Necromaquiador. Ou necrocosmetologista, num neologismo meio etimológico. Esse é o nome do profissional que ajeita o cabelo e maquia aqueles que partiram de seus corpos, antes do velório. Não deve ser um trabalho fácil. Exige cuidado, técnica – nem sempre é fácil disfarçar uma causa mortis – e uma boa parcela de sangue frio e estômago. É também um trabalho silencioso, de bastidores. Dificilmente poderíamos imaginar que algum famosão desempenhasse esse papel.
Mas este foi, justamente, o caso de Danny DeVito. Ele, o Pinguim do Batman, de 1992; o Frank de It’s Always Sunny in Philadelphia; e o pai picareta da Matilda. DeVito revelou que começou sua carreira – de maquiador de necrotério, não ator – quando trabalhava como esteticista no salão de beleza de sua irmã. Uma cliente que atendia faleceu, e lhe pediram que arrumasse seu cabelo para a última aparição pública.
O mundo, na verdade, está cheio dessas histórias curiosas. Todo mundo foi alguém antes de ser outro alguém. Harrison Ford foi carpinteiro. Brad Pitt se fantasiava de frango gigante para ganhar um troco, e Daniel Craig sempre foi ator, mas passou por uns bons apertos. E a destilaria Lamas, de Minas Gerais, antes de produzir os whiskies que hoje conhecemos, bem, produzia mais whisky. E é essa a história contada pelo mais recente lançamento da marca, o Founder’s Selection.
O Lamas Founder’s Selection foi destilado em um período que a Lamas não havia, ainda, sido constituída como uma destilaria. Em outras palavras, fora produzido pela família Lamas antes de registrar o negócio, numa época que ainda não destilavam profissionalmente. Daí, a aparente contradição na idade – um whisky de dez anos, produzido por uma destilaria com sete.
Nas palavras da própria Lamas, no estojo que acompanha a garrafa “Antes de existir formalmente a Lamas Destilaria, existia apenas o desejo de criar um whisky que fosse expressão pura de paciência e curiosidade.
Naquele tempo, a destilação era apenas um hobby de irmãos, movidos pela paixão e pelo fascínio do processo artesanal. Entre experimentos e descobertas, alguns barris de carvalho americano foram reservados — não por ambição, mas por intuição. Guardados por uma década, eles amadureceram lentamente, absorvendo a doçura da madeira e o caráter do tempo.”
Sensorialmente, o Lamas Founder’s Selection traz uma nota adocicada, de caramelo e mel, clássica da maturação em carvalho americano. O final é levemente apimentado, e menos adocicado, e traz também aquele característico sabor de cereais, presente em diversas expressões da destilaria, mas mais contido – muito provavlemente por conta do tempo em barril. O que é ótimo.
Foram produzidas 1.500 garrafas do Lamas Founder’s Selection, individualmente numeradas. O whisky foi engarrafado a 46%, não tem corante caramelo adicionado, e nem passou por fltragem a frio. É praticamente a essência da Lamas, com uma atuação digna de premiação. Que aliás, já veio. O Lamas Founder’s Selection recebeu 94 pontos por Jim Murray, o autor da Whisky Bible.
A parte mais interessante sobre o Founder’s Selection talvez seja, na verdade, o propósito ligado à sua origem. Porque antes do holofote e do papel passado, havia um trabalho nos bastidores, com destilação e barris maturando. Um trabalho focado no desejo de produzir um whisky que não almejava receber prêmios ou ser nacionalmente reconhecido. Mas, simplesmente, apreciado também nos bastidores, por aqueles que tanto se dedicaram a criá-lo.
LAMAS FOUNDER’S SELECTION
Tipo: Single Malt
Destilaria: Lamas
País: Brasil
ABV: 46%
Notas de prova:
Aroma: caramelo, baunilha, cereais
Sabor: Mel, caramelo. Final longo, adocicado, levemente achocolatado e apimentado.


