Macallan Reflexion – Do espólio

Esses dias estava arrumando meu guarda-roupas, e me deparei com uma camisa que adorava. Não havia nada de muito especial nela, exceto pelo valor sentimental. A comprara na primeira vez que fui a Escócia, numa lojinha de artigos locais em Inverness. Nas costas, havia a ilustração das sombras de centenas de garrafas de whisky dos mais distintos formatos. Era possível, inclusive, com algum embasamento, identificar de quais marcas eram aquelas pequenas silhuetas. Gostava tanto da tal peça que a guardava apenas para eventos especiais.

Resolvi experimentá-la. O resultado foi desastroso. Se tivesse um pouco menos de senso crítico, poderia, de certa forma, dizer que ela teria ficado entre o à-la-Bruce-Willis e o mira-me-cuerpo. Mas, exibindo uma pancetta displicentemente cultivada nos últimos dez anos, percebi, com decepção, que não poderia mais usá-la. Havia guardado a peça de roupa para ocasiões tão especiais, que ela deixou de me servir.

Sinto que há uma relação semelhante com whisky: a de guardar garrafas para momentos extraordinários. Faço isso, acho que quase todos fazemos. Mas não sem algum arrependimento. Como certa vez disse um grande amigo “suas garrafas fechadas serão bebidas com água de coco em uma pool party por seus filhos. Beba“.

Macallan, UHUL!

Então, num arroubo de titubeante impavidez, decidi experimentar um whisky que há muito almejava. O The Macallan Reflexion – a expressão mais cara da destilaria de Speyside a chegar ao Brasil, por uma folgada margem de diferença. O privilégio ajudou – uma garrafa havia acabado de chegar a nosso bar em São Paulo – o Caledonia Whisky & Co. E desta experiência, surgiu esta prova.

O Reflexion faz parte da Masters Decanter Series, que também contempla o Macallan M e o No. 6. Ele é, incrivelmente, a expressão de entrada da luxuosa coleção, que procura demonstrar a importância da maturação nas características sensoriais de um whisky. De acordo Stuart MacPherson, Master of Wood – o responsável pelas barricas – da The Macallan “a madeira está no coração daquilo que fazemos, e esta série demonstra mais profundamente o papel vital de nossos barris na produção destes whiskies incríveis

E que maturação. Uma boa parte do Macallan Reflexion é envelhecido em pequenas barricas, conhecidas como hogsheads, de aproximadamente 250 litros. A ideia é que a área de contato do líquido com a madeira seja maior, e interaja mais rapidamente para acelerar sua influência. A maturação ocorre exclusivamente em barris de primeiro uso (ou seja, é a primeira vez que recebem scotch whisky) que antes contiveram vinho jerez espanhol.

Ainda que a The Macallan não declare a idade do Reflexion, nota-se que é um single malt bastante maturado. A cor confirma a suposição. É um tom reminiscente de mogno, totalmente natural. A informação extra-oficial é que Bob Dalgarno, ex-whisky maker (o responsável pela criação) da The Macallan, teria selecionado whiskies destilados entre 1970 e 1990 para a expressão.

A The Macallan aponta como predominantes no Reflexion notas cítricas, de maçã chocolate e trufas, com sutil lembrança de uvas passas, canela e gengibre. Este Cão, porém, teve uma impressão distinta. O whisky pareceu predominantemente vínico, com notas de frutas secas, como ameixa e passas. Há bastante gengibre e canela também. A nota mais delicada – na opinião dissonante deste canídeo – é o cítrico. Seja como for, é um whisky magnífico, que apresenta a influência do vinho jerez e da maturação como muito poucos, e de uma complexidade inacreditável.

Acho sensacional o liquido. Foi uma grande surpresa a primeira vez que bebi. Tenho o privilegio de beber grandes bebidas por conta do meu trabalho, e acho ele surpreendente. Ele tem uma densidade de madeira fantástica. É denso, sem ser ‘cru” (….). A Macallan trabalha muito também a questão da textura. E o Macallan tem uma densidade de boca muito legal.” declarou Mauricio Leme, gerente de marketing de destilados e licores da Aurora, importadora responsável pela marca no Brasil, em um papo exclusivo com o Cão Engarrafado.

No entanto, a experiência extraordinária tem um preço. No Brasil, o Reflexion custa em torno de R$ 15.000,00 (quinze mil reais). O que o torna, talvez, a expressão à venda no Brasil mais cara já revista em nosso website. Foram trazidas pouco mais de vinte garrafas por sua importadora oficial no Brasil, a Aurora.

De acordo com Mauricio Leme “Trazer o Reflexion foi um privilégio, porque não é fácil trazer produtos caros por conta da carga tributária (…). Tem todo um estudo que precede trazer o rótulo, não é só uma vontade. E no Reflexion fizemos um estudo claro de que ele será um whisky caro, mas vai entregar – o líquido é impressionante, o estojo é lindo, e a garrafa também. Ele tem todas as credenciais”.

Leme. Dream job.

Não vou me atrever, aqui, a recomendar o Macallan Reflexion. Prová-lo ou não é mais uma questão de privilégio do que iniciativa. Porém, se tiver – e puder – faça isso. Mesmo que não tenha acontecido nada de especial. O Reflexion é o tipo de whisky que torna o dia mais prosaico em uma experiência absolutamente extraordinária.

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: uvas passas e frutas cristalizadas, chocolate amargo e baunilha.

Sabor: Mel, frutas cristalizadas, uvas passas, ameixa seca. A influência do vinho jerez é muito clara, e torna-se evidente na finalização, que é longa, adocicada e com sabor de vinho fortificado.

Com água: A impressão de especiarias se reduz e um aroma adocicado sobe. O whisky torna-se mais suave.

Disponibilidade: lojas brasileiras, inclusive o Caledonia Whisky & Co.

Bruichladdich Octomore 8.2 Masterclass – Drops

Algumas memórias são mais perenes que outras. Para whiskies também. Há rótulos que nem lembro de ter bebido – o que, na verdade, é ótimo e não é. Porque, por um lado, é uma desculpa pra beber de novo. Por outro, se eu não lembro, então é porque não era nada demais. Então é só uma desculpa pra beber de novo algo medíocre.

Mas enfim, há outros tão arraigados em nossa memória que se tornam quase marcos etílicos. Um deles, para mim, é o Octomore – conhecido como o whisky mais defumado do mundo. Experimentei o Octomore (a edição 3.1) quando fui para a Escócia há uns bons anos. Vou contar como foi.

Como um apaixonado por whiskies defumados, quando estive por lá, procurei o Octomore por toda parte, mas sem sucesso. Comentei isso com um rapaz de uma loja de roupas – não me pergunte por que entrei no assunto de whiskies com um vendedor de uma loja de vestuário masculino, talvez por ser a Escócia – que se compadeceu com meu ébrio sofrimento e recomendou um bar que possuía uma garrafa – o The Abbotsford. Corri tanto que quase me teleportei para lá.

Apontei para o Octomore na prateleira. O bartender, então, num misto de descrença e masoquismo, me serviu uma dose, enquanto atentamente observava minha reação. Notei que meu vizinho de balcão – um senhor que devia ter visto a construção do palácio de Holyrood – também ficara interessado por meu pedido aparentemente insólito, e coçava a barba em expectativa. Sorri – nada poderia ser mais forte do que um Aberlour A’Bunadh, por exemplo. Eu estava resoluto. Tomei um gole.

A tênue linha entre a coragem e a burrice.

A medida que o defumado descia pela minha língua em direção ao esôfago, senti que ruborizava. Meus olhos encheram de lágrimas, mas não de alegria. Meu deus do céu, aquele whisky era absurdamente enfumaçado e alcoólico. Era uma delícia, mas, prová-lo pela primeira vez fez meu corpo discordar de meu paladar. Me segurei para não franzir a testa. Apertei os lábios e, passando a língua pelo céu da boca, acenei com a cabeça. O senhor, ao meu lado, levantou seu copo num misto de surpresa e orgulho. Fiquei contente – aquilo foi praticamente um rito de passagem para mim.

E ainda que aquela experiência tenha sido um tanto desconcertante, acabei amando o Octomore. Tanto que se tornou um de meus rótulos preferidos. Quando voltei para a Escócia, bons cinco anos depois, tive a oportunidade de visitar a destilaria. E lá encontrei uma garrafa de algo que me fez novamente suar. Mas de expectativa. O Octomore 8.2 Masterclass, insanamente defumado, e maturado em barris de vinho. Tive que levar uma.

Logo que cheguei em casa, resolvi experimentá-lo. E novamente, meus olhos marearam. Mas, dessa vez, não pela força do whisky. Mas porque ele era fantástico. O turfado era latente. Tão enfumaçado que a dose que descansava no copo podia ser sentida há metros de distância. Mas, no paladar, além da fumaça, iodo, esparadrapo e couro, havia um adocicado floral delicioso, que amarrava todo aquele material em chamas. Era ainda melhor do que a lembrança que tinha do outro Octomore. Resolvi pesquisar sobre ele.

O Octomore 8.2 Masterclass possui 167 PPM de fenóis (a medida que indica o quão defumado é o whisky). Em comparação, um Ardbeg possui em torno de 50. E sua maturação é bem mais complexa do que imaginava, ainda que breve – 8 anos. Primeiro, partes de seu new-make são maturados em três diferentes barris de vinho. Mouverde (um vinho tinto bastante terroso), Sauternes (adocicado e floral) e um certo vinho doce austríaco. Depois, as três partes são reunidas, e passam mais dois anos em barris de Amarone – um vinho tinto italiano bastante intenso, de Corvina Rondinella.

É uma uva, não um peixe.

Os Octomore são edições limitadas anuais da destilaria Bruichladdich, localizada em Islay, na Escócia. São sempre whiskies extremamente turfados – utilizando, inclusive, métodos inovadores para atingir tais marcas – que desafiam convenções do mundo do whisky. De acordo com a destilaria “Uma série esotérica de lançamentos numerados, experimentais, na maioria muito limitados, enfraqueceu fatalmente a suposição de que a qualidade do uísque escocês single malt é simplesmente uma função de sua idade.

Se você gosta de desafios, é apaixonado por whiskies defumados – mas apaixonado mesmo – ou aprecia single malts extremos, o Octomore 8.2. é para você. Pra falar a verdade, ele é para você mesmo que você não goste de nada disso. Se puder, prove o Octomore 8.2. Uma coisa é certa – este criará uma memória difícil de ser olvidada.

BRUICHLADDICH OCTOMORE 8.2 MASTERCLASS

Tipo – Single Malt com idade definida (8 anos)

ABV – 58,4%

Região: Islay

País: Escócia

NOTAS DE PROVA

Aroma: fumaça, couro, esparadrapo. Há um certo alcaçuz de fundo, com frutas vermelhas. Mas a turfa é a nota predominante.

Sabor: Turfa, com couro, carvão, pimenta do reino, couro, bacon e esparadrapo. O frutado fica mais evidente do meio para o final. Floral, mas sem ser enjoativo, framboesa.

Quatro novidades no mercado de whisky brasileiro

Comprei uma geladeira nova. O compressor da minha antiga – que sobreviveu bons quinze anos – finalmente cedeu, e deu sua última vibradinha na semana passada. Assim, súbita e friamente, como somente se poderia esperar de um eletrodoméstico que gela coisas. Sem nenhum prenúncio e no meio da maior pandemia do século. Não havia muito a fazer. A assistência custaria quase o preço de um aparelho novo. Resolvi, então, procurar na internet uma substituta.

Fiquei estupefato. É incrível como a tecnologia evoluiu rápido com refrigeradores. Ainda mais pensando que a geladeira doméstica, mais ou menos como a conhecemos, foi inventada somente em 1913. E sem freezer. Este aí, levou mais bons trinta e sete anos até que fosse adaptado para o uso doméstico. Há menos de um século, a possibilidade de congelar seus víveres era uma tarefa um tanto complicada. Mas hoje, há modelos que falam com você. Que avisam pelo celular quando a porta está aberta, e quando o compartimento de cerveja está vazio e é preciso comprar mais. O que, pra mim, é absolutamente inútil, porque é sempre hora de comprar mais cerveja.

A quantidade de modelos distintos também é desconcertante. Freezer em cima, freezer embaixo, french door, freezer de um lado e geladeira do outro. Slim, baixinha, quadradinha, retrô.

Mas não foi somente o mercado de geladeiras que evoluiu. O de whiskies também. Há menos de quarenta anos, no Brasil, tínhamos poucos rótulos comercializados amplamente. White Horse, Black & White e o Glenfiddich, precursor dos single malts, eram alguns deles. Há quase meio século, era impensável um single grain japonês no Brasil. Ou um single malt produzido em terras nacionais. Atualmente, porém, tudo isso existe.

Separei aqui quatro novidades no Brasil. Mas não apenas isso, expressões inovadoras, que seria inimagináveis em nosso mercado há pouco tempo. Todos eles, cim importação oficial para nosso país. Vamis a eles.

Suntory The Chita

Esta é uma novidade oriental. O Suntory The Chita é o único single grain disponível oficialmente no Brasil. E um single grain bem especial. Seu cereal base é o milho, e a destilação acontece em quatro colunas de destilação que podem ser especificadas para produzir new-makes com diferentes oleosidades, mais ou menos congêneres. Além disso, a maturação ocorre em uma combinação de barricas – dentre elas, jerez, vinho tinto e bourbon.

Além do The Chita, a Beam-Suntory traz para nosso país mais dois produtos de seu prestigiado portfólio. o Roku Gin, já revisto por aqui, e a Haku Vodka.

Royal Salute Snow Polo Edition

O Royal Salute Snow Polo Edition faz parte de uma categoria de whiskies inédita em nosso mercado – e bem rara mesmo na Escócia. Ele é um blended grain scotch whisky, produzido somente com whiskies de grãos, em destiladores contínuos. Mas whiskies de grão bastante especiais. Seguindo a tradição da Royal Salute, o Polo Edition possui 21 anos de maturação mínima. Ele foi criado por Sandy Hyslop, diretor de blending da Chivas Regal – que, aliás, já foi entrevistado por este Cão Engarrafado.

Sensorialmente, o Royal Salute 21 Snow Polo Edition é um whisky delicado e floral, que traz notas de coco, baunilha, caramelo e frutas cítricas. É um whisky perigosamente fácil de ser bebido, com o visual e luxo tão próprios da Royal Salute.

Union Malt Turfado & Extra Turfado

Se você é um apaixonado por whiskies enfumaçados e medicinais, e se questiona por que o Brasil não tem um rótulo próprio, sua era de indagações chegou ao fim com essas novidades. O Union Malt Turfado e Extra-Turfado são duas expressões de single malts produzidos aqui no Brasil e que tem o tão delicioso aroma turfado, tão característico dos maltes escoceses.

A Union Malt é uma destilaria com mais de sessenta anos de experiência na produção de destilados, e que recentemente voltou seus olhos à produção de single malts enfumaçados. De acordo com Luciano Borsato, diretor executivo da Union os “malte turfado e extra-turfado (que são usados de base para os whiskies) são importações que fazemos do norte da Escócia, sob especificação”.

O resultado? Dois single malts brasileiros que não devem nada a muitos escoceses.

Buffalo Trace Bourbon

Novidade também na frente dos norte-americanos. O Buffalo Trace é um dos bourbons mais queridos dos Estados Unidos – e por muito tempo, dos mais pedidos no Brasil. Ele agrada a todos, tem um valor razoável, e qualidade sensorial excelente. É o tipo de whiskey que atrairá tanto o novato – graças a seu perfil adocicado e pouco apimentado – quanto o bebedor mais experiente, que busca algo com bom custo-benefício.

O Buffalo Trace Bourbon compartilha com alguns rótulos irmãos uma mashbill (receita do mosto) baixa em centeio. Ainda que a destilaria não divulgue os números exatos, um palpite educado seria menos de 10% de centeio, 10% cevada maltada e o restante milho. É a mesma receita de diversos rótulos mais sofisticados da Buffalo Trace, como o querido Eagle Rare, Stagg Jr e o sofisticado George T. Stagg. 

O Buffalo Trace é importado pela Aurora, que também traz o Southern Comofort.

Mamie Taylor – Antepassados

Ao assistir Jurassic Park, você deve ter grudado de tensão na cadeira durante a cena em que o tiranossauro persegue o jipe. Imagine, um animal desse tamanho e tamanha voracidade hoje em dia. O que você não sabe, provavelmente, é que o T-Rex, aquele enorme e ameaçador predador, é o ancestral mais próximo de um bicho bem pouco intimidador. A galinha.

É isso aí. Ocorre que em 2003, dois cientistas – Jack Horner e Mary Scweitzer – analisaram a composição molecular do colágeno contido em um fêmur não fossilizado de T-Rex. E descobriram semelhanças incríveis com aquele contido nos ossos de galinhas e outras aves domésticas. Isso apontaria que há uma ligação de parentesco entre o dinossauro e o galináceo, perdida ao longo dos anos. O que me faz pensar que eu também iria detestar comer tiranossauro assado.

Obrigado, internet.

Enfim, certos antepassados não são nada óbvios. Outros, porém, parecem ter diretamente inspirado seus predecessores. É o caso, por exemplo, de um coquetel incrivelmente popular hoje em dia, o Moscow Mule, e seu antecessor um tanto obscuro, produzido com whisky turfado, o Mamie Taylor.

O Mamie Taylor leva scotch whisky, limão siciliano e ginger ale ou ginger beer. Exceto pela canequinha de cobre e mais uma dúzida de sofisticações ao longo de um século, há uma impressionante semelhança entre ele e o Moscow Mule. E talvez eu seja suspeito, mas, entre o coquetel de vodka e este de whisky, fico com o segundo, certamente.

De acordo com um artigo do Wall Street Journal, o coquetel teria sido criado em 1899 em um hotel de Rochester, Nova Iorque. A atriz e cantora Mayme Taylor chegara de uma viagem de barco, para realizar uma apresentação na cidade. Porém, estava exausta por conta do deslocamento, e pediu ao bartender que preparasse um “claret lemonade” – basicamente, vinho tinto com limonada. Mas, por falta de ingredientes (que tipo de bar não tem vinho?) o bartender resolveu inovar.

Mayme, satisfeita.

Mayme Taylor – a atriz – então provou a improvisação e adorou. Ao indagar sobre o nome da mistura, seu criadou respondeu, sem hesitação “é um Mayme Taylor“. Em 1902 o Syracuse Post-Standard recontou a história. Nesa altura, três anos depois, o drink já era um enorme sucesso nos Estados Unidos. Inexplicavelmente, entretanto, ganhou uma variação de nome e passou também a ser chamado Mamie Taylor.

Para o coquetel desta matéria, este Cão utilizou Johnnie Walker Double Black. Porém, qualquer scotch whisky com uma certa nota enfumaçada poderá funcionar. A chave, aqui, é a turfa – é o aroma medicinal e defumado que tira o drink do lugar comum, combinando-o com gengibre e limão. Um princípio, aliás, que outro coquetel incrível utiliza: o Penicillin.

Assim, caros leitores, preparem-se para um coquetel refrescante e defumado. O avô do Moscow Mule, mas, como ocorre com o frango e o T-Rex, muito mais intenso. Vamos à receita.

MAMIE TAYLOR

INGREDIENTES

  • 45 ml scotch whisky (pode ser qualquer um, mas sugiro contundentemente que use algo com nota enfumaçada)
  • 10 ml suco de limão tahiti (atenção, tahiti mesmo, não siciliano!)
  • 90 ml ginger beer ou ginger ale (pelo amor de deus, use algo decente. Aqui fizemos com London Essence)
  • parafernália para mexer
  • copo alto

PREPARO

  1. Coloque o whisky e o suco no copo alto, e adicione bastante gelo
  2. complete com o ginger beer

Union Malt Extra-Turfado – Fitzcarraldo

Fitzcarraldo, dirigido por Werner Herzog, é um dos mais incríveis e insensatos filmes de todos os tempos. Lançado em 1982, a película conta a história baseada em fatos reais de Brian Sweeney Fitzgerald – apelidado de Fitzcarraldo – um barão da borracha do começo do século vinte. Fitzgerald é admirador de música erudita e do tenor Enrico Caruso. Seu sonho maluco é construir uma enorme casa de espetáculos em Iquitos, no alto da selva amazônica, para ouvir seu ídolo cantar.

Para tanto, Fitzcarraldo está obstinado a arrastar um navio a vapor completamente montado sobre uma grande montanha – subindo de um lado, descendo do outro. Seu plano é utilizar a embarcação para explorar as riquezas de certa bacia hidrográfica com a ajuda de indios, se capitalizar e construir o luxuoso teatro.

Se o sonho de Fitz parece estupidamente ambicioso, o de Herzog foi além. É que o diretor, recusando-se a utilizar miniaturas e efeitos especiais, arrastou um barco a vapor de verdade, pesando mais de trezentas toneladas em seu set de filmagem. E ainda que o resultado na tela seja magistral, a sua execução foi trágica. Membros da equipe de Herzog morreram e índios sabotaram as filmagens. Mais tarde, o cineasta publicou um livro sobre a experiência, titulado “A Conquista do Inútil”.

Tranquilo.

Transportado para o mundo do whisky, construir uma opera house em Iquitos está lá, ombro a ombro, com o sonho de produzir single malts no Brasil. Ainda mais um malt turfado, à moda dos escoceses. Mas foi justamente isso que a Union, tradicional destilaria de whisky localizada na serra gaúcha, fez. Ela lançou recentemente dois rótulos que utilizam turfa em seu processo de secagem da cevada maltada, denominados singelamente de “Turfado” e “Extra Turfado”.

A Union, porém, não é qualquer aventureiro apaixonado por ópera. Ela tem mais de sessenta anos de experiência na produção de destilados. A maioria deles, de malte, utilizados na produção de bebidas compostas. Ela também possuía uma linha de single malts não turfados, conhecidos como Union Club. Porém, recentemente, a empresa – que conta com duas destilarias – lançou uma linha surpreendente de single malts voltados para o mercado premium. Dentre eles, o Union Extra Turfado, tema desta prova.

De acordo com Luciano Borsato, diretor executivo da Union os “malte turfado e extra-turfado (que são usados de base para os whiskies) são importações que fazemos do norte da Escócia, sob especificação”. Para o Union Extra-Turfado, a medida de fenóis no malte é de quarenta partes por milhão (40ppm), intermediária entre a especificação da Talisker (20ppm) e Ardbeg (55ppm). A destilação acontece em dois wash stills de 16 mil litros – um deles da Forsyth’s, escocesa – e em um spirit still de 18 mil litros. O whisky não é filtrado a frio.

A idade mínima de ambos é de cinco anos. Por isso declaramos cinco anos, mas como mínimo – há maltes com mais envelhecimento” – conta Luciano, sobre a maturação. Os barris, de carvalho americano, são comprados de diversas destilarias americanas. O primeiro uso é dedicado a whiskies não-turfados, como o Union Malt e o Vintage. O segundo uso – por conta da característica enfumaçada – vai para a linha turfada. A coloração é totalmente natural. Não há emprego de corante caramelo.

Os alambiques da Union

Sensorialmente, o Union Malt Extra-Turfado traz no aroma um enfumaçado seco e iodado, com algas marinhas. No paladar, o sal fica ainda mais evidente, em conjunto com o característico sabor de carvão e pimenta do reino. É um malte seco e salino, quase reminiscente de algum turfado das highlands escocesas.

Alguns sonhos ambiciosos estão fadados a fracassar. Como, por exemplo, arrastar um barco a vapor inteiro sobre uma montanha, ou construir uma casa de espetáculos para música erudita no alto da selva amazônica em plena belle epoque. Mas outros – com tempo e técnica – se tornam incríveis realidades. Como, por exemplo, produzir um single malt turfado em terras brasileiras. E o Union Malt Extra-Turfado é a prova (literalmente) líquida disto.

UNION MALT EXTRA-TURFADO

Tipo: Single Malt

Destilaria: Union Malt

País: Brasil

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: iodado e medicinal, com fumaça, bacon e cereais.

Sabor: Bastante iodado e medicinal. Corpo médio. Bacon, sal marinho. Lembra bastante os whiskies turfados das highlands escocesas. O final é apimentado e enfumaçado.

Onde encontrar: Caledonia Whisky & Co., em São Paulo, via iFood, ou compra direta com a destilaria.

Live – XP Investimentos – Royal Salute

Ao longo desta quase (ou mais?) de meia década de Cão Engarrafado, falamos de centenas de marcas e rótulos diferentes de whisky. Mas posso contar nos dedos de uma mão aquelas que nutria uma paixão enorme mesmo antes de começar o website, e cuja admiração apenas cresceu. Uma dessas marcas é a Royal Salute.

Sempre gostei da marca – afinal, o que há de se não gostar sobre esta maravilha? – mas, depois de conhecer os detalhes sobre sua história e criação, a paixão se consolidou. Tive o enorme privilégio de viajar até a Coréia para experimentar em primeira mão dois de seus mais importantes lançamentos – entrevistar Sandy Hyslop e Mathieu Deslandes – e acompanhar de perto os últimos anos da marca.

E é com grande satisfação que faço um convite a nossos leitores. Uma live muito especial, patrocinada pela XP Investimentos. Conversarei com a incrível Amabile Gugliemo-Brady, senior brand marketing manager (gerente global de marketing) da Royal Salute. Baseada em Londres, Amabile lidera o pipeline de ativações e eventos globais da marca e
gerencia a ampliação das plataformas de engajamento para o consumidor em mercados como o Brasil, Índia, Cambodia , Malásia e Emirados Árabes
Unidos. E melhor de tudo – é brasileira!

O evento virtual ocorrerá amanhã, 18 de junho de 2020, às 19:00, pelo perfil de YouTube da XP Investimentos. Para acessar, basta clicar aqui .

E exclusivamente para a semana, o Caledonia Whisky & Co., nosso bar em São Paulo, lançou um kit com os três incríveis Royal Salutes disponíveis no Brasil. O tradicional Signature Blend, o intenso Malts Blend e o inovador Snow Polo Edition, único blended grain scotch whisky à venda no Brasil. São doses de 30ml, para provar os três. Para comprar, basta pedir pelo iFood.

Além disso, a Royal Salute disponibilizou um link com descontos exclusivos para garrafas deles e de outros produtos do portfólio da Pernod-Ricard. Para comprar, acesse aqui.

Nos vemos por lá!

World Class Community – Johnnie Walker 200 & Brazil

Uma pequena pausa para um anúncio que nos trouxe muita alegria. Mauricio Porto, nosso autor, foi convidado para participar de um painel no World Class Community Week Brasil, Da Diageo, com a participação dos incríveis Nicola Pietroluongo (@scotchnick ), Tom Jones (@whiskyexplorer ) Ewan Gunn (@ewangunn) e Arturo Savage (@arturosavage)!

Falaremos dos 200 anos da Johnnie Walker, sua conexão com o Brasil e da importância da marca na categoria de scotch whisky.. Abordaremos alguns temas bem atuais, como a flexibilização das regras da Scotch Whisky Association em relação ao uso de certas barricas, como as de tequila, por exemplo.

Além do painel dedicado à mais famosa marca de blended scotch whisky do mundo, haverá outros papos incríveis. Como um sobre harmonização de pratos e coquetéis, com Oscar Bosch, do Tanit, Lauren Mote, Mark Moriarty e Nicola; e outro sobre coquetéis ready-to-drink, com Alexandre D’Agostino, do Apothek, Fabio La Pietra, do SubAstor, Tai Barbin, do Liz, Nicola e Jenna Ba. Serão três dias de eventos virtuais

Quer saber a programação completa e como assistir? Veja abaixo a programação completa. E para saber mais detalhes, acesse o site oficial do evento virtual. Nosso painel acontece na quarta-feira, dia 17, às 18:00. Nos vemos por lá.

Suntory Roku Gin – Filosofia oriental

A estética e a cultura japonesa estão intimamente refletidas em sua linguagem. Os japoneses possuem palavras simples que definem conceitos incrivelmente complexos. Por exemplo, wabi-sabi, que define a apreciação das imperfeições de tudo que é natural. Ou omotenashi – que poderia ser traduzido como hospitalidade. É a virtude de antecipar as necessidades dos outros e atendê-las. A tradição de certos restaurantes japoneses de entregar uma toalhinha quente e úmida para o comensal antes da refeição é baseada nesse princípio.

Há umas palavras bem específicas, também. Como tsundoku, que define a tendência de certa pessoa comprar e colecionar mais livros do que consegue ler. É quando a sede de conhecimento supera o tempo disponível. Feliz, ou infelizmente, não há nenhuma palavra que se aplique ao irresistível impulso de comprar dezenas de garrafas de whisky sem nem ter fígado ou tempo para bebê-las.

Que é um jeito bonito de dizer acumulador.

E há também Shun – a filosofia de se apreciar certo prato ou bebida em sua estação do ano certa, e somente quando estiver na epítome de seu sabor. E foi com base neste conceito e em omotenashi, a hospitalidade, que a House of Suntory criou o gim Roku, que acaba de chegar ao nosso país.

O Roku é o primeiro gim da lendária Suntory, a maior – e primeira – produtora de whisky do Japão. A mesma responsável por maravilhas como o Suntory Hibiki, Yamazaki e Hakushu. Ele foi lançado em 2017 por lá, mas somente chegou ao Brasil recentemente. Seu nome é traduzido como “seis”, em japonês. E não é necessário ter um poder de dedução sobre-humano para observar a referência ao número. Ela fica óbvia quando examinamos a garrafa, que é hexagonal e decorada com alguns dos botânicos usados no processo.

Mas a simbologia não está presente apenas na garrafa. O Roku Gin utiliza quatorze botânicos. Seis deles, japoneses, que simbolizam as quatro estações do ano – justamente com base em Shun. Folhas e flores de cerejeira (sakura) para a primavera, chás senchea e gyokuro para o verão, pimenta sansho para o outono e casca de yuzu – aquele limãozinho japonês – para o inverno. Além deles, há também, claro, botânicos tradicionais na produção de gim, como o obrigatório zimbro, bem como cascas de laranja, limão, coentro e canela. Os botânicos são destilados em quatro destiladores diferentes, para garantir que cada grupo mantenha suas características mais vivas.

– A produção do Roku Gin acontece em uma destilaria localizada em Kaigandori, Osaka, pertencente à Suntory – bem próximo à Yamazaki, onde é produzido o maravilhoso sigle malt homônimo. O espaço também é conhecido como o “Atelier de Bebidas da Suntory“. Lá são produzidos diversos outros destilados do portfólio da empresa japonesa.

O atelier

Sensorialmente, o Roku é um gim marcante, que funciona melhor como personagem principal do que coadjuvante em coquetéis. O álcool é elegante e bem integrado, e seu perfil pende para o cítrico, com o amargor do zimbro e a pimenta trazendo força. No gim tônica, o Roku ficou bem interessante, mas foi no dry martini que – na singela opinião deste canídeo – o destilado se encontrou.

Você não precisa ser um tsundoku de garrafas. Mas, meu conselho, é que seu exerça seu “auto” omotenashi, e prove o Roku. É um gim que certamente irá surpreendê-lo. Por sorte, beber um belo gim é um hábito que podemos fazer o ano inteiro.

ROKU GIN

Tipo: Gin
Marca: Suntory
País/Região: Japão – N/
ABV: 46%
Idade: N/A

Notas de prova:

Aroma: floral e levemente cíttrico. Canela
Sabor: Cítrico e amargo, com laranja, limão, canela e coentro. Há um floral de fundo muito interessante.

Laphroaig Select – Dissonância

Este post foi originalmente escrito para a Single Malt Brasil, no lançamento do delicioso Laphroaig Select no Brasil. Mas, para completar o álbum, resolvemos reproduzir aqui.


Sem nenhuma dúvida, um dos maiores compositores da virada do século 19 foi Igor Stravinsky. Mais do que um excelente músico, o maestro desafiou dogmas seculares da música clássica. Seu trabalho revolucionou a estrutura rítmica da música erudita, e foi largamente responsável pela consagração do dodecafonismo e serialismo como técnicas de composição. Mas fique tranquilo, isso não é um texto sobre música clássica.

Além de gênio musical, Stravinsky era também um homem de bom gosto, e muito espirituoso. A prova disso é sua frase “Meu Deus, tanto gosto de beber whisky que as vezes penso que meu nome é Igor Stra-whisky”.

Mas nem sempre as coisas foram fáceis para Stra-whisky. Durante sua vida, muitos de seus trabalhos geraram enorme polêmica. A história mais conhecida é da estreia do ballet “A Sagração da Primavera”, que ocorreu em 1913 no Théâtre des Champs-Élysées de Paris, e foi uma das primeiras obras dissonantes do mundo. Já no início do espetáculo, a plateia assoviava e vaiava. Até que, em uma escalada de fazer inveja a qualquer torcida organizada de futebol, os ouvintes começaram a chutar-se mutuamente, aos berros, arrancando poltronas e as arremessando nas cabeças uns dos outros.

Enfim, um ballet tranquilo, com gente equilibrada.

Théâtre des Champs-Élysées depois do balé de Stravinsky

Um fenômeno parecido ocorreu recentemente com a Laphroaig, localizada na ilha de Islay, na Escócia, e famosa por seus whiskies com aroma defumado e bastante encorpados. No ano passado, a destilaria lançou o Laphroaig Select, uma versão mais democrática de sua obra já consagrada. E isso gerou muita polêmica entre seus fãs.

A maior crítica seria que a Laphroaig, ao invés de presentear seus fiéis com outra variação sobre o mesmo tema, teria preferido criar algo mais suave, menos encorpado e menos defumado. Um Laphroaig uma oitava acima. Na cabeça dos críticos, a ideia teria sido tentar agradar ao público ainda não fidelizado e aumentar as vendas da destilaria. Por conta disso, a reação de seus fãs foi também uma versão suavizada de “A Sagração da Primavera”. Sem descontrole físico-emocional e arremesso de cadeiras. Mas com muita gritaria.

No meu caso, a polêmica internacional despertou uma curiosidade quase doentia de experimentá-lo. Mas como sou fã de whiskies defumados, e especialmente da Laphroaig, imaginei que não passaria da primeira dose. Só que não foi o que aconteceu.

Se comparado às demais expressões da destilaria, o Laphroaig Select é, de fato, um whisky mais suave. Os aromas defumado e de maresia estão lá, só que mais discretos. E o sabor picante também, ainda que também suavizado, principalmente por conta da graduação alcoólica de apenas 40%. No entanto, o Select continua, sem dúvida nenhuma, a ser um Laphroaig. Tipo catupiry light. Continua sendo catupiry, só que mais leve.

Pensando bem, não. Catupiry light é qualquer coisa, menos catupiry.

Sério, o que é isso?

O Laphroaig Select é composto por um pouco de quase tudo que existe no atual portfólio da Laphroaig. Em sua fórmula estão o Laphroaig PX, maturado em barricas de ex-jerez, o QA Cask, que utiliza barricas de carvalho branco americano, o Triple Wood, que é uma versão do Quarter Cask maturada em barricas de jerez, bem como o clássico Laphroaig 10 anos. Estes whiskies, depois de combinados, são maturados em barricas virgens de carvalho americano.

É inegável que, assim como “A Sagração da Primavera” de Stravinsky o Laphroaig Select destoa dos demais whiskies da destilaria. Mas não vá lançando seu mobiliário nele só por conta disto. Experimente. Se você, como eu, é cachorro velho frente aos single malts de Islay, abaixe suas orelhas e reconheça: poucas vezes a Laphroaig produziu algo tão versátil sem comprometer a complexidade, e com um preço tão convidativo.

Agora, se você for um iniciante nos whiskies defumados, o Select é simplesmente imperdível para você. É sério. Se Igor tivesse experimentado, mudaria seu sobrenome para Laphro-vinsky.

LAPHROAIG SELECT

Tipo: Single Malt sem idade definida
Destilaria: Laphroaig
Região: Islay
ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: medicinal e defumado, mas não tanto quanto o Laphroaig Quarter Cask ou o 18 anos. Aroma de madeira queimada e frutas cítricas.

Sabor: defumado e levemente cítrico (limão siciliano), com capim santo, e final amargo e longo. Ao contrário da maioria dos Laphroaigs, há pouco defumado no sabor residual.

Com água: adicionando-se agua, o aroma defumado torna-se muito mais leve, e o limão siciliano fica mais evidente. O sabor de capim-santo também é ressaltado.

Whiskies jovens (ou sem idade declarada) muito bons

Foto: Tales Hideki

O tempo é a substância da qual sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me devora, mas sou o tigre; é um fogo que me consome, mas sou o fogo” escreveu Borges em sua Nova Refutação do Tempo. Desgraçadamente – para continuar no tema Borgiano – tenho tido bastante tempo para pensar nele mesmo. Não em Borges. Mas no tempo.

Ultimamente, a passagem do tempo tem me trazido ansiedade. Almejo que tudo passe logo, para voltar àquele status quo. Trabalho normal, vida corrida. Aquele em que o tempo passa tão rapidamente que nosso anseio se torna justamente o contrário – que ele demore mais. Normalmente, a passagem do tempo não é muito querida. Exceto quando em quarentena e durante alguma aula chata de matemática. E – de acordo com o senso comum – com whiskies.

É que muita gente acha que idade é sinônimo de qualidade em whisky. Mas este pensamento está absolutamente equivocado. Há características sensoriais de whiskies jovens que são praticamente irreplicáveis em whiskies mais maturados. A turfa, por exemplo. Whiskies turfados são, sensorialmente, muito mais turfados quando há pouca maturação. A influência sensorial da turfa decai com a idade. Um mesmo whisky turfado com dez anos é muito mais enfumaçado e medicinal do que seu par com meio século de idade.

E há, também, aqueles que são jovens, acessíveis e absolutamente surpreendentes. Whiskies ora delicados, ora um pouquinho agressivos, mas que – aliando casualidade e qualidade – ganham o coração de qualquer entusiasta. Fiz aqui uma lista de quatro deles. De whiskies jovens bem acessíveis àqueles que, apesar da pouca idade, custam o mesmo que o meu fígado. O meu fígado jovem, claro, porque, agora, ele só serve para fazer foie gras. Enfim, vamos a eles.

FAMOUS GROUSE FINEST

Poderia utilizar o clichê “bom, bonito e barato” para descrever o Famous Grouse, não fosse sua garrafa horrorosa com um símbolo ainda mais feio. O que, em termos práticos, não importa nem um pouco. O líquido é sensorialmente excelente, e o preço o torna ainda melhor. O Famous Grouse Finest é a prova de que whiskies sem idade e acessíveis podem, sim, ser muito bons.

Sensorialmente, é um blend relativamente encorpado, bastante equilibrado, levemente puxado para o adocicado e com nenhuma – ou talvez pouquíssima – defumação.  Os principais single malts em sua fórmula são Glenturret, The Macallan e Highland Park. Uma tríade que, convenhamos, não poderia ser melhor. Para saber mais sobre ele, clique aqui.

CHIVAS REGAL EXTRA

Desenvolvido pelo master blender Colin Scott, o Chivas Extra é um blended whisky sem idade definida, composto por single malts e grain whiskies. Sua base é o Strathisla, importante destilaria pertencente ao grupo Chivas, e considerada o lar espiritual da marca. O diferencial fica por conta do uso generoso de barricas de carvalho europeu de ex-jerez.

Ainda que isso não seja divulgado, este Cão tem um palpite educado sobre o Extra. Barricas de carvalho europeu tendem a atingir seu ponto de equilíbrio mais rapidamente do que de carvalho americano. Assim, utilizando whiskies jovens, a Chivas Regal consegue atingir um equilíbrio melhor em seu blend, e dar escala de produção a ele. Quer saber mais? Clica aqui.

GLENLIVET FOUNDER’S RESERVE

A Glenlivet é uma das maiores destilarias em volume de venda na Escócia. E sua expressão mais vendida – e quiçá responsável por seu crescimento nos últimos anos – é justamente o Glenlivet Founder’s Reserve. Lançado em 2015, o Founder’s assumiu o papel de whisky de entrada do portfólio da Glenlivet – função outrora desempenhada pelo respeitado 12 anos.

o Founder’s Reserve é maturado em uma combinação de barricas de carvalho americano de primeiro uso, que antes continham Bourbon whisky, com outras barricas de carvalho americano que já haviam maturado The Glenlivet antes. Essa combinação permitiu que Alan Winchester, o master distiller da marca, produzisse um whisky consistente, escolhendo e combinando as barricas pelo sabor, e não pelo tempo de maturação em seus armazéns. Quer saber mais sobre ele? Clica aqui.

PORT CHARLOTTE SCOTTISH BARLEY

Olha, eu não poderia terminar minha lista de outra forma. O Port Charlotte Scottish Barley é tudo que um bom whisky de Islay é – bastante alcoolico, insanamente defumado e timidamente maturado. Ele é a essência de tudo aquilo que esperamos de um whisky medicinal, salino e enfumaçado.

Tudo isso, graças à sua juventude. Por conta da maturação – que não passa de dez anos – seu new-make spirit é evidente. E que new-make. Iodado e defumado, o Port Charlotte Scottish Barley é um dos rótulos à venda no Brasil mais queridos deste Cão Engarrafado. Mas como tudo tem um ponto negativo, ele não é exatamente barato. Para saber mais sobre ele, clique aqui.