Drink do Cão – Blackthorne

Às vezes as coisas precisam apenas ser resgatadas para alcançarem o sucesso. Foi o que pensei, após assistir o filme The Disaster Artist, dirigido pelo ator James Franco. The Disaster Artist conta a história de outro filme, por muitos considerado o pior do mundo. The Room, escrito e dirigido por um curioso indivíduo chamado Tommy Wiseau. O filme de Franco – que é bem legal – me deixou genuinamente curioso para assistir àquele de Wiseau. E eu não fui o único. A internet está povoada de relatos de pessoas que viram este depois daquele.

E olha, eu não poderia afirmar que The Room é o pior filme do mundo, porque eu não vi todos os filmes do mundo. Mas vou te garantir que ele é bem ruim. A pior parte é o roteiro. O roteiro não faz o menor sentido. Sabe, a próxima informação que vou passar vai parecer meio aleatória. Mas enfim. Aqui em casa a gente tem um gato, e às vezes eu noto que ele me olha meio angustiado quando estou fazendo algo que ele não entende a razão, como tomando banho ou escovando os dentes. Acho que se o gato em algum momento ficasse mais inteligente e resolvesse dirigir um filme, ele provavelmente faria algo como The Room ao tentar reproduzir o comportamento humano.

Um panda gorfando um arco-íris em um soldado. Faz mais sentido do que The Room.

De certa forma, eu já esperava uma película desastrosa, mas também achava que poderia haver alguma qualidade redentora. Não há. Tudo é horrível. Mas não para os padrões normais de horrível. The Room é horrível especial. Tão ruim que apesar de seu fracasso de bilheteria, anos mais tarde, ganhou status de “cult”. Em boa parte, por conta da internet, que se regojiza com qualquer coisa inacreditavelmente ruim, e do filme de James Franco. The Room foi resgatado do oblívio – onde, aliás, ele deveria ter ficado – e tornou-se um ícone trash.

Algo bem parecido aconteceu com um coquetel. O Blackthorne. Sua primeira aparição foi em 1900, no Bartender’s Manual de Harry Johnson. Depois, o drink figurou também no livro Cocktails, How to Mix Them, de Robert Vermeire, publicado em 1922. A receita do Blackthorne – que naquela época se chamava Blackthorn, sem o elegante “e” no final – de Johnson e Vermeire levava partes iguais de vermute e whiskey irlandês, além de dashes (sacodidelas) de absinto e bitters. Um coquetel desinteressante e desequilibrado, fadado ao esquecimento.

Porém, Gary Regan, em seu The Joy of Mixology de 2003 resolveu resgatar o drink. E com duas alterações relativamente simples, o transformou em um que merece lembrança. Regan aumentou a proporção de whiskey irlandês – de forma que a base se sobressaísse um pouco mais – e substituiu os dashes de absinto por um wash da taça. Aproximando-o de algo conhecido – um Manhattan – Regan garantiu sobrevida ao marginalizado Blackthorn. Que  ainda ganhou um “e” no final para ficar mais charmoso.

Ficou bom, né Tommy?

Há um fenômeno curioso sobre o coquetel, que deixei de mencionar antes. Ele possui um homônimo que leva Sloe Gin e bitters de laranja. O que faz bastante sentido para o nome, já que o fruto da árvore blackthorn (em português abrunheiro) é utilizado na produção de sloe gin. Porém, para evitar confusão, muitos se referem ao Blackthorn de whiskey como Irish Blackthorn(e), enquanto o coquetel de gim é referido como English Blackthorn.

A receita do Blackthorne possui ainda uma série de variações. Como, por exemplo, a do Difford’s Guide, que muda as proporções da receita de Regan, emprega bitters Boker’s e dois vermutes diferentes – um seco e um tinto. O que, na opinião deste canídeo, é uma ideia excelente. Essa alteração traz ao coquetel mais frescor, e o coloca mais alguns passos longe do Manhattan, contribuindo para que tenha uma identidade própria. O Bartender Paulo Cesar Corghis, que me apresentou o coquetel, inclusive, utiliza apenas vermute seco.

Assim, caros leitores, abram seus caderninhos mentais em uma página em branco, para não esquecer jamais. Este é o Blackthorne, primo irlandês do Manhattan, salvo da desmemória para tornar as coisas um pouco melhores. Quer dizer, ao menos aquelas que merecem ser resgatadas.

BLACKTHORNE

INGREDIENTES

  • 2 doses de Irish Whiskey (no Brasil, o único que temos é o Jameson. Pode ir sem medo, funciona muito bem).
  • 1 dose de Vermute tinto (ou 1/2 dose de vermute tinto e 1/2 dose de vermute seco. Vide nota na parte do preparo)
  • 3 dashes de Angostura Bitters
  • Licor de Absinto para untar a taça.
  • Toda parafernália que você já conhece (mixing glass, bailarina, taça coupé ou de martini, gelo. Claro, gelo)

PREPARO

  1. Unte a taça de martini com o licor de absinto. Tome cuidado para não exagerar. O absinto poderá facilmente sobrepujar alguns dos aromas do coquetel. Descarte o excesso (ou beba, eu já fiz isso, eu sei que você também quer fazer).
  2. Adicione, em um mixing glass, gelo, o Irish Whiskey, o vermute* e a angostura. Mexa até resfriar e desça na taça, coando o gelo.
  3. Pronto. Beba assistindo a um bom filme. E não, bebê-lo ao ver The Room não melhora a experiência.

* Se você achar que o coquetel está muito puxado para o vermute, ou muito doce, tente substituir metade da dose por um vermute branco seco, como Noilly Prat. Isso fará com que o Irish Whiskey se sobressaia um pouco mais, e adicionará uma nota herbal bem interessante ao Blackthorne. Há uma variação, inclusive, que utiliza apenas vermute seco, da Cocktail Larousse.

8 thoughts on “Drink do Cão – Blackthorne

    1. Zé augusto, funciona Okey. Se não tiver absinto ou licor de absinto eu recomendaria usar algumas gotas de Peychaud’s Bitters. Ou um pouco de Pernod. Ou Ricard. Ou – se tudo mais falhar – um arak mesmo. Não vai ficar a mesma coisa, mas vai dar o aroma floral do anis.

      Se não tiver nada disso, manda bala sem. Vai ficar um manhattan suave.

  1. Como havia citado anteriormente, Jameson se sai muito bem na coquetelaria, não é mesmo, mestre?
    Me parece um excelente drink.
    Abraço!

    1. Heleomar, mande algumas fotos da sua garrafa para o email ocaoengarrafado@gmail.com , por favor. Seria preciso avaliar o nível da bebida, qualidade do lacre e estado de conservação do rótulo, entre outras coisas. Abraços!

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