Uso de whisky na coquetelaria – Transgressão

Hoje irei direto ao ponto. Sem longas introduções ou comparações, mesmo porque haverá oportunidade para isto no meio deste texto.

Há alguns dias lancei um post sobre um coquetel que sou apaixonado. O Rusty Compass. Ele é resultado do cruzamento entre um Blood and Sand e um Rusty Nail, e leva whisky turfado. Uma bela proporção de whisky insanamente turfado, capaz de superar o dulçor trazido pelo Drambuie. Depois de testar quase à exaustão e embriaguez, joguei a metafórica toalha e admiti – o melhor resultado levava Ardbeg. Um single malt de mais de trezentos reais. Era um drink tão delicioso quanto desesperadoramente caro.

Resolvi lançá-lo no Cão com essa ressalva. Relativizei um pouco a história, e até mesmo recomendei misturar outro whisky, e reduzir o Drambuie. Já esperava receber alguma repreensão de algum leitor, mas uma delas me pegou desguarnecido. É um pecado misturar whisky, whisky é pra tomar puro, já é cheio de sabor, ainda mais single malt. Me surpreendi. Eu não posso preparar coquetéis com whisky?

Meu futuro, depois de ter feito um Rusty Compass.

Deixe-me mudar o objeto para outro destilado. A vodka. Dave Wondrich uma vez disse que a ”A vodka é o peito de frango desossado e sem pele da coquetelaria – tudo tem a ver com o tempero“. Isso porque a vodka é um destilado cujo objetivo é ter o sabor mais neutro possível. Aliás, ela diverge da maioria dos destilados justamente por conta dessa característica. Enquanto buscamos complexidade sensorial em destilados sofisticados, como whiskies e conhaques caros, procuramos o contrário na vodka. Quanto mais pura e neutra – ou seja, quanto menos sabor – mais sofisticada ela será.

Em relação à vodka, não há qualquer polêmica. Tanto entusiastas da vodka – devo confessar que conheço poucos – quanto produtores não veem qualquer problema em utilizar o destilado em coquetéis. Aliás, o mercado da vodka sempre foi essencialmente baseado na coquetelaria. Quando o consumo de gim aumentou, graças à preparação de coquetéis com o destilado, há alguns anos, o de vodka encontrou seu declínio.

Talvez isso tenha a ver com o fato da vodka ser, justamente, um destilado neutro. O que lhe dá sabor é a mistura. O whisky, porém, é uma bebida carregada de sabor. Seja por conta de seu new-make spirit defumado, no caso de certos maltes e blends, seja por conta de sua maturação em diferentes tipos de barricas, o whisky, sozinho, já possui imensa complexidade sensorial. Assim, alegadamente, utilizá-lo em um coquetel seria uma frivolidade.

Isso, no entanto, é uma tremenda simplificação. Talvez por preguiça, ou talvez pela enorme oferta de informações, em contraste com a escassez de tempo, somos induzidos a pensar – e escolher – entre pólos de dicotomias. Não há exceção ou ponderação, apenas absolutos. A é oposto a B, e só há A e B. Não há tons de cinza, exceto na subliteratura. E isso não apenas empobrece o discurso, como cria falácias. Mas já que você, querido leitor, chegou até este ponto do texto, vejo que esta é uma boa oportunidade para conduzir uma saudável – e cada vez mais rara – reflexão.

QUALQUER WHISK(E)Y.

Vou começar por uma observação simples. A Scotch Whisky Association (SWA) – a entidade de autorregulação escocesa responsável por produzir as mais importantes regras sobre Scotch Whisky – em seu website oficial, menciona a utilização de whisky em coquetéis. Segundo ela “não há regras para que tipo de scotch whisky deve ser usado em um coquetel, ainda que você vá descobrir que os blended scotch whiskies funcionam bem e são os mais comummente utilizados“.  A associação, inclusive, enumera e ensina a preparar algumas receitas. Então, bem, se a associação oficial escocesa responsável pela produção de whisky disse que pode, então, quem seria este canídeo para discordar?

Sede da SWA, onde todo mundo vai pro inferno quando morrer.

Além disso, há o argumento histórico. O (discutivelmente) primeiro coquetel do mundo – O Old Fashioned – utilizava whiskey. Whiskey, bitters, açúcar e gelo. Não há vodka, halls ou picolé. Drinks clássicos importantíssimos e muito mais antigos do que esta discussão purista, também. Como o Manhattan e o La Louisiane. Na realidade, o debate sobre o uso ou não de whisky como um insumo da coquetelaria nem deveria existir. O que deveria existir é uma discussão sobre qual whisky.

Para isto, deixe-me lançar mão de outra parábola. Imagine que você vá preparar um spaghetti carbonara. Há uma receita que pede queijo grana padano – que, aqui no Brasil, tem oferta escassa e preço um tanto elevado. Você, então, resolve substituir por parmesão. Não é a mesma coisa, mas a diferença não será tão gritante, exceto se seu paladar for muito treinado ou refinado. A receita vai funcionar. Talvez não tão bem quanto aquela de grana padano, mas ficará agradável. Porém, se você usar outro queijo muito diferente, um queijo frescal, por exemplo, ou requeijão, o resultado será muito diferente.

Você não precisa utilizar o queijo mais caro do supermercado, curado desde os tempos faraônicos e extraído das tetas de uma cabra virgem. Mas tampouco o mais barato. O custo de certo ingrediente é importante, mas não pode ser o único critério. Sua escolha deve se balizar no sabor da sua refeição. Em qual resultado você quer obter. Talvez um queijo mais curado e forte seja melhor do que algo mais delicado e cremoso para aquela receita. Da mesma forma – e voltando para o mundo do whisky – um coquetel como o La Louisiane exige um whiskey mais seco e picante – algo como um Bulleit ou Wild Turkey Rye – sob pena de ficar muito doce por conta do Benedictine.

OK. MAS NÃO COM SINGLE MALTS.

Bem, não é apenas a SWA que promove o uso de whisky na coquetelaria. Muitas marcas renomadas também o fazem. E nem estou falando de blends. A Glenfiddich, por exemplo, em seu website, enumera algumas receitas de drinks que levam seus maltes. Há, inclusive, uma criada pelo embaixador brasileiro da Glenfiddich, Christiano Protti. A Glenlivet, em seu website internacional, possui uma aba inteira apenas de coquetéis com seu malte – uma delas, inclusive, leva Glenlivet 15 anos, para aqueles que imaginam que apenas rótulos de entrada devem ser usados. A Auchentoshan, conhecido single malt das Lowlands escocesas, foi além. Desenvolveu um rótulo com o auxílio de bartenders, justamente para o uso em coquetéis – o Bartender’s Malt.

Todos os envolvidos também irão para o inferno.

Mas tudo bem, porque talvez você imagine que tudo isso é meramente marketing, e que whisky deve ser tomado apenas puro. Porque, sei lá, talvez não faça mesmo sentido usar um Glenfiddich onde se pode usar algo mais humilde. Há, entretanto, um elemento que deveria superar qualquer polêmica e abrir o gradiente entre o branco e o preto. Um elemento cada vez menos usado nos dias de hoje. O bom senso. Algo capaz de enriquecer a experiência sensorial. E não apenas por futilidade ou ostentação, como seria o caso de utilizar um whisky caro só por seu preço – mas por propósito. Meu caso, justamente, com o Rusty Compass.

Em certos casos, você somente conseguirá atingir determinado perfil sensorial se utilizar um single malt. Outro exemplo é um dos meus coquetéis favoritos – o Penicillin. O Penicillin é basicamente o remédio pra garganta da sua avó, se sua avó for uma entusiasta do whisky. Ele leva gengibre, mel, limão e dois tipos de whisky. Um frutado e outro bastante defumado – na receita original, o Compass Box Peat Monster, um blended malt de nicho, bastante defumado. Porém, por falta deste whisky no Brasil, as únicas opções que temos com perfil semelhante são single malts. Ardbeg 10 e Laphroaig 10.

Em casos como este, o uso do single malt não atende um capricho. Mas tem um propósito claro. Sensorialmente, é impossível atingir o mesmo resultado utilizando um whisky de outra categoria. É uma situação distinta da troca de um whisky mais em conta por outro mais caro – ou um single malt – com o mesmo perfil de sabor.

No final, o que mais importa é que a experiência seja boa. Da mesma forma que um entusiasta de whiskies investirá mais em uma garrafa mais sofisticada para ter uma experiência mais complexa, alguém que preza por seus coquetéis escolherá com esmero e propósito o whisky de sua receita, pelo mesmo motivo. A classificação nem importa tanto, ou, ao menos, não deveria importar.

O que todos buscamos é satisfação e alegria. E, para isso, há muito mais caminhos do que simplesmente A ou B.

Johnnie Walker Wine Cask Blend

Gosto é um negócio engraçado. Porque há uma miríade de coisas que eu sempre gostei. Peixe e western, por exemplo. Há outras que quis gostar, assim, voluntariamente. E aí passei a admirá-las por insistência. Como negroni e aquela cebola grelhada incrível com um pouquinho de azeite e sal.

Mas há outras coisas que não consigo gostar, independente de minha pertinácia. Uma delas é jazz. Eu chego às vezes até a ouvir um Miles Davis ou Thelonious Monk enquanto fumo um charuto, só pelo bem do cliché. E nessas situações, ainda que me sinta bem, quase não presto atenção na música. Jazz não me agride, mas não me seduz. E eu queria que fascinasse.

Outra dessas coisas é vinho. Queria muito gostar e conhecer vinho. Mas em parte por conta de minha natureza, em parte por uma questão de ter que escolher frentes de combate, sei muito pouco sobre vinho. Tanto é que minha bússola sensorial é invertida. Uma vez, me serviram um Jerez oloroso. Experimentei com atenção e logo concluí. Tem gosto de Macallan. Ou Aberlour, talvez.

E é curioso isso, porque a esfera dos vinhos não apenas tangencia a do whisky, como nela desempenha um papel importantíssimo. Há centenas de whiskies maturados em barricas previamente usadas por vinho. Não apenas single malts. Há blends que buscam inspiração no mundo dos vinhos. Um desses é o novo Johnnie Walker Wine Cask Blend, que acaba de chegar ao Brasil.

O Johnnie Walker Wine Cask Blend faz parte da série Blender’s Batch da Johnnie Walker, que produz rótulos – no conceito deles – experimentais. Como, por exemplo, o Johnnie Walker Red Rye Cask Finish, já revisto por aqui. No caso do Wine Cask Blend, a experiência fica por conta do uso de whiskies que passaram parte de sua maturação em barricas previamente utilizadas para maturar diferentes tipos de vinho.

Nas palavras da Johnnie Walker, mal traduzidas por este Cão “este blend único é influenciado pela experimentação da maturação em barricas de vinho, um projeto iniciado pelo master blender da Johnnie Walker, Jim Beveridge, há quase uma década. Em 2015, Aimee Gibson, do time de blenders da Johnnie Walker, assumiu parte do projeto e por experiências próprias, desenvolveu um maravilhoso novo whisky para a série Blender’s Batch“.

Aimee e sua criação

A empresa continua “Este blend acessível inclui whiskies maturados em barris de vinho. Ele é produzido com maltes das highlands, como Clynelish, e speyside, como Roseisle. Ele também inclui whiskies de grão bastante cremosos, como os de Cameronbridge. O resultado é um whisky leve e vibrante, com notas de frutas do pomar e do bosque“.

É uma declaração triplamente curiosa. Em primeiro, porque não há nada de experimental em maturar whiskies em barricas de vinho. A Glenmorangie, por exemplo, dedica boa parte de seu portfólio permanente a expressões finalizadas em diferentes tipos de vinho, como sauternes, jerez e porto. A Benromach até possui versões maturadas em Sassicaia e Chateau Sissac, e a Bruichladdich acaba de lançar o divino Port Charlotte MRC:01, defumado e parcialmente maturado em barricas de ex-Mouton Rothschild. Esta é uma prática relativamente comum, ainda que seja, talvez, um pouco mais rara com blended whiskies.

Em segundo lugar, a declaração não aponta de quais vinhos vieram as barricas do Wine Cask Blend, e nem qual a proporção dos whiskies maturados nessas barricas. E isso é estranho, porque Sauternes, Porto, Madeira, Jerez, Merlot, Dolcettos e Moscatel são todos vinhos. E, em sua boa maioria, tão distintos quanto um Laphroaig é de um Glenfiddich. Talvez a Johnnie Walker se refira a tintos. Mas isso é tão vago quanto especulativo.

E, finalmente, por conta de Roseisle. Para este Cão, esta é a primeira vez que a empresa menciona sua enorme destilaria de Speyside. Inaugurada em 2010, a planta é capaz de produzir quase dez milhões de litros por ano – um pouco menos do que a Glenfiddich – e foi projetada para fornecer diferentes tipos de single malt especialmente para a elaboração de blends sob a égide da Diageo.

Roseisle (veja os alambiques no interior da estrutura de vidro)

Sensorialmente, o Johnnie Walker Wine Cask Blend é um whisky leve e agradável. O álcool está relativamente bem integrado – mas talvez menos do que no Red Rye Cask Finish –  e a influência vínica é discreta, ainda que perceptível. Há uma predominância leve do dulçor do mel e da baunilha, vindo do whisky de grão e parte dos componentes de malte sobre o frutado e apimentado das barricas de vinho. Enfim, um whisky muito fácil de ser bebido. Um bebedor desatento seria capaz de percorrer quase um terço da garrafa sem qualquer esforço.

Se você é apaixonado pela Johnnie Walker, procura um whisky com excelente custo benefício, ou gosta de vinhos, experimente o Wine Cask Blend. Alás, experimente mesmo se não for um enófilo e mesmo se não gostar da marca do andarilho. É um whisky que – apesar da singeleza – entrega uma experiência bem agradável e além de honesta. Pensando bem, talvez agora eu me arrisque a dizer que realmente gosto de vinhos. O jazz que me aguarde.

JOHNNIE WALKER BLENDER’S BATCH WINE CASK BLEND

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Doce e frutado, com creme de baunilha.

Sabor: Mais creme de baunilha, malte, discretamente turfado. Final adocicado e frutado, com baunilha.

Disponibilidade: disponível no Brasil – Preço médio de R$ 110,00.

Drops – Port Charlotte MRC:01

 

Há pouco mais de um ano viajei, ao lado de alguns amigos, para a ilha dos maltes defumados. Islay. Passamos lá três dias, e visitamos quase todas as destilarias da ilha, dentre elas, a Bruichladdich. Naquela oportunidade, nossa guia serviu alguns whiskies diretamente de barris. Dentre eles, um pequeno notável. Um Port Charlotte bastante jovem, retirado de uma barrica gravada com o nome de um lendário chateau francês – Mouton Rothschild.

Fiquei imediatamente enfeitiçado por ele. Aquele era um whisky excepcional – o melhor que experimentei durante toda a viagem. Pensei, porém, que talvez a impressão tenha se dado por conta do ambiente. Provar um whisky direto de um barril, em uma belíssima destilaria costeira, eleva qualquer experiência. Talvez aquele Port Charlotte não fosse tudo aquilo – afinal, é mais fácil se apaixonar por um malte no frio de Islay, ao lado de um poético armazém de pedra e cercado de amigos, do que no calor escaldante de São Paulo, sozinho na frente de um computador.

Paixão ao primeiro gole

Quando voltei para casa, uma certa languidez etílica tomou conta de mim. Jamais teria a oportunidade de provar aquele whisky de novo e entender o que tanto me impressionara. Ao menos era o que imaginava, porque quase um ano depois, a Bruichladdich anunciou o lançamento de algo que me pareceu bem semelhante a ele. Quando soube disso, tive uma extrassístole. Não podia perder a chance de ter uma garrafa. Cheguei ao absurdo de ligar para a destilaria e comprar a ampola por telefone, para que entregassem na casa de um amigo que mora no exterior. Levaria algum tempo, mas meu querido MRC:01 finalmente chegaria até mim.

O apaixonante Port Charlotte MRC:01 faz parte de uma série especial limitada da Bruichladdich, denominada Cask Exploration Series (Série de Exploração de Barricas). De acordo com a destilaria “com mais de 200 diferentes tipos de barricas maturando em nossos armazéns, nossa série de exploração de barricas demonstra a influencia da madeira em nosso destilado turfado. Engarrafado a 59,2% de graduação alcoólica, e limitado em números, introduzimos o Port Charlotte MRC:01 2010. Destilado a partir de 100% cevada escocesa da região de Invernessshire, este destilado adocicado e frutado passou tempo em barris de primeiro uso de whiskey americano e de segundo uso de vinho francês. Estes componentes foram então combinados e maturados por um ano extra nos melhores barris de carvalho europeu da margem esquerda de Bordeaux.

Em outras palavras, a Bruichaddich quer dizer que a maturação de seu Port Charlotte MRC:01 é fracionada. 50% matura por seis anos em barricas de carvalho americano de ex-bourbon de primeiro uso. Os outros 50%, em carvalho de ex-vinho francês de segundo uso. As duas partes então são reunidas, e passam um ano extra em barris de carvalho europeu que contiveram o vinho Mouton Rothschild – o tal vinho da margem esquerda de Bordeaux. Daí vem o código “MRC” – Mouton Rothschild Cask.

O Chateau

Sensorialmente, o Port Charlotte MRC:01 é um exagero. A fumaça é claramente sentida, junto com uma certa salinidade, que complementa perfeitamente o adocicado vínico proveniente das barricas de carvalho europeu de vinho francês. É um whisky superlativo em tudo, que fica curiosamente equilibrado. E ainda que pareça contra-intuitivo, a exagerada graduação alcoólica de 59,2% contribui para essa estranha sensação de equilíbrio – com uma graduação mais baixa, talvez o whisky ficaria adocicado demais.

Sinceramente, não sei se o MRC:01 foi o mesmo whisky que provamos direto do barril, naquele armazém. Porém, se não for o mesmo, é bem provável que seja uma criatura bem semelhante. E igualmente – ou talvez mais – arrebatadora. É realmente inusual se apaixonar à primeira vista – ou gole – por um malte. Mas consolidar e elevar esta impressão depois da segunda vez é ainda mais raro. Independente do lugar, situação e humor – o Port Charlotte MRC:01 é um whisky excepcional.

BRUICHLADDICH PORT CHARLOTTE MRC:01

Tipo – Single Malt com idade definida – 7 anos

ABV – 59,2%

Região: Islay

País: Escócia

Notas de prova

Aroma: Frutado, com um certo pêssego, e ao mesmo tempo defumado, com bastante maresia.

Sabor: Salgado, algas marinhas. Frutas vermelhas e fumaça. O final é longo, picante e progressivamente defumado e medicinal, mas também com um dulçor que lembra pêssegos em calda. Vínico, mas mais adocicado do que taninoso.

Com água: A água torna o whisky um pouco mais adocicado, e reduz a impressão de pimenta e das especiarias.

Whiskies para comprar no Duty Free V

Este é um post sazonal, que já teve três edições. Depois, leia a primeirasegundaterceira e quarta aqui, se quiser.

Janeiro é o mês de muita coisa. Da continuidade dos boletos. Das chuvas torrenciais e dos alagamentos. De passar um calor incivilizado, e tentar se refrescar lavando o rosto na pia, somente para descobrir que tá tão quente, mas tão quente que até a água que estava dentro do cano está quente. Janeiro é o mês da cerveja estupidamente gelada, da caipirinha e da praia. Janeiro não é bem um mês pra whisky.

Mas Janeiro é também o mês das viagens. De sair do calor da cidade pra ficar fedido, cremoso e queimado em algum outro lugar de sol fustigante, mas, quiçá, com uma vista mais bonita ou uma brisa um pouco mais fresca. Ou de tirar o passaporte do fundo daquela pasta de documentos, pegar o avião e tentar fugir pra algum lugar com uma temperatura menos abrasadora. Mas não sem antes passar na loja do Duty Free.

E é aí que eu quero chegar. Janeiro talvez não seja o melhor mês para beber whisky. Mas é um dos melhores pra comprar. A oferta do freeshop é ligeiramente diferente daquela de nossa terra natal. E assim, abre-se a oportunidade para comprar algo diferente, ou exclusivo. Assim, aí vai mais uma lista de whiskies que podem ser facilmente encontrados nos Duty Frees de aeroportos brasileiros, no embarque ou desembarque de voos internacionais. Organizados por preço, do maior para o menor.

GLENFIDDICH RARE OAK 25 ANOS

Preparem-se para sentir mais calor ainda. Primeiro, vou escrever o óbvio. É um Glenfiddich com um quarto de século de maturação. Somente isto já seria suficiente para que você, querido e abastado leitor, comprasse uma dessas ampolas. Porém, se apenas isto não for razão suficiente, aqui vão mais algumas.

O Glenfiddich 25 anos é uma expressão exclusiva de Duty Free de uma das mais famosas destilarias de toda a Escócia. Sua maturação acontece em uma combinação de barricas de carvalho americano de de ex-bourbon, e barricas de carvalho europeu que antes contiveram vinho jerez espanhol. É um whisky mais vínico e bem mais pungente do que seu irmão (um pouco) mais velho, o Excellence 26 anos, já revisto por aqui. E, para o gosto deste Cão, melhor.

De acordo com a destilaria “mais de duas décadas e meia de maturação cuidadosa resultaram neste whisky intrigante e complexo, que é um presente para o paladar. Grandes barricas (botas) espanholas gradualmente proporcionam um sabor frutado profundo e rico ao líquido, enquanto barricas de carvalho americanos menores trazem a infusão de notas de baunilha e um leve apimentado a este single malt de prestígio

E como não há almoço de graça – especialmente durante viagens aéreas, o Glenfiddich 25 anos custa a pechincha de US$ 429,00 (quatrocentos e vinte e nove dólares).

JURA THE ROAD

A Jura é uma das mais polivalentes destilarias da Escócia. Há expressões para todos os gostos. De delicadas e adocicadas a defumadas e pungentes, passando pelo vínico e rico. O Jura The Road é um exemplo deste último. Sua maturação acontece em duas etapas. A primeira, em barricas de carvalho americano de ex-bourbon. A segunda, em barris de ex-vinho jerez de carvalho europeu. O whisky é engarrafado a 43.6% de graduação alcoólica.

O The Road faz parte de uma série de quatro lançamentos da Jura para Duty Free, batizada de Jura Sherry Cask Collection. A diferença entre elas é o tempo de maturação, a graduação alcoólica e o tipo de barrica de ex-jerez utilizada na maturação. Em ordem, do mais barato para o mais caro, a Sherry Cask Collection conta com The Sound, The Road, The Loch e The Paps.

O preço é de US$ 82,00 (oitenta e dois dólares)

CHIVAS REGAL XV

Um dos mais recentes lançamentos da Chivas Regal, o XV está posicionado entre o Chivas Extra e o maravilhoso Chivas 18 anos. A ideia é reduzir a lacuna de preço que há entre as expressões, adicionando mais um degrau. Mais um degrau do jeito que a Chivas costuma fazer – de uma forma espetacularmente sofisticada.

O Chivas XV – como seu nome sugere – possui quinze anos de maturação mínima. Seu blend é composto por boa parte de whiskies finalizados em barricas de Conhaque de Grande Champagne. Algo que têm se tornado uma tendência, mas que ainda é bem pouco ortodoxo. Isso agrega complexidade sensorial ao whisky, trazendo notas vínicas, de caramelo e frutas vermelhas. O whisky foi especialmente pensado para ser consumido tanto puro quanto em coquetéis, de uma forma pouco sisuda

De acordo com Richard Black, diretor de marketing global da marca, “Foi um movimento decisivo para nossa categoria. Chivas XV representa um lado mais contemporâneo do whisky escocês e encoraja seus consumidores a criar experiências memoráveis que perdura para muito além da celebração”. O preço é de US$ 69,00

JACK DANIEL’S BOTTLED IN BOND

Deixe-me explicar o que significa “Bottled in Bond”. No final do século dezenove, o consumo de whiskey nos Estados Unidos era bastante alto. A qualidade, porém, não era das melhores – muitas garrafa eram preenchidas por destilados sem procedência, e a proliferação de destilarias clandestinas era grande. Para resolver a questão, o governo federal daquele país promulgou o “Bottled in Bond Act”.

A lei determinava que certos whiskeys que atendessem aos requisitos lá dispostos pudessem utilizar a expressão “Bottled in Bond” em seus rótulos – como se fosse um selo do INMETRO pro goró. De acordo com ela, para que o whiskey pudesse ser orgulhosamente estampado com a frase, ele deveria (a) ser produzido em uma única temporada de destilação (de janeiro a junho, ou de junho a dezembro), por uma única destilaria; (b) maturar em uma “bonded warehouse” sob a supervisão do governo por no mínimo 4 anos. e (c) possuir 50% de graduação alcoólica.

O Jack Daniel’s Bottled in Bond segue todos estes requisitos, e presta homenagem àqueles produzidos no século dezenove. O que, aliás, é interessante – a icônica garrafa quadrada da marca data de 1895, e o Bottled in Bond Act foi publicado apenas dois anos depois, em 1897. Mas nada disso importa. Tudo é storytelling. O que importa é que ele é uma garrafa de um litro de Jack Daniel’s a 50% ABV. Precisa de mais alguma informação pra comprar? Ah, custa US$ 42,00 (quarenta e dois dólares).

Glenfiddich Fire & Cane – Drops

A primeira dose de 2019 para o Cão Engarrafado. Queria algo que fugisse do óbvio, mas que, ao mesmo tempo, trouxesse alguma familiaridade. Algo que se relacionasse com o espírito do ano novo. Aquela sensação de renovação, mas alicerçada nas mesmas convicções e atitudes. Enfim, algo que soasse novo, experimental, mas que na verdade fosse apenas uma visão, por outro ângulo, de algo conhecido. Não demorou muito para me decidir. Escolhi o Glenfiddich Fire & Cane.

O Glenfiddich Fire & Cane é a quarta expressão da Glenfiddich Experimental Series – da qual fazem parte também o Project XX, Winter Storm e IPA Cask, já revisto nestas páginas caninas. Como sua intuição semântica já deve ter indicado, a série se dedica a whiskies com alguma característica considerada, pela Glenfiddich, como experimental. Uma finalização incomum – como no caso do IPA – ou um processo de blending inusual, como o Project XX.

Experimental Series

No caso do Glenfiddich Fire & Cane, o alegado experimento fica por conta de duas características. A primeira delas é o uso de barricas de rum para finalização – provavelmente Wood’s ou Sailor Jerry, que fazem parte do portfólio da William Grant & Sons. A destilaria não divulga o tempo exato de finalização, mas a influência do rum pode ser notada claramente, especialmente no aroma do Fire & Cane. A segunda é a utilização de malte defumado. Algo comum para certas destilarias, mas bastante raro no caso da Glenfiddich.

Este Cão, porém, têm dificuldade de ver onde o Fire & Cane é experimental. Especialmente para a Glenfiddich, não há muita novidade. Basta lembrar que o maravilhoso Glenfiddich 21 anos é também finalizado em barris de rum. E que o Caoran Reserve, Glenfiddich Vintage Cask e  a edição comemorativa do 125º aniversário também utilizam malte turfado, que traz a sensação de fumaça. Assim, são duas técnicas que a destilaria possui larga experiência. De experimental, o Glenfiddich Fire & Cane talvez tenha apenas o nome. Com uma certa boa vontade interpretativa, poderia dizer que é a comunhão das duas técnicas em um único líquido.

125th Anniversary Edition. Defumado diplomado.

Seja como for, o Glenfiddich Fire & Cane é um whisky bem bom. O defumado – um defumado seco, pouco medicinal – é muito bem complementado pelo dulçor frutado da finalização em rum. E ainda que o nome sugira um whisky intenso, o Fire & Cane é dócil e extremamente palatável. Talvez, até demais. Na opinião deste Cão, o Fire & Cane se beneficiaria de uma graduação alcoólica mais alta do que seus 43%, algo capaz de introduzir uma certa pimenta, uma agressividade que completaria o tema enfumaçado e frutado.

Mas apesar destas inofensivas observações, há algo irrepreensível em relação ao Fire & Cane. Algo que muitos podem considerar frívolo, mas que está longe de ser. Seu visual. A garrafa é uma das mais belas que este Cão já viu. Ao vivo, ela é ainda mais impressionante. Mesmo ao lado de ampolas belíssimas, como o Glenmorangie Signet, o Fire & Cane se destaca de uma forma elegantemente desafiadora. Talvez seja isso. Talvez seja aí que esteja sua característica mais experimental. É impossível estar na presença de uma garrafa e não se sentir tentado a provar uma dose.

Você já deve ter adivinhado que o Glenfiddich Fire & Cane não virá ao Brasil. Nenhuma das expressões da Experimental Series desembarcou por aqui. Porém, nos Estados Unidos e em alguns países europeus, ele é uma garrafa fácil de se encontrar. E mesmo que não tenha muita coisa de experimental ou inovador- assim como seu ano novo – é uma dose capaz de trazer todo otimismo do recém-iniciado ano.

GLENFIDDICH FIRE & CANE

Tipo: Single Malt Whisky sem idade definida

Destilaria: Glenfiddich

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: Frutado, com pera, coco e caramelo torrado.

Sabor: Frutado, com coco e toffee. Final levemente apimentado, com mel, coco e fumaça.

Preço: USD 60,00 (sessenta dólares – fora do Brasil)

Morning Glory Fizz – Da Continuidade

Foto: Tales Hidequi

A última matéria de 2018. Em menos de dois dias, teremos mais trezentos e sessenta e cinco outros para fazer novamente tudo que fizemos de errado nos anteriores. Mas não sem antes aproveitar as últimas horas do ano de uma forma alegremente inconsequente, e desastrosamente otimista. Algo que certamente lhe trará lembranças no dia seguinte. Lembranças, essas, reavivadas pela boca seca, enxaqueca e fotofobia. Feliz veisalgia nova, meu caro leitor.

Assim, talvez a melhor forma de se iniciar um novo ano não seja com falsas promessas. Mas sim reparando a igualmente épica e desastrosa última noite do ano anterior. E é aqui que entra o Morning Glory Fizz. Um café da manhã em forma de coquetel, que leva whisky, absinto (ou pastis), suco de limão, água com gás e, claro, uma clara de ovo, para dar sustento.

Se sua consciência não lhe permite beber um coquetel de café da manhã, ainda que você deseje, deixe-me ajudá-lo a dissipar essa hipocrisia. Durante o século XIX, essa era uma prática muito comum. Os coquetéis traziam mais disposição e vigor aos jovens pela manhã. Muitos drinks que hoje conhecemos nasceram deste hábito, como o Between the Sheets, Pick me Up e o Red Snapper.

Há, inclusive, uma razão científica por trás disso tudo. Como já explicado por aqui, a ressaca pode ser causada por ingestão excessiva de metanol, que vira formaldeído e ácido fórmico dentro de nós. O metanol está presente, em pequena quantidade, em quase todas as bebidas alcoólicas, por ser um produto derivado da fermentação. A melhor forma de expulsar rapidamente o metanol do corpo é – juro que não estou brincando – bebendo mais álcool. Com moderação, claro. A moderação que você não teve na noite anterior.

Que sede que dá!

E foi justamente para isso que o Morning Glory Fizz nasceu. Um remédio para a ressaca. Ele teria sido criado em meados de 1880. Sua primeira aparição foi no livro How to Mix Drinks, de 1884 de um certo Winter. Pouco depois, apareceu em outra publicação, cujo autor é desconhecido, chamada Scientific Barkeeping – o que, suspeito, tenha a ver com o fato do drink ser usado como remédio. Posteriormente, também em obras de Harry Johnson, e, mais recentemente, Dale DeGroff.

Este Cão, porém, descobriu a existência do coquetel apenas há alguns meses – ah, esse incrível e infinito mundo da coquetelaria – e de uma forma gloriosa. Pelas mãos do bartender Spencer Amereno Jr., durante uma degustação de coquetéis com Chivas Regal, organizada pelo Difford’s Guide. Na oportunidade, provamos também o Cameron’s Kick, Trilby #1 e uma interessantíssima leitura do Rob Roy, além de duas expressões recém-lançadas da marca – O Chivas XV e o Ultis. Aquela foi uma noite que merecia um Morning Glory Fizz pela manhã.

Como é de se esperar de um coquetel centenário, há algumas variações da receita do Morning Glory Fizz. A receita abaixo, porém, é uma reprodução daquela divulgada no Difford’s Guide. Com apenas uma diferença na produção. O absinto, ou pastis. A original pede que se bata o absinto junto com os demais ingredientes na coqueteleira. Para o gosto deste Cão, porém, essa alternativa tornará o absinto – ou pastis – forte demais. Algo que também poderá não agradar a maioria dos leitores, com paladar moderno. Assim, a sugestão é que o absinto seja utilizado apenas para untar o copo, e o excesso, descartado – como se faria com um Cocktail a La Louisiane ou Sazerac.

Assim, meus caros, munam-se de uma caneta e abram suas ainda intocadas agendas para este glorioso ano vindouro. E tomem nota. Um coquetel que talvez não seja capaz de apagar todos os seus erros passados. Mas que, certamente, tornará o momento presente muito mais agradável. Uma forma incrível de se iniciar um novo ano. O Morning Glory Fizz.

MORNING GLORY FIZZ

INGREDIENTES

  • 2 doses (60ml) de scotch whisky (Spencer usou Chivas Extra. Use um whisky mais seco, ou vínico. Um whisky muito doce tornará o coquetel desequilibrado, e demandará reduzir o açúcar)
  • 3/4 dose (22,5ml) de suco de limão siciliano
  • 1/2 dose (15ml) de xarope de açúcar
  • 1/2 dose (15ml) de clara de ovo pasteurizada
  • Absinto ou Pastis para untar a taça
  • Água com gás
  • gelo
  • parafernália de sempre para bater
  • copo highball

PREPARO

  1. Adicione um pouco de absinto ou pastis em um copo highball, e vá aos poucos untando suas bordas. Descarte o excesso. Ou beba, afinal, você nem almoçou ainda e já está fazendo um coquetel, deixe de ser hipócrita.
  2. Adicione, em uma coqueteleira, o whisky, o suco de limão, o xarope de açúcar e a clara de ovo. Sem gelo, por enquanto. Bata vigorosamente. Isso é um dry shake e melhorará a textura de seu coquetel. Leia mais sobre isso aqui.
  3. Abra a coqueteleira, adicione gelo e bata novamente. Desça o conteúdo para o copo higball.
  4. Complete com água com gás ou club soda.
  5. Beba e contemple. Um ano que começa com um Morning Glory Fizz tem tudo para ser glorioso.

Se tiver dúvidas sobre o preparo ou preferir algo mais gráfico, confira clicando aqui o vídeo do Clube do Barman, onde Rafael Mariachi, mixologista da Pernod-Ricard, ensina a preparar o drink.

 

 

 

(um pouco mais que um) Drops – Tobermory 15

Uma vez me perguntaram como eu decido o próximo whisky que vou comprar. Fiz uma serena expressão de conteúdo, e respondi com propriedade. Disse que pesquisava extensamente sobre as últimas inovações no mundo do whisky, e procurava aquilo que me tirasse da zona de conforto e que aguçasse minha curiosidade. Porque, afinal, tinha um blog de whisky. E com ele, vinha a responsabilidade de desbravar este etílico mundo da água da vida.

Mas eu menti. Eu menti de uma forma descarada. Porque, pra falar a verdade, minha decisão sobre um whisky passa por dois fatores. O primeiro é eu gostar da destilaria. E o segundo é a garrafa ser bonita. Sério, vocês não tem ideia de quantas vezes relevei um líquido ordinário simplesmente por uma bela ampola.

Acontece, porém, que às vezes com estas regras, eu acerto maravilhosamente. É o caso do Tobermory 15 anos, por exemplo. Uma edição limitada da destilaria homônima, localizada na ilha de Mull, que produz duas linhas diferentes de whisky. A primeira, com o mesmo nome da destilaria, é composta de whiskies pouco turfados, com notas cítricas e de especiarias. A outra, Ledaig, é defumada, com sabor de iodo e fumaça.

A cidade de Tobermory e a destilaria, ao fundo (Fonte: Malt & Oak)

Antes de falar do whisky, neste caso, preciso dedicar um parágrafo ao visual da garrafa e sua embalagem. Feita de vidro assoprado, a garrafa é envolta em uma espécie de papel de presente com a ilustração da baía de Tobermory, feita pela artista escocesa Sonas Maclean. Tudo isso é apresentado em um belíssimo estojo de carvalho recortado, com uma janela no formato da ilha de Mull. Dentro, há também uma caderneta com as notas de prova do whisky e um cartão postal da destilaria. Uma das apresentações mais belas que este Cão já viu – e bem longe da opulência quase kitsh utilizada por algumas (vocês sabem quais!) grandes marcas.

Mas vamos ao líquido. Para seu 15 anos, a Tobermory utiliza um processo por eles batizado de “dual-location-maturation” ou “maturação em dupla localização”. O que é exatamente o que o nome diz. O whisky matura quase toda sua vida na parte continental da Escócia, em barricas de primeiro uso e refill de carvalho americano, utilizadas para maturar bourbon whisky. Ele é então transportado de volta para Mull, onde é transferido para barricas de carvalho europeu de primeiro uso, utilizadas pela Gonzalez-Byass para vinho jerez. É um processo de finalização bem semelhante àquele utilizado por diversas destilarias. Aqui, além do barril, o lugar muda também.

O Tobermory 15 anos é um whisky com oleosidade média, e claramente puxado para o vinho fortificado. Porém, ao contrário de muitos whiskies que passam pelo mesmo processo de maturação, o Tobermory 15 anos ainda conserva uma clara nota de caramelo e baunilha. A influência do jerez está lá para ser notada, mas não é forte o suficiente para esconder as características sensoriais das outras barricas usadas.

Infelizmente, o Tobermory 15 nunca chegou ao Brasil. E já acabou. Mas se encontrar uma garrafa perdida durante alguma expedição internacional, não deixe de experimentar. Não importa muito sua motivação para escolher whiskies. Se você está na vanguarda da ebriedade, ou se simplesmente se sente seduzido pela bela embalagem de um líquido que você já conhece e aprecia. Seja qual for ela, o Tobermory 15 anos será um acerto incrível.

TOBERMORY 15 ANOS

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida (15 anos)

Destilaria: Tobermory

Região: Ilhas

ABV: 46,3%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, frutado. Um certo aroma de frutas cristalizadas. Panetone e mel.

Sabor: Início adocicado, com um pouco de baunilha e mel, que vai progressivamente se tornando mais licoroso e frutado. Final vínico.

Com água: A água aumenta a impressão adocicada.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

Ballantine’s 12 anos – Prioridades

Se há um mês do ano que demonstra como nossas prioridades mudam ao longo da vida, este mês é dezembro. Porque quando eu era criança, eu adorava dezembro. Naquela época, tudo em dezembro terminava num presente, em sono ou em má digestão. E minhas maiores preocupações eram o que eu ia pedir de natal pros meus pais, que dia eu entraria em férias da escola e como é que eu conseguiria comer metade de tudo que estaria na mesa da ceia da minha vó, sem passar mal e sem as pessoas me recriminarem.

Hoje, porém, as coisas mudaram um pouco. Os presentes não são mais tão frequentes, ainda que eu continue comendo absurdamente e me arrependendo depois. Mas há algo que eu passei a receber com abundância em dezembro. Algo que eu nunca recebera, sequer uma vez quando eu era criança. E essa coisa não é whisky – mesmo que eu também não tenha ganhado nenhuma bebida alcoólica na aurora de minha vida, o que é um ponto positivo bem grande para a vida adulta.

São os boletos. Em dezembro, na vida adulta, tudo termina em boleto. Esse ano cheguei até o absurdo de receber o boleto de um clube de assinaturas de cerveja que participo, junto com uma cartinha. Olha só, chegou seu presente de natal, obrigado por estar mais um ano com a gente. Ri, mas ri de desespero. Aí percebi que a cartinha não se referia ao boleto, mas me concedia uns dez por cento de desconto para comprar na loja online. Paguei o boleto da mensalidade e joguei fora a cartinha, porque sabia onde isso terminaria.

Achei mais umas contas pra você pagar aqui…

E tem o blog. No começo do mês, imaginava que poderia comprar algum whisky bem sofisticado para a última prova do ano. Um Johnnie Walker Swing ou um Chivas 25, para me fazer companhia neste calor incivilizado. Mas à medida que chegava na segunda quinzena, percebi que teria que rever minhas prioridades. Minha meta seria encontrar algo com bom custo-benefício, mas que não teria ainda abordado nessas páginas caninas. Felizmente, a solução veio por correio. E não era boleto, mas um Ballantine’s 12 anos – presente de alguns amigos que se compadeceram com minha situação.

O Ballantine’s 12 anos é a segunda expressão do portfólio permanente da Ballantine’s. Além dele, a marca posui o Finest – seu rótulo de entrada, sem idade declarada – e os Ballantine’s 17, 21 e 30 anos. A diferença sensorial entre eles é bem acentuada, ainda que o tema seja sempre o mesmo. A linha Ballantine’s é bem adocicada e frutada. As expressões mais maturadas são mais amadeiradas, e o 17 anos possui um discreto aroma turfado.

A família Ballantine’s (fonte: Glengarry wines)

Aliás, há um claro ganho de complexidade no Ballantine’s 12 anos, se comparado ao Ballantine’s Finest. Ele é mais bem acabado e equilibrado. E na singela opinião deste canídeo, seu custo-benefício é melhor também – ainda que custe mais caro que a versão de entrada. Aliás, este e seu maior trunfo e talvez também seu problema. Em sua faixa de preço, o Ballantine’s 12 anos entrega até mais do que se espera. Porém, por conta de seu irmão mais jovem,  ele não recebe a atenção que merece.

Assim como na versão de entrada, o coração do Ballantine’s 12 é composto por três maltes. Miltonduff, Glentauchers e Glenburgie – essa última, seu lar espiritual. Aliás, se você for um whisky geek com orçamento mais permissivo, saiba que recentemente, a Pernod-Ricard lançou uma linha de single malts, também denominada Ballantine’s, contendo estes whiskies. A ideia da marca é ressaltar e levar os componentes mais proeminantes de seu blend ao conhecimento do público.

Ainda que seja uma marca um pouco negligenciada no Brasil, a Ballantine’s está entre as três maiores em vendas no mundo – as outras são Johnnie Walker e Grant’s. De acordo com a The Spirits Business, a Ballantine’s vendeu mais de sessenta e três milhões de litros de whisky em 2018, considerando todas as expressões de seu portfólio – sendo o maior volume, Ballantine’s Finest  e 12 anos. Mais do que a Chivas Regal, que vendeu aproximadamente trinta e sete milhões. Este é um dado curioso, já que as duas marcas pertencem à gigante Pernod Ricard, e demonstra a força da Ballantine’s.

Assim, se você procura um blended scotch whisky acessível e excelente para sua faixa de preço, talvez o Ballantine’s 12 anos seja sua escolha. É um whisky que servirá tanto como base para seus coquetéis como para ser consumido puro ou com gelo. Enfim, uma bebida versátil, quase criminalmente negligenciada, e que será um excelente companheiro para a segunda atividade mais frequente de dezembro – beber. Porque a primeira, claro, é pagar os boletos.

BALLANTINE’S 12 ANOS (Edição Especial True Music Series)

Tipo: Blended Whisky com idade declarada (12 anos)

Marca: Ballantine’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: futado, nozes, mel.

Sabor: compota de frutas, nozes. Um certo adocicado que lembra xarope de bordo.

 Preço: em torno de R$ 110,00 (cento e dez reais)

*a degustação do whisky tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

Jack Daniel’s Tennessee Rye – Drops

Poucas marcas de whiskey possuem tantos apaixonados como a Jack Daniel’s. A Jack Daniel’s é praticamente a Harley-Davidson etílica. Ou a Johnnie Walker dos Estados Unidos. Ele  está para o whiskey assim como o Bacon está para os alimentos ricos em colesterol. Ele é, bem, você entendeu o conceito.

Assim, quando uma nova expressão da marca é lançada, é natural que haja uma certa comoção no meio dos entusiastas por whiskey. Principalmente se este lançamento contar com uma receita de mosto diferente daquela tradicionalmente usada. E é justamente isso que acontece com o Jack Daniel’s Tennessee Rye.

O Jack Daniel’s Tennessee Rye é o primeiro lançamento da Jack Daniel’s com uma mashbill – a composição do mosto – diferente desde a época da Lei Seca Norte-americana, que aconteceu de 1920 a 1933. São mais de oitenta anos utilizando uma única receita, e com um sucesso literalmente entorpecedor.

Caso você não saiba, a receita do mosto (mashbill) de um whiskey americano é uma de suas características de produção mais importantes. É ela que ditará boa parte do sabor da bebida e determinará qual sua classificação. Um whiskey com maior quantidade de milho, por exemplo, será mais adocicado – como é o caso dos Jack Daniel’s tradicionais. Enquanto um que tenha mais centeio, terá um amargor e apimentado mais acentuado.

O Jack Daniel’s Tennessee Rye possui uma mashbill de 70% centeio, 18% milho, e 12% cevada maltada. É quase o inverso da receita do onipresente Jack Daniels Old No. 7 ou seu irmão o Gentleman Jack, que leva mais de 80% de milho, 8% de centeio e 12% de cevada maltada. Isso traz ao Tennessee Rye um sabor de especiarias, cravo e canela, além de uma sensação seca, bastante incomum para os Jack Daniel’s.

O Jack Daniel’s Tennessee Rye, assim como os demais Jack Daniel’s, sofre um processo chamado de Lincoln County Process. É isso que que diferencia bourbons de Tennessee Whiskeys – além, claro, do fato dos Tennessee whiskeys serem produzidos no Tennessee. Por este processo, o destilado passa por um filtro de carvão de bordo antes de ir para as barricas. Também conhecido como charcoal mellowing, o processo é subtrativo. O filtro retém partículas maiores, e deixa o whiskey mais leve e menos oleoso.

Charcoal mellowing

A maturação do Jack Daniel’s Tennessee Rye ocorre em barricas virgens de carvalho americano – assim como das demais expressões da Jack Daniel’s. O tempo não é divulgado pela destilaria.

Infelizmente, o Tennessee Rye não está disponível no Brasil. Porém, você pode facilmente encontrá-lo em mercados internacionais, como o dos Estados Unidos. Assim, se tiver oportunidade – mesmo que ela não seja lá muito fácil – experimente o Jack Daniel’s Tennessee Rye. Talvez seja ele o responsável por transformá-lo em mais um legionário do velho Jack.

JACK DANIEL’S TENNESSEE RYE

Tipo: Rye Whiskey

Marca: Jack Daniel’s

Região: N/A

ABV: 45,0%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, pimenta, baunilha.

Sabor: seco, com especiarias, menta, cravo e pimenta do reino. Um certo adocicado de açúcar mascavo. O final é mais adocicado e relativamente curto.

 

Paris-Manhattan – Desconexão

Todos nós temos problemas. E falar sobre eles quase sempre traz alívio. A maioria de nós escolhe o companheiro, um amigo próximo ou um parente. Estes são nossos confidentes. Na literatura também. E lá, o papel do confidente é duplo. Além de muitas vezes auxiliar o herói, o confidente é uma forma de revelar os pensamentos e aflições do protagonista, sem criar artificialidade.

Existem infinitos exemplos, da mais clássica à mais prosaica literatura. Horácio é o confidente de Hamlet, na conhecida obra de Shakespeare. Razumikhin é o de  Raskolnikov, em Crime e Castigo. Dumbledore é mentor e confidente de Harry Potter, assim como Galdalf para Frodo. E não, o mestre dos magos não é confidente de ninguém, porque ele é o Vingador e uma muleta de roteiro bem safada.

Até objetos inanimados podem ser confidentes. E não estou falando do pessoal que fica contando segredos no Faceboook pra polemizar. Me refiro ao Wilson, do Náufrago, por exemplo. Ou a Alice. Não a do país das maravilhas. Mas a protagonista de uma comédia romântica chamada Paris-Manhattan. No filme ela tem uma estranha obsessão por Woody Allen, e conta seus segredos para um poster do diretor em seu quarto.

Aliás, o filme é uma homenagem ao diretor, e conta até mesmo com sua participação, em um momento especial. Porém, ao contrário (da maioria) das películas de Woody Allen, Paris-Manhattan fica entre o medíocre e o engraçadinho. Então, bem, ele é uma não-homenagem.

Minha cara depois de ver o filme.

Aliás, talvez você tenha notado que o título deste post é justamente o nome do filme. Mas – ainda bem – ele não é um tributo à película. E é bem melhor que ela., ainda que isso diga mais sobre o filme do que sobre o tema. Então, bem, peço desculpas por ter lido estes quatro parágrafos de introdução, porque não há qualquer relação entre o filme e o tema aqui abordado, exceto pela coincidência de nomes.

É que Paris-Manhattan é também o nome de um coquetel, uma variação do clássico drink de rye whiskey e vermute, e que leva licor da flor de sabugueiro – ou elderflower – em sua receita. Assim como seu predecessor, o Paris-Manhattan é um coquetel pungente. Porém, neste caso, há um encantador aroma floral e levemente azedo, proveniente do licor.

A origem desta variação é incerta. Porém, a maioria das fontes aponta para Simon Difford, fundador do Difford’s Guide, que criou o coquetel em 2006. A receita lá divulgada pede por 1 dose de licor de elderflower – St. Germain – e 2 doses de (nominalmente) Woodford Reserve Bourbon.

Este Cão, pela primeira vez, terá a petulância de alterar a receita original por conta própria. Não para aprimorá-la, mas para adaptá-la a seu gosto pessoal. A alteração – a redução do elderflower e troca do whiskey de base – tornará o coquetel mais seco e menos cítrico, mas ainda bastante floral. Se não concordar, vá com a receita original.

E se gostar, pode me contar. Ninguém é melhor confidente do que um Cão.

PARIS MANHATTAN

INGREDIENTES

  • 3/4 dose de licor de elderflower (St. Germain)
  • 2 doses de bourbon (Bulleit Bourbon)
  • 1/4 dose de vermute seco (este Cão utilizou o Martini Riserva Speciale Ambrato)
  • 2 dashes de Angostura Bitters
  • Parafernália de sempre para mexer.
  • taça coupé

PREPARO

  1. Unte a taça coupé com o absinto. Descarte o restante (eu sei que você vai descartar na sua boca, tudo bem.).
  2. Adicione, em um mixing glass, bastante gelo e todos os ingredientes líquidos. Mexa por aproximadamente cinco segundos.
  3. Com o auxílio de um strainer, coe a mistura e desça em uma taça coupé