No final do ano passado viajei para Barcelona. Fiquei uns oito dias – tempo suficiente para percorrer boa parte dos bares da cidade. Bebi bem, e comi extraordinariamente. Tanto de quantidade, quanto qualidade. E como não podia deixar de ser, comprei também algumas garrafas de whisky (e vermute) para trazer para cá. Mas, de longe, a minha melhor compra etílico-gastronômica foi uma Kewpie. Sim, a maionese. Aquela japonesa, do bebezinho. Que é a melhor maionese do mundo, na minha obesa opinião.
Mas a que trouxe não foi a Kewpie tradicional, que tem por aqui. Mas sim uma versão com wasabi, que fica uma delícia numa porção de coisas, especialmente salmão defumado. Me arrependi, inclusive, de não ter comprado duas embalagens, mas assumo que fiquei com medo de tudo explodir na mala, e meus whiskies ganharem um curioso aroma de raiz forte.
A Kewpie, lá fora, tem várias versões. Tem uma low-fat, uma doce, uma com sriracha, e outra com yuzu. Mas, por aqui, só recebemos a tradicional mesmo. O que já está ótimo pra mim, porque não pretendo virar um sommelier de maioneses. Whisky, entretanto, é outra história. Como um entusiasta, e, especialmente, sócio de um bar de whiskies, sinto falta de alguns rótulos icônicos em nosso país.
Separei cinco abaixo. Alguns, desejados por mim. Mas, a maioria, indagado por clientes do bar, inconformados com a impossibilidade de encontrá-los oficialmente em nossa bela nação.
1. Michter’s
Em 2022, era Buffalo Trace. Agora, o queridinho inatingível dos american whiskey lovers é Michter’s. Mais especificamente, seu Rye Whiskey. Ele fica no meio do caminho entre um rye whiskey da nova era, com baixo centeio, e um old-school rye, como seriam aqueles produzidos pela MGP, com mais de 90% do cereal na receita. Por conta disso, é extremamente versátil em coquetéis, e ótimo para se beber puro.
A Michter’s ganhou bastante destaque recentemente, especialmente depois de passar a produzir os próprios destilados. São, também, patrocinadores do 50 Best Bars, e têm até uma categoria própria dentro da premiação. Isso faz a marca mais conhecida, e mais desejada, especialmente dentro da comunidade do bar.
2. Four Roses
Mais um americano que, há muito, deveria estar por aqui. É um bourbon low-rye, com perfil adocicado e pouco apimentado. A marca possui três expressões mais famosas: o tradicional, Small Batch e Single Barrel. O terceiro é o favorito deste Cão que vos escreve. Porém, o mais famoso é, seguramente o primeiro. É um whisky extremamente acessível de preço – ao menos fora de terras brasileiras – e que entrega uma bela qualidade sensorial.
Infelizmente, a Four Roses não tem o menor interesse em vir para o Brasil. O volume do mercado brasileiro é pequeno, e as dificuldades de importação fazem com que a marca fique mais interessada em se aventurar para a Europa ou permanecer mesmo nos EUA, onde é amplamente consumida.
3. Tobermory / Ledaig
Essa é a única destilaria da ilha de Mull, na Escócia. Ela produz uma variedade grande de whiskies, turfados e não-turfados. A primeira linha é chamada Ledaig, e conta com um dos whiskies preferidos de todos os tempos deste Cão, o Ledaig 18 anos. Têm também o Ledaig Sinclair, recém-lançado, que une fumaça e maturação em barricas de vinho tinto, por um preço inacreditável. A segunda é homônima à destilaria, e traz rótulos não turfados, alguns com pesada influência vínica, mas sem perder a elegância.
A Tobermory praticamente gabarita em todos os requisitos para whisky-geeks. ABV relativamente alto, barricas diferentes, equilíbrio e, quando aplicável, turfa na medida. O preço é ótimo também.
Mas, infelizmente, a marca não quer saber de nós. A Interfood, importadora também responsável pela maravilhosa Bruichladdich, chegou a trazer o gim deles. Mas depois, parou. A Tobermory é controlada pelo pessoal da Amarula, que, aparentemente, está mais interessada em elevar o nível glicêmico do Brasileiro do que ensiná-lo a beber bem.
4. Redbreast (ou outro irlandês qualquer)
A Irlanda possui, atualmente, mais de 40 destilarias operacionais. Há uma gama enorme de whiskies, dentre single malts, pot stills (algo exclusivo deles), blends e grains. Há whiskies turfados, vínicos, leves, intensos, frutados e herbais. Inobstante – como outrora escreveria em alguma petição – o povo brasileiro só pode beber Jameson. E um Jameson só, porque, vamos combinar, que há bem pouca diferença entre o tradicional e o IPA (aliás, IPA maturada?).
Meu sonho seria ver um Redbreast por aqui. Que, ironicamente, também é produzido pela Midleton, a mesma destilaria da Jameson. E que é controlada, obviamente, pela mesma empresa, a Pernod-Ricard. Mas tamanho é o nível de desespero, que eu ficaria satisfeito em ver qualquer outro irlandês além do filho de Jaime. Teeling, Connemara, Bushmills. Até um Tullamore Dew aplacaria essa deficiência.
5. Lagavulin
Devo confessar que, originalmente, tinha pensado em colocar aqui Mortlach, porque já falei 3x de Lagavulin em outras matérias por aqui. Mas, fiz uma enquete, e Lagavulin foi o mais pedido, de longe. Perdão por ser repetitivo, mas, é vox popoli. Não vou nem me dar ao trabalho de trazer novas razões, mas só me auto-parafrasear.
Infelizmente, por algum motivo que foge à lógica deste Cão, o Lagavulin 16 anos não está à venda em nosso país. Sua proprietária, a Diageo, prefere trazer whiskies com preço de combate e sabor amável, por talvez imaginar que, nós, brasileiros, possuímos paladar doce e pouco desenvolvido para single malts. E nem adianta argumentar sobre o preço. Se há um whisky capaz de se vender sozinho, independentemente de seu valor, é o Lagavulin. Quiçá no futuro.





