The Ansonia – Luxo e Ursos

Essa é mais uma daquelas vezes que a introdução já vem pronta. Em alguns parágrafos, desembocarei em um coquetel chamado Ansonia. Que, não por coincidência, é também o nome de um luxuoso prédio de apartamentos, erigido no Upper East Side de Nova Iorque, em 1904. Que por sua vez fora envisionado por William Earl Dodge Stokes, filho de banqueiros, herdeiro de uma fortuna, e com uma modéstia inexistente, típica de qualquer bon-vivant da Era Dourada.

A edificação contava com mais de mil e quatrocentos quartos e trezentas e quarenta suítes. Um emaranhado de tubos, alimentados por força pneumática, atravessavam as paredes, e podiam entregar cápsulas com mensagens entre moradores e equipe. Havia também um rústico sistema de ar-condicionado central, alimentado por um líquido salgado e gelado. No subsolo, ficava a maior piscina coberta do mundo, na época. E Stokes teria criado a própria empresa de elevadores, apenas para produzir aqueles que viajavam pelos fossos do Ansonia.

Mas a mais fascinante das comodidades não era nenhuma dessas. William tinha o sonho de que o prédio fosse auto-suficiente. Ou, ao menos, contribuisse para sua autossuficiência. Por isso, instalou uma fazenda na cobertura. Veja bem, não uma horta, com manjericão e umas PANCs. Uma fazenda mesmo, com quinhentas galinhas – cujos ovos frescos eram entregues aos moradores todas as manhãs – patos, seis cabras e um urso. Que, claramente, estava lá só para que alguém indagasse sobre ele, e normalizasse a existência de quinhentas aves granjeiras no topo de um edifício de luxo em Manhattan.

Durante sua existência, o Ansonia foi residência de muitos compositores – as duplas portas de mogno, perfeitas para acomodar pianos de cauda, talvez tivesse algo a ver com isso. Dentre elas, Igor Stravinsky, Sergei Rachmaninoff e Gustav Mahler. Também foi lar de personalidades do baseball, dentre elas, Babe Ruth. Com tamanha proeminência na silhueta urbana de Nova Iorque, seria até estranho que um coquetel não tivesse sido criado em sua homenagem.

O urso vivia bem

O Ansonia – líquido, não edificado – tem como base scotch whisky, e leva vermute, licor de maraschino e absinto. O drink foi criado em 1934 por Charles Cristopher, e figurou em seu livro “Pioneers of Mixing at Elite Bars“. A receita original, inclusive, não mencinava a tal fada verde, mas, sim, Ojen Bitters. Ocorre que o absinto fora banido dos Estados Unidos em 1930, e uma substituição que, sensorialmente, fazia sentido, era o tal bitter. Entretanto, a menção funcionava mais como um código entre bartenders. Mesmo durante o embargo ao ingrediente, a maioria ainda usava absinto.

Sensorialmente, o Ansionia lembra um cruzamento entre Sazerac e Rob Roy, com um certo aroma proeminente de cereja adocicada. E como um Rob Roy, faz todo sentido com um whisky moderadamente turfado, como o Johnnie Walker Double Black, ou, talvez, um Compass Box Peat Monster. Como em um Blood and Sand, a escolha do ingrediente base provavelmente demandará alguma mudança nos demais componentes. Este cão aconselha testar – sempre com moderação.

A receita do Ansonia transcrita abaixo é uma variação da original, que também figurou no Difford’s Guide. Mas, sinceramente, ela pode ser usada apenas como template. Um drink batizado em homenagem a um prédio de luxo que abrigava um urso em sua cobertura permite este tipo de criatividade.

THE ANSONIA

INGREDIENTES

  • 50ml Scotch Whisky (este Cão usou Johnnie Walker Double Black)
  • 15ml Vermute Tinto (Dolin, para todos os efeitos, mas, sinta-se livre para testar)
  • 7,5ml Luxardo Maraschino
  • 2,5ml Absinto (pode trocar por Pastis)

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em um mixing glass com bastante gelo
  2. misture e desça em uma taça coupé previamente resfriada
  3. decore com uma cereja em calda real, que nasceu como uma cereja real, e não como um chuchu.

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