Chivas Regal Crystalgold – iPad

Quando vi um iPad pela primeira vez, achei graça. Não era um telefone que cabia no bolso, nem um computador que aguentava o tranco do trabalho pesado. Era um troço híbrido.Como um triciclo, que é grande demais para usar o corredor de moto, mas que não tem capota para te proteger da chuva. Não vi nenhuma boa razão para ter um até lá pela terceira geração, quando resolvi que ia usar para desenhar – algo que gosto de fazer desde criança. Aí, descobri outros usos para aquela televisãozinha. Tipo ver filmes enquanto corro na esteira, que é o único exercício possível para mim, por ser totalmente mecânico, desprovido de qualquer raciocínio. Até comprei um mini-teclado que se acoplava a ele, para poder escrever uma coisa ou outra para este blog, quando a ideia surgia. Não comprei outro depois, mas assumo que, depois de um tempo, achei bem confortável para uma porção de coisas. E que muita gente usa profissionalmente, hoje em dia. Aos olhos de um ser humano normal – como eu – aquele fora um tremendo de um risco, para a Apple. Porque era um produto desnecessário, uma inovação que ninguém pedira. Mas que, aos poucos, foi encontrando função […]

The Macallan Art is the Flower – A Fonte

Dizem que a função primordial de um mictório é oferecer um destino higiênico ao subproduto de uma noite regada a whisky. Em 1917, porém, o artista Marcel Duchamp decidiu transmutar a essência de uma porcelana branca. Comprou um urinol na loja de ferragens Mott, virou de ponta-cabeça, assinou com o pseudônimo canastrão “R. Mutt” e o batizou de “The Fountain” (ou A Fonte). Por fim, enviou a exposição de Artistas Independentes de Nova Iorque. A Fonte, porém, jamais participou da mostra. Ela foi rejeitada, por ser considerada imoral e vulgar. A diretoria da exposição decidiu que ela não era arte, e a escondeu atrás de uma divisória, longe do público. Duchamp, ciente da rejeição, levou a obra ao estúdio de Alfred Stieglitz, onde foi fotografada e depois devolvida à exposição. Este fora o único registro da versão original daquele objeto. Porque, ironicamente, ao final do evento, a Fonte foi jogada no lixo por algum faxineiro, que provavelmente achou que aquilo fosse só mesmo um urinol, vandalizado por um tal Mutt. E me perdoe se estou postergando chegar ao ponto desta matéria, que é o The Macallan Art is The Flower, mas prometo que fará sentido, no final. Mesmo sem sua […]

Visita à Angel’s Envy Distillery

A aposentadoria é uma invenção ofensiva para muitos. Ela parte do princípio de que, depois de certa idade, o ser humano deveria se dedicar a coisas como jardinagem, palavras cruzadas e discussões sobre colesterol. É um conceito que exclui a classe do workaholic funcional. Que, ao se ver livre de reuniões, metas e relatórios, começa a procurar problemas novos apenas para não morrer de tédio. Para esse tipo de pessoa, descansar é uma forma de falência moral. Um destes é Lincoln Henderson, fundador da Angel’s Envy — destilaria que visitei em minha última viagem a Louisville. A história da Angel’s Envy é recente. Ela foi fundada por Lincoln e seu filho Wes. Lincoln trabalhara por mais de 40 anos na indústria do bourbon, especialmente com a Woodford Reserve, e se aposentara em 2004. Naquela época, já fazia parte do Bourbon Hall of Fame e havia poupado um bom dinheiro. Mas, como era o caso de qualquer workaholic, achou que a vida estava boa demais pra ele e resolveu se aventurar num novo projeto. A ideia da dupla era explorar um interesse em comum: whiskies americanos com finalizações em barricas pouco ortodoxas. Lincoln, inclusive, fora um dos precursores da técnica, enquanto […]

Prince of Wales – Reveillon

Tá quase acabando. Foram uns seis meses de Negroni Month. E umas vinte e sete Black Fridays, sendo que nenhuma valeu de verdade. Teve atrocidades como Labubu, bebê reborn e morango do amor. Mas está em seus derradeiros momentos, ainda que, sinceramente, preveja uma igual dose de barbaridade para o ano vindouro. A vantagem é que, entre os dois, tem uma noite. O reveillon. Que segue mais ou menos o mesmo rito reconfortante – chegar em algum lugar, beber, comer algo, beber mais, cinco quatro três dois um ê, tomar mais uma taça de espumante e dormir de costas, com um só pé no chão para o mundo não girar, respirando pela boca. Neste ano, porém, para quebrar, ou talvez, intensificar este ciclo, proponho um drink. Feito com alguns ingredientes bem comuns de festas de ano novo, dentre eles o onipresente espumante. O – nem tão – famoso Prince of Wales. A história do Prince of Wales – a pessoa e o drink – podem ser encontradas no livro Imbibe, de David Wondrich. O coquetel fora criado pelo próprio príncipe de Gales, Albert Edward, filho da rainha Victoria. Acontece que as matriarcas reais britânicas tendem a viver bastante. O que […]

6 Whiskies para dar (e receber) de natal em 2025

Observo a fila de carros parados, que faz curva até a outra esquina, onde fica a entrada do estacionamento do shopping. Você já sabe o que vai dar para a sua mãe? – indaga a cã, ao meu lado. Não sei, mas do jeito que tá indo rápido essa fila, o presente vai ser pro natal do ano que vem, retruco. Ela vira a cara, e ouço uma bufada. Nenhuma resposta. Olho pela janela do carro e vejo um cara fantasiado de papai noel, dentro do shopping, sentado numa poltrona cercada de neve artificial. Tá ruim pra mim, mas pra ele, tá certamente pior, penso. Natal é época de agradecer mesmo. Acho uma tremenda sacanagem. Tudo remete ao frio. Mas no Brasil, o natal quase sublima tudo. Ele escorre pela nuca suada como se o Papai Noel tivesse desistido do trenó e viesse a pé, soturno, tropeçando nas poças de derretimento humano. Se em algum canto do hemisfério norte crianças montam bonecos de neve, aqui a gente só é cozido lentamente enquanto finge alegria familiar. E eu sei que beber whisky na temperatura do penúltimo círculo do inferno dantesco não é exatamente uma atividade gostosa. Especialmente cercado da turma que […]

Sobre malte, eficiência e romance

Não sou um cara muito romântico, e a Cã é testemunha disso. Foi na faculdade, quando fizemos um ano de namoro, que escrevi a primeira e última carta a mão, para ela, numa desesperada tentativa de me desculpar por ter esquecido da tal data. Na verdade, minto. Há um mês fiz outra, que terminava com “te amo“, e começava com “não se esqueça de comprar a ração do Sazerac“. A gente vai ficando mais prático com a idade, mesmo. Também nunca a surpreendi com a música preferida dela – mesmo porque não suporto aquele kpop. Mas, pensando bem, preparo o jantar para ela frequentemente, ainda que o menu seja sempre o que eu esteja com vontade de comer, e não ela. Mas, enfim, é importante ressaltar que não ser romântico não tem nada a ver com não acreditar no romantismo, na poesia, do mundo. E nisso eu acreditava, até demais. Por exemplo, quando resolvi abrir o Caledonia, imaginiava que meu trabalho teria uma belíssima dose de romantismo. Estudar e explicar sobre whiskies, ajudar a criar drinks deliciosos, que potencializariam a alegria no coração de meus comensais. E a realidade é quase essa, mas entremeada por uma quantidade insuportável de planilhas, […]

Glenmorangie Tale of Spices – Das Índias

Tom Hardy tem algumas séries bem legais. Mobland, por exemplo, que no começo parece mais uma série genérica de gângsteres — e depois confirma justamente a primeira impressão. Mas com suspense, ação e um ritmo impecável. Outra é Taboo. Hardy interpreta James Delaney, um ex-marinheiro britânico meio místico e totalmente desajustado. Ele desafia o governo e a Companhia das Índias Orientais por conta da herança de seu pai: um pedaço de terra chamado Nootka Sound. A parte mais interessante da série é o retrato da Companhia das Índias Orientais. Ela aparece como uma corporação militarizada, quase um estado paralelo. Eles espionam, assassinam, compram juízes, torturam gente, afundam navios e reorganizam o parlamento. Tudo isso para controlar rotas comerciais de escravos, sal, pólvora e, principalmente, as especiarias. Acho engraçado — e, ao mesmo tempo, profundamente ofensivo e cínico — perceber que a humanidade moveu frotas, assassinou povos e redesenhou mapas para que, séculos depois, eu temperasse arroz com Sazon, enquanto a noz-moscada e a pimenta-do-reino observam, incrédulas, sua irrelevância. Isso sem mencionar o curry, que eu comprei, venceu em 2022 e eu nem abri. E ainda assim, de vez em quando, surge um líquido que devolve alguma dignidade ao legado das […]

Midnight Stinger – Reincidência

Na semana passada, viajei com a Cã para Barcelona. Visitamos mais de meia dúzia de bares, e comemos muito bem. Fizemos os programas de turista também, claro. E nas escadarias da Sagrada Família, depois de ter também visitado a Casa Batlo, me veio uma reflexão. Ninguém mais lembra do Gotye. O cara foi um estouro. Sampleou o Luiz Bonfá, chamou a Kimbra – aliás, quem? – pra cantar e depois foi sublimado da cena musical. Nada, nenhum outro sucesso, notícia. Somente silêncio e ostracismo. O Gaudí, no entanto, todo mundo quase sabe quem é. Acontece que certos criadores têm o azar de se tornarem – relativamente – conhecidos por uma única ‘obra’. Outros, como Gaudi, emplacam uma série inteira de marcos, como se cada projeto fosse inevitavelmente destinado a virar referência. O cara foi tão importante que até a Cãzinha, com seus dez anos de idade, estudou suas obras arquitetônicas na escola. No balcão, com certa hipérbole, um paralelo possível é Sam Ross. O australiano nos deu o Penicillin, discutivelmente o mais clássico dos new age classics; e o Paper Plane, que se alastrou pelos bares do mundo mais rápido do que a música que lhe inspira. E, como se […]

Hakushu 18 anos – Ausência

“A pureza do coração é desejar apenas uma coisa“. Este é o título de uma das mais importantes obras do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard – cuja pronúncia do ó cortado segue sendo um mistério para mim, desde a primeira vez que o citei por aqui. Para Kierkegaard, pureza não é limpeza, mas sim obstinação. A virtude de uma vida dedicada a um único objetivo, como, por exemplo, o divino. Algo que a igreja – literalmente – venera. A concentração de tudo em uma única vontade, um hiperfoco do coração. A secessão do indivíduo é impura por se dispersar entre desejos, vaidades e medos. Para usar uma metáfora impossível: é como um atirador, que ao mirar em dois alvos ao mesmo tempo, falha em acertá-los. Mas a pureza pode ser interpretada de uma outra forma, que nem é tão oposta àquela proposta pelo dinamarquês. Para colocar de uma forma quase proverbial, a pureza pode ser a ausência de tudo, menos da essência. É o que resta, quando tudo foi tolhido. Algo próximo do conceito budista da coisa. Essa proposição, de que a pureza é a inexistência de algo, ressoa perfeitamente na Hakushu – especialmente em seu lançamento no Brasil, o Hakushu […]

Twelve Mile Limit – Norma Fundamental

Último dia de aula da faculdade, e a classe está completamente vazia. Mesmo sendo o único aluno da derradeira aula de direito constitucional, sinto-me estranhamente confortável. Não sei para onde foram os demais alunos, e não me incomodo. Sentada sobre a mesa, a professora Hilda – uma senhora de um metro e oitenta e muito – explica sobre a pirâmide de Kelsen e a norma fundamental. Ao fundo, ouço os latidos de um cachorro. “Na pirâmide de Kelsen, a norma fundamental é um pressuposto lógico-jurídico, que confere validade para toda a estrutura das normas” – explica, numa voz profética. “é essa norma fundamental que confere validade à Constituição, e às demais leis. As regras, na verdade, são uma ficção. Elas não existem no mundo palpável, mas são validadas pela norma fundamental“. Aceno com a cabeça e reflito, em silêncio. Então nada tem limite mesmo, nem município. A doutora Hilda continua. Mas, agora, estranhamente, ela late. Igualzinho o cachorro que antes ouvia. De repente, ela salta – tipo um monstro, um vampiro, de uma forma surpreendentemente ágil para uma mulher de sua idade e porte – para fora da classe. Tomo um susto, fecho os olhos. Ao abri-los novamente, não estou […]