Singleton of Dufftown – Curva de Aprendizado

Quando tinha uns quatorze, quinze anos, resolvi que aprenderia a falar russo. Sei lá porque decidi aprender russo. Talvez porque eu não fosse esquisito o suficiente já, trinta quilos acima do peso, jogando RPG e desenhando no intervalo das aulas do que outrora era conhecido como colegial. Meus pais, sempre dispostos a estimular meus interesses mais excêntricos, logo encontraram uma excelente professora. Fazia duas aulas por semana. Falar já era bem difícil, mas o pior de tudo mesmo era ler. E o alfabeto cirílico não ajudava nem um pouco. Depois de um ano, minha professora me deu um livro pra ler sozinho. Três Porquinhos. Indaguei se não havia uma leitura mais interessante. Meu querido, todo mundo precisa começar do básico. […]

Mortlach 16 anos – Drops

Deixe-me começar o texto de hoje com um pouco de autoajuda. O importante é reconhecer os próprios erros. Mas não apenas isso. Porque, bom, eu reconheço uma infinidade de coisas, como que exagerei no almoço ou que bebi demais certo dia. E apesar disso, apesar de jurar, de barriga estourando e embriagado, que jamais farei isso novamente, sei que isso é uma mentira tão efêmera quanto minha sensação de enfastiamento e vertigem. O importante não é perceber que errou. O importante é mudar. E ainda que meu empenho não seja dos melhores, o da Mortlach – famosa destilaria localizada em Speyside – é. É que há alguns anos, um dos rótulos mais disputados da linha Flora & Fauna da Diageo […]

Bebendo o Oscar III – Filmes & Whiskies

Este é um post sazonal. Para ler as edições passadas, de 2017 e 2018, clique nos mencionados aqui. Uns bebem para esquecer. Outros bebem para lembrar. A frase, repetida em cancões de Ben Harper e dos Eagles, se aplica perfeitamente ao whisky. Mas poderia, também, muito bem funcionar para o cinema. Porque muitos assistem filmes para esquecer de seus problemas. Parabolicamente sair do corpo e viver outra vida. Outros, porém, usam as telas para relembrar. De seu passado, ou do pretérito do mundo. Refletir sobre questões importantes ou entender o status quo. Os indicados ao Oscar de melhor filme de 2019 atendem aos dois públicos. E a todos no meio do caminho. Seja pelo ora visceral, ora romântico retrato da […]

Uso de whisky na coquetelaria – Transgressão

Hoje irei direto ao ponto. Sem longas introduções ou comparações, mesmo porque haverá oportunidade para isto no meio deste texto. Há alguns dias lancei um post sobre um coquetel que sou apaixonado. O Rusty Compass. Ele é resultado do cruzamento entre um Blood and Sand e um Rusty Nail, e leva whisky turfado. Uma bela proporção de whisky insanamente turfado, capaz de superar o dulçor trazido pelo Drambuie. Depois de testar quase à exaustão e embriaguez, joguei a metafórica toalha e admiti – o melhor resultado levava Ardbeg. Um single malt de mais de trezentos reais. Era um drink tão delicioso quanto desesperadoramente caro. Resolvi lançá-lo no Cão com essa ressalva. Relativizei um pouco a história, e até mesmo recomendei […]

Whiskies para comprar no Duty Free V

Este é um post sazonal, que já teve três edições. Depois, leia a primeira, segunda, terceira e quarta aqui, se quiser. Janeiro é o mês de muita coisa. Da continuidade dos boletos. Das chuvas torrenciais e dos alagamentos. De passar um calor incivilizado, e tentar se refrescar lavando o rosto na pia, somente para descobrir que tá tão quente, mas tão quente que até a água que estava dentro do cano está quente. Janeiro é o mês da cerveja estupidamente gelada, da caipirinha e da praia. Janeiro não é bem um mês pra whisky. Mas Janeiro é também o mês das viagens. De sair do calor da cidade pra ficar fedido, cremoso e queimado em algum outro lugar de sol fustigante, mas, quiçá, com uma […]

Glenfiddich Fire & Cane – Drops

A primeira dose de 2019 para o Cão Engarrafado. Queria algo que fugisse do óbvio, mas que, ao mesmo tempo, trouxesse alguma familiaridade. Algo que se relacionasse com o espírito do ano novo. Aquela sensação de renovação, mas alicerçada nas mesmas convicções e atitudes. Enfim, algo que soasse novo, experimental, mas que na verdade fosse apenas uma visão, por outro ângulo, de algo conhecido. Não demorou muito para me decidir. Escolhi o Glenfiddich Fire & Cane. O Glenfiddich Fire & Cane é a quarta expressão da Glenfiddich Experimental Series – da qual fazem parte também o Project XX, Winter Storm e IPA Cask, já revisto nestas páginas caninas. Como sua intuição semântica já deve ter indicado, a série se dedica […]

Morning Glory Fizz – Da Continuidade

A última matéria de 2018. Em menos de dois dias, teremos mais trezentos e sessenta e cinco outros para fazer novamente tudo que fizemos de errado nos anteriores. Mas não sem antes aproveitar as últimas horas do ano de uma forma alegremente inconsequente, e desastrosamente otimista. Algo que certamente lhe trará lembranças no dia seguinte. Lembranças, essas, reavivadas pela boca seca, enxaqueca e fotofobia. Feliz veisalgia nova, meu caro leitor. Assim, talvez a melhor forma de se iniciar um novo ano não seja com falsas promessas. Mas sim reparando a igualmente épica e desastrosa última noite do ano anterior. E é aqui que entra o Morning Glory Fizz. Um café da manhã em forma de coquetel, que leva whisky, absinto […]

(um pouco mais que um) Drops – Tobermory 15

Uma vez me perguntaram como eu decido o próximo whisky que vou comprar. Fiz uma serena expressão de conteúdo, e respondi com propriedade. Disse que pesquisava extensamente sobre as últimas inovações no mundo do whisky, e procurava aquilo que me tirasse da zona de conforto e que aguçasse minha curiosidade. Porque, afinal, tinha um blog de whisky. E com ele, vinha a responsabilidade de desbravar este etílico mundo da água da vida. Mas eu menti. Eu menti de uma forma descarada. Porque, pra falar a verdade, minha decisão sobre um whisky passa por dois fatores. O primeiro é eu gostar da destilaria. E o segundo é a garrafa ser bonita. Sério, vocês não tem ideia de quantas vezes relevei um […]

Ballantine’s 12 anos – Prioridades

Se há um mês do ano que demonstra como nossas prioridades mudam ao longo da vida, este mês é dezembro. Porque quando eu era criança, eu adorava dezembro. Naquela época, tudo em dezembro terminava num presente, em sono ou em má digestão. E minhas maiores preocupações eram o que eu ia pedir de natal pros meus pais, que dia eu entraria em férias da escola e como é que eu conseguiria comer metade de tudo que estaria na mesa da ceia da minha vó, sem passar mal e sem as pessoas me recriminarem. Hoje, porém, as coisas mudaram um pouco. Os presentes não são mais tão frequentes, ainda que eu continue comendo absurdamente e me arrependendo depois. Mas há algo que […]

White Walker by Johnnie Walker – Whisky Geeking

Sempre fui um pouco nerd. Um pouco não. Acho que bastante. Durante a adolescência, jogava Dungeons & Dragons – e, como vocês sabem, quem joga Dungeons & Dragons não faz muita coisa além de jogar Dungeons & Dragons. Era apaixonado por Senhor dos Anéis e achava um absurdo terem aumentado a participação da Arwen no filme. E também gostava de Lovecraft, a ponto de ter um Ctulhuizinho de miniatura. Mas preciso confessar um negócio. Nunca assisti Game of Thrones. É, eu sei, a série é incrível e está cheia de criaturas assustadoras, como dragões, monstros de gelo e pré adolescentes chatos. Gente bebendo o tempo todo e gente que ainda não sabe nada. E quando você menos espera, eles vão lá […]