
Se você gosta de corridas de cavalos, ou se é fã de Hunter S. Thompson, há grandes chances de já ter ouvido falar do Kentucky Derby. De toda forma, deixe-me defini-lo aqui com uma autoparáfrase: o Kentucky Derby é provavelmente a mais famosa corrida de cavalos do mundo. O tempo rendeu-lhe o título de “os dois minutos mais emocionantes do esporte”. É a primeira das três provas que compõem a Tríplice Coroa, juntamente com o Preakness Stakes e o Belmont Stakes. Realizado em Louisville, Kentucky, o Derby é um festival de roupas extravagantes e indivíduos excêntricos. Chapéus vitorianos dividem espaço com fraques, monóculos e cartolas.”
O Kentucky Derby é, na verdade, uma espécie de festa à fantasia universitária, na qual todo mundo bebe loucamente e faz de tudo um pouco. Só que no Kentucky Derby também há cavalos. Muitos sustentam que os belos equinos são, na verdade, os protagonistas do espetáculo. Eu, no entanto, tenho minhas dúvidas. Afinal, o evento possui um coquetel oficial: o Mint Julep. O que sugere que os animais de grande porte estão lá apenas para justificar uma coisa ou outra.
Essa impressão fica ainda mais forte ao saber que a corrida possui também um bourbon oficial: o Woodford Reserve. Se você acha isso besteira, deixe-me apresentar alguns números. Durante os dois dias do Kentucky Oaks e do Kentucky Derby, mais de 125 mil Mint Juleps costumam ser consumidos em Churchill Downs. Em 2015, foram registrados nada menos que 127.341. É whiskey demais para uma simples corrida de cavalos.
A escolha do Woodford Reserve como bourbon oficial do Kentucky Derby não é casual. A marca ocupa o posto desde 1999 e, desde 2018, é também a patrocinadora que dá nome à corrida: oficialmente, Kentucky Derby presented by Woodford Reserve. Tanto o bourbon quanto o hipódromo pertencem ao imaginário do Kentucky. E, do ponto de vista corporativo, há ainda uma conveniente concentração alcoólica. A Woodford Reserve pertence à Brown-Forman, o mesmo grupo por trás de Jack Daniel’s e Old Forester.
A Woodford também ficou conhecida por lançar produtos capazes de parecer tradicionais e inovadores ao mesmo tempo. Talvez o melhor exemplo seja o Woodford Reserve Double Oaked, lançado em 2012, e que finalmente chega ao Brasil oficialmente, importado por sua matriz, justamente com o Woodford Reserve Rye.
O Double Oaked começa sua vida como o Woodford Reserve tradicional. Depois da primeira maturação, porém, o whiskey é transferido para uma segunda barrica nova de carvalho americano, profundamente tostada e apenas levemente carbonizada. É essa inversão de intensidade — muita tosta e pouca carbonização — que diferencia a segunda barrica daquela empregada normalmente no bourbon.
O resultado é uma amplificação das notas mais doces e tostadas do Woodford. Surgem caramelo escuro, baunilha, chocolate, castanhas, açúcar queimado e especiarias. Há até uma impressão vagamente enfumaçada, mas não à moda dos whiskies turfados.
O processo de finalização no mundo dos bourbon whiskeys não é algo exclusivo da Woodford Reserve. Porém, a inovação do Double Oaked está justamente em dispensar a influência de outra bebida. A segunda barrica também é virgem. A diferença não está no que ela guardou antes, mas na maneira como sua madeira foi preparada.
As barricas utilizadas pela Brown-Forman são produzidas internamente pelo grupo, em suas próprias tanoarias. Isso proporciona um controle bastante preciso sobre a seleção da madeira, a secagem das aduelas e os níveis de tosta e carbonização — fatores que, no caso do Double Oaked, são mais importantes do que qualquer cavalo de nome pomposo correndo em círculos.
A Woodford Reserve Distillery possui ainda a curiosa tradição de fermentar seu mosto por mais tempo do que o habitual. Enquanto muitas destilarias de bourbon encerram o processo em três ou quatro dias, a Woodford costuma prolongá-lo por aproximadamente seis. Esse tempo adicional favorece a formação de compostos aromáticos e ajuda a produzir o perfil frutado e condimentado característico da marca.
No Double Oaked, essa base já razoavelmente complexa recebe uma segunda e intensa dose de madeira. Pode parecer excessivo, e, de fato é. Mas, excesso é algo bem americano, e o Kentucky Derby é prova disso. Há chapéus, apostas, indivíduos vestidos como aristocratas e muito, muito Woodford Reserve. Ainda assim, dizem que o importante é a corrida. Deve ser verdade. Em algum momento, entre um Mint Julep e outro, certamente passa um cavalo.
WOODFORD RESERVE DOUBLE OAKED
Tipo: Bourbon
Marca: Woodford Reserve
Região: N/A
ABV: 43,2%
Notas de prova:
Aroma: Caramelo. Açúcar mascavo e baunilha.
Sabor: Calda de caramelo queimada. Pudim. Final longo, com caramelo e açúcar mascavo.


Como vai, mestre?
Ainda não cheguei no Woodford, mas ele sempre me chamou muito a atenção. Especialmente esta expressão.
Aproveitando a passagem por aqui, vc pode me dar um pequeno auxílio, por favor?
Estou pensando em seguir o seguinte rumo nos Single Malts de Islay:
Laphroaig Quarter Cask;
Port Charlotte;
Jura Prophecy;
Ardbeg (de novo e de novo haha).
Um bom plano? Alguma correção/ sugestão?
Abraço e obrigado!
Mestre, tudo bem? Lineup perfeito. Mas não sei se eu não inverteria o Prophecy com o Port Charlotte. O Prophecy é mais delicado, e fará um contraponto interessante com seu Quarter Cask (que estará acabando, imagino). O problema é depois. O Port Charlotte lembra um pouco o Ardbeg. Refresque minha memória. Talisker 10 já foi? Se não, faça algo como:
Laphroaig Quarter Cask;
Jura Prophecy;
Port Charlotte;
Talisker 10
Ardbeg (de novo e de novo haha).
Quando voce chegar no ponto do Talisker, terá a capacidade de pegar com muito mais facilidade as notas de fumaça, iodo e medicinais. A experiência fica bem mais bacana 🙂
Olá Mauricio.
Parece ser bem interessante esse Bourbon. Como já mencionei em outros comentários, não sou muito fã dos whiskies muito enfumaçados, mas fiquei animado em conhecer o resultado de todo esse processo de torta e tosta das barricas dessa expressão. Vou procurar em minha próxima visita ao Freeshop. Depois eu conto o que achei. Abraço.
Opa! Depois diga o que achou!
Grande Maurício,
Comprei esse whisky em questão e achei muito bom, superando minhas expectativas. Consegui notar uma boa diferença tomando-o com gelo e sem gelo (melhor).
Mas uma coisa me incomodou, sabe me dizer porque a garrafa não tem um dosador ? O bocal é muito largo ficando difícil controlar as doses dessa preciosidade.
Abraços
Fala meu caro, tudo bem?
Pois é. Na verdade o dosador é mais empregado aqui no Brasil, como uma forma de tornar a falsificação da bebida por transplante um pouco mais difícil. E o Woodford pelo jeito não foi considerado objeto de falsificação tão grande assim para receber o dosador. Outra coisa é que a identidade visual dele passa pela rolha de cortiça, então acho que a escolha foi não interferir muito nisso.
Existe uma espécie de bocal que conta as doses, você já viu? Se quiser, posto o link para voce.
Olá Maurício
Tenho uma dúvida, o woodford tem essa cor em razão da adição de corante de caramelo ou é em razão da torra dos barris ?
Jorge Barth
Opa, tudo bem Jorge? É por conta dos barris somente. Para ser um straight bourbon, não pode usar corante caramelo.
Woodford reserve, se puder compre pois vale a pena cada ml.
Para mim o melhor até hoje, simplesmente um néctar dos deuses em matéria de bourbon.
Se alguém conhecer outro da mesma qualidade ou superior indique.
Abcs