Especial Escócia – Visita à Laphroaig

“Uma mistura maltada com a infusão de turfa em urina de ovelha, filtrada através de meias de lã molhadas e suadas de pastores.” “é como lamber turfa queimada de uma fogueira na praia, que grudou na bota de um pescador”. e minha preferida: “como um dragão em conserva de iodo, assado sobre um vulcão, e servido em uma cama de algas marinhas.”. Não é um campeonato de metáforas nojentas. Não. São opiniões sinceras de consumidores que – assim como este Cão – são apaixonados pela Laphroaig. Estas opiniões fazem parte de uma campanha de marketing, e estão impressas por toda parte na destilaria. E apesar de parecerem todas desfavoráveis, na verdade, são apenas francas. Não há como descrever Laphroaig sem vigor. […]

Polivalência – Dewar’s 18

Acho engraçado como, na antiguidade, quase todo mundo era mais de uma coisa. Acho que como não havia internet, Netflix, televisão e nem smartphones, as pessoas tinham mais tempo para se dedicar a seus ofícios. Ou talvez só ficassem terrivelmente entediadas, e por isso procurassem algo para se ocupar. Mas não estou falando de multitasking. Não. Era algo muito maior que isso. Um exemplo foi Blaise Pascal. Aquele mesmo, do Teorema de Pascal. O rapaz – que viveu durante o século dezessete – era matemático, físico, inventor, escritor e teólogo do catolicismo. Enfim, um cara bem versátil. Ou quiçá apenas alguém hiperativo em uma época que não oferecia muita coisa para se fazer numa quarta-feira à tarde, por exemplo. No […]

Teacher’s 12 Golden Thistle – Refinamento Áureo

Esses dias fui almoçar em um restaurante novo que abriu aqui perto de casa. Tudo muito bonito, bem diferente daquele que lá funcionara antes dele. Cadeiras de latão, lâmpadas de filamento carbono, mesas de madeira de demolição. Olhei o menu. Comida orgânica, café fairtrade, cerveja artesanal. Pratos com ruibarbo e sobremesa com regaliz. Um rapaz se aproximou da minha mesa e estendeu a mão. Contemplei aquele indivíduo que ostentava um curioso bigode a la Dali e uns mullets que poderiam fácil ter sido usados pelo Mel Gibson na década de oitenta. Camisa xadrez, suspensório, all-star. Levei uns bons trinta segundos observando aquela figura até perceber que ele era o mesmo dono do restaurante antigo, só que fantasiado. Não sei do […]

Fogo da paixão – Lagavulin 16 anos

Se você gosta de filmes antigos, talvez já tenha assistido a 12 Homens e Uma Sentença (12 Angry Men). Não é muito fácil descrevê-lo positivamente com base somente em seu roteiro. É um filme cult dos anos cinquenta, baseado em uma peça teatral. Ele é filmado em preto e branco e se passa totalmente em uma única sala, onde os personagens discutem princípios éticos e valores sociais sem parar por uma hora e meia. Apesar do descritivo torná-lo tão tentador quanto ficar nu e levar uma surra de um pé de cabra enferrujado ao som de Katy Perry, o filme é bem bom. O ritmo é excelente e os diálogos incrivelmente engajadores para o tema. Ele trata da relativização das normas, […]

Especial Islay – Visita à Bowmore

O poeta James Russell Lowe uma vez escreveu que apenas os tolos e os mortos nunca mudam de opinião. Platão, por sua vez, disse que a opinião é a mediatriz entre a ignorância e o conhecimento. Se James Russel Lowe e Platão pudessem saber de minha experiência na destilaria Bowmore, em Islay, certamente ficariam ainda mais orgulhosos de suas frases, agora elevadas a aforismos. Antes de visitar a Bowmore, seus whiskies não eram, para mim, nada demais. Havia expressões ótimas, claro, como o dezoito anos. Mas havia também muitos single malts desequilibrados que na minha irascível opinião não passavam de honestos. Era o caso do Bowmore Darkest ou o Enigma, por exemplo. Achava que a Bowmore colhia os frutos do […]

Especial Escócia – Visita à Lagavulin

Bruichladdich é inovação, Ardbeg é bravura. Lagavulin, por sua vez, é aristocracia. A Lagavulin é o representante perfeito de um cavaleiro medieval no mundo dos whiskies. Por fora, elegante, polido e respeitado. Mas, ao mesmo tempo, violento e direto. Ele foi por muito tempo meu single malt preferido, e provavelmente um dos lugares que mais queria conhecer em minha vida. Ter a oportunidade de atravessar os corredores da destilaria e participar de uma degustação lá, onde o líquido é produzido, foi incrível. Tudo que emana do copo está representado em seus ambientes. As instalações da Lagavulin são o lugar-comum da cultura do whisky. Chão de madeira que range a cada passo, não importa quão leve. Poltronas botonê de couro, lareira […]

Ardbeg An Oa – Sobre o Caos

Sabe, eu não acredito muito em destino. Na verdade, é bem o contrário. Acho que estamos aqui bem por acaso, que o mundo é um enorme caos que tende, cada vez mais, à entropia. Arrumar é mais difícil que bagunçar, encontrar é mais penoso do que perder. As coisas naturalmente se deterioram, ainda que, implacavelmente, tentemos conservá-las. É um movimento antinatural, em um universo que não é muito mais do que uma enorme bagunça. Destino é meramente coincidência. Deixe-me explicar, sem soar pedante ou descrente, com uma metáfora bem imbecil. O destino é uma espécie de roleta de cassino. Quando a bolinha estaciona em uma casa que não apostamos, simplesmente ignoramos o resultado. Não há reconhecimento. Porém, se ela porventura […]

Especial Escócia – Visita à Ardbeg

Tenho um amigo que comprou uma Harley Davidson. O problema é que ele não comprou apenas a motocicleta. Ele comprou duas jaquetas de couro da Harley Davidson também. E um capacete vintage da Harley Davidson. E um par de luvas da Harley Davidson. Dois adesivos, para colar no carro, dizendo que tem uma Harley, e, por fim, mas não menos importante, uma caneca, um abridor de latas e um jogo de bolachas de copo. Itens que não tem nada a ver com a moto. Mas que, para ele, fazem todo sentido. A verdade é que meu amigo nem gosta tanto de andar de moto assim. De moto. Mas de Harley sim. Porque, nas palavras dele, ela não é apenas uma moto. […]

Especial Escócia – Visita a Bruichladdich

Disse uma vez Fernando Pessoa que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Por mais que eu deteste utilizar quase clichés por aqui – independente e sua origem – não poderia deixar de começar este texto com a citação. É que depois de quase vinte e quatro horas viajando, finalmente chegamos à terra dos whiskies enfumaçados. Islay. Foram doze horas de voo, divididos por uma conexão. Mais seis horas em um micro-ônibus, que, por sua vez, passou outras duas horas dentro de uma balsa. Ao chegar na ilha, não conseguia me decidir se o que queria mais era dormir, tomar um banho ou beber. Por sorte, os habitantes possuem uma curiosa forma de resolver tais dilemas. Ao […]

Da Alegria e Escuridão – Macallan Oscuro

Sabe, sempre fui uma criatura das sombras. Apesar de não ser um notívago, algo na noite sempre me atraiu. Talvez fosse seu silêncio, ou sua calma. Ou a falta de obrigações. Não, acho que não. Provavelmente é a sensação de melancolia trazida por aquele horário do dia. Faz sentido quando penso que meu livro preferido, por muito tempo, foi Memórias do Subsolo, de Dostoievski e uma das minhas obras clássicas mais caras, a Sinfonia nº 3 de Gorecki. Ambas, obras que ilustram a queda e a total ausência de esperança, em um tom taciturno e profundo. Na verdade, desde cãozinho sempre gostei mais daqueles dias de céu dramático, com nuvens plúmbeas entremeadas por raios de sol fugazes. E da consequente […]