Pete’s Word – Folk Music

Às vezes tudo que você precisa é de um pouquinho de tédio e nenhum planejamento. Meu sábado foi assim. Na sexta-feira, tinha corrido com tudo que precisava fazer só para ter agenda livre no fim de semana. Não achei que fosse dar certo. Nunca dá, porque sábado sempre aparece alguma desgraça de última hora, tipo acompanhar os filhos numa festa, arrumar alguma tralha em casa que quebrou ou visitar alguém que eu não quero visitar. Mas, acontece que dessa vez deu. E eu fiquei perdido. Com mais de oito horas livres, era como se uma enorme planície de possibilidades se estendesse à minha frente. Não tenho maturidade pra ter tempo livre. A felicidade é o cabresto. Decidi ver um filme, mas não tinha nada que eu queria ver. Comecei a assistir Inside Llewyn Davis pela décima vez. Esse filme deve ser o milionésimo roteiro inspirado por Homero, mas é um clássico. “tudo que você encosta vira merda, você é tipo o irmão idiota do rei Midas“. Sou meio assim. Mal Davis começou a cantar a música final, percebi que nem se visse todas as obras baseadas na Odisséia naquele dia, conseguiria vencer o tédio. Precisaria inventar outra coisa. Fiz o […]

6 whiskies para o dia dos pais

Na volta a gente compra. Não, você não pode usar o cachorro de montaria. Come de boca fechada. Deixa eu pensar um pouco se eu deixo (na vã esperança da crança esquecer o que pediu). Não é pra comer a pipoca que caiu no chão e a pomba bicou. Vai lá perguntar pra mamãe se pode. Continua essa malcriação que eu dirijo de volta pra casa a-go-ra. Assim como filhos, pais vem em diferentes tamanhos, formatos – mas geralmente esféricos ou ovais – e idades. Mas, algumas frases parecem ter sido imbuídas em suas mentes assim que nasce a primeira prole. Comigo foi meio assim. Num dia, criticava o Cão pai por reclamar quando voltada depois da meia-noite. No outro, tava de pijama e copo de whisky na mão às 21:30. Pais tem difernetes gostos, também. Ainda que alguns sejam relativamente universais. Dentre eles, whisky. Mesmo o pai que não bebe whisky, vai adorar receber whisky de presente. Deve ser um lance de autoafirmação da paternidade. Assim, essa lista é para você, querido casal, filho ou filha que ainda não decidiu o presente do papai. Ou para você, progenitor, que merece se auto-recompensar por praticamente gabaritar a prova da paternidade. […]

Highland Park 12 – Northman

Essa semana consegui finalmene separar três horas ininterruptas para assistir um filme que queria há algum tempo. The Northman, do Robert Eggers. Para quem não ouviu falar ainda, ele conta uma história bem conhecida. A de um jovem príncipe, que resolve vingar o brutal assassinato de seu pai – que, convenientemente, é o Rei – por seu tio. Um tio que usurpa o trono e subjuga sua mãe, a rainha. Se você começou a mentalmente cantarolar Hakuna Matata, está no caminho certo. A história é a de Hamlet, de Shakespeare, que também inspira O Rei Leão. Mas, assim como no Rei Leão, que subsititui os personagens shakespearianos por felinos e suricatos, há diferenças sensíveis na adaptação de Eggers. A elouquência elizabetana e psicologia sutil dão espaço para, bem, violência. Na verdade, violência brutal, flatulência, incesto, vísceras ao ar livre, suor, sujeira, vulcões, guardiões mortos-vivos de espadas lendárias e a Bjork sem olhos. Mas, incrivelmente, sem abrir mão da profundidade de seus pivôs. O príncipe Amleth – este é o nome de seu personagem principal, veja que coincidência – é regido pelo seu tempo. É a honra que motiva sua vingança, assim como Hamlet. O que muda, no entanto, é o […]

O Cão Geek – Fermentação no whisky

Para quem não sabe, sou advogado. Trabalhei por mais de dez anos em direito societário e financeiro. Então, digo com conhecimento de causa. Direito é chato. Na verdade, deixe-me ser mais específico. O Direito é aquela área de conhecimento capaz de tornar enfadonha até a mais instigante atividade. Fórmula 1 por exemplo. Tudo é empolgante: alta velocidade, competitividade, tecnologia de ponta. Mas o contrato de locação da pista é chato. Ninguém quer ler o contrato de locação da pista por puro prazer. Música também, não importa seu gosto. É uma enorme satisfação ver uma apresentação de seu artista ou compositor preferido, seja Arvo Paart, Korn, Maiara & Maraísa ou Lady Gaga. Mas, o contrato de cessão de direitos de imagem é chato. Se você discorda de mim, peço que responda de forma cândida. Quando foi a última vez que você leu tudo antes de clicar no quadradinho de “eu concordo com os termos do contrato” ao baixar algum software ou jogo, ou aderir a alguma promoção no shopping? Ninguém le os termos do contrato, e eu sei disso, porque por três anos, eu escrevi mais de vinte termos do contrato, e ninguém – nem meu chefe, que devia revisá-los – […]

(Ainda mais) quatro whiskies que fazem falta no Brasil

Esta é a terceira edição de um post sobre whiskies que fazem muita falta no Brasil. Para ler a primeira edição, clique aqui . Para a segunda, aqui. Miso Hungry. Se você gosta de documentários sobre comida, precisa ver Miso Hungry – que está disponível na Netflix. Ele acompanha as experiências gastronômicas de Craig Anderson no Japão. Craig é um diretor e produtor australiano viciado em junk food, que resolve fazer uma reeducação alimentar na terra do missô. Doze semanas comendo as mais variadas especialidades japonesas, na esperança de perder peso e melhorar a saúde. Sorte de Craig que rodízio japa é coisa de brasileiro. Mas enfim, durante suas explorações, Anderson descobre o natto. Se você não sabe, Natto é uma gosma, digo, um alimento tradicional japonês, feito de soja fermentada. O natto se tornou tradicional no Japão durante o período Kamakura (século 12). Ele é considerado um superalimento, por seus benefícios à saúde – possui vitamonas K, B6 e E, além de trazer um nível de saciedade fantástico. Sensorialmente, Natto tem aroma e sabor pungente, que remonta coisas deliciosas (not) como amônia, queijo velho e chulé. De longe, remonta a caldo de feijão sem tempero. A textura é pegajosa […]

Highland Park 18 – Deus Nórdico

Loki, Thor, Odin, Freya e o temido Ragnarok. Graças à Marvel, quase todo mundo sabe um pouquinho de mitologia nórdica hoje em dia. Quer dizer, ao menos as histórias publicáveis. Porque há uma meia dúzida delas que – graças ao bom senso – provavelmente não sairão dos livros de mitologia tão cedo. Tipo quando Loki engravidou de um garanhão gigante e pariu um cavalo de oito patas, que mais tarde virou montaria de Odin. Mas essa fica pra outro dia. Outra dessas histórias é a de Kvasir, um poeta e o mais sábio dos homens. Kvasir foi concebido durante uma festa em que dois grupos de deuses – os Aesir e Vanir – comemoravam um tratado de paz. Mas não do jeito ei deusa nórdica, vamos ali no banheiro da balada divina fazer um negócio. Kvasir se autoconcebeu de dentro de um barril, onde a festa inteira tinha cuspido um monte de amoras mastigadas. O cara literalmente foi filho da saliva divina. Seu nome, inclusive, significa justamente isso “suco de amora fermentado”. Apesar de seu nascimento um tanto escatológico – não que o nosso também não seja – Kvasir teve uma existência extraordinária. Durante sua vida, espalhou conhecimento ao redor […]

Toronto Cocktail – Gosto Adquirido

Na semana passada levei a Cãzinha para experimentar sushi pela primeira vez. Dei todas as coordenadas básicas, inclusive sobre como segurar o hashi. Notei, no entanto, que essa parte exigia uma certa prática, e pedi que o garçom a ajudasse. Isso foi até engraçado, porque ele trouxe um mini pikachu de borracha que, quando espetado nas partes baixas, fazia uma espécie de mola que segurava os palitinhos abertos. Mas, enfim, não é isso que importa. Mas papai, isso é bem esquisito, é arroz grudado com peixe cru, não é bom não. Levantei as sobrancelhas. Olha, cria, eu não tinha muito critério sobre o que comer quando era criança, mas, reconheço que eu também não gostei da primeira vez. E continuei. Acho que sushi é tipo anchovas, gorgonzola ou relacionamentos de longo prazo, é o que a gente chama de gosto adquirido. Se você insistir, vai passar a gostar tanto que até vai ficar com saudades. Ela acenou com a cabeça, fez plec-plec com os palitinhos presos pelo pokemon e pegou mais um hossomaki. Missão cumprida. Depois, fiquei pensando como é engraçado esse lance de gosto adquirido. Tem coisas que eu detestava. E hoje, até corro atrás pra comprar. Dizem que […]

The Macallan Harmony Collection Rich Cacao

Quando eu era criança, fazia uma porção de coisas bobas sem muito motivo. Não coisas grandes, tipo me arrebentar de boca depois de desafiar as leis da física numa bicicleta e tal. Mas, pequenas experiências. Como, por exemplo, sentar em cima da mão durante a aula, para retirá-la depois e perceber uma certa concavidade no derriére. Tentar empurrar todas as cores daquela caneta multicolorida. Ou enfiar um alfinete na pelinha do dedo, só pra ver ele pendurado. Ou, então, a clássica de colocar uma mão na bacia quente e outra na fria, e depois as duas na morna, para notar que a fria ficou mais quente que a quente. Ou algo assim. Para falar a verdade, quando a gente cresce, não deixa de fazer essas coisas. Quer dizer, essas coisas não, mas coisas bem parecidas. Faz parte de nossa natureza fazer experimentações. Algumas, meio inúteis e sem graça. Outras, maravilhosas. E como um entusiasta de whiskies e gastronomia, para mim, pouca coisa supera a harmonização de sabores. E é justamente aí que entra o The Macallan Harmony Collection: Rich Cacao – recente lançamento da The Macallan. O The Macallan Harmony Collection: Rich Cacao foi desenvolvido pela whisky maker Polly Logan, […]

Dia dos Namorados com Whisky – presentes e eventos

Eu não quero que você queira porque eu quero. Eu quero que você queira porque você quer de verdade. Foi assim que terminou uma discussão de aproximadamente cinco minutos entre eu e minha querida Cã. O quase trava-línguas, proferido por ela, não dava muito espaço para réplica. Não importava ter boas intenções, eu tinha que querer de verdade. A contenda começou com ela perguntando se eu queria sair pra jantar no dia dos namorados. Respondi, com toda minha pragmaticidade, que não. Que eu preferia demonstrar meu amor por ela por meio da gastronomia nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano – quando não tem fila e bacalhau pelo dobro do preço. “mas então a gente não vai comemorar?” indagou ela, já num tom inquisitivo. “Podemos, não quer que eu cozinhe?“. “Você cozinha quase todo dia. Aliás, seu presente tá comprado, e o meu?“ Meu silêncio me condenou. Faltavam ainda duas semanas pro dia dos namorados. Meu horizonte de planejamento de vinte e quatro horas não tinha chegado lá ainda. Acenei negativamente com a cabeça dei um sorrisinho doloso.” Acho que a gente podia ir naquele português que você ama, pensando bem.”. E foi aí, nesse momento, que […]

Arroz de frutos do mar com whisky

Recentemente viajei para Portugal com a Cã. A viagem foi bem legal, bebemos vinhos ótimos e conhecemos lugares maravilhosos. Mas o que a gente mais fez lá foi, seguramente, comer. E é engraçado, porque os portugueses tem a mesma obsessão culinária que eu – tudo que vem do mar. Deve estar impresso no código genético de alguma forma. Naturalmente, aproveitei para experimentar algumas coisinhas inéditas. Como, por exemplo, ligueirão – que é um bicho compridinho, que parece mexilhão de sabor e textura. E percebes, que além do nome curioso, é outro molusco estranho – visualmente, parecem várias mini-patas de triceratops. E, óbvio, lampréia, aquela sanguessuga enorme cheia de dentes. Que eles tradicionalmente fazem com um molho de vinho maravilhoso, para evitar que você pense que está a comer uma sanguessuga enorme cheia de dentes. Quando voltei para o Brasil, permaneci por algum tempo com a chavinha da obsessão ligada. E resolvi arriscar alguns pratos que havia provado lá. Dentre eles, um arroz de frutos do mar, que eu tenho apenas uma vaga lembrança do original, por motivos de vinhos do douro e do Porto. De toda forma, usurpei a memória que tinha e a adequei para minha habilidade culinária – […]