Visita à Angel’s Envy Distillery

A aposentadoria é uma invenção ofensiva para muitos. Ela parte do princípio de que, depois de certa idade, o ser humano deveria se dedicar a coisas como jardinagem, palavras cruzadas e discussões sobre colesterol. É um conceito que exclui a classe do workaholic funcional. Que, ao se ver livre de reuniões, metas e relatórios, começa a procurar problemas novos apenas para não morrer de tédio. Para esse tipo de pessoa, descansar é uma forma de falência moral. Um destes é Lincoln Henderson, fundador da Angel’s Envy — destilaria que visitei em minha última viagem a Louisville.

A história da Angel’s Envy é recente. Ela foi fundada por Lincoln e seu filho Wes. Lincoln trabalhara por mais de 40 anos na indústria do bourbon, especialmente com a Woodford Reserve, e se aposentara em 2004. Naquela época, já fazia parte do Bourbon Hall of Fame e havia poupado um bom dinheiro. Mas, como era o caso de qualquer workaholic, achou que a vida estava boa demais pra ele e resolveu se aventurar num novo projeto.

A ideia da dupla era explorar um interesse em comum: whiskies americanos com finalizações em barricas pouco ortodoxas. Lincoln, inclusive, fora um dos precursores da técnica, enquanto trabalhava para a Woodford, tendo criado o (delicioso, em minha singela opinião) Woodford Reserve Sonoma-Cutrer Finish, finalizado em barricas de vinho tinto da vinícola pertencente à Brown-Forman.

Um dos melhores bourbons que já provei

Após um período de teste, em 2010, Lincoln e Wes lançaram a Angel’s Envy. O produto inaugural foi o bourbon, finalizado em barris de vinho do porto ruby. A princípio, a marca não possuía uma destilaria própria. Eles compravam whiskies — rye e bourbon — de outras produtoras, como a MGP, e finalizavam nos barris escolhidos a dedo por eles. O projeto rapidamente evoluiu e, em 2013, pai e filho inauguraram a Angel’s Envy, uma das únicas destilarias cem por cento operacionais do Whiskey Row — no coração de Louisville.

Deixe-me explicar isso, porque é importante. O Whiskey Row é uma avenida em Louisville, que reúne algumas das mais famosas destilarias de whiskey do Kentucky. Porém, boa parte delas não é totalmente operacional – funcinam apenas como um posto avançado, para receber turistas e promover as marcas. A Angel’s Envy não. Ela está realmente e (quase) totalmente lá. Este fato, ligado à localização privilegiada, e aliado à conveniente proximidade de meu hotel, que me fez decidir visitar a destilaria.

COMO É O TOUR?

Ainda que autêntica, visitar a Angel’s Envy é uma experiência bem mais turística do que qualquer destilaria escocesa. O lugar foi planejado para receber viajantes. O alambique fica numa espécie de vitrine de vidro, que pode ser vista da rua, e a sala dos washbacks é bem cenográfica, com guarda-corpos bonitinhos e pé-direito triplo. O acesso se dá pela escada de emergência, mas mesmo essa parte é bem cuidada e decorada.

Cenográfico

Há diversos níveis de tour. No mais sofisticado, o participante pode engarrafar o próprio bourbon. Não foi este que fiz, porque meu horizonte de planejamento é de apenas quatro horas (exceto para comida; aí eu sei até o que vou jantar amanhã) e não havia mais vaga. Então, peguei a experiência mais simples. Ela começa no centro de visitantes, em frente a um enorme portão que parece a entrada para o paraíso. Ali, o guia explica um pouco da história da marca e algumas informações básicas sobre a produção de bourbon. O portão então, de forma meio dramática, é aberto, e a destilaria é revelada.

A Angel’s Envy não esconde, em nenhum momento, sua inspiração na Woodford Reserve. A mashbill usada em seu bourbon é a mesma: 72% de milho, 18% de centeio e 10% de cevada maltada. A mistura é moída, cozida e misturada com o sour mash da fermentação anterior. Em seguida, recebe as leveduras, que a fermentam por aproximadamente 70 horas — o que também é parecido com a Woodford. Há uma serpentina com água fria dentro dos washbacks, que reduz a temperatura do mosto e auxilia na fermentação.

O resultado é uma cerveja bem rudimentar, com 10% de graduação alcoólica. Neste ponto, o guia permite que provemos a iguaria. Ninguém do meu grupo se voluntariou — exceto, óbvio, por mim. Afinal, nem toda experiência recompensadora é deliciosa. O sabor é doce e levemente azedo. O mosto provado estava ali havia mais ou menos um dia — o que significa que, nas próximas trinta e tantas horas, a tendência é que azede e ganhe mais álcool.

Washbacks à direita, no amplo salão da Angel’s Envy

Este mosto fermentado é então bombeado para um destilador de coluna ligado a um doubler (não um thumper, como seria o caso da Jack Daniel’s). O resultado é um new-make spirit, ou white dog, de aproximadamente 69%. Esse líquido é então diluído até 62,4%, e embarrilhado. Todo esse processo é feito dentro da própria Angel’s Envy.

A maturação é o único estágio que ocorre longe do Whiskey Row. Os armazéns, ou rickhouses, da marca ficam no condado de Henry, aproximadamente 70 quilômetros da destilaria. Lá, as barricas descansam entre quatro e dez anos. Depois de certo período, algumas barricas são combinadas, e o líquido restante — deduzida a famosa parte dos anjos — é colocado em barris de vinho do porto ruby, comprados de alguma vinícola misteriosa de Portugal. O tempo de finalização é incerto, mas leva, em média, cinco meses.

Por fim, estes barris são misturados e diluídos até a graduação de engarrafamento, de 43,4% para o bourbon. Neste estágio, o whiskey já está de volta à destilaria em Louisville, que possui uma linha de engarrafamento bem extensa. O equipamento é importado da Alemanha e, de acordo com nossa guia, é um dos melhores do mercado. Uma informação pouco condizente com o que acontecia naquele dia, quando oito funcionários, chaves de fenda e alicates na mão, olhavam com decepção para um motor todo aberto. A linha, inerte.

E agora pra saber qual parafuso caiu?

OS FINALMENTES

Depois de visitar os alambiques e a linha de engarrafamento, fomos conduzidos novamente ao centro de visitantes, para degustar três expressões de Angel’s Envy, harmonizadas com três chocolates diferentes, todos produzidos por uma empresa de Louisville. O tour termina no bar da Angel’s Envy, que dá oportunidade de provar alguns coquetéis feitos com os whiskies da marca, além de algumas edições limitadas raras do passado. Vale a pena reservar meia hora – e um pouco de fígado – para isto.

Saí de lá com a impressão que havia conhecido, ao vivo, Lincoln Henderson. Quando ele se aposentou, não aceitou que aquele seria o fim de seu trabalho. A Angel’s Envy foi, para ele, como aquelas últimas cenas de pós-créditos de um filme, que explicam muita coisa e abrem espaço para uma sequência. Ela não era ruptura com o que fazia antes, mas, sim, continuidade. E é bom saber que seu legado segue sendo destilado.

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