(Ainda mais) quatro whiskies que fazem falta no Brasil

Esta é a terceira edição de um post sobre whiskies que fazem muita falta no Brasil. Para ler a primeira edição, clique aqui . Para a segunda, aqui.


Miso Hungry. Se você gosta de documentários sobre comida, precisa ver Miso Hungry – que está disponível na Netflix. Ele acompanha as experiências gastronômicas de Craig Anderson no Japão. Craig é um diretor e produtor australiano viciado em junk food, que resolve fazer uma reeducação alimentar na terra do missô. Doze semanas comendo as mais variadas especialidades japonesas, na esperança de perder peso e melhorar a saúde. Sorte de Craig que rodízio japa é coisa de brasileiro.

Mas enfim, durante suas explorações, Anderson descobre o natto. Se você não sabe, Natto é uma gosma, digo, um alimento tradicional japonês, feito de soja fermentada. O natto se tornou tradicional no Japão durante o período Kamakura (século 12). Ele é considerado um superalimento, por seus benefícios à saúde – possui vitamonas K, B6 e E, além de trazer um nível de saciedade fantástico.

Sensorialmente, Natto tem aroma e sabor pungente, que remonta coisas deliciosas (not) como amônia, queijo velho e chulé. De longe, remonta a caldo de feijão sem tempero. A textura é pegajosa e mucosa, com uns pedacinhos mais duros que os demais. Inclusive – curiosidade aleatória – você não pode entrar em uma loja de queijos ou iogurtes no Japão depois de ter comido natto, porque a cultura de fungos do alimento pode interferir na dos laticínios.

Nham.

Eu sei de tudo isso porque, mal acabei de ver o documentário, corri pra pesquisar onde tinha Natto. E descobri – decepcionado – que o Brasil não era muito fã da mistura. Custei a encontrar um restaurante que tinha. Achei, pedi uma porção de vezes, saiu do cardápio. Provavelmente eu era um dos únicos que pedia aquilo. Me conformei que natto jamais seria um vedete de minha dieta. Tipo Lagavulin – um whisky que amo, mas que só consigo comprar fora de nosso país. E aí, como tudo é whisky, resolvi fazer uma lista de outros quatro que todo mundo sente falta, mas que não vêm de jeito nenhum.

Antes de tudo, preciso acertar o tom. Eu sei que não é nada fácil importar whiskies para o Brasil. Há infinitos percalços, analises laboratoriais, documentos, certificados, licenças. Aliás, eu aposto que seria mais fácil trazer oficialmente um míssil Exocet do que uma garrafa de algum cask strength. A turma da receita diria “ah, tudo bem, é só uma ogiva antinaval, o que de pior pode acontecer? Afundarem o Minas Gerais?”. Mas cask strength não. Cask strength “é alcool demais, vocês podem ficar bêbados, melhor atrapalhar esse rolê errado“.

Recolhendo a língua bífida (mas nem tanto), vamos a (ainda mais quatro) whiskies que fazem muita falta por aqui. Pelo menos pra mim.

Glendronach

Desde que abri o bar Caledonia, não há uma única semana que passe sem que alguém apareça por lá procurando um Glendronach. No começo, ficava até meio incomodado de dizer que não tinha. O tempo, entretanto, fez crescer em mim um sentimento sádico meio inexplicável. Me regojizo em ver os olhos brilhantes do cliente ficarem opacos e perderem a vida quando digo “não vem, não tem nem previsão, vai ter que viajar pra comprar. Aproveita e bebe Lagavulin, que não vem também“.

Um dia eu ainda vou fazer alguem chorar porque não tem Glendronach. Neste dia, meu coração terá finalmente terminado seu processo de virar uma ameixa seca. Será ótimo, porque jamais terei outra decepção na vida. Obrigado, Glendronach, por me transformar em uma pedra do mal.

Four Roses

Eu consigo entender a falta de alguns whiskies no Brasil, especialmente americanos. Tem que ser mais doido que um ratel, vulgo texugo do mel, pra resolver vender Pappy Van Winkle por aqui. Uma garrafinha custaria fácil mais de três mil pratas. Mas não é o caso de Four Roses. Four Roses, especialmente seu bourbon de entrada, é ridiculamente barato. Na minha ébria conta, uma garrafa não ultrapassaria os cento e sessenta reais na prateleira da loja.

A Four Roses tem duas mashbills diferentes. Uma “high-rye”, com 35% de centeio e 60% de milho e outra com 20% de centeio e 75% de milho. Que, convenhamos, também tem bastante do grão apimentado. Isso o tornaria um dos únicos high-rye bourbons de nosso mercado, e uma excelente opção para coquetéis clássicos como o Manhattan.

Mas, infelizmente, ele não vem pro Brasil. A Four Roses pertence à Kirin Brewing Company, que você deve conhecer por causa da enorme fusão entre ela e a Schincariol, em 2011. A subsidiária brasileira, Brasil Kiirin, mais tarde foi vendida para a Heineken, em 2017 por 704 milhões de dólares. Muito dinheiro, muito milho, mas nada de whisky.

Nikka

A Nikka é a segunda maior produtora de whiskies japoneses. As principais destilarias são Miyagikyo e Yoichi. Seus blends mais famosos são Taketsuru e Gold & Gold, que talvez você conheça pela versão exclusiva de duty-free, que usa uma distintiva armadura e samurai.

Para ser justo, não é como se eles nunca tivessem tentado. A Nikka já foi importada para o Brasil em algum momento nos últimos trinta anos. Para os que acompanham, não é incomum ver em algum leilão um “Super” ou um “Old Nikka”. Espólios de uma época que provavelmente as importadoras eram mais destemidas. Ou a economia era melhor. Só espero que, algum dia, com o número crescente de entusiastas da melhor bebida do mundo, estas belezinhas possam voltar para cá.

Atualmente, a Nikka pertence à Asahi – aquela mesma, da cerveja prateadinha. Além dela, eles tem Pilsner Urquell e Peroni. Se você gosta de cerveja, não deixe de provar a primeira. E não esqueça de não provar a segunda. Além disso, têm também uma marca de cafés prontos chamada Wonda e uma linha de comidas de bebe nomeada Wakodo. Cervejeiros, cafeólatras e recem-nascidos estão bem servidos com a Asahi. Mas a gente, que gosta de whisky, vai ficar que nem o cliente-alvo da papinha: chupando dedo.

Redbreast (ou qualquer irlandês)

Uma vez, uma cliente me ligou lá no bar pedindo uma degustação de whiskies irlandeses, com cinco variedades. Topei, na hora. Era a primeira vez que faria algo do tipo. No orçamento, mandei Jameson, Jameson IPA, Jameson, Jameson IPA e – finalmente – Jameson. Que na real não é muito diferente do Jameson IPA. Eu acho que ela não gostou da piadinha, porque jamais respondeu.

Mas, infelizmente, é isso aí. O único whisky irlandês a desembarcar no Brasil é o Jameson. Com dois rótulos: o clássico e o finalizado em barricas que antes contiveram cerveja IPA. Tudo certo, por enquanto. São excelentes custo-benefício. Funcionam bem puros e maravilhosamente em coquetéis. Um de meus drinks preferidos do Caledonia, inclusive, é dele: o King James.

Mas, às vezes, a gente sente falta de mudar. A categoria de whiskies irlandeses cresceu monstruosamente nos últimos anos. E há uma variedade sensorial incrível também. De defumados como Coonemara a vínicos como Redbreast. Pra vir pro Brasil, sinceramente, podia ser qualquer irish – Bushmills, Teeling, Midleton, Writer’s Tears, Tullamore Dew. Só coloquei Redbreast no título porque amo.

É uma tristeza. Vou até tomar um irish para alegrar. Bebo Jameson ou Jameson?

One thought on “(Ainda mais) quatro whiskies que fazem falta no Brasil

  1. O glendronach faz uma falta lascada mesmo… as vezes acho no mercado livre e rezo para não ter sido feito pelos hermanos…

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