The Macallan Art is the Flower – A Fonte

Dizem que a função primordial de um mictório é oferecer um destino higiênico ao subproduto de uma noite regada a whisky. Em 1917, porém, o artista Marcel Duchamp decidiu transmutar a essência de uma porcelana branca. Comprou um urinol na loja de ferragens Mott, virou de ponta-cabeça, assinou com o pseudônimo canastrão “R. Mutt” e o batizou de “The Fountain” (ou A Fonte). Por fim, enviou a exposição de Artistas Independentes de Nova Iorque.

A Fonte, porém, jamais participou da mostra. Ela foi rejeitada, por ser considerada imoral e vulgar. A diretoria da exposição decidiu que ela não era arte, e a escondeu atrás de uma divisória, longe do público. Duchamp, ciente da rejeição, levou a obra ao estúdio de Alfred Stieglitz, onde foi fotografada e depois devolvida à exposição. Este fora o único registro da versão original daquele objeto. Porque, ironicamente, ao final do evento, a Fonte foi jogada no lixo por algum faxineiro, que provavelmente achou que aquilo fosse só mesmo um urinol, vandalizado por um tal Mutt.

The art is the urinal

E me perdoe se estou postergando chegar ao ponto desta matéria, que é o The Macallan Art is The Flower, mas prometo que fará sentido, no final. Mesmo sem sua belíssima porcelana, que fora maltratada (viu o que eu fiz aqui?) pela sociedade, Duchamp conseguiu provar um ponto importante. A arte não habita na porcelana, mas no divórcio entre a coisa e sua própria utilidade. O conceito, obviamente, é bem discutível, e este foi exatamente o objetivo de Duchamp.

A escola de Bauhaus, está aí, por exemplo, para contrariar o conceito. Para Gropius e seus asseclas, a forma deveria seguir a função, mas com dignidade estética. Eles queriam que a sua chaleira ou a sua cadeira fossem obras de arte produzidas em série. Forma com função, arte utilitária. Immanuel Kant, por outro lado, postulava que a arte demanda que o indivíduo deixe de querer usá-la ou possuí-la como uma ferramenta. Já Nietzsche via na arte o grande estimulante da vida, a força dionisíaca que nos resgata da sobrevivência morna.

Mais ou menos próximo a Nietzche nessa não-briga filosófica está Charles Rennie Mackintosh, designer e artista escocês. Seu vitral “The Spirit of the Rose” é a materialização desta crença. Segundo ele, a vida é uma planta: a “folha verde” é o suporte, mas a “flor” é o objetivo. A “flor” é a manifestação mais bela, colorida e sublime da planta. É a transcendência do prático. É a arte. Que só existe, obviamente, se existir a vida prática. Essa explicação, inclusive, é parte de uma palestra de Mackintosh, que começa com (ruflem os tambores) “The Art is The Flower”.

O novo The Macallan Art is The Flower é inspirado no Spirit of The Rose. A ilustração da caixa – que se abre como duas portas de correr – é parte do vitral, e a prelação está transcrita em seu interior. De acordo com a marca, o whisky foi respeitavelmente criado para celebrar a circularidade da natureza, apresentada no painel. A The Macallan até mesmo produziu uma série de curtíssima-metragens para explicar todo o storytelling do whisky, com a participação de artistas, arquitetos e historiadores.

Mas, agora, aos sinais vitais. O The Macallan Art is The Flower é maturado em barricas de carvalho europeu de ex-jerez, selecionadas por suas características de frutas secas, figos, cerejas, amêndoas e pimenta do reino. De acordo com a marca, a ausência de uma idade declarada tinha como objetivo, justamente, permitir mais liberdade de escolha por seus whiskymakers – algo já explorado pela destilaria em sua finada 1824 Series.

Mas o que mais chama atenção no The Macallan Art is The Flower é sua graduação alcoolica. Saudáveis 50,4%. A curiosa fração é mais um “easter egg”: uma homenagem ao grupo de Mackintosh “The Four”. É um dos The Macallan com maior ABV à venda no Brasil, lado a lado com os Classic Cut. Mas – ao menos pelo palpite deste Cão – é um whisky bem mais maturado e polido.

A obra de Mackintosh

Sensorialmente, o The Macallan Art is The Flower cumpre justamente o que promete. Frutas secas, passas, tâmaras e um final seco e apimentado. O álcool, porém, é muito bem integrado. Aqui, reminesce de outro The Macallan. O Edition Number 3, que também trazia bastante pimenta do reino em sua finalização, muito provavelmente, por conta de barricas de carvalho europeu de primeiro uso.

No final, o The Macallan Art is The Flower nos apresenta um dilema, que flerta justamente com o utilitarismo da arte. Fechado em uma estante, ele é objeto de apreciação – para alguns, apenas um objeto, para outros, uma obra de arte. Ao ser aberto, cumpre sua função, mas deixa de existir. É engraçado, porque sua utilidade pressupõe sua destruição. Cada gole é um ato de vandalismo estético e, ao mesmo tempo, o cumprimento de sua finalidade utilitária. Mas talvez o objetivo seja mesmo aquele da arte. Transcender a vida prática.

E não, não vou dizer que ele terminará no urinol. Sejam melhores que isso.

THE MACALLAN ART IS THE FLOWER

Tipo: Single Malt

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 50,4%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com frutas secas e cereja.

Sabor: Tamaras, frutas secas, ameixa. Finalização longa, seca e levamente apimentada.

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