Drops – Compass Box The Peat Monster Arcana

Drops são nossos posts menores, de análise ou curiosidades do mundo do whisky, e que contam com rótulos indisponíveis no Brasil – mas com alguma particularidade interessante. Para ler outros drops, clique aqui


Expectativa é uma coisa engraçada. Há whiskies que, só de ler, me dão nervoso para experimentar. Mas que são decepção do momento de abrir o lacre a dar o primeiro – e algumas vezes o último – gole. Há outros que são o oposto. Não provocam nem um arquear de sobrancelhas durante a leitura. Mas, ao primeiro gole, me deixam acenando positivamente com a cabeça – depois, claro, de dizer algum palavrão de enaltecimento qualquer.

E há aqueles que são os dois. O Compass Box Peat Monster Arcana está nesta classe. Aliás, a Compass Box Whisky Co. quase gabarita esta classe. A empresa foi fundada em 2000 por John Glaser, ex executivo da Diageo, como uma espécie de produtora boutique de whiskies de altíssima qualidade. A maioria de seus rótulos possui alguma invencionice, ou iconoclastia. A empresa procura sempre trazer inovações, e expandir as fronteiras da produção de whisky – e claro, com um storytelling perfeito.

O Compass Box Peat Monster Arcana é, de certa forma, a conjunção de duas dessas histórias. O Peat Monster e o Spice Tree. Para ser mais preciso – parte do blend do Peat Monster, e as criativas barricas do Spice Tree. De acordo com a própria Compass Box “uma combinação de barris cujo corpo é de carvalho americano, e as tampas de carvalho europeu tostado, nossos barris customizados geram um sabor que nos agrada. Entretanto até 2016, os efeitos destes barris em whiskies defumados permanecia um mistério.”

Proporções dos barris do Arcana. Clique abaixo para baixar.

O blender responsável pelo Peat Monster Arcana foi James Saxon, parte do time da Compass Box. O whisky partiu de uma versão cask strength do peat monster tradicional. O whisky foi colocado em três barricas híbridas – com corpo de carvalho americano e tampas de carvalho europeu tostado – e deixado para maturar por mais de dois anos. Aquelas barricas, aliás, já tinham sido utilizadas pela própria Compass Box para maturar seu “highland blend”, um dos elementos que compõe parte de sua linha. Depois, o whisky foi misturado com outros três single malts.

A composição do Compass Box Peat Monster Arcana é abertamente divulgada pela Compass Box. Ele contém 72,9% de Talisker, 10,6% de Miltonduff e 6,9% de Ardbeg, além de 9,6% daquele Peat Monster experimental, que fora colocado nos barris customizados da Compass Box. O resultado foi um blended malt que ainda mantém o DNA do Peat Monster, mas, mais refinado, menos medicinal e pungente, e mais equilibrado e frutado.

Infelizmente – e como acontece com todos os nossos Drops – o Peat Monster Arcana não está à venda em nosso país. O que torna esta prova quase um exercício de maldade gratuita. Porque você, querido leitor, agora terá sentido exatamente o que senti. Deve ser o feitiço dos grandes whiskies.

COMPASS BOX PEAT MONSTER ARCANA

Tipo: Blended Malt sem idade definida

Marca: Compass Box Whisky Co.

Região: N/A

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: fumaça de bacon, levemente cítrico, iodo. Frutas vermelhas.

Sabor: Frutas vermelhas, pimenta do reino. O final é longo e vai se tornando progressivamente enfumaçado. A sensação de trazida pela turfa é menor do que no tradicional Peat Monster. As barricas estão mais evidentes.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

Lamas Smoked Single Malt – Combinações

Vou começar o post de hoje com uma auto-paráfrase. Não por falta de criatividade, mas, porque creio que se aplica perfeitamente à harmonização de hoje ” Goiabada e queijo, hot dog e mostarda, limão e cachaça. Batata palha e estrogonofe, vermute e campari, linguiça e feijão. TPM e chocolate, Microsoft Windows e Ctrl + Alt + Del. Chuva e Netflix, hambúrguer e batata frita e bacon com absolutamente tudo. Há coisas que foram criadas para combinarem, involuntariamente, com outras. Coisas cujo resultado é maior do que a soma das partes. 

Charutos e whiskies são assim. É raro que uma combinação entre charuto e whisky saia terrivelmente errado. Porém, isso não significa que qualquer uma funcionará. Algumas ficam desequilibradas – como um charuto delicado com um whisky enfumaçado e potente. Outras, ficam simplesmente sem graça. Mas quando eu acerto, ah, aí é absolutamente incrível. Os dois se complementam, e extraem do outro sabores e aromas que eu jamais sequer imaginaria que existissem lá.

E foi pensando justamente nesta combinação – esta soma que não tem nada de matemática – que o professor Cesar Adames, em parceria com a destilaria Lamas, de Minas Gerais, lançaram o Smoked Single Malt Whisky – um whisky criado especialmente para ser combinado com charutos. O nome, diremos assim, sintético, já dá uma boa ideia do que é o líquido. Um single malt defumado, cuja base é o Lamas Nimbus, limitado a 400 garrafas. Mas, com uma graduação alcoolica bem mais generosa, de 51%. E finalizado em barris de carvalho que antes contiveram a stout Durak, também da Lamas.

A Lamas

A defumação do Lamas Smoked Single Malt Whisky é bem sui-generis. É a mesma do Lamas Nimbus e do nosso querido Caledonia II. Não há turfa envolvida no processo. A cevada maltada é umedecida novamente na Lamas, e passa por uma segunda secagem, mas utilizando madeira de reflorestamento. Isso traz uma nota enfumaçada mais aromática, que remonta a incenso e especiarias. Não há a tradicional nota medicinal dos single malts turfados, mas, há um aroma de madeira em brasa bastante característico.

A maturação aconteceu de forma escalonada. Primeiro, maturou em barris de carvalho americano. Depois, foi transferido para barris – também de carvalho americano – mas que contiveram a imperial stout da Lamas, a Durak. Há, inclusive, a versão contrária da brincadeira. Uma Durak envelhecida em barris de single malt da destilaria. Essa segunda maturação trouxe notas amargas, de café e chocolate ao whisky. Uma adição muito bem vinda, especialmente considerando a combinação com charutos mais potentes.

Por fim, a graduação alcoólica é de 51%, o que torna o Lamas Smoked Single Malt Whisky o whisky mais alcoólico produzido no Brasil oficialmente. Aqui, há um ponto muito interessante. O whisky é vendido somente em um kit, que acompanha uma garrafa de água VOSS – reconhecida por sua pureza e neutralidade. A ideia é que o consumidor, ao harmonizar, e dependendo do charuto que escolher, possa reduzir o ABV do whisky, até atingir o ponto de equilíbrio perfeito.

Mas, mais do que um whisky criado para combinar com puros, o Lamas Smoked Single Malt Whisky é também uma homenagem à cultura charuteira. O rótulo faz alusão às caixas de charutos cubanos, e o selo de edição limitada presta homenagem àqueles usados nas tiragens mais exclusivas dos habanos. A embalagem está apinhada de pequenas referências bem-humoradas, como a imagem do charuto na rolha. A graduação alcoólica, aliás, é uma delas: “é que se alguém perguntar, vou dizer que foi uma boa ideia” declarou Adames.

Adames, estudando whiskies no Whisky Show de Londres

A garrafa (de generoso um litro ) do Lamas Smoked Single Malt Whisky está à venda exclusivamente em dois pontos. Na loja oficial da Lamas Destilaria e no Caledonia Whisky & Co., em São Paulo. Em ambos, o preço é de R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais). Outros pontos especializados em charutos receberão também o whisky em dose, como a Caruso Lounge e a Tabacaria Lenat – habitat natural do Lamas Smoked Single Malt Whisky.

Se você gosta de whiskies maturados em barris de cerveja, e se é um apaixonado por charutos, o Lamas Smoked Single Malt Whisky é uma peça indispensável em sua coleção. Ele é a máxima homenagem brasileira à cultura charuteira. Há coisas que foram criadas para combinarem, involuntariamente, com outras. Mas, quando elas são criadas voluntariamente, ah, aí é melhor ainda.

LAMAS SMOKED SINGLE MALT WHISKY

Tipo: Single Malt

Destilaria: Lamas

País: Brasil

ABV: 51%

Notas de prova:

Aroma: baunilha, caramelo, cedro, incenso.

Sabor: herbal e enfumaçado, com notas de cravo, canela, pimenta do reino, chocolate e café. Final longo, apimentado, com incenso e madeira.

Disponibilidade: a venda com a destilaria e no Caledonia

*a degustação do whisky tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

Drops – Alberta Premium

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Há muitos fatos interessantes sobre o Canadá. Aí vão alguns exemplos. A bandeira do Canadá somente foi criada 100 anos depois de ter se tornado um país. Setenta e sete por cento de todo xarope de bordo do mundo é produzido no Canadá. E agora, uma curiosidade realmente aleatória. A região de Manitoba, no Canadá, é o lar da maior orgia a céu aberto de cobras-liga do mundo, com mais de sete mil répteis. E no Canadá, a maioria dos whiskies de centeio (rye whisky) levam muito pouco centeio.

É isso aí. No Canadá, para que um whisky seja chamado de “rye whisky” (whisky de centeio), ele não precisa necessariamente ter predominância de centeio. Parece estranho e é mesmo. Acontece que no século dezenove, os canadenses começaram a produzir whisky com o excedente de sua produção de trigo. Como você sabe, ou deveria saber porque segue o Cão Engarrafado, trigo traz suavidade ao whisky. Naturalmente, em algum ponto da história, algum gênio resolveu adicionar um tantinho de centeio à mistura. O que faz todo sentido.

E voce achava que só na Austrália que tudo queria te matar

Centeio traz um sabor apimentado e herbal e é perfeito para dar tempero a um whisky cujo destilado seja essencialmente leve ou adocicado. É, basicamente, como colocar um pouquinho de pimenta do reino no seu carbonara. De acordo com Davin de Kergommeaux, da Whisky Magazine “Este novo whisky trazia mais sabor que o whisky comum, e quase todo mundo o preferiu. Os consumidores passaram a pedir ‘rye’, um whisky com uma pequena adição de centeio. Eventualmente, a palavra ‘rye’ passou a fazer parte do léxico canadense como sinônimo de whisky”.

O problema de tudo isso é que, recentemente, o rye whiskey americano voltou à voga. Este, de acordo com a legislação norte-americana, deve ser feito com, no mínimo, 51% de centeio. E isso causou – e causa – uma certa confusão entre os consumidores da bebida. O curioso, entretanto, é que é raríssimo encontrar um whisky de centeio canadense que use predominantemente centeio em sua fórmula. E este é o caso do Alberta Premium. Que, aliás, gabarita o quesito, porque o único grão usado é justamente centeio.

A maturação do Alberta Premium acontece em barricas de carvalho americano por um prazo não divulgado. Especula-se, entretanto, que esteja pelos cinco anos. Ele é engarrafado com a graduação alcoólica original do barril – cask strength. Não há diluição com água entre a retirada dos barris e o engarrafamento. Por conta disso, o percentual alcoolico varia de lote para lote. A garrafa provada, do segundo lote, orgulhosamente estampava a preocupante graduação de 66%. O que torna o Alberta Premium Cask Strength Rye o whisky mais alcoólico a figurar nestas páginas até hoje.

O Alberta Premium Cask Strength Rye foi eleito por um certo crítico do mundo dos whiskies como o melhor whisky do mundo em 2020. Este Cão não iria tão longe. Não por causa do whisky em si, mas, por uma questão de lógica. Coisas de naturezas distintas não podem ser comparadas de forma isonômica. Como colocar, ombro a ombro, um rye whisky canadense e um turfado de Islay? Ou um elegante single malt de speyside, com mais de três decadas de maturação, ao lado de um bourbon barrel-proof?

Seja como for, o Alberta Premium Cask Strength Rye é um whisky excelente. No nariz, há pimenta do reino, cravo, canela e um herbal, que permeia toda a prova. O ataque alcoolico, mesmo no nariz, é muito intenso. Para reduzir esta percepção, recomendo um pouquinho de água. No paladar, a impressão etílica continua, com um certo dulçor acompanhado de um final longo – aliás, muito longo – herbal e apimentado. O melhor do Alberta Premium Cask Strength Rye, aliás, na humilde opinião deste canídeo, é justamente isso. Uma finalização persistente, que te convida ao próximo gole quase involuntariamente – quando você já esqueceu a voadora etílica do gole anterior.

Prova da prova.

Se você procura um whisky diferente, que possa adicionar algo à sua biblioteca mental etílica, ou se simplesmente quer provar um whisky canadense que realmente vale a pena, o Alberta Premium Cask Strength Rye é sua escolha. Uma pena que, por conta de leis e disponibilidade, o rótulo não esteja à venda em nosso país. Ainda temos que caminhar muito, sobre um enorme tapete de cobras, até que rótulos como este desembarquem em nossas terras.

ALBERTA PREMIUM CASK STRENGTH RYE

Tipo: Canadian Whisky (100% rye)

Marca: Alberta

Região: N/A

ABV: 66%

Notas de prova:

Aroma: álcool, cravo, canela, pimenta, hortelã.

Sabor: Mel e caramelo, mas com punch alcoolico muito alto. Pimenta do reino, hortelã, cravo. Final persistente, com especiarias e herbal.

Ward Eight – Sufragistas

A variedade é o que dá tempero a vida. Pense, por exemplo, no brigadeiro. O docinho, aquele, com leite condensado, chocolate e manteiga. Hoje tem brigadeiro de tudo. Laranja, doce de leite, macadamia, nozes, nutella, pistache. Tem até brigadeiro de outros doces, tipo brigadeiro de pé de moleque e brigadeiro de beijinho, que é um negócio que eu nunca vou entender. E brigadeiro de brigadeiro mesmo, só que com uma miríade de chocolates. A quantidade de variações é tão grande que justifica – mais ou menos – a existência de um dispensário exclusivo da guloseima. As brigaderias.

Mas antes de se tornar uma classe inteira, o brigadeiro era apenas um doce. Um doce com viés político. Ele fora criado por Heloísa Nabuco de Oliveira, uma senhora que apoiava a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes à Presidência da República de 1946. A criação tinha tudo a ver com o momento histórico – por conta da Segunda Guerra Mundial, produtos frescos ainda rareavam nas prateleiras dos mercados. E, por isso, o doce foi concebido com leite condensado – um substituto que começara a ser comercializado na década de 40.

O brigadeiro era servido nas festas dos correligionários e cabos eleitorais de Gomes, e de porta em porta, para divulgar sua candidatura. A eleição de 1945, aliás, era a primeira que contava com voto feminino. E, por isso, o partido do brigadeiro lançou um slogan de gosto e baseado em valores duvidosos – “Vote no brigadeiro, que é bonito e solteiro“. Apesar dos esforços tanto na frente da misoginia quanto da pâtisserrie, o militar perdeu as eleições. E o país ficou com a melhor parte de seu legado – uma deliciosa bolinha de chocolate envolta em granulados.

Herança política

Na história da coquetelaria, há também um caso muito parecido com o do brigadeiro. É um coquetel chamado Ward Eight. A criação do Ward Eight é debatida. Sabe-se que ele foi criado na virada do século vinte em Boston. A história mais aceita é que o drink surgiu em 1898 no Locke-Ober, e foi batizado em referência ao oitavo distrito da metrópole (8th Ward). O coquetel surgiu das mãos do bartender Tom Hussion, quando seu chefe Martin Lomasney concorreu à prefeitura do distrito. E venceu. A história, aliás, é material para um belo film-noir. Há inclusive uma subtrama, com representantes de Lomasney entregando cédulas pré-preenchidas na boca das urnas.

O Ward Eight é, basicamente, um whiskey sour, com um poquinho de grenadine – também conhecido como xarope de romã. Assim como o brigadeiro, há infinitas variações para o coquetel. Do serviço aos ingredientes. Algumas variações pedem por uma taça coupé sem gelo, com tudo misturado. Outras, por um copo alto com bastante gelo e o grenadine no fundo, à moda de um sunrise. A diversidade é tão grande que a única linha imaginária que poderia de alguma forma ligar tantas versões é o uso de whisky – que não é necessariamente americano – grenadine e algum cítrico Se bem que, às vezes, nem isso, porque tem versões sem cítrico.

Existe aqui um ponto importante sobre o coquetel. O xarope de romã. O equilíbrio de seu drink dependerá, essencialmente, do grenadine utilizado. E a melhor alternativa não é, na maioria das vezes, viável: fazer seu xarope artesanalmente, utilizando melaço de romã, água, açúcar e um tantinho de vodka. Para evitar que você, querido leitor, morra de tédio enquanto eu descrevo a produção desta iguaria adocicada, darei um conselho quiçá preguiçoso. Compre pronto, mas use com consciência. Dependendo do xarope, um sabor de bala – a lícita – poderá aparecer. Se for o caso, tente mudar o Grenadine. Usei o Marie-Brizard com bons resultados.

Vamos à receita.

WARD EIGHT

INGREDIENTES

  • 60ml rye whiskey (este Cão usou Jim Beam Rye)
  • 25ml (isso é 3/4 de dose) de suco de limão siciliano
  • 25ml de suco de laranja
  • 5ml de simple syrup (xarope de açúcar 2:1)
  • 5ml de xarope de grenadine
  • parafernália para bater

PREPARO

  1. Adicione os ingredientes (menos o grenadine) em uma coqueteleira com gelo. Bata vigorosamente
  2. Desça o conteúdo em um copo à sua escolha, com ou sem gelo, do tamanho e do formato que você quiser. Do jeito que esse drink é, você nem precisa usar copo. Pega um vaso, um prato fundo de sopa, sei lá.
  3. Finalize com grenadine.

Cutty Sark – “Reentrada” – 2021

Em 15 de maio de 1963, a NASA lançava sua última missão tripulada do Projeto Mercury. O objetivo da missão era, principalmente, avaliar os efeitos no corpo humano de uma estadia mais prolongada no espaço, bem como realizar alguns experimentos. A missão foi realizada pelo astronauta Gordon Cooper. Durante os vinte e um dias que ficou em órbita, Cooper fez coisas bem legais, tipo soltar um minisatélite no infinito, medir níveis de radiação no espaço e, bom, dormir. Ele foi a primeira pessoa a dormir em órbita.

Gordon também foi agraciado com uma vista estonteante a partir de sua espaçonave. Ele fez diversas fotos, e conseguiu ver detalhes impressionantes de nosso planeta, como estradas, rios e pequenos povoados. Descreveu que conseguia até mesmo ver a fumaça saindo das chaminés das casas no Tibet – devido à atmosfera rarefeita – e julgar para que lado o vento soprava sobre a cordilheira.

Mas nem tudo foi poesia durante a jornada de Cooper. Durante sua vigésima primeira volta ao redor da Terra, o inversor de energia da nave entrou em curto circuito e apagou todas as leituras de altitude e velocidade – algo que atrapalharia bastante o trabalho de retornar à salvo para a Terra. Além disso, Gordon notou que os níveis de gás carbônico em seu traje aumentavam à medida que o oxigênio rareava. Ainda que a situação fosse calamitosa, Gordon apenas declarou, serenamente “as coisas estão começando a se acumular por aqui“.

Muitos poderiam indagar a razão da calma do astronauta. E ninguém, senão o próprio Cooper, sabe ao certo. Uma das hipóteses, entretanto, envolve whisky. Gordon Cooper gostava de Cutty Sark, e havia escondido uma miniatura de garrafa na espaçonave, para fazer um lanchinho caso julgasse necessário. O que levanta outro ponto interessante – Cutty Sark foi talvez o primeiro whisky a dar uma volta completa ao redor da terra. Do espaço!

Por isso essa risadinha

O Cutty Sark foi sempre um whisky pioneiro. Ele foi lançado em 1923 pela Berry Bros. & Rudd, uma empresa de comerciantes de bebidas. O blend fora desenvolvido por eles especificamente para agradar ao paladar dos norte-americanos. O que era um movimento bem ousado – foi uma das primeiras vezes na história que um whisky foi desenvolvido mirando uma audiência específica. Seus criadores sabiam que os americanos apreciavam whiskies mais leves, menos enfumaçados e mais parecidos com os irlandeses. A criação do Cutty Sark se baseou justamente nisso.

Atualmente, a composição do Cutty Sark leva mais de 40 single malts diferentes. Os maltes que entram em sua fórmula, entretanto, são um mistério. Em 2018 – pouco tempo depois de nossa prova original do Cutty Sark – a marca foi vendida pelo Edrington Group – detentor da The Macallan e Highland Park – para o grupo La Martiniquaise, juntamente com a destilaria Glen Moray. De lá para cá, é possível que a composição tenha se alterado. Razão pela qual, aliás, resolvi revisitar o rótulo. Este Cão, entretanto, não notou diferença relevante. O que é ótimo – blended scotch whiskies devem primar por padonização. Independente dos ingredientes do blend, o perfil sensorial deve ser sempre o mesmo.

O nome “Cutty Sark” foi proposto pelo artista escocês James McBey, que fez um rascunho do rótulo em um guardanapo, durante a primeira conversa com os irmãos Rudd para criar o whisky. O rótulo – com o navio – foi desenhado pelo artista sueco Carl Georg August Wallin e figura nas garrafas desde 1955. Reza a lenda que o amarelo no fundo do rótulo teria sido um acidente. Desenhado com uma cor mais pálida, a gráfica responsável teria se enganado, mas os proprietários – Francis e Walter Berry e Hugh Rudd – gostaram do resultado, e resolveram mantê-lo.

O produto deu certo, e alcançou fama num momento de revés para a indústria da bebida alcoolica. O Volstead Act, também conhecido como a Lei-Seca norte americana. Foi naquele período que o whisky ganhou notoriedade ao ser “importado de forma independente” (isso é um eufemismo) por um distinto capitão chamado William McCoy. De acordo com Marcelo Sant’Iago, do Difford’s Guide “De humilde construtor de barcos a procurado pela Lei Seca, William McCoy foi o “rum runner” (apelido dado aos contrabandistas de rum durante a Lei Seca) original. Navegando na famosa “rum row”(linha imaginária no limite das águas territoriais dos EUA), forneceu álcool para a costa leste dos Estados Unidos, desde a Flórida até o extremo norte, no Maine. A expressão “the real McCoy” ate hoje é usada como sinônimo de algo de qualidade“.

The Real McCoy

E qualidade, naquele momento, era algo que realmente importava. Naquela época, o Cutty Sark se mostrou uma alternativa excelente para todos aqueles que queriam continuar a dar seus tragos, mas não queriam arriscar ficar cegos ou morrer lentamente e dolorosamente de envenenamento por metais pesados e álcoois superiores, contidos nos whiskies feitos no fundo do quintal dos americanos.

A palavra de ordem do Cutty Sark é – e sempre foi – leveza. Sensorialmente, o Cutty Sark é adocicado e delicado, com uma nota herbal de fundo que traz harmonia ao blend. O final é curto e adocicado. E ainda que o álcool possa ser percebido, ele não incomoda. É um blend bem acessível – tanto sensorialmente quanto financeiramente – e que funciona bem na maioria das oportunidades de consumo.

Para aqueles que buscam um blended scotch leve e adocicado, com preço e perfil sensorial acessível, o Cutty Sark é uma ótima opção. Esteja você em casa, no bar, ou numa cápsula espacial orbitando o planeta Terra.

CUTTY SARK BLENDED SCOTCH WHISKY

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: Cutty Sark

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: vegetal, floral. Muito suave.

Sabor: mel, malte, frutas cristalizadas. Final curto, adocicado e floral.

*a degustação do whisky tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

Logan Heritage Blend – Herança

Ah, por causa do Vinícius. Toda vez que menciono o nome deste blog a um interlocutor incauto, há sessenta e cinco por cento de chance dele mencionar o poetinha. Eu já contei. Durante uma época, até tomava nota. Este daí perguntou. Esse não. Eu costumava proferir o nome do blog e já engatilhar um sorrisinho de soslaio de antecipação à pergunta. Isso mesmo, a inspiração é o Vinícius de Moraes, sabe, eu adoro aquela frase, que o whisky é o melhor amigo do homem, é o cachorro engarrafado, que legal que você notou.

Depois, ao abrir o Caledonia, outras indagações e afirmações se juntaram ao caderninho de recorrências. Você tem whisky japonês? Você tem aquele canadense do Mad Men? E aquela marca de Taiwan? Este daí é o do James Bond – e aponta pra uma garrafa de The Macallan. E eu sorrio, e respondo, já meio ensaiado, porque o negócio é tipo escovar os dentes ou dirigir até o trabalho. Você já engata o piloto automático e depois até fica assustado quando recobra a consciência voluntária. Mas, dessas perguntas e observações, há uma que eu sempre presto atenção. Meu pai bebia – ou bebe – esse daí.

Dependendo de quem for seu pai, ele até tem umas frases célebres sobre a bebida.

Meu pai bebia esse daí. A frase normalmente precede o apontamento do Logan ou White Horse. Isso sempre me intrigou. Talvez todos meus clientes sejam irmãos, e o pai deles seja tipo um Mr. Catra, que tudo que encostava virava filho. Um Mr. Catra do whisky, que só bebe cavalo branco e Logan. Mas, eu acho que não. Acho que, na verdade, estes whiskies fizeram parte de nossa herança etílica. Junto com mais umas duas ou três marcas, foram os precursores no Brasil do whisky escocês, e ganharam o coração e um espaço no barzinho de nossos progenitores. E é por isso que hoje, eu sempre tenho que acenar com a cabeça num ar meio sonso quando alguém relaciona Logan e paternidade.

Na verdade, o primeiro logan a aparecer no Brasil foi o 12 anos. Mas vamos desenevoar o ar. O Logan Heritage Blend não é a mesma coisa que o Logan 12 anos. O primeiro foi lançado em 2014, justamente para substituir o segundo. O lançamento, aliás, ocorreu em Portugal – um mercado consumidor bem relevante do rótulo – com a presença de sua criadora, a master blender Caroline Martin. A revelação do whisky ao mercado coincidiu também com o centésimo décimo primeiro (isso é 111) aniversário da Logan. A diferença entre os dois blends é perceptível – o antigo 12 anos era mais encorpado e enfumaçado. O Heritage é mais leve e equilibrado.

E já que o clima é de revelações, vamos à composição do Logan Heritage. De acordo com Caroline, o processo de criação do blend levou aproximadamente dois anos. O Logan Heritage – assim como seu predecessor de doze anos – contém uma parcela importante de Lagavulin – um nome de peso para qualquer entusiasta, e o responsável pelo perfil enfumaçado do Logan Heritage – bem como participação especial dos single malts Glen Elgin e Craigellachie. Entretanto, mais de vinte e quatro whiskies distintos foram usados para trazer equilíbrio à bebida.

Aliás, por falar em Lagavulin, há uma relação importante entre a Logan e a famosa destilaria de Islay. Sir Peter Mackie, fundador da Lagavulin e criador do blend White Horse, era sobrinho de James Logan Mackie. A história é que Logan era um comerciante de whisky de Glasgow. Como não possuía filhos, apadrinhou seu sobrinho, e o enviou a Islay, para aprender a fazer whisky. Peter se esmerou no trabalho, e fundou a Lagavulin. Depois de um tempo, James se juntou a ele, e lançou seu querido blended whisky. Por conta disso, tanto White Horse quanto Logan partilham do mesmo coração de malte – o Lagavulin. Atualmente, tudo – sem exagero – pertence à gigante Diageo. Logan, White Horse e Lagavulin.

Lagavulin

O Logan Heritage, de, certa forma, lembra bastante o White Horse. É um blend jovem, que deixa clara sua base de grãos. É, porém, sensivelmente mais adocicado e menos enfumaçado que o clássico do cavalinho branco. Essa troca – de fumaça por dulçor – torna um Heritage um pouco mais elegante. O que é bom, de certo modo. Especialmente para os consumidores que buscam algo imediatamente palatável, com perfil clássico e equilibrado. Este Cão, porém, talvez sinta falta da nota enfumaçada mais clara, outrora presente no Logan 12 anos.

Assim como você e seu pai, o Logan Heritage possui muito do Logan 12 anos. E de seu primo, White Horse. São whiskies que possuem um DNA comum, e que, de certa forma, apelam também para o mesmo público. Aquele que busca um whisky com perfil clássico, enfumaçado mas leve, perfeito para ser bebido com pedras de gelo. Ou colocado ali, ao alcance de todas as mãos, no centro de uma – cada vez mais rara – mesa de confraternização. E pode até ser que ele passe despercebido na prateleira da loja, na sua próxima compra. Mas quando seus olhos repousarem numa garrafa, certeza que você vai dizer “nossa, esse meu pai bebia

LOGAN HERITAGE BLEND

Tipo: Blended Whisky
Marca: Logan
País/Região: Escócia – N/A
ABV: 40%
Idade: Sem idade declarada (NAS)

Notas de prova:

Aroma: mel, caramelo, fumaça.

Sabor: toffee, baunilha, nozes. Final defumado e apimentado.

Dos Barris (ou um miniguia inútil sobre algo que você jamais fará)

Platelmintos e nematelmintos. Planárias são platelmintos e sem dimorfismo sexual, porque são hermafroditas. Eles fazem parte de uma das três classes no qual o filo dos platelmintos é dividido – os tubelários. O que é o contrário de ser dioico, tipo o schistosoma mansoni, que também é um platelminto, mas faz parte da classe dos trematódeos. Ou trematóides, ou tremátodos, não lembro direito. Tudo isso eu sei de cor. Por que, não faço a mais rasa ideia.

Tenho também algumas outras habilidades curiosas. Tipo saber se uma mosca é macho ou fêmea vendo no microscópio – o que também é inútil, porque eu jamais vou reproduzir moscas em cativeiro. Ao menos, não voluntariamente. Além de que, mesmo se eu quisesse, eu só conseguiria verificar o dimorfismo sexual da mosca no microscópio se ela já estivesse morta – e mortos não se reproduzem, exceto na trilogia Crepúsculo. Sei também tocar uma frase da marcha fúnebre de Chopin no piano mesmo nunca tendo tocado nada. E que gatos não sentem o sabor doce, e que aquele grampo preto com duas asinhas que você usa no escritório se chama grampomol.

Sei também fazer um dinossauro de grampomol

Por que eu sei de tudo isso, não faço a menor ideia. Ao contrário de Sócrates, só sei que sei, mas não sei por que. Acho que isso é uma das coisas que nos torna humanos. O acúmulo de cultura inútil. O compêndio mental de fatos e habilidades que jamais usaremos para qualquer fim prático. Aquelas páginas do caderninho mental impossíveis de apagar. O que, de certa forma, se parece com uma porção de coisas que sei sobre whisky. Como, por exemplo, as implicações das diferentes graduações alcoólicas de preenchimento de barril.

Esta matéria é para nós, nerds do whisky, que queremos saber tudo mesmo que pouca coisa seja efetivamente aplicável na vida prática. Afinal, não há serventia em saber por que um barril deve ser preenchido a sessenta e tantos graus etílicos. Aliás, aproveitando, acabei de lembrar outra coisa. A palavra Nerd surgiu pela primeira vez numa publicação infantil, do Dr. Seuss, em 1950, para definir um bicho imaginário, e ganhou força em 1965 quando os alunos de uma universidade nova-iorquina passaram a usar a variação “knurd” pra definir quem só lia e nao bebia – a palavra é “drunk” (bebado) ao contrário.

Tipo provavelmente eu agora, escrevendo isso.

Me explica como se eu tivesse seis anos.

Mas estou a divagar. Vamos começar do básico. A graduação alcoolica padrão para a maioria das destilarias escocesas é de 63,5%. De acordo com artigo de Ian Wisniewski para a Whisky Magazine, esse padrão possui uma razão. A indústria do scotch whisky depende de troca – um escambo glorificado – de barris. Então, para garantir a isonomia neste toma-lá-dá-cá etílico, boa parte dos barris são preenchidos neste percentual. Em alguns casos, há também a troca de new-make spirit, o destilado sem maturação. Neste caso, a graduação etílica é um pouco mais elevada: 70%.

Este número de ouro da tanoaria também possui razões científicas. É nessa graduação alcoólica que há (discutivelmente) o melhor equilíbrio entre a evaporação e a extração dos congêneres provenientes da madeira. Deixe-me explicar isso melhor. Os tão desejados compostos que estão na madeira devem ser dissolvidos para que cheguem ao líquido. Todos estes compostos são solúveis tanto em água quanto em álcool. Mas, não na mesma velocidade. Certos compostos são mais solúveis em água, outros, em álcool. Se você estiver prestando atenção, já deve imaginar onde quero chegar. Dependendo da graduação alcoolica de preenchimento dos barris, considerando que a velocidade de extração é diferente para certos compostos em água e álcool, a destilaria pode incentivar a extração de certo composto em detrimento de outro, aumentando ou reduzindo a graduação alcoólica do new-make que entrará nas barricas.

Efeito do ABV de entrada nos barris (fonte: Whisky-News – G.H. Reazin, Am. J. Enol Vit, 1981, vol. 32, N° 4, p.283-289)

De novo, conforme a matéria da Whisky Magazine, a vanilina é um exemplo perfeito. Responsável por trazer aquele sabor “abaunilhado” para seu whisky, a vanilina é mais solúvel em álcool do que em água. O que sugere que, graduações alcoólicas de preenchimento mais altas poderão extrair a vanilina mais rapidamente do carvalho. De acordo com o livro Whisky Science, de Gregory H. Miller, açúcares são melhor extraídos a graduações etílicas mais baixas, por serem mais solúveis em água do que álcool – ainda que a lignina e a hemicelulose sejam quebradas mais rapidamente no álcool, o que tende a aumentar a concentração de açúcar no mix.

Me parece que há exceções.

Sim. Por conta deste papo quase matemágico, a regra dos 62,5% possui diversas exceções. Uma das mais conhecidas é da Bruichladdich, que preenche seus barris a uma graduação superior a 70%. Outras bem pouco usuais são Aberlour, com 69,1% e Ardbeg, com alguns acima de 64; a Glenfiddich, com duas graduações distintas – 63,5% e 68,5% – e a maluca da GlenAllachie do Billy Walker, com quatro diferentes: 63,5%, 65%, 67% e 69,3%. Pode parecer uma insanidade, mas ter graduações alcoólicas de preenchimento variadas faz sentido. Barris de carvalho europeu comportam-se de uma forma diferente de americano, por exemplo. E, por isso, a graduação etílica distinta poderia equilibrar estas particularidades.

Billy Walker: Aliens!

Há também diferenças de acordo com a quantidade de usos do barril, e o tempo que a destilaria pretende que o whisky amadureça. Isto é um ponto básico, mais importante. O famoso “angel’s share” na Escócia faz com que haja perda de álcool mais rapidamente que água (algo que às vezes acontece o contrário nos Estados Unidos). Isso quer dizer que a graduação alcoólica vai abaixando à medida que o líquido perde volume e envelhece. Por isso, caso a intenção seja manter o barril por mais de três décadas no armazém, é melhor que o percentual seja alto – assim, assegura-se que o líquido não evaporará abaixo do limite legal antes de ser engarrafado. Ou fique simplesmente sem graça.

Outro motivo para utilizar diversas graduações alcoólicas diferentes é bem óbvio. Economia. Quanto mais alta a graduação alcoólica, mais água será utilizada depois, para cortar o whisky e engarrafá-lo. O que significa que, de um mesmo barril, mais garrafas podem ser produzidas. É uma regra de três, na verdade. Um barril de setecentos litros a 40% renderá 700 garrafas. Já um barril de setecentos litros a 60% poderá render em torno de mil garrafas, se reduzido a 40% ao engarrafar.

Por fim, há um fator histórico curioso. Ao longo do tempo, especialmente na Escócia, as destilarias mudaram suas graduações alcoólicas de preenchimento de barris. Em tempos de produção acelerada, a graduação alcoólica aumentou – claro, com o objetivo de cortar custos e privilegiar espaço. Bem provavelmente, durante o boom de produção em Campbeltown, antes da lei-seca norte-americana, as destilarias de lá embarrilhavam seu new-make à graduação alcoolica de saída dos alambiques. É a supramencionada matemágica, onde um barril de setecentos litros de new-make rende mais de mil garrafas de whisky.

Filling Stregth nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, há algumas similaridades e diferenças curiosas na graduação alcoólica de preenchimento dos barris. Como você já deve ter cansado de ver por aqui, o Code of Federal Regulations, no Capítulo I, subcapítulo A, parte 5, subparte C, Cláusula 5.22 define que a graduação alcoolica máxima de destilação para que algo seja considerado Bourbon Whiskey é de 160 proof, ou, 80% ABV. A graduação máxima de preenchimento do white dog nos barris, entretanto, é consideravelmente mais baixa. 125 proof, ou 62,5% – curiosamente próximo do padrão escocês.

E já que este é um post dedicado àqueles irremediáveis whisky-geeks, aí vai uma informação aleatória. A graduação alcoolica máxima de preenchimento dos barris (entry proof) mudou em 1962 por conta do Governo norte americano. Antes, ela era 110 proof, ou seja, 55%. A maioria das destilarias, então, aumentou seu “entry proof”. Mas, algumas resolveram manter as coisas da forma tradicional. A Maker’s Mark, por exemplo, até hoje utiliza os tais 55% para preencher suas barricas.

Mas voltemos. Simplificando. Para que seja bourbon, o whiskey americano – além de todas as outras regras que você já está bêbado de saber – deve ser destilado a no máximo 80%, e embarrilhado a no máximo 62,5%. A regra visa, especialmente, manter um nível mínimo de decência na indústria, e proteger o clássico perfil sensorial e padrão de qualidade dos whiskey americano. Esse filling strength é também perfeito para se atingir o melhor equilíbrio de extração de compostos nos barris virgens carbonizados. Apesar disso, algumas destilarias ainda preenchem seus barris abaixo do máximo regulamentar, sob a alegação de que, quanto menor for a diluição entre a saída dos barris e o engarrafamento, mais sabor terá o whisky. É o caso da Michter’s, com 51,5% (103 proof) e – em parte – da Wild Turkey, que possui entry proofs variáveis, mas algumas tão baixas quanto 55%.

Preenchimento dos barris na Wild Turkey (fonte: Whisky.com)

A parte interessante da história, entretanto, é que em algumas rickhouses (armazéns de maturação) dos Estados Unidos, como, por exemplo, a Buffalo Trace com seu George T. Stagg, ou da Jim Beam, com os Booker’s, a taxa de evaporação de água é superior àquela de álcool. O que significa que, ao longo do tempo, o barril perde mais água do que álcool, e aumenta sua graduação alcoólica, ainda que o volume de líquido reduza. É um processo semelhante ao de osmose celular. A água evapora mais rápido que o álcool para tentar compensar o exterior seco do barril. Mas, jamais consegue, porque bem, o exterior é o mundo inteiro.

Que legal, e agora, o que faço com este conhecimento?

Você pode argumentar que, para alguém que produz whisky, este é um ponto importante de conhecimento. Mas acontece que a graduação alcoólica de preenchimento dos barris é um ponto bastante debatido, mesmo entre pessoas que utilizam o conhecimento na prática. A extração mais acelerada da vanilina, por exemplo, em graduação alcoólica mais alta, divide opiniões. Muitos defendem que, mesmo que ela seja extraída mais rapidamente, quando houver diluição para engarrafamento, o benefício acaba sendo anulado. O que é uma conta matemática chata, e cheia de variáveis pouco matemáticas, como a percepção sensorial de cada indivíduo.

Mas há uma boa razão para saber de tudo isso, mesmo que você jamais vá usar qualquer informação dessa para um propósito útil. Que é a mesma de saber diferenciar mosca macho e fêmea, de tocar réquiens e chamar objetos do escritório pelo nome certo. O papo. A conversa. Não há serventia em ser entusiasta de alguma coisa se você não puder discutir, aprender e se divertir com outros entusiastas. E, para isso, nada melhor do que um pouquinho de conhecimento inútil. Digo, útil.

World Whisky Day 2021 – Mais um dia para degustar.

É, eu sei. A inevitabilidade do assunto deste post pode parecer até mesmo uma provocação. Afinal, hoje é o dia das mães. Este post deveria, certamente, falar sobre isso. Todo mundo espera isso. Minha mãe, que provavelmente lerá esta matéria em algumas horas, espera isso, e ficará bem decepcionada com minhas escolhas – tanto editoriais quanto de vida. Minha querida esposa, a Cã, que aguarda um presente, também. De certa forma, escrever este post hoje é um álibi. Exceto porque bem, acabo de me delatar.

Acontece que esta matéria não é sobre o dia das mães. É sobre o dia do whisky. O dia mundial do whisky – World Whisky Day. E se você ainda subestima a importância dessa bebida, saiba que mãe tem só um dia por ano. Whisky tem dois – World Whisky Day e International Whisky Day. Mas, enfim, falemos do primeiro, que acontece todo terceiro sábado do mês de maio.

O World Whisky Day foi criado em 2012 por Blair Bowman, um rapaz de apenas vinte e três anos de idade. A ideia de Blair era simples: criar um dia para que as pessoas pudessem se encontrar, comemorar e descobrir mais sobre a bebida nacional da Escócia. A ideia não só deu certo, como decolou. Atualmente, o World Whisky Day é um dos dias mais importantes do ano para a cultura do whisky, juntamente com o segundo dia do whisky (caso você tenha perdido o primeiro…) o International Whisky Day. 

Bowman, na temperatura ideal para se tomar um whisky (Fonte: WWD)

No último par de anos, o World Whisky Day ganhou uma nova face. Por conta da pandemia e o isolamento social, as pessoas não puderam se reunir da mesma forma que faziam para dividir uma dose e conversar sobre determinado whisky. Isto é, não fisicamente. Mas sim digitalmente. O que apresentou toda uma miríade de possibilidades. O mundo digital acabou estreitando as longas distâncias – hoje, pode-se, do conforto de seu lar, aproveitar uma degustação digital com alguns dos maiores ícones de whisky do mundo.

E o que vai rolar este ano?

Bem, o website oficial do World Whisky Day lançou um programa chamado “The World Whisky Weekender“, que acontece do dia 14 ao dia 15 de Maio. É um conjunto de eventos digitais, que serão liderados por Blair Bowman e Jerry McLaughlin. Quatro canais diferentes e mais de trinta sessões, com discussões bem variadas, como a história dos whiskies japoneses, a produção sustentável de whisky e visitas digitais a destilarias. Os participantes terão a oportunidade de conversar com produtores e embaixadores da bebida, tudo sem sair de casa.

Por aqui, nosso querido bar, o Caledonia Whisky & Co. organizou algumas promoções e atividades. A primeira delas, uma degustação fechada com Sandy Hyslop – master blender da Royal Salute – e Ken Lindsay, embaixador da marca, sobre o novo Royal Salute Malts Blend. O evento acontecerá no dia 12 de Maio às 19:00. Para participar, é preciso comprar uma garrafa de Royal Salute no Caledonia, ou o kit especial do evento, que conta com duas doses de Malts Blend e uma dose de Signature Blend.

Além disso, dois coqueteis especiais entraram em nosso cardápio – tanto digital (para entrega em casa) quanto físico. São o Lucky Thirteen e o No Wrong Way Fashioned. O primeiro leva Chivas Extra 13 anos, amaro, licor de cassis, jerez oloroso e limão.  Rodolfo Bob, nosso consultor, o criou para acentuar as notas vínicas do Chivas 13, por conta de sua maturação em barris de carvalho europeu de ex-jerez. O segundo  é o No Wrong Way Fashioned, com Ballantine’s Bourbon Finish em fatwash de oleo de coco, maple syrup e vanilla bitters. A inspiração veio do Old Fashioned, coquetel de bourbon whiskey – a finalização do Ballantine’s que lhe empresta a base.

Lucky Thirteen

Na semana seguinte, as atividades continuam. Nos dias 18 e 19 de maio faremos duas lives abertas, com Isa Oliveira e Malu Donanzan – embaixadoras da Chivas e Ballantine’s no Brasil, respectivamente. E, por fim, preparamos algumas surpresas para nossos queridos clientes, com descontos em diversas doses e garrafas – como o Port Charlotte 10 anos, Ballantine’s Bourbon Finish e Chivas Extra 13 anos.

As atividades não acontecerão apenas no Caledonia. A Whisky Rio também liderará uma degustação da linha Bruichladdich no Brasil, com Port Charlotte Scottish Barley, Port Charlotte 10 anos e Classic Laddie. O evento será online, e ocorrerá no dia 13 de maio. Para participar, o comensal deverá comprar o kit de doses dos whiskies.

Quanta coisa!

Pois é. Se quiser saber mais sobre o World Whisky Day e registrar seu evento, acesse a página oficial do dia aqui. E para falar com o Caledonia, basta mandar um WhatsApp. E lembre-se, independente de sua programação, o World Whisky Day é um dia para celebrar a melhor bebida do mundo. Seja num papo com amigos, seja sozinho no sofá ou em uma degustação online, o importante é aproveitar o dia mais importante do mês. As mães que me perdoem.

Macallan Triple Cask 18 – Memórias

O painel de recuperação de documentos contém alguns arquivos não salvos. Você deseja ver estes arquivos da próxima vez que iniciar o Word?“. Sem nem um átimo de reflexão, clico em “sim”. Sempre clico em “sim”. Não faço a menor ideia de quais documentos não foram salvos. Minha lista de documentos em recuperação no Word são, de certa forma, como a vida. Tudo aquilo que não terminei ou errei se acumula. Vitórias e conclusões simplesmente desaparecem ou se perdem.

Na verdade, é um pouco pior. Ver os arquivos perdidos da próxima vez que iniciar o Word é mais como guardar memórias que jamais serão resgatadas. Pequenas e grandes frações de coisas, acumuladas e nunca revisitadas. Nunca revisitadas por estarem em dois extremos: ou são muito triviais, ou demasiado especiais. Dentro do primeiro grupo está o canhoto da passagem aérea daquela viagem que você fez há dez anos, o crachá daquela feira incrível e o mapa daquele museu. Coisinhas miúdas que você jura que um dia sentará com tudo no colo para ser tomado por uma alegre nostalgia.

Ah, quantas memórias!

Na segunda categoria está tudo aquilo que você conhece, gosta demais, e não consegue imaginar a impossibilidade de ver ou provar novamente, ainda que você nunca realmente faça isso também. Meu armário da sala, com uma centena e meia de DVDs de meus filmes favoritos – sendo que nem tenho mais um aparelho para reproduzi-los – faz parte desse time. E garrafas de whisky. Algumas poucas garrafas, de whiskies que já provei, mas que merecem uma ampola fechada, para ser aberta naquele momento especial. Dentre elas, o Macallan Triple Cask 18 anos.

Antes de prosseguir, deixe-me esclarecer isto. Provei o whisky em mais de uma situação. Uma vez, quando visitei a The Macallan – quando ele ainda era Fine Oak – e me encantei com os alambiques curiosamente baixos. Duas outras vezes em degustações da marca, que ressaltaram o extremo cuidado com as barricas utilizadas em sua maturação. E uma quarta, no meu querido Caledonia – onde simplesmente pude provar o whisky sem interferências. E apesar de conhecer a dose relativamente bem, jamais tive a coragem de abrir minha própria garrafa. Uma, que comprei num momento de impulsivo arrebatamento.

Mas, com o tempo, comecei a reconsiderar essas coisas. Sei bem que nunca realmente examinarei aquela gaveta cheia de pedacinhos de papéis que remetem as mais aleatórias memórias, e que seria bom mesmo jogar tudo fora. Simplesmente porque, bem, o que vale são justamente as memórias e não os papéis. E hoje sei também que não adianta guardar nada para um momento especial, porque no momento especial a gente não pensa em torná-lo ainda mais especial. E assim, da forma tão impulsiva quanto comprei, decidi finalmente abrir aquela garrafa.

Desci a primeira dose com atenção a maturação do Macallan Triple Cask 18 anos. Ela acontece em três tipos de barricas. Carvalho americano que antes conteve bourbon whiskey; carvalho europeu que antes conteve vinho jerez e carvalho americano, também de ex-jerez. Na época de seu lançamento, a linha Triple Cask – outrora batizada “Fine Oak – gerou um certo desconforto nos entusiastas da The Macallan. Para eles, os whiskies da destilaria deveriam primar pela maturação em jerez, somente. No entanto, com o tempo – que aliás apara as arestas pontudas das memórias ruins – a linha se consolidou.

A The Macallan utiliza, no rótulo de sua nova linha, a expressão “seasoned” (temperado) para definir os barris de ex-jerez. O termo, usado para trazer mais clareza, na verdade, gerou outro desconforto. Consumidores indagaram se havia alguma distinção entre barris que maturaram jerez daqueles que foram temperados. A expressão, entretanto, faz pouca diferença, exceto talvez pelo tempo que o vinho permaneceu nas barricas. Ocorre que antes de 1981 (ou seja, há quarenta anos!) a Espanha proibiu a exportação de barricas cheias de jerez. A prática era bem comum na década de setenta – os barris atravessavam o Canal da Mancha cheios. Na Escócia, eram esvaziados e o vinho jerez vendido. Depois, as destilarias preenchiam ditas barricas com whisky.

Armazém da The Macallan

Por conta da proibição do governo espanhol, no entanto, a oferta de barricas de jerez diminuiu enormemente. Mas, não a demanda por scotch whiskies maturados em tais barris. As destilarias escocesas, então, encontraram um caminho intermediário. Passaram a encomendar barricas que antes continham vinho jerez vazias – muitas vezes produzidos sob demanda da destilaria. Ao chegar à Escócia, as barricas eram desmontadas, tratadas, remontadas e preenchidas com whisky. E foi justamente isso que a The Macallan fez, desde o começo. Mas, apenas agora, decidiu utilizar a expressão seasoned – temperadas – para esclarecer a metodologia.

Dei mais um golinho. A maturação torna o Macallan Triple Cask 18 um whisky relativamente equilibrado. Defini-lo como delicado, porém, seria banalizá-lo. Tudo está em equilíbrio em sua composição e nenhuma nota se sobressai. Porém, a intensidade tão particular dos The Macallan permanece em evidência. É impossível dizer que aquela é uma dose de um whisky inofensivo. Seria o mesmo que dizer que um carro de Fórmula 1 dirigido vagarosamente, é um automóvel tranquilo e amável. Dito isso, se comparado ao Macallan Triple Cask 15 anos, o irmão mais velho é menos apimentado e vibrante. E, lado a lado com o caçula 12 anos, é mais sisudo, mais sofisticado e bem menos adocicado.

Decidir pesquisar um pouco sobre a destilaria. Localizada em Craigellachie, a The Macallan passou recentemente por uma enorme reforma. O prédio principal foi desenhado pelo escritório de arquitetura Rogers Stirk Harbour + Partners, o mesmo daquele estádio em Londres que parece um ouriço. Mas, dessa vez, eles acertaram. O espaço conta com os alambiques da destilaria, um centro de visitantes e – vejam só – um espaço com todo tipo de memória ligada à destilaria. Além disso, o time também foi reformado. Atualmente, o papel de master whisky maker da The Macallan é desempenhado por Kirsteen Campbell – a primeira mulher nesta função, na história de 195 anos da destilaria. Ela assumiu a cadeira em 2019, com a saída de Nick Savage.

Campbell, com a destilaria ao fundo.

Dei meu último gole e notei a textura do The Macallan 18 anos. Lembrei-me que apenas dezesseis por cento do destilado – produzido no meio do processo de destilação no alambique – vira single malt. Isso se dá justamente por conta da operação dos alambiques. Como a ideia é produzir um new-make oleoso e congenérico, a destilaria faz um corte bastante restritivo de cabeça e cauda, para evitar que quaisquer sabores indesejados passem para o whisky. Um cuidado que, aparentemente, gerou frutos.

Prova feita, abri novamente o Word e comecei a narrar minhas impressões sobre o whisky. Pronto. Agora só falta uma introdução. Aperto o X vermelho, do lado esquerdo superior da tela. “O painel de recuperação de documentos contém alguns arquivos não salvos. Você deseja ver estes arquivos da próxima vez que iniciar o Word?” Opa, não, peraí. Cancelar. Tive uma ideia de como começar esta matéria. Pronto, salvar, fechar. “Você deseja….“. Não, obrigado, já tenho tudo que preciso por aqui mesmo. Boa noite.

MACALLAN TRIPLE CASK 18 ANOS

Tipo: Single Malt
Destilaria: The Macallan
País/Região: Escócia – Speyside
ABV: 43%
Idade: 18 anos

Notas de prova:

Aroma: caramelo, laranja, compota de frutas.

Sabor: baunilha, chocolate, tabaco. Toffee. Final longo e apimentado, com vinho fortificado e um certo (e curioso) gengibre.

Lamas Nimbus Caledonia II – Nosso segundo whisky!

A genética. Essa incrível combinação, que nos faz quem somos. Para um pai de dois filhos pequenos – na verdade, uma média e um pequeno – há poucas coisas tão encantadoras quanto a genética. Me divirto (e me preocupo) em ver traços meus e da querida Cã em nossa prole. E gosto, especialmente, de ver como a mesma combinação resultou em coisas sensivelmente diferentes. Digo, coisas não. Pessoas. Ou melhor. Cães. Enfim, você entendeu.

Fisicamente, os dois são uma cópia da Cã. O que é ótimo por um lado, mas é também uma derrota vergonhosa de meu código genético (fisiológico?), que foi completamente obliterado. Já em relação à personalidade, há pontos de tangência e de oposição. Ela é mais curiosa, ele é mais comunicativo. Em comum, ambos têm um desprezo quase total pela integridade física. Algo que devem ter puxado de mim e que não deve ser, de nenhuma forma glorificado, porque deriva mais de estupidez do que bravura. 

Tipo isso.

Mas é engraçado – você sabe que eles são variações de um mesmo tema. Está, literalmente, na cara. E a graça está aí, nos detalhes. E foi justamente pensando nessas pequenas particularidades, que lançamos mais um whisky. O Lamas Nimbus Caledonia II. Com um código genético bem parecido com a primeira edição. Mas, distinto o suficiente para ter personalidade toda própria.

O Lamas Nimbus Caledonia II é nossa segunda criação, em parceria com a destilaria Lamas, de Minas Gerais. O tema aqui é o mesmo do primeiro single malt – um whisky defumado e vínico, finalizado em barris de carvalho que antes contiveram vinho licoroso, semelhante a porto. No entanto, a finalização aqui foi mais longa. Mais de um ano. Quatorze meses, para ser mais exato.

O prazo maior de descanso nos barris de vinho trouxeram ao whisky mais harmonia. A nota enfumaçada de incenso permanece lá – é o DNA da família Nimbus. No entanto, está um tanto mais discreta. Em contrapartida, a influência vínica, com frutas secas e cristalizadas, subiu. O punch alcoólico ficou mais discreto, ainda que a graduação etílica seja igual àquela do primeiro lançamento.

Aliás, devo admitir uma coisa. Criar um whisky, mesmo a quatro mãos com um produtor com conhecimento, é uma tarefa quase esotérica. Você sabe mais ou menos onde vai chegar. Você sabe que se fizer certa coisa, terá mais ou menos determinado resultado. Como, por exemplo, empregar as barricas de vinho, que trazem o tal frutado. Mas, o resultado final, com precisão, segue uma surpresa até que a primeira dose seja despejada no copo.

No primeiro whisky da série, me surpreendeu uma nota salina que – assumo – não faço a mais rasa ideia de onde veio. Ela está bem no final, e serve meio como embrulho para tornar a mistura coesa. Mas, dizer que eu esperava esse resultado seria uma falácia. A nota simplesmente apareceu, para minha surpresa e alegria. O mesmo ocorreu nesta segunda edição, com uma espécie de perfume floral – que tomou lugar do final salino da precursora.

A produção e o blend – quer dizer, a mistura de single malts – permaneceu a mesma do Caledonia Nimbus I. Vinte por cento de Plenus – o single malt envelhecido em vinho licoroso e não turfado da Lamas, com oitenta por cento do Nimbus. Aquele, o queridinho da Lamas, defumado num processo bem pouco ortodoxo, usando madeira de reflorestamento. Depois de combinadas, as duas partes – defumada e não deufmada – descansaram juntas nos barris de vinho licoroso por mais quatorze meses. 

primeira edição

O desenvolvimento também foi parecido. Conversamos com a Lamas em diversas ocasiões, que nos enviaram amostras (inclusive com outras finalizações, que são surpresa!) até que decidimos, conjuntamente, que aquele seria o whisky. Essa, na verdade, foi a tarefa mais difícil. No começo, estávamos indecisos sobre oferecer uma sequência do mesmo tema, ou nos aventurar em algo completamente novo. Mas, o whisky-geeking falou mais alto, e acabamos por escolher algo pela mais lhana curiosidade.

E é este whisky que, a partir de hoje, está à venda em nosso querido Caledonia. O Lamas Nimbus Caledonia II. Nosso segundo filho, tão querido quanto o primeiro. Parecido com ele, também. Mas, como ocorre com a prole, um tantinho distinto. Só um pouquinho, o suficiente para que tenham personalidades próprias. A brincadeira, aliás, é justamente essa. O que ficou e o que mudou, cabe a você nos dizer.

Ai que orgulho desses irmãos.

LAMAS NIMBUS CALEDONIA II

Tipo: Single Malt

Destilaria: Lamas

País: Brasil

ABV: 50%

Notas de prova:

Aroma: baunilha, caramelo, um enfumaçado de incenso, lareira.

Sabor: Frutas em calda, especialmente figo. Fumaça, incenso. Final longo e floral.