Febre de Consumo – Dalmore 15 anos

Dalmore 15

Existem várias atividades que me proporcionam sentimentos conflitantes. Um deles é fazer exercício. Por mais que eu deteste qualquer tipo de esforço, sei que, para um Cão como eu, correr é essencial para a saúde. Além disso, tenho que admitir: depois de uns vinte minutos de trote rápido, a sensação é quase boa. Quase. Porque bom mesmo é tomar whisky e fumar charuto. Pensando bem, fazer exercício está, no máximo, no nível “recompensador” da escala de prazer deste Cão.

Outra dessas atividades é ir ao supermercado. Assim como correr, ir ao supermercado é uma obrigação inevitável. Inevitável principalmente quando a Sra. “Cã” Engarrafada, solicita, com a suavidade de uma voadora no rim, que eu compre mantimentos para nosso lar.

Pensando objetivamente, ir ao supermercado é um saco. Não há prazer nenhum em comprar litros de água sanitária, detergente e arroz agulhinha tipo um. Ou papel higiênico. Aliás, tenho um problema com isso. Sempre que passo o papel higiênico no caixa, entrego para a senhorinha com certo ar de vergonha. Eu sei que é perfeitamente normal se limpar. E que todo mundo faz isso, ou pelo menos deveria. Mas não consigo evitar esse sentimento de culpa infantil.

Heh...
Heh…

Mas às vezes, com um empurrãozinho do acaso, auxiliado pela completa ausência do meu senso de direção, encontro produtos incríveis. Recentemente, em uma das minhas incursões, tentando encontrar a prateleira do álcool gel, passei pela seção de bebidas. E lá estava um Dalmore 15 anos em promoção. O único. O último. O derradeiro. E por quase a metade do preço. Não que eu acredite em predestinação. Mas se eu acreditasse, teria certeza que aquele Dalmore estava predestinado a ser meu.

Para ser sincero, não sou apaixonado pelos Dalmore, e nem teria ligado para aquela garrafa se não estivesse tão barata. É que alguns whiskies da marca – especialmente os mais caros – são espetaculares, como, por exemplo, o Cigar Malt, elaborado com o objetivo de harmonizar com charutos. Outros, entretanto, são simplesmente regulares, como é o caso do caçula 12 anos. Mas considerando meu achado, não podia tomar qualquer outra atitude senão revisitar seu irmão mais velho, o Dalmore 15.

O Dalmore 15 anos é a segunda expressão do portfólio permanente da destilaria, que inclui o 12 anos, 15 anos, 18 anos, Cigar Malt e King Alexander III. Além destes, a Dalmore, assim como a Macallan, é conhecida por produzir edições limitadas exclusivíssimas e extremamente caras, como os whiskies da Constellation Collection (que variam entre duas mil e vinte mil libras). E eles tem material de sobra para isso. A Dalmore é uma das destilarias com estoque de barricas mais antigas da Escócia.

O Dalmore 15 anos é maturado exclusivamente em uma combinação de três diferentes tipos de barricas de ex-xerez – matusalem, apostoles e amoroso – o que confere a ele um sabor bastante pronunciado de especiarias, canela e frutas cristalizadas. Praticamente a desconstrução etílico-artística de um panetone. Só que panetone é ruim, e o Dalmore não.

Entre os prêmios conquistados recentemente pelo Dalmore 15 anos, estão duas medalhas de bronze na International Wine & Spirit Competition, nos anos de 2013 e 2014, e uma medalha de prata, na categoria de single malts com idade entre treze e vinte anos, pela International Spirits Challenge, em 2014.

No Brasil, um Dalmore 15 anos sai, em média, por R$ 300,00 (trezentos reais). E aí que está o problema. Não é que seja abusivamente caro, mas, por este preço, pode-se comprar um Glenfiddich 15 anos, ou qualquer uma das três expressões com finalização em barricas especiais da Glenmorangie (Lasanta, Nectar D’Or e Quinta Ruban).

Não é que o Dalmore 15 anos é ruim. Longe disso. É um whisky complexo, denso e muito equilibrado para seus quinze anos. Aliás, talvez mais equilibrado do que seus concorrentes acima. Mas é também um whisky com bem menos personalidade. Tipo o Capitão América. Certinho, mas meio sem graça também.

Putafaltadesacanagem!
Putafaltadesacanagem!

Em condições normais, o Dalmore 15 anos raramente seria minha primeira escolha de whisky na prateleira de uma loja. Mas se eu pudesse ter escolhido, não teria ido ao supermercado aquele dia. E, portanto, jamais teria encontrado aquela garrafa. Para falar a verdade, o Dalmore 15 anos é quase como ir ao supermercado ou praticar exercício. Eu só finjo que não gosto.

DALMORE 15 ANOS

Tipo: Single Malt 15 anos

Destilaria: Dalmore

Região: Higlands

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutas cristalizadas, um pouco de laranja e canela.

Sabor: Especiarias, canela e cravo da índia. Frutas secas. Leve sabor achocolatado. Final persistente e amargo.

Com água: o sabor de especiarias fica menos evidente, e um leve sabor de açúcar aparece. O final fica menos amargo, mas continua bastante longo.

Preço: Em torno de R$ 300,00 (trezentos reais)

11 thoughts on “Febre de Consumo – Dalmore 15 anos

  1. Dalmore 15 anos, um single espetacular. Aroma , sabor , densidade , cor . Enfim um nectar engarrafado.

  2. Olá Marcelo. Gostei da comparação entre o Dalmore 15 e a sua aversão à prática de exercícios rsrs. A sua percepção sobre o Dalmore 15 me atiçou a curiosidade e principalmente o desejo de experimentar este Single Malt com idade declarada. Recentemente adquiri um King Alexander III, seu irmão NAS e apreciei muito o paladar deste whisky. Por ser apaixonado por whiskies há pouco iniciei minha coleção particular e resolvi montar meu barzinho. Me identifico e aprecio deveras whiskies turfados, porém, no momento estou buscando novos horizontes na diversidade de prazeres dos Single Malts e o King Alexander III me fez descobrir uma nova dimensão neste universo. Vou seguir sua orientação e procurar o seu irmão 15 anos e espero gostar também. Continue a escrever! Leio muito seus textos que me inspiram e ajudam bastante na escolha de bons whiskies. Felicidades.

    1. Olá Edmilson! Que legal, o King Alexander é um excelente Dalmore. Aliás, talvez seja o melhor da linha, mas o preço o torna um pouco, diremos, restrito. Mas se você gostou dele, procure também o Glenfiddich 21 anos (finalizado em barricas de rum) e o Glenmorangie Signet (este não tem no brasil, mas usa “chocolate malt”, ou malte torrado, em sua composição). São whiskies menos ortodoxos, não defumados, e excelentes!

  3. Mais uma vez obrigado Maurício. Desculpe confundir seu nome anteriormente. Claro, o King Alexander III na minha opinião, é a estrela de quinta magnitude do mundo Single Malt na categoria dele. Na minha percepção achei um whisky muito frutado com toques de especiarias e um chocolate meio amargo no finish, porém muito equilibrado. Tomo sempre puro, ou seja sem adição de água. Por enquanto estou me preparando para adquirir um Laphroaig Quarter Cask, o Glenfiddich 21 anos vem na sequência (até porque o encontro aqui pertinho, vou inclusive verificar o preço…), talvez depois o Glenmorangie Signet quando uma parente for à Europa lá para o meio do ano. Não vou esquecer sua dica! Seus posts são uma biblioteca de conhecimento para mim. Felicidades!

  4. Bom dia, quanto ao Dalmore 18 anos, você indicaria? Quais são as características dele e qual o preço médio e justo para ele?
    Desde já agradeço, e devo ressaltar aqui que seu site é uma fonte inesgotável de bons textos e muitas informações úteis, gosto muito de sua forma de escrever. Forte abraço.

    1. Opa, tudo bem Oséias? Bom, o Dalmore 18 é uma versão mais puxada para o jerez (com mais característica vinica) e um pouco mais seco que o 15 anos. Voce provou o 15? Abraços

  5. Boa noite …!!!!!
    Eu pretendo comprar um whisky de um só malte para o meu marido que adora fumar charuto acompanhado de um bom whisky..!!! Gostaria de um conselho sobre qual comprar . Nada com um valor astronômico ainda (10.000,00 como vi por aí nas minhas pesquisas) mais quero um bom whisky de um só malte .

    1. Cairê, procure o Glenfiddich 12 anos, ou Singleton of Glen Ord 12 anos. São dois single malts de entrada com preço bom e boa qualidade.

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