Estamos em 2026, e você, provavelmente, já ouviu falar da teoria do multiverso. Eu falei dela aqui muito antes de ter sido sequestrada pela Marvel, e, assumo, tinha bem mais graça outrora. Mas é inevitável recorrer a esta analogia. A teoria do multiverso diz que existe um universo pra cada possibilidade, e que tudo acontece ao mesmo tempo em todo lugar (que, aliás, é mais ou menos o título de outro filme bem supervalorizado, na minha opinião impopular).
Mas, enfim, o que a teoria postula é que, em determinado universo, ou, dimensão, você virou médico. Noutro você tem uma vaca de estimação, e, no outro, você é o bicho de estimação da vaca, que é superinteligente. A ideia é que nenhuma versão cancela a outra. Todas coexistem, em paralelo, sem se encontrar, ao mesmo tempo. E que como há infinitas realidades, as possibilidades são infinitas, então tudo acontece, por menor que seja a chance.
A regra de ouro, entretanto, é que essas realidades não se misturam (exemplo: não dá pra ser pet da vaca e ter a vaca de pet no mesmo mundo). Quer dizer, para a maioria das pessoas, mas não para Steven Seagal. Esse decidiu ser tudo nesse nosso universo mesmo, no mesmo corpo, na mesma linha do tempo, totalmente alheio a qualquer barreira dimensional.
Seagal foi ator de ação dos anos 90, usava rabo de cavalo e parecia que tinha cheirado leite talhado. Ganhou muito dinheiro, depois faliu. Concomitantemente, foi acusado de uma quantidade impressionante de coisas. Virou cidadão russo por decreto pessoal de Putin, e, depois, embaixador cultural do Kremlin, para, finalmente, despontar como músico de blues e lançar um álbum chamado – maravilhosamente, se você me perguntar – Mojo Priest.
Mas o que torna sua história genuinamente perturbadora não é o caos. É que cada passo tem uma lógica interna torta que faz sentido individualmente. Não há nenhum leap of faith, a narrativa não quebrou, ela seguiu fluida. Até virar outra coisa completamente. E foi isso que, de uma outra forma, e finalmente no final deste quinto parágrafo, aconteceu justamente com o The Botanist Cask Aged Gin – que acabou de chegar ao Brasil pela Interfood, com seu irmão mais novo, o The Botanist Cask Rested Gin.
Imagino que você conheça a Bruichladdich. Mas, falemos dela. Ela é uma destilaria de whisky de Islay, que foi fundada em 1881. Passou muito tempo fechada, e depois foi revitalizada por Mark Reynier em 2001. Tornou-se um bastião da transparência no mundo do whisky, e expandiu as barreiras da técnica e do marketing com alguns de seus whiskies. Eles se autodenominam “Progressive Hebridean distillers”, sem nenhuma ironia detectável. São, também, os criadores de um dos whiskies que mais gostei de beber na vida: o MRC:01.
O The Botanist é o gim da Bruichladdich. Pelo parágrafo anterior, já dá pra imaginar que não é um produto tradicional, um London Dry qualquer. Ele é um gim criado para representar a filosofia de sua destilaria. Por isso, usa botânicos coletados à mão em Islay, e é destilado em um alambique especial, que procura ressaltar as características destes ingredientes e de sua matéria prima.
Envelhecer esse gim em algum barril é, assim, uma decisão que parece polêmica. Um produto perfeitamente acabado não precisaria de mais uma camada. Ademais, tradicionalmente, gins não maturam (nem IPAs, mas isso é outra discussão). Mas mesmo assim o The Botanist Cask Aged Gin faz todo sentido, porque ele não quebra a narrativa do The Botanist tradicional, mas, só adiciona mais um capítulo. Tipo o Mojo Priest.
O The Botanist Cask Aged Gin é, basicamente, o gim Botanist, mas maturado em diversos barris de carvalho por, no mínimo, três anos. Neste ponto, para uma destilaria que levanta a bandeira da transparência, a falta de informação é estranha. A destilaria afirma que “O Cask Aged passa no mínimo três anos em seis tipos diferentes de barris de carvalho americano”. Não diz se se foram previamente usadas para maturar Bruichladdich, tampouco a quantidade de usos destas barricas. Mas, pela lógica, devem ser refill (ou seja, receberam Bruichladdich uma vez, depois foram para a Botanist).
Algo intrigante, também, é a ausência do termo “dry” nos rótulos. O Botanist tradicional se denomina “dry gin”, mas, nas versões maturadas, a palavra foi omitida. O termo “dry gin” descreve um estilo de gin produzido sem adição de açúcar, aromatizantes ou corantes artificiais. A destilaria confirmou que não utiliza açúcar, xaropes ou corantes, mas optou por retirar a designação “dry”, talvez para evitar complicações legais, de acordo com as terminologias de diferentes mercados.
Por fim, vale uma nota sobre seu uso. Em exaustivos testes – alguém tem que fazer – este Cão percebeu, sem surpresa, que o The Botanist Cask Aged Gin funciona muito melhor em coquetéis que possuem variações que utilizam gim e bourbon (não no mesmo universo, Seagal!). Por exemplo, um Negroni ou Boulevardier, ou um Manhattan ou Martinez.
O The Botanist Cask Aged Gin é, portanto, um produto do multiverso que deu certo nesse universo mesmo. Não é whisky, não é mais bem um gim, não pede licença pra existir no meio termo. Como Seagal, ele seguiu sua lógica interna torta até o fim, e o resultado é algo que você não sabia que queria até ter na taça. A diferença, claro, é que o Mojo Priest não funciona num Negroni. Pelo menos não neste multiverso
THE BOTANIST CASK AGED GIN
Tipo – Dry Gin
ABV – 46%
Região: Islay
País: Escócia
NOTAS DE PROVA
Aroma: zimbro, limão siciliano, laranja lima, caramelo, jasmim.
Sabor: Menta, cítrico, com limão siciliano. Final médio, com alcaçuz, caramelo e pimenta.



