O Cão Natalino – Presentes de Natal para um Amante de Whisky

Estamos novamente no final do ano. Época de passar calor, da famigerada festa da firma, de ouvir a piada do pavê. Época de rever todo aquele pessoal que você não via o ano todo, encher a cara, abraçar, ficar seminu, passar vergonha e depois ignorar todo mundo que viu por mais um ano. Talvez pela mais pura vergonha, ou talvez pela indiferença da sobriedade. É um negócio quase cíclico. Cíclico e trágico.

Uma vez eu disse que o calor é a pior coisa sobre o final do ano. Bom, não é. A pior coisa é a sudorese do amigo secreto. O amigo secreto é aquela brincadeira em que todo mundo ganha presente, mas que, no fundo, todo mundo perde. Primeiro porque o presente dado é sempre melhor que o recebido. É, eu sei, é um mistério quântico este, o ciclo não fecha.

Em segundo – e o pior de tudo mesmo – é que você descobre que não conhece bem seu amigo, e que seu amigo também não tem a menor noção de como é a sua vida. Dar o presente é uma atividade quase tão decepcionante quanto recebê-lo. Decepção, esta, que somente é superada pelo sorteio do presenteado no começo da brincadeira.

Assim, numa pífia tentativa de evitar um momento constrangedor, este Cão resolveu elaborar uma lista. Uma lista de presentes que pode ser dada para qualquer amante da bebida. Assim, se você tirou um ébrio colega mas não faz a mais rasa ideia de suas preferências no mundo da água da vida, preste atenção nesta lista. Algumas sugestões são whiskies. Outras não. Ainda que haja uma ordem, nada aqui sugere que isto seja um ranking. Todos são presentes incríveis. Vamos a elas.

Glencairn Whisky Glass – Estojo de Viagem

(fonte: http://www.whiskyandale.com.au/)

Sabe, gosto de degustar meus whiskies em casa. Não apenas porque é confortável. Mas porque lá tenho todo equipamento necessário – e o desnecessário – para uma degustação completa. Jarra de água, pipeta e, claro, as taças Glencairn. As Glencairn são as taças oficiais de degustação de whisky, criadas pela empresa Glencairn Crystal, do Reino Unido. Elas foram desenvolvidas especialmente para potencializar as características da bebida.

As Glencairn são quase perfeitas. Quase porque, como toda taça de vidro, elas são delicadas, e realmente não há uma forma muito boa de levá-los sem correr riscos. Quer dizer, não há, exceto se você tiver o estojo oficial da marca. É uma belíssima valise cilíndrica, de couro faux por fora e veludo por dentro, capaz de acondicionar e proteger perfeitamente um par das preciosas taças. Para nós, amantes de whisky errantes, nada poderia ser melhor. Pode ser adquirido pela importadora oficial, em www.lojadewhisky.com.br

The Way of Whisky – Dave Broom

Dave Broom é um dos mais famosos – e confiáveis, note que isso é importante aqui – autores especializados em whisky. Ele possui mais de vinte e cinco anos de experiência com destilados, e trabalha como escritor e jornalista freelancer. Sua principal obra é o Atlas Mundial do Whisky. Porém, além dele, Dave produziu outros livros fantásticos. Um de meus preferidos é The Way of Whisky, onde o jornalista visita e escreve detalhadamente sobre o whisky japonês, muito em voga nos dias de hoje.

O livro é um misto de informações técnicas, história e observações de Dave. A encadernação é belíssima, e as fotos que ilustram cada capítulo são quase como uma viagem à parte etílica do Japão. Um presente perfeito para todo admirador do whisky oriental. Pode ser adquirido via Amazon.com.

The Macallan Rare Cask

Não sei se os multimilionários fazem um amigo secreto entre si (aliás, seria legal saber o que o Jorge Paulo Lemann ganha no amigo secreto da Ambev). Mas se fizerem, The Macallan é o presente perfeito. Afinal, a destilaria detém o recorde da garrafa mais cara arrematada em um leilão. Além disso, é um dos três single malts mais vendidos na Escócia. E se isso não bastasse, é o whisky preferido de James Bond e de Harvey Specter. Como se costuma dizer na internet – é aquele whisky que você respeita.

No Brasil, a The Macallan é importada pela Aurora. Seu rótulo mais exclusivo por aqui é o The Macallan Rare Cask. Ele veio este ano substituir o Macallan Ruby, que deixou de ser produzido pela desilaria. Em suas próprias palavras “muito menos do que 1% das barricas maturando na destilaria foram identificadas como capazes de receber o nome Rare Cask. Com raridade como sua essencia, este é um whisky produzido de barricas tão raras que jamais serão usadas para outro whisky da The Macallan. A combinação de barricas de carvalho americano e espanhol de ex-jerez, sendo grande parte delas de primeiro uso, dão origem a um whisky com coloração esplêndida e incontestavelmente amadeirado (…)”  Vendido em lojas especializadas por, aproximadamente, R$ 2.000,00 (dois mil reais).

Aroma Academy Kits

Já viu aqueles vídeos em que um especialista identifica um monte de aromas incríveis – como baunilha, madeira, herbal, regaliz, medicinal, balsâmico e enfumaçado – na bebida? Se você acha que aquilo é mentira, então prepare-se para esta novidade. Com o Arma Academy Training Kit, você também pode encontrá-los facilmente. E não é propaganda de zero oitocentos.

O Aroma Academy Training Kit é uma caixa com diversas pequenas ampolas, cada uma com um aroma diferente. A ideia é que se compare o perfume puro, contido nos vidrinhos, com o whisky a ser degustado. Isso facilita a identificação e separação dos aromas, e cria memória olfativa. São diversos kits – para vinho, bourbon e whisky – de tamanhos e preços variados. Também importados pela www.lojadewhisky.com.br

Glenlivet 15 anos

Os clássicos nunca saem de moda. É o caso do Glenlivet 15 anos, um single malt que agradará iniciados e iniciantes. Glenlivet é o single malt mais vendido no mundo atualmente. Atualmente, a destilaria vende mais de doze milhões de garrafas por ano.  Parte de sua produção também é utilizada nos blended whiskies pertencentes à Pernod Ricard, sua detentora, como Chivas Regal e Ballantine’s. O produto das melhores barricas, entretanto, é engarrafado como single malt – como o Glenlivet 15.

Aliás, a maturação do Glenlivet 15 anos é um tanto incomum. Ela ocorre predominantemente em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Porém, parte do destilado é transferido para barricas de carvalho francês – ou seja, carvalho europeu – da região de Limousin. E isso não teria nada de muito especial, não fosse um pequeno e quase imperceptível detalhe. As barricas de carvalho francês utilizadas pela Glenlivet são virgens. Algo bastante incomum no mundo do scotch whisky, que prefere fazer uso de madeiras que já tenham sido utilizadas para maturar outra bebida.

Vendido em lojas especializadas por, aproximadamente, R$ 300,00 (trezentos reais)

Especial Escócia – Visita à Laphroaig

Uma mistura maltada com a infusão de turfa em urina de ovelha, filtrada através de meias de lã molhadas e suadas de pastores.” “é como lamber turfa queimada de uma fogueira na praia, que grudou na bota de um pescador”. e minha preferida: “como um dragão em conserva de iodo, assado sobre um vulcão, e servido em uma cama de algas marinhas.”.

Não é um campeonato de metáforas nojentas. Não. São opiniões sinceras de consumidores que – assim como este Cão – são apaixonados pela Laphroaig. Estas opiniões fazem parte de uma campanha de marketing, e estão impressas por toda parte na destilaria. E apesar de parecerem todas desfavoráveis, na verdade, são apenas francas. Não há como descrever Laphroaig sem vigor. Se Ardbeg é bravura; Bruichladdich, inovação,Lagavulin, aristocracia, Bowmore, detalhismo e Bunnahabhain sutileza, então Laphroaig é intensidade.

Os maltes da Laphroaig são conhecidos como alguns dos mais medicinais e iodados de Islay. Não é bem a turfa que o diferencia. Mas este caráter iminentemente marítimo, que também o torna bem polêmico. Com Laphroaig, a relação somente pode ser de intenso amor ou ódio. Para mim, de amor. A Laphroaig é uma das minhas destilarias preferidas – e a que mais queria conhecer em minha recente viagem a Islay.

A Laphroaig possui seu próprio Malting Floor – um local usado pela destilaria para que a cevada maltada comece a germinar. Isso é bastante incomum. A maioria das destilarias compra o malte pronto, de produtores como a Port Ellen Maltings. A Laphroaig não é uma exceção absoluta à regra. Sua produção de whisky é bem superior à capacidade de seu malting floor. Assim, parte é comprado, e parte malteado in-loco.

A defumação do malte da Laphroaig leva em torno de quinze horas – o que é bastante. Segundo nosso guia, um quilograma de turfa é suficiente para defumar sete quilogramas de malte. A fermentação, porém, é um processo bastante breve. Ela leve apenas dois dias, em washbacks feitos de aço inoxidável. Perguntei ao nosso guia se o material do washbacks fazia diferença, afinal, a muitas destilarias preferem madeira. A resposta foi pungente, como uma dose de Laphroaig – é claro, para o marketing faz bastante diferença.

Kiln. E não, este não é o operador oficial.

A sala dos alambiques da Laphroaig é uma das mais impressionantes da ilha. São três alambiques de primeira destilação (wash stills) e quatro de segunda (spirit stills). Os wash stils, com aproximadamente seis metros de altura, são carregados com 10.500 litros de wash (o mosto fermentado). Já os alambiques de segunda destilação tem tamanhos diferentes. Um deles é bem grande, quase comparável aos wash stills. Os outro três são idênticos e bem menores – apenas quatro metros e meio. Estes são carregados com 4.700 litros, enquanto seu irmão superdesenvolvido recebe 9.400 litros. Segundo nosso guia, a carga dos alambiques é muito próxima à sua capacidade total, o que produz um destilado mais pesado e oleoso.

Apesar da carga, os braços dos alambiques são levemente voltados para cima, o que incentiva o refluxo, e tende a tornar o whisky mais leve. O destilado novo – chamado new make spirit – da Laphroaig possui incríveis 67,5% de álcool. Entretanto, ele é diluído até 63,5% para que seja colocado nas barricas. O corte é outro diferencial. Começa aos 72%, e termina aos 60,5%. Apesar da direção ascendente do braço dos alambiques, todo resto sugere um destilado com bastante personalidade.

Alambiques

A maturação ocorre principalmente em barricas de carvalho americano, ainda que exista o uso de carvalho europeu especificamente para finalizações especiais. E por falar em finalizações, a destilaria tem um excelente portfólio de whiskies maturados em barris especiais. É o caso do Laphroaig An Cuan Mór, que passa algum tempo em barricas virgens de carvalho europeu. Assim como os ótimos Brodir e PX, finalizados em barricas de vinho do porto e jerez Pedro Ximénez, respectivamente.

Para este Cão, visitar a Laphroaig foi uma experiência incrível. Presenciar, ao vivo, a produção de um de seus whiskies preferidos e ter a chance de conversar e interagir com as pessoas que o produzem é algo absolutamente encantador. Talvez seja isto que falte para toda aquela metade do mundo que detesta este whisky. Conhecer seu local de nascimento. Depois disso, eu garanto, é impossível não sair intensamente apaixonado.

 

Polivalência – Dewar’s 18

Acho engraçado como, na antiguidade, quase todo mundo era mais de uma coisa. Acho que como não havia internet, Netflix, televisão e nem smartphones, as pessoas tinham mais tempo para se dedicar a seus ofícios. Ou talvez só ficassem terrivelmente entediadas, e por isso procurassem algo para se ocupar.

Mas não estou falando de multitasking. Não. Era algo muito maior que isso. Um exemplo foi Blaise Pascal. Aquele mesmo, do Teorema de Pascal. O rapaz – que viveu durante o século dezessete – era matemático, físico, inventor, escritor e teólogo do catolicismo. Enfim, um cara bem versátil. Ou quiçá apenas alguém hiperativo em uma época que não oferecia muita coisa para se fazer numa quarta-feira à tarde, por exemplo.

No mundo do whisky temos também personagens polivalentes. Um deles foi Thomas Dewar – também conhecido como Tommy – um dos filhos de John Dewar, fundador da marca de blended whiskies que leva seu sobrenome. Tommy era um cara engenhoso. Algumas de suas ocupações eram: empresário do mundo do whisky, vendedor, criador de cavalos, pombos-correio e – mais reconhecidamente – galináceos.

Thomas também era extremamente comunicativo, carismático e espirituoso. Ele se divertia cunhando máximas, que ficaram tão conhecidas que foram apelidadas de”Dewarismos”. Algumas delas eram “nós respeitamos muito a idade avançada quando ela é engarrafada” e “entre dois males, escolha o mais interessante“.

Ele tinha senso de humor até no bigodinho

Porém, o ramo que mais lhe rendeu destaque foi no da propaganda. Thomas era um gênio do marketing. Ainda que o trabalho duro e burocrático de seu irmão John não deva ser relevado, a participação de Tommy foi essencial para o crescimento da Dewar’s. Foi dele a ideia de contratar um tocador de gaita de fole, para chamar atenção de sua banca, isolada em uma feira – algo que criou enorme repercussão. O (discutivelmente) primeiro comercial filmado da história foi sua criação. Assim como o maior outdoor luminoso de toda Europa naqueles anos.

Foi graças a seu trabalho que a Dewar’s cresceu e sobreviveu até hoje – mesmo após uma série de fusões e aquisições. O que nos leva, finalmente, ao tema desta prova. o Dewar’s 18 anos, blended scotch whisky cuja base é o single malt Aberfeldy, e que acaba de desembarcar no Brasil.

O Dewar’s 18 anos é um whisky adocicado, com pouquíssima característica enfumaçada Há certa influência vínica, de jerez, que dá ao whisky um sabor que poderia ser curiosamente definido como panetone. Mas panetone bom, porque eu não gosto de panetone. Além do Aberfeldy, seu rótulo dá uma dica da composição: MacDuff (Glen Deveron), Aultmore, Brackla e Craigellachie – todas sob o controle da Bacardi, que hoje possui os direitos sobre a marca Dewar’s.

A master blender da Dewar’s é, atualmente, Stephanie Macleod. Stephanie é apenas a sétima master blender em toda a história da Dewar’s, e a primeira mulher a assumir esta posição. Além disso, Macleod é uma acadêmica. Publicou diversos artigos sobre a melhor bebida do mundo, e foi analista sensorial na Universidade de Strathclyde, pesquisando cientificamente a maturação de whiskies. Porém, assim como aparentemente tudo na Dewar’s, ela é também polivalente. Stephanie também estudou rum, queijo e azeite de oliva.

Stephanie Macleod

Há uma particularidade interessante sobre a maturação dos whiskies da Dewar’s, inclusive seu Dewar’s 18 anos. Após o processo de blending, o whisky é transferido para tonéis de carvalho, onde passa mais seis meses. Este processo é conhecido por eles como “Double Aging”. Segundo a marca, ainda que esta maturação encareça o processo produtivo, ela também torna o whisky mais suave e harmônico.

O Dewar’s 18 anos recebeu medalha dupla de ouro em 2013 na San Francisco World Spirits Competition e prata na International Wine & Spirits Competition em 2017, na categoria de blended whisky. Mas o maior prêmio, neste caso, é o reconhecimento. A Dewar’s é campeã de vendas de blended whiskies nos Estados Unidos, e uma das quatro do mundo.

Se você gosta de whiskies leves e com especiaria e não suporta o aroma da fumaça em seu copo, o Dewar’s 18 pode ser seu whisky. É perfeito para se apreciar puro, mas que funcionará perfeitamente com gelo. Enfim,  é a imagem de seu criador. Polivalente, agradável e muito carismático.

DEWAR’S 18 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 18 anos

Marca: Dewar’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma frutado, quase nada enfumaçado, com um certo açúcar de confeiteiro ao fundo. Álcool pouco perceptível e nada agressivo.

Sabor: leve, com frutas cristalizadas, canela e pão de mel. O álcool quase não é sentido. Há um certo amargor bem integrado. Final médio e seco.

Com água: A água torna o whisky menos amargo e mais adocicado. Funciona bem com água, mas é melhor puro.

 

Loja Oficial Dewar’s em São Paulo – Cidade Jardim

Shoppings em dezembro são lugares interessantes. E, por interessantes, quero dizer desesperadores. Há carros se digladiando no estacionamento por vagas. Gente de olho no celular ou na vitrine e andando sem ver pra onde vai. Crianças berrando desesperadas pelo bonequinho da Patrulha Canina. E aquela já tradicional correria dos presentes, a indecisão e a frustração de ver a fatura do cartão de crédito perigosamente tangenciando seu limite. Olha, para mim, não existiria nenhuma boa razão para frequentar um shopping em dezembro. Quer dizer, até agora.

É que a Dewar’s – tradicional marca de blended whiskies pertencente à Bacardi – acabou de lançar uma loja temporária em um dos shoppings mais elegantes de São Paulo. O Cidade Jardim. É um pequeno espaço no terraço do shopping, que fica até meados de janeiro do ano que vem. Lá é possível comprar todos os whiskies da linha Dewar’s à venda no Brasil, inclusive certos lançamentos exclusivos, como o single malt Aberfeldy 12 anos e os Dewar’s 15, 18 e o magnífico 25 anos.

A foto até ficou torta de emoção.

A pequena loja contará também com uma programação especial de eventos para o entusiasta do whisky – que, presumo que seja você, querido leitor. Haverá degustações guiadas pela nova embaixadora da marca, a mixologista Talita Simões, uma das profissionais mais respeitadas do mercado.

Os eventos são abertos, mas possuem datas e horários programados, que serão em breve divulgados pela marca. Além disso, haverá também dias dedicados ao poker. Algumas mesas serão montadas ao lado da popup store, e os convidados poderão se dedicar ao jogo. Um jogo que, aliás, todo mundo ganha. Afinal, o whisky será servido durante a jogatina.

O lançamento da pop-up store ocorreu ontem ao som da banda Corcel, com aperitivos, coquetéis e doses de Dewar’s para os convidados. O evento, aliás, é a cara da marca: jovem, descolada e corajosa. Segundo Federico Pires, diretor de Customer Marketing da empresa “Mais do que entreter o público, a nossa missão é romper o estereótipo tradicional do whisky, trazendo um conceito irreverente, amplamente divulgado internacionalmente. Queremos mostrar que somos diferentes, para atrair um novo consumidor para nossos rótulos”

Tem single malt também!

Se estiver por perto – ou na correria dos presentes e precisar se autopresentear – não deixe de conferir o espaço da Dewar’s no Cidade Jardim. Fazer compras de natal é quase sempre um exercício angustiante. Mas nada que uma pequena dose (ou uma garrafa) de Dewar’s ou Aberfeldy não possam melhorar.

 

 

O Cão Histórico – A Lei Seca Norte Americana

Hoje deveria ser feriado. É que hoje é o aniversário de um dos dias mais importantes do mundo. Quer dizer, mais importantes para um ébrio amante das bebidas etílicas. É que no dia 05 de dezembro de 1933, há exatamente oitenta e quatro anos, o experimento social mais desastroso do mundo chegava ao fim. A Lei Seca Norte-Americana, conhecida por lá como Prohibition – ou, mais tecnicamente, o Volstead Act.

O Volstead Act proibida o comércio, transporte e produção de quaisquer bebidas “intoxicantes” em todo o território americano. Em outras palavras, a lei – batizada por conta de Andrew Volstead, presidente do comitê judiciário que a produziu – tornava a feliz e antes descomplicado ato de embriagar-se muito mais difícil. Mas, veja bem, não impossível.

Volstead. Certeza que ele enchia a cara escondido.

A indústria mais afetada foi, naturalmente, a do Bourbon Whiskey. Antes da Lei Seca, havia mais de três mil destilarias operando nos estados unidos. A maioria delas não resistiu e fechou suas portas para nunca mais retornar. Estoques inteiros foram derramados, literalmente, no ralo.

Outras, porém, abordaram o problema de uma forma mais, diremos, criativa. Joe Beam, que na época era o responsável pela Jim Beam, por exemplo. Ele desmontou cuidadosamente todos os seus armazéns e destilaria – localizados no Kentucky – cruzou a fronteira do México e lá remontou tudo. Outros se aproveitaram de uma pequena brecha legal. A venda como bebida era proibida. Porém, médicos podiam prescrever remédios que continham álcool para certos pacientes. Por conta disso – e por mais bizarro que possa parecer – o Volstead Act foi excelente para os médicos da época.

Havia, porém, uma indústria de bebidas que cresceu bastante durante a Lei Seca. A indústria ilegal. Por conta do Volstead Act, infinitas destilarias de moonshine – como são conhecidos até hoje – foram criadas. A bebida normalmente era produzida sem cuidado e seu consumo perigosíssimo, por conta do excesso de metanol causado pela destilação amadora. Além disso, o tráfico de bebida também cresceu, e glorificou criminosos cruéis e egoístas, como Al Capone. Afinal, aqueles eram os novos distribuidores do inebriante néctar.

Mas a Lei Seca não foi apenas impactante para a indústria do Bourbon Whiskey. Ela refletiu no mercado mundial de bebidas. Foi por conta da Lei Seca, por exemplo, que muitas das destilarias de Campbeltown fecharam. É que antes de 1919 – quando a lei entrou em vigor – o maior mercado consumidor de whisky escocês era justamente os Estados Unidos. Naquela época, a região produtora mais importante da bebida escocesa era Campbeltown. Mais de vinte e duas destilarias trabalhavam dia e noite para suprir a demanda dos americanos.

Que dor no coração.

Porém, com a proibição, as destilarias de Campbeltown se viram, da noite para o dia, com estoque enorme de scotch whisky e nenhum comprador. Endividadas e sem ter muito para onde correr, a vasta maioria fechou suas portas. Apenas um par delas sobreviveu até os dias de hoje. As duas incríveis representantes do que fora outrora a cidade do whisky: Springbank e Glen Scotia.

Algumas destilarias, porém, tiveram sorte. Laphroaig e Lagavulin – os monstros defumados de Islay – foram os mais proeminentes exemplos. É que por conta de seu caráter medicinal, as duas obtiveram a difícil licença para serem vendidas como medicamento para o estômago nos Estados Unidos. Incrivelmente, o número de pessoas que sofria de algum problema gástrico durante a década do Volstead Act cresceu bastante.

Com uma noticia dessas, também…

Um dos efeitos mais malucos da Lei Seca, porém, foi religioso. Muitas pessoas finalmente encontraram Deus. Mas não é que elas resolveram se arrepender de seus ébrios pecados e caminhar na direção da luz. Não. É que muitas religiões ainda podiam adquirir vinho para propósitos religiosos. Assim, as igrejas e sinagogas passaram a receber muito mais fiéis. Ah, e o número de padres e rabinos também cresceu bastante. Amém.

Outros efeitos desastrosos foram a falência de diversos restaurantes – que não podiam mais depender da venda de bebidas alcoólicas para pagar suas contas – e a diminuição da receita fiscal de muitos estados americanos (já que o álcool era taxado antes de ser proibido).

Bom, o pessoal tinha senso de humor.

Mas talvez a Lei Seca tenha tido um efeito bastante positivo. Naquela época, a qualidade da coquetelaria aumentou vertiginosamente. É que como a bebida disponível na época era muito ruim – lembre-se que a maioria era produzida de forma amadora – os bartenders tiveram que lançar mão de todos os artifícios possíveis para disfarçar o gosto desagradável daquele líquido. Aliás, foi por conta do Volstead Act que nasceu um estilo de bar que hoje está muito em moda – os Speakeasy.

A Lei Seca durou longos 14 anos. Ao ser revogada, a indústria de bebidas alcoólicas do mundo havia sofrido enorme transformação. Transformação cujos efeitos perduram até os dias atuais. Assim, meu caro leitor, neste aniversário de data histórica, escolha seu whisky preferido, sirva-se de uma dose e agradeça. Afinal, hoje você pode bebê-lo despreocupadamente, à luz do dia, sem medo de morrer intoxicado ou ter que ir pro hospital, pra igreja ou para algum lugar sujo e escondido. Um brinde a isto.

Os seis melhores filmes do mundo e os whiskies para acompanhar

Há algumas semanas, publiquei um texto sobre o Lagavulin 16 anos. Na matéria, comparei-o ao filme 12 homens e uma sentença. Uma película que tinha tudo no mundo para ser impopular, mas tornou-se uma das mais importantes da história do cinema. Um sucesso de crítica e público. Uma unanimidade. Que, convenhamos, nos dias de hoje em que todo mundo tem opinião sobre tudo, é bem difícil.

Daí, alguns leitores me sugeriram um exercício curioso. Algo na linha do que já tinha feito com os filmes do Oscar, mas muito mais pretensioso. Escolher cinco dos melhores filmes do mundo e encontrar-lhes almas gêmeas etílicas. Aceitei o desafio imediatamente. Porque, claro, nada seria mais divertido do que um exercício de futilidade tão grande quanto relacionar coisas sem qualquer propósito como este. A internet, afinal, vive disso.

Antes de prosseguir, preciso fazer uma ressalva. Estes não são os seis melhores filmes do mundo. É, eu sei que eu disse isso no título, mas não são, me desculpem. Estes são, na verdade, os seis filmes mais bem avaliados do site internacional Internet Movie Database. A avaliação destes filmes é feita pelos usuários, num sistema de média ponderada, que ninguém sabe bem como funciona. Mas isso não importa. O que importa é que vox popoli, vox dei, e estes são os melhores filmes do mundo para um sem fim de gente. Além disso, eu tinha que encontrar algum critério, não é mesmo?

A pitoresca ideia deste texto é relacionar cada uma destas – discutivelmente – obras primas da sétima arte com algum whisky. Como uma espécie de harmonização, mas entre película e destilado. Assim, se você é apaixonado por certo whisky, é bem provável que irá gostar do seu filme correspondente. Você até poderá assisti-lo na companhia de uma ou duas doses daquele seu eleito. Mesmo porque ele poderá melhorar bastante sua experiência cinematográfica.

1. Um sonho de liberdade

Um Sonho de Liberdade (Shawshank Redeption, no original) conta a história de Andy Dufresne (Tim Robbins) um famoso banqueiro que é condenado à prisão perpétua. Na cadeia, ele conhece o Morgan Freeman, e entre eles rola o mais célebre caso de bromance da sétima arte. O filme – apesar de parecer bem simples – fala de uma forma relativamente sutil sobre culpa, mudança, amizade e altruísmo. Mas o mais incrível mesmo é que ele foi escrito por Stephen King, que resistiu à tentação de colocar alguma aranha gigante controladora de mentes ou enguia extraterrestre no roteiro.

Shawshank Redeption é um filme muito bom. Ele consegue dialogar de uma forma bem competente com qualquer nível de expectador, o que é um mérito indiscutível. O ritmo também é incrível – apesar das quase duas horas e meia, ele parece ter menos de cinquenta minutos.

Porém, na opinião deste Cão, dizer que ele é o melhor filme do mundo é pura hipérbole. Como, aliás, qualquer coisa que é considerada a melhor do mundo, não importa qual seja o critério de avaliação. Assim, para este Cão, o whisky que mais se assemelha a ele é o Johnnie Walker Blue Label. Sabor agradável, boa complexidade e absurdamente supervalorizado.

2. O Poderoso Chefão

The Godfather (traduzido de uma forma cretina para O Poderoso Chefão), dirigido por Francis Ford Coppolla, é um filme como poucos. Ele narra a ascensão de Michael, filho de Vito Corleone, um dos mais importantes Dons da máfia italiana na década de vinte. A película é detalhadamente construída para se tornar envolvente. Os momentos de afeição da famiglia Corleone são entremeados com maestria por cenas de violência gráfica e crueldade. Porém, tudo que é repugnante em relação à máfia foi elegantemente excluído do mundo de O Poderoso Chefão. Como disse o crítico Roger Ebert, a história é contada inteiramente de um mundo fechado. Não há vítimas civis do crime organizado, nem vidas arruinadas pelo jogo, fraude ou extorsão.

Na opinião deste Cão, porém, o maior mérito de O Poderoso Chefão é a identificação. Qualquer expectador – por mais pacífico e bondoso que seja – consegue se identificar com Michael. Seu percurso – ainda que pontuado por morte e traição – é o mesmo de muitos de nós. A tenaz luta contra nossa própria natureza, que, invariavelmente, como no labirinto de Creta, nos coloca novamente de onde partimos, independente de quantas voltas descrevermos.

Se o Poderoso Chefão fosse um whisky, ele certamente seria um Macallan Rare Cask. Sofisticado, elegante e cruel (no preço). E impossível de não ser adorado.

3. O Poderoso Chefão II

Coppolla conseguiu emplacar como terceiro melhor filme do mundo a sequência de sua obra prima. Mas pelo bem da diversidade, vamos pular este, ok? Favor fazer referência ao item 2. acima.

4. Batman: O Cavaleiro das Trevas

Talvez o título dê uma dica de leve. Mas Batman: O Cavaleiro das Trevas, é mais um filme noir do que sobre um super-herói. Um filme noir cujo protagonista – ao invés de um clássico detetive fumante, alcoólatra e de sobretudo – é um milionário vestido de morcego. Os elementos estão lá. Há o jogo de luzes. Há o conflito psicológico, onde o homem-morcego se vê na posição de vilão frente à manipulação o Coringa. Há a decadência e a descrença no herói. Primeiro, por parte do povo de Gotham, depois, pelo próprio Batman. É sim, um filme sobre um personagem dos quadrinhos, mas é também uma película sobre tragédia e dano – muitas vezes, infligido por si mesmo.

Ainda que este Cão considere que o filme está bem longe de assumir a quarta posição no ranking histórico do cinema, Batman: O Cavaleiro das Trevas possui uma surpreendente profundidade para seu estilo. Neste sentido, é muito semelhante a um Ballantine’s 17 anos. Blockbuster, sem dúvida, mas relativamente complexo e muito bem feito.

5. 12 homens e uma sentença

Este é o filme que deu origem a este texto, e o preferido de dez entre dez professores de ética das faculdades de direito. O que, de certa forma, traumatiza e estraga toda a experiência para muita gente. Porque, claro, todo mundo quer cabular a aula de ética. Especialmente quando ela é sobre um filme cult dos anos cinquenta, filmado em preto e branco, que se passa totalmente em uma única sala, onde os personagens discutem princípios éticos e valores sociais sem parar por uma hora e meia.

Apesar do descritivo torná-lo tão tentador quanto passar três dias na companhia do Tony Ramos ouvindo apenas Björk a capella (eu mudei a tortura) o filme é bem bom. E ainda que não seja um filme fácil, 12 Homens e Uma Sentença possui uma legião de fãs ao redor do mundo. O paralelo com o whisky é quase inescapável. O filme é o irmão gêmeo para tela do Lagavulin 16 anos. Um malte cult, amado como poucos.

6. A Lista de Schindler

A Lista de Schindler é um filme recessivo. Ele é dirigido por Steven Spielberg, mas não há qualquer efeito especial ou momento pirotécnico. Apenas uma narrativa bem construída, dramática e belíssima. E é estrelado pelo Liam Neeson, que, incrivelmente, não salva nenhum avião prestes a explodir e nem mata quinhentas e dezenove pessoas com uma única pistola enquanto viaja por cinco nações diferentes.

A película conta a história real de Oskar Schindler, um executivo alemão que transforma secretamente sua fábrica em um refúgio para os judeus, durante o nazismo. Durante suas mais de três horas de tela, não há alívio cômico ou momento jocoso. Apenas severidade.

Não é muito fácil encontrar um malte que possa se relacionar a Lista de Schindler. Talvez algo próximo seja o belíssimo Glenfiddich 18 anos. Um malte sisudo, para se beber silenciosamente e com extrema atenção.

7 (eu pulei o n.3). Pulp Fiction

Eu tenho que assumir uma coisa aqui. Pulp Fiction já foi meu filme preferido por muito tempo. Hoje, porém, reconheço que ele não é tudo isso. Okey, o filme é divertidíssimo e os diálogos são absolutamente geniais. Todos os personagens parecem falar apenas digressões e sempre têm observações inteligentíssimas. E sério, não tem como não rir quando o Christopher Walken conta onde escondeu o relógio, ou quando o Samuel L. Jackson discute preferências alimentares com o John Travolta.

Mas é isso aí. Pulp Fiction é a estética da violência somente pela estética. É um mundo completamente surreal, onde todo mundo parece agir normalmente. Nada é encarado como surpresa, seja o cérebro espalhado no banco de trás do carro, seja o homem vestido com roupas sadomasoquistas dentro de um baú de madeira. Tudo é cool.  Pulp Fiction é uma paródia do cinema mainstream norte-americano. Ou seja, é uma auto-paródia.

Este é outro filme que possui uma alma gêmea no mundo do whisky. O Jack Daniel’s Sinatra Select. Um ícone pop que homenageia outro ícone, mas da música norte-americana. O Sinatra Select é a destilação dos Estados Unidos.

 

Especial Escócia – Visita à Bunnahabhain

O diferente é o destaque. Atualmente, buscamos sempre uma experiência nova. Algo que fuja do usual, que seja criativo, ou que desponte por algum motivo. Somos compelidos a experimentar o novo, ou destoante. Numa sociedade que valoriza a experiência, ser diferente compensa.

A Bunnahabhain é a exceção dentro da exceção, e o exemplo perfeito disto. Em uma ilha conhecida por produzir predominantemente whiskies turfados e medicinais, a maioria dos single malts da destilaria não tem qualquer traço de turfa. São leves, florais e pouquíssimo desafiadores. Se Ardbeg é bravura; Bruichladdich, inovação e Lagavulin, nobreza; entao Bunnahabhain é sutileza.

Bem menos desafiadores do que este texto. Preparem-se.

Em um passado próximo, quase tudo produzido na Bunnahabhain era dedicado à industria dos blended whiskies. Ele era um dos componentes chave do conhecido Cutty Sark, bem como do Famous Grouse – pertencentes ao Edrinton Group, que também detinha a destilaria. A mudança veio na década de oitenta – após quase vinte anos praticamente inativa, quando os primeiros single malts da Bunnahabhain começaram a surgir no mercado. Por fim, em 2003, a destilaria foi vendida pelo Edrinton Group para a Burns Stewart, que, por sua vez, a vendeu para o grupo Distell em 2013.

Atualmente, aproximadamente trinta por cento da produção da destilaria é engarrafada como single malt. Quase todo o restante, porém, é dedicada ao Black Bottle, um blended whisky com perfil sutilmente enfumaçado, leve e adocicado.

Durante a visita, pudemos aprender uma série de detalhes sobre a produção da Bunnahabhain, explicados com certa pressa por nossa guia. A destilaria funcionava normalmente durante nossa visita, permitindo que tivéssemos uma ideia bem prática de como os conhecidos Bunna são feitos.

Vamos ao tradicional whisky-geeking. A água utilizada pela Bunnahabhain é a única de Islay proveniente de uma fonte. As demais destilarias utilizam água de lagos ou rios. O mash tun – onde a cevada maltada triturada é cozida com a água para preparar o malte – é o maior da ilha. Aproximadamente 12,5 toneladas de malte são feitos por vez. Mas o maior destaque são os washbacks, de madeira, com seu tempo de fermentação bastante prolongado. Quase cem horas – bem mais do que a média das destilarias escocesas.

Dentro do Mash tun

Perguntei à nossa guia se a madeira dos washbacks impactava em alguma coisa no sabor dos single malts. A mesma pergunta que havia feito a nosso guia na Ardbeg. Ela, curiosamente, respondeu que não, claro que não. Mas que as coisas sempre foram assim, e que não havia uma boa razão para mudá-las agora. Acenei com a cabeça, um pouco contrariado.

Seguimos para os alambiques, também em funcionamento. No Brasil, me sentiria totalmente à vontade naquela temperatura. Porém, na Escócia, portando uma indumentária com várias camadas, senti que vagarosamente me destilava por dentro. Me concentrei na explicação.

Todo new-make spirit produzido na Bunnahabhain provém de dois pares de alambiques. Um de primeira destilação e outro de segunda. Parece pouco, mas não é. Os spirit stills – de segunda destilação – têm capacidade de quinze mil litros por vez. Os de primeira são ainda maiores. Trinta e cinco mil litros. Todos possuem um formato semelhante a uma pera, com braço reto – o que incentiva o contato com o cobre, e produz um whisky pouco oleoso.

Alambiques

A graduação alcoólica após a segunda destilação é de incríveis sessenta e nove por cento. Porém, o whisky é levemente diluído antes de entrar nas barricas, para um número que, aparentemente, é ouro para os produtores de islay. Sessenta e três e meio por cento.

Tive a oportunidade de provar uma edição especial da Bunnahabhain, o Feis Isle 2017 – que ilustra este post – produzido especialmente para a festa anual da ilha. É um whisky sem turfa, com um incrível aroma floral e de caramelo.

Por fim, e enquanto nossa guia se despedia apressadamente de nós, provamos o Toiteach, versão enfumaçada da Bunnahabhain. Defumado e seco, e uma clara mensagem de retorno à realidade. A exceção, dentro da exceção da exceção.

Armazém. Eu poderia morar aqui.

Rusty Compass – Drink do Cão

Vou começar o texto dizendo algo que pode soar pretensioso. Mas juro que não é. Me considero uma boa companhia para mim mesmo. Para os outros, bom para os outros não. Para os outros eu sou bem chato, meio antisocial, e bem calado. Especialmente quando estou sóbrio.

Mas quando estou sozinho, não tenho muitos momentos de aborrecimento. Consigo preencher o tempo livre de minha agenda com banalidades sem a menor dificuldade. Coisas como ver algum filme, ler alguma coisa, inventar algum coquetel – que normalmente fica horrível e alcança imediatamente o oblívio – ou mesmo visitar algum bar recém-inaugurado. Quando menos percebo, o dia já acabou.

Mas às vezes, muito raramente, fico terrivelmente entediado. Nenhum filme para ver ou livro para ler. Zero de criatividade para misturar coisas e vontade de sair. Bússola mental quebrada, apontando para todos os lados, mas sem tomar qualquer rumo certo. Se minha mente pudesse ser observada em uma tela, a única coisa projetada seria energia estática.

Semana passada tive um dia desses. Sentei-me na frente do computador e comecei – sei lá por que – a pesquisar receitas em um famoso website de coquetelaria. Sem qualquer objetivo, apenas vendo as figurinhas e receitas passarem sem dar muita importância. Passei uma boa meia hora lá, até chegar a um que quase magneticamente, atraiu minha atenção. O Rusty Compass.

O Rusty Compass é quase um híbrido entre o Rusty Nail e o Blood and Sand. Seus ingredientes são Cherry Heering, Drambuie e – a razão de minha repentina atenção – whisky enfumaçado. É um coquetel que une o dulçor do Drambuie com o azedo e seco do Heering, elevado pelo uso do único ingrediente do mundo que torna tudo incrível. Whisky defumado.

Você disse whisky defumado?

Não há muitas referências sobre a história deste coquetel. O único fragmento que este Cão conseguiu encontrar foi no Difford’s Guide. Segundo eles, o nome Rusty Compass é uma união entre Rusty Nail – por conta do uso de Drambuie – e o blended malt Compass Box Peat Monster, originalmente utilizado na receita. Sua origem, porém, permanece um mistério. A nós, resta especular. Talvez tenha originado das mãos de outra pessoa terrivelmente entediada, em um dia de ócio criativo.

O Rusty Compass é especialmente interessante não apenas por ser delicioso. Mas porque há nele uma provocativa quebra de dogma. A receita tida como original utiliza um blended malt whisky premium, caro e respeitado. A receita do Difford’s Guide, porém, vai além. Ela recomenda que se misture algum single malt defumado de Islay. Ela demonstra que se utilizado de forma correta e com propósito, single malts podem participar de coquetéis.

Reticente com a recomendação, este Cão fez diversos testes com os whiskies disponíveis no Brasil. Mas depois, entendeu. A combinação de Heering e Drambuie trazem um dulçor quase surreal, considerando as proporções do coquetel. Para equilibrá-lo, é necessário um whisky claramente enfumaçado. O melhor resultado obtido – na opinião deste amante de fumaça – foi com Ardbeg 10. Com ele, o drink ganha um incrível final de carvão e fogueira, apesar da primeira impressão adocicada. O Johnnie Walker Double Black, uma aposta que parecia razoável, foi eclipsado pelos demais ingredientes. A combinação dos dois, porém, funcionou bem.

Assim, caro leitor, ajuste sua bússola mental e prepare seu mis-en place. Aí vai a melhor coisa que você pode fazer na sua próxima meia hora. Especialmente se você não tinha mais absolutamente nada pra fazer. O misteriosamente incrível Rusty Compass.

RUSTY COMPASS

INGREDIENTES

  • 3/4 dose de Drambuie (leia mais sobre ele no post sobre o Rusty Nail)
  • 1/2 dose de Cherry Heering (já explorado quando falei sobre o Blood and Sand)
  • 1 e 1/2 dose de whisky defumado (Ardbeg 10 foi o melhor resultado obtido por este Cão. Porém, experimente algo como 3/4 de Johnnie Walker Double Black e 3/4 de Ardbeg, para algo menos dolorido financeiramente, mas ainda equilibrado. É uma medíocre tentativa de simular o sabor do Compass Box Peat Monster).
  • zest de limão siciliano (isso é um corte da casca)
  • gelo
  • mixing glass
  • colher bailarina
  • strainer
  • Taça Coupé (é a da foto). Há uma outra versão que leva uma pedra grande de gelo em copo baixo. Vale testar.

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes com gelo em um mixing glass.
  2. Mexa um pouco e desça o coquetel coado na taça coupé.
  3. Adicione o zest de limão siciliano

Teacher’s 12 Golden Thistle – Refinamento Áureo

Esses dias fui almoçar em um restaurante novo que abriu aqui perto de casa. Tudo muito bonito, bem diferente daquele que lá funcionara antes dele. Cadeiras de latão, lâmpadas de filamento carbono, mesas de madeira de demolição. Olhei o menu. Comida orgânica, café fairtrade, cerveja artesanal. Pratos com ruibarbo e sobremesa com regaliz.

Um rapaz se aproximou da minha mesa e estendeu a mão. Contemplei aquele indivíduo que ostentava um curioso bigode a la Dali e uns mullets que poderiam fácil ter sido usados pelo Mel Gibson na década de oitenta. Camisa xadrez, suspensório, all-star. Levei uns bons trinta segundos observando aquela figura até perceber que ele era o mesmo dono do restaurante antigo, só que fantasiado. Não sei do quê. Apertei sua mão.

Contratamos um consultor. Ele disse que a gente devia mudar para alcançar outra faixa do mercado. E vou te falar que tá indo bem. Vai ter um parklet lá fora com cobertura, e a gente vai prender as bicicletas no teto. Acenei com a cabeça. Tá tudo mudando mesmo. Mas escuta, e preço? Bom, o preço mudou também. Mas como disse lá o pessoal do Porta dos Fundos, agora o que se vende é a experiência. O menu vai ser sazonal. Quando todo mundo já souber o que gosta, a gente muda. É para ser cool antes de ser cool, entendeu?

Acho que…

…não, não entendi. Mas não importa, porque na mesma semana recebi de um amigo um lançamento que me deixou bem curioso. O Teacher’s 12 Golden Thistle. Recém chegado ao Brasil, o Golden Thistle possui a mesma genética de nosso velho conhecido Teacher’s Highland Cream, mas bem mais sofisticado. A começar pela declaração de idade – 12 anos. E pela maturação, que ocorre me barricas de single malt defumado, os Laphroaig.

O paralelo era quase inescapável. A garrafa do Golden Thistle se sentiria tão à vontade no novo restaurante quanto o clássico Cream se sentiria no antigo estabelecimento. A ampola remonta a um frasco de remédio de um apotecário clássico. O rótulo duplo dourado, com alto relevo e plastificado, tem pouca relação com a (quase) folha A4 grudada no Teacher’s tradicional. Um visual que não deve nada aos melhores blends premium do mercado.

O sabor remonta, de longe, o Teacher’s Highland Cream. Porém, o whisky é menos agressivo e mais bem acabado. Há um certo sabor adocicado de laranja lima. O final é médio e quase imperceptivelmente enfumaçado. Segundo a marca, sua base é o single malt Ardmore, proveniente das highlands e indiscutivelmente defumado. Este Cão, porém, suspeita que a receita original do Teacher’s foi modificada para esta expressão, e que uma boa dose de Auchentoshan – também pertencente à Beam Suntory – foi utilizada.

Acontece que o Teacher’s 12 Golden Thistle é bem menos defumado que seu irmão mais novo. O que não deixa de ser uma quebra de expectativa, ainda que talvez positivamente surpreendente. Considerando seu DNA e a anunciada finalização em barricas de Laphroaig, esperava encontrar algo tão enfumaçado quanto um Bowmore ou, talvez, um Johnnie Walker Double Black. Mas não é o que acontece. O Golden Thistle é um whisky bem mais contido, civilizado e amável que seu irmãozinho caçula. É o irmão mais velho responsável.

O Teacher’s tem uma reputação a velar por aqui. É – por uma larga margem de diferença – o whisky mais consumido no Brasil. São oitenta e quatro milhões de doses consumidas por ano. Pernambuco é o estado que mais bebe o rótulo. Por lá, uma em cada duas garrafas vendidas é dele. Introduzir um whisky como o Golden Thistle neste cenário é uma bela responsabilidade – ao mesmo tempo que se deve agradar à enorme legião de convertidos, é preciso também converter novos correlegionários. Responsabilidade, esta, que foi cumprida com sucesso, na opinião deste canídeo.

O Teacher’s 12 em seu evento de lançamento. Será que essa planta do lado é ruibarbo? (foto: Charles Johnson)

Aliás, o primeiro mercado a receber o Golden Thistle foi, justamente, o Brasil. Mais especificamente, os estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Alagoas. Depois, o whisky também será comercializado na Índia – outro país que é apaixonado pelo velho professor. Walter Celli, presidente da Beam Suntory Brasil comentou sobre o whisky em seu evento de lançamento, que aconteceu em Recife sob a batuta de Cesar Adames: “Nosso 12yo vem para somar ao portfólio de Teacher`s, o whisky mais vendido do Brasil, fortalecendo ainda mais nossa liderança e ampliando as possibilidades de mercado, com a entrada para o segmento super premium”. 

Por aqui, o Teacher’s tem preço médio de R$ 99,00 (noventa e nove reais). É um preço que o coloca em combate direto com concorrentes de peso, como o Famous Grouse Finest, Grant’s Family Reserve, Whyte & Mackay Special e o todo poderoso Johnnie Walker Red Label. Não é uma briga fácil. Mas é uma também que o Teacher’s 12 Golden Thistle está totalmente pronto para enfrentar. Ele não deve nada a qualquer um deles.

Se você é um apaixonado pelo Teacher’s Highland Cream e está pronto para dar um passo de sofisticação, ou se gosta de whisky e não consegue ver um lançamento sem experimentar, procure o Golden Thistle. Não importa se você usa coque, alargadores na orelha, camisa xadrez e bigodes sofisticados. Ou se aprecia um menu com itens que ninguém sabe bem o que são. Experimente o Teacher’s 12 Golden Thistle. Mesmo que ele já seja cool.

TEACHER’S 12 GOLDEN THISTLE

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 12 anos

Marca: Teacher’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: mel, frutas vermelhas, sucrilhos (sério, o cereal matinal mesmo).

Sabor: frutas vermelhas, mais cereais matinais, um certo apimentado suave. Final curto e muito levemente enfumaçado. Corpo leve.

 Preço: em torno de R$ 99,00 (noventa e nove reais)

 

Fogo da paixão – Lagavulin 16 anos

Se você gosta de filmes antigos, talvez já tenha assistido a 12 Homens e Uma Sentença (12 Angry Men). Não é muito fácil descrevê-lo positivamente com base somente em seu roteiro. É um filme cult dos anos cinquenta, baseado em uma peça teatral. Ele é filmado em preto e branco e se passa totalmente em uma única sala, onde os personagens discutem princípios éticos e valores sociais sem parar por uma hora e meia.

Apesar do descritivo torná-lo tão tentador quanto ficar nu e levar uma surra de um pé de cabra enferrujado ao som de Katy Perry, o filme é bem bom. O ritmo é excelente e os diálogos incrivelmente engajadores para o tema. Ele trata da relativização das normas, da justiça e da inegável diferença entre o mundo do ser e do dever ser.

Mas o mais incrível sobre 12 Homens é que, pelo jeito, todo mundo gosta dele. Ele está entre os cinco melhores filmes do mundo no website IMdB, e possui cem por cento de aprovação no Rotten Tomatoes. Além disso, foi listado como um dos melhores filmes do mundo pelo crítico Roger Ebert, e eleito um dos 100 mais inspiradores pelo American Film Institute. De certa forma, 12 Homens e uma Sentença é como o Lagavulin 16 anos. Amado por todos.

Você disse Lagavulin?

A experiência de se beber Lagavulin 16 anos pode ser definida, com certo exagero, como inefável. Mesmo porque – assim como o filme – descrevê-la de uma forma que pareça deliciosa é bem difícil. É que a maioria dos whiskies pode ser resenhado como algo perfumado, agradável, floral, frutado. É como disse George Bernard Shaw: whisky é o brilho do sol líquido.

Mas não o Lagavulin 16. O Lagavulin 16 é um dia tempestuoso. É como mastigar uma poltrona de couro. Uma poltrona de couro em chamas, forrada de esparadrapos e salpicada com sal grosso. Não há nada condescendente em relação à experiência. Mas, mesmo assim, é um dos maltes mais apaixonantes que conheço. Isso fica bem claro ao lermos as provas da mídia especializada sobre ele. Não há um único comentário negativo. É curioso como um whisky tão desafiador pode ser tão unânime.

Antes de mais nada, preciso pedir desculpas ao leitor pela falta de imparcialidade aqui. É que há um laço emocional forte com este whisky. O Lagavulin 16 anos não foi meu primeiro whisky – este feito pertence ao Chivas 18. E nem aquele que despertou meu interesse por single malts (foi o Glenfiddich 18 anos). Mas foi o primeiro que fez minha cabeça rodar – literalmente – e consolidar minha paixão pela bebida nacional escocesa. O Lagavulin 16 anos foi, por muito tempo, meu single malt preferido.

Todos os elementos de produção do Lagavulin 16 anos contribuem para sua pungência. Os alambiques de primeira destilação (wash stills) são carregados com 85% de sua capacidade total. Já os de segunda – que possuem braços descendentes – praticamente transbordam, com 95% da capacidade total. A destilação leva em torno de dez horas – bem mais do que a média da Escócia. Por fim, o coração dos Lagavulin começa com 72% de álcool e termina em 59%. É um corte bem largo.

 

Alambiques da Lagavulin (fonte: whisky.com)

A maturação do Lagavulin 16 anos ocorre principalmente em barricas de carvalho americano de ex-bourbon. Ainda que a destilaria não assuma expressamente, este Cão possui fortes suspeitas que utilizem também ex-jerez para padronização de sabor. É, porém, um uso muito tímido. Muito mais tímido do que aquele de seu irmão gêmeo, o Distiller’s Edition. Também com dezesseis anos, a diferença primordial entre as duas expressões é que este passa seus últimos anos em barricas de ex-jerez.

Por falar em expressões, o portfólio da Lagavulin é bem restrito. Durante a década de oitenta, havia apenas o 16 anos. Em 1990, a destilaria resolveu, em um arroubo de coragem, dobrar seu portfólio. Passou de um para dois whiskies diferentes, ao lançar seu Distiller’s Edition. Dois anos depois, o 12 anos Cask Strength – uma edição limitada anual – foi disponibilizada. Além destas, a Lagavulin costuma lançar edições especiais, bastante concorridas. Algumas delas são a Jazz Festival (em homenagem ao festival de jazz de Islay), Feis Ile, 25 anos e 8 anos.

O Lagavulin 16 faz parte do (nem tão) polêmico grupo Classic Malts of Scotland, criado em 1988 pela gigante Diageo. A ideia do grupo é apresentar os mais icônicos – segundo eles – whiskies de seu portfólio, de acordo com a região produtora. O problema é que a Diageo, apesar de possuir mais de vinte destilarias sob seu comando, não tem nenhuma de Campbeltown. Além disso, não conseguiu se decidir por apenas um malte das Highlands – teve que desmembrá-la em West Highlands, Islands e Highlands. Por conta dessa história, a empresa criou uma variação das famosas regiões da Escócia, antes mapeadas por Michael Jackson. Assim, além do Lagavulin 16, que representa Islay, os Classic Malts originais eram Oban (West Highlands), Cragganmore (Speyside), Glenkinchie (Lowlands), Dalwhinnie (Highlands) e Talisker (Islands).

Os Classic Malts originais

O Lagavulin 16 anos é praticamente a ilha de Islay em uma garrafa. Até mesmo Georgie Crawford, gerente da destilaria, fala apaixonadamente sobre o whisky “não há qualquer outro produto por aí que você possa realmente fechar seus olhos enquanto bebe e ser transportado para o seu ponto de criação em sua mente. Quando bebo Lagavulin, sou instantaneamente transportada para o final do pier, observando a baía“.

Infelizmente, por algum motivo que foge à lógica deste Cão, o Lagavulin 16 anos não está à venda em nosso país. Sua proprietária, a Diageo, prefere trazer whiskies com preço de combate e sabor amável, por talvez imaginar que, nós, brasileiros, possuímos paladar doce e pouco desenvolvido para single malts. Assim, maltes bem menos louvados e conhecidos internacionalmente transbordam nossas lojas – como Glen Ord, Glenkinchie e Cardhu. Porém, outros, renomados e concorridos, somente podem ser comprados fora de nosso país, como Mortlach e Lagavulin. E nem adianta argumentar sobre o preço. Se há um whisky capaz de se vender sozinho, independentemente de seu valor, é o Lagavulin.

Neste ponto, eu poderia recomendar o Lagavulin 16 anos para certo tipo de leitor. Dizer que se você gosta de whiskies enfumaçados e medicinais, se apaixonará por ele. Porém, dessa vez, não farei isso. Serei bem mais aventureiro. Experimente o Lagavulin 16 anos independentemente de seu gosto pessoal. Mesmo se você gosta de bourbons, blends, ou se sua preferência for pelos florais, ou frutados, ou vínicos. Mesmo se você não suportar fumaça e tiver ódio de bacon. Mesmo assim, experimente o Lagavulin 16. Ele é indescritivelmente apaixonante.

LAGAVULIN 16 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 16 anos

Destilaria: Lagavulin

Região: Islay

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: Predominantemente carvão, com aroma de esparadrapo e iodo.

Sabor: bastante defumado e rico, levemente frutado e com amargor acentuado. Final medicinal, com esparadrapo e carvão. Amargo, levemente salgado e bastante prolongado.

Com água: o aroma fica quase totalmente defumado. Na boca, o amargor fica menos evidente e um sabor de frutas secas fica evidente.

Preço: £55,00 (cinquenta e cinco libras)