Old Pulteney 12 anos – Aurora Boreal

Há milhares de anos, vikings e indígenas na América do Norte observavam o céu mesmerizados. Uma cortina de luz pulsante e sinuosa se apresentava no horizonte. Era como se um grande rio entremeado por montanhas se estendesse pelo céu, brilhando numa paleta de cores que variava do verde claro ao roxo, com vividez impressionante. Inuítes, Chipewyan e Vikings tinham nomes diferentes para aquele fenômeno, que hoje conhecemos como Aurora Boreal. A explicação também era diferente. Os Nórdicos acreditavam que as luzes vinham das cintilantes armaduras das Valquírias, que cavalgavam no congelante céu do inverno. Atualmente, entretanto, a ciência já desvendou o mistério. São partículas carregadas de vento solar, que colidem com a atmosfera da terra e produzem este maravilhoso efeito. Curiosamente ou não, em minha opinião, a explicação moderna é muito mais bela e poética. Mas há centenas de mistérios ainda não resolvidos, mesmo sob o excruciante olhar da ciência. O mecanismo de Antikythera, o chupacabras, o manuscrito Voynich e os raios-bola por exemplo. E claro que o mundo do whisky não sairia ileso desta. Ele tem seus próprios mistérios e segredos. Um deles envolve uma marca que acaba de desembarcar no Brasil. Old Pulteney. A indagação sobre a origem […]

Union Pure Malt Barley Wine Finish – Zigoto

Tudo começa de uma única célula, o zigoto. É ele que possui a mistura cromossômica de seus progenitores. Toda informação genética do novo ser vivo está lá, naquela única célula. Daí vem as clivagens, rápidas e repetidas divisões mióticas, gerando novas celulas. O resto do processo todo mundo já conhece – ou não. Blastocisto (tive que recorrer ao Google para esse daí), embrião, feto, parto. Nos ovíparos, é um tantinho diferente, mas tem um ponto em comum: tudo começa numa única célula. Não importa se é gente, peixe, cachorro, galinha ou axolote. A centelha que dá início à fogueira da vida – nossa, que brega – é uma única célula. De certa forma, é ela a matéria prima da vida, compartilhada por todas as espécies. Correndo o risco de ser cafona, no mundo do whisky e da cerveja, é assim também. O embrião, óbvio. Mas não apenas isso. Ambas as bebidas surgem da mesma origem – o grão. Se for um single malt, ou uma cerveja puro malte, a cevada. Que é maltada, cozida, fermentada. E no whisky, destilada e maturada. No caso da cerveja, normalmente, há clarificação. Já no whisky, normalmente não – ainda que haja exceções. De uma […]

A história da Glenfiddich – Família

Ter filhos é uma delícia, mas dá trabalho. Ao menos na idade dos cãezinhos, com seus oito e seis anos. Me disseram, entretanto, que depois piora. Dizem que os problemas vão crescendo junto com a pessoa. O que me parece apenas parcialmente coerente, porque, parei de crescer lá pelos quinze, mas meus problemas seguiram espichando, como se tomassem quantidades imprudentes de GH, até meus atuais trinta e oito. Mas, enfim. Tento ensiná-los, na medida do possível, sobre responsabilidade. Atribuo tarefas simples – limpar o quarto, arrumar um canto bagunçado da sala. Até às vezes me dou ao luxo de pedir alguma coisa por capricho. Ei, filhota, traz uma água com gás pro papai. Incumbências simples, cujo foco é mais didático do que, efetivamente, prático. Em outras palavras, sendo mais direto, não vou chegar pro meu filho de seis anos e falar “bicho, constrói aí uma casa no lote da vovó e depois mete dois alambiques lá“. Mas, foi justamente isso que William Grant fez, com seus nove filhos. William era gerente da Mortlach, outra famosa destilaria de Speyside, em meados de mil e oitocentos. Em 1886, decidiu abandonar sua posição, e começar sua própria destilaria. Economizou bastante dinheiro, e teve […]

Wild Side – Film Noir

“eu não me importo em ter uma quantidade razoável de encrenca” disse Samuel Spade, o investigador vivido por Humphrey Bogart em O Falcão Maltes. Este filme, junto com “The Big Sleep”, foi o embrião do film noir. A receita, hoje, é conhecida – há um tênue cordão invisível que liga todos os elementos, e que se torna evidente apenas no momento final. Um assassinato misterioso. Um detetive ébrio e com problemas de sociabilização. Uma grande cidade, controlada por uma elite corrompida e gananciosa. E tudo de bom: medo, culpa, cinismo, paranoia, insegurança e desolação. Apesar do cenário macambúzio (vai lá investigar), há algo de reconfortante nos film noir. Gostamos de mistérios e soluções. Observar uma enorme conspiração ser cuidadosamente desvendada por um detetive resoluto – mesmo que tal perseverança às vezes tenha como combustível o álcool – é catártico. Do clássico americano Falcão Maltês ao coreano neo-hitchcockiano Decision to Leave. Vista do sofá, a quantidade razoável de encrenca é uma delícia. Eu, como um cinéfilo apaixonado pelos dois gêneros – noir e investigativo – também não me importo de ter uma quantidade razoável de encrenca. Ainda mais quando o objeto de minha investigação é líquido. E, quando recebi, sexta-feira pela […]

Visita à Union – Leviatã

Criaturas mitológicas gigantes povoaram a imaginação humana desde tempos imemoriáveis. São a materialização do temor do desconhecido. Seja por mares jamais navegados ou terras nunca desbravadas. A lista é grande, e se alonga pela mitologia, folclore e literatura. Moby Dick, Kraken, Leviatã, Amarok (o lobo, não o carro). Em comum, seu tamanho gargantual, e a incredulidade de quem os supostamente viu em carne e osso. A Union Distillery, em Bento Gonçalves, talvez seja uma lenda destas, no folclore do whisky brasileiro. Uma destilaria enorme, instalada em um vale cheio de vinícolas, e capaz de rivalizar em tamanho e capacidade com algumas notáveis fábricas escocesas. Parece material de lendas. Mas, neste caso, por mais cafona que pareça esta introdução, é verdade. Desavisados que desconhecem a dimensão da Union surpreendem-se. Avisados, também. Vista por fora ou por dentro, a Union é um gigante. Ela produz em torno de 1,5 milhões e meio de litros por ano de single malt, com capacidade máxima de aproximadamente 3,5 milhões. Importante apontar que a Union possui duas destilarias. Uma menor – a primeira a ser construída – em Veranópolis. E uma maior em Bento Gonçalves. Foi esta que visitamos. A destilaria de Veranópolis não destila mais […]

Lamas The Dog’s Bollocks – O Quarto Filho

Dar um nome para um ser humano é uma grande responsabilidade. É por meio do nome que a pessoa se relacionará com as demais. O nome é o cerne da identidade individual de cada um – é a marca de um ser distinto, que se identifica por aquela palavra. Diz-se até mesmo que o nome pode influenciar na vida futura profissional e amorosa da pessoa. Faz sentido. Exceto se você for herdeiro de um megaconglomerado aeroespacial, se chamar X Æ A-12 não ajudará muito a encontrar um amor. Ou um emprego. No Brasil, há uma série de nomes que são, inclusive, proibidos. Dentre eles estão Calcinha, Inexistente, Dita-cuja, Taturana, Cadáver, Suruba, Andarilho, Bizarro, Sujismundo e – maravilhosamente, se você me perguntar – my precious. Triângulo é também um nome proibido. O que é surpreendente, por que as demais formas geométricas tão liberadas. Então, você pode batizar seu bebezinho de hexágono, cilindro, toroide ou octaedro. Mas, triângulo não. Dar nome a coisas é bem mais fácil. Quando comecei este blog, não tinha certeza de nada. Mas, o nome O Cão Engarrafado parecia o único possível. E até hoje adoro. Especialmente quando alguem grita “Cão” na rua e eu olho. “Caledonia” para […]

Union Pure Malt Wine Cask Finish – Karate

Conselhos valiosíssimos podem vir dos lugares mais improváveis. Como, por exemplo, do Senhor Miyagi. O sensei fictício tem frases ótimas, aplicáveis a uma miríade de situações na vida. Há ensinamentos sobre poder restaurador de uma refeição, em “melhor ser incomodado de barriga cheia do que de barriga vazia“. E também sobre a responsabilidade docente “não há maus alunos, apenas maus professores“. Alguns ensinamentos são difíceis de contestar. Como no singelo binômio existencialista, da morte e da vida, em “quem morre não vence“. Outros, porém, me parecem apenas alento “Para uma pessoa com ódio no coração, a vida é pior que a morte.”. Desculpe, Sr. Miyagi, mas já fiz muita coisa com ódio no coração, e ficou ótimo. Já cozinhei refeições ótimas com ódio. Escrevi contratos com ódio. O amor até é importante, mas o poder do ódio não deve ser subestimado. Aliás, isso nos leva a mais um ensinamento do Sr. Miyagi. Talvez, o maior deles, sobre o equilíbrio na vida. “Melhor aprender equilíbrio. Equilíbrio ser chave“. Alguns dias, corro por uma hora na esteira, como peixe, bebo quatro litros de água – quatro, só pra me sentir um overachiever. Em outros, quero inalar um litro de whisky, tomar Pepsi […]

Royal Salute Richard Quinn – Colaboração

Em 2010, a Revista Time fez uma lista das cinquenta piores invenções de todos os tempos. Enre as mais as mais brilhantemente estúpidas criações de todos os tempos estavam o Segway, a Hawaii Chair e popups de internet – itens cuja extinção facilmente atingiria consenso mundial. Mas, também, alguns produtos bem populares, ainda que detestáveis. Como, por exemplo, Crocs – os famosos sapatos de borracha idolatrados por chefs de cozinha. Acontece que, com o tempo, os Crocs passaram de detestados para adorados. Em boa parte por conta de parcerias com grandes marcas e celebridades. Houve uma porção de associações bizarras, como Justin Bieber, KFC (sim, a lanchonete) e o filme Carros. Mas, também, algumas que colocaram o sapato no epicentro da moda. Christopher Kane, por exemplo, e os famosos Crocs com salto alto da Balenciaga – aquela lá, que recentemente lançou uns sapatos todos detonados. Essas colaborações, para falar a verdade, não são novidade no mundo corporativo. Uma grande empresa reconhece que sua marca é um de seus mais preciosos ativos. Assim, unir forças para aumentar a base de consumidores é algo quase tão genial quanto usar sapatos laváveis de borracha. Algumas parcerias são bizarras, tipo quando o McDonalds lançou […]

Lamas Rarus – Musicalidade

Normalmente, levo algum tempo para criar a introdução aos posts deste blog. Outras vezes, porém, a inspiração já vêm da própria marca de whisky. “Para se criar uma música, não há uma fórmula pronta. É possível misturar sons mais suavez com melodias graves e robustas, por exemplo. Mas para que essa mistura resulte em algo gostoso e atrativo, não pode ser feita de qualquer forma. Exige cuidado, talento e muita dedicação” – dizia um post no Instagram sobre o Lamas Rarus. Aliás, essa é uma analogia interessante. Whiskies são, de certa forma, como música. Barris (ou single malts, dependendo de onde você quer chegar) são um único violoncelista, tocando um solo. Você pode ouvir com clareza todas as notas. Mas, exceto se forem as súites de Bach, talvez sinta falta de algum outro instrumento para dar bojo à composição. Blends – de whiskies ou de diferentes barris – por outro lado, são uma orquestra. Você talvez não ouça todas as notas com tamanha nitidez. Entretanto, o conjunto se torna muito mais harmônico. A dificuldade é, justamente, equilibrar os sons. Garantir que os instrumentos de sopro não se sobreponham ao violino, e que o violoncelo possa ser ouvido e contribua para a […]

Highland Park 18 – Deus Nórdico

Loki, Thor, Odin, Freya e o temido Ragnarok. Graças à Marvel, quase todo mundo sabe um pouquinho de mitologia nórdica hoje em dia. Quer dizer, ao menos as histórias publicáveis. Porque há uma meia dúzida delas que – graças ao bom senso – provavelmente não sairão dos livros de mitologia tão cedo. Tipo quando Loki engravidou de um garanhão gigante e pariu um cavalo de oito patas, que mais tarde virou montaria de Odin. Mas essa fica pra outro dia. Outra dessas histórias é a de Kvasir, um poeta e o mais sábio dos homens. Kvasir foi concebido durante uma festa em que dois grupos de deuses – os Aesir e Vanir – comemoravam um tratado de paz. Mas não do jeito ei deusa nórdica, vamos ali no banheiro da balada divina fazer um negócio. Kvasir se autoconcebeu de dentro de um barril, onde a festa inteira tinha cuspido um monte de amoras mastigadas. O cara literalmente foi filho da saliva divina. Seu nome, inclusive, significa justamente isso “suco de amora fermentado”. Apesar de seu nascimento um tanto escatológico – não que o nosso também não seja – Kvasir teve uma existência extraordinária. Durante sua vida, espalhou conhecimento ao redor […]