Code Nine Single Malt – Produtividade

Shakespeare escreveu King Lear durante a quarentena da peste bubônica. Já Isaac Newton desenvolveu o alicerce de sua teoria da gravidade. E Giovanni Boccaccio escreveu uma de suas mais famosas obras. O Decameron: uma coletânea de mais de cem contos contados por um grupo de sete pessoas que se refugiavam da Morte Negra em Florença. O livro, mais tarde, tornou-se também uma das mais clássicas obras do cinema, dirigido por Pasolini.

Eu, por outro lado, ganhei um quilo e meio e fiz uma porção de descobertas. Todas elas, baseadas na mais pura e entediante contemplação. Como, por exemplo, que o rei de copas é o único dos quatro naipes que tem bigode. Que morcegos ficam de ponta cabeça mas fazem xixi com o rabo pra baixo. E também que crianças fazem em torno de duzentas e noventa perguntas por dia – exceto pelas minhas, que devem fazer umas quatro mil. Quatro mil cada uma.

E ainda fecha o olhinho de alívio.

E tem também a tensão do bar fechado. Só de pensar no Caledonia de portas cerradas, me dá uma angústia e falta de ar mesmo sem COVID-19. Para aliviar um pouco a tensão, estabeleci uma meta. De experimentar – no sentido amplo de experiência – uma coisa nova por dia, no mínimo. Pode ser um filme, um prato, uma bebida. Pode até ser um shampoo, ainda que eu não me veja como alguém interessado em testes cosméticos. Já fiz sushi caseiro, provei uma itubaína com marca de supermercado e provavelmente assisti umas cem horas de filme. E, nessa toada, experimentei um whisky bem inusual que há algum tempo pretendia provar. O Code Nine – um single malt brasileiro produzido em Blumenau.

Seu criador é Bruno Mafra, que também produz o licor de canela Witch On Fire, já revisto em nosso Instagram. De acordo com Bruno, “A história do code da Witch on Fire se misturam. Porque o Code Nine surgiu justamente pela busca da melhor formula possível do witch. Foram dois anos, em que a gente testou rye, bourbon, single malt. E o último fornecedor que tivemos acesso, com um blend específico de barris, nos impressionou muito. As notas eram bem diferenciadas e tinha qualidade. O custo era maior que esperávamos mas compensava. O Code Nine a gente bebe faz tempo, aliás. A gente recebia amigos em casa que conheciam whisky e elogiavam bastante o produto

Somos uma marca cigana, focada em entregar produto de qualidade com melhor custo benefício possível. Acreditamos que conseguimos um custo-benefício bom até mesmo para a produção de drinks“. De acordo com Bruno, este é um ponto importante: os bartenders possuem um trabalho de educação, de apresentação e valorização do produto para o público, que de outra forma não seria atingido. Produzir um drink com Code Nine leva o amante de coquetelaria a conhecer e experimentar o produto.

Witch on Fire, licor de canela produzido com a base do Code 9

A destilação ocorre numa destilaria que loca sua capacidade ociosa para a empresa de Bruno – a Xanadu. É uma destilaria de cachaça artesanal, localizada em Blumenau, Santa Catarina. No mundo cervejeiro, isso é bem comum. Cervejarias bastante conceituadas utilizam o espaço de outras para produzir suas cervejas – o trabalho é elaborar a receita e supervisionar a produção. São as chamadas “ciganas”.

A maturação do Code Nine passa por barricas de carvalho americano de ex-bourbon e barris de carvalho europeu e americano de reuso. Esses barris – americanos e europeus de reuso – passam por uma raspagem e nova torra. A Xanadu também realiza o corte (a diluição do whisky para atingir a graduação etílica de engarrafamento). Segundo Bruno, nos primeiros lotes, não foi usado corante caramelo, ainda que o rótulo indique o produto – a ideia é que a embalagem esteja em conformidade com qualquer alteração por conta de padronização.

Sensorialmente, o Code Nine é um whisky adocicado, com uma curiosa nota de chocolate, que me remete a outro whisky bem pouco ortodoxo – o australiano Starward. Ainda que seja um whisky jovem, com o new-make spirit aparente, a maturação é bem resolvida, e o álcool não incomoda nem um pouco. Há notas de ameixas e uvas passas, açúcar mascavo e baunilha. O final é adocicado e pouco apimentado.

Se você procura um whisky que foge do comum, mas que entrega um ótimo custo-benefício, o Code Nine talvez seja uma boa pedida. Você não precisa ser Newton, Boccaccio ou Shakespeare para transformar sua quarentena em um período de ótimas descobertas – ainda que etílicas.

CODE NINE SINGLE MALT

Tipo: Single Malt

Destilaria: Xanadu/Code9

País: Brasil

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: açúcar mascavo, chocolate, mel, uvas passas.

Sabor: Bastante adocicado, com sabor que remonta chocolate. Uvas e ameixas passas. Final longo, levemente alcoolico e apimentado, mas também achocolatado.

Balvenie Portwood 21 – Quarentena

Estou há nove dias de quarentena. Mas talvez sejam onze. Os dias da semana não importam mais. A quarentena deu todo um novo sentido para o carpe diem. Eu acordo quando acordar, durmo quando dormir e como quando tiver fome. Minha agenda é do mais cândido vazio. Não há mais horário para nada. É socialmente aceitável beber whisky às nove horas da manhã.

Não tenho feito muito exercício, também. A única coisa que tenho exercitado ultimamente é meu ódio. Por exemplo, pelas pessoas que em breve morrerão de inanição mas com a bunda limpa, depois de terem saqueado todo papel higiênico do supermercado. Já tentei uma série de passatempos, dos mais sofisticados – xadrez com a Cã – até os mais triviais, como tentar engolir a própria língua e tentar não pensar em nada, mas continuar pensando em não pensar.

Há, porém, algo positivo. Tenho aproveitado o tempo para provar whiskies que há tempos tinha em casa, mas jamais abrira. Talvez por falta de coragem. Talvez por aguardar um momento especial. Bem, não há momento mais especial do que agora, uma segunda-feira. São nove e trinta e dois da manhã, e todo mundo aqui em casa está dormindo. Para melhorar, a internet acabou de parar de funcionar.

Tão eu.

Observo o armário de whiskies com serenidade. Tenho todo tempo do mundo para escolher, mas a decisão não leva mais de dez segundos. O Balvenie Portwood 21 anos. Um single malt bastante sofisticado, mas, ao mesmo tempo, incrivelmente delicado. Razão pela qual preferi guardá-lo para provar com o paladar fresco. Bem, não há paladar mais fresco do que aquele de alguém que acabou de sair da cama e nem tomou café.

Abro a garrafa. À medida que desço meia dose do whisky no copo e observo a oleosidade média da bebida, penso como a moral é elástica. Em qualquer outra situação, sentiria bastante remorso daquilo que fazia. Mas hoje não. Há algo sobre a quarentena que sublima qualquer fragmento de culpa aqui. É como se a natureza ontológica do tempo comprovasse o Eternalismo – passado, presente e futuro são um só.

Aproximo meu nariz da taça. Ah, como amo o aroma de whiskies vínicos maturados em barricas de vinho do porto numa manhã apocalíptica. Poderia passar boa meia hora apenas no aroma. Há figos, frutas vermelhas em calda, cerejas. Há uma certa baunilha com mel de engenho também. É uma bebida de elegância inacreditável. Equilibrio não – o Balvenie Portwood 21 é claramente vínico. Mas uma delicadeza elegante cada vez mais rara.

Um pequeno lampejo de remorso. Olho em volta, para me assegurar que ninguém me flagrou com uma taça antes das dez da manhã. Mas não, todos dormindo e eu no mais hermético isolamento, digital e fisicamente. Dou um gole. Percorro, com calma, o líquido na boca. No paladar, o Balvenie Portwood 21 é ainda mais delicado do que no aroma. É isso que 21 anos em uma barrica podem trazer de benefício. Imaginem, uma quarentena de vinte e um anos!

Aproveito para ler a letra miúda da garrafa – algo que apenas quem dispõe de todo tempo do mundo faria. “Na produção do Balvenie Portwood, nosso malt master seleciona cuidadosamente reservas raras de Balvenie e as transfere para barricas de vinho do porto, para uma maturação de alguns poucos meses. O primeiro período de maturação de mais de duas décadas abranda o destilado, e cria seu caráter. A segunda maturação é o coração do The Balvenie Portwood, e produz um single malt de complexidade incrível. Provado regularmente por Dave Stewart, o Malt Master da Balvenie, para garantir que apenas a medida certa de influência seja trazida pelas barricas de vinho do porto.”

Dave Stewart

Lembro-me, por um momento, que a Balvenie foi uma das pioneiras na técnica empregada neste whisky. A finalização em barricas distintas, conhecida como cask finishing. Algo criado e aperfeiçoado durante décadas pela própria The Balvenie e outras destilarias, como Glenmorangie e Glen Moray. É uma técnica tão simples quanto genial, que traz ao whisky complexidade sensorial, unindo influências de distintas barricas.

Dou mais um gole e finalizo a dose. O final é longo, mas não chega e ser picante. Não é também tão vínico quanto se espera. O Balvenie Portwood 21 é bem mais suave no paladar do que no aroma. Se pudesse, recomendaria o Balvenie Portwood 21 para todos aqueles que adoram whiskies vínicos como The Macallan, mas procuram algo mais delicado, mais suave, com uma sofisticação quase semelhante àquela de blends ultra-luxuosos, como os Royal Salute.

Paro por um momento. Tenho a clara impressão de que alguém me observa. Olho para os lados, mas nada. Finalmente, dou meia volta e vejo o Sazerac, meu querido cãozinho, que me observa com olhar de interesse. Nenhum traço de reprovação em seu olhar. Claro, cães não sabem que horas são, nem que dia da semana é hoje. Cães acordam quando acordarem, dormem quando dormirem, e comem como eu, a todo instante. Cães não guardam nada para momentos especiais e aproveitam cada pequeno momento.

Se há algo de bom sobre a quarentena, é esta. Ela me fez mais Cão do que nunca.

BALVENIE PORTWOOD 21 ANOS

Tipo: Single Malt
Destilaria: Balvenie
País/Região: Escócia – Speyside
ABV: 40%
Idade: 21 anos

Notas de prova:

Aroma: compota de frutas, vinho fortificado, baunilha.
Sabor: compota de frutas, vinho fortificado. Baunilha, pimenta do reino. Final longo, adocicado e frutado. Muito complexo e agradável.

(mais) quatro whiskies que fazem falta no Brasil

Esta é a segunda edição de um post sobre whiskies que fazem muita falta no Brasil. Para ler a primeira edição, clique aqui .


Talvez o momento atual, com um virus que tirou do Aedes Aegypti o monopólio sobre o apocalipse, não seja o ideal pra contar isso. Mas eu adoro viajar. E apaixonado por whiskies e comida que sou, uma das coisas que mais me fascina é a gastronomia.

Amo descobrir novos sabores e juro que não há quase nada que eu não provaria. No Peru – quando viajei no ano passado – por exemplo, a primeira coisa que eu resolvi experimentar foi cuy. Que por aqui é conhecido como o fofinho e amável porquinho da índia. É uma iguaria no país, e restaurantes bem conceituados servem o prato. No final, me decepcionei. Tem gosto de frango, e eu detesto frango. Mas a experiência valeu a pena.

Outra coisa que eles tem por lá são refrigerantes diferentes. Mais ou menos a mesma história das tubaínas por aqui, mas alguns são bem grandes e famosos. O maior deles é a Inca Kola. Se eu pudesse definir o que é a Inca Kola, em uma frase, eu diria que ela tem o gosto da cor. E a cor é um verde quase radioativo. Detestei Inca Kola. Mas a Cã, por outro lado, adorou. Gostou tanto que descobriu um restaurante em São Paulo que tem o refrigerante, e comprou uma dúzia de garrafinhas.

Eca.

Quando voltei para casa, não senti a mais rasa falta de porquinho da índia ou Inca Kola. Por outro lado, já me vi nostálgico de certos whiskies que provei em outras viagens – como quando estive na Escócia – e oportunidades. Enumerei alguns abaixo, num exercício que, se fosse um pouco mais sensível, teria feito brotar lágrimas de saudades.

Bowmore

Olha, eu tenho que assumir que coloquei Bowmore na lista por uma questão um tanto egoísta. Sou apaixonado pela destilaria e acho injusto que tenha que passar vontade. Mas, além disso, há outros bons motivos para termos este clássico de Islay por aqui.

Primeiro, a Bowmore pertence à Beam-Suntory, que já importa alguns rótulos pertencentes a ela para cá, como, por exemplo, os Laphroaig – além, claro, do onipresente Teacher’s, que agora é engarrafado lá na Escócia. Isso sem falar dos whiskies japoneses, que já passaram férias em nosso país.

Em segundo, porque poucas destilarias conseguem equilibrar tão bem o sabor enfumaçado e medicinal com a influência de barricas de vinho, especialmente ex-jerez. E, aqui no Brasil, não há nenhum single malt defumado com influência vínica.

Highland Park

Highland Park é uma das mais cobiçadas marcas de single malt escocês. Sensorialmente, se aproximam do Talisker, mas tendem a ser mais intensos. São apenas levemente enfumaçados, bastante oleosos e com maturação aparente. A maioria dos rótulos passa por alguma barrica de carvalho europeu.

A destilaria Highland Park pertence ao Edrington Group, que também é proprietário da popstar The Macallan e da Glenturret, coração do Famous Grouse. Por aqui, boa parte dos rótulos do grupo são trazidos pela importadora Aurora. Porém, o único single malt que desembarca é The Macallan – que é um sucesso estrondoso. Talvez seja hora de diversificar!

(qualquer outro) Rye Whiskey

Ryes são avistamentos frequentes fora de nosso país. Afinal, são a espinha dorsal de boa parte da coquetelaria com whisk(e)y – o Sazerac, Vieux Carré e La Louisiane são exemplos. Porém, aqui no Brasil, o único rótulo que temos é o Wild Turkey Rye. Que é um whiskey bem feito, apesar da graduação alcoólica baixa, que às vezes atrapalha ao elaborar receitas.

Porém, não seria nenhum sacrifício ter mais opções. Quiçá o Jack Daniel’s Rye, ou o Bulleit Rye, ou o clássico dos clássicos, Sazerac Rye.

Aberlour

Encontrar um whisky com bom custo-benefício e que tenha estagiado em barricas de vinho ex-jerez espanhol não é nada fácil por aqui. Os rótulos mais óbvios são o The Macallan Double Cask e Dalmore 12. Mas ambos custam mais de meio milhar de reais. O recém-chegado Tamnavulin também é uma boa opção, mas infrequente.

Fora do Brasil, os Aberlour são um oásis do estilo. A destilaria se especializou em produzir maltes maturados em barricas de vinho jerez, e transformou isso em uma assinatura. São single malts profundos, intensos, carregados de especiarias, pimenta e taninos. Perfeitos para acompanhar um belo charuto.

A Aberlour pertence atualmente à Pernod-Ricard, detentora também das marcas Chivas Regal, Jameson e Royal Salute. A multinacional possui mais de dez destilarias na Escócia, mas a única que chega ao Brasil é sua campeã de vendas. A Glenlivet.

Sobre o tema do momento – COVID-19

Talvez vocês não saibam, mas acho que este é ao mesmo tempo o melhor e pior momento para descobrirem. Há mais ou menos três meses abrimos um bar em São Paulo. O Caledonia Whisky & Co. É um lugar que, se eu pudesse definir com uma frase, seria “ele é o Cão Engarrafado materializado”. Tudo que tem por aqui, tem lá. Coquetéis, comida e whisky. Mais de cento e vinte rótulos diferentes de whisky.

Por quase três meses, recebemos clientes e amigos, e tem sido uma absoluta delícia. Temos inclusive, já alguns “habitués”- se é que podemos considerar que realmente existem clientes recorrentes em uma casa que, se fosse um bebê, ainda estaria fazendo fezes explosivas. Mas bem, espiritualmente citando Allen Saunders, há coisas que acontecem enquanto fazemos planos, e essa coisa foi o COVID-19.

Durante esta semana, nos perguntamos bastante se deveríamos suspender nossas atividades por conta do COVID-19. Mas, como dizem, muitas vezes as respostas para nossas indagações estão nas próprias indagações. Suspender um estabelecimento comercial com pouco menos de três meses de vida, que depende cem por cento de seus clientes no lugar físico não é uma decisão trivial. É uma apneia para todos – clientes e equipe. Mas é o tipo de decisão cujo singelo enunciado já traz a resposta.

Por mais que desejássemos oferecer alguma hospitalidade durante estes tempos incertos, a prioridade estava clara desde o começo. É – e sempre foi – a segurança e a saúde de nossa equipe, clientes e comunidade. Clientes maravilhosos e destemidos, que saíram de sua zona de conforto para conhecer um lugar novo criado por dois malucos apaixonados por whisky. E uma equipe que por algum motivo acreditou em nós, e tem feito um trabalho excepcional. É preciso uma bela porção de coragem para isso.

Gente corajosa

Por conta disso, e imbuídos de uma coragem quiçá semelhante, que a partir de 17/03, o Caledonia Whisky & Co. suspendeu suas atividades. Suspendeu, porque claro que, em breve, voltaremos. Avaliaremos diariamente as medidas do governo e o avanço da pandemia para definir nossa volta – torcendo para que seja breve. Preferimos nos resguardar agora, do que arriscar um fôlego muito maior no futuro. Mas é importante dizer que nada adianta fazermos nossa parte. Dependemos, também, de você, querido leitor.

Fiquem em casa e peçam para seus amigos, vizinhos e familiares fazerem o mesmo. Não sejam rebeldes – não há nada, exceto o absolutamente essencial para sobrevivência, que não possa ser adiado. Uma viagem, um culto, um cinema, um show, uma festa. Não se cobrem e não deixem ser cobrados. Seu #wanderlust, sua fé (sua divindade entenderá, se ela não entender, é culpa de seus representantes. Mude de religião. O mundo está cheio delas), cinefilia, audiofilia ou sociofilia podem aguardar. O mundo raríssimas vezes é binário. Mas desta vez é. Há o certo e o errado. E o certo é ficar em casa.

Na hipótese altamente improvável de você não saber ainda, a gente explica. O COVID-19 pode ser transmitido pelo ar ou por contato pessoal com todo tipo de fluido corporal nojento que você não gostaria de ter contato nem se a pessoa fosse saudável: gotículas de saliva, espirro, tosse e catarro. E tudo que decorre disso, como toque ou aperto de mão, e contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos. Atenção redobrada com os botões do elevador e da maquininha de cartão de crédito. Mas eu nem preciso falar isso, porque você não vai pegar o elevador e apertar os botões, porque vai ficar em casa. Se ainda tiver dúvidas, leia esse especial do Bar Virtual sobre o COVID-19

Assim, cuidem dos seus, não assumam riscos desnecessários. Mesmo que você seja um jovem bêbado tão resiliente quanto um ratel, aposto que há alguém em seu círculo social que faz parte do grupo de risco. Um pai cardíaco, um amigo com problemas respiratórios. Assim, sejam solidários. Lavem as mãos constantemente. Não encostem no rosto. Usem álcool gel sempre. Não compartilhem copos – nem mesmo de um maravilhoso Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare. Não cumprimentem pessoas com as mãos – mesmo porque, se você não vai sair de casa, não tem ninguém pra cumprimentar com as mãos.

Mas nem tudo é desespero. Aqui, no Cão Engarrafado, a versão imaterial do Caledonia Whisky & Co., traremos a vocês as novidades do mundo do whisky, e uma porção de informações legais para você curtir daí, da segurança de seu lar. Aproveite a oportunidade para abrir aquela garrafa empoeirada de whisky que estava guardando para um momento especial. Ou prepare-se para testar alguns dos coquetéis de nosso bar em casa. Aguardem, as próximas semanas serão difíceis, mas melhores tempos virão.

Saratoga Cocktail – Diversidade

Meu pai costuma dizer que o tempero da vida é a diversidade. Tenho que concordar com meu progenitor. Ainda mais em uma época do ano quanto o carnaval. Os bloquinhos são um exemplo. Fico fascinado com o ânimo das pessoas para ir nos bloquinhos, mas, tenho que assumir, não me vejo participando de um nem por dinheiro. Nem por dinheiro não, nem por whisky.

Sou totalmente a favor de qualquer manifestação de alegria, ainda mais uma tão espontaneamente agregadora quanto o carnaval. Em especial os bloquinhos de rua. Não ligo nem um pouco para o trânsito causado, e – como dono de um bar recém aberto – nada me revolta a falta de movimento trazida pelas festividades. Mas os bloquinhos reúnem três coisas absolutamente equivocadas: cerveja ruim quente, suor e muita gente.

Aliás, gente já seria um motivo mais do que justificável para me demover dos planos carnavalescos. Com calor, ainda pior. Odeio passar calor. Nem piscina quente, eu gosto. Aliás, nunca entendi essa tara das pessoas por piscinas quentes. Que coisa mais sem graça. Para qualquer atividade em uma piscina ficar minimamente interessante, é necessário adicionar ao menos um de dois elementos – álcool ou jogo.

Credo

Talvez tenha sido com essa mentalidade, justamente, que um tal de John Morrissey, um irlandês nascido nos Estados Unidos, resolveu abrir um casino em Saratoga Springs em 1864. É que o lugar era tipo Jurerê Internacional dos americanos no começo do século dezenove. Os pornograficamente ricos aproveitavam as águas naturalmente cálidas para relaxar. O lugar era tão famoso que o empresário Gideon Putnam decidiu abrir lá um spa – aproveitando as maravilhosas e entediantes caldas minerais de Saratoga. Nada mais do que natural que, da união do tédio e do dinheiro, surgisse então um casino.

Durante a curta vida do casino de John – que foi fechado no começo do século vinte por conta do recrudescimento das leis que combatiam álcool e apostas – surgiram algumas receitas bastante curiosas de coquetéis. Mas apenas um sobreviveu ao oblívio do tempo. O Saratoga Cocktail, que leva rye whiskey, vermute, bitters e brandy. Ou conhaque, se você tiver uma casa em Jurerê.

A sobrevivência do Saratoga Cocktail se deu, em boa parte, por sua menção no icônico livro de Jerry Thomas, “The Bar-tenders Guide”, de 1887, bem como por sua facilidade de preparação. Porém, não se engane – o sucesso de seu Saratoga dependerá, essencialmente, dos ingredientes utilizados em sua composição.

Durante uma semana, realizei o sacrifício de testar algumas combinações diferentes. Descobri que o Saratoga se beneficia de um vermute mais apimentado – como, por exemplo, o Carpano ou Cinzano 1757 – ao invés de algo mais delicado. O brandy deve trazer mais madeira – o Fernando de Castilla funcionou bem. Quanto ao Rye Whiskey, não há muita escolha. O único disponível em nosso país é o Wild Turkey Rye, que, apesar da baixa graduação alcoólica, funciona bem.

Assim, meus caros leitores, coloquem suas cartas na mesa e tomem nota de um coquetel tão fácil quanto se afogar bêbado numa piscina quente, e bem mais agradável do que passar calor no bloquinho. O belíssimo…

SARATOGA COCKTAIL

INREDIENTES

  • 1 dose (30ml) de vermute tinto
  • 1 dose (30ml) de rye whiskey
  • 1 dose (30ml) de brandy
  • 2 dashes de Angostura Aromatic Bitters

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em um mixing glass com bastante gelo.
  2. Mexa por aproximadamente 4 segundos
  3. desça em uma taça coupé ou copo baixo, sem gelo.

Buffalo Trace Bourbon – Gabarito

Hoje vou contar para vocês a história do mais perfeito carro do mundo. Tão perfeito que falhou miseravelmente. O Ford Edsel. Ele foi lançado em 1957, após uma exaustiva pesquisa, que questionava os consumidores sobre o que esperavam de um automóvel. Centenas de pessoas opinaram sobre sua criação.

O Edsel possuía basicamente tudo que era tecnologicamente possível na indústria automobilística dos anos cinquenta. Direção hidráulica, câmbio automático, freios auto-ajustáveis e até uma grelha frontal que parecia uma tampa de privada que fora violentamente arrancada e depois perfurada. Acontece que, tentando ser bom em tudo, o Edsel era péssimo.

Só de ver a parte da frente, rolam uns movimentos peristálticos.

O motor era forte, mas como ele tinha que ser espaçoso, era também pesado. A direção tinha que ser leve, mas sem sacrificar a performance, o que o deixava sua manobrabilidade no meio do caminho entre um navio de cruzeiro e um trator. E para terminar este – literalmente – fracasso rolante, o carro era tão caro quanto um Porsche. Este é o problema de tentar agradar a todos. É quase impossível.

Porém, no mundo do whiskey americano, há um rótulo que talvez tenha conseguido. O Buffalo Trace. Se aliens descessem dos céus e perguntassem a todos os bebedores o que esperam de um bourbon, para depois produzi-lo, o resultado seria muito próximo do Buffalo Trace. Incluindo seu preço. Ele agrada a todos, tem um valor razoável, e qualidade sensorial excelente. É o tipo de whiskey que atrairá tanto o novato – graças a seu perfil adocicado e pouco apimentado – quanto o bebedor mais experiente, que busca algo com bom custo-benefício.

O Buffalo Trace é produzido pela destilaria homônima, localizada no Kentucky, e pertence à Sazerac Company. Jim Murray, o famoso autor da Bíblia do Whisky, uma vez nomeou a Buffalo Trace como a melhor destilaria do mundo. Ainda que, para mim, isto pareça uma hipérbole, não é difícil entender a lógica de Jim. A Buffalo Trace produz rótulos com excelente custo-benefício (como o Buffalo Trace e Eagle Rare), bem como produtos sofisticadíssimos e nichados, como a Antique Collection, Weller e o mundialmente cobiçado Pappy Van Winkle. Este último, com garrafas que podem chegar a mais de dois mil dólares.

O Buffalo Trace Bourbon compartilha com alguns rótulos irmãos uma mashbill (receita do mosto) baixa em centeio. Ainda que a destilaria não divulgue os números exatos, um palpite educado seria menos de 10% de centeio, 10% cevada maltada e o restante milho. É a mesma receita de diversos rótulos mais sofisticados da Buffalo Trace, como o querido Eagle Rare, Stagg Jr e o sofisticado George T. Stagg. A diferença entre os rótulos está na escolha dos barris, e na graduação alcoólica de engarrafamento.

Pappy, também produzido pela Buffalo Trace, mas com outra receita.

Como produto, o Buffalo Trace Bourbon é relativamente jovem. Ele foi criado somente em 1999, logo após a reabertura da destilaria. Reza a lenda que um visitante indagou porque não havia qualquer rótulo que levasse o mesmo nome daquele lugar. Sem resposta, e após uma série de discussões, o time da Sazerac Company pediu ao master distiller Elmer T. Lee que criasse um bourbon especial – e acessível – o suficiente para carregar o nome Buffalo Trace.

Sensorialmente, o Buffalo Trace é um bourbon incrivelmente encorpado – especialmente considerando seu preço – com aroma e sabor adocicados, com baunilha e toffee, e apenas um final elegantemente apimentado e amadeirado. É curioso como apesar da mashbill alta em milho, o whiskey atinja um equilíbrio interessantíssimo entre a influência da madeira e do destilado. Isso é bem raro em rótulos que compartilham preço e receitas semelhantes de outras destilarias.

Se você é um iniciante no mundo dos bourbons, e procura um rótulo que possa resumir tudo que se espera do estilo, o Buffalo Trace foi criado para você. Mas, por outro lado, se você já tem experiência com whiskey, e apenas quer algo para alimentar a zona de conforto, o Buffalo Trace também não decepcionará.

BUFFALO TRACE BOURBON

Tipo: Bourbon
Destilaria: Buffalo Trace
País/Região: Estados Unidos – Kentucky
ABV: 45%
Idade: Sem idade declarada (NAS)

Notas de prova:

Aroma: caramelo, toffee, baunilha.
Sabor: caramelo, toffee, mel. O final é longo e suave, com um agradável apimentado.

Murray McDavid e as Engarrafadoras Independentes

Mil e uma utilidades. Energia que dá gosto. A verdadeira maionese. Todo mundo usa ou use e abuse. Todas as frases anteriores são slogans de marcas famosas. Mas eu nem precisava contar isso para vocês, porque vocês já sabiam. É impossível não pensar no Pão de Açúcar quando alguém fala “lugar de gente feliz”, ainda que eu já tenha ido bem contrariado pro supermercado.

Quase todos os slogans trazem uma mensagem comum. São positivos e alegres, e transmitem valores como autenticidade ou confiança. Quase todos, porque há uns poucos bem esquisitos por aí. Como, por exemplo, o da engarrafadora independente Murray McDavid. O slogan deles, em gaélico, é clachan a choin.

Antes de contar o que clachan a choin significa, deixe-me falar um pouco sobre a Murray McDavid. Sua sede atualmente é a destilaria de Coleburn, na região escocesa de Speyside. Ela é uma das mais prolíficas engarrafadoras independentes da Escócia. Caso você não saiba, engarrafadoras independentes são empresas que visitam e escolhem barris de diversas destilarias – que não pertencem a ela – e produzem sua própria linha de whiskies. Às vezes, edições bastante limitadas. Outras, nem tanto.

Clachan

O sucesso de uma engarrafadora independente reside, em boa parte, na sua criatividade. Em sua capacidade de produzir edições improváveis, que mantém o caráter de certa destilaria, mas que são suficientemente distintas daquelas produzidas por esta. Uma engarrafadora independente deve produzir algo novo, mas com ferramentas que já estão lá e não foram criadas por ela. Ela deve pensar diferente. Ser rebelde e desafiadora. E aí é que está.

Clachan a Choin significa “o saco do cãozinho”. Ou, em uma tradução talvez grosseira, porém mais fiel, “as bolas do cachorro”. Uma frase que, convenhamos, não precisa de muitas explicações para transmitir uma sensação de rebeldia. Que a Murray McDavid fez muito bem. Seja com suas linhas mais exclusivas (que levam a marca Murray McDavid), seja com seus produtos mais acessíveis, da ACEO Spirits.

Este Cão Engarrafado teve a oportunidade de provar algumas destas criações por conta da visita do embaixador da Murray McDavid ao Brasil. Que, incrivelmente, é um brasileiro. João Pedro Medeiros. Durante a viagem, o representante realizará degustações em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. No Rio, o evento – em parceria com a Whisky Rio – acontecerá no dia 13 de março, no Bota Restaurante. Já em São Paulo, a degustação será no Caledonia Whisky & Co.

Dentre os whiskies provados, selecionei quatro que – dentro da minha lógica esquisita – representam bem o espírito (tunts) da Murray McDavid. O primeiro é um single grain scotch whisky produzido pela Girvan. Que só pelo estilo já seria bem distinto, mas tem uma maturação bem especial. Ele é finalizado em barricas que antes continham vinho madeira. Para um single malt, essa finalização já é bem incomum. Para um single grain, ainda mais. Por conta do pouco corpo, a maturação fica bem evidente. É um whisky leve, agradável, adocicado e frutado.

Girvan – diferente da destilaria que todos imaginam

O segundo é o Half and Half, um blended scotch que leva maltes não divulgados de Speyside e Lowlands. A maturação ocorreu principalmente em barricas de carvalho americano. Porém, após blendado, o whisky foi transferido para barris de vinho jerez espanhol para finalização. Sensorialmente, é um whisky mais convencional – adocicado e com um leve sabor de ameixa seca, proveniente da finalização.

O terceiro é o Mulben Moor, um single malt de uma destilaria – alegadamente – não divulgada, mas que a gente sabe que é a Auchroisk. A maturação ocorreu em barricas de ex-bourbon de carvalho americano, e carvalho europeu de ex-vinho Madeira. É um single malt curiosamente cítrico, reminiscente de casca de limão. É mais intenso do que os anteriores. A finalização é longa, frutada e apimentada.

O derradeiro é o Peatside, um blended malt turfado. É uma edição limitada, com apenas 848 garrafas em todo mundo. Maturado em barricas de carvalho americano, e depois transferido para duas barricas de vinho do porto, é um whisky bastante defumado, com notas de frutas em calda e pimenta do reino. A graduação alcoólica é bem elevada – 50%.

Se quiser saber mais sobre a Murray McDavid e os engarrafadores independentes, acompanhe o Cão Engarrafado nas próximas semanas! Faremos uma cobertura do evento de São Paulo e entrevistaremos o embaixador. Aqui sim, é lugar de gente feliz. De dar gosto!

Celebridades e suas marcas de whisky

Esses dias estava vendo um programa sobre os passatempos das celebridades. Um que me chamou a atenção foi o Nicholas Cage. Ele coleciona animais raros. Uma vez, o Nicholas Cage comprou um polvo de 150 mil dólares, porque, segundo ele, isso aprofundaria sua compreensão sobre outras formas de vida, e melhoraria sua carreira. Sinceramente, moluscos devem ter um péssimo gosto por cinema, porque só de ver a cara do Nicholas Cage, já pulo pra outro filme.

Outro que me surpreendeu foi o Tommy Lee Jones. Além de ser especialista em interpretar ele mesmo nos mais variados papéis, Tommy é um entusiasta ferrenho do polo equestre. O ator cria cavalos para o jogo – conhecidos como ponies – em seu rancho no Texas, financia dois times e tem um centro de treinamento de polo em Buenos Aires. Já a Angelina Jolie possui uma enorme coleção de adagas, e o Brad Pitt, de bonecas da Barbie. O que talvez explique o relacionamento conturbado entre os dois.

É pra isso que eu pago internet.

Há, porém, celebridades com hobbies – ou talvez negócios paralelos – menos aleatórios. Muitas delas, por exemplo, gostam tanto de whisky que resolveram lançar suas próprias marcas. Um passo que, para mim, parece absolutamente natural: o que mais eu poderia fazer, se fosse pornograficamente famoso e rico? Esta matéria apresenta cinco destes famosos que são malucos como a gente. Mas tão malucos, que até parecem normais.

David Beckham – Haig Club

Talvez o mais clássico exemplo de um whisky criado por uma celebridade, o Haig Club de Beckham é um single grain, produzido pela destilaria escocesa Cameronbridge. O rótulo é uma parceria entre o jogador de futebol, seu parceiro de negócios Simon Fuller e a gigante Diageo, detentora da Cameronbridge.

O Haig Club foi desenvolvido para ser um whisky muito fácil de ser bebido, bem pouco oleoso, suave e adocicado. A ideia é que funcione como uma “porta de entrada” para aqueles que acham que não gostam da melhor bebida do mundo. O que talvez seja uma estratégia insanamente perigosa, considerando o sabor do Haig Club. Longe de mim fazer qualquer julgamento, mas, ao prová-lo, tive dúvidas se realmente gostava de whisky.

Bob Dylan – Heaven’s Door Whiskey

O projeto Haven’s Door nasceu de uma parceria entre Dylan e o fundador da marca de whiskeys americanos Angel’s Envy, Marc Bushala. Caso você não tenha percebido, o nome é uma referência a sua famosa “Knockin’ on Heavens Door”, e cria um interessante paralelo com a marca de Bushala – Angel’s Envy.

O portfólio de lançamento contou com três whiskeys. Um bourbon que passa por um processo de filtragem em carvão, semelhante àquele dos Tennessee whiskeys; um Rye Whiskey finalizado em barris que antes contiveram charutos (!), e um Double Barrel, finalizado em barris americanos tostados.

Como aconteceu com a Angel’s Envy, a Heaven’s Door ainda não possui destilaria – esta provavelmente abrirá suas portas em 2020. Atialmente, seus whiskeys são curados, comprados de uma destilaria não divulgada, mas que a gente sabe que é a MGP.

Metallica – Blackened American Whiskey

O Blackened American Whiskey foi criado pela banda Metallica em pareceria com o destilador David Pickerell, e é um blend de whiskeys americanos finalizado em barris de brandy. Curiosamente, cada lote de Blackened vem acompanhado de uma playlist única, feita para interagir com a bebida.

A medida que o whiskey descansa nos barris de finalização, a música é tocada para que o whiskey dentro se mova, e interaja melhor com a madeira. O movimento e a quantidade de interação depende da música tocada, assim, a variação da musica cria nuances de um lote para o outro

A explicação pseudo-científica dá uma certa vergonha alheia. Mas, assumo, adoraria experimentar uma dose ouvindo a regravação do sucesso de Thin Lizzy – Whiskey in The Jar.

Conor McGregor – Proper No. Twelve

Tanto no octógono quanto nos negócios, o lutador de MMA Conor McGregor parece gostar de uma boa briga. E de whiskey irlandês. Por isso, acaba de lançar sua própria marca, a Proper Number Twelve.

Ao contrário da tendência das celebridades – de lançar produtos luxuosos que encapsulam seu lifestyle – o whiskey de Gregor é acessível, tanto financeiramente quanto sensorialmente. Por lá, custa em torno de vinte e cinco libras, e é destilado pela Old Bushmills Distillery, na Irlanda do Norte.

Sam Heughan – The Sassenach

O que seria mais apropriado para um escocês que interpreta um escocês em uma série sobre a Escócia – The Outlander? Lançar uma marca de whisky, claro. Aliás, não apenas uma marca, mas uma companhia inteira voltada para a produção de blended whiskies – a Great Glen Company.

Criei a Great Glen Company para criar produtos em que acredito, usando minha tradição e paixão como inspiração”, disse ele. “No momento, estamos trabalhando na minha marca de whisky com nosso primeiro lançamento em breve” – disse Sam.

Minha querida Cã Engarrafada é apaixonada pela série e pelo ator. E, pelo jeito, muito em breve, eu serei também.

Teacher’s Highland Cream (Escocês)

Hanna Arendt uma vez escreveu que ” Das coisas tangíveis, as menos duráveis são as necessárias ao próprio processo da vida. O seu consumo mal sobrevive ao acto da sua produção “. Se não fosse por um hiato de poucas décadas – e talvez minhas dúvidas sobre as preferências alimentares da filosofa – poderia jurar que Hannah escrevera o excerto depois de pedir uma batata frita de delivery.

Há poucos alimentos mais efêmeros do que a batata frita de delivery. Nem carne, nem massas, sofrem tanto. Nem mesmo o hambúrguer, companheiro inseparável da batata frita, apanha desse jeito. Vinte minutos em um espaço confinado, no baú do entregador, são suficientes para transformar a mais deliciosa e crocante fatia em um negócio frio, mole e murcho. Batatas fritas definitivamente não viajam bem.

Folclore

Outro produto que sempre ouvi que não era o mesmo depois da viagem – neste caso, uma transatlântica – é o whisky Teacher’s. Produzido na Escócia e transportado em tanques estanques, o Teacher’s era cortado (diluído) e engarrafado no Brasil. O processo tornava a logística mais barata, e permitia que o Teacher’s tivesse preço de combate por aqui sem sacrificar a qualidade. Porém, ouvira de mais de um bebedor que havia diferenças entre os dois.

Naturalmente, graças à minha perseverança em relação a assuntos inúteis, resolvi fazer o teste. Quando viajei para a Escócia pela primeira vez, fiz uma importação espontânea de uma garrafa de Teacher’s em minha mala. Logo que cheguei ao meu hotel, pedi um whisky. O Teacher’s engarrafado na Escócia. O bartender me olhou esquisito – afinal, dentre mais de trezentos rótulos naquele bar, era inexplicável que tivesse escolhido aquele para começar.

Observei o bartender descer uma dose do Teacher’s engarrafado na Escócia sob olhares curiosos do restante da brigada do bar. Daí, tirei da mochila uma garrafa daquele engarrafado no Brasil, e pedi uma taça. Ouvi um murmurar de interesse. Brasileiro maluco. Dei um gole em cada um, e empurrei as doses em direção ao bartender, que esticou o braço, em sinal de que havia aceitado minha oferta. Ao provar os dois, acenou afirmativamente com a cabeça. É, eles eram diferentes. Não muito, mas o suficiente para que percebêssemos. Expliquei para ele a lenda urbana que havíamos acabado de comprovar, e tudo ficou claro.

O Teacher’s engarrafado no Brasil era mais adocicado e leve. A fumaça estava lá, mas mais discreta, contida. O engarrafado na Escócia era mais seco, enfumaçado e intenso. Se aproximava mais do single malt que compõe seu coração, o Ardmore. Indaguei sobre o que poderia ter causado essa diferença. Podia ser a viagem da matéria prima, o Teacher’s não cortado, até o Brasil. Poderia ser a nossa água. Ou, então, talvez fosse uma diferença de lote. Não chegamos a qualquer conclusão.

Muitos anos mais tarde, tive a oportunidade de refazer a comparação. Mas no Brasil. É que a Beam-Suntory, empresa mãe da Teacher’s, decidiu trazer o whisky engarrafado na Escócia para nosso país, ao invés de continuar a engarrafá-lo por aqui. O evento de lançamento aconteceu em um lugar muito especial. O Caledonia Whisky & Co., nosso bar em São Paulo, e contou com a presença de Paula Limongi, embaixadora da marca, e Walter Celli, CEO da Beam-Suntory para Brasil, Paraguai e Uruguai.

Um Cão, uma Destilady e um CEO (Foto: Ale Virgílio)

Os convidados assistiram um discurso de Paula Limongi e deste Cão Engarrafado, e provaram três rótulos. O Teacher’s 12 anos, lançado em Recife há pouco mais de um ano, o Laphroaig Select e o Teacher’s engarrafado na Escócia. Walter Celli também falou, e explicou sobre os novos planos da marca e seu posicionamento “Acreditamos que os consumidores de whisky estão cada vez mais exigentes. Teacher’s teve
seu papel fundamental em tornar o scotch acessível no país, mas agora entendemos que os brasileiros, em especial os nordestinos, em todas as classes sociais, estão mais rigorosos e entendem que um whisky engarrafado na Escócia tem seu diferencial

Sensorialmente, a experiência que tive no Brasil foi muito semelhante àquela na Escócia, anos atrás. O Teacher’s engarrafado por lá é menos alcoólico e mais defumado. Parece um produto mais lapidado do que o que outrora era vendido por aqui. Há um claro ganho em equilíbrio do blend, que, apesar de simples, parece ser mais bem acabado.

Mexer no processo de produção de um whisky tão bem sucedido no Brasil como o Teacher’s pode parecer um contrassenso. Porém, este Cão somente poderia aplaudir a decisão da Beam-Suntory. Com essa decisão, há melhor padronização do whisky, preservando seu excelente custo-benefício. É como se a batata frita de delivery agora fosse preparada em casa.

TEACHER’S HIGHLAND CREAM

Tipo: Blended Whisky
Marca: Teacher’s
País/Região: Escócia – N/A
ABV: 40%
Idade: Sem idade declarada (NAS)

Notas de prova:

Aroma: levemente esfumaçado, com suave aroma cítrico.

Sabor: frutado, cítrico, com final levemente defumado. Não é um whisky muito complexo. O sabor de álcool é bem aparente, mas não chega a atrapalhar.

Royal Salute Malts Blend – Diversificação

Certa fez, Henry Ford, ao falar de seu Ford Model T disse “O cliente pode ter seu carro pintado de qualquer cor, desde que essa cor seja preta“. Ainda que sarcástica, a declaração tinha todo sentido. Não havia espaço para o supérfluo. O Model T fora criado para ser acessível – e nisso, foi incrivelmente bem-sucedido.

O primeiro Ford Model T saiu da fábrica em setembro de 1908. No ano seguinte, mais de dez mil automóveis foram produzidos. O último – tão preto quanto o primeiro – deslizou da linha de produção em 1927. Foram dezoito anos. Nesse período, perto de quinze milhões de Model T foram produzidos. Todos, quase idênticos – exceto por alguns pequenos detalhes internos.

Pelo menos tinha conversível

Na época do iPhone X e Xs, manter inalterado um bem de consumo por dezoito anos pode parecer um enorme contrassenso. Por outro lado, a inércia da Ford não pareceu afetar as vendas do Model T – que entrou na história como um dos mais bem sucedidos automóveis de todos os tempos.

Uma marca cuja trajetória foi muito semelhante àquela do Ford Model T é a Royal Salute. Desde sua criação, em 1953, o único whisky em sua linha permanente foi o querido Royal Salute 21 anos, hoje conhecido como Signature Blend. Ainda que, neste caso, haja opções de cor – tres vezes mais do que do Model T.

Em 2019, porém, a marca finalmente decidiu diversificar seu portfólio perene, introduzindo dois novos whiskies. Um blended scotch whisky de vinte e um anos, defumado: o Royal Salute Lost Blend (já revisto por aqui) e o Royal Salute 21 Malts Blend – o primeiro blended malt da marca, que acaba de desembarcar no Brasil. As cores também foram revistas. O blend clássico vêm somente na cor azul. O turfado possui um decanter preto, enquanto o blended malt ficou com o verde.

Este é um movimento corajoso da Royal Salute. Criar um blended malt não é algo trivial. Blended whiskies recorrem bastante à porção de whisky de grão. Ela é a tela em branco, a tabula rasa, onde o quadro – o perfil sensorial – será pintado. A porção de grain whisky traz delicadeza e suavidade, e confere um pano de fundo para que os maltes brilhem.

No caso de um blended malt – que utiliza apenas single malts em sua mistura – a técnica de equilíbrio é semelhante. Mas o desafio é muito maior, porque não se pode recorrer ao grain whisky. A construção depende exclusivamente do equilíbrio entre os single malts – elementos que possuem personalidade bem mais forte. E, no caso do Royal Salute Malts Blend, há ainda mais um agravante: a idade mínima deve ser vinte e um anos.

De acordo com Sandy Hyslop, o criador do Royal Salute Malts Blend, em entrevista exclusiva para este Cão Engarrafado, “Ele usa mais carvalho americano. Tem Strathisla na mistura, também Longmorn. Alguns maltes verdadeiramente clássicos. Mas, obviamente, sendo um blended malt, foi para o lado frutado” e continua “Estamos usando mais de 21 single malts diferentes na mistura. É complexo. Cada barril é individualmente analisado, e no final você tem algo que é bastante frutado. É como pêssegos e xarope. É bem adocicado.

Sandy, durante evento em Seoul

Já Mathieu Deslandes, diretor de marketing da Royal Salute, ao ser indagado sobre a criação de um blended malt, em oposição a um blend com whisky de grão, disse “Nós, como marca, fomos criados como um blend, então permanecemos fiéis a isso. É verdade que o perfil do sabor do single malt é algo que vem se desenvolvendo muito. É algo que é mais forte em termos de personalidade, menos suave. Por isso, foi interessante entrar nesse campo como uma forma de diversificar nosso portfólio para o consumidor“.

Sensorialmente, o Royal Salute Malts Blend é um whisky adocicado, com frutas em calda, mel, caramelo e baunilha. Há um certo apimentado residual, bem discreto. O álcool é extremamente bem integrado. Não há qualquer sinal de turfa. Apesar de ser um blended malt, há um tema bem claro, reminiscente de um single malt. Um tema adocicado e frutado, muito bem elaborado.

Tanto para o apaixonado pela Royal Salute, quanto o entusiasta de whiskies, o Malts Blend é um lançamento entusiasmante. É a prova de que blended malts podem ser tão bons ou melhores que single malts, e um sinal de renovação de uma das mais cobiçadas marcas de blended scotch. Assim, se puder, prove o Royal Salute Malts Blend. Você, inclusive, pode escolher qualquer cor para o frasco. Desde que seja verde.

ROYAL SALUTE MALTS BLEND

Tipo: Blended Malt
Marca: Royal Salute
País/Região: Escócia – N/A
ABV: 40%
Idade: 21 anos

Notas de prova:

Aroma: Adocicado, com frutas em calda e creme brulee.
Sabor: adocicado, com compota de frutas, baunilha, bananas, creme brulee. Final longo e apimentado.