Especial de St Patrick’s – Irish Maid

Este é um post especial de St Patricks. Eu poderia falar, mais uma vez, de São Patrício. Comentar que ele é o padroeiro da Irlanda, e que o consumo de álcool durante as festividades em sua homenagem teve origem em uma restrição etílica no século dezessete. E depois falar tudo que o país tem de característico, como trevos, o Colin Farrell e uma dezena de escritores geniais. Mas, não vou fazer isso, porque já falei nos anos anteriores. Hoje, vou falar de pepino. Pepino, facilmente, é meu vegetal de dupla conotação preferido. Ele dá um pau na beringela e arregaça a cenoura em benefícios, versatilidade e sabor. Pepinos, por exemplo, te deixam hidratado. Eles possuem 96% de água, que é inclusive mais nutritiva do que água normal. Além disso, cotém um punhado de vitaminas. O vegetal cilíndrico é tão pica (ops) que você nem precisa comer ele. Colocar uma fatia na pele ou nos olhos ajuda a aliviar dores de queimaduras e olheiras. Além disso, ele fica uma delícia num sanduíche, com coalhada ou cream cheese. Em conseva, nem se fala. Introduza um pepino em conserva em seu sanduíche ou hambúrguer para uma versão muito melhorada do lanche. Naturalmente, com […]

A história da Glenfiddich – Família

Ter filhos é uma delícia, mas dá trabalho. Ao menos na idade dos cãezinhos, com seus oito e seis anos. Me disseram, entretanto, que depois piora. Dizem que os problemas vão crescendo junto com a pessoa. O que me parece apenas parcialmente coerente, porque, parei de crescer lá pelos quinze, mas meus problemas seguiram espichando, como se tomassem quantidades imprudentes de GH, até meus atuais trinta e oito. Mas, enfim. Tento ensiná-los, na medida do possível, sobre responsabilidade. Atribuo tarefas simples – limpar o quarto, arrumar um canto bagunçado da sala. Até às vezes me dou ao luxo de pedir alguma coisa por capricho. Ei, filhota, traz uma água com gás pro papai. Incumbências simples, cujo foco é mais didático do que, efetivamente, prático. Em outras palavras, sendo mais direto, não vou chegar pro meu filho de seis anos e falar “bicho, constrói aí uma casa no lote da vovó e depois mete dois alambiques lá“. Mas, foi justamente isso que William Grant fez, com seus nove filhos. William era gerente da Mortlach, outra famosa destilaria de Speyside, em meados de mil e oitocentos. Em 1886, decidiu abandonar sua posição, e começar sua própria destilaria. Economizou bastante dinheiro, e teve […]

Oscars 2023 – Relacionando filmes e Whisky

Este é um post sazonal. Para ler as edições passadas, de 2017 , 2018 e 2020 clique nos mencionados aqui. Todos somos, em algum nível, hedonistas. O que mais muda, é a espécie de prazer. Não sou muito de grandes festas. Nem de shows. E ainda que adore sair, tenho uma séria tendência à eremitania. Aliás, tive que abrir um bar para descobrir o quanto eu gosto de ficar em casa. E nesse clima, facilmente minhas atividades preferidas são beber e ver filmes. Daí que surgiu a primeira edição deste post. De minha necessidade de relacionar duas coisas que amo mas não tem relação direta. Quer dizer, médio. Provar um whisky novo é, de certa forma, como assistir um filme. Há uma abertura – seja ela metafórica ou física – que eleva, ou reduz, todas as expectativas. Já as primeiras imagens, assim como o aroma, indicam a atmosfera que encontraremos. E à medida que a história se desenrola e tomamos o primeiro gole, os pequenos detalhes aparecem. Referências, sentidos. Aroma e paladar em um, luz e som no outro. É quase complementar. A verdade é que a arte e a bebida têm mais em comum do que imaginamos. Ambas exigem paciência, dedicação e […]

6 perguntas para Luciana Lamas – Sócia da Lamas Destilaria

Publicado originalmente em 1969, o livro mais famoso de Mario Puzo permaneceu no topo dos Best-Sellers do New York Times por mais de um ano. Foram vendidas mais de dez milhões de cópias. A obra também deu origem a uma notável trilogia de filmes, que talvez você conheça. Eu nem preciso falar o nome, assistir é quase uma oferta que não se pode recusar. A dúvida de Michael em assumir os negócios da família é justificada. Especialmente porque envolvem traição, manipulação, chantagem e assassinato. Apesar disso, o rapaz parece ter um talento nato para o ramo, com frieza e calculismo. Tradição era a chave, mas a inovação trazida por Michael foi a que garantiu a sobrevivência de sua família num ramo bem pouco ortodoxo. No caso da Lamas Destilaria, fundada por Marcio Lamas em Minas Gerais, a transferência da batuta foi bem mais tranquila. Afinal, a natureza do negócio envolvia entusiastas de whisky, e não a máfia siciliana. Inobstante, há uma dificuldade latente. A de seguir com a tradição da destilaria, mas procurar sempre inovação. E é exatamente isso que vamos conhecer hoje. Nessa entrevista com Luciana Lamas, sócia da destilaria, vamos descobrir como a tradição familiar se mistura com […]

Wild Side – Film Noir

“eu não me importo em ter uma quantidade razoável de encrenca” disse Samuel Spade, o investigador vivido por Humphrey Bogart em O Falcão Maltes. Este filme, junto com “The Big Sleep”, foi o embrião do film noir. A receita, hoje, é conhecida – há um tênue cordão invisível que liga todos os elementos, e que se torna evidente apenas no momento final. Um assassinato misterioso. Um detetive ébrio e com problemas de sociabilização. Uma grande cidade, controlada por uma elite corrompida e gananciosa. E tudo de bom: medo, culpa, cinismo, paranoia, insegurança e desolação. Apesar do cenário macambúzio (vai lá investigar), há algo de reconfortante nos film noir. Gostamos de mistérios e soluções. Observar uma enorme conspiração ser cuidadosamente desvendada por um detetive resoluto – mesmo que tal perseverança às vezes tenha como combustível o álcool – é catártico. Do clássico americano Falcão Maltês ao coreano neo-hitchcockiano Decision to Leave. Vista do sofá, a quantidade razoável de encrenca é uma delícia. Eu, como um cinéfilo apaixonado pelos dois gêneros – noir e investigativo – também não me importo de ter uma quantidade razoável de encrenca. Ainda mais quando o objeto de minha investigação é líquido. E, quando recebi, sexta-feira pela […]

Drops – Benromach 40 anos

40 anos, first-fill, oloroso, cask strength. As palavras soam como um feitiço para qualquer entusiasta de whisky. A conjunção delas traz quase a certeza que se está diante de algo fora do comum. É o caso do Benromach 40 anos, recentemente provado por este Cão. Não há nada de ordinário a respeito do Benromach 40 anos. Ele é a expressão mais maturada da linha oficial da Benromach. É uma edição limitada anual, que rende pouco mais de mil garrafas por tiragem. No caso do 2021 – provado por este Cão – foram quatro décadas, desde 1982, maturando em barris de carvalho europeu de ex-jerez oloroso. A graduação alcoólica é também surpreendente – 57,1% – especialmente considerando sua idade. Scotch whiskies tendem a perder mais álcool do que água durante o processo de maturação. É o famoso angel’s share. Com essa perda, a graduação alcoolica vai se tornando mais baixa. Garantir um ABV alto depende de uma cuidadosa manutenção dos barris. Foram lançadas pouco mais de mil garrafas mundialmente do Benromach 40, em sua edição de 2021. Apesar da diminuta tiragem, o single malt ganhou prêmio de melhor whisky do mundo em 2022 pela San Fransicso World Spirits Competition. Em sua […]

Visita à Union – Leviatã

Criaturas mitológicas gigantes povoaram a imaginação humana desde tempos imemoriáveis. São a materialização do temor do desconhecido. Seja por mares jamais navegados ou terras nunca desbravadas. A lista é grande, e se alonga pela mitologia, folclore e literatura. Moby Dick, Kraken, Leviatã, Amarok (o lobo, não o carro). Em comum, seu tamanho gargantual, e a incredulidade de quem os supostamente viu em carne e osso. A Union Distillery, em Bento Gonçalves, talvez seja uma lenda destas, no folclore do whisky brasileiro. Uma destilaria enorme, instalada em um vale cheio de vinícolas, e capaz de rivalizar em tamanho e capacidade com algumas notáveis fábricas escocesas. Parece material de lendas. Mas, neste caso, por mais cafona que pareça esta introdução, é verdade. Desavisados que desconhecem a dimensão da Union surpreendem-se. Avisados, também. Vista por fora ou por dentro, a Union é um gigante. Ela produz em torno de 1,5 milhões e meio de litros por ano de single malt, com capacidade máxima de aproximadamente 3,5 milhões. Importante apontar que a Union possui duas destilarias. Uma menor – a primeira a ser construída – em Veranópolis. E uma maior em Bento Gonçalves. Foi esta que visitamos. A destilaria de Veranópolis não destila mais […]

Suburban Cocktail – Dos cavalos

Este é um daqueles posts cuja introdução já vem pronta. O Suburban Cocktail tem uma história tão legal, que é desnecessária qualquer digressão introdutória. Entretanto, em nome da coerencia narrativa, meu preâmbulo envolverá cavalos, investimentos em mineração e uma copiosa quantidade de álcool. Para entender de onde veio o coquetel, é preciso conhecer James Robert Keene. Um britânico expatriado, que se mudou com sua abastada família para os Estados Unidos, em 1852. Sua vida foi relativamente agitada. Keene começou como jornalista, mas abandonou a profissão para investir em mineração. A estratégia deu certo. Em pouco tempo, Robert possuía uma fortuna. Em pouco tempo, mas não por muito tempo. Perdeu tudo que tinha ao diversificar seus investimentos, focando em grãos. Entretanto, em 1884, ele fez um retorno extraordinário. Foi contratado pelo investidor William Havemeyer para gerenciar fundos de investimento. Naquele ponto, Keene já conhecia uma ou outra estratégia de manipulação do mercado – como por exemplo espalhar rumores sobre companhias para inflacionar o preço de suas ações. Logo recobrou sua notoriedade, e foi contratado pelo J. P. Morgan e Rockfeller para gerenciar seus fundos. Apesar de extremamente talentoso, Keene tornou-se notório não por seu trabalho com fundos de investimento. Mas, sim, […]

A História da Glenlivet – Dos Abacaxis

Este é o primeiro de uma série de posts eventuais sobre histórias de marcas de whisky. Quando outras matérias surgirem, você poderá acessá-las por aqui. Hoje fui ao supermercado e vi um abacaxi. Aliás, um não, vários. Pensei em comprar, mas achei caro. Dez reais. Gosto bastante de abacaxi, mas não tenho nenhum grande fascínio pela fruta. Porém, se eu vivesse na Europa do século dezoito, certamente teria uma opinião bem diferente. É que naquela época o abacaxi era considerado o supra (desculpem-me pela ambiguidade cretina hifenizada)-sumo do luxo. A mera presença da fruta exalava requinte. Muitas vezes, o abacaxi nem era comido – era apenas uma peça de decoração. E quem não podia comprar um, alugava. Mas tinha que tomar cuidado, porque era capaz de algum convidado comer a peça de decoração. O abacaxi se tornou tão desejado na Europa do século dezoito, que virou símbolo de hospitalidade. Tanto é que muitas mansões construídas naquela época exibiam esculturas de abacaxi na entrada, para dar as boas vindas a seus visitantes. O abacaxi figurou também em brasões, cabeceiras de cama e pratos de porcelana. Imaginem, então, o sucesso que um whisky com notas de abacaxi teria feito. Bom, e foi […]

A praga que fez o whisky um sucesso

“Vou ensinar um estorninho a repetir apenas “Mortimer”, e lho darei de presente, para manter sua raiva ativa“. Quando William Shakespeare pousou sua pluma para escrever a passagem acima, parte da obra Henrique IV, jamais teria aventado que causaria uma catástrofe aérea. Mas, por uma curiosa conjunção de coincidências, foi justamente o que ocorreu. Em Boston, quatro de outubro de 1960. A história, entretanto, começou bem antes, em 1860, com Eugene Schieffelin. Eugene era um ornitólogo, parte do American Acclimatization Society, um grupo cujo objetivo era introduzir flora e fauna européias nos Estados Unidos, por razões completamente malucas hoje em dia. Eugene era também apaixonado por Shakespeare. Tão apaixonado, que importou todas as aves citadas nas obras do bardo para os EUA. Corujas, cormorões, pardais e cotovias e as soltou pelo país. A maioria delas, entretanto, não prosperou. O clima era diferente, e a adaptação difícil. Uma, entretanto, logrou enorme sucesso. O estorninho.  Sucesso tamanho que teve consequências catastróficas. Eugene soltou em torno de 80 casais da ave no Central Park, em Nova York, em 1860. Hoje, estima-se que haja mais de dois milhões de estorninhos no país. E o que ele tem de bonitinho, tem de destruidor. Além de […]