Archibald’s Last Memory

Um abandonou o nome. O outro jamais existiu no mundo real. E um terceiro, fidalgo, foi executado. Todos eles, batizados de Archibald. Um nome que parece mais uma sina, dado destino de seus denominados.

O primeiro Archibald nasceu em Bristol, portando o aristocrático sobrenome de Leach. Virou ator de teatro, e depois se mudou para Hollywood. Mas para um jovem artista dos anos trinta nos Estados Unidos, Archibald Leach parecia antiquado e britânico demais. Assim, o estúdio que o descobriu – a Paramount – o rebatizou de Cary Grant. O Cary Grant.

O segundo Archibald é fictício, ainda que indiscutivelmente célebre. Achibald Haddock, o capitão Haddock, das Aventuras de Tin Tin. Este, em oposição a Cary Grant, encarnou, mesmo sem carne e osso, o arquétipo arquibaldesco e virou alcoólatra funcional e capitão. O que faz sentido, dado que nunca existiu de verdade, e podia ter qualquer característica atribuída a ele.

E gosta(va) de Loch Lomond

O último Archibald é o Campbell, marquês de Argyll, que se envolveu nas recorrentes disputas religiosas e políticas do século XVII contra a coroa inglesa. Como costuma acontecer com Archibalds que acreditam demais em suas convicções, acabou acusado de traição e foi executado em 1685. O que também é coerente com o nome.

Dada a sina, é compreensível que ninguém saiba ao certo porque o Archibald’s Last Memory, drink criado em 2010 no Flatiron Lounge de Nova Iorque, tenha esse nome. Não há registro claro de qual Archibald teria dado origem ao coquetel. Nenhuma dedicatória, nenhuma anedota de bar.

Mais impressionante que isso, ainda que o drink faça parte da história recente, sua autoria é também incerta. O mais provável é que tenha nascido das mãos de Ryan McGrale, bartender que trabalhou no Flatiron Lounge e depois abriu um bar em Boston, chamado Tavern Road. Lá, há um drink com os mesmos ingredientes, mas proporções um pouco distintas, chamado Down & Brown.

Flatiron Lounge

Independentemente da história, o Archibald’s Last Memory é, como o nome mesmo indica, memorável. É uma espécie de Sazerac ou La Louisiane, mas com o herbal pungente da Fernet Branca. Inclusive, seu serviço original – ao contrário do que fiz na foto – é feito em copo baixo, sem gelo. E por mais estranho que pareça, é um drink bem equilibrado.

Aqui, como sempre, a escolha do rye whiskey faz toda diferença. Este Cão optou pelo recém-chegado Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Tennessee Rye. Com seus 70% de centeio e 50% de graduação alcoólica, ele consegue enfrentar a intensidade da Fernet Branca sem problemas, e não é tão doce a ponto de deixar o licor de maraschino (no caso, Luxardo) e o Bénédictine se subressaírem.

Sem mais ressalvas, porém, vamos à receita. Seja qual for o Archibald referido, sua última memória foi, decerto agradável.

ARCHIBALD’S LAST MEMORY

INGREDIENTES

  • 60ml Rye Whiskey
  • 15ml Fernet Branca
  • 15ml Benedictine D.O.M.
  • 5ml licor de maraschino (Luxardo)
  • Parafernália para mexer
  • copo baixo ou taça

PREPARO

  • Adicione todos os ingredientes em um mixing glass com bastante gelo, mexa, e desça numa taça coupé ou copo baixo resfriado, sem gelo (a moda de um Sazerac)

*agradecimentos à Suemi Uemura por apresentar este coquetel por acaso, em um papo no balcão do Caledonia

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