junho 2018 - O Cão Engarrafado

Beer Drops – Adnam’s Two Bays

Cervejas maturadas em barricas de carvalho ou com chips de carvalho. Nossas televisões mentais projetam, imediatamente, a imagem de alguma imperial stout ou porter, quase tão oleosa quanto petróleo. Se fosse um pouquinho mais densa, nem caberia na proverbial frase de Jânio. Bebo porque é líquido. Ela estaria lá, no limiar dos dois estados físicos. Tipo vidro. Uma vez me disseram que vidro é um líquido de altíssima densidade. Certamente essa pessoa não provou imperial stouts o suficiente para entender o que é a fronteira entre o sólido e o líquido. É natural. A maioria das cervejas maturadas pertencem a estes estilos. O que não significa, de forma nenhuma, que uma cerveja mais leve não possa sofrer maturação e ficar […]

Commodore – O lado doce da vida

Ah, o excesso. Como diria Oscar Wilde, a moderação é algo fatal. Nada tem tanto sucesso quanto o excesso. E ainda que a frase de Wilde deva ser vista com reticências, e não como uma carta branca para cometer todo tipo de atrocidade, tenho que concordar com ele. O excesso melhora bastante tudo aquilo que já é naturalmente prazeroso. Se você não concorda, deixe-me fartamente exemplificar, com abundâncias corriqueiras. Dormir até as duas da tarde no domingo. Comer meio bolo de fubá numa sentada. Assistir oito episódios seguidos da sua série favorita na companhia de um pote de sorvete ou pipoca. O clássico quarto – ou quinto – pedaço de pizza. Só mais uma cervejinha de saideira e a gente […]

Drops – AnCnoc Blas

Guardamos relação sentimental com uma porção de coisas. Aquele carro que nos acompanhou numa viagem incrível, aquele filme que assistimos com certa companhia especial e aquela música que pautou algum grande desafio. Não é necessariamente algo bom ou ruim. Mas é uma sensação de que aquilo é especial somente para você, por mais prosaico que possa aparentar para todas as outras pessoas. São aquelas coisas que participaram de momentos de epifania, ou que marcaram alguma passagem em nossas vidas. Um dos whiskies que guarda espaço especial em minha memória etílica é o AnCnoc. O AnCnoc foi meu predileto na degustação mais importante que participei em minha primeira viagem à Escócia.  Fiquei tão impressionado que a última coisa que fiz, vinte minutos […]

Seis whiskies que fazem muita falta no Brasil

Hiraeth. Não poderia começar este post de outra forma, senão por hiraeth. O correspondente galês de nossa intraduzível saudade. Mas com um significado extra. Hiraeth também se refere àquele vazio existencial causado pelo desejo de algo que você jamais teve. As saudades que um filho único sente de seu irmão que jamais nascera. Ou que eu tenho de possuir um Bowmore 1957 de 54 anos. Ah, que me falta faz esse Bowmore. De certa forma, hiraeth é um sentimento um pouco paradoxal. É a nostalgia de tudo aquilo que não vemos e não podemos ter. Mas pior que ela, é mesmo aquela saudade de algo que já tivemos, mas que acabou. Um amor, uma época da vida. E claro, uma […]

Chivas Masters – Final

Ah, sempre segunda-feira. Desde que comecei a escrever este blog, minhas segundas-feiras têm sido bem mais animadas. É que segunda é o dia preferido para os mais diferentes eventos de coquetelaria. Talvez porque muitos bares não abram. Ou talvez porque os organizadores têm a mesma sensação que eu – que uma semana que começa numa segunda feira dessas não pode ser ruim. E nessa segunda, 11 de junho, aconteceu na Lions Club a final do Chivas Masters, uma competiçao global, que pela primeira vez teve participação brasileira. Ela celebra bartenders que demonstram conhecimento e criatividade, e compartilham dos valores como comunidade, colaboração e generosidade. A ideia do campeonato é justamente reforçar estes valores, tidos como pilares da marca. Para o Chivas Masters, […]

Palestra – O Renascimento do Whiskey Irlandês

Prezados leitores, interrompemos nossa programação normal para um anúncio de enorme importância. Na próxima quinta-feira, dia 14, este Cão realizará uma palestra sobre a história e o renascimento do Irish Whiskey na Livraria Martins Fontes da Av. Paulista. A palestra é parte de um projeto conjunto entre O Cão Engarrafado e a agência de viagens Freeway: Uma viagem para a Irlanda, com foco no whiskey irlandês. Durante a palestra, este Cão também abordará o roteiro da viagem, que conta com visitas a destilarias como Jameson, Teeling, Tullamore D.E.W. e Waterford – uma destilaria que é fechada para visitantes, mas que aceitou nos acolher. Mas nem tudo é whiskey. Visitaremos castelos incríveis, faremos uma parada estratégica na fábrica da mundialmente famosa […]

Wild Turkey 81 – Sobre aves granjeiras

  Não é segredo pra ninguém que eu odeio frango. Não é que eu não como frango, porque eu como quase qualquer coisa. Sério, se você me servir algo bem nojento, como, sei lá, olho de bode ou aquele ovo verde chinês, talvez eu tenha alguns segundos de ponderação. Mas, depois disso, há uma enorme possibilidade que eu vá provar. Aí, talvez, depois, eu vá dizer que aquele negócio é bem ruim ou absolutamente asqueroso, e ele entre no rol de coisas que eu provavelmente vou comer de novo porque sou teimoso, mas não gosto. E o frango está aí. Eu como frango com desgosto. Não é um preconceito – preconceito seria se eu nunca tivesse provado – mas um […]

Drops – Innis & Gunn Original Oak Aged

  Hoje falarei de um assunto polêmico, mas frequente. Um assunto discutido em quase todas as mesas de bar do Brasil. Algo que todo mundo faz, ainda que, às vezes, a gente prefira acreditar o contrário. Vou falar de cocô. Isso mesmo. Porque toda conversa de adultos regada a álcool termina, invariavelmente, em algo escatológico. Ou sexo. Cocô é quase tudo aquilo que ingerimos, mas que não é aproveitado por nosso organismo. Não importa o quão gostoso ou sofisticado foi seu prato. Aquele frango (que nojo), o spaghetti a bolonhesa, o medalhão de kobe beef e o caviar Almas de esturjão albino, todos eles, virarão a mesma repugnante coisa. E você sabe qual é. O que não significa, é claro, […]

Estrelas da Música que amam whisky

Pensem em um advogado. Se você não for um, provavelmente recorrerá a um ficcional. Como, sei lá, o John Milton (Al Pacino), Martin Vail (Richard Gere), Harvey Specter e aquela doida do Jessica Jones que só quer ver o mundo pegar fogo. Todos tem o mesmo estereótipo. Egoístas, obstinados, oportunistas. Geralmente alcoólatras ou meio drogados. Não existem muitas variações para o advogado ficcional. Vêm tudo num pacote. É, eu sei que há uns tantos outros que são o oposto, como o Atticus Finch e o Fred Gailey, mas ninguém pensa neles. Na cultura popular, nós – é, eu sou advogado – somos os operadores do apocalipse. Tipo os leprechauns irlandeses, mas ao invés de gorrinho e camisa verde, a gente […]