The Macallan 007 Diamonds are Forever

Este vinho é excelente. Porém, para uma refeição tão grandiosa, eu esperaria um claret – aponta James Bond, ao provar uma taça de Mouton Rothschild servido, alegadamente, pelo sommelier do iate. Este, retruca: É claro, mas infelizmente, nossa adega está mal abastecida de clarets. O espião, então, arremata “Mouton Rothschild é um claret. E eu já cheirei essa loção pós-barba antes” – desmarscarando um dos vilões do filme, Sr. Wint. A passagem acima é de 007: Diamonds Are Forever, de 1971, estrelando Sean Connery como o agente secreto mais célebre do mundo. Ela traz uma mensagem importante, e não é sobre o perigo de harmonizar grand-cru classés tintos com peixe. Mas, sobre a importância de ter paladar e conhecimento que vai além de sua área de atuação. Para um agente da coroa britânica com licença para matar, espera-se proficiência em armas de fogo e luta. Mas não em beber com qualidade e como se não houvesse amanhã, ainda que este nunca morra (viram o que eu fiz aqui?). O trecho do roteiro que abre esta matéria é, também, uma importante dica sobre a nova edição limitada que acaba de chegar ao Brasil. O The Macallan 007 Diamonds Are Forever. O […]

Dupla Nacionalidade – Nomad Outland Whisky

Se você acessou o Cão Engarrafado, é muitíssimo provável que tenha notado o cachorro ali de cima. Aquele lá é o Sazerac, o atual Cão do Cão. Mas ele tem apenas sete anos, e, este site, mais de 10. O que significa que, antes dele, havia outro dog alí. Que fora o Maverick O Maverick, ou Mavi, para os íntimos, era um mini-collie – também conhecido como Sheltie – ainda que a gente ache que a parte do “mini” foi esquecida durante sua concepção. Ele pesava seus dezoito quilos, e era constantemente confundido com um collie “full-size”. Ele era um pouco grande, mas tudo normal até aqui. Acontece que o Maverick, na verdade, era um gato em sua alma. Ou melhor, um gatorro. Porque por mais estranho que pareça, ele raramente buscava algum contato. Passava o dia andando pela casa e olhando com desdém para as pessoas e não era muito chegado em gente nova. Além disso, desprezava biscoito de cachorro, mas era apaixonado por atum em lata. O Maverick pode ter nascido cão, mas, por dentro, bate um coração cheio daquele ódio passivo tão característico dos gatos. Se eu pudesse comparar o Maverick com algum whisky, este certamente seria […]

Chivas Regal Crystalgold – iPad

Quando vi um iPad pela primeira vez, achei graça. Não era um telefone que cabia no bolso, nem um computador que aguentava o tranco do trabalho pesado. Era um troço híbrido.Como um triciclo, que é grande demais para usar o corredor de moto, mas que não tem capota para te proteger da chuva. Não vi nenhuma boa razão para ter um até lá pela terceira geração, quando resolvi que ia usar para desenhar – algo que gosto de fazer desde criança. Aí, descobri outros usos para aquela televisãozinha. Tipo ver filmes enquanto corro na esteira, que é o único exercício possível para mim, por ser totalmente mecânico, desprovido de qualquer raciocínio. Até comprei um mini-teclado que se acoplava a ele, para poder escrever uma coisa ou outra para este blog, quando a ideia surgia. Não comprei outro depois, mas assumo que, depois de um tempo, achei bem confortável para uma porção de coisas. E que muita gente usa profissionalmente, hoje em dia. Aos olhos de um ser humano normal – como eu – aquele fora um tremendo de um risco, para a Apple. Porque era um produto desnecessário, uma inovação que ninguém pedira. Mas que, aos poucos, foi encontrando função […]

6 Whiskies para dar (e receber) de natal em 2025

Observo a fila de carros parados, que faz curva até a outra esquina, onde fica a entrada do estacionamento do shopping. Você já sabe o que vai dar para a sua mãe? – indaga a cã, ao meu lado. Não sei, mas do jeito que tá indo rápido essa fila, o presente vai ser pro natal do ano que vem, retruco. Ela vira a cara, e ouço uma bufada. Nenhuma resposta. Olho pela janela do carro e vejo um cara fantasiado de papai noel, dentro do shopping, sentado numa poltrona cercada de neve artificial. Tá ruim pra mim, mas pra ele, tá certamente pior, penso. Natal é época de agradecer mesmo. Acho uma tremenda sacanagem. Tudo remete ao frio. Mas no Brasil, o natal quase sublima tudo. Ele escorre pela nuca suada como se o Papai Noel tivesse desistido do trenó e viesse a pé, soturno, tropeçando nas poças de derretimento humano. Se em algum canto do hemisfério norte crianças montam bonecos de neve, aqui a gente só é cozido lentamente enquanto finge alegria familiar. E eu sei que beber whisky na temperatura do penúltimo círculo do inferno dantesco não é exatamente uma atividade gostosa. Especialmente cercado da turma que […]

Sobre Metanol e Elevadores

Como a maioria de vocês já sabe, tenho um bar de whisky e coquetelaria em São Paulo. Algo que me dá um pouco de alegria e uma boa dose de trabalho. O texto abaixo foi publicado originalmente em minha conta do Instagram, mas resolvi também trazê-lo para este ambiente mais formal, com algumas inserções. Uma amiga me apresentou uma ideia que, expandindo, postulo a seguir: viver é dar um voto de confiança. Há um pacto silencioso, quase invisível — o de que o outro vai cumprir a parte dele. Quando entramos num carro com alguém dirigindo, confiamos que essa pessoa nos levará ao destino. Confiamos que o médico sabe o que faz, que o anestesista não errou a dose, que o farmacêutico colocou o comprimido certo no frasco. Acordamos acreditando que o gás não vai vazar, que o prédio não vai desabar, que o elevador foi revisado. O cotidiano exige uma boa dose de fé civil. E, às vezes, nem precisamos clicar no quadradinho de “li e concordo com os termos”. É um acordo tácito, como se diz no Direito. Quando passamos a testar o gás todos os dias, desconfiar da estrutura do prédio ou do barulho do elevador, a […]

Maker’s Mark 46 – Pizza Napolitana

O dogma é só a última versão congelada de uma sucessão de desvios. Não, essa frase não é de ninguém, apesar do sugestivo itálico. Quer dizer, de nenhum terceiro. É minha mesmo, pra variar um pouquinho. E ainda que ela funcione em diferentes níveis para distintos axiomas, penso que é especialmente verdadeira nas minhas áreas de preferência. Gastronômica e etílica. Deixa eu pegar um exemplo quase aleatório. A pizza napolitana. Essa, que é defendida hoje como patrimônio intocável, e que tem o tomate San Marzano como um dos ingredientes protagonistas. Acontece que quando a palavra pizza já circulava em Nápoles, o tomate sequer existia na Europa. O fruto vermelho só chegou no século XVI, vindo das Américas, e ainda assim foi recebido com desconfiança. Foi preciso séculos de adaptação até chegar à versão sagrada e imutável. O que chamamos de tradição, portanto, muitas vezes nasceu de uma heresia bem-sucedida. E embora o purismo tenha seu valor — proteger a identidade, evitar a diluição — ele precisa, vez ou outra, ceder espaço à mudança. Se alguém não tivesse arriscado a vida — e a honra — atomatando uma pizza, o conceito do prato seria completamente diferente atualmente. E arrisco dizer, bem […]

Yamazaki Golden Promise – Gamma Ray

Invisível, traiçoeira e carcinogênica. Essa é a radiação gama. De forma – não muito – simplificada, são fotons que normalmente resultam de eventos cósmicos violentos como explosões estelares e desintegração nuclear. É a faixa mais curta do espectro eletromagnético, e capaz de atravessar a maioria da matéria. No mundo real, exposição a estes raios geralmente tem consequências pouco agradáveis. Como leucemia, malenoma, linfoma e retinoblastoma – que é um cancer que afeta as células retinianas e me dá um troço só de pensar, porque tenho uma aflição gigante de tudo que envolve olho. A ficção, porém, tem um talento peculiar para converter os mais sinistros agentes da realidade em bênçãos. Bruce Banner, por exemplo, do universo da Marvel. Antes um físico brilhante, recebeu uma dose cavalar de radiação durante um teste militar. Mas ao invés de ter seus órgãos liquefeitos, transformou-se num colosso esverdeado com força sobre-humana. E cujo temperamento se beneficiaria muito de uma receita irrestrita de fluvoxamina e alprazolam. Há um único caso que conheço na qual a realidade imitou a ficção. No fim da década de 1950, cientistas do Reino Unido submeteram sementes de cevada à exposição controlada de radiação gama para induzir mutações benéficas. O resultado […]

Union Vintage 2005 Double Wood II – Do Orkut

“Queria sorvete, mas era feijão“; “eu abro a geladeira para pensar“, “eu nunca terminei uma borracha“. Estas eram algumas das comunidades que eu participava, no finado Orkut. A rede foi criada em 2005, há exatos vinte anos, pelo engenheiro de softwares turco, Orkut Büyükkökten – que, num afortunado momento, decidiu batizar sua maior contribuição para a humanidade com seu primeiro nome, e não o último. Porque convenhamos, seria um tantinho mais difícil chegar pra alguém e dizer “Te add no Büyükkökten“. O Orkut tinha um monte de recursos. Scraps, reputação, depoimentos. Mas o mais legal, de longe, eram as comunidades. Havia umas mega ultra específicas, como, por exemplo “odeio tomar choque no cotovelo” e “eu leio com a mão no mouse“. Outras, questionadoras. Como “500 poodles matam um leão?” – um tataravô do dilema dos cem humanos e um gorila. Uma das minhas favoritas era “Não fui eu, foi meu eu lírico” – que transferia a culpa à poesia inerente a todo ato humano. O legal é que por mais peculiar que fosse a ideia, ela ressoava – e criava conexões entre as pessoas. Pensa em “Tô com fome, mas já escovei os dentes“. Era uma exacerbação do cotidiano, que […]

Glenmorangie Signet – Namorados

“Reservei aquele restaurante português que eu gosto, pra gente comemorar“. O negrito, aqui, simbolizando a ênfase dada pela minha melhor metade. Era dia 12 de junho, logo depois do almoço, e eu havia sido indagado por ela se tinha planejado algo. Diante de minha silenciosa negativa, representada pela mais alva cara de pânico, ela sorriu e deu de ombros. Eu sabia que você ia esquecer. E agora eu finalmente tinha entendido por que ela, em tantas oportunidades diferentes nas últimas semanas, me mostrara um perfume caro que queria comprar. Estava tão distraído com qualquer outra coisa, que olvidara completamente da data. Depois de quinze anos de casado, com mais cinco de namoro, eu poderia ter argumentado que o amor verdadeiro não é representado por uma fragrância cara. Amor mesmo era ela fingir que gostava da minha comida. Era já pedir pra tirar a cebola de metade da pizza, porque eu sei que ela detesta. Era saber o CPF do outro de cor, mais do que o seu próprio. Mas não adiantaria, porque, dia doze tinha que amar com recibo fiscal. Além de que, na sequência do questionamento, ela me estendeu uma caixa preta, de uns quarenta por vinte centímetros. Toma, […]

Prophet in Plain Clothes

Dizem que, na Austrália, tudo quer matar você. Há exemplos bem conhecidos, como a cobra taipan-do-interior e a aranha-teia-de-funil. Animais sorrateiros, mas de aspecto claramente pernicioso. O que é ótimo. Afinal, ninguém vai sentir uma vontade irresistível de fazer carinho na cobra (segura a quinta série) e levar um bote, ou colocar o dedo na aranha (hoje eu estou incontrolável) para morrer de paralisia e falência cardiorrespiratória em poucos minutos. O mesmo, porém, não pode ser dito de um bicho que, recentemente, viralizou no Instagram: o polvo-de-anéis-azuis. Um molusquinho simpático, com apenas vinte centímetros, cujo corpo é coberto por — adivinhem só — pequenos círculos azul-elétrico. É tipo um mini-polvo que decidiu usar um vestido de bolinhas meio steampunk. Apesar do carisma involuntário, o tal polvo é extremamente venenoso. Sua toxina, semelhante à do baiacu, pode, hipoteticamente, matar até vinte homens. O veneno é inoculado por uma mordida praticamente indolor, e não há antídoto conhecido. Por sorte, esses bichinhos não são agressivos — ainda que (como todo mundo) não gostem de ser pentelhados. Se tivesse que comparar o polvo-de-anéis-azuis com um ingrediente da coquetelaria, escolheria, sem dúvida, a Fernet-Branca. Ao contrário de um mezcal, um rum overproof ou um whisky […]