Kentucky Buck – Whiskey de bermudas.

Trinta graus. Trinta graus no meio do inverno, em São Paulo. Céu tão limpo que parece até que passaram aquele filtro do Photoshop que usavam na Playboy na década de noventa, e de vez em quando sumia o umbigo de alguma modelo. Cara, como eu odeio calor. Ainda mais um calor assim inesperado, no meio da mais deliciosa estação do ano, que é o inverno. Inverno é pra ser deliciosamente frio, cinza, nublado e taciturno. Aliás, já que abri a porta mimizenta, tem outra coisa que me dá raiva no calor. Quando alguém chega e diz que tá um dia tão lindo, só porque faz sol e tá quente. Não tá não, meu jovem, tá um tempo desgraçado de quente, […]

Affinity Cocktail – Semelhança

Você já reparou como às vezes dois filmes praticamente idênticos estreiam quase ao mesmo tempo? Às vezes, isso é maravilhoso, porque os dois são ótimos. Tipo Failsafe e Doctor Strangelove. Outras vezes, um é melhor que o outro, como Braveheart – que é um clássico – e Rob Roy. Que não é realmente ruim. Mas podia focar menos no Liam Neeson satisfazendo sua esposa na grama, e mais na história da Escócia. E em outras situações, todos são ruins mesmo. Muito provavelmente porque a ideia era péssima já no começo, e a turma entrou numa espécie de delírio e esforço coletivo para tornar a vida dos cinéfilos um pouco mais miserável. Como com O Inferno de Dante com Volcano. Ou […]

Quatro coquetéis de whisky para o frio

Eu adoro o frio. Poucos pequenos prazeres são tão grandes em sua singeleza como sentir o ar gelado nas têmporas. Perceber aquela deliciosa letargia nos dedos ao digitar. Contemplar o aveludado formigamento na ponta do nariz ao franzi-lo. E o vapor. Eu devo ser completamente maluco, mas a fumacinha que sai do nariz ao respirarmos no frio é uma lembrança contundente de que estou vivo. Trabalhar, tomar café, ler. Pra mim, até fazer exercício é melhor no frio, porque não tenho que beber o correspondente à vazão das cataratas do Iguaçu para repor o líquido perdido com o suor. Aliás, quase tudo fica melhor no frio. Inclusive, uma das minhas atividades preferidas, que não é a que você tá pensando. […]

Ward Eight – Sufragistas

A variedade é o que dá tempero a vida. Pense, por exemplo, no brigadeiro. O docinho, aquele, com leite condensado, chocolate e manteiga. Hoje tem brigadeiro de tudo. Laranja, doce de leite, macadamia, nozes, nutella, pistache. Tem até brigadeiro de outros doces, tipo brigadeiro de pé de moleque e brigadeiro de beijinho, que é um negócio que eu nunca vou entender. E brigadeiro de brigadeiro mesmo, só que com uma miríade de chocolates. A quantidade de variações é tão grande que justifica – mais ou menos – a existência de um dispensário exclusivo da guloseima. As brigaderias. Mas antes de se tornar uma classe inteira, o brigadeiro era apenas um doce. Um doce com viés político. Ele fora criado por […]

May Vesper – James Bond em Islay

“Um Dry Martini. Num cálice de champanhe. Tres partes de Gordon’s, uma parte de vodka, meia parte de Kina Lillet. Bata tudo até que esteja bem gelado, e depois finalize com uma fatia grande e fina de casca de limão. “. Eu nem preciso dizer que coquetel é esse. Porque você, caro leitor e entusiasta dos copos, já sabe. “Este drink é minha invenção. Eu vou patenteá-lo quando pensar em um bom nome“. E, mais para o final do livro – ou do filme, caso seja de sua preferência, ele finalmente bate o martelo “Acho que vou chamá-lo de Vesper“. Note que, no parágrafo acima, eu nem mencionei James Bond. E nem precisei. Você já sabia que era ele a […]

Whiskey Smash – Derivação

Quando em 1799, o biólogo britânico George Shaw recebeu um ornitorrinco para estudo, pensou que estivessem lhe pregando uma peça. “Acho que é uma preparação enganosa, por meios artificiais” descreveu. Shaw imaginou que algum maluco tivesse grudado o bico de um pato no corpo de um castor, e enviado de frete naval internacional da Austrália para a Grã-bretanha, numa estranha espécie de pegadinha interoceânica. A veracidade da espécime só realmente se revelou por meio de um exame bem mais detalhado. Para nós, hoje em dia, pode parecer ingenuidade de Shaw. Mas, temos que concordar em uma coisa. O Ornitorrinco é um bicho bem esquisito. Ele tem nadadeiras, pelos, bico e não tem estômago. Os filhotes bebem leite direto do pelo […]

Drinks Drops – Espresso Martini

Todos temos rotina. A minha é, na verdade, bem simples. Na maioria dos dias, ela se resume a tomar café até ficar tremendo, e depois aparar as arestas pontudas com algum whisky, cerveja ou coquetel. Não tem muito segredo – é uma espécie de sistema de freios e contrapesos. Às vezes decido que não vou beber, e aí, tomo menos café também. Não. Mentira – tomo café igual e fico com insônia mesmo. Vocês já me conhecem bem demais para tentar enganá-los. E ainda que este blog explore muito bem a segunda etapa de minha rotina – a do whisky, cerveja e coquetel – ele se furta a falar da primeira. A do café. Que é super importante. Aliás, café […]

Final Ward – Aleatoriedade e Combinação

Como já contei aqui em certa ocasião, adoro comida mediterrânea. Especialmente tudo aquilo que vem do mar. E, dentro de meu coração gastronômico, há um prato que possui uma partição só dela. A Paella. A paella – como você já deve saber – é basicamente a mistura de um monte de coisa boa com arroz. A mais tradicional leva frutos do mar e o tal cereal. Mas há versões com invencionices, que somam pato, frango, coelho, banco, feijão, páprica, alecrim, açafrão e por aí vai. E aí está a magia da paella. Na improvável combinação de seus ingredientes. Quem poderia imaginar bacon, frango e polvo se encontrariam em um delicioso megazord gastronômico. E mais, que essa união ficaria absolutamente incrível. […]

Jim Beam Rye Perfect Manhattan – Perfeição

É engraçado como, às vezes, uma pequena fração de algo se torna quase tão célebre quanto seu todo. Um bom exemplo é uma singela frase que Tolstoi, em certo ponto de sua obra prima Anna Karenina, coloca na boca de uma personagem. “Se você procurar por perfeição, nunca estará satisfeito“. A declaração, promovida a aforismo, é um trecho de um papo entre Lvov e sua esposa, lá pelo meio da obra. Mas hoje, pouca gente sabe de onde veio a simples mas significativa frase. É como se Tolstoi, em pessoa, a tivesse proferido, em algum momento marcante de sua vida. Descontextualizar a declaração da esposa de Lvov não a faz perder o sentido. Pelo contrário – eleva e expande seu […]

Mamie Taylor – Antepassados

Ao assistir Jurassic Park, você deve ter grudado de tensão na cadeira durante a cena em que o tiranossauro persegue o jipe. Imagine, um animal desse tamanho e tamanha voracidade hoje em dia. O que você não sabe, provavelmente, é que o T-Rex, aquele enorme e ameaçador predador, é o ancestral mais próximo de um bicho bem pouco intimidador. A galinha. É isso aí. Ocorre que em 2003, dois cientistas – Jack Horner e Mary Scweitzer – analisaram a composição molecular do colágeno contido em um fêmur não fossilizado de T-Rex. E descobriram semelhanças incríveis com aquele contido nos ossos de galinhas e outras aves domésticas. Isso apontaria que há uma ligação de parentesco entre o dinossauro e o galináceo, […]