Sou advogado, então, falo com conhecimento de causa. Todos nós sabemos meia dúzida de palavras em latim, que, quando usadas no momento certo, podem fazer uma ideia banal parecer inapelável. “Pacta sunt servanda” soa muito melhor do que “o certo é certo e já foi combinado”. “Data venia” é quase um “lá ele” institucional, a forma culta de dizer “com todo respeito, nunca ouvi tamanha barbaridade”. E “fumus boni iuris” parece um feitiço, mas é quase uma navalha de Occam (ou Ockham) jurídica, que postula que, se alguma coisa tem cheio, textura e cor de algo, provavelmente é aquele algo.
O latim sobrevive assim. Não como língua, mas como um mini atalho para um argumento de autoridade. Ele paira sobre petições, brasões, universidades e tribunais, lembrando que a humanidade sempre teve uma relação meio fetichista com palavras que parecem carregar séculos de poeira e poder. E uma expressão ancestral, se pronunciada com gravidade, pode parecer mais sólida do que a própria ideia que tenta sustentar. O mesmo, certamente, ocorre com marcas.
A Michter’s foi assim. Começou com uma destilaria na Pensilvânia, na era dourada dos rye whiskies. Não resistiu à lei-seca e ao desinteresse do público dos anos oitenta. Mas sua marca ficou lá, pairando, no limbo das grandes marcas, até ser ressucitada e ganhar novo corpo. E é este whiskey que chega finalmente ao Brasil, em várias expressões diferentes, pela divisão de destilados da La Pastina, a InSpirits.
A história da Michter’s tem duas versões. Uma romântica, e a outra prática. A verdadeira provavelmente é uma combinação das duas – que ora apresento a vocês. John Shenk, um fazendeiro suíço que residia na Pensilvânia em 1753, teria fundado uma companhia de whisky chamada Shenk’s. Como costume da época, era um whisky produzido quase inteiramente de centeio. Aquele fora um whisky tão desejado que, com o início da Revolução Americana, George Washington teria visitado a destilaria e comprado uma boa quantidade do estoque para fortificar (palavras da Michter’s, não minhas) seus soldados.
Como a maioria das destilarias da época, sua glória foi interrompida pela Lei Seca, em 1919. Incapaz de sobreviver por conta, a Shank’s – que naquela época se chamava Bomberger’s – passou de mãos sucessivamente, até chegar a Lou Forman, em 1950. Este, mudou novamente a denominação da marca, combinando o nome de seus dois filhos, Michael e Peter, e resultando no facilmente pronunciável Michter’s. O que sugere duas coisas: que Lou tinha pouquíssima criatividade para nomes, e que certamente tinha um filho preferido.
A Michter’s permaneceu na família de Lou até 1989, quando, por conta do baixíssimo interesse do público por whiskey americano, entrou em falência, e abandonou suas instalações na Pensilvânia. Aquela era, realmente, uma época difícil para qualquer coisa que não fosse um tequila sunrise ou um Harvey Wallbanger (mais sobre isso aqui).
Daqui pra frente, a história passa a ser mais prática, e menos romântica. Em 1999, os empresários Joe Magliocco, Steve Ziegler e Dick Newman resolveram comprar a marca Michter’s. Ato contínuo, buscaram um parceiro que pudesse produzir o lendário Michter’s 10 anos bourbon. O primeiro deles foi a United Distiller’s – provavelmente na Bernheim. Depois, passou pra Julian Van Winkle, e, mais tarde, para a Willett. E foi daí que nasceu o whiskey tema desta prova, o Michter’s Single Barrel Rye Whiskey.
O Michter’s Single Barrel Rye Whiskey surgiu, primeiro, como um whiskey feito sob encomenda. Porém, em 2012, a empresa comprou e licenciou sua própria destilaria, em Shively, e passou a produzir a partir de 2015. Assim, o Michter’s Rye que chega ao Brasil é inteiramente produzido pela própria Michter’s. Isso se reflete, inclusive, em seu estilo. Um Kentucky Rye, com quase o mínimo regulamentar de centeio em sua Mashbill – algo como 53%.
A palavra de ordem é versatilidade. Um whiskey que pode ser bebido puro, mas que também não é apagado por um coquetel intenso. Isso fica, mais uma vez, aparente pela escolha da graduação alcoolica, de 42,4%. Que parece baixa, mas funciona bem porque deixa os cereais mais aparentes. A maturação leva de 5 a 7 anos. E, como o nome sugere, o líquido de cada garrafa provém de um único barril. O que significa, que, na prática, pode haver pequenas variações sensoriais entre garrafas provenientes de barris distintos. O céu para um american-whiskey nerd.
Sensorialmente, o Michter’s Rye tem tudo aquilo que se espera de um bom rye moderno de Kentucky. Há caramelo, baunilha, açúcar mascavo e aquela doçura americana confortável. Mas o centeio aparece logo depois, com sua pimenta, especiarias, casca de laranja e uma secura que traz riqueza ao conjunto. É doce, mas não dócil. Redondo, mas não sem graça.
O Michter’s Single Barrel Rye é um whiskey versátil, saboroso e muito bem resolvido. Tem história suficiente para entreter o nerd, equilíbrio suficiente para agradar quem bebe puro e estrutura suficiente para sobreviver a um bom coquetel. Uma espécie de fumus boni whisky: tem cor, cheiro e textura de bom rye. E, data venia, é exatamente isso.
MICHTER’S SINGLE BARREL RYE WHISKEY
Tipo: Rye Whiskey
Marca: Michter’s
Região: N/A
ABV: 42,4%
Notas de prova:
Aroma: Açucar mascavo, caramelo, cravo, hortelã
Sabor: Adocicado e herbal, com pimenta do reino, laranja, canela, açúcar mascavo. O final é longo, adocicado e herbal.


