Jack Daniel’s Bottled in Bond Triple Mash

Eu estava pensando aqui. A gastronomia tem umas coisas muito legais e absolutamente improváveis. Por exemplo, o chocolate. O cara foi lá, pegou o fruto, ou amêndoa, de uma árvore, torrou, descascou e moeu. Depois, desenvolveu um processo todo intrincado, com agitação e aquecimento só para tirar acidez. Por fim, decidiu que seria prudente dar um choque térmico na mistura e moldá-lo para, finalmente – e essa é a parte que mais me surpreende – comê-lo. Mas ele não parou por aí. Pegou barriga de porco, salgou, curou, defumou, fritou e fatiou. Comeu, achou uma delícia, batizou de bacon. E séculos depois, no clima de juntar duas coisas deliciosas para produzir algo ainda melhor, misturou os dois. Bacon com dip de chocolate. Algo que jamais, mesmo nas infinitas possibilidades do multiverso, aconteceria de forma natural, sem intervenção de um ser pensante e faminto. É lindo de ver, como o humano se esmeira quando o assunto é comer e beber, combinando elementos improváveis em busca de novas sensações, equilíbrio e complexidade. No mundo do whisky, esta é, de certa forma, o trabalho do master blender. Que, além de supervisionar a qualidade e padrão de produção, utiliza sua criatividade para combinar barris […]

Work & Trust Terceira Edição

Deixe-me começar transcrevendo um trecho de uma publicação importante. O livro de geografia do primário de minha filha. “O Estado do Espírito Santo é um dos 27 estados brasileiros e se localiza na Região Sudeste do país. (…) A maritimidade exerce grande influência no seu clima, que é predominantemente tropical úmido. O estado é também um grande produtor de café“. Me arrisco a completar as informações com algumas que descobri ao longo dos anos. O Estado do Espírito Santo também é o maior produtor de gengibre do Brasil. E é lá que fica o terceiro ponto mais alto do país. Além disso, eles chamam lagartixa de taruíra, sentem gastura e têm uma rivalidade inexplicável sobre a moqueca com a Bahia. E, por fim – mais importante que tudo isso – eles agora engarrafam whisky. É que foi fundada, no ano passado, no Espírito Santo, a Work & Trust, engarrafadora independente de Afonso Takemoto, empresário e gestor operacional do Alambique Princesa Isabel. Já é a segunda engarrafadora independente brasileira. A ideia é escolher, de forma criteriosa, barricas de destilarias nacionais, finalizar seu líquido (ou não) e engarrafá-los sob o selo da marca. Como um apaixonado por single malts, Takemoto foi bastante criterioso ao elaborar o […]

5 Whiskies que adoraríamos ver no Brasil em 2026

No final do ano passado viajei para Barcelona. Fiquei uns oito dias – tempo suficiente para percorrer boa parte dos bares da cidade. Bebi bem, e comi extraordinariamente. Tanto de quantidade, quanto qualidade. E como não podia deixar de ser, comprei também algumas garrafas de whisky (e vermute) para trazer para cá. Mas, de longe, a minha melhor compra etílico-gastronômica foi uma Kewpie. Sim, a maionese. Aquela japonesa, do bebezinho. Que é a melhor maionese do mundo, na minha obesa opinião. Mas a que trouxe não foi a Kewpie tradicional, que tem por aqui. Mas sim uma versão com wasabi, que fica uma delícia numa porção de coisas, especialmente salmão defumado. Me arrependi, inclusive, de não ter comprado duas embalagens, mas assumo que fiquei com medo de tudo explodir na mala, e meus whiskies ganharem um curioso aroma de raiz forte. A Kewpie, lá fora, tem várias versões. Tem uma low-fat, uma doce, uma com sriracha, e outra com yuzu. Mas, por aqui, só recebemos a tradicional mesmo. O que já está ótimo pra mim, porque não pretendo virar um sommelier de maioneses. Whisky, entretanto, é outra história. Como um entusiasta, e, especialmente, sócio de um bar de whiskies, sinto […]

Five Keys -Mona Lisa

Você já deve ter visto a imagem abaixo. Quero dizer, a única, certamente viu. Mas talvez essa, com trinta. A obra se chama Thirty Are Better Than One e foi criada em 1963 pelo artista pop Andy Warhol. Ele reproduziu, em serigrafia, a Mona Lisa tritna vezes. Trinta minimonalisas, lado a lado, como se fosse um item em um supermercado. O legal que, ao contrário de outras reproduções, que contam com uma ou outra distorção visual, ele não mudou nada. A violência está na repetição. Deixa eu tentar explicar isso melhor. Ao reproduzir uma obra única trinta vezes, ela perde singularidade, e se torna um produto seriado. A crítica de Warhol não é à pintura, mas ao sistema que transforma obras em ícones replicáveis até a exaustão. É genial, porque não é um ataque direto à obra, mas mais uma dissolução dela, por excesso. Clássicos muito bem resolvidos costumam sofrer desse destino. Quando a estrutura é sólida demais, ela vira molde. A coquetelaria tem uma porção de drinks assim, também. Mas talvez, o primeiro da lista seja o Manhattan. Ele é – discutivelmente – um original tão bem construído que passou a ser reproduzido quase por inércia. O Five Keys, […]

Chivas Regal Crystalgold – iPad

Quando vi um iPad pela primeira vez, achei graça. Não era um telefone que cabia no bolso, nem um computador que aguentava o tranco do trabalho pesado. Era um troço híbrido.Como um triciclo, que é grande demais para usar o corredor de moto, mas que não tem capota para te proteger da chuva. Não vi nenhuma boa razão para ter um até lá pela terceira geração, quando resolvi que ia usar para desenhar – algo que gosto de fazer desde criança. Aí, descobri outros usos para aquela televisãozinha. Tipo ver filmes enquanto corro na esteira, que é o único exercício possível para mim, por ser totalmente mecânico, desprovido de qualquer raciocínio. Até comprei um mini-teclado que se acoplava a ele, para poder escrever uma coisa ou outra para este blog, quando a ideia surgia. Não comprei outro depois, mas assumo que, depois de um tempo, achei bem confortável para uma porção de coisas. E que muita gente usa profissionalmente, hoje em dia. Aos olhos de um ser humano normal – como eu – aquele fora um tremendo de um risco, para a Apple. Porque era um produto desnecessário, uma inovação que ninguém pedira. Mas que, aos poucos, foi encontrando função […]

The Macallan Art is the Flower – A Fonte

Dizem que a função primordial de um mictório é oferecer um destino higiênico ao subproduto de uma noite regada a whisky. Em 1917, porém, o artista Marcel Duchamp decidiu transmutar a essência de uma porcelana branca. Comprou um urinol na loja de ferragens Mott, virou de ponta-cabeça, assinou com o pseudônimo canastrão “R. Mutt” e o batizou de “The Fountain” (ou A Fonte). Por fim, enviou a exposição de Artistas Independentes de Nova Iorque. A Fonte, porém, jamais participou da mostra. Ela foi rejeitada, por ser considerada imoral e vulgar. A diretoria da exposição decidiu que ela não era arte, e a escondeu atrás de uma divisória, longe do público. Duchamp, ciente da rejeição, levou a obra ao estúdio de Alfred Stieglitz, onde foi fotografada e depois devolvida à exposição. Este fora o único registro da versão original daquele objeto. Porque, ironicamente, ao final do evento, a Fonte foi jogada no lixo por algum faxineiro, que provavelmente achou que aquilo fosse só mesmo um urinol, vandalizado por um tal Mutt. E me perdoe se estou postergando chegar ao ponto desta matéria, que é o The Macallan Art is The Flower, mas prometo que fará sentido, no final. Mesmo sem sua […]

Visita à Angel’s Envy Distillery

A aposentadoria é uma invenção ofensiva para muitos. Ela parte do princípio de que, depois de certa idade, o ser humano deveria se dedicar a coisas como jardinagem, palavras cruzadas e discussões sobre colesterol. É um conceito que exclui a classe do workaholic funcional. Que, ao se ver livre de reuniões, metas e relatórios, começa a procurar problemas novos apenas para não morrer de tédio. Para esse tipo de pessoa, descansar é uma forma de falência moral. Um destes é Lincoln Henderson, fundador da Angel’s Envy — destilaria que visitei em minha última viagem a Louisville. A história da Angel’s Envy é recente. Ela foi fundada por Lincoln e seu filho Wes. Lincoln trabalhara por mais de 40 anos na indústria do bourbon, especialmente com a Woodford Reserve, e se aposentara em 2004. Naquela época, já fazia parte do Bourbon Hall of Fame e havia poupado um bom dinheiro. Mas, como era o caso de qualquer workaholic, achou que a vida estava boa demais pra ele e resolveu se aventurar num novo projeto. A ideia da dupla era explorar um interesse em comum: whiskies americanos com finalizações em barricas pouco ortodoxas. Lincoln, inclusive, fora um dos precursores da técnica, enquanto […]

Prince of Wales – Reveillon

Tá quase acabando. Foram uns seis meses de Negroni Month. E umas vinte e sete Black Fridays, sendo que nenhuma valeu de verdade. Teve atrocidades como Labubu, bebê reborn e morango do amor. Mas está em seus derradeiros momentos, ainda que, sinceramente, preveja uma igual dose de barbaridade para o ano vindouro. A vantagem é que, entre os dois, tem uma noite. O reveillon. Que segue mais ou menos o mesmo rito reconfortante – chegar em algum lugar, beber, comer algo, beber mais, cinco quatro três dois um ê, tomar mais uma taça de espumante e dormir de costas, com um só pé no chão para o mundo não girar, respirando pela boca. Neste ano, porém, para quebrar, ou talvez, intensificar este ciclo, proponho um drink. Feito com alguns ingredientes bem comuns de festas de ano novo, dentre eles o onipresente espumante. O – nem tão – famoso Prince of Wales. A história do Prince of Wales – a pessoa e o drink – podem ser encontradas no livro Imbibe, de David Wondrich. O coquetel fora criado pelo próprio príncipe de Gales, Albert Edward, filho da rainha Victoria. Acontece que as matriarcas reais britânicas tendem a viver bastante. O que […]

6 Whiskies para dar (e receber) de natal em 2025

Observo a fila de carros parados, que faz curva até a outra esquina, onde fica a entrada do estacionamento do shopping. Você já sabe o que vai dar para a sua mãe? – indaga a cã, ao meu lado. Não sei, mas do jeito que tá indo rápido essa fila, o presente vai ser pro natal do ano que vem, retruco. Ela vira a cara, e ouço uma bufada. Nenhuma resposta. Olho pela janela do carro e vejo um cara fantasiado de papai noel, dentro do shopping, sentado numa poltrona cercada de neve artificial. Tá ruim pra mim, mas pra ele, tá certamente pior, penso. Natal é época de agradecer mesmo. Acho uma tremenda sacanagem. Tudo remete ao frio. Mas no Brasil, o natal quase sublima tudo. Ele escorre pela nuca suada como se o Papai Noel tivesse desistido do trenó e viesse a pé, soturno, tropeçando nas poças de derretimento humano. Se em algum canto do hemisfério norte crianças montam bonecos de neve, aqui a gente só é cozido lentamente enquanto finge alegria familiar. E eu sei que beber whisky na temperatura do penúltimo círculo do inferno dantesco não é exatamente uma atividade gostosa. Especialmente cercado da turma que […]

Sobre malte, eficiência e romance

Não sou um cara muito romântico, e a Cã é testemunha disso. Foi na faculdade, quando fizemos um ano de namoro, que escrevi a primeira e última carta a mão, para ela, numa desesperada tentativa de me desculpar por ter esquecido da tal data. Na verdade, minto. Há um mês fiz outra, que terminava com “te amo“, e começava com “não se esqueça de comprar a ração do Sazerac“. A gente vai ficando mais prático com a idade, mesmo. Também nunca a surpreendi com a música preferida dela – mesmo porque não suporto aquele kpop. Mas, pensando bem, preparo o jantar para ela frequentemente, ainda que o menu seja sempre o que eu esteja com vontade de comer, e não ela. Mas, enfim, é importante ressaltar que não ser romântico não tem nada a ver com não acreditar no romantismo, na poesia, do mundo. E nisso eu acreditava, até demais. Por exemplo, quando resolvi abrir o Caledonia, imaginiava que meu trabalho teria uma belíssima dose de romantismo. Estudar e explicar sobre whiskies, ajudar a criar drinks deliciosos, que potencializariam a alegria no coração de meus comensais. E a realidade é quase essa, mas entremeada por uma quantidade insuportável de planilhas, […]