No dia do Whisky, quatro whiskies para diferentes gostos

Eu sou péssimo com datas comemorativas. No último dia das mães, por exemplo, só lembrei da efeméride na véspera. Minto. Fui alertado que o dia aconteceria com antecedência de três semanas – minha própria mãe me avisou, talvez na vã esperança de que eu programasse algo. Mas, como meu horizonte de planejamento não é nem de dez dias, deixei para depois. Aí fui surpreendido pela chegada do evento. A reação de minha progenitora, porém, foi ainda mais surpeendente. É, não esperava nada menos de você. O menos pegou. O que é menos do que nada? – pensei. Mães sabem cutucar.

Dia dos namorados é assim também. No ano passado, descobri que acordara no dia 12 de Junho lá pela hora do almoço, ao me deparar com o sistema de reservas do bar lotado. Sob o olhar reprovador da Cã, comprei guanciale, e preparei um carbonara em casa – que mesmo que fosse o melhor mundo, ainda teria sabor de derrota. Talvez uma sessão de terapia revelasse algo que não sei. Mas, numa perigosa autoanálise, acho que esse meu relaxo com efemérides tem a ver com um certo ódio por elas. Eu não preciso de uma data para demonstrar meu apreço por alguém. Aliás, eu sou péssimo nisso também.

O Dia Mundial do Whisky – ou World Whisky Day, no original – vem como um alento. O whisky, em si, provavelmente não me condenaria por esquecer dele. O whisky é compreensivo. Mas minha obrigação, porém, não é com a bebida, mas, com vocês, queridos leitores e entusiastas. Assim, decidi, pela quinta vez, fazer um post sobre a data. Que é hoje, e foi criada por Blair Bowman há mais de uma década, para reunir os apaixonados pela melhor bebida do mundo.

Hoje, escolhi quatro whiskies com perfis sensoriais bem distintos um do outro. Para mostrar que tem whisky para todos os gostos. Vamos a eles. Do mais delicado ao mais intenso.

Royal Salute 21 The Blended Grain

Este é para aqueles que gostam de whiskies delicados, adocicados, e perigosamente fáceis de beber. E também para todos que procuram uma embalagem primorosa e, ao mesmo tempo, inovadora. Luxo em sua forma mais pura.

O Royal Salute 21 The Blended Grain é um lançamento da marca no Brasil. Previamente exclusivo do mercado asiático, a ideia é que ele seja ainda mais delicado do que o Royal Salute 21 Signature – o tradicional, que conhecemos. Para tanto, ele utiliza exclusivamente whiskies de grão em sua mistura. Todos, maturados por no mínimo 21 anos, exclusivamente em barricas de carvalho americano. De fato, são apenas duas destilarias em sua composição: Dumbarton e Strathclyde. Pode ser comprado no LeCercle

Old Pulteney 12

Old Pulteney é um whisky frutado, com sabor de nozes e castanhas. Mas não quaisquer castanhas. Castanhas salgadas. Bem salgadas. Tipo aquelas que você come de tiragosto, enquanto toma whisky.

Existe uma discussão séria sobre a origem do sabor salgado do Old Pulteney. Muitos afirmam que advém de sua maturação. Ele seria o resultado de anos e anos de ondas quebrando no litoral rochoso, ao lado da destilaria, e do efeito da maresia nos barris. Entretanto, os mais céticos afirmam que, para que fosse possível efetivamente sentir sabor de sal, seria necessário adicionar litros e litros de água salgada diretamente dentro de cada barril. Para estes, o gosto salgado do Old Pulteney não é sal.

Tamnavulin Sherry Cask

Este é para aqueles que buscam um whisky intenso e vínico, com notas frutadas e de especiarias. Ou para quem quer um single malt “sherry” com preço e qualidade sensorial ótimos.

A Tamnavulin é uma espécie de herói anônimo na Escócia. Ela foi fundada em 1966 pelo grupo Invergordon, mais tarde, Whyte & Mackay. Seu objetivo era simplesmente suprir uma demanda crescente por blended whiskies. Porém, em 2016, a Whyte & Mackay resolveu trazer a Tamnavulin à luz, e lançou uma série de seus single malts. Dentre eles um Wine Cask – exclusivo de Duty Free – o Double Cask, já revisto por aqui, e o Sherry Cask, que desembarcou recentemente em nossas terras. O Sherry é o mais temático deles.

Laphroaig Quarter Cask

Este é para aqueles que gostam de sabores defumados, salinos e medicinais. O Laphroaig Quarter Cask é tipo fazer um churrasco num hospital, na frente do mar. Como você já deve ter presumido – ou não – o nome quarter cask vêm dos barris utilizados para maturar o destilado. Após algum tempo nos barris tradicionais de ex-bourbon, o whisky é transferido para o chamado quarter cask, que é uma barrica menor. Isso aumenta a área de contato entre a madeira e o líquido, acelerando o processo de maturação.

Royal Salute 21 The Blended Grain – Conceitos

Pense em uma viagem luxuosa. Não continue a ler, até efetivamente imaginá-la. Não vou me atrever a adivinhar – cada um de nós tem um conceito diferente da coisa. Para alguns, é uma semana em uma palafita, erigida sobre um recife de coral no mar cristalino. Para outros, é o ritmo frenético de alguma metrópole como Londres ou Paris, com restaurantes, bares, museus e compras. Ou uma road trip em algum carro de luxo pela Toscana ou Costa Amalfitana.

Aliás, permita-se o mesmo exercício com automóveis de luxo. Muitos devem ter imaginado um Porsche ou algum outro superesportivo, como uma Ferrari ou Lamborghini. Outros, porém, talvez tenham concebido, na televisão mental, um sedan enorme, cuja experiência ao volante é mais náutica do que automobilística. Uma limo cheia de amenidades – frigobar, televisão, massagem na batata da perna. Dependendo de seus gostos, seu conceito de viagem e carro de luxo são bem distintos.

Para nós, apaixonados por whisky, o conceito de luxo também é relativo. Alguns procuram intensidade. Whiskies de alta graduação alcoólica, ou extremamente turfados. Outros inovação. Maturações em barricas improváveis e inéditas. Outros, porém, querem suavidade, delicadeza, equilíbrio. E é aí que está o mercado dos blends de luxo. Mercado, este, que se desenvolveu muito na Ásia, nos últimos anos.

Não é conicidência que a Coréia foi escolhida em 2018 para ser o palco do lançamento das novas expressões perenes da Royal Salute – evento que este Cão teve o enorme prazer de participar. E não vem como surpresa, também, que a marca tenha escolhido Taiwan como o primeiro destino a receber o novo Royal Salute Blended Grain, que agora chega oficialmente ao Brasil.

Eu estava lá!

Antes, é preciso esclarecer um ponto básico. Há dois tipos originários de whisky na Escócia. Single Malts e Single Grains. A palavra “single” – que significa “único” – faz referência ao local de produção, que deve ser único. Ou seja, são whiskies produzidos inteiramente em uma única destilaria. Single malts, além disso, devem ser produzidos de cevada maltada, e destilados em alambiques. A categoria de single grains é feita por exclusão: se é produzido em uma única destilaria, mas não usa cem por cento de cevada maltada, ou se não é destilado em alambiques, vira single grain.

Single grains não possuem um único grão, como o nome poderia sugerir. Eles são, geralmente, a mistura de dois ou mais grãos. Na Escócia, a combinação mais comum é a de trigo, com um pouco de cevada maltada, para auxiliar na fermentação. Single grains tendem a ser destilados em coluna – ainda que existam exceções, como os Loch Lomond. A maturação geralmente acontece em carvalho americano. Por conta disso tudo, single grains normalmente são leves, florais e delicados.

As categorias de blend vêm pela combinação dos dois tipos originários. Combinando um ou mais single malts com um ou mais single grains, temos blended whiskies – que é a maior categoria na Escócia. Assim, seguindo a mesma lógica, se combinarmos single grains de diferentes destilarias, teremos um Blended Grain. que é onde está o Royal Salute 21 The Blended Grain.

O Royal Salute 21 The Blended Grain é o perfeito exemplar da categoria. Sua maturação ocorre exclusivamente em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey – a maioria delas, de segundo ou terceiro uso. A ideia é trazer delicadeza, sem que a influência da madeira eclipse o sabor delicado do destilado. O whisky mais jovem da mistura possui 21 anos, sem prejuízo de alguns whiskies de grão mais envelhecidos na composição – que é feita exclusivamente de Strathclyde, e da “lost distillery” Dumbarton.

Dumbarton

Essa não é a primeira vez que a Royal Salute lança um blended grain. Há alguns anos a marca sondou o mercado com o Royal Salute Snow Polo Edition – também um blended grain maturado em quercus alba – mas com uma graduação alcoolica um pouco mais elevada. Em comparação com o Snow Polo, o Royal Salute 21 The Blended Grain é mais delicado, menos apimentado, e mais adocicado.

Para aqueles que buscam um whisky de luxo delicado, equilibrado e perigosamente bebível, o Royal Salute 21 The Blended Grain é uma escolha perfeita. Recomenda-se apreciá-lo no banco de trás de algum enorme sedan de luxo, suavemente deslizando pelas estradas a caminho de algum resort sofisticado.

ROYAL SALUTE 21 THE BLENDED GRAIN

Tipo: Blended Grain

Marca: Royal Salute

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Floral e frutado, com frutas amarelas e coco.

Sabor: Adocicado, mel, caramelo, coco. Muito pouco apimentado. O final é leve, delicado e pouco picante.

Vinho Jerez – Um Romance Internacional

Simbioses são relações de longo prazo entre duas ou mais espécies diferentes. Há diferentes tipos. A mais conhecida é a parasitária, onde uma espécie se beneficia da relação, enquanto a outra é prejudicada. Um tipo menos conhecido é o comensalismo. Ele acontece quando uma espécie se beneficia, enquanto a outra não dá a mínima para o que está acontecendo.

É o caso da rêmora e do tubarão, por exemplo. A rêmora se alimenta dos restos das presas do tubarão. Para ele, não faz a menor diferença. Mas talvez em troca de companhia nadando, ou uma eventual chupada na barriga, o tubarão se abstém de abocanhar o alongado peixinho. Conheço algumas relações humanas que são assim, também.

chupão, tubarão?

Mas a forma mais extraordinária de simbiose é o mutualismo. As duas espécies se dão bem, sem esforço, apenas se tolerando mutuamente. É o caso por exemplo dos morcegos-lanudos e plantas carnívoras de Borneo. Essas plantas parecem vasos, e se alimentam de pequenos insetos e vertebrados que caem em seu interior. Os morcegos-lanudos, porém, são grandes demais para serem digeridos por ela. Por isso, usam as plantas de saco-de-dormir. Pode parecer abuso não consensual de vegetais. Mas isso beneficia as plantas: elas se alimentam do cocô do morcego, por mais nojento que possa parecer.

Se pudéssemos transportar o conceito para o universo etílico, encontraríamos também, diversas simbioses. Uma das mais complexas, a do vinho jerez e whisky. As bebidas sempre se relacionaram, ainda que, ao longo dos anos, esta relação tenha mudado bastante. Vamos, antes, a uma pequena introdução ilustrada.

DO JEREZ

Observe a foto acima. Este não é um depósito de barricas na Escócia, mas sim, uma solera de vinho jerez. Ocorre que jerez é um vinho fortificado, que matura em barricas de carvalho. Mas não como whisky – em que o barril seria esvaziado e depois usado mais um par de vezes, até ser descartado. Na indústria do jerez, a maioria da maturação ocorre pelo sistema solera.

O funcionamento é relativamente simples. Imagine uma pequena montanha de barris, todos cheios de jerez. Os barris da parte superior contém jerez mais jovem, e foram preenchidos mais recentemente. Os próximos ao solo são mais maturados. Ao engarrafar o vinho, a bodega, ou vinícola, esvazia 1/3 dos barris de baixo, e preenche com o líquido do andar imediatamente superior, e assim sequencialmente. A ideia é manter o padrão.

Os barris jamais são esvaziados. Algumas bodegas de jerez possuem barricas que têm sido usadas por mais de duzentos anos. A ideia aqui é que as barricas funcionem como um recipiente neutro para o vinho. Elas não transmitem mais qualquer sabor à bebida. O tempo de maturação funciona apenas para que o vinho mature, seja biologicamente ou oxidativamente. Mas vamos deixar esse papo para outro momento.

A maioria dos apaixonados por whisky pensa que os cobiçados barris de jerez são aqueles que maturaram os vinhos. Pela lógica, depois de maturados, estes barris seriam esvaziados e enviados para Escócia, para serem preenchidos pelo líquido divino que mais tarde se tornará whisky. Mas isso não é verdade. Por conta do sistema solera, as bodegas de jerez praticamente nunca descartam seus barris.

E AFINAL, O QUE SÃO?

De uma forma bem direta, atualmente, a grande parte das barricas de jerez utilizadas pela indústria são reproduções do que eram as barricas de transporte até 1986. Como tudo na vida, a frase faz pouco sentido, se não houver contexto. Então, vamos a ele.

Desde o final do século dezenove até mais ou menos 1980, as bodegas de jerez importavam seu vinho para o Reino Unido em barricas de transporte. Não eram as mesmas barricas da solera. As barricas das soleras geralmente eram – e são – feitas de carvalho americano. Já aquelas, tinham carvalho europeu, quercus robur, como matéria prima. Na época, era mais barato.

Barris sendo exportados no El Puerto de Santa María

Ao chegarem ao Reino Unido, estes barris eram esvaziados, e o jerez engarrafado. Não fazia sentido economicamente, porém, enviar os barris vazios de volta pra Espanha. Então, eles eram vendidos para as destilarias de whisky. Um barril destes, recém-esvaziado mas ainda encharcado, continha em torno de doze litros de puro jerez. Você, que já bebeu um “sherry cask whisky”, deve imaginar para onde ia todo esse vinho.

Mas nem tudo são flores na relação entre jerez e whisky (viu o que eu fiz aqui?). Em 1986, o Conselho Regulador de Jerez – um órgão que dita as regras para preservar o bom nome do tal vinho espanhol – proibiu que qualquer jerez fosse engarrafado fora da Espanha. O impedimento trouxe um problema para as destilarias de whisky. Não haveria mais barricas de transporte disponíveis no Reino Unido, uma vez que o vinho já chegaria engarrafado aos portos.

E AGORA?

A indústria do scotch whisky já estava preparada para a mudança. A solução preguiçosa, a princípio, foi usar paxarette. Uma espécie de mistura entre vinho jerez PX e xarope feito do mosto das uvas. O resultado era tão doce, mas tão doce, que chegava a grudar nas mãos. Este líquido pegajoso então era adicionado ao barril, que ficava sob pressão por algum tempo, forçando a gosma a preencher os poros da madeira. A técnica, entretanto, foi abandonada na década de oitenta, por ser terrível em diversos níveis, sejam eles produtivos, sensoriais ou glicêmicos.

A alternativa vencedora foi a de reproduzir o perfil sensorial dos barris de transporte. Atualmente, a vasta maioria dos barris de jerez que entram no mercado de scotch whisky são fruto dessa técnica. Note, no entanto, que isso não ocorre com os demias barris, como vinho do porto, bourbon, tequila, rum, etc. E que mesmo dentro da indústria do jerez, há exceções (Tobermory, Dalmore, Arran e Bruichladdich são algumas destilarias que já utilizaram, em algum release, whisky maturado em barricas de solera).

Barris de jerez na The Macallan

Atualmente, há um acordo comercial entre as destilarias e as tonelerías – as tanoarias, responsáveis por produzir os barris. As marcas de scotch podem fazer especificações finas sobre os barris, como o tipo de madeira e nível de tosta. Estes barris são então enviados a uma bodega, que os preencherá com um vinho jerez feito sob medida. Aqui, mais uma vez, a destilaria pode escolher exatamente o perfil de vinho que deseja. Depois de preenchidos, os barris descansam por um a dois anos. Depois, são esvaziados, e enviados para a Escócia para serem preenchidos com new-make. O vinho jerez utilizado para preencher tais barris não é consumido. Quer dizer, ao menos não como vinho jerez. Ele é transformado em vinagre de jerez, ou então destilado, para se tornar brandy.

Quanto aos whiskies que maturam efetivamente em barricas que previamente faziam parte de soleras, há uma diferença. Como estes barris normalmente são exauridos, a madeira faz pouca diferença na maturação. Entretanto, a oxidação ainda tem papel importante, assim como o tipo de jerez que maturou naquele barril. É dele que vem a maior influência, neste caso.

E o que eu faço com isso?

Nada muda, exceto pelo fato de que, agora, você ficou um pouco mais sábio. Você pode utilizar essa sabedoria ao ler, com cuidado, o rótulo de algum whisky. Não porque ele dirá expressamente se o barril foi proveniente de uma solera ou não. Mas a cor, aliada ao tempo de maturação, e o sabor, trarão uma ideia mais precisa de sua história. Uma simbiose de (literalmente) dar gosto.

Elk’s Own – Genialidade

Há alguns anos, András István Arató, um engenheiro de meia idade da cidade de Koszeg, na Hungria, recebeu a ligação de um fotógrafo desconhecido. O homem havia encontrado as fotos do Sr. Arató no Instagram, e lhe convidou a fazer um ensaio fotográfico – e não do tipo que você está pensando. András, que provavelmente vivia bem entedidado numa cidade provinciana no meio de um país sem muita coisa para fazer, aceitou.

O fotógrafo fez imagens de Arató desempenhando diferentes profissões. Médico, pintor, professor e até mesmo engenheiro – algo bem autêntico para o Sr. András. Satisfeito, o fotógrafo agradeceu, pagou o cachê e foi embora. Meses depois, András se deparou com uma imagem e ficou chocado. Era ele, segurando uma caneca, com uma expressão que – apesar do sorriso – parecia reservar uma dor excruciante. Aliás, seu rosto estava por todo canto na internet. E seu nome havia mudado, também. Agora era Harold. Hide Your Pain Harold. Esse mesmo, do meme.

Bela matéria, Cão

No começo, Harold, quer dizer, Arató, ficou aborrecido. Afinal, ninguém quer virar meme na internet. Mas, depois de algum tempo, percebeu que aquela era uma oportunidade perfeita. Ele passou a aceitar – e buscar – oportunidades comerciais. Fez propaganda para a Coca-Cola, TEDx e LadBible, apenas para citar alguns. Em todas, sorrindo efusivamente. Ao menos, com a boca. Do nada, apenas por sua expressão facial marcante, András se tornou uma celebridade.

Uma história parecida aconteceu no mundod a coquetelaria, lá por mil e oitocentos. Havia um coquetel chamado Chicago Fizz. Levava rum, vinho do port tawny, suco de limão siciliano, açúcar e club soda, ou água com gás. Aqui há um paralelo engraçado. Quem conhece a história do New York Sour, sabe que ele não foi criado na conhecida Big Apple. Bom, o Chicago Fizz nasceu em Chicago, mas ficou popular em Nova Iorque. O que comprova, mais uma vez, que os americanos não têm a menor noção sociogeográfica ao batizar coquetéis.

Mas enfim, havia lá o Chicago Fizz. Um grande gênio, revolucionário da coquetelaria, chamado Peter Sindar, teve a impressionante ideia de substituir o rum por rye e renomear o coquetel “Elk’s Fizz“. E é isso. Só isso. Por conta desta revolução na coquetelaria, senão talvez na indústra da hospitalidade inteira, Sindair recebeu uma medalha. A “Bartender’s Medal of the National Police Gazette“. Algo porcamente traduzido como “Medalha de Bartender da Gazeta Policial Nacional“. O que torna o feito ainda mais assombroso. Afinal, qual o sentido de um jornal de polícia ter uma medalha de bartenders?

Finalmente, em 1927, no Barflies and Cocktails de Harry McElhone, surge o Elk’s Own. Uma versão do Elk’s Fizz, mas sem a soda. Uma mudança que transformou o antigo fizz em um sour. Este Cão, entretanto, só foi tomar conhecimento do drink em 2023, num papo com o bartender e embaixador da Bacardi, Romário Barbosa. “Esse eu sempre tenho na manga, pra quem já bebeu tudo“.

Dizer que há uma história de genialidade e criatividade na invenção do Elk’s Own, é, certamente, hiperbólico. Mas não só pela singeleza da troca de ingredientes. Havia, na época, um certo zeitgeist em coquetéis pesados. Alguns anos mais tarde, o Old Waldorf-Astoria Bar Book – que, diga-se de passagem, popularizou o Chicago Fizz – publicou uma receita próxima, mas, sem limão. O delicioso Suburban – que ja teve matéria nestas páginas caninas. Vamos à receita.

ELK’S OWN

INGREDIENTES

  • 60ml rye whiskey
  • 22,5ml Porto Tawny
  • 22,5ml limão siciliano
  • 15ml xarope de açúcar
  • 22,5ml de clara de ovo ou aquafaba (explicarei isso em breve)

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em um mixing glass sem gelo. Bata vigorosamente. Isso é um “dry shake” e garantirá mais espuma na parte superior do seu drink.
  2. Adicione gelo e bata novamente
  3. Desça o conteúdo, filtrando o gelo, em uma taça coupe previamente resfriada

Sobre a aquafaba: aquafaba é, originalmente, a água proveniente do cozimento de algum grão. Na coquetelaria, geralmente, é grão de bico. Há um vídeo do bartender Rafael Mariachi explicando o preparo. Você pode também utilizar o soro do grão de bico em conserva, enlatado.

Cinco Destilarias (quase) Novas para prestar atenção em 2024

Um paralelepípedo de polaca do alasca empanado, um queijinho safado e molho tártaro, que nem é tão tártaro assim. Tudo isso, emoldurado por duas metades de um brioche fofinho. Não parece grande coisa, mas causou um enorme rebuliço. É o McFish, lanche que saiu do cardápio do McDonald’s em 2019 – justamente porque vendia pouco. Em 2024 a rede anunciou sua volta, por tempo limitadíssimo. Anúncio recebido com gritos de glória pelos fãs da (discutivel) refeição. Eu incluso.

Entendo, perfeitamente, o alvoroço. É que o McFish realmente não é nada demais. Exceto pelo que representa. Ele é visto como o útlimo bastião de algo gastronomicamente aceitável para os foodies, na rede de lanchonetes. Quando saiu, ninguém ligou. Mas depois de um tempo, bateu saudades. E e o que quase não vendia, passou até a ter campanha pra sua volta. Que, aliás, durou pouquíssimo.

O mundo do whisky já passou por umas dessa, também. Exemplo é a Port Ellen. A destilaria foi fechada em 1985, numa época que o mercado de whisky passava por maus bocados. A Diageo possuía três destilarias em Islay – Lagavulin, Caol Ila e Port Ellen – e buscava reduzir custos. A escolha foi justamente fechar aquela que fosse menor e menos conhecida. O que eles não imaginavam é que, em quarenta anos, uma garrafa que custava pouco menos de cinquenta libras, passaria a ser vendida por quatro mil. Tudo por conta do fechamento e escassez dos estoques.

O frenesi foi tamanho que a Diageo anunciou, décadas mais tarde, planos para reabrir a Port Ellen. E não apenas ela. Brora também, irmã da Clynelish, fechada pelo mesmo motivo, pouco tempo depois. Os anúncios, entretanto, são tempestivos. Atualmente a indústria do whisky vive uma época maravilhosa, especialmente para single malts. Há um interesse crescente por produtos exclusivos, e o acesso à informação aumentou muito a curiosidade do consumidor sobre a categoria. Assim, separei aqui cinco destilarias para ficar de olho em 2024. De clássicas rejuvenescidas até bebês etílicos.

PORT ELLEN

Como narrado acima, a Port Ellen foi fechada em 1983 pela DLC – mais tarde, Diageo – por repercussões do whisky loch. Na época, era um malte pouco conhecido, e de produção bem limitada. A maioria de seus whiskies era destinada a produção de blends. Porém, por conta de seu perfil sensorial, ela podia ser facilmente substituída por Caol Ila ou Lagavulin no caso da DLC.

A Port Ellen somente não foi completamente demolida porque as demais destilarias de Islay entraram em uma espécie de acordo informal, pela qual se comprometiam a comprar cevada maltada lá produzida. A destilaria funcionou por mais de trinta e cinco anos, então, como um “malting floor” – uma espécie de fábrica de cevada maltada. Em 2017, percebendo o crescente interesse do mercado por “ghost distilleries“, a Diageo anunciou que a reabriria – projeto que foi concluído em 2024.

ROSEISLE

A Roseisle nasceu da Diageo em meados de 2010, como uma super-destilaria projetada para produzir maltes para blends. Assim como numa destilaria japonesa, a palavra de ordem é variedade. Assim, doze de seus quatorze alambiques podem ter o material de seus condensadores “shell and tube” trocados – entre cobre e inox. A troca permite produzir whiskies mais sulfúricos e pesados, ou adocicados. O tempo de fermentação também pode ser ajustado, para obter um malte mais ou menos herbal.

Ainda que tenha sido projetada para fornecer maltes para blends, e que não tenha exatamente uma identidade como single malt, a Roseisle lançou, em 2023, seu primeiro single malt. Parte dos Special Releases da Diageo, era um whisky de corpo médio, herbal e adocicado.

DALMUNACH

A Dalmunach foi construída em 2014 pela Pernod-Ricard, onde antes ficava a finada Imperial – demolida um ano antes. Projetada como uma das mais modernas e tecnológicas destilarias de toda Escócia, a Dalmunach, ainda assim, preservou algumas características arquitetonicas de sua predecessora.

Assim como a Roseisle, a Dalmunach é capaz de produzir maltes com diferentes perfis sensoriais, e seu principal objetivo é abastecer o mercado de blends da Pernod-Ricard. Especialmente Chivas e Ballantine’s. Há, entretanto, alguns engarrafamentos oficiais de Dalmunach, que podem ser comprados ao visitar as destilarias do grupo Pernod-Ricard.

HOLYROOD

2023 teve uma boa quota de novos whiskies. Em setembro, a Holyrood Distillery, localizada no coração de Edimburgo, anunciou também seu primeiro whisky. Inaugurada em 2019, a fábrica produzia especialmente gim – aguardando pacientemente os três anos necessários para que seu new-make envelhecido pudesse ser considerado whisky aos olhos da SWA.

Foram produzidas 8.188 garrafas, que acabaram em poucos dias pela The Whisky Shop. De acordo com a Holyrood, os próximos lançamentos terão foco em diferentes leveduras – algumas, pouco utilizadas na produção de whisky.

RAASAY

Ela é a primeira destilaria legalizada da ilha de Raasay. Foi aberta em 2017 pela R&B Distillers. Dedicada a produzir single casks, a destilaria lançou em 2021 seu primeiro malte de linha. Era composto de whiskies turfados e tradicionais, maturados em barris de ex-rye, carvalho virgem e carvalhou europeu de ex-vinho tinto da região de Bordeaux.

Sobre o Inovador e o Trivial

Fiquei curioso ao saber da novidade, mas imaginei que levaria mais tempo para vê-la ao vivo. Essas coisas são assim. Você ouve a notícia, mas acha que elas jamais chegarão a você. Tanto é que, quando vi, demorei alguns segundos para registrar. Era sábado, no meio do shopping. Um cara magrinho, com uma máscara que lhe dava ares de cosplay do frango da Sadia. Braços na altura do peito, como se regesse uma orquestra. Era o Apple Vision Pro.

Mais surpreendente do que o rapaz, porém, era seu entorno. Algumas pessoas paravam e ficavam olhando, como se estivessem testemunhando uma manifestação do capiroto. Outras, andavam apressadas, olhando pro lado. Provavelmente também imaginando que aquilo fosse uma encarnação do tinhoso. O ser humano mais indiferente, em toda situação, era o próprio usuário. Que agora parecia tocar air guitar.

Maurício de Sousa – VISIONário

Fiquei pensando se essa não teria sido a reação das pessoas ao ver um carro pela primeira vez – lá, em mil, oitocentos e muitos. Ou uma tela de projeção de cinema. Há um mito, inclusive, que durante uma das primeiras exibições de L’arrivée d’un train en gare de La Ciotat, dos Lumiére, a audiência se abaixou, imaginando que o trem projetado fosse atingí-la. Seja como for, inovações quase sempre trazem sentimentos mistos.

O mundo dos whiskies é um micro-universo disso. Entusiastas, como nós, buscam experimentar sabores novos. É a curiosidade que nos move. Não fosse assim, permaneceríamos em nossa zona de conforto bebendo sempre aquele mesmo whisky que primeiro arrebatou nosso coração etílico. O conceito macroeconômico da escassez define bem este ímpeto: os recursos são limitados, enquanto o desejo, ilimitado. Não é possível – nem financeiramente, nem hepaticamente, experimentar tudo.

E como o que nos move é a curiosidade, naturalmente, a menção de alguma inovação é sedutora. Um Glenfiddich finalizado em barris de sidra de Sommerset. Ou talvez um Lagavulin que passa por barricas de tequila. Um Dewar’s finalizado em barricas de mezcal, também. Nossa mente já começa a divagar sobre a união daqueles sabores.

E, obviamente, a industria sabe disso. Divulgar algo que soa inédito traz muito mais retorno – midiático e financeiro – do que focar sempre no mesmo produto. O exemplo mais claro, ainda que pouco conhecido no Brasil, são os Diageo Special Releases. São edições anuais limitadas dos mais famosos single malts da Diageo. A cada ano, a linha muda. E, muitas vezes, trazem inovações – uma forma inteligente, inclusive, de medir a receptividade de algo no mercado sem se comprometer com um produto perene. Há whiskies espetaculares lá no meio. E outros, nem tanto.

Pokemon Go versão whisky geek

Mas o sabor da bebida, neste caso, é menos importante. Porque ele já terá sido comprado antes de ter seu lacre cuidadosamente removido, ou violentamente arrancado, a depender do ímpeto do bebedor. É, mais ou menos, como o ingresso para um filme. Depois da bilheteria, tudo é por conta e risco do cinéfilo. O que vende é o trailer – ou melhor, o rótulo – não o filme.

Certa vez, há muito tempo, o embaixador de uma marca me confidenciou que um whiskey finalizado em IPA foi escolhido em detrimento de outro, em Stout, porque todo mundo bebe IPA. Ainda que a maioria das IPAs do mundo passe longe de barris. E que ele não concordava, porque o último era bem melhor que o primeiro. Mas que o apelo do marketing foi mais alto. Relembrar essa história, inclusive, torna inevitável fazer o paralelo com a própria indústria cervejeira – onde quase tudo hoje é Hazy, NEIPA ou Pastry, com textura pastosa e ABV capaz de embebedar um pequeno rinoceronte. Não é culpa das cervejarias – é o que o mercado consome.

A estratégia é inteligente, mas esbarra no conceito macroeconômico de alguns parágrafos acima. Os recursos são limitados, o desejo, não. Assim, em alguns casos, produz-se whiskies medíocres ou, no máximo, curiosos, em detrimento daqueles que realmente seriam de beber de joelhos. Mas, infelizmente, menos inovadores e sedutores. É mais fácil ficar curioso sobre o sabor de um Mortlach maturado em porto do que o ducentésimo segundo Glenfarclas maturado em jerez. Por falta de uma palavra melhor e menos chocante, há uma vulgarização do que é produzido, em prol da decisão imediatista do consumidor.

Tentação

Em uma outra oportunidade, um brand manager de uma grande importadora me disse uma frase que me impactou. “Mau, se não dá pra explicar em duas frases, não vai vender“. Fiquei intrigado, mas concordei, e comecei a traçar paralelos. Se um reels no Instagram não te impacta de cara, a tela é rolada pra baixo. Se os quatro primeiros compassos de uma música do Spotify não agradam, a próxima está a um clique. A abundância de oferta traz essa urgência. Não faria nem sentido ser diferente no mundo do whisky.

E é uma pena, mas, é também bacana. Não há nada de errado em ter abundância de oferta. O problema é que esta abundância leva a um comportamento superficial. A decisão de comprar uma garrafa é tomada nas primeiras frases. “Aged in Apple Cider Brandy Casks” é o suficiente para trazer curiosidade ao consumidor a ponto de adquirir a bebida.

Devo, aqui, porém, deixar claro que não sou, de forma alguma, contrário a inovação. É a inovação que mantém a indústria viva. É por meio dela que novos consumidores são recrutados. Divulgar a inovação é a espinha dorsal de meu trabalho, inclusive – o Cão não existira, não fosse ela. E com ela, coisas maravilhosas surgem, também. Como um certo Port Charlotte MRC:01, um Chivas 18 Mizunara ou um Lagavulin finalizado em mezcal.

É importante, portanto, encontrar um equilíbrio entre a busca por inovação e a valorização da tradição. Devemos celebrar a criatividade e as novas experiências, mas não podemos esquecer que o mais importante em um bom whisky é que ele seja bom. Sensorialmente bom. No nariz e na língua. Não no plano das ideias.

Assim como as primeiras pessoas que presenciaram o cinema ou o automóvel, a indústria do whisky está em constante evolução, e cabe a nós, consumidores conscientes, navegar por esse universo com discernimento, apreciando as inovações genuínas e reconhecendo o valor daquilo que já é consagrado. No final, o que importa é a experiência individual de cada um com a bebida. Que cada um explore, experimente e encontre os whiskies que lhe tragam mais prazer, sejam eles inovadores ou clássicos, raros ou acessíveis.

Lone Oak – St Patrick’s Special

Ontem eu tomei três banhos. Foi o mínimo necessário, considerando o calor de trinta e sete graus, com sensação térmica de trezentos e setenta. Ar condicionado se tornou a prioridade número um para todos os lugares que frequento. Convidem-me para sair somente para lugares confinados com Elgin, Daikin, LG ou Fujitsu com mais de dezoito mil BTUs. Se sofrer um acidente em casa, cair da escada, bater a cabeça, deixe-me morrer lentamente, mas no fresco. Morrer no frio tem muito mais dignidade.

Em vista das temperaturas absurdas, dizer que hoje é St Patrick’s Day soa até irônico. Lá em Dublin está nublado. Máxima de quatorze graus, mínima de confortáveis sete. Por lá, um whisky puro seguido de uma Guinness à temperatura ambiente parece um excelente programa. Aqui, entretanto, provavelmente a única forma de consumir whisky é em um coquetel. Um coquetel refrescante.

E é aí que entra o Lone Oak. Ele foi criado por Jillian Vose do famoso Dead Rabbit, de Nova Iorque. O bar – ou melhor, Irish Pub – que pegou fogo, e voltou. Os ingredientes são todos verdinhos, também. Então, não há necessidade de usar aquele corante alimentício que parece plutônio. Nele vai irish whiskey, chartreuse verde, limão, bitters e um interessante xarope de pistache. Já que pistache está na moda. É sobre ela que falaremos a seguir.

Oscar Wilde, famoso escritor irlandês, uma vez disse que a simplicidade é a máxima sofisticação. Para obter o xarope de pistache, então, você tem duas opções. A primeira é adicionar 255 gramas de pistaches crus, sem cascas, em um tupperware. Encher de água, até cobrir, e deixar descansar por 30 minutos. Coar, e depois bater os pistaches em um liquificador com 590ml de água quente, no pulse. Despejar a mistura em um outro tupperware, deixar descansar por duas horas e depois coar com um chinois, espremendo. Assim você obterá um leite de pistache.

parece difícil, e é.

Aí, você precisará cozinhar este leite de pistache numa panela, junto com 400g de açúcar demerara, para cada 355ml de leite de pistache. Tem que aquecer, mas não pode ferver. Se ferver, tem que voltar pro parágrafo do Oscar Wilde e fazer tudo de novo. Quando estiver frio, adicionar 7ml de água e 7ml de álcool neutro de cereais. Todo esse trabalho – que será muito maior a quarenta graus na sombra – dura duas semanas na geladeira.

A segunda opção é ir ao supermercado ou pedir um xarope de pistache no delivery – exceto se você tiver um bar inteiro de coquetelaria ao seu dispor. Há alguns bem decentes, como o da Monin e da Mathieu Teisseire. Para reduzir o dulçor excessívo destes xaropes prontos, basta diluir com água. A proporção vai do gosto do bebedor. Oscar Wilde, em toda sua sabedoria, certamente escolheria esta alternativa. Que, inclusive, é termicamente mais agradável.

Recomendo beber o Lone Oak de frente para o ar-condicionado, de cuecas, em casa. Se tiver algum adereço de St. Patricks, pode vestir. Um chapéu, talvez, seja o mais indicado. Nada que vá atrapalhar o aprazível conforto térmico conquistado.

LONE OAK

INGREDIENTES

  • 60 ml irish whiskey (a única opção no Brasil é Jameson, infelizmente. Se tiver algo diferente, use)
  • 7,5 ml de Chartreuse Green
  • 22,5 ml de suco de limão siciliano
  • 22,5 ml de xarope de pistache (já concordamos sobre isso!)
  • 2 dashes de Angostura bitters
  • quantidades copiosas de gelo (aproveite e passe uns na nuca, para refrescar)

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em uma coqueteleia (menos os gelos que você passou na nuca)
  2. Bata vigorosamente até ficar com calor – vai levar uns três segundos
  3. Desça em uma taça coupé previamente resfriada
  4. Aproveite!

Havana Club Unión Cohiba Atmosphere – Crocs de Frango

Comfort food e comfort fashion. Um mundo em que a alta gastronomia e a moda são conjuntamente estraçalhadas, como um comedor voraz faria com pequenos pedaços de frango frito em um balde. Extravagância, colesterol, design e desgosto. Tudo junto, materializado, nos pés dos consumidores. Este foi o resultado de uma das colaborações mais inusitadas do mundo: KFC e Crocs.

Sim, você leu certo. A marca de calçados conhecida por seus designs confortáveis e, digamos, peculiares, se uniu à gigante do fast food para criar uma coleção de tamanha ousadia que desafia a lógica e a sanidade. Isso em meados de 2020, quando o mudo já passava um dos maiores perrengues das últimas décadas. O resultado foram sandálias com estampas de frango frito, tamancos com aroma de batata frita e jibitz em forma de baldes de frango. Uma demonstração de que a mente criativa por trás dessa união profana não tinha limites.

Cara, tem um nugget no sapato!

A combinação, entretanto, até faz sentido – apesar da tenebrosa execução. São marcas enraizadas no conforto. Afinal, comer frango frito de crocs só poderia ser mais confortável se feito nu. Além disso, a colaboração transpira liberdade individual. Essa é, aliás, a grande ideia de collabs entre marcas. Trazer valores compartilhados, elevando o lifestyle do consumidor. Nem que este estilo de vida seja o de couch potato.

Uma colaboração bem distinta da anterior, que transpira luxo e exclusividade, é o rum Havana Club Unión Cohiba Atmosphere. Como seu instinto semântico já deve ter sugerido, ele nasceu da primeira colaboração entre duas das mais icônicas marcas cubanas – o rum Havana Club e os charutos Cohiba. Este é um ponto importante. O rum foi desenvolvido especialmente para ser harmonizado com os charutos da Cohiba. Mais especificamente, o incrível Siglo VI. Não é simplesmente uma harmonização cultural – mas, também, sensorial desde sua origem.

As mentes criativas por trás do Havana CLub Unión Cohiba Atmosphere foram o maestro roneiro Asbel Morales – o master blender do mundo dos runs – e o cigar sommelier Fernando Fernandez. De acordo com a Havana Club, Asbel se inspirou na forma com que as folhas de tabaco são matruradas e combinadas, na capa, capote e alma do charuto. Numa declaração quiçá um pouco lacônica da marca “o rum é uma mistura de pequenos lotes de nossos runs mais raros, maturados e combinados diversas vezes

Parte do estoque em maturação da Havana Club

No mundo do whisky “pequenos lotes” e “raros” são palavras usadas, normalmente, como um fator multiplicador mágico, capaz de mais do que quintuplicar o preço de determinada bebida. No universo do rum, a matemática parece ser semelhante. Uma garrafa do Havana Club Unión Cohiba Atmosphere é apenas sensivelmente mais barata que uma caixa de Cohiba Siglo VI. Seria injustificável, não fosse um único motivo. O Havana Club Unión Cohiba Atmosphere é absolutamente maravilhoso.

E a declaração acima não tem nada de hiperbólica. Comprei uma garrafa há mais ou menos um ano, para presentear a Cã em seu aniversário – que é uma apaixonada por runs. Gostamos tanto que fizemos um pacto: beber sempre juntos, em quantidades iguais. Um pacto que quebrei ao produzir esta matéria – e que culminou numa contenda conjugal e no sumiço da garrafa por conta de minha melhor metade.

Sensorialmente, o Havana Club Unión Cohiba Atmosphere traz notas de caramelo, coco, frutas secas e café. A evolução na boca é espetacular. Ele começa adocicado e encorpado, e vai progressivamente se tornando amargo e enfumaçado, até terminar em uma nota achocolatada bem evidente. É um rum que beberia no lugar de muito whisky – e não há nada de leviano na declaração.

Detalhe da luxuosa caixa do rum

A Havana Club foi fundada em 1878 por um senhor chamado José Arechabala, em Cuba. Os runs da marca são elaborados com ingredientes 100% cubanos. A cana de açúcar vem da ilha, e a levedura, usada na fermentação, foi desenvolvida pela própria Havana Club. A destilação acontece tanto em alambiques quanto em coluna. A maturação ocorre quase exclusivamente em barris de carvalho americano.

Para todos aqueles que são apaixonados por runs exclusivos, ou que procuram um parceiro líquido para os mais sofisticados charutos, o Havana Club Unión Cohiba Atmosphere é perfeito. É um rum que comprova a altíssima qualidade de Havana Club, e o esmero de Asbel e Fernando em sua criação. Pode até beber antes de comer frango frito. Calçando Crocs, claro.

HAVANA CLUB UNIÓN COHIBA ATMOSPHERE

Tipo: Rum

País: Cuba

Marca: Havana Club

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado e frutado, com coco, café e frutas secas

Sabor: Equilibrado e encorpado. Adocicado, com caramelo e baunilha no começo. O final é longo e intenso, com fumaça, chocolate e café

Left Hand Cocktail – Mashup

Perdoem-me pelo título impreciso. Mas o tema desta matéria não é coquetelaria. Mas Mashups. Se você nao conhece o jargão, mashup é um trabalho criativo – que pode ser uma música ou um filme – criado a partir da combinação de dois ou mais outras músicas ou filmes. O termo é também usado por webdevelopers para definir “uma aplicação que que usa conteúdo de mais de uma origem para criar um novo serviço disponibilizado em uma única interface gráfica“. Mas, para evitar sonolência, deixarei de discorrer sobre a derradeira definição.

Mashups podem ser feitos, virtualmente, de qualquer material audiovisual. A única regra é que combinem, de alguma forma. E, mesmo assim, às vezes, nem precisam. A grande sacada é que, no começo, o mashup traz a impressão de ser algo já conhecido. Mas, aos poucos, ao revelar sua natureza híbrida, distorce essa impressão. Caso não tenha entendido ainda, veja a música abaixo – um mashup de Soundgarden com Green Day. Recomendo fortemente que ouçam à medida que avançam neste texto.

De certa forma, mashups podem ser usados na culinária e na coquetelaria, também. Não quando alguém faz uma pizza de sushi, por exemplo. Ou um acarajéburguer, ainda que este último desperte minha curiosidade gastronômica. Mas quando dois pratos ou coquetéis se fundem para criar algo completamente novo, ainda que reminiscente de seus progenitores.

É esse o caso do Left Hand, coquetel criado por Sam Ross – o mesmo cara do Penicillin e Paper Plane – no Milk & Honey, na época que fazia parte do time de Sasha Petraske. O próprio Sam Ross define o coquetel como “o resultado de um caso de amor entre um Manhattan e um Negroni“. O Left Hand leva Bourbon, Campari, vermute doce e alguns dashes de bitters de chocolate. Além do último ingrediente, o que o separa de um boulevardier é a proporção.

Aliás, essa é uma lição preciosa. Assim como no mashup, coquetéis completamente distintos podem ser criados somente pela variação de suas medidas. Não é apenas a diferença entre um coquetel equilibrado e outro desequilibrado. Mas de dois drinks que funcionam, mas tem personalidades completamente diferentes, ainda que usem os mesmos componentes. É justamente este o caso do Left Hand – que na verdade está mais para um Valentino de bourbon do que para qualquer de seus pais ideológicos supramencionados.

De acordo com matéria do website liquor.com, o Left Hand não foi o único filho da combinação. “nós criamos uma série de drinks ‘Hand’. (…) O Right Hand era uma variação com rum maturado, Tres Hands usava mezcal e tequila, e o Smoking Hand whiskies de Islay e Highlands“. O que, mais do que uma declaração, parece um convite para testar o coquetel com outros ingredientes.

Então, queridos leitores destros e canhotos. Amantes de Negroni, Boulevardier, Manhattan, Valentino ou simplesmente desesperados para finalizar aquela garrafa de bourbon, não se desesperem. Aqui está o Left Hand, para dar aquela mãozinha.

LEFT HAND

INGREDIENTES

  • 50ml Bourbon Whiskey
  • 25ml Campari
  • 25ml Vermute Tinto (este cão usou Rosso Antico. A receita original usa Carpano Antica Formula)
  • 2 dashes de Bitters de chocolate (a receita pede Bittermen’s. Pode ir de Angostura Chocolate Bitters, estamos no Brasil)
  • Parafernália para misturar
  • Cereja maraschino (se for pra colocar a de chuchu, melhor ir sem)

PREPARO

  1. Misture todos os ingredientes (menos a cereja, gênio) em um mixing glass, com bastante gelo
  2. desça em uma taça coupé e coloque uma cereja maraschino como guarnição

Blue Label Elusive Umami – The Prestige

Você está procurando o segredo. Mas você não vai encontrar porque, é claro, você não está realmente procurando. Você realmente não quer resolver isso” . Essas são as derradeiras linhas de “The Prestige” – e também, uma valiosa lição de marketing. Aliás, as duas coisas – marketing e mágica – tem muita coisa em comum.

Mágicos utilizam diferentes técnicas para distrair sua platéia. Eles empregam prestidigitação, distração, ilusões ópticas e auditivas, adereços especialmente construídos, bem como técnicas psicológicas verbais e não verbais, como sugestão, hipnose e preparação. É uma dança elaborada entre o que é mostrado e o que é escondido, entre o que parece ser e o que realmente é. É parecido, de certa forma, com o marketing. Um bom storytelling pode nos induzir a sentir algo, ainda que aquilo não seja a realidade.

De certa forma, é isso que ocorre com o Johnnie Walker Blue Label Elusive Umami, blended whisky de luxo que acaba de desembarcar no Brasil por, aproximadamente, 2,5 mil reais. O Johnnie Walker Blue Label Elusive Umami, é uma criação do chef Kobayashi, do restaurante Kei, de tripla estrela Michelin, em Paris, e da master blender Emma Walker. Que curiosamente não é da mesma família de John Walker, mas que parecia predestinada a trabalhar para a marca. Aliás, se me permitem uma digressão, a Johnnie Walker deve contratar seus master blenders pelo sobrenome, porque é muita coincidência um Beveridge logo antes de uma Walker.

A walker beverage with Walker and Beveridge

Enfim, de acordo com a marca, Walker e Kobayashi criaram “um blended whisky equilibrado, unindo sabores salgados e adocicados, com notas de laranja sanguínea, frutas vermelhas, especiarias doces de madeira (?), carne defumada, sal e pimenta, culminando em um final doce de frutas.” Kobayashi, inclusive, humildemente recomenda que se consuma o Johnnie Walker Elusive Umami puro, acompanhado de caviar – justamente para intensificar o sabor umami. Sorte minha que dá pra comprar esturjão oscietra grávido na feira.

Aliás, vamos falar dessa palavra misteriosa. O Umami. Ele foi identificado pelo químico japonês Kikunae Ikeda em 1909. Ikeda, ao comer uma tigela de dashi, notou que estava sentindo algo delicioso que não poderia ser descrito por um dos quatro sabores básicos. Com tempo e conhecimento de sobra, ele foi ao laboratório até descobrir exatamente o que sentira. Como um mágico desvendando o truque do rival.

E ele conseguiu. Tecnicamente, umami se refere a glutamato – um tipo de aminoácido, que ocorre naturalmente em muitos alimentos, como carne, peixe, vegetais e vários produtos lácteos. Quando o glutamato se decompõe – o que acontece ao cozinhar um pedaço de carne, ou maturar um queijo, por exemplo – ele se transforma em L-glutamato. E é aí que as coisas ficam gostosas. Umami. Yummi. Compreendem?

E talvez o leitor sagaz já tenha entendido para onde vou enredando. É que o whisky não se chama Blue Label Umami, mas, sim, Blue Label Elusive Umami. E o sobrenome do meio traz uma pista preciosa. Elusive é, em inglês, “indescritível”. O Umami Indescritível. Mas é também “esquivo”, “ardiloso”, “ilusório”. Essa abrangência semântica revela o que realmente é o whisky. Ele não é umami, e a Johnnie Walker obviamente sabe disso. Não mais que qualquer whisky com notas costeiras, como Old Pulteney, Talisker ou Clynelish – que, aliás, é provavelmente sua base.

A bela Clynelish, que produz whiskies sulfúricos e com perfil costeiro

Das três vezes que provei, tive a mesma impressão. Ele tem um equilíbrio incrível sweet-salty, que nos induz a pensar no umami. Em boa parte, por causa da palavra estampada no rótulo. E isso, por um lado, é bem interessante. Porque ele é um blended whisky delicioso, com notas frutadas, adocicadas e salgadas. Que mostra, aliás, a razão pela qual blended whiskies existem. Justamente para unir whiskies de perfis completamente distintos, e construir algo muito mais complexo, mas ainda delicado e agradável. Mas, por outro lado, tira um pouco da singularidade do lançamento.

E eu sei que você chegou até este inconclusivo desfecho, apenas para saber se deve ou não comprar o Johnnie Walker Blue Label Elusive Umami. E a resposta é depende. Se você procura um blended whisky de luxo, extremamente elegante, com perfil marítimo e frutado, o Johnnie Walker Blue Label Elusive Umami é perfeito. E deve ser ainda mais perfeito com caviar. Entretanto, se sua curiosidade foi aguçada pela misteriosa palavra que sugere o quinto sabor, talvez este seja um para pular. A ilusão não está, enfim, na mão do mágico. Mas sim, nos olhos do espectador.

JOHNNIE WALKER BLUE LABEL ELUSIVE UMAMI

Tipo: Blended Whisky

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutas vermelhas, amendoas, levemente sulfúrico

Sabor: frutado e vínico. Final progressivamente enfumaçado e iodado. Alcool muito bem integrado, com especiarias, cravo, canela. Levemente sulfúrico