Da Alegria e Escuridão – Macallan Oscuro

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Sabe, sempre fui uma criatura das sombras. Apesar de não ser um notívago, algo na noite sempre me atraiu. Talvez fosse seu silêncio, ou sua calma. Ou a falta de obrigações. Não, acho que não. Provavelmente é a sensação de melancolia trazida por aquele horário do dia.

Faz sentido quando penso que meu livro preferido, por muito tempo, foi Memórias do Subsolo, de Dostoievski e uma das minhas obras clássicas mais caras, a Sinfonia nº 3 de Gorecki. Ambas, obras que ilustram a queda e a total ausência de esperança, em um tom taciturno e profundo.

Na verdade, desde cãozinho sempre gostei mais daqueles dias de céu dramático, com nuvens plúmbeas entremeadas por raios de sol fugazes. E da consequente tempestade, tão agitada, mas que a tudo mais impunha um certo ar de calma. Uma noite antes do sol se por. Uma paradoxal sensação de conforto melancólico difícil de explicar.

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Talvez porque a chuva de hoje seja o whisky de amanhã.

Tive sensação parecida quando soube da existência de um single malt de uma das mais respeitadas destilarias da Escócia. O nome – muito apropriado – me parecia irresistível. Macallan Oscuro. Mas, por um dramático preço de aproximadamente setecentas libras, resolvi que seria prudente até que uma oportunidade de o experimentar chegasse à luz.

E essa oportunidade se fez com o nascimento de meu segundo cãozinho e um presente de meus progenitores. Naquele dia, realmente não havia espaço para nem mesmo o mais débil traço lânguido.

E logo que as primeiras tempestuosas (mas nada melancólicas) semanas após a luz da Cã passaram, me permiti a oportunidade de experimentá-lo. A primeira característica que se sobressai no Oscuro é sua cor. Como se pode pressupor pelo nome, um tom acobreado bastante escuro. O aroma é quase de vinho fortificado, com um pouco de couro e açúcar mascavo. Algo que remonta aos antigos whiskies da destilaria.

Apesar da enigmática falta de idade em seu rótulo – aliás, feito de uma espécie de metal acobreado – a The Macallan revelou que o Oscuro é composto por whiskies destilados entre os anos de 1987 e 1997. Todos teriam sido maturados em barricas de carvalho europeu que antes contiveram vinho Jerez.

Ainda de acordo com a destilaria, após atingir o zênite de sua maturação, ele é reduzido a uma graduação alcoolica de 46,5% utilizando apenas “agua natural retirada dos lençóis que correm no subsolo profundo, abaixo do Macallan Estate”. Após essa diluição, o whisky é então retornado às barrias, para que passe mais seis meses descansando, até ser engarrafado. Não há filtragem a frio.

O Macallan Oscuro é uma das mais exclusivas expressões da 1824 Collection da The Macallan, à venda nas lojas de Duty Free de alguns aeroportos internacionais. Outros whiskies da coleção são o Estate Reserve, Whisky Maker’s Edition e Select Oak.

Nova embalagem do Oscuro

Antes de escrever este texto, provei o single malt em diversas situações. Em dias calmos, dias monótonos, dias melancólicos e dias felizes. E a sensação, independente de meu humor foi a mesma. E ainda que na maioria das vezes tente aqui não transparecer minha opinião pessoal com clareza, não há como evitar neste caso. O Oscuro realmente é um whisky excepcional.

E se você me perguntar com agravo, responderei de forma serena que setecentas libras é sempre um exagero. É muito dinheiro. Setecentas libras transcende a dramática linha do valor relativo, e se coloca definitivamente no campo do absoluto. Mas talvez uma bebida com este preço tenha seu lugar.

Porque na verdade, não importa muito o quanto você se sinta atraído pela escuridão e pela pompa e circunstância. Alguns dias, somente alguns raros dias em uma existência inteira, não cedem espaço para qualquer sentimento lânguido. E são esses dias, e somente estes dias de uma alegria quase ofuscante, que algo como o Macallan Oscuro ganha seu espaço.

Afinal, estes dias – ou melhor, whiskies – são mesmo muito mais especiais do que outros.

THE MACALLAN OSCURO

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 46,5%

Notas de prova:

Aroma: Aroma de compota de ftutas, chocolate amargo e baunilha. Um pouco de couro talvez?

Sabor: Mel, compota de frutas, pimenta do reino. A influência do vinho jerez é muito clara, e torna-se evidente na finalização, que é longa, adocicada e com sabor de vinho fortificado.

Com água: A impressão de pimenta do reino é reduzida, e o whisky torna-se mais suave. O final adocicado fica ainda mais evidente.

Preço: GBP 700,00 (setecentas libras)

Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

7 thoughts on “Da Alegria e Escuridão – Macallan Oscuro

  1. Encontrei no Duty Free semana passada. USD 880,00. Pesado, mas tentador.

    Ainda vou criar coragem (e $) e comprar.

  2. Como vai, mestre?
    Macallan sempre exala qualidade e cuidado com o preparo, certo?
    Inclusive, ia te perguntar a respeito do Select Oak.
    Abraço!

  3. Outra dúvida: você classificaria este whisky, em termos de qualidade e prazer, próximo a qual Macallan com idade?
    18? 21?

    1. Mestre, o outro Macallan mais próximo dele é o Sherry Cask 18 anos. Ou talvez um Ruby, mas o Ruby é bem menos vínico. Agora voce me pegou!

  4. Olá, amigo!
    Conheci seu blog a pouco tempo e, desde então, tenho visitado e revisitado frequentemente seus posts. Parabéns pelo trabalho! Guardo uma curiosidade enorme acerca dos Macallan e agora terei a oportunidade – e ocasião, já que me casarei no ano que vem – de escolher um para provar (um amigo trará de outro país). Porém, tenho dúvida em qual estilo/produto representará melhor minha introdução a marca: Ruby, Estate reserve, Sherry oak 18 ou Rare cask (não é o black). Encontramos esses exemplares na mesma faixa de preço.
    Consegue me aconselhar na decisão?

    Abraços!

    1. Fala Caio! Que legal, e parabéns pelo casório!

      Vamos lá. O que você gosta mais? Você prefere whiskies mais leves, puxados para o adocicado da baunilha e do mel? Ou você prefere aqueles que lembram vinho do porto ou vinho jerez? Se prefere os com mais influência de baunilha, procure Estate Reserve ou Rare Cask. O processo de maturação e as barricas utilizadas são semelhantes, e há influência do carvalho americano.

      Porém, se você gosta mais daqueles com influência vínica, vá atrás do Sherry Oak ou do Ruby. Dentre os dois, minha impressão é que o Ruby é mais seco, enquanto o sherry oak é mais adocicado, com notas de uvas passas e frutas cristalizadas. Ambos tem grande influência vínica.

      Depois me conte o que decidiu sobre este presente de casamento incrível!

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