A História do whisky japonês – Parte II

Na semana passada contamos os primeiros capítulos da história do whisky japonês. Do desembarque de Matthew Perry no porto de Edo, até a fundação da Suntory por Shinjiro Torii e Masataka Taketsuru. Por ora, tudo estava em paz. Mas sossego nenhum dura pra sempre, então, retomaremos a história com: Conflitos domésticos e internacionais Em 1934, Masataka Taketsuru resolveu alçar voo solo. Demitiu-se da Kotobukiya e começou a trabalhar no projeto de sua nova destilaria. Essa, onde ele sempre sonhara. A ilha de Hokkaido. Por não ser um empreendedor tão nato quanto Torii, Masataka resolveu batizar seu novo empreendimento de Dainipponkaju – perfeito para se falar depois de algumas doses de Kakubin. Depois, e provavelmente ao ouvir a voz da razão […]

A História do Whiskey Japonês – Parte I

Todos nós conhecemos o estereótipo de cientista maluco. Aquele cara que tem um sonho bizarro, quase inalcançável, é socialmente inapto e meio esquisitão. Se for personagem de um filme, ele usa jaleco branco, não penteia o cabelo e às vezes dá umas tremidas esquisitas, como se estivesse possuído pelo capiroto. Mas, por trás da bizarrice toda, está um gênio, capaz de criar algo que mudaria a história da humanidade. É uma hipérbole, como todo estereótipo. Mas, isso não significa que ele não poderia existir. Um exemplo quase perfeito é John Whiteside Parsons – conhecido como Jack Parsons. Caso você não conheça, vou preguiçosamente transcrever aqui a descrição do primeiro parágrafo da Wikipedia. “Parsons foi um engenheiro de foguetes, químico e […]

Hakushu Distiller’s Reserve – Schadenfreude

Eu acho engraçado como algumas línguas tem umas palavras super específicas. Alemão, por exemplo, tem duas que eu amo, e que – brilhantemente, na minha opinião – se ligam ao sentimento de culpa. A primeira é Drachenfutter. Drachenfutter define, de uma forma incrivelmente sucinta para um germânico, aquele presentinho safado que a gente dá pro companheiro ou companheira depois de fazer alguma besteirinha inocente. Tipo – e os exemplos aqui são totalmente fictícios – esquecer o aniversário de relacionamento, ter uma crise histérica durante alguma discussão ou chegar em casa miando e se arrastando como um leão marinho de tão bêbado às duas da manhã. A outra é Schadenfreude. Que é mais ou menos o resumo de nosso ditado popular, […]

Whiskies lançados em 2020 – Sui Generis

Sui Generis. Se pudesse escolher uma expressão – em latim, claro, para ser sofisticado – para definir dois mil e vinte, utilizaria, certamente sui generis. É o tipo de expressão que é capaz de englobar, com perfeito grau de ambiguidade, tanto algo terrível quanto algo maravilhoso. É como quando dizemos que certa pessoa é interessante, curiosa, distinta e tantas outras expressões que são não-elogios ou críticas veladas. E cabe a você, querido leitor, dependendo de seu grau de otimismo, interpretar como quiser o que quis dizer com isso. Mas posso garantir umas duas coisas sobre dois mil e vinte. A primeira, é que certamente não foi um ano de aprendizado. Eu não aprendi nada que eu precisasse em dois mil […]

Suntory Yamazaki 12 anos II – 2020

Essa é a segunda prova do Yamazaki 12 anos neste blog. A primeira foi escrita em 2015 (leia a original aqui). Porém, devido à volta deste desejado rótulo às nossas terras, resolvemos revisitá-lo e fazer uma prova completamente nova. Se você tem um iPhone, abra seu teclado e procure o emoji de onda. Observe com atenção e deixe-me explicar porque esta imagem lhe parece tão familiar. O desenho é baseado em uma obra de arte clássica japonesa do período Edo. A Grande Onda de Kanagawa, uma xilogravura do artista Katsushika Hokusai – parte de sua icônica série de trinta e seis vistas do monte Fuji. Ela é provavelmente a obra de arte mais reproduzida do mundo. Está em muros, sapatos, […]

Quatro presentes de whisky para o seu pai

Ser pai é uma experiência de surpresa e autoconhecimento. De surpresa porque de todos os infinitos cenários que imaginei para mim aos trinta e tantos, nenhum deles contemplava estar acordado às seis e meia da manhã assistindo Bita e os Animais enquanto uma criança lambe a metade gostosa de uma bolacha recheada. E de autoconhecimento porque a criança reminisce bastante a mim. Nem tanto fisicamente – neste ponto, por sorte, os genes de minha esposa foram absolutamente impiedosos. Mas quanto à personalidade mesmo. Tenho dois filhos, e me vejo neles o tempo todo. Aliás, eu nunca havia me dado conta de quão irritante e obstinado eu era, até gerar uma mini-versão feminina de mim, e discutir com ela todos os […]

Suntory Haku Vodka – sobre sopas, iguarias e o vazio

Há um par de anos, fui com meu pai em um restaurante chinês sofisticado e pedi um prato improvável. Sopa de barbatana de tubarão. Fomos lá só pra isso, na mais inocente curiosidade. É que sopa de barbatana de tubarão é um prato típico chinês, geralmente servido somente em ocasiões muito especiais. Casamentos, por exemplo. Ele sugriu na dinastia Song, e é visto até hoje por boa parte da população da China como um símbolo de prestígio. Pudera. O quilo de barbatana pode custar bem mais de quatrocentos reais. Mas o mais curioso, porém, não é o preço estelar da iguaria. Mas algo que, antes da experiência, não sabíamos: barbatana de tubarão não tem gosto nenhum. A textura é curiosa, […]

Suntory Roku Gin – Filosofia oriental

A estética e a cultura japonesa estão intimamente refletidas em sua linguagem. Os japoneses possuem palavras simples que definem conceitos incrivelmente complexos. Por exemplo, wabi-sabi, que define a apreciação das imperfeições de tudo que é natural. Ou omotenashi – que poderia ser traduzido como hospitalidade. É a virtude de antecipar as necessidades dos outros e atendê-las. A tradição de certos restaurantes japoneses de entregar uma toalhinha quente e úmida para o comensal antes da refeição é baseada nesse princípio. Há umas palavras bem específicas, também. Como tsundoku, que define a tendência de certa pessoa comprar e colecionar mais livros do que consegue ler. É quando a sede de conhecimento supera o tempo disponível. Feliz, ou infelizmente, não há nenhuma palavra […]

Para onde foi todo o whisky japonês

Quando era criança, possuía um livro sobre animais extintos. Eram mais de vinte páginas, que ilustravam bichos como o cão da tasmânia, o dodo e o rinoceronte do oeste africano. Varridas de nosso mundo pela ação humana, mudança climática ou qualquer outra hecatombe. Animais outrora majestosos ou, no mínimo, curiosos, cujas espécies tornaram-se parte do passado. Ficava verdadeiramente triste em saber que jamais poderia ver um quagga ao vivo, por exemplo. Por outro lado, havia alguns que não exerciam tanto fascínio. Tipo a Aranha Teia de Funil Cascada (Hadronyche pulvinator). Uma das aranhas mais venenosas do mundo, responsável por mais de duas dúzias de mortes registradas. Nativa da Tasmânia, este aracnídeo sórdido – isso é um pleonasmo – foi vítima […]

Das Flores – Suntory Hibiki 12 anos

Se você é um fã de Gordon Gekko, o inescrupuloso investidor fictício de Wall Street, talvez saiba o que foi a Febre das Tulipas. Ou talvez não, porque, enfim, existem coisas melhores para se fazer do que decorar cada trecho de um filme. Então, por via das dúvidas, aí vai uma breve explicação. A Febre das Tulipas foi um período durante o século dezessete em que a elite holandesa tornou-se absolutamente obcecada por uma simples flor. A história toda começou quando um tal Suleiman, o Magnífico, encontrou tulipas em uma de suas viagens à Ásia. Embasbacado – não sei bem por o que – resolveu que enviaria um exemplar a um botânico, em Leiden. O resto da história é pura […]