Michter’s Single Barrel Rye Whiskey

Sou advogado, então, falo com conhecimento de causa. Todos nós sabemos meia dúzida de palavras em latim, que, quando usadas no momento certo, podem fazer uma ideia banal parecer inapelável. “Pacta sunt servanda” soa muito melhor do que “o certo é certo e já foi combinado”. “Data venia” é quase um “lá ele” institucional, a forma culta de dizer “com todo respeito, nunca ouvi tamanha barbaridade”. E “fumus boni iuris” parece um feitiço, mas é quase uma navalha de Occam (ou Ockham) jurídica, que postula que, se alguma coisa tem cheio, textura e cor de algo, provavelmente é aquele algo. O latim sobrevive assim. Não como língua, mas como um mini atalho para um argumento de autoridade. Ele paira sobre petições, brasões, universidades e tribunais, lembrando que a humanidade sempre teve uma relação meio fetichista com palavras que parecem carregar séculos de poeira e poder. E uma expressão ancestral, se pronunciada com gravidade, pode parecer mais sólida do que a própria ideia que tenta sustentar. O mesmo, certamente, ocorre com marcas. A Michter’s foi assim. Começou com uma destilaria na Pensilvânia, na era dourada dos rye whiskies. Não resistiu à lei-seca e ao desinteresse do público dos anos oitenta. Mas […]

The Macallan 007 Diamonds are Forever

Este vinho é excelente. Porém, para uma refeição tão grandiosa, eu esperaria um claret – aponta James Bond, ao provar uma taça de Mouton Rothschild servido, alegadamente, pelo sommelier do iate. Este, retruca: É claro, mas infelizmente, nossa adega está mal abastecida de clarets. O espião, então, arremata “Mouton Rothschild é um claret. E eu já cheirei essa loção pós-barba antes” – desmarscarando um dos vilões do filme, Sr. Wint. A passagem acima é de 007: Diamonds Are Forever, de 1971, estrelando Sean Connery como o agente secreto mais célebre do mundo. Ela traz uma mensagem importante, e não é sobre o perigo de harmonizar grand-cru classés tintos com peixe. Mas, sobre a importância de ter paladar e conhecimento que vai além de sua área de atuação. Para um agente da coroa britânica com licença para matar, espera-se proficiência em armas de fogo e luta. Mas não em beber com qualidade e como se não houvesse amanhã, ainda que este nunca morra (viram o que eu fiz aqui?). O trecho do roteiro que abre esta matéria é, também, uma importante dica sobre a nova edição limitada que acaba de chegar ao Brasil. O The Macallan 007 Diamonds Are Forever. O […]

Jack Daniel’s Bottled in Bond Rye – Transcendência

Há objetos feitos para pessoas cuidadosas. Copos de coquetelaria da Kimura Glass, sapatos de camurça bege, bonsais, sistemas de arrefecimento de Alfa-Romeos da década de 70 e relações afetivas estáveis. São coisas que exigem cuidado, manutenção fina, temperatura controlada, ausência de crianças, ausência de gatos e, preferencialmente, ausência de seres humanos. O que, existencialmente falando, resolve tudo. E há objetos feitos para a pessoas que existem no mundo real. Tipo o tijorola (que me lembro, até hoje, de ter nadado um medley inteiro na piscina com um desses, que sobreviveu). Ou a panela de ferro, Honda Civic, o copo americano, as Havaianas, e aquelas mesas plásticas de boteco que sobrevivem a chuva, sol, gordura, cigarro, bêbado, criança e o tio do zap. São coisas cuja promessa não é de tanscendência, mas de resistência. A famosa palavra dos coaches, resiliência, que é ficar inteiro depois de qualquer uso indevido. O que, convenhamos, já é uma forma bastante honesta de transcendência. Na coquetelaria, essa diferença existe também. Há destilados que precisam ser tratados com delicadeza. Os whiskies japoneses, por exemplo, exigem precisão técnica e equilíbrio impecáveis. Lembro-me até hoje de um drink de Hibiki, que fizemos para um evento da Suntory. Equlibrá-lo […]