Especial Escócia – Visita à Lagavulin

Bruichladdich é inovação, Ardbeg é bravura. Lagavulin, por sua vez, é aristocracia. A Lagavulin é o representante perfeito de um cavaleiro medieval no mundo dos whiskies. Por fora, elegante, polido e respeitado. Mas, ao mesmo tempo, violento e direto. Ele foi por muito tempo meu single malt preferido, e provavelmente um dos lugares que mais queria conhecer em minha vida. Ter a oportunidade de atravessar os corredores da destilaria e participar de uma degustação lá, onde o líquido é produzido, foi incrível. Tudo que emana do copo está representado em seus ambientes. As instalações da Lagavulin são o lugar-comum da cultura do whisky. Chão de madeira que range a cada passo, não importa quão leve. Poltronas botonê de couro, lareira e galhadas de cervos penduradas na parede. Luz quente e luminárias verdes. E claro, infinitas cristaleiras, exibindo todas as glórias daquela destilaria. Se uma garrafa de Lagavulin pudesse agir como uma pessoa, sua casa seria decorada justamente daquele jeito. Ao contrário do que aconteceu com as demais destilarias, não pudemos percorrer os prédios da Lagavulin. Nosso tour permitia apenas a uma degustação em um de seus saguões, acompanhados de uma guia – que aliás, parecia tão apaixonada pela destilaria quanto […]

Ardbeg An Oa – Sobre o Caos

Sabe, eu não acredito muito em destino. Na verdade, é bem o contrário. Acho que estamos aqui bem por acaso, que o mundo é um enorme caos que tende, cada vez mais, à entropia. Arrumar é mais difícil que bagunçar, encontrar é mais penoso do que perder. As coisas naturalmente se deterioram, ainda que, implacavelmente, tentemos conservá-las. É um movimento antinatural, em um universo que não é muito mais do que uma enorme bagunça. Destino é meramente coincidência. Deixe-me explicar, sem soar pedante ou descrente, com uma metáfora bem imbecil. O destino é uma espécie de roleta de cassino. Quando a bolinha estaciona em uma casa que não apostamos, simplesmente ignoramos o resultado. Não há reconhecimento. Porém, se ela porventura acabar naquela que elegemos, bem, aí nos deslumbramos com o destino. Reconhecemos que aquela bolinha e nós estávamos predestinados àquele resultado. Mas vou assumir algo aqui. Ainda que eu acredite nisso na maioria das vezes, em poucas delas, é realmente difícil aceitar que não existe qualquer espécie de destino. Uma delas aconteceu comigo há poucas semanas. Havia marcado uma viagem à Escócia, para visitar as destilarias de Islay. Sem qualquer razão específica, apenas curiosidade. No dia do meu embarque, soube […]

Especial Escócia – Visita à Ardbeg

Tenho um amigo que comprou uma Harley Davidson. O problema é que ele não comprou apenas a motocicleta. Ele comprou duas jaquetas de couro da Harley Davidson também. E um capacete vintage da Harley Davidson. E um par de luvas da Harley Davidson. Dois adesivos, para colar no carro, dizendo que tem uma Harley, e, por fim, mas não menos importante, uma caneca, um abridor de latas e um jogo de bolachas de copo. Itens que não tem nada a ver com a moto. Mas que, para ele, fazem todo sentido. A verdade é que meu amigo nem gosta tanto de andar de moto assim. De moto. Mas de Harley sim. Porque, nas palavras dele, ela não é apenas uma moto. É praticamente um estilo de vida, que possui uma legião enorme de fãs alucinados ao redor do mundo. Se houvesse uma destilaria comparável à Harley Davidson no mundo do whisky, ela seria a Ardbeg. Para os admiradores da marca, a Ardbeg é praticamente um culto. Há embaixadas internacionais e dias dedicados a ela. E não é para menos. Este Cão Engarrafado teve a oportunidade de conhecê-la em sua recente viagem à Escócia. A destilaria é inacreditável. Se a Bruichladdich é […]

Especial Escócia – Visita a Bruichladdich

Disse uma vez Fernando Pessoa que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Por mais que eu deteste utilizar quase clichés por aqui – independente e sua origem – não poderia deixar de começar este texto com a citação. É que depois de quase vinte e quatro horas viajando, finalmente chegamos à terra dos whiskies enfumaçados. Islay. Foram doze horas de voo, divididos por uma conexão. Mais seis horas em um micro-ônibus, que, por sua vez, passou outras duas horas dentro de uma balsa. Ao chegar na ilha, não conseguia me decidir se o que queria mais era dormir, tomar um banho ou beber. Por sorte, os habitantes possuem uma curiosa forma de resolver tais dilemas. Ao chegar a meu hotel, me deparei imediatamente com o bar. Após toda higiene pessoal, refeição, algumas doses e, por fim, uma boa noite de sono, estava pronto para conhecer a primeira das destilarias da ilha que visitaríamos. A Bruichladdich. A Bruichladdich foi fundada por William, John e Robert Harvey, irmãos em uma família já veterana no ramo dos whiskies e proprietária das destilarias Yoker e Dundas Hill. O trio, entretanto, tinha uma ideia ambiciosa. Construir uma destilaria que, desde o […]

Da Alegria e Escuridão – Macallan Oscuro

Sabe, sempre fui uma criatura das sombras. Apesar de não ser um notívago, algo na noite sempre me atraiu. Talvez fosse seu silêncio, ou sua calma. Ou a falta de obrigações. Não, acho que não. Provavelmente é a sensação de melancolia trazida por aquele horário do dia. Faz sentido quando penso que meu livro preferido, por muito tempo, foi Memórias do Subsolo, de Dostoievski e uma das minhas obras clássicas mais caras, a Sinfonia nº 3 de Gorecki. Ambas, obras que ilustram a queda e a total ausência de esperança, em um tom taciturno e profundo. Na verdade, desde cãozinho sempre gostei mais daqueles dias de céu dramático, com nuvens plúmbeas entremeadas por raios de sol fugazes. E da consequente tempestade, tão agitada, mas que a tudo mais impunha um certo ar de calma. Uma noite antes do sol se por. Uma paradoxal sensação de conforto melancólico difícil de explicar. h Tive sensação parecida quando soube da existência de um single malt de uma das mais respeitadas destilarias da Escócia. O nome – muito apropriado – me parecia irresistível. Macallan Oscuro. Mas, por um dramático preço de aproximadamente setecentas libras, resolvi que seria prudente até que uma oportunidade de o […]

Especial Escócia – Visita à Oban

Este é o primeiro post de uma série sobre a visita em 2017 deste canídeo à terra sagrada do whisky. A Escócia – em especial, a terra da fumaça. Islay. No primeiro dia, a caminho de Islay, visitamos a destilaria Oban, localizada na cidade de mesmo nome. Literalmente dentro de Oban. A destilaria está no meio da cidade, em um prédio histórico, e muito próxima ao oceano. A destilaria é dividida em uma série de prédios, e há uma rua – uma rua ativa da cidade – que a cruza. O que deixa este Cão levemente apreensivo de que alguma barrica possa, porventura, ser atropelada ao olhar para o lado errado da rua ao atravessar. Nosso guia, porém, sempre solícito, me assegurou que isto jamais acontecera. Um dos maiores diferenciais alardeados pela própria Oban é a fermentação de seu mosto. Ele leva em torno de cento e vinte horas, o que é quase o dobro do que seria um absurdo para outra destilaria. Segundo eles, isso traz a seu destilado uma leveza e oleosidade bastante características. Os washbacks – os tanques de fermentação – da Oban são feitos de madeira de pinho. Algo também bastente incomum atualmente. A maioria das […]

Dewar’s 12 anos

Não poderia começar esta prova de outra forma senão falando do Bolovo. Sim, este alimento incrível, um clássico da baixa gastronomia brasileira. O bolovo é uma mistura de um monte de coisa boa, que, óbvio, fica ótima. No bolovo vai um ovo inteiro, farinha de rosca, temperos, leite, litros de óleo pra fritar e carne. A princípio, carne moída, mas que pode ser qualquer coisa, dependendo do nível de gourmetização. De ragu de porco a filé kobe. Mas eu nem preciso explicar isso. Porque você já deve saber o que é um bolovo, claro. O bolovo – assim como outros salgadinhos igualmente oleosos e deliciosos – ascendeu no boteco, e lá encontrou seu lugar de direito. O bolovo está completamente à vontade em seu lar, com aquela parede de azulejos brancos, a cadeira de plástico, mesas retráteis, cerveja com camisinha e bom papo. Mas o que pouca gente sabe é que o bolovo, na verdade, fala inglês. É isso mesmo. O bolovo possui um antepassado escocês. Um prato que tem um nome bem menos genial do que bolovo, mas também bem mais concreto. O Scotch Egg (ovo escocês). O scotch egg é basicamente a mesma coisa nosso querido prato tupiniquim, […]

O Cão Econômico – William Lawson’s

Vou começar o texto de hoje com uma citação de Voltaire. Aquilo a que chamamos acaso não é, não pode deixar de ser, senão a causa ignorada de um efeito conhecido. Voltaire, ao escrever esta frase, discutia sobre o papel do acaso na criação da vida. Para ele, não há uma definição de acaso – ele é simplesmente um coringa, um substituto para tudo aquilo que desconhecemos a razão, mas que produz determinado efeito. Porém, não soubesse disso, poderia pensar que Voltaire falava de ter filhos pequenos.  Filhos pequenos são a encarnação da causa ignorada de um efeito conhecido. Um exemplo disso aconteceu comigo justo na semana passada. Havia terminado de jantar, e sentara-me no chão com o cãozinho para brincar com fofoblocos e assistir algum desenho no meu celular. Quando ele fosse dormir, iria comprar online algum belo whisky para uma prova. Algo inédito e sofisticado. O Cãozinho, porém, estava um pouco agitado. Gritava e atirava os fofoblocos pela sala e pouco se concentrava naquela curiosa formiga azul que cantava na tela de meu telefone. Num destes arremessos – e enquanto eu desadvertidamente tentava reunir as pecinhas já jogadas – meu celular foi atirado contra a parede. Não poderia […]

Irmão do Meio – Glenlivet 15 anos

Sou filho único. O que, para falar a verdade, não quer dizer muita coisa. Crescer sem irmãos não significa que tenha conseguido tudo que quero. Nem que seja mimado ou estragado, e tampouco egoísta. Quer dizer, exceto com comida. Comida é algo realmente difícil de dividir. Ser filho único, porém, significa que tive que responder mais de um sem fim de vezes a clássica indagação. Se eu não sinto falta de ter irmãos. E minha resposta, desde a mais tenra idade, sempre foi a mesma. É claro que não, afinal, não poderia sentir falta de algo que nunca tive. Minha mãe, no entanto, possui irmãos. E ela está na pior posição possível. Ela é a irmã do meio. O que, para ela, significava ter as refeições roubadas pelo irmão mais velho enquanto era solenemente ignorada pelos pais, em favor do irmão mais novo. Significava não ter idade para fazer algumas coisas que o primogênito fazia, mas ser velha demais para se envolver com as atividades de criancinha do caçula. Segundo ela, galgar espaço como a irmã do meio não era nada, nada fácil. Relembrei disso ao experimentar novamente, após bastante tempo, o Glenlivet 15 anos. O Glenlivet 15 é a expressão […]

Drops – Aultmore 18 anos

A Escócia possui muitas destilarias. Algumas delas são amplamente conhecidas, como Ardbeg, Laphroaig, Macallan, Glenfiddich e Glenlivet. Estas brilham com single malts já bastante renomados e conhecidos até mesmo do público que não é assim, tão fascinado por whiskies. Outras, porém, não são tão conhecidas. E sair da obscuridade para cair nas graças do público não é exatamente uma tarefa simples, ainda que, certas vezes, aconteça. É o caso da Mortlach, que adquiriu fama com seu Flora & Fauna 16 anos, a ponto de ser reposicionada pela Diageo – sua detentora – como um malte super premium, precificado ombro a ombro com The Macallan. Às vezes é preciso um pouco mais do que um bom malte. Um empurrãozinho do pessoal de marketing, por exemplo, ajuda bastante. E aí é que está o Aultmore. Mais especificamente, o Aultmore 18 anos. O Aultmore era – quer dizer, ainda é – um malte bastante usado nos blended whiskies da Bacardi, como o Dewars, mas que não aparecia muito em voo solo. Até que aquela resolveu que o destacaria também como um single malt. Reunindo outras destilarias sob seu comando, a Bacardi criou um grupo com um nome bastante modesto. Os  The Last Great […]