Fogo da paixão – Lagavulin 16 anos

Se você gosta de filmes antigos, talvez já tenha assistido a 12 Homens e Uma Sentença (12 Angry Men). Não é muito fácil descrevê-lo positivamente com base somente em seu roteiro. É um filme cult dos anos cinquenta, baseado em uma peça teatral. Ele é filmado em preto e branco e se passa totalmente em uma única sala, onde os personagens discutem princípios éticos e valores sociais sem parar por uma hora e meia.

Apesar do descritivo torná-lo tão tentador quanto ficar nu e levar uma surra de um pé de cabra enferrujado ao som de Katy Perry, o filme é bem bom. O ritmo é excelente e os diálogos incrivelmente engajadores para o tema. Ele trata da relativização das normas, da justiça e da inegável diferença entre o mundo do ser e do dever ser.

Mas o mais incrível sobre 12 Homens é que, pelo jeito, todo mundo gosta dele. Ele está entre os cinco melhores filmes do mundo no website IMdB, e possui cem por cento de aprovação no Rotten Tomatoes. Além disso, foi listado como um dos melhores filmes do mundo pelo crítico Roger Ebert, e eleito um dos 100 mais inspiradores pelo American Film Institute. De certa forma, 12 Homens e uma Sentença é como o Lagavulin 16 anos. Amado por todos.

Você disse Lagavulin?

A experiência de se beber Lagavulin 16 anos pode ser definida, com certo exagero, como inefável. Mesmo porque – assim como o filme – descrevê-la de uma forma que pareça deliciosa é bem difícil. É que a maioria dos whiskies pode ser resenhado como algo perfumado, agradável, floral, frutado. É como disse George Bernard Shaw: whisky é o brilho do sol líquido.

Mas não o Lagavulin 16. O Lagavulin 16 é um dia tempestuoso. É como mastigar uma poltrona de couro. Uma poltrona de couro em chamas, forrada de esparadrapos e salpicada com sal grosso. Não há nada condescendente em relação à experiência. Mas, mesmo assim, é um dos maltes mais apaixonantes que conheço. Isso fica bem claro ao lermos as provas da mídia especializada sobre ele. Não há um único comentário negativo. É curioso como um whisky tão desafiador pode ser tão unânime.

Antes de mais nada, preciso pedir desculpas ao leitor pela falta de imparcialidade aqui. É que há um laço emocional forte com este whisky. O Lagavulin 16 anos não foi meu primeiro whisky – este feito pertence ao Chivas 18. E nem aquele que despertou meu interesse por single malts (foi o Glenfiddich 18 anos). Mas foi o primeiro que fez minha cabeça rodar – literalmente – e consolidar minha paixão pela bebida nacional escocesa. O Lagavulin 16 anos foi, por muito tempo, meu single malt preferido.

Todos os elementos de produção do Lagavulin 16 anos contribuem para sua pungência. Os alambiques de primeira destilação (wash stills) são carregados com 85% de sua capacidade total. Já os de segunda – que possuem braços descendentes – praticamente transbordam, com 95% da capacidade total. A destilação leva em torno de dez horas – bem mais do que a média da Escócia. Por fim, o coração dos Lagavulin começa com 72% de álcool e termina em 59%. É um corte bem largo.

 

Alambiques da Lagavulin (fonte: whisky.com)

A maturação do Lagavulin 16 anos ocorre principalmente em barricas de carvalho americano de ex-bourbon. Ainda que a destilaria não assuma expressamente, este Cão possui fortes suspeitas que utilizem também ex-jerez para padronização de sabor. É, porém, um uso muito tímido. Muito mais tímido do que aquele de seu irmão gêmeo, o Distiller’s Edition. Também com dezesseis anos, a diferença primordial entre as duas expressões é que este passa seus últimos anos em barricas de ex-jerez.

Por falar em expressões, o portfólio da Lagavulin é bem restrito. Durante a década de oitenta, havia apenas o 16 anos. Em 1990, a destilaria resolveu, em um arroubo de coragem, dobrar seu portfólio. Passou de um para dois whiskies diferentes, ao lançar seu Distiller’s Edition. Dois anos depois, o 12 anos Cask Strength – uma edição limitada anual – foi disponibilizada. Além destas, a Lagavulin costuma lançar edições especiais, bastante concorridas. Algumas delas são a Jazz Festival (em homenagem ao festival de jazz de Islay), Feis Ile, 25 anos e 8 anos.

O Lagavulin 16 faz parte do (nem tão) polêmico grupo Classic Malts of Scotland, criado em 1988 pela gigante Diageo. A ideia do grupo é apresentar os mais icônicos – segundo eles – whiskies de seu portfólio, de acordo com a região produtora. O problema é que a Diageo, apesar de possuir mais de vinte destilarias sob seu comando, não tem nenhuma de Campbeltown. Além disso, não conseguiu se decidir por apenas um malte das Highlands – teve que desmembrá-la em West Highlands, Islands e Highlands. Por conta dessa história, a empresa criou uma variação das famosas regiões da Escócia, antes mapeadas por Michael Jackson. Assim, além do Lagavulin 16, que representa Islay, os Classic Malts originais eram Oban (West Highlands), Cragganmore (Speyside), Glenkinchie (Lowlands), Dalwhinnie (Highlands) e Talisker (Islands).

Os Classic Malts originais

O Lagavulin 16 anos é praticamente a ilha de Islay em uma garrafa. Até mesmo Georgie Crawford, gerente da destilaria, fala apaixonadamente sobre o whisky “não há qualquer outro produto por aí que você possa realmente fechar seus olhos enquanto bebe e ser transportado para o seu ponto de criação em sua mente. Quando bebo Lagavulin, sou instantaneamente transportada para o final do pier, observando a baía“.

Infelizmente, por algum motivo que foge à lógica deste Cão, o Lagavulin 16 anos não está à venda em nosso país. Sua proprietária, a Diageo, prefere trazer whiskies com preço de combate e sabor amável, por talvez imaginar que, nós, brasileiros, possuímos paladar doce e pouco desenvolvido para single malts. Assim, maltes bem menos louvados e conhecidos internacionalmente transbordam nossas lojas – como Glen Ord, Glenkinchie e Cardhu. Porém, outros, renomados e concorridos, somente podem ser comprados fora de nosso país, como Mortlach e Lagavulin. E nem adianta argumentar sobre o preço. Se há um whisky capaz de se vender sozinho, independentemente de seu valor, é o Lagavulin.

Neste ponto, eu poderia recomendar o Lagavulin 16 anos para certo tipo de leitor. Dizer que se você gosta de whiskies enfumaçados e medicinais, se apaixonará por ele. Porém, dessa vez, não farei isso. Serei bem mais aventureiro. Experimente o Lagavulin 16 anos independentemente de seu gosto pessoal. Mesmo se você gosta de bourbons, blends, ou se sua preferência for pelos florais, ou frutados, ou vínicos. Mesmo se você não suportar fumaça e tiver ódio de bacon. Mesmo assim, experimente o Lagavulin 16. Ele é indescritivelmente apaixonante.

LAGAVULIN 16 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 16 anos

Destilaria: Lagavulin

Região: Islay

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: Predominantemente carvão, com aroma de esparadrapo e iodo.

Sabor: bastante defumado e rico, levemente frutado e com amargor acentuado. Final medicinal, com esparadrapo e carvão. Amargo, levemente salgado e bastante prolongado.

Com água: o aroma fica quase totalmente defumado. Na boca, o amargor fica menos evidente e um sabor de frutas secas fica evidente.

Preço: £55,00 (cinquenta e cinco libras)

 

 

 

Especial Islay – Visita à Bowmore

O poeta James Russell Lowe uma vez escreveu que apenas os tolos e os mortos nunca mudam de opinião. Platão, por sua vez, disse que a opinião é a mediatriz entre a ignorância e o conhecimento. Se James Russel Lowe e Platão pudessem saber de minha experiência na destilaria Bowmore, em Islay, certamente ficariam ainda mais orgulhosos de suas frases, agora elevadas a aforismos.

Antes de visitar a Bowmore, seus whiskies não eram, para mim, nada demais. Havia expressões ótimas, claro, como o dezoito anos. Mas havia também muitos single malts desequilibrados que na minha irascível opinião não passavam de honestos. Era o caso do Bowmore Darkest ou o Enigma, por exemplo. Achava que a Bowmore colhia os frutos do passado, mas que atualmente havia sido rebaixada para uma destilaria que produzia maltes defumados para todos aqueles que não suportavam maltes defumados.

Bem, durante a visita, minha opinião não se sustentou por mais de quinze minutos. Se Bruichladdich é inovação, Ardbeg é bravura e Lagavulin é aristocracia, então Bowmore seria detalhismo. Todos os processos, da maltagem à maturação, são pensado nos mínimos detalhes.

A destilaria está localizada dentro da cidade de Bowmore, e seu armazém colado na costa da ilha. Há uma incrível vista da destilaria, a partir de um dos píeres do porto da cidade. Ela possui também um hotel próprio – o Harbor Inn, onde este Cão ficou confortavelmente hospedado. Por conta da localização, a Bowmore é a destilaria  de Islay que mais recebe visitantes por ano. E por isso todos seus espaços são muito bem cuidados e organizados.

Lugar feio (Foto: Diego Muller)

A Bowmore possui três enormes andares dedicados à maltagem de sua cevada. Ainda que a destilaria compre cevada maltada de terceiros, aquela produzida in-loco corresponde a aproximadamente quarenta por cento de toda sua produção. É um número bem alto para uma destilaria nos dias de hoje – ainda mais porque a maioria delas nem mesmo possui malting floors.

O moinho Porteus que produz o grist (a cevada em pó) está no último andar. O foro de turfa – que seca e impregna a cevada com o delicioso aroma defumado – ocupa uma das laterais do prédio onde estão os malting floors. A construção inteira, apesar de sua latente idade, foi pensada para reduzir os tempos de produção e transporte dos elementos necessários para produzir o malte. Malte que, aliás, é defumado a 25 partes por milhão de fenóis – quase cirurgicamente no meio do caminho entre os monstros enfumaçados Ardbeg e Laphroaig e os amenos Bunnahabhain e Bruichladdich.

Há duas curiosidades interessantíssimas sobre a Bowmore, ao menos para os whisky geeks. A primeira é que a destilaria, lá pela década de 80, trocou seus washbacks de madeira por aço inox. Porém, houve uma notável mudança no sabor. Assim, a destilaria voltou a usar o equipamento de pinho. São cinco washbacks, cada um batizado com o nome de um dos antigos proprietários da destilaria. A segunda curiosidade é que no passado, os alambiques da Bowmore eram diferentes dos atuais. Não apenas em tamanho, o que seria normal. Mas também em formato. Havia, inclusive, um interessantíssimo alambique com dois braços – algo impensável nos dias de hoje.

Washbacks da Bowmore

A fermentação da Bowmore leva entre quarenta e sessenta horas, e produz um wash (mosto fermentado) com 7% de graduação alcoólica. Os alambiques de primeira destilação são carregados com 65% de sua capacidade. Já os de segunda destilação – à moda da Lagavulin – são quase inteiramente preenchidos: 92% de sua capacidade total. A destilação é rápida (em torn de 7 horas). O corte começa aos 74% e termina aos 61,5%. Os braços dos alambiques são retos, com pouco refluxo. Tudo isso contribui para um destilado bastante oleoso, ainda que, por conta da defumação mais tímida, isso não fique tão aparente quanto nos Lagavulin e Laphroaig, por exemplo.

OS FAMOSOS NO.1 VAULTS

Uma das maiores atrações da Bowmore, porém, são seus armazéns. Lá descansam mais de 27.000 barricas. Um deles, conhecido como No.1 Vaults é o mais antigo da Escócia inteira, datado de 1779. O espaço é tão alardeado pela destilaria que seu nome aparece na maioria de suas expressões. Tanto na garrafa quanto na embalagem.

Dentro dos No.1 Vaults (foto: Diego Muller)

Os Bowmore são maturados em uma extensa variedade de barricas. Há carvalho americano, carvalho europeu e até mesmo carvalho japonês, conhecido como Mizunara. A destilaria é bem conhecida por saber equilibrar com maestria o sabor enfumaçado com a influência vínica do porto e jerez. Uma técnica bem difícil, já que o sabor de vinho fortificado briga com o defumado da turfa.

Ao contrário da Lagavulin, o portfólio da Bowmore é extenso. Ele conta com uma expressão sem idade, uma com dez, outra com doze, duas com quinze, duas com dezoito e uma com vinte e cinco anos de maturação. Além delas, há uma série de edições limitadas, como Vault Edition, Mizunara, 26 anos e um incrível 54 anos. Há também uma edição especial limitada, que somente pode ser comprada na destilaria, e que ilustra este post. É o Warehouseman’s Selection, e que faz parte de uma coleção que presta homenagem àqueles que lá trabalham.

Depois de ter visitado a Bowomore e provado um pouco de tudo que me foi oferecido (afinal, não poderia deixar a oportunidade passar), um pouco cambaleante, me vi obrigado a reconsiderar tudo aquilo que pensava saber sobre a destilaria. A Bowmore não é um malte de Islay para aqueles que detestam fumaça. Não, a Bowmore é um malte de Islay para todos aqueles que adoram a dificílima e detalhista arte de se produzir whisky.

 

 

Jim Beam Bourbon – Sobre unanimidades

Talvez muitos dos leitores aqui não saibam disso. Já contei uma vez há algum tempo – sou advogado. Meu primeiro trabalho foi em um escritório relativamente grande de São Paulo, na área de Mercado de Capitais – talvez a segunda especialidade com a maior fauna de estereótipos, depois da famigerada trabalhista. A equipe era formada por quatro pessoas. Ou melhor, quatro personagens, todos com jeitos e gostos diferentes. O que, de certa forma, era enriquecedor, porque sempre conseguíamos abordar os problemas com diferentes enfoques, discutir e chegar à melhor saída. A equipe funcionava muito bem graças à essa diversidade. Quer dizer, quase sempre. Menos no almoço de equipe.

O almoço de equipe era um conflito quase irresoluto. Um era apaixonado por uma hamburgueria tão cara, mas tão cara, que o preço só se justificaria se os hambúrgueres fossem feitos de carne do rebanho de gado do Senhor Todo Poderoso, se o Senhor Todo Poderoso tivesse um rebanho de gado. Outra sempre queria comida japonesa. O sócio, Sr. Roberto, preferia o árabe, por conta das esfirras de ricota. E eu, recém-formado, com minha carteirinha da ordem meramente ornamental, topava qualquer um que não me transformasse em um camponês medieval, preso à terra, trabalhando um dia inteiro para pagar uma refeição.

Colhendo milho pro senhor feudal fazer bourbon.

Havia, porém, uma Suíça nessa história toda. Um restaurante buffet, que servia uma comida bem honesta. Não era o tipo de lugar que você iria para fotografar os pratos para colocar no Instagram. Mas ele tinha de tudo um pouco, e aí que estava sua genialidade. No polarizado mundo dos restaurantes especializados, ele não era nada. Ou melhor, era apenas um restaurante onde esfirras conviviam pacificamente com hambúrgueres e comida japonesa de autenticidade duvidosa. E por conta disso, era sempre o escolhido. Ele não ofendia ninguém.

Há conflito bem semelhante a esse no mundo do whisky. Todos nós temos preferências. Certos indivíduos – com bom gosto – são apaixonados pelos whiskies enfumaçados. Outros preferem aqueles com influência vínica e especiarias. Já alguns gostam daquele convidativo sabor adocicado e floral. Há também aqueles que não gostam muito do destilado puro, e preferem combiná-lo com outros ingredientes em coquetéis.

Encontrar um meio termo não é muito fácil. Porém, na singela opinião deste Cão, se houvesse um bourbon whiskey que pudesse atender a todos os gostos, ao menos minimamente, este seria o Jim Beam. O Jim Beam é um bourbon relativamente simples, sem muita complexidade e com graduação alcoólica baixa. E seu diferencial é justamente este. Por conta de seu perfil de sabor – aliado ao preço de combate – ele é capaz de agradar a quase todos os gostos, não importa quão diferentes. É um bourbon honesto, e não há nada intrinsecamente ruim sobre ele. Por isso mesmo que ele é um enorme sucesso. O Jim Beam é quase a democracia norte-americana em estado líquido.

O Jim Beam White Label – vamos chamá-lo aqui pelo nome completo – é o bourbon whiskey mais vendido do mundo. Atualmente, ele pertence à gigante multinacional Beam Suntory, que também detém marcas importantes como os single malts japoneses Yamazaki e Hakushu e as destilarias Laphroaig e Bowmore. Além deles, o grupo possui uma pletora de whiskeys americanos, com os mais variados perfis de sabor e faixas de preço, como Maker’s Mark, Knob Creek, Basil Hayden’s, Booker’s, Baker’s, Old Grand-Dad e Old Crow.

Apesar do enorme sucesso de hoje, a marca possui origens humildes. Ela foi fundada em 1795 por Jacob Beam, sob o nome de Old Jake Beam e em 1933 foi rebatizado para Jim Beam. A empresa – sempre sob controle familiar – sobreviveu à belle epoque e a duas grandes guerras. Durante os anos da lei seca, foi que encontrou mais dificuldade. Mas mesmo assim, apesar de todas as adversidades e com um empurrãozinho financeiro externo, a empresa cresceu e se estabeleceu como sinônimo da bebida americana. Até hoje a produção ainda é supervisionada por um membro da família de seu fundador, apesar do controle societário nipônico. Atualmente, o Sr. Fred Noe.

A família Beam não é a única a trabalhar na companhia por mais de uma vida. A levedura utilizada no processo de fermentação de seu mosto também. Ela pertence à mesma linhagem desde o final da Lei Seca – ou seja, é uma família que presta serviços ao bourbon por mais de setenta e cinco anos e, facilmente, milhares de gerações. Essa linhagem é tão preciosa à Jim Beam que exemplares são guardados em locais distintos, evitando que fosse perdida em algum acidente ou catástrofe.

Não, não vou falar da Mila Kunis. Esquece.

Como todos os bourbons, o Jim Beam White Label é produzido predominantemente de milho. Sua mashbill conta com 75% de milho, 13% de centeio e 12% de cevada maltada. A maturação ocorre em barris virgens e torrados de carvalho americano, e leva em torno de quatro anos. Se comparado a um whisky escocês, é bem pouco. No entanto, o calor do kentucky acelera bastante seu processo de amadurecimento. A graduação alcoólica de entrada nos barris é de 62,5% – o máximo permitido pelo Code of Federal Regulations.

Como um whisky para se tomar puro, o Jim Beam não é muito além de razoável. Porém, ele funciona bem com gelo, e muito bem para certos coquetéis, especialmente aqueles com perfil amargo ou azedo. É um bourbon whiskey com excelente preço, versátil e despretensiosamente agradável. No improvável caso de você nunca ter provado um bourbon, ou se estiver procurando um whiskey democrático e fácil de beber, o Jim Beam é um bom ponto de partida. Porque – adaptando a frase do grande poeta que inspirou o nome deste blog – whisky também é arte do encontro embora haja tanto desencontro no mundo do whisky.

JIM BEAM WHITE LABEL

Tipo – Kentucky Straight Bourbon

ABV – 40%

Região: N/A

País: Estados Unidos

Notas de prova

Aroma: adocicado, açúcar refinado, baunilha. Muita baunilha.

Sabor: adocicado, com açúcar refinado. Algo frutado. Mais baunilha. Sinto-me mastigando um toco de baunilha.

Com água: A água torna o whiskey ainda mais doce.

O Cão Explica – Whisky estraga depois de aberto?

Desde que o homo sapiens sapiens adquiriu consciência de sua consciência, passou a questionar o mundo ao seu redor. Do mais profundo existencialismo até as coisas mais frívolas. Debruçamo-nos em questões tão complexas quanto a formação do universo com a mesma energia que questionamos as mais simples. Não existe resposta estúpida para a verdadeira curiosidade. Afinal, é sempre interessante saber por que a água da privada gira no sentido horário para nós. Ou se o barulho que os dinossauros do Jurassic Park faziam era parecido com o real.

Há, claro, aquela categoria de indagações que, muito provavelmente, jamais serão respondidas. São todas aquelas que dependem, essencialmente, daquilo que escolhemos acreditar. Ainda que mesmo essa afirmação seja bem polêmica. O sentido da vida e a natureza do tempo, por exemplo. E por fim – não menos polêmica ou mais simples de ser respondida – está a questão que todo apreciador de whiskies faz, ao menos uma vez na vida. Será que o whisky estraga depois de aberto?

A resposta mais acurada é sim, é claro. Porém, determinar o prazo para isso acontecer e – mais importante de tudo – para que se torne notável, dependerá de um sem fim de fatores. Dentre eles está a temperatura, o volume de líquido dentro da garrafa, o diâmetro da garrafa (é isso mesmo!) e quanto a garrafa é mexida. Esses elementos influenciam em um fator bem conhecido pelo pessoal dos vinhos, mas pouco explorado por nós, apreciadores de destilados. É a oxidação. Além dele, há também a evaporação, que não pode ser ignorada.

Uma garrafa de 1894, descoberta enterrada sob a Ruthven Road, na Escócia. Será que já oxidou?

Deixe-me ilustrar com um exemplo. Talvez você já tenha deixado, por um terrível e indesculpável equívoco, uma dose sem beber em algum copo, durante uma noite inteira. Porém, ao perceber o erro, e para evitar o desperdício, resolvera que seria uma boa ideia provar daquele líquido. Quase todos nós já fizemos isso. O resultado da experiência dependerá muito da dose, porém, de forma geral, o que você encontrará será um whisky bem mais monotemático e menos picante. As culpadas são justamente a oxidação e a evaporação. Algo semelhante ocorre, em uma velocidade muito menor, dentro de sua garrafa.

Vamos à primeira razão. A oxidação acontece quando a bebida é exposta ao oxigênio. O oxigênio, presente no ar, reage com certos componentes da bebida. São os ésteres e os tióis, que proporcionam alguns daqueles tão agradáveis aromas em sua dose preferida, e que tendem a perder força com a oxidação.  Com os fenóis a história é um pouco ambígua. Enquanto aqueles responsáveis pelo aroma enfumaçado e medicinal diminuem, a vanilina, que traz aquele incrível aroma de baunilha, aumentam.

Para não tornar o papo muito insuportável, vou simplificar. Ao longo dos meses, o líquido daquela sua belíssima garrafa guardada para momentos especiais mudará. Ele se tornará um pouco mais frutado e a baunilha se evidenciará. Porém, os sabores e aromas defumados e medicinais – se algum dia ele já tiver sido defumado e medicinal – assim como as especiarias e o cítrico, se reduzirão. Outros sabores, como o de borracha queimada e aquele inconveniente sabor metálico serão evidenciados.

O whisky, no entanto, possui algumas vantagens sobre a maioria das outras bebidas. Em primeiro lugar, por conta de sua graduação alcoólica elevada – quer dizer, ao menos bem mais elevada que a de um vinho, por exemplo – este fenômeno demora bastante para acontecer. O álcool tende a conservar melhor os elementos que caracterizam os aromas e sabores da bebida. Além disso, muitos creem que a maturação em barricas também auxilia nesta tarefa. Os óleos essenciais da madeira aumentariam a tensão superficial, reduzindo evaporação e, por consequência, a oxidação.

O tempo que levará para que estas alterações ocorram, como disse, dependerá de certos fatores. Porém, de uma forma bem genérica, quanto maior for o contato com o ar, mais rápido elas acontecerão. Assim, uma garrafa com diâmetro maior e que esteja com whisky pela metade – por possuir mais líquido em contato direto com o ar – oxidará mais rápido, mantendo-se as mesmas condições. Da mesma forma, uma ampola que é frequentemente mexida ou agitada tende a ser aerada, fazendo com que o oxigênio reaja mais rapidamente com o whisky.

O volume do whisky dentro da garrafa também é determinante. Não importa se você é um otimista ou pessimista, a garrafa sempre estará cheia. Em parte de whisky, e, a outra parte, de ar. Quanto mais ar houver em relação à bebida, mais rápida será a evaporação e a oxidação. Assim, não adianta ficar lá guardando aquela última dose daquela tão estimada garrafa. Ela oxidará. Eu sei que você já fez isso. Eu fiz. É estúpido.

Não importa se ele está meio cheio ou vazio, contando que tenha whisky!

A temperatura também é um elemento importante. Quanto mais quente for o ambiente, naturalmente, maior será a evaporação. E quanto maior for a evaporação – de uma forma geral – menor será a graduação alcoólica ao longo do tempo. E como o álcool é justamente um dos fatores que previne a oxidação da bebida, quanto menos álcool, mas rápida será a oxidação. É por isso, aliás, que vinhos oxidam mais rapidamente que whiskies.

Talvez, neste ponto do texto, você já esteja enxergando a oxidação como seu maior inimigo. Calma. Como tudo, a oxidação é multifacetada. Um fenômeno tão indesejado nas garrafas é, na verdade, bastante desejado durante o processo de maturação do destilado. Os whiskies, enquanto passam seu amadurecimento nas barricas, entram em constante contato com o ar, por conta de uma folga (um espaço com ar dentro da barrica, que nunca é enchida até transbordar). E esse elemento influencia diretamente no sabor dos whiskies. Isso é interessantíssimo, porque é um elemento que não pode ser alterado, ainda que outros truques para acelerar a maturação sejam empregados – como, por exemplo, o uso de quarter casks.

Porém, a questão essencial ainda não foi respondida. Quanto tempo leva para que o whisky torne-se impossível de ser bebido por conta da oxidação. Bem, esta é uma resposta que depende de um outro elemento, que é completamente subjetivo. O apreciador. O whisky continuará a ser palatável enquanto seu entusiasta o apreciar. Algumas diferenças sutis podem ser sentidas ao longo de alguns – muitos – meses. Já diferenças realmente relevantes, no entanto, levarão bem mais tempo. Ainda que muitos concordem que o tempo varie entre um e três anos, isso dependerá, essencialmente, das condições de armazenagem da bebida, e de quanto whisky ainda há na garrafa.

Assim, meus caros leitores, não se preocupem muito com este assunto. Apenas peguem aquela garrafa com o último fio da preciosa água da vida, desçam em seus copos e apreciem. E nesta contemplação, aproveitem para refletir sobre todas aquelas perguntas que – assim como esta – provavelmente jamais serão respondidas. A natureza do tempo. O sentido da vida. Ou divirtam-se com as frivolidades. Eu ajudo. É mentira que a água gira apenas no sentido horário. E os grunhidos dos dinossauros na discutível obra prima de Steven Spielberg são, na verdade, de animais copulando. Quem poderia imaginar, não é mesmo?

 

Especial Escócia – Visita à Lagavulin

Bruichladdich é inovação, Ardbeg é bravura. Lagavulin, por sua vez, é aristocracia. A Lagavulin é o representante perfeito de um cavaleiro medieval no mundo dos whiskies. Por fora, elegante, polido e respeitado. Mas, ao mesmo tempo, violento e direto. Ele foi por muito tempo meu single malt preferido, e provavelmente um dos lugares que mais queria conhecer em minha vida. Ter a oportunidade de atravessar os corredores da destilaria e participar de uma degustação lá, onde o líquido é produzido, foi incrível.

Tudo que emana do copo está representado em seus ambientes. As instalações da Lagavulin são o lugar-comum da cultura do whisky. Chão de madeira que range a cada passo, não importa quão leve. Poltronas botonê de couro, lareira e galhadas de cervos penduradas na parede. Luz quente e luminárias verdes. E claro, infinitas cristaleiras, exibindo todas as glórias daquela destilaria. Se uma garrafa de Lagavulin pudesse agir como uma pessoa, sua casa seria decorada justamente daquele jeito.

Ao contrário do que aconteceu com as demais destilarias, não pudemos percorrer os prédios da Lagavulin. Nosso tour permitia apenas a uma degustação em um de seus saguões, acompanhados de uma guia – que aliás, parecia tão apaixonada pela destilaria quanto eu. Mas isso não importava muito, mesmo porque aquela foi uma das degustações mais interessantes que participei.

A PROVA

Ao invés das tradicionais doses servidas em copitas ou glencairns, havia somente uma taça e uma pequena caixa de madeira, semelhante àquela de charutos. Dentro dela, pequenos vidrinhos, contendo seis doses de whisky e alguns aromas – como baunilha, chá defumado Lapsang Souchong e grama molhada. A ideia é que pudéssemos experimentar o quanto quiséssemos de cada um dos whiskies. O que restasse, levaríamos para casa para uma nova prova.

Kit (Foto: Diego Muller)

Durante a degustação, nossa guia explicou alguns fatos sobre a destilaria. A Lagavulin produz, hoje, 1,4 milhões de litros de whisky. A cevada é trazida da irmã Port Ellen Maltings, especificada com 35 partes por milhão de fenóis. A fermentação leva em torno de sessenta horas – a média das destilarias escocesas – e o resultado é dividido em dois alambiques de primeira destilação, com conteúdo de dez mil e quinhentos litros cada. Aí está um diferencial importante da Lagavulin. Os alambiques são carregados com 85% de sua capacidade total. Isso contribui para a oleosidade do destilado final.

Os alambiques de segunda destilação (spirit stills) da Lagavulin são mais baixos que os de primeira e possuem braços descendentes – o que aumenta também a oleosidade da bebida. A segunda destilação leva bastante tempo. Dez horas. A razão disso é muito simples. Os alambiques são carregados quase até transbordarem, a 95% de sua capacidade. Leva bastante tempo para que aquele par de belas peças de cobre deem conta de tudo que está em seu interior. O coração dos Lagavulin começa com 72% de álcool e termina em 59%. É um corte bem largo.  A pungência do whisky – suas notas indiscutivelmente medicinais, defumadas e de cera – provém da união de todos estes fatores.

Nosso kit continha alguns dos aromas essenciais dos Lagavulin. Pudemos provar o último Feis Ile, lançado em homenagem à mais importante festa anual de Islay, bem como a edição especial com 8 anos de maturação, recentemente lançada. A cada taça, éramos estimulados a encontrar semelhanças entre os whiskies e os aromas incluídos na caixa. Tudo muito elegante. Nossa guia explicou que algumas das expressões lá contidas não fazem parte do portfólio permanente da destilaria. Este conta apenas com dois whiskies – o Lagavulin 16 e o Distiller’s Edition, além de uma edição limitada anual – o 12 anos Cask Strength. É um portfólio bem reduzido, mas para produzi-lo, a destilaria funciona quase ininterruptamente.

FUMAÇA DO PASSADO

Mas o que nossa guia deixou de contar é que a Lagavulin nem sempre teve este sucesso estrondoso. Em suas primeiras décadas, aconteceu um famoso caso de animosidade com um de seus célebres vizinhos. A Laphroaig. Ocorre que até 1907 havia um acordo entre Peter Mackie, um dos sócios da Lagavulin – e do famoso White Horse – e a Laphroaig. O contrato previa que Mackie usaria sua agência de distribuição para entregar também Laphroaigs. Era uma situação win-win: Mackie poderia apresentar seu malte para os compradores de Laphroaig, enquanto esta se beneficiava de distribuição terceirizada e bem feita. Porém, em 1907 a Laproaig resolveu andar com as próprias pernas, e criar sua própria rede de distribuição.

Peter Mackie ficou absurdamente enraivecido. Sua raiva foi tamanha que ele, por mais de uma vez, tentou sabotar a destilaria e tirá-la do mercado. Em uma das tentativas, construiu uma barragem entre a Lagavulin e sua repentina inimiga, numa tentativa de impedir o fornecimento de água à destilaria. A Laphroaig foi à justiça e venceu. Não satisfeito, Mackie resolveu que, na verdade, o melhor seria copiar a vizinha. Gastou rios de libras construindo uma cópia em miniatura da Laphroaig, e a batizou de Malt Mill. A destilaria funcionou de 1908 a 1962. No entanto, nenhum dos atuais funcionários da Lagavulin lembram-se do sabor da Malt Mill. O whisky era usado em blends, como o Lammas Brew e Old Highland Whisky.  A Malt Mill foi ressucitada no filme A Parte dos Anjos (“The Angel’s Share”) de Ken Loach. Na película, um barril esquecido da destilaria é encontrado, e leiloado por milhares de libras.

A única garrafa de Malt Mill conhecida (e eu, subliminar).

Mas toda esta história é fumaça do passado. A Lagavulin, hoje, é a liquefação da sofisticação bruta, a nobreza dos maltes de Islay. Parece haver um ritual, uma cerimônia, para tudo. Mesmo que este delicado ritual termine em um violento golpe defumado em nossos paladares. Um golpe que eu tomaria novamente sem o menor esforço.

Drink do Cão – Dramble

Uma pequena mudança ali, uma substituição aqui e pronto. Como já disse uma vez, nada é tão bom que não possa ser melhorado. Um perfeito exemplo disso é a história da maior contribuição do povo norte-americano à gastronomia internacional. Um dos pratos mais polivalentes do mundo. O cheeseburger.

No começo, o cheeseburger, ou melhor, o hambúrguer – um prato tipicamente alemão – não passava muito de uma carne moída temperada. Até que os americanos, mundialmente conhecidos por deixar qualquer comida gorda, o aperfeiçoaram, introduzindo o pão.

Mas o ser humano é inventivo e não tem limites. Não havia qualquer razão para parar por aí. assim, em meados de 1920, um rapaz que trabalhava com o pai em sua loja de sanduíches, chamado Lionel Sternberger, resolveu experimentalmente fritar queijo junto com a carne.

Quase um século depois, o cheeseburger está por toda parte. Naquele restaurante elegante, na padaria da esquina, no foodtruck e na festinha infantil – onde é disputado como a mais incrível das iguarias. Ele é o grande representante da comida rápida, mas que facilmente pode se adaptar à sofisticação da alta gastronomia. Quem diria que a combinação de pão, carne e queijo fosse ficar tão boa.

Uma combinação muito semelhante a essa é a do Bramble, coquetel que leva limão siciliano, gim, calda de açúcar e Crème de Mûre. Ele foi criado nos anos oitenta, pelo bartender Dick Bradsell, no bar Fred’s Club, de Londres.  É um coquetel que equilibra com enorme competência o cítrico do limão siciliano com o dulçor do Crème e as notas herbais do gim. Apesar de ser  relativamente jovem, o Bramble já figura entre os coquetéis oficiais da International Bartender’s Association, e está entre os cem melhores do Difford’s Guide. Aliás, Bradsell possui duas criações dentre os cem. O Bramble e seu Espresso Martini. Se quiser saber mais, leia aqui uma excelente matéria sobre ele produzida pelo Mixology News.

Name is Bradsell, Dick Bradsell.

O Bramble parece irretocável. Só que, assim como o hambúrger, há sempre espaço para aperfeiçoamento. Com uma simples substituição, descoberta por acaso por Jacob Briars, embaixador mundial da Bacardi, temos algo ainda melhor. Quer dizer, ao menos para um apaixonado por whiskies, como este Cão.

De acordo com Fraser Campbell, embaixador mundial dos whiskies Dewar’s, certo dia Jacob brincava de substituir a base de coquetéis famosos por Dewar’s 12 anos. A ideia de produzir um bramble com o whisky não foi exatamente premeditada. Ela foi uma de muitas tentativas despretensiosas naquele dia. A maioria delas, experimentada pela primeira e última vez naquele dia de ócio criativo. Mas ao provar aquela sua criação, Briars percebeu que havia criado algo extraordinário. E assim nascia o Dramble. O nome foi um trocadilho com o do coquetel que lhe inspirou e a palavra “dram” – usada pelos escoceses para referirem-se a uma dose de whisky.

A preparação do Dramble é muito semelhante àquela do Bramble. A única diferença é a substituição do gim por whisky. Neste ponto, eu normalmente diria a você, querido leitor, que teste com sua garrafa favorita. Diria para usar a criatividade, e testar com algo defumado, para depois correr para algo com influência de vinho jerez.

Mas, dessa vez, excepcionalmente, não farei isso. Serei categórico. Use Dewar’s 12 anos. Eu sei que pode funcionar com outros whiskies. Mas é que o coquetel foi concebido utilizando o blend como base. E ainda que a simples substituição de uma base alcoólica por outra – o gim pelo whisky – possa parecer algo trivial, o coquetel somente tornou-se um novo pequeno ícone por conta do Dewar’s e do esforço e talento de Fraser, que tornou o Dramble seu cartão de visitas. E para falar a verdade, O Dramble parece mesmo ter nascido para o Dewar’s. É uma combinação perfeita.

Há outra ressalva que preciso fazer. Quando comecei a preparar este texto, tive uma enorme dificuldade em encontrar Crème de Mûre. Recebi diversas sugestões excelentes, mas uma delas – do prestativo bartender Thiago Crimsom – me pareceu interessante. A de preparar seu próprio Crème, utilizando amoras congeladas. O interessante é que com este método você pode regular o quanto de dulçor exatamente quer no licor, criando um drink absolutamente perfeito para seu paladar. A receita de seu  Crème de Mûre seguirá após a do coquetel.

Assim, queridos leitores, preparem-se para um clássico revisitado como poucos. E claro, para revisitar também o supermercado (ou você, por acaso, estoca amoras e Crème de Mûre em casa?). Agarrem a garrafa de Dewar’s 12 e contemplem este incrível filhote do ócio criativo. O incrível…

…DRAMBLE

INGREDIENTES

  • 50 ml de Dewar’s 12
  • 25 ml de sumo de limão siciliano
  • 12.5 ml de calda de açúcar (ao invés de 1:1, faça na proporção de 2:1 – dois de água para um de açúcar. Veja como preparar a calda aqui)
  • 10 ml de Crème de Mûre (Não é um item muito fácil de se encontrar por aqui. Por sugestão de Fraser Campbell, em sua recente viagem para o Brasil, tente substituir o Crème de Mûre por Crème de Cassis. Pode funcionar)
  • Amora
  • Gelo picado

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes (menos a amora e o Crème de Mûre) em um copo baixo
  2. Adicione um pouco de gelo picado ao copo, até cobrir o líquido, e mexa com uma colher bailarina
  3. complete o copo de gelo picado
  4. desça com cuidado o Crème de Mûre sobre o gelo, de forma que ele escorra lentamente até chegar ao fundo do copo
  5. Decore com uma amora

PARA O CRÉME DE MURE

INGREDIENTES

  • Pacote de 1kg de amoras congeladas
  • açúcar refinado
  • Vodka (por favor, bom gosto aqui, meus caros)
  • Brandy (não, não precisa ser aquele seu Hennessy XO. Um brandy razoável funciona).

PREPARO

  1. Deixe as amoras descongelarem dentro da embalagem. Depois, congele novamente. Isso formará pequenos cristais de gelo ao redor das frutas. Estes cristais perfurarão as cascas, e extrairão o sumo que utilizaremos a seguir.
  2. Descongele novamente as amoras sobre uma peneira, com algum recipiente embaixo. A ideia é que o sumo atravesse a peneira e caia no recipiente. É impossível determinar quanto de sumo sairá neste processo. Isso dependerá bastante de uma série de fatores. Este Cão extraiu, em suas duas tentativas, aproximadamente 100ml de sumo para 1kg de amoras congeladas.
  3. Prepare um xarope simples, utilizando o sumo de amora no lugar da água (veja como preparar esta calda aqui). Se achar seu licor muito doce na primeira tentativa, procure aumentar a proporção de sumo na segunda. Assim você pode controlar o dulçor do Crème.
  4. Adicione a este xarope a vodka e o brandy, numa proporção de 1 de cada para 3 de xarope (1 parte de brandy e 1 parte  de vodka para 3 partes do xarope).
  5. Guarde na geladeira por até 15 dias.

Ardbeg An Oa – Sobre o Caos

Sabe, eu não acredito muito em destino. Na verdade, é bem o contrário. Acho que estamos aqui bem por acaso, que o mundo é um enorme caos que tende, cada vez mais, à entropia. Arrumar é mais difícil que bagunçar, encontrar é mais penoso do que perder. As coisas naturalmente se deterioram, ainda que, implacavelmente, tentemos conservá-las. É um movimento antinatural, em um universo que não é muito mais do que uma enorme bagunça. Destino é meramente coincidência.

Deixe-me explicar, sem soar pedante ou descrente, com uma metáfora bem imbecil. O destino é uma espécie de roleta de cassino. Quando a bolinha estaciona em uma casa que não apostamos, simplesmente ignoramos o resultado. Não há reconhecimento. Porém, se ela porventura acabar naquela que elegemos, bem, aí nos deslumbramos com o destino. Reconhecemos que aquela bolinha e nós estávamos predestinados àquele resultado.

Mas vou assumir algo aqui. Ainda que eu acredite nisso na maioria das vezes, em poucas delas, é realmente difícil aceitar que não existe qualquer espécie de destino. Uma delas aconteceu comigo há poucas semanas. Havia marcado uma viagem à Escócia, para visitar as destilarias de Islay. Sem qualquer razão específica, apenas curiosidade. No dia do meu embarque, soube que a Ardbeg havia lançado um novo whisky em seu portfólio permanente. O An Oa. Aliás, a primeira expressão a entrar na linha perene em quase uma década. Era coincidência demais.

O An Oa não possui idade declarada, e é uma curiosa combinação de diferentes barricas. Há carvalho europeu que maturou vinho jerez, carvalho americano de ex-bourbon bem como carvalho americano virgem. Algo, aliás, bem incomum, especialmente para um whisky enfumaçado de Islay. Os whiskies são combinados em um novo tonel, recentemente inaugurado por Bill Lumsden – o whiskymaker da Ardbeg.

O breve nome é uma homenagem a uma formação rochosa pertencente a uma península, o Mull of Oa, localizado no sudoeste de Islay. O local é visível antes da chegada à costa de Kildaton, onde a Ardbeg está situada. A ideia é que assim como Oa – que está antes de Kildaton para navios que se aproximam – a nova expressão seja mais acessível para aqueles apresentados aos Ardbegs.

Ardbeg (foto: Diego Muller)

O An Oa é um whisky claramente enfumaçado, mas pouco agressivo, e com um final bastante frutado e adocicado. Lembra bastante o extraordinário Ardbeg Corryvreckan, mas é bem menos apimentado e mais adocicado. Enfim, bem menos desafiador, como pretendido pela destilaria. Mas é claro, vale apontar que ele ainda mantém os genes de sua criadora bastante vivos.

Como disse uma vez, ao falar do Ardbeg Dark Cove, acertar na maturação de whiskies que possuem a participação de jerez não é nada fácil. Pode-se passar do ponto facilmente, exagerando na influência da madeira e eclipsando o sabor enfumaçado característico da destilaria. Porém, como acontece no Dark Cove, o An Oa é bem resolvido. O sabor de fumaça e medicinal estão lá, com um certo sabor de açúcar mascavo bastante agradável.

Por enquanto, o Ardbeg An Oa não está disponível em nosso país. A única expressão da destilaria a desembarcar em nossas terras é o Ardbeg Ten. Porém, talvez, em um futuro próximo, tenhamos também esta expressão à nossa disposição. É impossível prever. Como disse, o universo é regido pelo caos e pela incerteza. No entanto, com um empurrãozinho do acaso, pode ser que ele apareça por aqui. Ah, bem que poderia ser destino.

ARDBEG AN OA

Tipo: Single sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Ardbeg

Região: Islay

ABV: 46,6%

Notas de prova:

Aroma: Enfumaçado, com iodo e um aroma subliminar frutado e cítrico.

Sabor: Defumado e seco, que progressivamente vai se tornando mais adocicado. Podia jurar que senti mexericas, mas não arrisquei traduzir.

 Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

 

Especial Escócia – Visita à Ardbeg

Tenho um amigo que comprou uma Harley Davidson. O problema é que ele não comprou apenas a motocicleta. Ele comprou duas jaquetas de couro da Harley Davidson também. E um capacete vintage da Harley Davidson. E um par de luvas da Harley Davidson. Dois adesivos, para colar no carro, dizendo que tem uma Harley, e, por fim, mas não menos importante, uma caneca, um abridor de latas e um jogo de bolachas de copo. Itens que não tem nada a ver com a moto. Mas que, para ele, fazem todo sentido.

A verdade é que meu amigo nem gosta tanto de andar de moto assim. De moto. Mas de Harley sim. Porque, nas palavras dele, ela não é apenas uma moto. É praticamente um estilo de vida, que possui uma legião enorme de fãs alucinados ao redor do mundo.

Se houvesse uma destilaria comparável à Harley Davidson no mundo do whisky, ela seria a Ardbeg. Para os admiradores da marca, a Ardbeg é praticamente um culto. Há embaixadas internacionais e dias dedicados a ela. E não é para menos. Este Cão Engarrafado teve a oportunidade de conhecê-la em sua recente viagem à Escócia. A destilaria é inacreditável.

Se a Bruichladdich é inovação, a Ardbeg é bravura. O lugar é quase intimidador. Há um enorme alambique de cobre ao ar livre, logo em sua entrada. Seu pátio possui uma enorme logomarca, que pode ser vista do ar. A encosta marítima, oposta à entrada, é pedregosa e irregular. E há por toda parte um vento implacável. A única coisa que destoa daquela atmosfera é nosso guia. Um senhor amável, solícito e com enorme conhecimento sobre aqueles prédios.

Entrada

No começo de nosso tour, somos conduzidos ao moinho, do começo do século vinte. Robery Boby Limited. Um dos únicos de sua espécie. Apenas outras três destilarias do mundo ainda o usam. Bruichladdich, Glen Scotia e Box. Segundo nosso guia, o moinho recebera poucas benfeitorias ao longo de seu quase um século de vida. A primeira delas foi a troca de suas engrenagens de madeira por metal. A outra, a troca do vapor – que antes era sua fonte de energia – por luz. E, por último, uma plástica. Ele foi pintado de verde, para combinar com a cor oficial da destilaria.

Nosso guia explica que a cevada utilizada pela Ardbeg passa pelo tradicional processo de secagem em um forno abastecido por turfa, que a impregna com aroma enfumaçado e medicinal. O nível de defumação pode ser medido em partes por milhão de fenóis, o composto responsável pelo aroma de fumaça. O malte da Ardbeg possui, em média, cinquenta e cinco partes por milhão. É um dos mais defumados da ilha.

Somos ensinados que a água usada pela Ardbeg provém do lago Uigedail – que, em gaélico, significa algo como “lugar escuro e misterioso”. A água é tratada para alguns processos, como a diluição do whisky antes do engarrafamento em algumas expressões.

A Ardbeg possui seis washbacks feitos de madeira. Disparei a pergunta que muitos já fizeram a ele. Se a madeira fazia alguma diferença. A resposta, clara e ensaiada, foi que é claro, a madeira traz um certo aroma de esteres ao mosto, que washbacks de aço inoxidável não dariam. Depois, tivemos a oportunidade de provar o mosto fermentado – uma espécie de cerveja, com graduação alcoólica de aproximadamente nove por cento, mas sem lúpulo. Para minha surpresa, aquilo era ótimo. Defumado e com uma textura interessantíssima. Talvez estivesse começando a me apaixonar pela Ardbeg.

A fermentação da Arbeg leva em torno de cinquenta e duas horas, em washbacks de vinte e três mil litros. Porém, a destilaria possui apenas um alambique de primeira destilação, com capacidade bem menor. Assim, ela primeiro descarrega metade do mosto fermentado e o destila. Depois – após três horas – o restante. Assim, parte do mosto é fermentado por três horas extras. Um método curioso e destemido.

A segunda destilação ocorre em apenas um alambique também. Este é equipado com um purificador. Um curioso tubo, que brota do braço do alambique, e termina em seu bojo. A ideia é que as partículas mais pesadas que, porventura, conseguiram atingir a parte de cima, sejam capturadas por esta peça, e voltem para serem novamente destiladas.

Mas o maior destemor da Ardbeg está, justamente na maturação e engarrafamento. Há uma pletora de diferentes finalizações e tratamentos de madeira. Há versões maturadas em barricas altamente torradas. Há o emprego de carvalho europeu virgem, combinado com jerez e bourbon. E a graduação alcoólica das criações é sempre generosa. Basta pensar que dos quatro whiskies que atualmente compõe o portfólio permanente da destilaria, dois deles passam dos cinquenta por cento de álcool. Não tem como não gostar de uma destilaria dessas.

Como parece acontecer com todas as destilarias de Islay, há uma edição especial, vendida somente na destilaria. É o Ardbeg Kildalton, que ilustra este post. Seu nome é uma homenagem à Kildalton Cross, uma impressionante cruz monolítica de dois metros e meio, datada do século oitavo depois de Cristo, e muitíssimo bem conservada. A cruz está localizada bem próxima à Ardbeg, ao lado das ruínas da igreja de Kildalton.

 

Nossa visita terminou em uma pequena loja da destilaria. Depois daquela experiência, era impossível me conter. Comprei um Ardbeg- o Kildalton. Mas não apenas ele. Comprei uma bolsa da Ardbeg, dois chaveiros da Ardbeg, uma jaqueta e uma camiseta. E nem adianta contestar. É claro que faz sentido.

Whisky Show 2017 – A Disney do Whisky

Todos nós temos fantasias. Para um bibliólatra, talvez seja a Biblioteca Britânica. Já um cinéfilo sonharia participar do Festival de Cannes. Um enófilo, por sua vez, ficaria extasiado – literalmente – em participar de uma grande feira de vinhos, ou talvez de uma série de visitas às suas vinícolas preferidas. Por fim, um microaerófilo, bem, um microaerófilo não gostaria de nada, porque microaerófilo é um tipo de bactéria.

Já para um apaixonado por whiskies, como este Cão, o zênite seria participar do Whisky Show, de Londres. São três dias, mais de uma centena de expositores e seiscentos rótulos disponíveis. Organizado pela The Whisky Exchange de Londres, o Whisky Show é provavelmente o maior evento dedicado à bebida do mundo. Há todo tipo de whisky, das mais incríveis e improváveis regiões do mundo. Há garrafas de milhares de libras – como o Glenmorangie Pride 1978 – e outras bem mais mundanas.

Mundano…

O whisky show é uma espécie de open-bar dos céus, onde quase tudo engarrafado – exceto alguns especiais – pode ser consumidos livremente. Há uma refeição incluída, assim como expositores de produtos relacionados, como embutidos finos e cervejas maturadas em barricas de whisky. Tudo disponível para consumo, apenas pelo preço do ingresso, de cem libras. Cem libras para beber e comer tudo que quiser, durante seis horas consecutivas, em um enorme e elegante saguão – o Old Billingsgate.

Este Cão teve o enorme prazer – e, claro, a responsabilidade – de participar dos três dias do evento, que aconteceu nos dias 30 de setembro e 1 e 2 de outubro. Dois deles, abertos ao público. O último, exclusivo para imprensa. A experiência foi fantástica. Foram mais de cem amostras provadas nos três dias, duas masterclasses frequentadas e dezenas de novos conhecidos.

Um dos pontos altos do show foi a possibilidade de participar de uma despretensiosa aula de highballs – o coquetel – com o lendário Dave Broom. Após desmistificar que o whisky somente pode ser consumido puro, Broom foi corajoso. Misturou Lagavulin – um dos mais respeitados single malts de Islay – com coca cola. Pode ter sido uma manobra para chocar o público. Mas se Broom fez, não há nada de errado em fazermos também, aparentemente.

Harmonizando (foto: Cesar Adames)

Além dele, outros ícones do mundo do whisky estavam presentes. Entre eles, John Glaser (Compass Box), Bill Lumsden (Glenmorangie e Ardbeg) e, claro, Richard Paterson, master blender da Dalmore, que tem em seu nariz um seguro de dois milhões de libras pelo Lloyds Bank.

Dentre as amostras mais interessantes provadas por este Cão estava o Craigellachie 31 anos, recentemente eleito como melhor whisky do mundo. Além dele, mereceram destaque um Brora de 34 anos de idade – da famosa destilaria silenciosa – um Caledonian 1974 e um Glen Grant. Um Glen Grant de cinquenta e dois anos de idade. É isso aí, por extenso, para você não achar que errei na segunda casa decimal.

Das doses mais humildes – mas não muito – estavam dois incríveis lançamentos da Compass Box, Phenomenology e No Name, que estarão à venda a partir de novembro, e que merecem reconhecimento. Além deles, me impressionaram o Glenfiddich 21 Winter Storm, Ardbeg An Oa – que em breve receberá prova solo por aqui – e o Chichibu finalizado em barricas que antes contiveram cerveja IPA. Claro, dentre muitas outras doses memoráveis.

Havia estandes de produtores respeitadíssimos, como The Macallan, Aberlour, Glenfiddich, Dalmore, Laphroaig e Glenlivet, que contracenavam com destemidas marcas novas, como a australiana Starward e as indianas Rampur e Amrut. Havia bourbon também – como um incrível balcão de Pappy Van Winkle – e whiskey irlandês.

Não é sempre que vemos uma mesa dessas.

Ao fim, foram três dias incríveis, que proporcionaram uma experiência que jamais imaginava que teria. Conhecer ao vivo os grandes nomes da indústria, provar alguns whiskies incríveis e – acima de tudo – divertir-se com responsabilidade. O Whisky Show é tão incrível, mas tão incrível, que até mesmo os microaerófilos adorariam.

Especial Escócia – Visita a Bruichladdich

Disse uma vez Fernando Pessoa que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Por mais que eu deteste utilizar quase clichés por aqui – independente e sua origem – não poderia deixar de começar este texto com a citação.

É que depois de quase vinte e quatro horas viajando, finalmente chegamos à terra dos whiskies enfumaçados. Islay. Foram doze horas de voo, divididos por uma conexão. Mais seis horas em um micro-ônibus, que, por sua vez, passou outras duas horas dentro de uma balsa.

Ao chegar na ilha, não conseguia me decidir se o que queria mais era dormir, tomar um banho ou beber. Por sorte, os habitantes possuem uma curiosa forma de resolver tais dilemas. Ao chegar a meu hotel, me deparei imediatamente com o bar.

Após toda higiene pessoal, refeição, algumas doses e, por fim, uma boa noite de sono, estava pronto para conhecer a primeira das destilarias da ilha que visitaríamos. A Bruichladdich.

A Bruichladdich foi fundada por William, John e Robert Harvey, irmãos em uma família já veterana no ramo dos whiskies e proprietária das destilarias Yoker e Dundas Hill. O trio, entretanto, tinha uma ideia ambiciosa. Construir uma destilaria que, desde o início, se destacasse como uma exceção a tudo aquilo que já existia em Islay. E deu certo. Até hoje, a Bruichladdich é uma das mais encantadoras destilarias da ilha.

E uma das mais azuis

Atualmente, a destilaria é uma das mais destemidas da Escócia. Talvez por isso se auto intitulem “Progressive Hebridean Distillers” –algo como “Destiladores Progressistas das Hébridas”. Isso fica claro ao observarmos seu enorme portfólio. São três linhas de whisky. Uma é razoavelmente defumada; outra, sem nenhuma defumação e uma terceira absurdamente defumada – Octomore. Tivemos a oportunidade de provar um incrível exemplar de cada uma das linhas em nossa visita.

Como se isso não bastasse, a Bruichladdich produz também um Gim, chamado Botanist, que utiliza nove botânicos clássicos e mais de vinte ervas e flores locais. Ele é destilado em um alambique especial e adaptado, chamado Lomond, que foi recuperado pela Bruichladdich da antiga destilaria Inverleven. Por não ser uma das peças de maquinário mais belas do mundo, o alambique recebeu o nome de Ugly Betty (Betty, a Feia).

Bete

Vamos ao papo técnico. A Bruichladdich produz em torno de um milhão e meio de litros de whisky por ano. Sua fermentação leva em torno de setenta e cinco horas, em washbacks de madeira. A Bruichladdich faz todo seu trabalho com apenas um par de alambiques, além de seu Lomond, dedicado ao gim Botanist.

A parte mais curiosa sobre o processo de fabricação dos Bruichladdich é a graduação alcoolica que o destilado vai para a barrica. A maioria das destilarias de islay dilui seu new-make, para que entrem no barril com 63,5%. A Bruichladdich, entretanto, faz diferente. Seu destilado começa a maturação com 68,5%. Segundo nossa guia, esta diferença faz com que o espírito extraia o máximo da madeira. Uma resposta polêmica, mas crível.

Além das expressões tradicionais, ao visitar a destilaria, pudemos provar três whiskies direto da barrica. Um de cada linha principal. O favorito deste Cão foi um Port Charlotte, maturado em barricas previamente usadas pelo famoso vinho Mouton Rotschild.

Fantástico

Além disso, pode-se engarrafar seu próprio single malt. São as edições Valinch, disponíveis apenas na destilaria, e que variam de acordo com o tempo. A garrafa que ilustra este post é um Valinch maturado em barricas de vinho tinto de uva shiraz, selecionada por um funcionário da destilaria – Administrador de TI e de Compliance para o consumidor, Roddy MacEachern.

Ao sair da Bruichladdich, minha impressão foi de deslumbramento. É incrível como uma destilaria que valoriza tanto a tradição e o terroir pode, ao mesmo tempo, ser tão criativa e inovadora. Das expressões mais simples às mais sofisticadas, a Bruichladdich literalmente destila criatividade.

Spirit Safe com aula de gaélico. Clachan a Choin significa “o saco do cachorro”. Sério.