Bruichladdich 18 anos Re/Define – Coming of Age

Eu acho que boa parte das decisões mais importantes da vida são feitas muito cedo, e o zênite disto é a profissão. Aos dezoito anos, mal sabemos escolher uma música sem, décadas depois, se envergonhar de ter em algum momento gostado daquilo. Ainda assim, somos demandados a definir aquilo que supostamente faremos pelo resto da vida.

E o problema é que gosto e habilidade parecem, nessa idade, provas suficientes. Jornalista gosta de escrever, advogado, de discutir, arquiteto, desenhar. É uma lógica elegante, intuitiva e insuficiente. Porque exercer uma profissão exige ferramentas que quase nunca se revelam antes da prática. Tipo resistência ao tédio, tolerância à burocracia, aptidão para lidar com pessoas, prazos, frustrações e com a mais triste e certeira decomposição de qualquer paixão quando ela se transforma em obrigação remunerada.

Trabalhe com o que gosta e nunca goste de mais nada.

Escolher uma profissão é um ato de ignorância. E não é, de forma alguma, mais embasado ou menos propenso ao erro do que qualquer outra escolha feita sem experimentar aquilo que se está escolhendo antes.

Da primeira vez que eu comprei um Bruichladdich, foi assim. Tamanha ignorância tinha, que imaginava que fosse defumado, somente por exibir “Islay” no rótulo. Era um Bruichladdich Links Valhalla. Alí, singelo, na prateleira de uma loja de São Paulo. Eu me lembro exatamente a situação e onde, e lembro-me inclusive do sentimento de triunfo de ter supostamente encontrado algo enfumaçado, que tanto estimava naquela época. E me recordo da desmedida decepção ao tomar o primeiro gole, e constatar que havia lá nem um traço de turfa.

E como todo susto causado por ignorância, a recuperação foi lenta. Meu segundo Bruichladdich foi diametralmente oposto, talvez numa tentativa inconsciente de aplacar o trauma. Um Octomore 5.2, numa viagem à Escócia. O terceiro não me recordo, mas, provavelmente fora algum Port Charlotte. Naquele momento, já tinha uma noção bem mais precisa do que aquela destilaria representava. E adoro até hoje, por mais que consiga, em parte, enxergar o marketing por trás da intenção.

E ainda que tivesse uma linha bem extensa fora do Brasil – com Octomore, Port Charlotte e Bruichladdich – a destilaria sempre foi bem econômica por aqui. O portfólio se resumiu, por muitos anos, a uma versão turfada e outra não. E nenhum Octomore, por impossibilidade burocrático-legal. Isso, agora, mudou um pouco, com a chegada do premiado Bruichladdich 18 anos. Oficialmente, pelas mãos da Rémy Cointreau, que controla a destilaria.

O Bruichladdich 18 anos que desembarcou no Brasil é o Re/Define. Isso é importante, porque outrora havia outra versão, numa garrafinha mais tradicional, com floreios dourados. O atual é diferente, inclusive, esteticamente, e é curioso começar a descrevê-lo por tudo aquilo que ele não tem. Por exemplo, não há rolha. Não da forma tradicional, e nem rosquinha. A vedação da garrafa é feita por uma espécie de stopper de vidro com uma borracha em volta. Para abri-la, é necessário empurrar de lado, o que é um pouquinho esquisito no começo, até pegar o jeito.

Ela não tem estojo, também. Nem caixa. O que ele tem é uma espécie de capa moldada de polpa de papel, reciclável, sem cola e sem plástico, que às vezes parece que veio incompleta, ou quebrada. É uma parceria com a James Copper, uma empresa inglesa de papéis especiais e embalagens premium, fundada em 1845, em Burneside, no condado de Cumbria, especializada em sustentabilidade.

Mas basta de ausência. Falemos, agora, sobre o que tem no Bruichladdich 18 anos. A começar, por sua maturação. O Bruichladdich 18 anos Re/Define é maturado integralmente em Islay, majoritariamente em barris ex-bourbon, com uma pequena participação de barris de vinho. Entre eles, Sauternes e Porto.

A Bruichladdich

Como todo Bruichladdich, nenhum corante caramelo foi envolvido na produção. O líquido tampouco passou por filtragem a frio de qualquer espécie. Além disso, a graduação alcoólica é de saudáveis 50%. A obsessão por transparência, ou, talvez, por transparecê-la, também está lá. De acordo com Adam Hannett “Este é um single malt de altíssima procedência. Cada elemento do Bruichladdich Eighteen — desde a colheita específica e as variedades de cevada utilizadas até os barris exatos em que maturou — é totalmente rastreável. O que, para um whisky desta idade, é simplesmente incrível.

O resultado é um whisky com barril muito bem dosado, e uma nota característica da destilaria, que quase remonta a queijo – resultado da fermentação. É indiscutivelmente complexo, e ainda que equilibrado, tem uma personalidade bem marcante. O final é médio, com mel e bolacha de manteiga, além de um certo apimentado seco muito interessante.

O Bruichladdich 18 anos Re/Define é caro, estranho, bonito, e tecnicamente impecável. Mas também é um whisky que exige um pouco mais do que gostar de whisky. Exige repertório, paciência e a disposição de aceitar que algumas coisas só fazem sentido depois que aprendemos a usá-las, lê-las ou bebê-las direito.

BRUICHLADDICH 18 RE/DEFINE

Tipo – Single Malt

ABV – 50%

Região: Islay

País: Escócia

NOTAS DE PROVA

Aroma: caramelo, baunilha, fermento, lácteo

Sabor: Frutado e equilibrado, que lentamente evolui para um sabor lácteo, fermentado. Final longo, seco e pouco apimentado

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