The Botanist Gin – Spinoff

Quando eu era adolescente, eu via bastante televisão. Aliás, talvez a única coisa que eu fazia mais do que ver TV fosse comer. Mesmo porque dava para comer vendo TV. Assumo que o hábito de passar horas na frente da tela com um pacote de bolacha recheada e um balde de coca-cola normal do meu lado não era nada saudável. E provavelmente não ajudou muito na construção de relações interpessoais durante meus anos áureos. Mas, por outro lado, fomentou meu interesse por cinema e, indiretamente, literatura.

Uma das séries que mais gostava de assistir era Friends. Friends certamente não era um expoente da alta cultura, mas foi uma febre durante minha adolescência. A série durou dez temporadas – uma expectativa de vida quase impensável para qualquer show televisivo de hoje em dia – e terminou bem onde deveria. Na transição da pós-adolescência para a vida adulta, onde a comédia, a esperança e o sonho perdem território para, bem, deixa pra lá. Mas Friends possui uma mancha em sua alva reputação. Um spin-off, lançado pouco tempo depois, e entitulado singelamente de Joey.

O que foge à minha lógica é como alguém poderia achar aquela uma boa ideia. Acompanhar Joey Tribbiani em sua jornada para tentar se tornar um ator consagrado. Quero dizer, como disse a Rolling Stone uma vez, seria melhor acompanhar a Phoebe em seu Central Perk. Ou a Rachel e o Ross em sua vida de casados, criando seus filhos. Afinal, a vida em casal com filhos proporciona muitas oportunidades tragicômicas. E, como era de se esperar, a série fracassou.

Já sei, e se a gente fizesse a mesma série, só que dez anos depois?
Este é o grande problema de spin-offs. O grande sucesso de algo não garante que seu derivado seja amado. É um risco que se corre. Aliás, eu diria que um risco até maior, porque envolve a reputação também de algo que já tem sua boa-fama consolidada. Mas foi justamente isso que a Bruichladdich, uma das mais conhecidas, respeitadas e inovadoras destilarias de whisky da Escócia fez, ao lançar um gim. O Botanist. Só que, ao contrário de Friends e Joey, o Spin-off deu certo.

A destilação do Botanist acontece em um incomum alambique – que fora recuperado da destilaria Inverleven – e conhecido como Lomond, e carinhosamente apelidado pelos funcionários da destilaria de “Ugly Bett” (Bete, a Feia). O apelido, que se refere à pouco atrativa aparência do equipamento não poderia ser mais preciso. O alambique é bem feio. Tão feio que o escritor escocês Tom Morton o descreveu em seu livro “Spirit of Adventure” como “uma lixeira gigante, de ponta cabeça, feita de cobre“.

Apesar de estarem bem lá embaixo na escala estética de equipamentos pesados, os Lomond são muito eficientes. Eles foram projetados por um senhor chamado Alastair Cunningham em 1955, como uma espécie de híbrido entre um destilador de coluna e um alambique de cobre. Seu pescoço possui placas de cobre, que podem ser retiradas ou adicionadas, para simular um pescoço mais curto ou mais longo de um alambique tradicional. E a seção superior poderia ser facilmente alterada, imitando diferentes inclinações de braço do destilador. Isso permite produzir diferentes perfis de destilado utilizando somente um alambique.

Bete

O Botanist leva 31 botânicos diferentes, sendo 22 deles nativos da ilha de Islay. São eles – e não vou me arriscar a traduzi-los para não passar ridículo: angelica root, apple mint, birch leaves, bog myrtle leaves, cassia bark, chamomile, cinnamon bark, coriander seed, creeping thistle flowers, elder flowers, gorse flowers, heather flowers, hawthorn flowers, juniper berries, lardy’s bedstraw flowers, lemon balm, lemon peel, liquorice root, meadow sweet, orange peel, oris root, peppermint leaves, mugwort leaves, red clover flowers,tansy, thyme leaves, water mint leaves, white clover, wood sage leaves.

A Bruichladdich é uma das destilarias mais inventivas de toda Escócia. Talvez por isso se auto intitulem “Progressive Hebridean Distillers” –algo como “Destiladores Progressistas das Hébridas”. Isso fica claro ao observarmos seu enorme portfólio. Além do Botanist, a destilaria produz três linhas de whisky. Uma é razoavelmente defumada; outra, sem nenhuma defumação e uma terceira absurdamente defumada – Octomore.

O Botanist é um gim seco, com aroma e sabor herbal bastante pronunciados. Apesar da miríade de botânicos, a impressão deste Cão é que se sobressaem os aromas refrescantes de menta e cítricos. Aliás, é aí é que está seu frágil equilíbrio – a força do zimbro é contrastada pelo aroma herbal da menta e laranja, que – em conjunto com os demais botânicos – lhe proporcionam uma complexidade incrível.

Se você gosta de gins encorpados, complexos e com personalidade, ou se apenas está curiosíssimo para saber como é um gim produzido por uma destilaria de whisky, experimente o Botanist. Este sim, é um spin-off que merce muita audiência.

THE BOTANIST ISLAY DRY GIN

Tipo – Dry Gin

ABV – 46%

Região: Islay

País: Escócia

NOTAS DE PROVA

Aroma: zimbro, limão siciliano, laranja lima. Há um aroma floral bastante intenso.

Sabor: Menta, cítrico, com limão siciliano. Final médio, com alcaçuz e bastante floral.

3 thoughts on “The Botanist Gin – Spinoff

  1. Como vai, mestre? Sabe, gosto bastante de Friends, mas sou um tanto cético em relação a spin-offs de um modo geral. Embora não aprecie bebidas fermentadas, sou um grande fã de destilados, o que suponho que o senhor já tenho reparado hahaha e, portanto, achei este Gin interessantíssimo. Bruichladdich sempre faz um excelente trabalho, haja visto o que ela conseguiu fazer com o Port Charlotte.

    Abraço!

    1. Hahaha, somos dois, mestre!

      Pois é, acho a Bruichladdich uma das destilarias mais competentes da Escócia. Os caras são demais!

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