as de Royal Salute. Mesmo um completo leigo na melhor bebida do mundo, ao ouvir o nome da marca, é remetido à imagem mental dos decanters de porcelana de variadas cores. As garrafas são tão queridas que muitas pessoas compravam uma de cada cor, ainda que o líquido dentro fosse igual – talvez porque não soubessem decidir qual é a mais bonita.

Em 2019, a linha perene da Royal Salute mudou, e novos whiskies foram introduzidos. O Royal Salute clássico – antes apresentado em decanters que poderiam ser vermelhos, verdes ou azuis – passou a vir apenas na cor anil. Juntou-se a ele um blend defumado, o The Lost Blend, com uma garrafa de porcelana preta, e um blended malt, de embalagem esverdeada.

E o visual do estojo mudou também. Os conhecidos saquinhos de veludo saíram de cena, e um belo estojo, maior e mais elegante, sisudo por fora e irreverente por dentro, foi criado.

3 – Dalmore (qualquer um)

Preciso confessar que o visual das garrafas da Dalmore são um gosto adquirido. Antes, achava óbvio. É como se eu comprasse uma tequila com um mariachi ou um sombrero estampado no rótulo, ou uma vodka que ilustrasse um mafioso miliciano careca de terno com ogivas nucleares decadentes.

Quero dizer, todo mundo sabe que Dalmore é um whisky escocês. Colocar um cervo – um dos bichos mais conhecidos da fauna da Escócia – no rótulo não é exatamente um exercício criativo.

Por outro lado, devo assumir que a garrafa, em si, é belíssima – remete a conhaques e brandies, que, suspeito, seja justamente a ideia, considerando o perfil sensorial dos Dalmore. E a imagem do cervídeo no rótulo, prateada, em relevo, chega ao máximo da elegância que uma imagem de um bicho chifrudo num rótulo de bebida poderia chegar.

4 – Bruichladdich

Dalmore é um belíssimo lugar comum. A Bruichladdich é sua maravilhosa antítese. Visualmente, não há nada tradicional nas garrafas da destilaria de Islay.

Garrafas de whisky tendem a ser transparentes ou translúcidas, e apelar para tons terrosos. A Bruichladdich usa garrafas opacas, de cores como preto, amarelo vivo ou um verde bem parecido com o da Tiffany’s. A fonte usada nas garrafas também não tem nada de tradicional. Ela se chama DIN 1451 Mittelschrift, e foi criada pelo Instituto Alemão de Padronização (Deutsches Institut für Normung) em 1931 especialmente para placas de rua.

Não há nada de tradicional na identidade visual da Bruichladdich. Exceto, talvez, o formato da garrafa em si – que, convenhamos, é de uma elegância que nem mesmo a própria Tiffany’s atingiria, se tivesse desenhado a tal ampola.

Faixa Bônus – Compass Box

Olha, eu prometi que ia falar só de whiskies à venda no Brasil. Mas tive que abrir uma exceção. As garrafas e rótulos da Compass Box Whisky Co. – uma boutique de blended scotch whiskies ultra-premium – são de uma beleza quase insuperável.

A Compass Box Whisky Co. foi criada por John Glaser, executivo que antes trabalhou como diretor de marketing na Johnnie Walker. Glaser resolveu abandonar a empresa e fundar sua própria marca, dedicando-se a produzir apenas whiskies de altíssima qualidade – e beleza.

Pesquisar o portfólio da Compass Box é um exercício de mesmerização e desespero. Surpresa pela beleza, desespero pela impossibilidade de comprar as belíssimas garrafas de um jeito simples por aqui.

Angel’s Envy Bourbon – Drops

Uma vez contei por aqui minha obsessão por single malts finalizados em vinho do porto. Talvez seja a ascendência portuguesa, talvez seja apenas bom gosto nato, não sei. Mas acontece que basta ver um whisky que passou por essa barrica, que me sinto irremediavelmente compelido a prová-lo. Imagine então, quando descobri um bourbon que passa pelo mesmo processo – O Angel’s Envy Bourbon.

O maior diferencial do Angel’s Envy Bourbon – assim como seu irmão, o Angel’s Envy Finished Rye, já revisto por aqui – é justamente sua maturação um tanto incomum. O whiskey, depois de passar em torno de cinco anos em barris de carvalho americano virgens e tostados, é finalizado por um período de três a seis meses em barricas de vinho do porto. Isso traz ao whiskey um certo aroma vínico doce e frutado, reminiscente de passas – s´p que bom.

A ideia de finalizar um whisky em um barril previamente utilizado por outra bebida não é novo. Há muito é usado na Escócia – as pioneiras foram Glenmorangie e Glen Moray. Mas, nos Estados Unidos, a técnica é ainda pouco utilizada e somente ganhou corpo quando a Woodford Reserve e seu outrora master distiller, Lincoln Henderson, decidiram experimentá-la em versões especiais limitadas da destilaria. Lincoln Henderson, este, que mais tarde, alguns anos antes de falecer, fundou a Angel’s Envy.

Lincoln Henderson (fonte: Angel’s Envy)

A Mashbill (a receita de seu mosto fermentado) do Angel’s Envy Bourbon é composto de 72% milho, 18% centeio e 10% cevada maltada. É uma receita muito próxima a de outro bourbon whiskey famoso por finalizações inusitadas, o Woodford Reserve. É também uma mashbill com uma quantidade considerável de centeio, que traz equilíbrio ao dulçor proporcionado pelo milho.

O lançamento do Angel’ Envy Bourbon aconteceu em 2011. Porém, até 2015, a Angel’s Envy não possuía uma destilaria própria. Seus whiskies eram produzidos pela Midwest Grain Products of Indiana (MGP) sob encomenda da Angel’s Envy, que fazia a curadoria sobre os barris e desenhava o perfil do produto. A MGP – outrora uma enorme destilaria da Seagram’s – também produz ou produziu whiskey sob encomenda para diversas outras marcas, como George Dickel, High West, Redemtion e Smooth Ambler. Atualmente, porém, os whiskies da Angel’s Envy são produzidos em uma destilaria própria, no Kentucky.

Infelizmente, o Angel’s Envy Bourbon não está disponível no Brasil. Porém, se você gosta de bourbons com maturações inusitadas, ou se – assim como eu – tem uma certa obsessão por whiskies com finalização vínica, tente provar o Angel’s Envy Bourbon.

ANGEL’S ENVY BOURBON

Tipo: Bourbon

Marca: Woodford Reserve

Região: N/A

ABV: 43,3%

Notas de prova:

Aroma: Caramelo. Açúcar mascavo, mel, frutas secas.

Sabor: Caramelo, mel, baunilha, creme brulee. Final longo e progressivamente mais frutado, com passas.

Disponibilidade: lojas internacionais

Bourbon Month – Woodford Reserve

Setembro é um mês cheio. É quando nos despedimos do tão querido inverno para receber a – ultimamente – tão soalheira primavera. Há também uma pletora de celebrações. Como o impopular dia da compreensão mundial, em franca decadência, e o dia do barbeiro, em meteórica expansão. Ou o intrigante dia dos símbolos nacionais, e o paradoxal dia do gordo, que prega a importância da magreza.

Mas nenhuma dessas efemérides é tão importante quanto o Mês da Herança Nacional do Bourbon (National Bourbon Heritage Month), celebrada nos Estados Unidos desde 2007. E neste ano de 2019, o website Difford’s Guide se uniu à marca Woodford Reserve para trazer a comemoração ao Brasil. Durante este mês, uma série de estabelecimentos preparou coquetéis exclusivos com o bourbon.

Participam da ação os bares e restaurantes Banqueta, Benzina, Burle Bar, Caju, DOT, Drosophyla, Espaço 13, Fortunato, Guarita, Lateral, Maní, Modern mamma Osteria, Mundi Bar, Olívio, Praia Bar, Picco, Tavares, Tre Biccheri, Sylvester e Vista. Este Cão conferiu algum deles – como o Praia, e morreu de vontade com outros, como o do Espaço 13, que leva spray de whisky turfado.

O Royal Fashioned do Burle Bar.

Foi também muito divertido ouvir as histórias por trás daqueles coquetéis. Gustavo Rômulo, do Burle Bar, por exemplo, contou que decidiu usar o licor Chambord em seu Royal Fashioned em homenagem ao castelo homônimo – o Chateau de Chambord – na França. “Queria trazer este ar real para o coquetel, já que estamos em um palácio (O Palácio Tangará, hotel em que está o Burle Bar) rodeado por um verde que nem parece de São Paulo“.

Já Igor Bauer, do Banqueta Bar, de Moema, usou xarope de lúpulo e bitter artesanal de café. O bartender confidenciou que a ideia de desenvolver um xarope de lúpulo veio de uma visita a um bar vizinho – o La Fraternité Beer Shop, especializado em cervejas. Bauer fez diversos testes, com lúpulos diferentes, alguns mais florais, outros mais amargos, até atingir o equilíbrio. O ingrediente leva azzaca e cashmere.

Old Fashioned com xarope de lúpulo do Banqueta Bar

E Talita Simões, sócia do Praia, em Pinheiros, chegou bem perto do Old Fashioned tradicional, mas com um toque especial. Talita utilizou xarope de ameixa amarela (sherry plum) e bitters artesanais produzidos na casa, para trazer personalidade ao coquetel.

O Old Fashioned do Praia: licor de ameixa amarela

As comemorações do Bourbon Month vão até 30 de setembro – algo intuitivo, já que se trata de um mês celebrativo. Até lá, se estiver em São Paulo, visite as casas participantes e prove as criações. E pode ir no começo da semana também, a gente te entende – o dia da compreensão mundial está aí para isso.

Jack Daniel’s Tennessee Fire

Na década de oitenta, o bom-senso era algo bastante relativo. Especialmente se você fosse criança. Se você discorda, acompanhe-me em um flashback. Afinal, a internet se regojiza com flashbacks. Nos anos oitenta, um palhaço quimicamente alterado concorria com uma moça com figurino questionável como principal atração televisiva infantil. Nos anos oitenta, podia passar produto tóxico no machucado, andar no banco de trás sem cadeirinha e comer chocolate em forma de cigarro.

Aliás, falando em chocolate em forma de cigarro, os doces eram divididos em dois tipos. Os de essência ambígua – como os tais cigarrinhos, pirulito chupetinha e pirocóptero – e os que causavam sufocamento. Como Bolin Bola e aquela bala que parecia uma hemácia. Porém, dentre todas, minha preferida (integrante do segundo grupo) sempre foi a bala de canela. Aquela redondinha e durinha, bem do tamanho do meu esôfago.

Que delí…ghhwwaaa

E ainda que eu não seja tão nostálgico de minha impúbere época, seus sabores ficaram gravados com muita clareza em minha memória. Tanto que, recentemente, me senti transportado novamente para a infância ao provar uma bebida cujo sabor reminisce bastante aquele da balinha. Aliás, não só relembra, como é praticamente a versão líquida dela. O Jack Daniel’s Tennessee Fire. Um licor cuja base alcoólica é o mundialmente conhecido Jack Daniels Old No. 7, com adição de “um licor de canela de produção própria“.

Antes de prosseguir, devo aqui fazer novamente um esclarecimento. O Jack Daniels Tennesse Fire não é whiskey. De acordo com Code of Federal Regulations – o documento que estabelece as regras de classificação das bebidas nos EUA – caso haja a mistura de quaisquer frutas, flores, plantas ou substâncias que proporcionam sabor – como é o caso do Tennessee Fire – a bebida será um cordial ou licor. Além disso, sua graduação alcoólica, de 35%, é inferior ao mínimo de 40% permitido.

Então, antes que você engasgue ao tentar comparar o Jack Daniels Tennesse Fire com qualquer whiskey, tenha em mente que sua natureza é distinta. E como somos maduros, sabemos que não devemos comparar coisas essencialmente diferentes. Aliás, como um licor, o Jack Daniel’s Tennessee Fire está mais próximo de seu irmão Jack Daniel’s Honey ou de um Fireball do que – incrivelmente – o whiskey que lhe serve de base.

Tennessee Fire e seus irmãos

Sensorialmente, o Jack Daniel’s Fire não tem nada de agressivo, como seu nome sugeriria. O sabor predominante é, obviamente, canela. Há um final que remete a baunilha com um leve apimentado. É uma bebida fácil, sem muita complexidade e doce, mas longe de ser enjoativa. Aliás, pelo contrário: como nas balinhas de canela, o impulso é dar mais um gole. Gelada – como é sua sugestão de consumo – a canela fica ainda mais pronunciada, e a impressão de dulçor se alivia.

O Jack Daniel’s Tennessee fire foi lançado em 2014 nos Estados Unidos. No Brasil, até 2018, sua distribuição era tímida – apenas São Paulo e região Sul. Porém, em 2019, a Brown-Forman, proprietária da destilaria, decidiu disponibilizá-lo em todo território nacional. Segundo Luiz Schmidt, diretor de Marketing da Brown-Forman para América do Sul, Central e Caribe, o seu processo de expansão foi uma resposta a uma demanda do consumidor brasileiro “O sabor intenso e o seu uso em momentos de alta energia, que é a proposta de Fire, têm grande aceitação localmente”.

Se você, ainda adulto, continua adorando aquelas outrora tão famosas balinhas de canela, amará o Jack Daniel’s Tennessee Fire. Afinal, ele é praticamente a versão aprimorada da guloseima. E há uma enorme vantagem – com ele, não há qualquer risco de sufocamento.

JACK DANIEL’S TENNESSEE FIRE

Tipo: Licor

Destilaria: Jack Daniel’s

ABV: 35%

Notas de Prova:

Aroma: canela, calda de açúcar.

Sabor: adocicado, com canela, calda de açúcar. Final levemente apimentado e com baunilha.

Disponibilidade: lojas brasileiras

*a degustação da bebida tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

Baltic Bourbon – Beer Drops

Que setembro é o mês do bourbon você já sabe – afinal, isso já foi ostensivamente noticiado por aqui. A efeméride existe desde 2007, quando o senador Jim Bunning popôs um projeto de lei sobre o tema, que foi aprovado por unanimidade pelo senado americano. Afinal, mais um pretexto para beber bourbon whiskey nunca é demais.

Nos estados unidos, a festa mais tradicional que comemora a herança desta bebida tão americana é o Kentucky Bourbon Festival, que este ano acontece de 18 a 22 de setembro. Durante a festividade, há eventos para todos os gostos. Como, por exemplo, um café da manhã de panquecas com bourbon. E uma degustação em um hangar do aeroporto de Bardstown, durante o pôr do sol. Há também infinitas aulas de coquetelaria e harmonização com a bebida.

Mas – e como acontece com tudo que é bom – as celebrações não se limitaram aos Estados Unidos. E, para falar a verdade, nem ao mundo do bourbon. É que aqui no Brasil, a cervejaria Avós, de São Paulo, acaba de lançar um rótulo comemorativo. A Baltic Bourbon, uma baltic porter envelhecida em barris previamente encharcados com o bourbon whiskey Jim Beam.

A Baltic Bourbon é a segunda cerveja de uma série da Avós, que utiliza uma baltic porter – por eles batizada de Old Baltic – como sua base. O primeiro lançamento também se inspirou em uma data comemorativa internacional, a Negroni Week. Naquela oportunidade, a Avós maturou sua cerveja em barricas encharcadas de Campari.

A Baltic Negroni

Sensorialmente, a Baltic Bourbon tem corpo médio – uma característica bastante desejada, em uma época que porters e stouts se colocam no limiar entre o estado sólido e líquido – e pouca carbonatação. O aroma remete a coco queimado, café e chocolate. O whiskey está mais presente na finalização, como um delicioso adocicado de mel com baunilha.

Se puder, prove a Baltic Bourbon. Ela é o tipo de cerveja que agradará tanto beek geeks quanto apaixonados por whiskey americano. Mas se ainda assim você precisar de um pretexto, lembre-se que estamos em setembro – o mês mais deliciosamente etílico do ano.

BALTIC BOURBON

Cervejaria: Avós

País: Brasil

Estilo: Baltic Porter

ABV: 8%

Notas de Prova:

Aroma: Café, caramelo, baunilha

Sabor: Corpo e carbonatação média. Nada ácida. Café, chocolate amargo. Coco queimado. O final traz um floral de baunilha e toffee, proveniente das barricas de Jim Beam.

Fancy Free – Bourbon Month

Há uma centena de datas comemorativas bem aleatórias durante o ano. Uma das minhas preferidas é o dia 01 de fevereiro. É o dia do Eletricitário Gaúcho. Gosto da data porque ela é bem específica – eletricitário já é difícil, imagina gaúcho. Outra que me fascina, pelo motivo contrário, é 02 de fevereiro, o dia seguinte. O Dia Mundial das Zonas Úmidas. O que, afinal, são as zonas úmidas? É um eufemismo para o dia do banheiro?

Mas no quesito aleatoriedade, poucas celebrações ganham de uma que toma um mês inteiro. Janeiro, o Mês da Digestão da Ameixa Seca Californiana. Chega a ser dadaísta. E é ainda mais admirável que seu gênio criador foi Arnold Scwarzenegger. Em 2009 o então governator determinou que aquele seria o mês dedicado a “encontrar deliciosas formas de integrar a ameixa seca na sua dieta e na de seus entes queridos“.

Mr. Dried Plum

E tudo bem que janeiro é mesmo meio parado, que tá todo mundo de férias, e às vezes bate um tédio. Mas passar um mês inteiro sendo criativo com ameixas secas está longe de meu conceito de diversão, mesmo nos mais entediantes dias. O mês de Setembro – um tanto mais agitado – porém, compensa toda a irrelevância da aleatória comemoração de janeiro. É que nos Estados Unidos, setembro é o Mês da Herança Nacional do Bourbon (National Bourbon Heritage Month).

Durante este mês, há uma série de festividades que comemoram a bebida essencialmente americana. A cidade de Bardstown, no Kentucky, inclusive, realiza um festival que celebra a história do Bourbon. O costume é até regulamentado por lei. Em 2007 o senador Jim Bunning propôs o projeto que, obviamente, foi aprovado por unanimidade – afinal, bourbon whiskey é bem mais gostoso que ameixa seca.

E neste ano de 2019, o website Difford’s Guide se uniu à marca Woodford Reserve para trazer a comemoração ao Brasil. Por aqui, o mês do bourbon será celebrado em diversos bares, com versões clássicas e autorais de um dos mais emblemáticos coquetéis que leva bourbon whiskey – o Old Fashioned. Embalado por tão distinta iniciativa, este Cão resolveu humildemente contribuir. Para isso, escolheu um coquetel clássico, variação do tão querido Old Fashioned. O Fancy Free.

O Fancy Free é, basicamente, um Old Fashioned, onde o torrão ou a calda de açúcar foram substituídos por licor de maraschino (que é uma cereja, e não uma ameixa, antes que você me pergunte). A receita primeiro apareceu em 1941, num livro curiosamente intitulado Crosby Gaige’s Cocktail Guide and Ladies Companion – O Guia de Coquetéis e Companheiro Feminino de Crosby Gaige. Seja lá o que um companheiro feminino for.

Acontece que o Fancy Free é aquele tipo de coquetel que é tão simples, mas tão simples, que há uma irremediável necessidade de complicá-lo. Assim como sua inspiração, o Old Fashioned – que coleciona receitas com os mais variados ingredientes. No caso do Fancy Free, as variações vão do whiskey utilizado até o tipo de serviço e o preparo. O que é até irônico, se pensarmos que seu nome significa justamente “sem sofisticação”.

Falemos das variações. O tal (suspeito que um tanto misógino) supra mencionado Companheiro Feminino indica que o drink seja mexido e servido em uma taça coupé, bordeada com açúcar. O livro aponta bourbon whiskey como base. Já outro livro um tanto mais famoso, o Death & Co., recomenda o uso de Rittenhouse 100 Rye, um whiskey de centeio. Além disso, aponta que o serviço deve ser feito sem açúcar nas bordas, em um copo baixo, com uma pedra grande de gelo. Como um Old Fashioned.

Por fim, o website Difford’s Guide sugere o bourbon Woodford Reserve como base. Além disso, curiosamente, pede que o coquetel seja batido ao invés de mexido, e servido em uma taça coupé – à moda de um Blood and Sand. O que talvez faça sentido, de forma a atenuar o dulçor do Maraschino, e trazer uma certa cremosidade ao drink.

A versão do Difford’s Guide

Detesto complicar o que já está singelamente intrincado. Mas devo declarar que prefiro uma mistura de duas das receitas. A sugestão de serviço do Death & Co, mas com as proporções e o bourbon indicado pelo Difford’s Guide. Afinal, o nome do coquetel transpira simplicidade – e nada mais sofisticadamente singelo do que um Old Fashioned. Com um bourbon equilibrado, como o Woodford Reserve.

Assim, meus caros, munam-se de seus mixing glasses e bailarinas e preparem-se para brindar um dos mais importantes meses celebrativos do ano. E se quiser comer uma ameixa seca e enviar energias positivas (tunts) para os eletricitários gaúchos durante o preparo, eu deixo. Com vocês, o coquetel que traz uma bela dose de ironia em seu nome. O Fancy Free.

FANCY FREE

INGREDIENTES

  • 60 ml (2 doses) de Bourbon Whiskey (este Cão recomenda Woodford Reserve)
  • 15ml licor de maraschino (Luxardo)
  • 2 dashes (sacodidelas) de Angostura Aromatic Bitters
  • 2 dashes de Angostura Orange Bitters
  • Parafernália para misturar
  • copo baixo

PREPARO

  1. Adicione, em um mixing glass, bastante gelo e todos os ingredientes líquidos. Mexa por aproximadamente cinco segundos.
  2. Com o auxílio de um strainer, coe a mistura e desça em um copo baixo com um gelo grande, ou alguns menores.

Wild Turkey Rare Breed – Drops

Me disseram que toda vez que eu falo da Wild Turkey, eu faço alguma piadinha com peru. E que a piada nunca teve graça, e agora tem menos ainda, porque todo mundo já sabe que vou falar de peru ou do duplo sentido intrínseco à palavra quando menciono a destilaria. Então, hoje, em protesto, não vou mencionar nenhuma ave e nem fazer qualquer introdução. Vou direto ao ponto.

O Wild Turkey Rare Breed é uma edição limitada anual, lançada pela primeira vez em 1991. Atualmente, o nímero do lote não consta da garrafa, mas é possível identificar garrafas de lotes diferentes por conta da graduação alcoolica. É que o Wild Turkey Rare Breed é um bourbon “batch proof” – a expressão americana para o conhecido “cask strength”. Ou seja, um whiskey que não passa por qualquer diluição após sua retirada das barricas. E, como cada barril se comporta de uma forma diferente, quando misturados, a graduação alcoólica varia.

A receita do mosto (mashbill) do Wild Turkey Rare breed é a mesma dos demais whiskies de sua família. O cereal predominante é, obviamente, milho (75%), com participação de centeio (13%) e cevada maltada (12%). Ainda que a Wild Turkey não divulgue, de acordo com o site Breaking Bourbon, o Wild Turkey Rare Breed é uma mistura de whiskeys com idade entre 6 e 12 anos.

Longe de mim fazer qualquer relação, mas um peru selvagem vive bem menos. De 3 a 5 anos, por exemplo.

A graduação alcoólica de entrada nos barris é baixa (em torno de 55%) o que resulta em um bourbon “barrel proof” de graduação etílica comparativamente baixa, mas com grande influência da madeira. Aqui, há uma curiosidade contra-intuitiva. A graduação etílica de engarrafamento é superior àquela de entrada nos barris – na amostra provada, por exemplo, é de 112,8 proof, ou seja, 56,4%. Isso porque alguns barris, durante a maturação, perdem mais água do que álcool devido à evaporação no clima seco do Kentucky, e o ABV sobe.

Sensorialmente, o Wild Turkey Rare Breed é um bourbon whiskey incrivelmente apimentado para sua mashbill – sinal da influência das barricas – com final longo e amadeirado. Há um adocicado de calda de caramelo e um pouco de baunilha, especialmente na finalização. É um whiskey que funciona bem puro, mas que demanda algumas gotas de água para apresentar todo seu potencial.

Se você gosta de bourbon whiskeys intensos, com bastante influência da madeira e graduação etílica elevada, o Wild Turkey Rare Breed é uma excelente escolha. Me desculpem se chegaram até aqui no texto, mas, não posso evitar. O Wild Turkey Rare Breed é realmente do peru.

WILD TURKEY RARE BREED

Tipo: Bourbon Whiskey

Marca: Wild Turkey

Região: N/A

ABV: 56,4% (variável)

Notas de prova:

Aroma: Caramelo, baunilha, pimenta do reino.

Sabor: Calda de caramelo, pimenta do reino, taninos. Mais pimenta, final longo com baunilha.

Com Água: A água reduz um pouco a impressão picante.

Entrevista com Mathieu Deslandes – Diretor de Marketing da Royal Salute

O supérfluo é uma coisa extremamente necessária“, escreveu Voltaire. Eu, autor de um blog sobre um dos mais supérfluos artigos do mundo – whisky – tenho que modestamente concordar com o aparente paradoxo de Voltaire. Whisky é uma necessidade desnecessária – como automóveis esportivos, roupas de grife e aquela torneira de cozinha de casa de rico, que tem uma molinha enrolada. Meu deus, como quero uma torneira daquelas!

Há um irremediável desejo no supérfluo. Afinal, é de nossa natureza almejar o que ainda não alcançamos. Ou melhor, almejar uma variação que consideramos melhor daquilo que já temos. Uma torneira normal não é um objeto de desejo. Uma daquelas sofisticadas sim, ainda que sua função seja, essencialmente, a mesma. De Voltaire, passo para Chanel, que disse que “o luxo é a necessidade que surge quando o necessário já foi satisfeito“.

No mundo dos whiskies, isso fica absolutamente claro. A grande maioria das marcas busca transmitir algum valor ligado ao luxo. Sofisticação. Elegância. Esclarecimento. Exclusividade. E poucas fazem isto com tamanha maestria quanto a Royal Salute. A começar pela idade de seu produto de entrada. Como se autodefinem, ao referenciar a idade mínima de vinte e um anos “a Royal Salute começa onde os demais terminam“.

Atualmente, o homem responsável por enfeitiçar as pessoas com toda magia da Royal Salute é Mathieu Deslandes, diretor de marketing da marca. A convite da Royal Salute, este Cão teve a incrível oportunidade de entrevistá-lo durante sua viagem a Coréia do Sul – onde foram lançadas duas novas expressões do portfólio permanente da marca.

E a impressão que tive é que Mathieu Deslandes não é apenas diretor da marca. Mas sua encarnação. Sofisticado, mas ao mesmo tempo bem humorado e gentil, o diretor explicou sobre a motivação por trás da diversificação do portfólio, bem como as especificidades do mercado de luxo. E é esta conversa que você confere aqui, com exclusividade.

Me conte um pouco sobre os novos produtos. Por que diversificar o portfólio?

Na verdade, estamos apelando para o amante do whisky, na Royal Salute. Quando você chega a este nível de qualidade, não é por acaso, mas porque você ama whisky e quer experimentar algo mais.

E, durante os últimos vinte anos, tem havido muito mais opções de whiskies, especialmente liderados por single malts, com propostas muito diversas. Então, parece-me que, se quisermos defender o whisky de luxo, não podemos ser apenas um. Temos de oferecer aos nossos consumidores a oportunidade de experimentar algo diferente, de descobrir.

E eu acho que o que é fascinante sobre o trabalho que fizemos com Sandy Hyslop, o master blender, é o quanto podemos diferenciar o sabor do whisky apenas pela escolha dos barris, e pela escolha do líquido que você usa. Você verá hoje à noite a diversidade que podemos obter, ainda sendo um whisky de 21 anos de idade.

A razão pela qual escolhemos 21 anos é que faz parte do DNA da Royal Salute. Quando a marca foi criada, foi criada como um 21 anos. E 21 é uma referência à Twenty One Gun Salute. Então, não é uma idade por acidente. É uma idade com um forte significado. E é por isso que comemorar essa idade é tão importante para nossa narrativa.

E por que um blended malt (The Malts Blend)? E qual o diferencial do The Lost Blend?

Tudo é um blend para nós. Na Royal Salute acreditamos em blends. Não é que os blended whiskies sejam melhores que os single malts, ou que os single malts sejam melhores que os blends.

Há uma referência que costumamos usar. Single malts são solistas na música. E os blended whiskies são como uma orquestra. Você pode ter um bom intérprete solo ou um mau intérprete solo. Você pode ter uma orquestra boa ou ruim.

Mas nós, como marca, fomos criados como um blend, então permanecemos fiéis a isso. É verdade que o perfil do sabor do single malt é algo que vem se desenvolvendo muito. É algo que é mais forte em termos de personalidade, menos suave. Por isso, foi interessante entrar nesse campo como uma forma de diversificar nosso portfólio para o consumidor (no caso do Malts Blend).

Royal Salute Malts Blend

Para o Royal Salute 21 The Lost Blend, há bastante whisky vindo de Caperdonich, uma destilaria que foi desativada, que tem um perfil apurado de sabor, então você encontrará este perfil de sabor mais forte nele.

Royal Salute possuía uma das mais belas embalagens do mundo. Por que mudar? E por que a embalagem é importante? Ela afeta a experiência?

Creio que a embalagem afeta sim a experiência do consumidor. É a primeira coisa que você vê antes de beber. Você vê uma garrafa, você vê uma caixa. Então, é uma maneira de comunicar o que você quer expressar sobre a marca. Mas tem que ser consistente. Tem que ter consistência do que você bebe e o que você vê.

E o segundo aspecto é importante porque, nessa faixa preço, há muitas pessoas dando Royal Salute de presente. E, como sabemos, quando você dá um presente, a embalagem também é importante. Então, o que achamos interessante sobre essa evolução foi usar a embalagem mais como uma narrativa.

Escolhemos trabalhar com Kristjana Williams, a artista por trás das ilustrações, para expressar a história de um zoológico real. O que estava acontecendo na torre de Londres – um lugar onde todos os animais que os reis e rainhas recebiam como presente eram mantidos. É uma história verdadeira, com leões, elefantes. É o que queríamos retratar na ilustração, na nossa narrativa. De uma forma criativa e artística, porque o consumidor de luxo hoje espera essa audácia e criatividade

Storytelling?

Storyelling. Por isso que encontramos uma boa combinação entre o lado de fora da caixa, que é mais conservador, mais sério. Mas porque nós diferentes, usando o interior de uma caixa para usar a narrativa

Ilustração Kristjana Williams para Royal Salute

De todos os lugares do mundo. Por que a Coréia?

A Ásia, globalmente, quando se trata de whisky de prestígio, é um mercado importante. Segundo, porque a Coréia especificamente, se você combinar o que vendemos no mercado doméstico com o que vendemos em duty free – porque muitos clientes coreanos compram em freshops – fazem da Coreia a nacionalidade número 1 das pessoas que compram Royal Salute.

Mas para ser honesto, fizemos eventos de pequena escala, um em Nova York e outro em Londres, porque quando se trata de luxo, não há limites. O luxo é global. Então, precisávamos ter certeza de que estávamos fazendo uma referência nos EUA e outra na Europa.

O que há de diferença no mercado de luxo para o mercado normal? E o que acha sobre o mercado de whiskies de luxo na América do Sul e Brasil?

O que é diferente no luxo é que não há meio-termo. Não há meio-termo na qualidade, nem meio-termo em qualquer coisa que você faça, porque há uma expectativa de que algo seja excepcional quando você compra luxo.

Então, neste mindset, tento comparar com outras marcas de luxo que não são bebidas alcoólicas, ao invés de comparar com outras marcas que são whisky que não são de luxo. O que é importante para nós é ter uma mentalidade de luxo. E a mentalidade do luxo é ser excepcional em tudo que fazemos – o whisky, o pacote, a experiência, a comunicação. Tudo tem que ser excepcional.

Falando sobre o Brasil – em todos os mercados do mundo, há um espaço para pessoas que estão à procura de luxo. O Brasil é um grande mercado para o whisky. As pessoas gostam e conhecem whisky. O importante é que desenvolvamos uma cultura sobre o whisky de luxo. Talvez já esteja lá para champanhe. Provavelmente menos para o whisky.

Mas é nossa responsabilidade nos conectarmos com o influenciador certo, o bartender, restaurante, consumidor, imprensa, revista, seja o que for, para falar sobre Royal Salute, porque provavelmente o problema de Royal Salute não é sua qualidade, mas o fato de não ser conhecido. Portanto, nossa primeira missão em muitos países do mundo é garantir que a Royal Salute seja conhecido. Mas de uma maneira muito diferente você faria com um whisky mais acessível. O que importa não é o número de pessoas que você alcança, mas a qualidade da maneira como você as alcança e a experiência.

Não temos nada a dizer sobre fazer algo a curto prazo. Mas algo mudando o jogo e a longo prazo. E isso requer tempo.