The Glenmorangie 25 The Altus – Etimologia

Uma das matérias não etílicas que mais me fascina é a etimologia. Que, etimologicamente falando, junta étymos (real) com logia (estudo, ou discurso). O termo define o estudo do sentido verdadeiro das palavras, e é bem esclarecedor. Por exemplo, burocracia, que é uma mistura de boureau, que vem do francês, e significa escritório, e kratos, que vem do grego, e significa poder ou governo. Ou seja, burocracia é o governo do escritório, basicamente. Democracia usa o mesmo kratos, mas substitui o poder do governo por dêmos, que é o poder do povo. A etimologia é também um indício importante para entender a evolução, ou o surgimento, de uma língua. Português tem uma raiz latina. Então, boa parte das palavras derivou desta ancestral. A palavra “altura” é um exemplo bom. Ela vem de Altus, que, para os romanos, podia significar duas coisas antagônicas. Altura, mesmo, e também profundidade. Ou seja, um prédio podia ser altus, porque era alto. Mas um poço também podia ser altus, porque era profundo. E aí, em algum momento da história, alguém sugeriu que talvez fosse mais prático inventar uma segunda palavra, e surgiu a profundidade. Que, por sua vez, vem de profundus (longe do topo), e […]

Woodford Reserve Double Oaked – Turfe

Se você gosta de corridas de cavalos, ou se é fã de Hunter S. Thompson, há grandes chances de já ter ouvido falar do Kentucky Derby. De toda forma, deixe-me defini-lo aqui com uma autoparáfrase: o Kentucky Derby é provavelmente a mais famosa corrida de cavalos do mundo. O tempo rendeu-lhe o título de “os dois minutos mais emocionantes do esporte”. É a primeira das três provas que compõem a Tríplice Coroa, juntamente com o Preakness Stakes e o Belmont Stakes. Realizado em Louisville, Kentucky, o Derby é um festival de roupas extravagantes e indivíduos excêntricos. Chapéus vitorianos dividem espaço com fraques, monóculos e cartolas.” O Kentucky Derby é, na verdade, uma espécie de festa à fantasia universitária, na qual todo mundo bebe loucamente e faz de tudo um pouco. Só que no Kentucky Derby também há cavalos. Muitos sustentam que os belos equinos são, na verdade, os protagonistas do espetáculo. Eu, no entanto, tenho minhas dúvidas. Afinal, o evento possui um coquetel oficial: o Mint Julep. O que sugere que os animais de grande porte estão lá apenas para justificar uma coisa ou outra. Essa impressão fica ainda mais forte ao saber que a corrida possui também um bourbon […]

Sobre a expansão do whiskey americano no Brasil

Pela primeira vez na história do Caledonia, consegui preencher um nicho inteiro com whiskies americanos. Três fileiras de um metro cada, sem repetir rótulo. E ainda tive que dar uma apertadinha, dispondo uma garrafa meio na frente da outra, e tomando cuidado para nenhuma cair. Fiquei orgulhoso, e me pus a pensar como é que isso aconteceu tão rápido. Acontece que essa proliferação de whiskies americanos é um fenômeno mais ou menos recente. Não me lembro, exatamente, a ordem. Talvez a primeira a arriscar tenha sido a Interfood, com os nichados High West. Dois rótulos, dentre eles o Double Rye, único whiskey de centeio com mashbill clássica em nosso mercado. Isso foi lá por 2023. Uns dois anos depois, chegou o Campfire. Quase simultaneamente, a Aurora ampliou por aqui o portfólio da Sazerac Company. Primeiro veio o Eagle Rare, ainda no primeiro semestre de 2023. Pouco depois, desembarcou o 1792 Small Batch, produzido na Barton 1792, mas pertencente ao mesmo grupo da Buffalo Trace. Apareceu também o Basil Hayden’s, pela Suntory, que sumiu meio que em seguida. Depois veio o Angel’s Envy. Em 2025, desembarcaram também o Sazerac Rye e o Maker’s Mark 46. Mais recentemente, a Wild Turkey expandiu […]

6 novidades no Brasil para compensar a Copa

Não foi dessa vez de novo. Perdemos um pênalti, marcamos outro, num momento absolutamente insuficiente para trazer qualquer mínima alegria. Um exercício de futilidade, quase como a barata que se revolta e tenta pular em você, depois do Baygon. Sobre o resto da partida, vou me abster de dar minha opinião. Mesmo porque meu conhecimento de futebol se equipara àquele de um uma zamioculca, e tenho consciência de como o futebol desperta o efeito Dunning-Kruger nas pessoas. Ainda que nossa performance em campo tenha sido insuficiente para garantir a derrota do cara que se assusta ao ver o próprio reflexo no espelho, vencemos em outro campo. O do whisky. Desde o começo deste ano, diversas marcas novas desembarcaram por aqui. E algumas, antigas, que há muito não víamos, retornaram. Pela primeira vez em seis anos de bar, pude preencher um espaço de três prateleiras, de mais ou menos um metro cada, somente com whiskies americanos. Sem repetir garrafa, e com menos espaço entre eles do que a marcação do Marquinhos no Haaland. Preparei uma lista com alguns deles – inclusive um que já esteve por aqui, sumiu, e agora retornará com mais força. Como a gente espera do Brasil, daqui […]

Bruichladdich 18 anos Re/Define – Coming of Age

Eu acho que boa parte das decisões mais importantes da vida são feitas muito cedo, e o zênite disto é a profissão. Aos dezoito anos, mal sabemos escolher uma música sem, décadas depois, se envergonhar de ter em algum momento gostado daquilo. Ainda assim, somos demandados a definir aquilo que supostamente faremos pelo resto da vida. E o problema é que gosto e habilidade parecem, nessa idade, provas suficientes. Jornalista gosta de escrever, advogado, de discutir, arquiteto, desenhar. É uma lógica elegante, intuitiva e insuficiente. Porque exercer uma profissão exige ferramentas que quase nunca se revelam antes da prática. Tipo resistência ao tédio, tolerância à burocracia, aptidão para lidar com pessoas, prazos, frustrações e com a mais triste e certeira decomposição de qualquer paixão quando ela se transforma em obrigação remunerada. Escolher uma profissão é um ato de ignorância. E não é, de forma alguma, mais embasado ou menos propenso ao erro do que qualquer outra escolha feita sem experimentar aquilo que se está escolhendo antes. Da primeira vez que eu comprei um Bruichladdich, foi assim. Tamanha ignorância tinha, que imaginava que fosse defumado, somente por exibir “Islay” no rótulo. Era um Bruichladdich Links Valhalla. Alí, singelo, na prateleira de […]

Johnnie Walker 24 YO – Do Hexa

Hoje, vou começar com um assunto inédito aqui no Cão, por absoluta inevitabilidade. E narrar um momento importante da história do esporte, que aconteceu no ano de 2002, em Yokohama. Foi a final da copa do mundo daquele ano. E lá ocorreu um episódio que mostra que, às vezes, não fazer nada é o melhor a se fazer. Kléberson, avança no campo da Alemanha. Pressionado, toca para Rivaldo. Este, pratica um ato de genialidade instantânea. Ele não faz nada. Algo que eu certamente faria – ou melhor, não faria – na posição dele. Mas, no meu caso, por incapacidade plena.  Não fazer nada foi a não jogada mais inteligente da partida. Especialmente quando, atrás de Rivaldo, estava Ronaldo. O Fenômeno domina, ajeita e bate no canto de Oliver Kahn. Dois a zero. Brasil pentacampeão do mundo. Naquele momento, era bastante razoável imaginar que aquilo continuaria acontecendo com alguma frequência. Não a omissão do Rivaldo, mas, vencer Copas do Mundo. Porque uma das impressões mais cruéis e capciosas que a felicidade pode nos trazer é, justamente, a de estabilidade. Desde então, passaram-se eliminações, promessas, técnicos, ciclos, traumas coletivos e gol da Alemanha. Sete a um, na verdade. E é aí que […]

Michter’s Single Barrel Rye Whiskey

Sou advogado, então, falo com conhecimento de causa. Todos nós sabemos meia dúzida de palavras em latim, que, quando usadas no momento certo, podem fazer uma ideia banal parecer inapelável. “Pacta sunt servanda” soa muito melhor do que “o certo é certo e já foi combinado”. “Data venia” é quase um “lá ele” institucional, a forma culta de dizer “com todo respeito, nunca ouvi tamanha barbaridade”. E “fumus boni iuris” parece um feitiço, mas é quase uma navalha de Occam (ou Ockham) jurídica, que postula que, se alguma coisa tem cheio, textura e cor de algo, provavelmente é aquele algo. O latim sobrevive assim. Não como língua, mas como um mini atalho para um argumento de autoridade. Ele paira sobre petições, brasões, universidades e tribunais, lembrando que a humanidade sempre teve uma relação meio fetichista com palavras que parecem carregar séculos de poeira e poder. E uma expressão ancestral, se pronunciada com gravidade, pode parecer mais sólida do que a própria ideia que tenta sustentar. O mesmo, certamente, ocorre com marcas. A Michter’s foi assim. Começou com uma destilaria na Pensilvânia, na era dourada dos rye whiskies. Não resistiu à lei-seca e ao desinteresse do público dos anos oitenta. Mas […]

The Macallan 007 Diamonds are Forever

Este vinho é excelente. Porém, para uma refeição tão grandiosa, eu esperaria um claret – aponta James Bond, ao provar uma taça de Mouton Rothschild servido, alegadamente, pelo sommelier do iate. Este, retruca: É claro, mas infelizmente, nossa adega está mal abastecida de clarets. O espião, então, arremata “Mouton Rothschild é um claret. E eu já cheirei essa loção pós-barba antes” – desmarscarando um dos vilões do filme, Sr. Wint. A passagem acima é de 007: Diamonds Are Forever, de 1971, estrelando Sean Connery como o agente secreto mais célebre do mundo. Ela traz uma mensagem importante, e não é sobre o perigo de harmonizar grand-cru classés tintos com peixe. Mas, sobre a importância de ter paladar e conhecimento que vai além de sua área de atuação. Para um agente da coroa britânica com licença para matar, espera-se proficiência em armas de fogo e luta. Mas não em beber com qualidade e como se não houvesse amanhã, ainda que este nunca morra (viram o que eu fiz aqui?). O trecho do roteiro que abre esta matéria é, também, uma importante dica sobre a nova edição limitada que acaba de chegar ao Brasil. O The Macallan 007 Diamonds Are Forever. O […]

Jack Daniel’s Bottled in Bond Rye – Transcendência

Há objetos feitos para pessoas cuidadosas. Copos de coquetelaria da Kimura Glass, sapatos de camurça bege, bonsais, sistemas de arrefecimento de Alfa-Romeos da década de 70 e relações afetivas estáveis. São coisas que exigem cuidado, manutenção fina, temperatura controlada, ausência de crianças, ausência de gatos e, preferencialmente, ausência de seres humanos. O que, existencialmente falando, resolve tudo. E há objetos feitos para a pessoas que existem no mundo real. Tipo o tijorola (que me lembro, até hoje, de ter nadado um medley inteiro na piscina com um desses, que sobreviveu). Ou a panela de ferro, Honda Civic, o copo americano, as Havaianas, e aquelas mesas plásticas de boteco que sobrevivem a chuva, sol, gordura, cigarro, bêbado, criança e o tio do zap. São coisas cuja promessa não é de tanscendência, mas de resistência. A famosa palavra dos coaches, resiliência, que é ficar inteiro depois de qualquer uso indevido. O que, convenhamos, já é uma forma bastante honesta de transcendência. Na coquetelaria, essa diferença existe também. Há destilados que precisam ser tratados com delicadeza. Os whiskies japoneses, por exemplo, exigem precisão técnica e equilíbrio impecáveis. Lembro-me até hoje de um drink de Hibiki, que fizemos para um evento da Suntory. Equlibrá-lo […]

Archibald’s Last Memory

Um abandonou o nome. O outro jamais existiu no mundo real. E um terceiro, fidalgo, foi executado. Todos eles, batizados de Archibald. Um nome que parece mais uma sina, dado destino de seus denominados. O primeiro Archibald nasceu em Bristol, portando o aristocrático sobrenome de Leach. Virou ator de teatro, e depois se mudou para Hollywood. Mas para um jovem artista dos anos trinta nos Estados Unidos, Archibald Leach parecia antiquado e britânico demais. Assim, o estúdio que o descobriu – a Paramount – o rebatizou de Cary Grant. O Cary Grant. O segundo Archibald é fictício, ainda que indiscutivelmente célebre. Achibald Haddock, o capitão Haddock, das Aventuras de Tin Tin. Este, em oposição a Cary Grant, encarnou, mesmo sem carne e osso, o arquétipo arquibaldesco e virou alcoólatra funcional e capitão. O que faz sentido, dado que nunca existiu de verdade, e podia ter qualquer característica atribuída a ele. O último Archibald é o Campbell, marquês de Argyll, que se envolveu nas recorrentes disputas religiosas e políticas do século XVII contra a coroa inglesa. Como costuma acontecer com Archibalds que acreditam demais em suas convicções, acabou acusado de traição e foi executado em 1685. O que também é coerente […]