Bourbon Rickey – O Avô do Highball

Recentemente fui ver o filme Joker no cinema. Não vou entrar aqui no mérito do filme e dizer tudo aquilo que você já sabe, que o roteiro não está aos pés da atuação de Phoenix; e que essa mania de americano de explicar as coisas demais acaba tirando todo o mistério sobre um personagem que encapsula tudo que é caótico. Não vou porque você já deve ter visto o filme ou lido isso, então não vou me repetir.

Mas vou contar a história de um senhor que eu conheço, que foi no cinema sem saber que o filme era sobre o Joker do Batman. E aí, ele ficou lá na cadeira, por duas horas, assistindo a película sobre um palhaço que só se ferra. E longe de mim dar qualquer spoiler, mas essa é uma enorme ironia, ainda mais por se tratar de Joker. Porque o filme meio que subverte a lógica do cinema – ele só faz sentido porque você sabe o final. Você sabe que o Arthur Fleck vai virar o Joker, e tem uma curiosidade meio mórbida em saber como.

Um palhaço qualquer

O filme me fez lembrar também de um aforismo, geralmente atribuído a Winston Churchill. “A história é normalmente escrita pelos vencedores“. Porque até hoje, só sabíamos da versão do Batman. Mas o Coringa é um perdedor tão distinto que sua história – seja ela qual for – merece ser contada.

E isso acontece no mundo real também. Como, por exemplo, com um homem chamado Joseph Kyle Rickey – ou simplesmente Joe Rickey, um coronel do exército confederado dos Estados Unidos, no final do século XIX. Um cara que certamente não teve muitas vitórias na vida – e nem na morte. Aliás, só teve uma, que ele nem queria – o Bourbon Rickey. Vou contar tudo pra vocês.

Antes, algumas palavras sobre o coquetel. O Bourbon Rickey. O Bourbon Rickey é um coquetel bem simples, que remonta a um higball. É, aliás, um predecessor deste drink tão em voga ultimamente. Ele leva apenas três ingredientes – club soda ou água com gás, whiskey e limão. A proporção muda de receita para receita. A receita abaixo é do bartender e consultor Marco De La Roche, e figurou em uma matéria especial escrita por ele, aqui no Cão Engarrafado. Mas, se você preferir mais diluído, é obviamente mais fácil adicionar mais água até acertar do que preparar todo um novo coquetel para reduzir o whiskey. Mas vamos ao que interessa. Joseph Rickey.

A primeira vez que Joseph Rickey foi heroicamente salvo das garras da vitória aconteceu durante a guerra civil norte americana. Ele estava do lado errado do confronto – os confederados – e perdeu. Mas Joseph era um homem resiliente e inflexível. Assim, depois do conflito, resolveu que mudaria de vida para se dedicar à política. Primeiro no Missouri, depois em Washington. A meteórica carreira de derrotas de Rickey seguiu durante essa intentada, tendo acumulado fracassos tanto estaduais quanto federais. Num deles, inclusive, perdeu um considerável valor em dinheiro, apostando num presidente que jamais fora eleito.

Um brinde a isso

Para buscar conforto depois de sua dose diária de desgraça, Joe Rickey costumava frequentar um bar em Washington, chamado Shoomaker’s. E numa dessas idas, inventou – com o auxílio do bartender George Williamson – o coquetel que o imortalizaria, e que levava seu nome. Com o tempo, o Joe Rickey – o drink, não a pessoa – passou a se chamar Bourbon Rickey, e inspirou toda uma classe de coquetéis. O que seria uma vitória para qualquer pessoa, menos para Joseph – o homem preferia ser lembrado por seu legado político do que o etílico.

O sucesso do coquetel fica claro em um artigo de Ted Haig, da Imbibe, ao citar uma matéria de um jornal da época de Joseph: “A convenção (democrática) seguiu até quase duas e meia da manhã, e daquele horário em diante, até muito depois do nascer do sol, havia felicidade em todo canto. Os maiores responsáveis por essa felicidade eram Rickey’s de todo tipo e força. Havia gin Rickeys, whisky Rickeys e Brandy Rickeys, e todo e qualquer tipo de Rickey conhecido pelo homem mortal“.

Com o tempo, porém, o Bourbon Rickey perdeu popularidade, e foi lentamente substituído pelo gin rickey: basicamente, o mesmo drink, só que com gim. E é engraçado, porque mesmo depois de falecido, Rickey perdeu mais duas vezes. Na primeira, por não ter conseguido que seu coquetel fosse esquecido. E, na segunda, porque mesmo substituindo bourbon por gim, algo que Rickey certamente detestaria, a mistura continuou com seu sobrenome. O que, de certa forma, é uma ironia que mesmo o Coringa do Batman – e alguém que não sabe quem ele é – apreciaria.

BOURBON RICKEY

INGREDIENTES

  • 60 ml de bourbon whiskey
  • 25 ml de suco de limão tahiti
  • 75 ml de água com gás / club soda
  • Parafernália para mexer
  • copo alto

PREPARO

  1. Em um copo longo com cubos de gelo, coloque o bourbon e o limão e mexa rapidamente para homogenizar.
  2. Finalize com água com gás, mexa novamente e sirva com uma rodela fina de limão tahiti.

Glenlivet Code – Spoiler

Cã para mim, na farmácia. Você não vai comprar os Cotonetes? Claro que vou, olha aqui. Mas isso não são Cotonetes. Olhei intrigado, talvez por não ter notado o cê maiúsculo próprio da marca na frase falada. Não são Cotonetes, são hastes flexíveis genéricas, será que são tão boas quanto? Expirei de insatisfação. Olha, são palitinhos com algodão na ponta, acho que meu ouvido não é muito discriminatório em relação a marca das coisas que eu enfio nele.

Pode parecer uma discussão boba, mas não é. A marca de um produto influencia diretamente em como o percebemos. Recentemente a Nielsen, empresa especializada em estudar o comportamento de consumidores, fez uma descoberta interessantíssima. Seis em aproximadamente dez consumidores preferem comprar novos produtos de marcas familiares, simplesmente porque inspiram confiança. Faz sentido – na maioria das vezes, nós, humanos, buscamos segurança. Segurança essa, representada por algo que já nos é familiar. Nós já sabemos o que esperar.

Mas não são apenas marcas. Quando conhecemos algo, criamos um conceito ao redor daquilo. Conceito que usamos de base de comparação para outras coisas da mesma natureza. Antes de experimentarmos o novo, acessamos essa biblioteca de conceitos e criamos um, bem, pré-conceito sobre aquilo. Por exemplo, quando alguém me diz que certo whisky passou por barris de vinho jerez, já imagino algo frutado e apimentado. O que, algumas poucas vezes, não acontece. Mas eu acho que acontece, porque meu cérebro está condicionado a procurar sempre o mesmo resultado, depois de ter experimentado uma pletora de whiskies maturados em ex-jerez que tinham esse perfil.

Uma certeza: tem aroma de whisky (fonte: www.theglenlivet.com)

Sabendo disso, a Glenlivet – uma das três maiores destilarias da Escócia – resolveu fazer um experimento bem pouco ortodoxo. Ela acaba de lançar no Brasil o Glenlivet Code, single malt que não possui nenhuma informação na embalagem sobre idade ou maturação dos componentes. A única informação é a graduação alcoólica, de 48%. A ideia é que o consumidor não seja levado a sentir determinado aroma ou sabor por conhecer a composição das barricas usadas na expressão. Em outras palavras, ele convida os consumidores a degustar, refletir e produzir suas próprias notas de prova, sem pré-conceitos (separado mesmo, com hífen, para eliminar o viés depreciativo)

Nas palavras de Alan Winchester, master distiller da Glenlivet “com o Glenlivet Code, tivemos a oportunidade única de criar um whisky que jamais fora criado antes, utilizando novas barricas e técnicas para expandir as fronteiras do que as pessoas esperam da The Glenlivet. A edição limitada deste ano é um labirinto de sabores que testará seus sentidos, e estamos animados para convidar os consumidores ao redor do mundo a aceitar o desafio de decodificar seus mistérios“.

Para tornar a experiência mais interativa, a Glenlivet lançou um hotsite. Lá, o apreciador é convidado a decifrar o código daquele single malt. Ou, em outras palavras, comparar suas notas de prova com as de Alan Winchester, indicando, em um teste de multipla escolha, o que sentiu no Glenlivet Code. No final, o site lhe apresenta um resultado com percentual de acerto.

O Glenlivet Code foi lançado em março de 2018, e é a terceira edição de uma série de maltes misteriosos da Glenlivet. O primeiro foi o Alpha, em 2013, acompanhado pelo Cipher, em 2016. A ideia dessas edições, na opinião deste Cão, é excelente. Elas permitem que o consumidor esclarecido indague a si próprio sobre o que lhe agrada no paladar de um whisky, e qual a idade e a composição daquela bebida. E, por consequência, reflita também sobre o que torna uma bebida boa. Afinal, a idade é importante? A composição das barricas?

Alguns meses após o lançamento – e antes que o Code tivesse a chance de desembarcar em nosso país – a Glenlivet revelou suas notas de prova completas, beom como a composição de barricas. Porém, para evitar spoilers, não explicarei aqui. Mas me limitarei a dizer que seu processo de maturação utiliza uma espécie bem pouco tradicional de barricas. Se quiser saber, basta acessar o website da Glenlivet.

Ao colocar as patas em uma garrafa, imaginei que logo faria o teste. Afinal, não sou o tipo que se furta de um desafio etílico. No entanto, antes, decidi prová-lo sem me preocupar com as notas, para me aclimatar. E fiquei muito impressionado. É um whisky com o álcool extremamente bem integrado, e um sabor frutado e apimentado – sem spoilers aqui – um tanto incomum para os Glenlivet. Seja o que for que estiver naquela garrafa preta-fosca, é excelente, e merece ser provado com cuidado.

Devo dizer que fiquei ao mesmo tempo orgulhoso e frustrado com meu teste. O website faz com que você escolha entre notas diferentes, porém, em certos estágios, me vi dividido: sentia duas notas, e deveria escolher apenas uma. Mais uma vez, sem spoilers aqui. Talvez meu olfato canino não esteja afinado. Ou, talvez, a ideia seja justamente essa – mostrar que diferentes pessoas possuem diferentes percepções, baseadas em sua memória olfativa.

Alan rindo do resultado do meu teste.

No Brasil, uma garrafa do Glenlivet Code custa, em média, R$ 700,00 (setecentos reais). É um preço comparável a outra prata da casa, o Glenlivet 18 anos – o que sugere que há uma boa parcela de whiskies bem maturados no misterioso lançamento. Impressão, esta, que se reflete também no paladar.

Se você não aguenta um mistério, ou se é um apaixonado pelos maltes da Glenlivet, não deixe de provar o Glenlivet Code. Aliás, prove o Glenlivet code mesmo se não gostar da destilaria. Afinal, a ideia é justamente abandonar conceitos pré-concebidos.

Ou, melhor dizendo, nem todas as hastes flexíveis são iguais.

THE GLENLIVET CODE

Tipo: Single Malt sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 48%

Notas de prova:

Aroma: ?

Sabor: ?

Com água: ?

Kilchoman Port Cask Matured (2018)

Uma vez, contei a vocês como me apaixonei à segunda vista pela incrível Bowmore. O que não contei é que, na mesma viagem, me desiludi com uma destilaria que antes nutria altas expectativas. A Kilchoman – na data de minha viagem, a menor, mais jovem e mais promissora destilaria da ilha de Islay, famosa por seus whiskies enfumaçados.

Não que tenha detestado o lugar. Longe disso. Considerando seu tamanho e juventude, a Kilchoman se saía muito bem. Mas a comparação, talvez injusta de certo ponto de vista, com algumas de suas vizinhas, como Bruichladdich e Bowmore, à deixava em desvantagem. Não havia nada de errado com os maltes da Kilchoman. Mas, minha impressão, é que não havia nada de extraordinário também.

Porém, foi apenas bons dois anos depois, em outra viagem e do outro lado do Oceano Atlântico, que minha impressão se dissipou. Durante uma visita ao incrível Flatiron Room de Nova Iorque, pude provar o Kilchoman Port Cask Matured – single malt da destilaria com 50% de graduação alcoólica, e finalizado em barris de vinho do porto. E, como vocês sabem, tenho uma certa obsessão por whiskies e vinhos do porto.

Flatiron Room

O Kilchoman Port Cask Matured 2018 é o segundo lançamento da Kilchoman de um single malt maturado em barricas de vinho do porto. O primeiro foi lançado em 2014, data em que o new-make spirit (o destilado sem maturação) da segunda edição, lançada em 2018, foi colocada nos barris.Trinta deles, para ser mais exato. A breve maturação ocorreu inteiramente nessas trinta barricas de vinho do porto, o que é algo bem raro.

Sensorialmente, o Kilchoman Port Cask Matured é um whisky enfumaçado e relativamente alcoólico, mas com um dulçor frutado bastante claro, especialmente na finalização. Na opinião – suspeita – deste Cão, há um equilíbrio excelente entre o perfil do destilado e a influência das barricas de porto, ainda que o whisky pareça bastante jovem.

A Kilchoman é uma destilaria bem jovem. Seus primeiros barris foram preenchidos em dezembro de 2005 e seu primeiro whisky – o Inaugural release – foi lançado somente em 2009. Por conta disto, a destilaria não possui estoque com maturação superior a treze anos. Para tentar contornar a quase inevitável juventude de seus maltes, a destilaria emprega uma longa fermentação em seus washbacks – de 85 horas – e alambiques que promovem bastante refluxo, apesar de seu tamanho diminuto.

O Kilchoman Port Cask Matured é um malte jovem e desafiador – adjetivos perfeitamente aplicáveis também à sua destilaria. E é também um testemunho de que a Kilchoman rapidamente despontará como uma das mais incríveis destilarias daquela que já é a mais incrível ilha para um apaixonado por whiskies. Se algum dia eu voltar para Islay, a Kilchoman será minha primeira visita.

KILCHOMAN PORT CASK MATURED

Tipo: Single Malt sem idade declarada – NAS

Destilaria: Kilchoman

Região: Islay

ABV: 50%

Notas de prova:

Aroma: defumado, com frutas secas e cristalizadas

Sabor: Início defumado e medicinal, com carvão e esparadrapo. Frutas cristalizadas. Figo. Uvas passas. Final defumado e frutado.

Com Água: Adicionar água torna o whisky menos agressivo e mais frutado.

De onde vem o sabor defumado do whisky

Tenho umas memórias engraçadas de quando era criança. Como certa vez, que disse pro meu pai que queria andar de trem, e ele me levou num vagão da antiga FEPASA lotado no horário do rush. Nunca mais pedi pra andar de trem na vida. Mas hoje, estranhamente, adoro.

Teve outra vez que disse que queria comer peixe. Aí ele aproveitou a oportunidade, e me levou num restaurante bem chique, daqueles que demoram duas horas. E aquilo poderia ter sido outra experiência traumática – ou talvez simplesmente fadada ao oblívio – não fosse o prato que, sem querer, escolhi. Um gratinado de hadoque defumado.

Tenho que confessar aqui que não foi pelo hadoque. Foi pelo gratinado. Na lógica do meu eu de dez anos, comida boa era comida gorda. E seria difícil ganhar de um gratinado com creme de leite e três queijos. Mas, no final do dia, não fora o queijo que me encantara. Mas o peixe. Havia lá um sabor que eu jamais sentira – ou atentara – e que me apaixonei.

Meu pai me perguntou se havia gostado, o que, obviamente, era uma pergunta retórica quase, porque quando ele me perguntou, já estava quase lambendo o fundo do prato. Disse que sim, e perguntei o que tinha de diferente. Ele explicou que era defumado. Aí, com dez anos, senti que quando fosse mais velho, realmente ia gostar muito desse negócio de defumado. Minhas suspeitas se confirmaram depois uma dezena de vezes. Bacon, salmão defumado, embutidos. E claro, um certo Lagavulin 16 anos, que despertou minha paixão por whisky.

Talvez você seja como eu, e adore tudo que tem sabor defumado. Especialmente whisky. E talvez tenha curiosidade de saber como é que a fumaça foi parar lá no whisky e torná-lo tão bom. Se esse é o caso, esta matéria especial é para você.

Vou começar devagar. O sabor defumado pode vir de dois estágios diferentes da produção. Na maltagem do grão de cevada ou maturação do new-make spirit. Se for o primeiro caso – maltagem – o sabor enfumaçado e muitas vezes medicinal vêm da turfa. O que nos leva para o primeiro capítulo:

1. SECAGEM DA CEVADA COM TURFA

Atenção aqui, é turfa. Não trufa. Trufa pode ser de chocolate, ou pode ser aquele fungo que os porcos encontram. Não é nenhum dos dois, ainda que agora tenha sentido uma certa curiosidade inconsequente de colocar trufas no meu coquetel de whisky. A dos porcos, não o bombom. Mas voltemos ao assunto.

Turfa é, basicamente, solo encharcado. Ou, mais detalhadamente, um acúmulo de matéria orgânica – fungos, musgo e e vegetação – em decomposição. Mas uma decomposição incompleta por falta de oxigênio, com bastante umidade e a baixas temperaturas. Turfa, em outras palavras, é pré-carvão, mas mais nojento que carvão, porque tem uns pedacinhos de coisas que você não sabe bem o que são. E, assim como o carvão, a turfa é inflamável.

Se me permitem uma digressão, me fascina como isso pode ter sido descoberto. Alguém, em algum ponto da história humana, decidiu que seria uma ideia razoável pegar um bocado de terra e botar no fogo, pra ver o que acontecia. A era antiga realmente deve ter sido muito entediante. Mas, aí, mesmerizado, percebeu que aquele perdigoto alimentara o fogo, ao invés de apagá-lo.

Exagerou na turfa da lareira.

Há abundância de turfa na Escócia. Boa parte do território do país é coberto de turfa. O local de onde a matéria é extraída é conhecida como (adivinhem só) turfeira. Turfeiras sedimentam a mais ou menos um milímetro por ano – o que é bem pouco. Imagine que para crescer um metro, é necessário um milênio inteiro.

A extração da turfa é tradicionalmente feita a mão, ainda que, atualmente, existam processos mecanizados. Na forma tradicional, a parte superior da turfeira – onde há vegetação – é retirada. Blocos retangulares são então cortados utilizando ferramentas especiais, retirados e empilhados, para que sequem, o que pode levar semanas. Depois de secos, os blocos podem ser usados para diversos fins, como produção de energia, aquecimento de lares e, claro, secar a cevada que se tornará whisky.

Deixe-me explicar isso com mais cuidado. Em um dos processos iniciais da produção da bebida, a maltagem, o grão de cevada é molhado, para que comece a germinar. Essa germinação, porém, deve ser interrompida (leia mais sobre isso aqui). Neste processo, conhecido como kilning, as destilarias podem empregar duas técnicas diferentes. A primeira é pela temperatura. Aumentando a temperatura do galpão onde a cevada germina, o grão acaba desidratando, secando e – consequentemente – deixando de germinar.

A segunda é aquecendo a cevada em fase de germinação com a fumaça quente de um forno alimentado por turfa. Além de interromper o processo de germinação, essa fumaça impregna a cevada com um delicioso aroma que varia entre o enfumaçado e o medicinal. Dependendo do tempo de secagem no forno e da quantidade de turfa utilizado, pode-se criar um malte mais ou menos turfado.

kilning na Laphroaig

O nível de defumação é medido em partes por milhão de fenóis – que são os compostos responsáveis pelo sabor medicinal e enfumaçado. Destilarias que terceirizam o processo de kilning – que são muitas – podem então especificar o nível de defumação pretendido para seu malte. Basta que solicitem, por exemplo, malte turfado a 30 ppm de fenóis. Para ilustrar, o excelente Ardbeg 10 anos, por exemplo, possui em torno de 55-65 ppm de fenóis. Já o Talisker 10, apenas 16-22 ppm.

O single malt mais turfado do mundo, atualmente, é o Bruichladdich Octomore 08.3, com 309 ppm. Para atingir este nível, a Bruichladdich utiliza uma técnica tão genial quanto contra-intuitiva. Durante o kilning, ela resfria a fumaça proveniente dos fornos de turfa, para que o processo de secagem da cevada leve mais tempo, e mais fumaça entre em contato com o grão até que ele esteja completamente seco.

Mas o assunto da turfa não é tão simples assim. Não é como colocar o pão na torradeira, e quanto mais tempo ele ficar lá dentro, mais queimadinho vai ficar. Porque há outras variáveis no processo, como, por exemplo, de onde a turfa é retirada. E aí, entramos num assunto que merece um capítulo só dele, chamado de:

1.1. TERROIR DE TURFA

Talvez, aqui, o emprego da palavra “terroir” esteja incorreta. Mas, por falta de algo melhor, vou utilizá-la assim mesmo, à revelia e para o desespero dos enólogos que chegaram a este ponto do texto. Me desculpem, mas “terroir” é a palavra que mais se aproxima do conceito que explicarei a seguir, ainda que inexata.

Três fatores influenciam na composição química da turfa: o tipo de vegetação que compõe a turfeira, o clima e a profundidade de extração da turfa – afinal, há menos oxigênio em profundidades maiores, e mais nitrogênio. Porém, este Cão não saberia afirmar o que cada um destes fatores traria para o nariz de um belo single malt turfado.

Em 2006, um cientista chamado Barry Harrison estudou a composição química de diferentes turfeiras na Escócia. Barry analisou turfa retirada de Hobbister Moor em Orkney, Gartbreck, Glenmarchie e Castlehill em Islay, Tomintoul em Speyside e St. Fregus na parte norte da porção continental escocesa. O estudo mostrou que havia diferenças bastante acentuadas nas amostras. A turfa de Orkney apresentava mais urze do que a de Islay, por exemplo. St. Fergust possuía mais lignina, enquanto Tomintoul, mais musgo (sphagnum).

Composição de diferentes turfeiras (fonte: whiskyscience.com)

Harrison concluiu que “a implicação é que turfas de diferentes origens podem contribuir com diferentes características químicas para o malte turfado e, portanto, para o whisky escocês turfado“. O que, para nós, entusiastas do whisky, parece fazer todo sentido. Os whiskies de Islay apresentam aroma mais medicinal, de esparadrapo, e um defumado seco. Já a fumaça de whiskies como a finada Brora e Ardmore são mais adocicados e menos medicinais.

Mas eu disse lá em cima que o sabor enfumaçado poderia vir também da torra de barricas. Então, vamos à segunda parte:

2. QUEIMA DO BARRIL

A queima do barril é outro fator que traz um certo aroma queimado para o whisky, ainda que bastante distinto daquele da turfa. Se você em algum momento sentiu certo aroma queimado ao provar um bourbon whiskey, esta sensação quase certamente veio da torra do barril.

Um barril de carvalho possui diversos compostos. Como, por exemplo, hemicelulosa, ligniga, taninos e lactonas. A queima do barril afetará estes compostos. A hemicelulose, por exemplo, quando queimada, se quebrará em açúcares, trazendo uma certa caramelização no interior da barrica – um certo caramelo queimado, parecido com aquele da calda de pudim que ficou muito tempo no fogão e grudou no fundo.

Tradicionalmente, há quatro níveis de torra dos barris. O nível 1 é o mais suave. O nível 4 é conhecido como “alligator char”, por tornar a superfície da madeira com uma textura áspera, reminiscente da pele de um crocodilo. Quanto mais alta a torra, maior será a sensação de caramelo queimado ao provar a bebida.

Alligator Char (fonte: Diffordsguide.com)

Mas a queima do barril não é utilizada apenas na indústria do whiskey americano. Alguns single malts turfados se aproveitam disso para parecerem ainda mais enfumaçados – O Talisker Dark Storm, por exemplo, é bem pouco turfado, mas a utilização de barricas altamente tostadas acentua a impressão de fumaça.

CONCLUSÃO

Assim, caros leitores, da próxima vez que sentirem aquele sabor de cinzeiro, mesclado com couro em chamas, esparadrapo, remédio e carne queimada (é, eu sei é melhor do que soa), você já sabe a razão. Pode vir da caramelização da madeira, ou da secagem da cevada com turfa – um processo mais ou menos nojento e cheio de nuances. Mas cujo resultado é absolutamente e incrivelmente delicioso.

Johnnie Walker A Song of Ice and Fire

Foram oito anos. Oito anos de conspirações, assassinatos, incesto, dragões, garrafinhas de água e café roubando a cena, gente que não sabia de nada, e gente que bebia e sabia das coisas. Setenta e três episódios de expectativa e teorias malucas. Mais de sessenta horas de antecipação para descobrir quem sentaria na cadeira mais desconfortável do universo. Eu nem preciso dizer do que estou falando. Você já deduziu – Game of Thrones.

E – pule este parágrafo se você não quiser um spoiler – quando finalmente descobrimos, veio a decepção. Eu sei que nas temporadas anteriores a Daenarys lentamente flertava com a loucura. Mas ficar mais doida que a Caipora e transformar King’s Landing em um enorme churrasco não é exatamente uma sutil descensão à insanidade. E nem vou falar do fato – completamente ignorado e pouco aproveitado – de seu laço de sangue com Jon. Ou a irrelevante relevância do cavalo branco da Arya.

Mas, apesar do desastroso final, a série, como um todo, foi muito boa. E inspirou uma miríade de objetos. Potes de biscoito, bonecos temáticos, jogos de cartas e muito mais. Mas, provavelmente, a parceria com Game of Thrones mais bem sucedida foi com a Diageo – a empresa por trás da Johnnie Walker. A série inspirou um blended scotch, o White Walker, bem como uma série de single malts baseada nas casas de Game of Thrones. E, mesmo depois de seu final, mais dois whiskies foram lançados – Johnnie Walker Song of Ice e Johnnie Walker Song of Fire – temas desta prova dupla.

Mais genial que o final de GoT.

De acordo com Jeff Peters, VP de licenças da HBO, “Estamos muito orgulhosos de fazer parceria com Johnnie Walker novamente para trazer mais uísques para o reino. O público de Game of Thrones continua a se engajar com a cultura da série e a procurar os itens colecionáveis especiais que a permitem relembrá-la. Depois de ver a empolgação com o White Walker por Johnnie Walker, estamos felizes em comemorar o final de uma história épica, oferecendo mais whiskies de qualidade para os fãs do show e entusiastas de whisky para colecionar e apreciar

Antes de tudo, deixe-me fazer um mea culpa. Decidi fazer a prova dos dois whiskies juntos porque, de certa forma, eles fazem mais sentido em conjunto do que individualmente. Os whiskies Johnnie Walker Song of Ice and Fire foram criados para serem – discutivelmente – perfeitos opostos, sensorialmente falando. Além disso, creio que esta será a forma que a maioria comprará e provará. Experimentar um sem o outro é uma tremenda oportunidade perdida – tipo não explorar a relação familiar entre Jon Snow e Daenerys. Além de ser comparável à cretinice de comer só a parte branca do Iô-iô-mix, se me permite um exemplo externo a Westeros.

“Quem come só a parte branca devia arder em chamas”

O Johnnie Walker Song of Ice é um blended scotch whisky leve e adocicado – que, de certa forma, relembra o Gold Label Reserve. Ele foi desenvolvido para ser apreciado com gelo, mas não no congelador, como seria o caso do lançamento anterior, o White Walker. Assim como o Gold Label e o White Walker, o malte central na composição do Johnnie Walker Song of Ice é Clynelish. Segundo a Johnnie Walker, o Song of Ice é inspirado nos lobos símbolo da casa dos Stark.

O Johnnie Walker Song of Fire, por sua vez, tem como coração Caol Ila, um single malt turfado – enfumaçado e medicinal – produzido na ilha de Islay. Ao contrário do Song of Ice, ele foi criado para ser bebido puro. Se pudesse compará-lo com algo da linha permanente da Johnnie Walker, diria que se assemelha ao Johnnie Walker Double Black. Mas, aqui, a diferença é maior – o Double Black é bem mais enfumaçado, intenso e adocicado, enquanto o Song of Fire é mais seco. A homenagem é à maluca da Daenerys – o que é meio óbvio, visto que o rótulo é estampado com um Drogon enorme.

Sensorialmente, para este Cão, os dois whiskies parecem bastante jovens. O Johnnie Walker Song of Ice é delicado e frutado, com uma sutil nota sulfúrica. O whisky de grão aparece – há um certo sabor de pão fresco – mas não chega a dominar o sabor. O álcool não chega a incomodar, mas é aparente. Já o Johnnie Walker Song of Fire é mais apimentado e seco, com um final enfumaçado. É talvez mais bem resolvido que o Song of Ice, e também mais complexo. Experimentá-los na mesma oportunidade acentua o contraponto entre os rótulos.

Ainda assim, sinto-me obrigado a fazer uma ressalva. Uma rara ressalva de opinião pessoal – aliás, bem mais pessoal do que a opinião sobre o final de uma das mais épicas séries televisivas. É que, individualmente, o Johnnie Walker Song of Fire é um whisky muito mais interessante do que o Song of Ice. Explico. Este é, no mínimo, o terceiro lançamento da Johnnie Walker, em menos de cinco anos, que usa Clynelish de base. Talvez a falta de criatividade dos criadores da série tenha atingido a marca do andarilho. O Song of Fire, por sua vez, apesar de não ser um blend extremamente complexo ou enfumaçado, é mais distinto.

Os Johnnie Walker Song of Ice and Fire custam, no Brasil, aproximadamente R$ 110,00 cada. É um preço razoável, especialmente para a versão enfumaçada. Mas, suspeito que o líquido seja a característica menos importante destes blended scotches. Afinal, foram oito anos, sessenta horas e setenta e três episódios. Tudo isso para um final daqueles. A gente merece um whisky para lembrar – ou esquecer – tudo isso. Ou melhor, um não. Dois.

JOHNNIE WALKER SONG OF ICE E FIRE

JOHNNIE WALKER A SONG OF ICE

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40,2%

Notas de prova:

Aroma: frutado, levemente sulfúrico.

Sabor: Frutas maduras, cereais, discreta baunilha. Final médio, vegetal e picante.

Disponibilidade: disponível no Brasil – R$ 110,00, em média.

JOHNNIE WALKER A SONG OF FIRE

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40,8%

Notas de prova:

Aroma: levemente enfumaçado, frutas vermelhas.

Sabor: Frutas vermelhas, cereais, fumaça. Final discretamente enfumaçado e frutado

Disponibilidade: disponível no Brasil – R$ 110,00, em média.

Entrevista com Malcolm Borwick – Embaixador mundial de Royal Salute

Seis graus de separação. Segundo uma teoria criada pelo escritor Frigyes Karinthy em 1929, qualquer pessoa no planeta poderá se conectar com outra por meio de uma corrente de, no máximo, cinco intermediários. Por exemplo, o maluco do Kim Jong-un . Eu provavelmente tenho um amigo, que conhece uma pessoa, que tem um conhecido, que tem relação com algum doido que é amigo do Kim.

Quando fui apresentado para essa teoria, desconfiei. São apenas cinco pessoas, no máximo, que igualmente me separam de figuras como o Dalai Lama, Ozzy Osbourne e aquele chef arabe maluco do salzinho? E mais surreal ainda, com apenas cinco pessoas, há um contato entre eu – um Cão apaixonado por whiskies – e a realeza britânica, como o Príncipe Harry?

Bem, a última indagação do parágrafo acima foi respondida com uma clareza cristalina nesta quinta-fera, dia 09 de setembro. Por conta do lançamento do Royal Salute 21 Snow Polo Edition no Brasil, fui convidado pela Royal Salute para uma entrevista exclusiva com Malcolm Borwick. Malcolm é um famoso jogador de pólo equestre, embaixador mundial da marca e amigo pessoal do príncipe Harry.

O Polo Edition

Então, aí está – não estou separado por cinco contatos. Mas por apenas um. E que contato. Malcolm é um verdadeiro cavalheiro britânico. Impecavelmente vestido, gentil e muito comunicativo. Durante pouco menos de uma hora, o jogador falou sobre o jogo de polo, suas origens, e, claro, muito Royal Salute. E é essa a entrevista que você confere a seguir. 

Uma pergunta sobre começos, para começar. Como você se tornou um jogador de polo equestre?

Comecei por completo acaso. Cavalguei a vida toda. E eu tinha 10 anos na época. E meu pai recebeu uma ligação de um amigo meu, que também tinha dez anos. Ele perguntou: “Malcolm quer jogar polo amanhã?”. Na época, eu estava tipo “o que é isso?”. Mas então, eu decidi tentar e, no dia seguinte, fui a um clube de polo no norte da Inglaterra. E eles me explicaram assim “aqui está o bastão, aqui está a bola, aí está o seu cavalo, você tem que colocar a bola dentro do gol. Segura a marreta assim”. E eu adorei desde o primeiro dia.

E eu morava em uma comunidade muito pequena no norte da Inglaterra. No meu vilarejo, acho que convenci outras seis crianças a jogar pólo em um ano. Eu disse a eles “você tem que tentar isso”. Então, depois de dois anos, tínhamos 24 pessoas em nossa área jogando polo.

Aí decidimos criar um clube de pólo. E saímos para competir com os outros locais. Este foi o pólo infantil. Eu tinha entre dez e quatorze anos de idade. E aos catorze anos fui escolhido pelo órgão esportivo da Inglaterra e recebi uma bolsa de estudos para ir à Argentina treinar polo, e dali a carreira decolou.

Então, está no sangue, você já era um embaixador de polo aos dez anos!

Eu acho que quando você é realmente apaixonado por algo, é muito fácil encantar as pessoas. Seja Royal Salute ou Polo – se você é realmente apaixonado por isso, acabará compartilhando a paixão com os amigos, no ambiente de trabalho, e assim por diante.

E sobre Royal Salute – acho que você tinha um pouco mais de 10 anos quando se tornou embaixador! Então, como vai a história?

Sim, eu tinha mais de dez! Foi em 2006, quando eu voei da Argentina para Xangai para jogar a primeira partida de polo em mais de 500 anos naquele país. Veja bem, o Polo é um jogo persa em sua origem. E mudou-se dali para outros reinos e finalmente para a Índia, quando o exército britânico o redescobriu.

Voei para um clube chamado Nine Dragons Hill, em Xangai, para jogar em um time escocês de pólo. E aconteceu que a equipe de marketing (da Royal Salute) na China estava patrocinando o evento. Naquela época, eu tinha uma pequena empresa de marketing que fazia algumas pequenas ativações para outras marcas, como companhias aéreas.

Nine Dragons Hill

E lá eu conheci o time da Royal Salute. E eu disse: “pessoal, eu conheço o cenário do pólo ao redor do mundo, deixe-me ajudá-los”. Tudo começou muito calmo. Era algo que estávamos explorando. Acabei ajudando a marca a identificar algumas oportunidades no começo. Para virar embaixador, demorou cerca de dois ou três anos. Acabei trabalhando para eles e montando uma plataforma, me tornando um embaixador da marca para eles – isso já faz dez anos.

Foi uma ótima jornada. Fizemos 18 países diferentes, 4 continentes diferentes, eventos em todo o mundo. Introduzimos muitas pessoas ao mundo do polo, e muitas (pessoas) do polo a Royal Salute.

E isso nos leva a outra pergunta – quais são as semelhanças entre polo e Royal Salute?

Bem, o próprio nome de Royal Salute indica que é uma bebida real. Veja bem, o pólo tem sido associado à família real e às cortes reais desde seu início, há 250 anos. Então, o próprio DNA, a trama de tais coisas se encaixa muito bem.

Freqüentemente, quando você está envolvido em marketing esportivo, descobre que existem empresas que tentam, basicamente, pegar carona no esporte. Botar um pino quadrado num buraco redondo – ele simplesmente não se encaixa.

Com Royal Salute e Polo, o encaixe é perfeito. Ainda temos uma grande influência da realeza no pólo. Ainda jogo com o duque de Cambridge e o duque de Sussex. E Royal Salute é o principal doador anual do príncipe Harry. Essas coisas são apenas laços naturais entre a marca e o esporte.

Sobre isso, eu li que o Principe Harry tem um programa beneficente que envolve Royal Salute, é isso?

Prince Harry, aos 18 anos, foi para Lesoto, uma pequena província da África. Na verdade, um país independente dentro da África do Sul. E houve uma enorme epidemia de Aids lá. Então, ele montou uma instituição de caridade com o príncipe do Lesoto, que estava em uma situação semelhante.

E ele usou polo para arrecadar dinheiro para essa caridade. E a Royal Salute decidiu que queria ajudar, além de que criava uma associação super boa com a marca, por causa do príncipe. Poderíamos fazer o bem, ajudar o príncipe Harry a atingir seus objetivos e manter laços com a família real.

Ao centro: Borwick e o Príncipe Harry

Arrecadamos cerca de 3,5 milhões de dólares nesse período. Portanto, tem sido um relacionamento muito bem-sucedido entre a marca e a entidade. E isso criou muito bons laços com o príncipe Harry e o duque de Sussex.

Vamos falar de Royal Salute então. Especialmente dessa garrafa maravilhosa. Me conta um pouco sobre o Royal Salute Snow Polo Edition.

Este é o terceiro frasco da linha de Polo da Royal Salute. O que queríamos fazer (com a linha de polo) era criar uísques que refletissem a sociedade do pólo e que pudessem apelar para o conhecedor de Royal Salute, e para o entusiasta do whisky.

Royal Salute já é um blend para entusiastas. É um whisky sofisticado, com maturação minima de 21 anos, composto por mais de 30 whiskies diferentes. O Signature Blend (o clássico Royal Salute) é a única garrafa com 21 anos de idade produzida ininterruptamente desde 1953.

O fato de ser um uísque complexo já o define, e quem o bebe. Agora, o que queríamos fazer com a edição polo é que queríamos apresentar um monte de gente ao whisky. O primeiro foi o polo de grama, ou Polo Edition. Era um uísque leve e acessível, para ser consumido no início da tarde.

Queríamos quebrar o conceitos equivocados de certos bebedores de whisky. Portanto, é um blend que funciona bem em coquetéis, e que, se diluído, combina muito com o verão. Vá em frente e dilua.

O segundo foi o Beach Polo. É um circuito de polo que jogamos em todo o mundo que é muito vistoso, divertido, jovem e vibrante. Queríamos um uísque que se destacasse. Então, esse uísque em particular, foi nosso primeiro Royal Salute com um toque de fumaça. Mais uma vez, um blend de 21 anos, com whiskies realmente complexos. No começo, maltes de highland e uísques realmente esfumaçados e turfados no final.

Royal Salute Polo & Beach Polo Edition

Chegamos à terceira edição. Jogamos polo de neve em dois ou três lugares do mundo. Em St. Moritz, Aspen. Na Patagônia, Argentina, há um circuito pequeno, mas bastante influente, jogado na neve. Mas St. Moritz é provavelmente a cidade de luxo mais icônica da Europa. Se você tivesse que escolher um, para se destacar, qual seria o lugar mais luxuoso da Suíça, seria St. Moritz. E lá eles jogam polo há mais de trinta anos. Participamos nos últimos cinco anos e dissemos “por que não fazemos algo que reflita nosso investimento nesse evento e que seja diferente”. E então, criamos um blended grain. Um blended grain de 21 anos de maturação mínima.

Existem alguns pontos interessantes (sobre o Royal Salute Snow Polo Editon). É 46,5% ABV. É um pouco mais alto (do que o Royal Salutes tradicionais). Essa é a latitude onde fica Moritz. Existem alguns pequenos detalhes, sinais. Fizemos este lindo frasco branco para refletir a neve branca que você vê nas montanhas. Esperamos que os entusiastas do uísque gostem.

E de onde veio a inspiração para o Royal Salute Snow Polo Edition?

O polo na neve provavelmente é o epítome de um esporte de luxo. Você está montando cavalos em uma montanha, jogando polo em um lago congelado, a 2500 metros de altitude. É algo extremamente ambicioso. E Royal Salute é um verdadeiro produto de luxo. É feito para o gosto dos entusiastas, para os bebedores de uísque experientes, que entendem a diferença.. Ele reflete St. Moritz no sabor e também na garrafa.

Muito bom. Agora vamos para duas perguntas um pouco mais pessoais. A primeira – eu entrevistei o Sandy Hyslop, e ele disse que ama relógios e Nissan Cubes….

….duas coisas bem diferentes!

… bem diferentes, foi o que eu pensei! Mas, enfim, quais seus interesses, além de obviamente polo e whisky?

Campos de golfe na Escócia. Eu adoro golfe. Eu também tenho um pouco de paixão por relógios. Provavelmente não tão íntima quanto a de Sandy, mas desenvolvi uma coleção muito boa de relógios ao jogar polo em todo o mundo, especialmente uma coleção de Piagets que eu adoraria dar aos meus filhos e netos.

(nota do Cão: Malcolm é tão apaixonado por Piagets que até gravou um vídeo para a marca, em 2016, para uma edição especial da grife de relógios baseada em polo)

Malcolm e um de seus Piagets, no vídeo de 2016

Eu não gosto de Nissan Cubes – eu dirijo uma Maserati, que é incrivelmente divertida. Não sou acumulador, mas há algumas coisas adoráveis que gostaria de dar aos meus filhos nos próximos anos.

Fantástico. E, para terminar, se me permite – você já bebeu Royal Salute durante uma partida de polo?

Incrivelmente, sim! Me deram um copo quando joguei com o príncipe Harry em Cingapura. Estávamos perdendo, e um dos convidados me chamou e disse: “venha aqui, toma isso!”. E ele me deu um copo de Royal Salute na frente de todos. E então eu pensei “eu tenho que beber agora”.

E melhorou o desempenho?

Até melhorou! Mas, para constar, eu não recomendaria jogar polo sob a influência de álcool!


Chivas Regal Mizunara – Tentáculos

O Japão. Uma nação tão bizarramente fascinante quanto fascinantemente bizarra. Por muitos séculos, especialmente por se tratar de um país insular, o Japão desenvolveu sua cultura com pouquíssima influência exterior. E daí surgiram uma porção de coisas mesmerizantes, como palácios, culinária, samurais e trens que chegam a trezentos quilômetros por hora.

E apareceram também algumas coisas bem esquisitas. O Japão, aliás, tem uma tolerância incrível ao esquisito. Por exemplo, melancias quadradas. Lojas de abraço. Privadas que tocam música. Gente usando orelhas de gato – aliás, uma obsessão incompreensível por felinos, que talvez só seja superada em sua inexplicabilidade pela adorada pornografia com tentáculos. Se vocês duvidam de mim, basta googlar. Ou melhor, não façam isso não. Dados nunca morrem. Daqui duzentos anos, seu legado digital ainda estará manchado por pornografia com tentáculos (não clique aqui, por exemplo).

Meu carro tem menos botões.

E tem o whisky. Os japoneses também são obcecados por whisky. Tanto é que no começo do século vinte, dois malucos – Masataka Taketsuru e Shinjiro Torii – resolveram que produziriam whisky tão bom como o escocês por lá. E conseguiram. Atualmente, o whisky japonês é uma febre tão grande que a própria Escócia voltou seus olhos – e língua – para o país, para inspirar algumas de suas criações. E é daí que surgiu o tema desta prova. O Chivas Regal Mizunara.

De acordo com a Chivas Regal, a concepção do Chivas Regal Mizunara partiu de Colin Scott, ex-master blender da marca, durante uma viagem ao Japão. Colin teria se baseado no Chivas Regal 12 anos e criado um whisky para agradar ao paladar japonês. E, para isso, decidira utilizar barricas de carvalho japonês para maturar alguns maltes que compuseram o blend.

Aqui, deixe-me fazer uma pausa para uma explicação talvez sonífera. O carvalho japonês, também conhecido como Mizunara. Mizunara na verdade define duas espécies diferentes de carvalho, cujos nomes científicos são quercus mongolica e quercus crispula. Ambos crescem no leste asiático e Japão. A madeira de Mizunara é clara – próxima àquela do carvalho americano – bastante porosa e um tanto quebradiça. Para se produzir um barril de mizunara, as árvores de quercus mongolica devem ter aproximadamente trezentos anos. Já as de quercus crispula, duzentos anos de idade. Uma madeira muito jovem é ainda mais frágil e maleável.

Por conta disso, o preenchimento e armazenamento de barricas de mizunara demanda um cuidado especial. A madeira é bastante propensa a rachaduras e vazamentos. Assim, mesmo no Japão, tradicionalmente se usa mizunara mais para finalizar whiskies, aportando complexidade sensorial, do que maturar totalmente a bebida. Soma-se a isso o fato de que, por conta da porosidade, a madeira do quercus mongolica é bastante potente, e pode desequilibrar a bebida, se maturada excessivamente.

E para piorar ainda mais, apenas uma pequena fração de Mizunara pode ser usada para produzir barricas. O tronco dessas espécies é cheio de nós e porosidades. A taxa de aproveitamento da madeira de mizunara tangencia os 10% – contra mais de 20% do carvalho americano, por exemplo. Isso tudo faz com que as barricas sejam extremamente caras. Para cada barril de mizunara, dá pra comprar mais de vinte de carvalho americano.

Falei que elas existiam!

Sensorialmente, o carvalho japonês traz um sabor que se aproxima mais do carvalho americano (quercus alba) do que do carvalho europeu (quercus robur). Porém, bem mais intenso e carregado em vanilina, que traz o característico aroma de baunilha, bem como especiarias, como pimenta do reino. O que, não por coincidencia, é o aroma predominante do Chivas Regal Mizunara.

Por conta de tudo isso que contei, o uso de Mizunara é bem raro fora do japão. E, mesmo no japão, é incomum. A madeira somente começou a ser utilizada em 1930, quando o país teve dificuldade de importar barricas de carvalho para suas bebidas. Isso torna o Chivas Regal Mizunara um whisky bastante único. Mais ainda, considerando que talvez o segundo rótulo escocês mais conhecido que usa a madeira é o Bowmore Mizunara Cask Finish, que custa a pechincha de oito mil reais – isso se você tiver sorte de encontrar um.

O Chivas Regal Mizunara, sensorialmente, se aproxima do Chivas Regal 12 anos – como seria de se esperar – mas apresenta uma influência clara do carvalho oriental. Há notas de caramelo e baunilha bem aparentes. O whisky chega até a ser levemente desequilibrado para o lado da madeira, o que, aqui, não é nenhum demérito. É um propósito.

No Brasil, uma garrafa custa em torno de R$ 400,00, e por enquanto, está à venda exclusivamente no website próprio da Pernod Ricard, o Drinks & Clubs. Não é exatamente uma pechincha em termos relativos – por R$ 50,00 a mais, leva-se o clássico Chivas 18 anos. Porém, trata-se de uma edição especial, bastante desejada. Assim, se você procura um whisky fácil de ser bebido, mas com personalidade única e uma bela história de fundo, o Chivas Mizunara é perfeito. E incomparavelmente melhor que qualquer coisa gráfica que envolva tentáculos.

CHIVAS REGAL MIZUNARA – 12 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 12 anos

Marca: Chivas Regal

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: floral e adocicado, com caramelo, alcaçuz e baunilha.

Sabor: suave, mas mais intenso que o Chivas 12 tradicional. Madeira, caramelo, baunilha, pimenta do reino, cravo. Final longo e progressivamente mais adocicado.

Com água: A agua torna o whisky menos adocicado.

Preço: Aproximadamente R$ 400,00.

Royal Salute Olfactory Studio – Barnabé Fillion

Você encontraria relação entre um drink feito com a rosa real, um meteorito e três incríveis whiskies da Royal Salute, todos com no mínimo 21 anos? Bem, esta foi a experiência deste Cão Engarrafado da última quinta-feira em São Paulo, no Estúdio Olfativo (olfactory Studio) de Barnabé Fillion. Barnabé é conselheiro criativo da Royal Salute e perfumista por trás de algumas das mais famosas fragrâncias da Paul Smith, Aesop e Hermès.

A ideia do Estúdio Olfativo parece até desconcertante, mas é executada de uma forma belíssima. “a jornada explora uma paleta de sensações – pelo toque de objetos lendários, a visão de cores que expressam as mais sinceras sensações, o aroma de essências de flores raras destinadas à elite do mundo e a prova de whiskies que impulsionam a arte do blending” – diz Fillion.

Barnabé Fillion, durante o evento em SP

Em outras palavras, e de uma forma mais simples, a ideia é que o participante, por meio de analogias que ultrapassam o olfato e o paladar, possa identificar características nos whiskies da Royal Salute, bem como entender que há relações entre outras áreas do conhecimento e a criação de whiskies. Como, por exemplo: o toque em um tronco de árvore fossilizado cria um paralelo com o sensorial de certo whisky, e com o processo de transformação da matéria prima até o whisky.

De acordo com Fillion, há muitas relações entre a criação de perfumes e whiskies “Na verdade o trabalho de Sandy (Hyslop, master blender da Royal Salute) é muito parecido com o meu como perfumista. Ele está provando 5 ou 10 whiskies por semana, mas avaliando por aroma mais de 5 mil por semana. Ele está avaliando todos os barris que estão mudando a cada mês. Cada single malt que é proposto a ele. A técnica é a mesma, a diferença é que eu trabalho com produtos que devem ser frescos, recentemente destilados. E no caso do whisky, o tempo é importante

MAIS DO QUE UM ALMOÇO

A experiência não poderia ter acontecido em um local mais apropriado. O restaurante japonês Míu, em São Paulo – um espaço cuja decoração combina elementos contemporâneos com visual clássico japonês. Mais uma analogia com a Royal Salute, uma marca enraizada na tradição, mas que têm buscado cada vez mais inovação – prova disso é seu novo portfólio, apresentado durante o evento.

Durante o evento – um almoço exclusivo e elegante – cada uma das expressões de 21 anos da Royal Salute foi harmonizada com alguns aromas, um objeto relacionado a experiência e um prato. Para o Royal Salute Signature Blend, nosso conhecido, foi escolhido um coquetel produzido com a Rosa Real – uma das mais caras flores do mundo, e muito usada no mundo dos perfumes – e um delicioso tartar de atum.

Lineup

Já para o Royal Salute 21 The Malts Blend, um blended malt mais intenso, adocicado e frutado, a escolha foi carpacio de salmão e carapau trufado – que, na opinião deste Cão, foi o melhor prato da experiência. “é a primeira vez que a Royal Salute se propõe a criar um blended malt. É preciso entender a complexidade dele, já que não há whisky de grão. (…). Ele me lembra um pouco a transição do inverno para a primavera. E um pouco de uma flor (…), a mimosa. Mas há também algo mais importante, que são as especiarias, que vêm da mistura dos whiskies de diferentes regiões da Escócia.

Barnabé também esclareceu a importância do blending, mesmo para maltes “Primeiro, muitos single malts são blends, porque são blends de whiskies vindos de uma mesma destilaria. Mas há uma arte de blend. Para nós, blendar é a infinidade de criação e sabor. Podemos explorar a geografia e os diferentes sabores dos whiskies escoceses“. Para fechar a segunda parte, Barnabé apresentou um pequeno meteorito de mais de 4 mil anos de idade, e traçou uma relação com a exploração, seja geográfica, seja sensorial.

Do espaço

Com o Royal Salute 21 Lost Blend, uma versão enfumaçada do clássico, vendida somente em Duty Frees, a combinação foi com uma robata de copa lombo. Aqui, Barnabé contou sobre a experiência dos astronautas que foram à Lua, e sobre um estranho impacto olfativo que tiveram, ao voltar para o módulo lunar – impacto este que até mesmo refletiu em seus sonhos. O inusitado objeto apresentado foi um tronco de árvore fossilizado. “a relação é sobre a transformação. Ele é meio grafite, mineral, e meio árvore, vegetal“.

Além dos objetos apresentados durante cada uma das harmonizações, o perfumista compartilhou pequenas tiras com aromas que compõe seus perfumes, bem como cerâmicas criadas por uma impressora 3-D, com aromas – já combinados – baseados nas três expressões de Royal Salute.

O Estúdio Olfativo de Barnabé trouxe a este Cão duas impressões. A primeira, de que produtos exclusivos devem ser apreciados com calma e esmero. E a outra, uma impressão residual – talvez semelhante àquela dos astronautas – de que a criação de qualquer produto sofisticado, sejam eles blended scotch whiskies ou perfumes, exigem uma dedicação enorme e um conhecimento extremamente aprofundado daquela arte.

Tipperary – Passaportes

O Jean Reno não é francês. Quer dizer, ele é francês, mas é o ator mais essencialmente francês menos francês que eu conheço. Seu nome verdadeiro é Juan Moreno y Herrera-Jimenez. Seus pais eram espanhóis. Quando o pequeno Jean nasceu, o casal vivia em Casablanca, no Marrocos – na época que o país ainda era um protetorado da França. O que o torna francês, tecnicamente falando.

E apesar da ascendência espanhola, é difícil imaginar um ator que represente melhor alnguém nascido na terra do queijo e vinho. Talvez Gérard Depardieu, Alain Delon ou Vincent Cassel. Pensando bem, não. Pra ser mais francês do que o Jean Reno, tem que ser o Gérard Depardieu vestido de Obélix, segurando aquele terrier que representou o Dogmatix no filme do Astérix de 2002. Cliché assim. Aliás, a palavra “cliché” também me parece menos francesa que o Jean Reno.

Muito menos francês que o Jean Reno

Um fenômeno parecido acontece com um coquetel chamado Tipperary. O Tipperary é o coquetel com irish whiskey menos irlandês que eu conheço.

O Tipperary é aquele tipo de clássico pouco conhecido, mas bem documentado. Ele fez aparições no Recipes for Mixed Drinks de 1916, de um obscuro Hugo R. Ensslin, que não era irlandês, e que trabalhou no hotel Wallick, de Nova Iorque; bem como no ABC of Mixing Drinks de um – bem mais conhecido – Harry McElhone em 1922; e finalmente no Savoy Cocktail Book de Harry Craddock, em 1930. Este último, tão famoso quanto o Jean Reno, para a maioria dos apaixonados por coquetelaria.

A receita mais antiga, de Ensslin, pede partes iguais de irish whiskey, vermute doce e Chartreuse verde (Green Chartreuse), um licor francês – mas não tão francês quanto o Jean Reno – herbal, produzidos por monges desde 1737 e todo aquele papo que você já conhece sobre licores centenários produzidos por homens de Deus.

Este Cão, porém, prefere uma receita levemente modificada, que coloca o whiskey em evidência, e reduz o dulçor do coquetel. Veja bem, na época que o Tipperary foi criado, o paladar médio era bem mais doce do que hoje em dia. Além disso, Chartreuse é um licor intenso e complexo – o oposto do que um whiskey delicado, como o irlandês, precisa. Então, para evitar que o Irish Whiskey suma de vez do drink, reduzi o Chartreuse e elevei a proporção daquele.

Durante as pesquisas para elaborar esta matéria, me deparei com dois fatos curiosos. Curiosos não, dotados de pouquíssimo sentido.

O primeiro, é que as pessoas recomendam que se consuma Tipperary durante as festividades de St. Patrick’s, talvez por conta da cor do Chartreuse. Acontece que o coquetel não fica nem esverdeado. Ele fica vermelho mesmo, por causa do vermute. Então, se você porventura resolver degustar um Tipperary durante o St. Patrick’s Day, você será só mais um doido com um drink vermelho num monte de gente tomando cerveja verde. E nem me venha dizer que é pelo Irish Whiskey. Porque, se fosse aplicar essa lógica, você deveria tomar cerveja irlandesa também, e não aquela qualquer coisa que você encontrou na rua com corante verde.

O segundo é que a maioria das receitas que colocam o whiskey em evidência recomenda o uso de Redbreast, um Single Pot Still Irish Whiskey, mas bastante intenso pela maturação em barricas de ex-jerez, e que pouquíssimo tem a ver com o perfil sensorial tradicional dos Irish Whiskeys. Me parece um contra-senso: para se equilibrar um coquetel produzido com irish whiskey, é preciso um irish whiskey que não se parece com irish whiskey.

Redbreast

Para remediar a questão do whiskey, propus o uso do Jameson Caskmates IPA. É um irish vendido no Brasil – ao contrário do Redbreast, que não desembarca por aqui – e que representa com muito mais precisão o estilo de seu país de origem. Além disso, traz uma nota vegetal amarga bem delicada, que funciona bem com o Chartreuse.

E, finalmente, para evitar qualquer relação com o dia de São Patrício, resolvi lançar esta matéria agora. Assim, no meio de outubro mesmo, bem longe da segunda quinzena de março – só porque tenho real apreço por você, querido leitor, e não quero ver você fazendo papel de bobo. Então, tomem nota do coquetel com Irish Whiskey menos irlandês da história. O delicioso Tipperary.

TIPPERARY

INGREDIENTES

  • 60ml (2 doses) de Irish Whiskey (este Cão usou Jameson Caskmates IPA, pelos motivos supra expostos)
  • 30ml (1 dose) de vermute tinto (este Cão usou o Martini Rosso)
  • 15ml (1/2 dose) Chartreuse verde (Green Chartreuse).
  • parafernália para misturar
  • Taça coupé
  • Gelo

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes líquidos em um Mixing glass, com bastante gelo e mexa com uma colher bailarina por aproximadamente 4 segundos
  2. Utilizando um strainer (a.k.a. peneira) desça o conteúdo em uma taça coupé, separando o gelo do líquido.
  3. Slainté, quero dizer, a la santé, digo, saúde.

Royal Salute Snow Polo Edition – Sofisticação galopante

Corrida de pombos. Se você me perguntasse qual um dos esportes preferidos da família real inglesa, eu jamais diria corrida de pombos. Mas de acordo com a revista Vogue, a atividade é apreciada pela realeza desde 1886, quando o rei Leopoldo II da Bélgica os presenteou com algumas dessas (nem tão) galantes e velozes aves. O que me intriga é que tal trufe seja considerada um esporte. Afinal, o único que se esforça é o pombo.

Mas a família real inglesa também pratica outros esportes, diremos assim, menos sedentários. Como, por exemplo, o Rugby, jogado pelos príncipes William e Harry; e o esqui na neve, favorito de Charles. Porém, talvez, o jogo mais essencialmente real – que mais encapsule a sofisticação dos fidalgos mais queridos do mundo – é o polo equestre. De novo, conforme a Vogue, Philip, Charles, William e Harry praticaram ou praticam o esporte. O Polo Equestre é tão querido que até o pequeno George já possui uma daquelas marretinhas engraçadas.

Assim, é natural que uma marca de whiskies inspirada na realeza britânica como a Royal Salute, e que com ela compartilhe valores como sofisticação e elegância, preste homenagem a tão querido passatempo real. Daí que surgiu a Polo Collection – uma série de edições limitadas comemorativas da marca, inspiradas no polo equestre. Da qual faz parte o Royal Salute Snow Polo Edition, que acaba de chegar ao Brasil.

O Royal Salute Beach Polo e Polo Edition, expressões da coleção de Polo da Royal Salute

O Royal Salute Snow Polo Edition faz parte de uma categoria de whiskies inédita em nosso mercado – e bem rara mesmo na Escócia. Ele é um blended grain scotch whisky, produzido somente com whiskies de grãos, em destiladores contínuos. Mas whiskies de grão bastante especiais. Seguindo a tradição da Royal Salute, o Polo Edition possui 21 anos de maturação mínima. Ele foi criado por Sandy Hyslop, diretor de blending da Chivas Regal – que, aliás, já foi entrevistado por este Cão Engarrafado.

O Snow Polo edition da Royal Salute é a terceira expressão da Polo Collection, uma linha de whiskies de edição limitada – lançados em um único lote, uma única vez – que celebram o sofisticado jogo equestre. O primeiro foi o (singelamente batizado de) Polo Edition, um blended scotch frutado e adocicado – e o segundo, o Beach Polo, defumado e marítimo.

Tratando-se do Brasil, o lançamento do Royal Salute 21 Snow Polo Edition não poderia ter ocorrido em lugar melhor. Em uma partida de polo equestre organizada na Fazenda Boa Bista, no Interior de São Paulo, com a participação do embaixador mundial da marca e jogador de polo, Malcolm Borwick. Durante o evento, o whisky foi servido em doses, puro e com gelo, e em coquetéis.

Nas palavras de Borwick “Quando começamos a desenvolver a terceira edição, olhamos para o polo na neve. Há dois ou três lugares que se joga polo na neve no mundo inteiro. (…). Mas se fossemos escolher apenas um, teria que ser St. Moritz – eles jogam polo lá por mais de trinta anos. Nós (Royal Salute) participamos nos últimos cinco anos. Então, pensamos ‘por que não fazer algo que reflita nossa participação no evento e criar algo diferente?’. Foi aí que tivemos a ideia de criar um blended grain whisky com 21 anos de maturação mínima.”

Malcolm brindando com Barnabé Fillion, perfumista e embaixador da Royal Salute, durante o evento.

O polo na neve é provavelmente o epitomo de um esporte de luxo. Nós levamos os cavalos para a montanha, para jogar polo sobre um lago congelado a dois mil e quinhentos metros de altitude. É algo extremamente ambicioso de se fazer. E Royal Salute é um produto de luxo. Ele é criado para entusiastas que prezam pela diferença. Ele reflete (a sofisticação) de St. Moritz tanto em sabor quanto garrafa” – continua o embaixador. Aliás, a graduação alcoolica de 46,5% é uma referência à latitude de St. Moritz.

Sensorialmente, o Royal Salute 21 Snow Polo Edition é um whisky delicado e floral, que traz notas de coco, baunilha, caramelo e frutas cítricas. Com um pouco de água, ele se torna mais floral, e a nota de coco se intensifica. Ainda que seu coração não tenha sido revelado, o palpite educado deste Cão é que seja Strathclyde – uma destilaria de grain whisky pertencente à Pernod Ricard. Ou, talvez, a preciosa e silenciosa Dumbarton.

Há diversos motivos para comprar e provar o Royal Salute Snow Polo Edition. Você pode ter curiosidade sobre o sabor de um excelente blended grain, tão raro no mundo do whisky. Ou, talvez, procure um blend delicado, floral e adocicado, mas, ainda assim, muito complexo. Ou, quiçá, seja um apaixonado pelo polo equestre. Ou, por fim, talvez você simplesmente goste da família real e procure uma garrafa que celebre seus esportes favoritos. Neste caso, o Snow Polo Edition será sua melhor escolha, afinal, a corrida de pombos não tem o mesmo apelo.

Ah, e se beber, não cavalgue. Mas se não for cavalgar, experimente!

ROYAL SALUTE 21 SNOW POLO EDITION

Tipo: Blended grain whisky com idade definida – 21 anos

Marca: Royal Salute

Região: N/A

ABV: 46,5%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, com mel e baunilha.

Sabor: Adocicado, mel, coco, baunilha. Delicado, com final médio que traz baunilha, frutas maduras e coco.

 Disponibilidade: Lojas brasileiras (Preço a ser definido)