Chivas Regal Crystalgold – iPad

Quando vi um iPad pela primeira vez, achei graça. Não era um telefone que cabia no bolso, nem um computador que aguentava o tranco do trabalho pesado. Era um troço híbrido.Como um triciclo, que é grande demais para usar o corredor de moto, mas que não tem capota para te proteger da chuva. Não vi nenhuma boa razão para ter um até lá pela terceira geração, quando resolvi que ia usar para desenhar – algo que gosto de fazer desde criança.

Aí, descobri outros usos para aquela televisãozinha. Tipo ver filmes enquanto corro na esteira, que é o único exercício possível para mim, por ser totalmente mecânico, desprovido de qualquer raciocínio. Até comprei um mini-teclado que se acoplava a ele, para poder escrever uma coisa ou outra para este blog, quando a ideia surgia. Não comprei outro depois, mas assumo que, depois de um tempo, achei bem confortável para uma porção de coisas. E que muita gente usa profissionalmente, hoje em dia.

Ao contrário disso, que só é usado por segurança de shopping

Aos olhos de um ser humano normal – como eu – aquele fora um tremendo de um risco, para a Apple. Porque era um produto desnecessário, uma inovação que ninguém pedira. Mas que, aos poucos, foi encontrando função no cotidiano. A genialidade do Ipad estava justamente em criar um desejo antes de resolver uma carência. É da mais genial arrogância, vender uma solução para um problema que ninguém tem. Lembrei dessa história ao provar, pela primeira vez, uma inovação da Pernod-Ricard. O Chivas Regal Crystalgold.

Vamos, primeiro, aos sinais vitais. O Chivas Regal Crystalgold é uma mistura entre um blended whisky filtrado em carvão, para remover coloração e moléculas mais pesadas, com um pouco de new-make spirit. Aqui começa o papo interessante. Ele não é, exatamente, um whisky. Ao menos, não tecnicamente, de acordo com as regras da Scotch Whisky Association. Por dois motivos, que explicarei abaixo.

Ocorre que, para que seja assim considerado whisky, a bebida deve maturar integralmente por no mínimo três anos em barris de carvalho de no máximo 700 litros. E a adição do new-make ao final do processo descumpre a regra. Além disso, o whisky deve reter a cor dada a ele pela maturação, e o Chivas Regal Crystalgold faz exatamente o oposto: ele matura, mas remove a cor.

A ciência por trás da criação do Chivas Regal Crystalgold é, no mínimo, engenhosa. A maior parte dele é um blend próprio, criado por Sandy Hyslop, master blender da Chivas. Esse blend matura por um tempo não divulgado em barris de carvalho – extra-oficialmente, fala-se de três a doze anos – especialmente first-fill ex-bourbon. Este whisky passa então por um filtro especial de carvão, que remove sua coloração, e o new-make é adicionado.

O processo de filtragem merece foco. Ainda que possa parecer, não é a mesma coisa que ocorre com Jack Daniel’s, por exemplo. No caso do Tennessee Whiskey, a filtragem é bem mais grosseira – no bom sentido. Basta pensar que, mesmo o Gentleman Jack, que passa duas vezes pelo processo, retém a cor da maturação.

Charcoal Mellowing na Jack Daniel’s

O paralelo mais preciso do Crystalgold são as tequila cristalino. São tequilas maturadas – normalmente añejo ou extra añejo – mas depois filtradas para não terem coloração, e ainda assim, reter os sabores e aromas provenientes da maturação. No Chivas Regal Crystalgold, o processo é realizado com atenção exaustiva aos detalhes. A graduação alcoolica é mais alta, e a temperatura e fluxo da filtragem são controlados com precisão, justamente para remover a cor, mas, teoricamente, manter o sabor.

Na opinião deste Cão, sensorialmente, no produto final, o resultado é discutível. Ele traz as tradicionais notas de maturação da Chivas – com pêra, caramelo e baunilha – mas há, claramente, um sabor de cereais que permeia toda experiência. Isso provavelmente é dado justamente pelo new-make, adicionado no final do processo. E ainda que a textura seja delicada, a impressão é de que ele foi desenhado como um ingrediente – não como algo para se beber puro.

É bem difícil, para um entusiasta de whisky, não racionalizar uma bebida. Mas, neste caso, talvez seja a melhor alternativa, para evitar a estranheza. Ele não é um parente da tequila – nem de longe, ainda mais porque, na tequila, a base alcoólica de agave já traz muita informação. Também não é um whisky, pelos motivos supra enumerados. E tampouco uma versão de algo como um moonshine ou poítin, porque há (pouca) informação de madeira.

E aí que acho que está o maior problema. Não pela inerente necessidade humana de definir e classificar tudo. Mas por conta de sua função. Me pergunto, honestamente, qual o público alvo desta inovação. Bebedores fiéis de white spirits teriam resistência, por conta da bandeira Chivas. Bebedores mais eventuais de whisky, talvez gostassem, se provassem. Mas seria necessária uma mente bem aberta, para se aproximar pela primeira vez – algo que bebedores eventuais têm pouco. É uma inovação interessante, mas, também, um enorme risco.

Crystalgold

No fim das contas, o Chivas Regal Crystalgold parece sofrer da mesma crise de identidade que afligia o iPad em seus primeiros dias: é uma resposta sofisticada para uma pergunta que ninguém se deu ao trabalho de fazer. A diferença é que a Apple tinha o ecossistema e o carisma de um culto para dobrar a realidade a seu favor. Aqui, no balcão da vida real, a inovação pela inovação corre o risco de ser apenas um exercício técnico estéril. Resta saber se o mercado vai aprender a desejar esse “não-whisky”.

CHIVAS REGAL CRYSTALGOLD

Tipo: Spirit Drink

Marca: Chivas Regal

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: floral, com baunilha e cereais

Sabor: suave, nada agressivo. Álcool bem integrado. Cereais, pão cru molhado, mel, baunilha

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