Highland Park 12 – Northman

Essa semana consegui finalmene separar três horas ininterruptas para assistir um filme que queria há algum tempo. The Northman, do Robert Eggers. Para quem não ouviu falar ainda, ele conta uma história bem conhecida. A de um jovem príncipe, que resolve vingar o brutal assassinato de seu pai – que, convenientemente, é o Rei – por seu tio. Um tio que usurpa o trono e subjuga sua mãe, a rainha. Se você começou a mentalmente cantarolar Hakuna Matata, está no caminho certo. A história é a de Hamlet, de Shakespeare, que também inspira O Rei Leão.

Mas, assim como no Rei Leão, que subsititui os personagens shakespearianos por felinos e suricatos, há diferenças sensíveis na adaptação de Eggers. A elouquência elizabetana e psicologia sutil dão espaço para, bem, violência. Na verdade, violência brutal, flatulência, incesto, vísceras ao ar livre, suor, sujeira, vulcões, guardiões mortos-vivos de espadas lendárias e a Bjork sem olhos. Mas, incrivelmente, sem abrir mão da profundidade de seus pivôs.

Dancer in the Dark

O príncipe Amleth – este é o nome de seu personagem principal, veja que coincidência – é regido pelo seu tempo. É a honra que motiva sua vingança, assim como Hamlet. O que muda, no entanto, é o significado da palavra. Honra, para um nobre elizabetano, talvez seja levar a cabo sua retaliação sem abrir mão do cavalheirismo. Para um viking, entretanto, é encarnar um lobo e enfrentar seus inimigos implacavelmente. Seja como for, para o leitor – ou espectador – a sastifação é parecida.

Recentemente, provei também um lançamento no Brasil. O Highland Park 12 anos Viking Honour. Aliás, a experiência entre o filme e o whisky teve um intervalo de menos de dez dias. Assim, era inevitável que fizesse essa associação com o nome. Viking Honour. Não notei no whisky nenhum sabor de morte, raiva, destruição, fluidos corporais ou lava. Tá, lava talvez um pouquinho. Aliás, a brutalidade passou longe da garrafa deste single malt. O que encontrei foi mais Hamlet do que Amleth.

O Highland Park 12 Viking Honour faz parte da linha permanente da Highland Park, localizada na ilha de Orkney – que fora, há muito tempo, habitada pelos vikings. O lugar é inclusive referenciado em The Northman em um momento crucial do filme – sem spoilers aqui. Orkney também é lar de outra famosa destilaria, a Scapa, que possui perfil sensorial quase diametralmente oposto àquele mais conhecido da Highland Park. Curiosamente, ambas fazem parte da mesma região de acordo com a SWA – as Highlands. Mas vamos deixar essa digressão para outro momento.

A Highland Park utiliza 20% de malte turfado em seus whiskies. Este malte é produzido na própria Highland Park, utilizando turfa de Orkney. Isso é uma maravilha para um whisky geek: turfas com diferentes origens possuem composições diferentes, e podem trazer sabores diferentes ao whisky. A turfa de Islay, por exemplo, provém de vegetação marítima, e é bastante iodada. A de Orkney, entretanto, é composta quase exclusivamente de fungos e vegetação rasteira. Isso traz ao malte defumado um incomum um aroma floral. É interessante notar, entretanto, que o nível fenólico no new-make é inferior a 3ppm a 70% de graduação alcoolica.

Barris da Highland Park

A maturação do Highland Park 12 ocorre em barricas de carvalho americano e de carvalho europeu, ambas que foram temperadas com vinho jerez espanhol da Gonzales-Byass, feito sob medida para a destilaria. A política de barricas é igual àquela da The Macallan, que, convenientemente, pertence ao Edrington Group. A qualidade das barricas é notável, assim como o fino equilíbrio entre elas e o new-make.

Sensorialmente, o Highland Park 12 é adocicado e frutado, com uma nota enfumaçada seca, pouco predominante. Este parece ser o caso com todos os whiskies da Highland Park, até mesmo os mais alcoolicos. A força bruta viking dá espaço para sofisticação e equilíbrio. Como disse, mais Hamlet do que Amleth. E este, na verdade, é o maior mérito. É muito difícil equilibrar turfa e influência vínica. E a Highland Park faz isso magistralmente.

O Highland Park 12 anos chegou ao Brasil no começo de junho sem muito alarde, acompanhado de seu irmão mais velho, o 18 anos. Foram poucas garrafas, de um lote que talvez não se repita. É uma pena. Highland Park é um dos mais incríveis exemplos de whiskies enfumaçados e vínicos, um perfil sensorial quase inexistente por aqui. Assim, se você, como este Cão, adora este estilo, vá atrás de uma garrafa. Pode encarnar o viking, mas sem vísceras, suor, sangue ou fogo. Só corra.

HIGHLAND PARK 12 ANOS VIKING HONOUR

Tipo: Single Malt

Destilaria: Highland Park

País: Escócia – Highlands

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: enfumaçado e frutado, com ameixa e baunilha.

Sabor: compota de frutas, adocicado e enfumaçado. Final longo e oleoso, com um pouco de fumaça e frutas vermelhas.

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