Archibald’s Last Memory

Um abandonou o nome. O outro jamais existiu no mundo real. E um terceiro, fidalgo, foi executado. Todos eles, batizados de Archibald. Um nome que parece mais uma sina, dado destino de seus denominados. O primeiro Archibald nasceu em Bristol, portando o aristocrático sobrenome de Leach. Virou ator de teatro, e depois se mudou para Hollywood. Mas para um jovem artista dos anos trinta nos Estados Unidos, Archibald Leach parecia antiquado e britânico demais. Assim, o estúdio que o descobriu – a Paramount – o rebatizou de Cary Grant. O Cary Grant. O segundo Archibald é fictício, ainda que indiscutivelmente célebre. Achibald Haddock, o capitão Haddock, das Aventuras de Tin Tin. Este, em oposição a Cary Grant, encarnou, mesmo sem carne e osso, o arquétipo arquibaldesco e virou alcoólatra funcional e capitão. O que faz sentido, dado que nunca existiu de verdade, e podia ter qualquer característica atribuída a ele. O último Archibald é o Campbell, marquês de Argyll, que se envolveu nas recorrentes disputas religiosas e políticas do século XVII contra a coroa inglesa. Como costuma acontecer com Archibalds que acreditam demais em suas convicções, acabou acusado de traição e foi executado em 1685. O que também é coerente […]

The Macallan M Copper – Grand Tour

Fui, esses dias, com Cã mãe no shopping, porque ela queria ver o Iphone Pro. Passamos na frente de uma adega, cheia de vinhos, que orgulhosamente exibiam a designação de Reserva. Daqueles, que a gente paga com um cartão de crédito signature, antes de uma refeição em alguma padaria gourmet com qualquer nome francês. É engraçado como certas expressões nunca significaram grande coisa. E outras, que já significaram, tiveram seu sentido cuidadosamente saqueado pelo marketing. No mundo dos carros – que eu adoro – acho que a mais devassada é GT. Deixe-me trazer algum embasamento histórico. Antes de habitar a traseira do Peugeot 208 e do VW Polo, a sigla “GT” fazia referência aos grand tourers, carros concebidos para uma versão motorizada do velho Grand Tour. Que, por sua vez, era aquela viagem de formação feita por jovens aristocratas europeus, sobretudo ingleses, que passavam anos rodando o continente para estudar arte, arquitetura, história e, presumivelmente, desenvolver opiniões muito firmes sobre qualquer coisa cuja opinião é absolutamente dispensável. O GT herdou esse nome porque propunha uma versão motorizada da mesma fantasia: cruzar grandes distâncias não só com velocidade, mas com conforto, luxo e alguma pretensão cultural elitista. Há inclusive um episódio […]

The Botanist Cask Aged Gin – Narrativa Torta

Estamos em 2026, e você, provavelmente, já ouviu falar da teoria do multiverso. Eu falei dela aqui muito antes de ter sido sequestrada pela Marvel, e, assumo, tinha bem mais graça outrora. Mas é inevitável recorrer a esta analogia. A teoria do multiverso diz que existe um universo pra cada possibilidade, e que tudo acontece ao mesmo tempo em todo lugar (que, aliás, é mais ou menos o título de outro filme bem supervalorizado, na minha opinião impopular). Mas, enfim, o que a teoria postula é que, em determinado universo, ou, dimensão, você virou médico. Noutro você tem uma vaca de estimação, e, no outro, você é o bicho de estimação da vaca, que é superinteligente. A ideia é que nenhuma versão cancela a outra. Todas coexistem, em paralelo, sem se encontrar, ao mesmo tempo. E que como há infinitas realidades, as possibilidades são infinitas, então tudo acontece, por menor que seja a chance. A regra de ouro, entretanto, é que essas realidades não se misturam (exemplo: não dá pra ser pet da vaca e ter a vaca de pet no mesmo mundo). Quer dizer, para a maioria das pessoas, mas não para Steven Seagal. Esse decidiu ser tudo nesse […]