The Macallan M Copper – Grand Tour

Fui, esses dias, com Cã mãe no shopping, porque ela queria ver o Iphone Pro. Passamos na frente de uma adega, cheia de vinhos, que orgulhosamente exibiam a designação de Reserva. Daqueles, que a gente paga com um cartão de crédito signature, antes de uma refeição em alguma padaria gourmet com qualquer nome francês. É engraçado como certas expressões nunca significaram grande coisa. E outras, que já significaram, tiveram seu sentido cuidadosamente saqueado pelo marketing. No mundo dos carros – que eu adoro – acho que a mais devassada é GT. Deixe-me trazer algum embasamento histórico. Antes de habitar a traseira do Peugeot 208 e do VW Polo, a sigla “GT” fazia referência aos grand tourers, carros concebidos para uma versão motorizada do velho Grand Tour. Que, por sua vez, era aquela viagem de formação feita por jovens aristocratas europeus, sobretudo ingleses, que passavam anos rodando o continente para estudar arte, arquitetura, história e, presumivelmente, desenvolver opiniões muito firmes sobre qualquer coisa cuja opinião é absolutamente dispensável. O GT herdou esse nome porque propunha uma versão motorizada da mesma fantasia: cruzar grandes distâncias não só com velocidade, mas com conforto, luxo e alguma pretensão cultural elitista. Há inclusive um episódio […]

The Botanist Cask Aged Gin – Narrativa Torta

Estamos em 2026, e você, provavelmente, já ouviu falar da teoria do multiverso. Eu falei dela aqui muito antes de ter sido sequestrada pela Marvel, e, assumo, tinha bem mais graça outrora. Mas é inevitável recorrer a esta analogia. A teoria do multiverso diz que existe um universo pra cada possibilidade, e que tudo acontece ao mesmo tempo em todo lugar (que, aliás, é mais ou menos o título de outro filme bem supervalorizado, na minha opinião impopular). Mas, enfim, o que a teoria postula é que, em determinado universo, ou, dimensão, você virou médico. Noutro você tem uma vaca de estimação, e, no outro, você é o bicho de estimação da vaca, que é superinteligente. A ideia é que nenhuma versão cancela a outra. Todas coexistem, em paralelo, sem se encontrar, ao mesmo tempo. E que como há infinitas realidades, as possibilidades são infinitas, então tudo acontece, por menor que seja a chance. A regra de ouro, entretanto, é que essas realidades não se misturam (exemplo: não dá pra ser pet da vaca e ter a vaca de pet no mesmo mundo). Quer dizer, para a maioria das pessoas, mas não para Steven Seagal. Esse decidiu ser tudo nesse […]

Lamas Founder’s Selection – Antes da Fama

Necromaquiador. Ou necrocosmetologista, num neologismo meio etimológico. Esse é o nome do profissional que ajeita o cabelo e maquia aqueles que partiram de seus corpos, antes do velório. Não deve ser um trabalho fácil. Exige cuidado, técnica – nem sempre é fácil disfarçar uma causa mortis – e uma boa parcela de sangue frio e estômago. É também um trabalho silencioso, de bastidores. Dificilmente poderíamos imaginar que algum famosão desempenhasse esse papel. Mas este foi, justamente, o caso de Danny DeVito. Ele, o Pinguim do Batman, de 1992; o Frank de It’s Always Sunny in Philadelphia; e o pai picareta da Matilda. DeVito revelou que começou sua carreira – de maquiador de necrotério, não ator – quando trabalhava como esteticista no salão de beleza de sua irmã. Uma cliente que atendia faleceu, e lhe pediram que arrumasse seu cabelo para a última aparição pública. O mundo, na verdade, está cheio dessas histórias curiosas. Todo mundo foi alguém antes de ser outro alguém. Harrison Ford foi carpinteiro. Brad Pitt se fantasiava de frango gigante para ganhar um troco, e Daniel Craig sempre foi ator, mas passou por uns bons apertos. E a destilaria Lamas, de Minas Gerais, antes de produzir os […]

Dupla Nacionalidade – Nomad Outland Whisky

Se você acessou o Cão Engarrafado, é muitíssimo provável que tenha notado o cachorro ali de cima. Aquele lá é o Sazerac, o atual Cão do Cão. Mas ele tem apenas sete anos, e, este site, mais de 10. O que significa que, antes dele, havia outro dog alí. Que fora o Maverick O Maverick, ou Mavi, para os íntimos, era um mini-collie – também conhecido como Sheltie – ainda que a gente ache que a parte do “mini” foi esquecida durante sua concepção. Ele pesava seus dezoito quilos, e era constantemente confundido com um collie “full-size”. Ele era um pouco grande, mas tudo normal até aqui. Acontece que o Maverick, na verdade, era um gato em sua alma. Ou melhor, um gatorro. Porque por mais estranho que pareça, ele raramente buscava algum contato. Passava o dia andando pela casa e olhando com desdém para as pessoas e não era muito chegado em gente nova. Além disso, desprezava biscoito de cachorro, mas era apaixonado por atum em lata. O Maverick pode ter nascido cão, mas, por dentro, bate um coração cheio daquele ódio passivo tão característico dos gatos. Se eu pudesse comparar o Maverick com algum whisky, este certamente seria […]

Jack Daniel’s Bottled in Bond Triple Mash

Eu estava pensando aqui. A gastronomia tem umas coisas muito legais e absolutamente improváveis. Por exemplo, o chocolate. O cara foi lá, pegou o fruto, ou amêndoa, de uma árvore, torrou, descascou e moeu. Depois, desenvolveu um processo todo intrincado, com agitação e aquecimento só para tirar acidez. Por fim, decidiu que seria prudente dar um choque térmico na mistura e moldá-lo para, finalmente – e essa é a parte que mais me surpreende – comê-lo. Mas ele não parou por aí. Pegou barriga de porco, salgou, curou, defumou, fritou e fatiou. Comeu, achou uma delícia, batizou de bacon. E séculos depois, no clima de juntar duas coisas deliciosas para produzir algo ainda melhor, misturou os dois. Bacon com dip de chocolate. Algo que jamais, mesmo nas infinitas possibilidades do multiverso, aconteceria de forma natural, sem intervenção de um ser pensante e faminto. É lindo de ver, como o humano se esmeira quando o assunto é comer e beber, combinando elementos improváveis em busca de novas sensações, equilíbrio e complexidade. No mundo do whisky, esta é, de certa forma, o trabalho do master blender. Que, além de supervisionar a qualidade e padrão de produção, utiliza sua criatividade para combinar barris […]

Work & Trust Terceira Edição

Deixe-me começar transcrevendo um trecho de uma publicação importante. O livro de geografia do primário de minha filha. “O Estado do Espírito Santo é um dos 27 estados brasileiros e se localiza na Região Sudeste do país. (…) A maritimidade exerce grande influência no seu clima, que é predominantemente tropical úmido. O estado é também um grande produtor de café“. Me arrisco a completar as informações com algumas que descobri ao longo dos anos. O Estado do Espírito Santo também é o maior produtor de gengibre do Brasil. E é lá que fica o terceiro ponto mais alto do país. Além disso, eles chamam lagartixa de taruíra, sentem gastura e têm uma rivalidade inexplicável sobre a moqueca com a Bahia. E, por fim – mais importante que tudo isso – eles agora engarrafam whisky. É que foi fundada, no ano passado, no Espírito Santo, a Work & Trust, engarrafadora independente de Afonso Takemoto, empresário e gestor operacional do Alambique Princesa Isabel. Já é a segunda engarrafadora independente brasileira. A ideia é escolher, de forma criteriosa, barricas de destilarias nacionais, finalizar seu líquido (ou não) e engarrafá-los sob o selo da marca. Como um apaixonado por single malts, Takemoto foi bastante criterioso ao elaborar o […]

5 Whiskies que adoraríamos ver no Brasil em 2026

No final do ano passado viajei para Barcelona. Fiquei uns oito dias – tempo suficiente para percorrer boa parte dos bares da cidade. Bebi bem, e comi extraordinariamente. Tanto de quantidade, quanto qualidade. E como não podia deixar de ser, comprei também algumas garrafas de whisky (e vermute) para trazer para cá. Mas, de longe, a minha melhor compra etílico-gastronômica foi uma Kewpie. Sim, a maionese. Aquela japonesa, do bebezinho. Que é a melhor maionese do mundo, na minha obesa opinião. Mas a que trouxe não foi a Kewpie tradicional, que tem por aqui. Mas sim uma versão com wasabi, que fica uma delícia numa porção de coisas, especialmente salmão defumado. Me arrependi, inclusive, de não ter comprado duas embalagens, mas assumo que fiquei com medo de tudo explodir na mala, e meus whiskies ganharem um curioso aroma de raiz forte. A Kewpie, lá fora, tem várias versões. Tem uma low-fat, uma doce, uma com sriracha, e outra com yuzu. Mas, por aqui, só recebemos a tradicional mesmo. O que já está ótimo pra mim, porque não pretendo virar um sommelier de maioneses. Whisky, entretanto, é outra história. Como um entusiasta, e, especialmente, sócio de um bar de whiskies, sinto […]

Five Keys -Mona Lisa

Você já deve ter visto a imagem abaixo. Quero dizer, a única, certamente viu. Mas talvez essa, com trinta. A obra se chama Thirty Are Better Than One e foi criada em 1963 pelo artista pop Andy Warhol. Ele reproduziu, em serigrafia, a Mona Lisa tritna vezes. Trinta minimonalisas, lado a lado, como se fosse um item em um supermercado. O legal que, ao contrário de outras reproduções, que contam com uma ou outra distorção visual, ele não mudou nada. A violência está na repetição. Deixa eu tentar explicar isso melhor. Ao reproduzir uma obra única trinta vezes, ela perde singularidade, e se torna um produto seriado. A crítica de Warhol não é à pintura, mas ao sistema que transforma obras em ícones replicáveis até a exaustão. É genial, porque não é um ataque direto à obra, mas mais uma dissolução dela, por excesso. Clássicos muito bem resolvidos costumam sofrer desse destino. Quando a estrutura é sólida demais, ela vira molde. A coquetelaria tem uma porção de drinks assim, também. Mas talvez, o primeiro da lista seja o Manhattan. Ele é – discutivelmente – um original tão bem construído que passou a ser reproduzido quase por inércia. O Five Keys, […]

Chivas Regal Crystalgold – iPad

Quando vi um iPad pela primeira vez, achei graça. Não era um telefone que cabia no bolso, nem um computador que aguentava o tranco do trabalho pesado. Era um troço híbrido.Como um triciclo, que é grande demais para usar o corredor de moto, mas que não tem capota para te proteger da chuva. Não vi nenhuma boa razão para ter um até lá pela terceira geração, quando resolvi que ia usar para desenhar – algo que gosto de fazer desde criança. Aí, descobri outros usos para aquela televisãozinha. Tipo ver filmes enquanto corro na esteira, que é o único exercício possível para mim, por ser totalmente mecânico, desprovido de qualquer raciocínio. Até comprei um mini-teclado que se acoplava a ele, para poder escrever uma coisa ou outra para este blog, quando a ideia surgia. Não comprei outro depois, mas assumo que, depois de um tempo, achei bem confortável para uma porção de coisas. E que muita gente usa profissionalmente, hoje em dia. Aos olhos de um ser humano normal – como eu – aquele fora um tremendo de um risco, para a Apple. Porque era um produto desnecessário, uma inovação que ninguém pedira. Mas que, aos poucos, foi encontrando função […]

The Macallan Art is the Flower – A Fonte

Dizem que a função primordial de um mictório é oferecer um destino higiênico ao subproduto de uma noite regada a whisky. Em 1917, porém, o artista Marcel Duchamp decidiu transmutar a essência de uma porcelana branca. Comprou um urinol na loja de ferragens Mott, virou de ponta-cabeça, assinou com o pseudônimo canastrão “R. Mutt” e o batizou de “The Fountain” (ou A Fonte). Por fim, enviou a exposição de Artistas Independentes de Nova Iorque. A Fonte, porém, jamais participou da mostra. Ela foi rejeitada, por ser considerada imoral e vulgar. A diretoria da exposição decidiu que ela não era arte, e a escondeu atrás de uma divisória, longe do público. Duchamp, ciente da rejeição, levou a obra ao estúdio de Alfred Stieglitz, onde foi fotografada e depois devolvida à exposição. Este fora o único registro da versão original daquele objeto. Porque, ironicamente, ao final do evento, a Fonte foi jogada no lixo por algum faxineiro, que provavelmente achou que aquilo fosse só mesmo um urinol, vandalizado por um tal Mutt. E me perdoe se estou postergando chegar ao ponto desta matéria, que é o The Macallan Art is The Flower, mas prometo que fará sentido, no final. Mesmo sem sua […]