O Cão Econômico – William Lawson’s

Vou começar o texto de hoje com uma citação de Voltaire. Aquilo a que chamamos acaso não é, não pode deixar de ser, senão a causa ignorada de um efeito conhecido. Voltaire, ao escrever esta frase, discutia sobre o papel do acaso na criação da vida. Para ele, não há uma definição de acaso – ele é simplesmente um coringa, um substituto para tudo aquilo que desconhecemos a razão, mas que produz determinado efeito. Porém, não soubesse disso, poderia pensar que Voltaire falava de ter filhos pequenos.  Filhos pequenos são a encarnação da causa ignorada de um efeito conhecido.

Um exemplo disso aconteceu comigo justo na semana passada. Havia terminado de jantar, e sentara-me no chão com o cãozinho para brincar com fofoblocos e assistir algum desenho no meu celular. Quando ele fosse dormir, iria comprar online algum belo whisky para uma prova. Algo inédito e sofisticado. O Cãozinho, porém, estava um pouco agitado. Gritava e atirava os fofoblocos pela sala e pouco se concentrava naquela curiosa formiga azul que cantava na tela de meu telefone. Num destes arremessos – e enquanto eu desadvertidamente tentava reunir as pecinhas já jogadas – meu celular foi atirado contra a parede.

Comportamento digno da realeza.

Não poderia dizer que aquele era um resultado surpreendente. Na idade do querido Cãozinho, os objetos são divididos em apenas dois tipos. Os que são arremessados e os que são mordidos. Eu sabia que aquilo aconteceria.  Logo que o aparelho caiu de tela para baixo e piscando em flashes agonizantes, percebi que o prognóstico não era bom. Tela rachada. Uma pesquisa na internet revelou que o preço da troca era quase comparável àquele de um aparelho novo. E pior, bem maior do que de qualquer whisky que planejava adquirir.

Por conta disto, desta minha culpa consciente (não dolo eventual) me vi obrigado a mudar meus planos. Não havia problema. Como já disse antes por aqui, devemos crescer na presença da adversidade. O que, claro, não significa deixar de beber. Por conta disso, a sofisticação e a exclusividade deram espaço para o singelo, mas agradável. O eleito, desta vez, foi um whisky que sempre relevei ao observar na prateleira – talvez em busca de algo mais caro, ou mais conhecido. Os otimistas dirão que em todo desastre há uma oportunidade. Bem, esta foi a vez dele. A vez do William Lawsons.

O William Lawsons é um blended scotch whisky sem idade definida, hoje pertencente à Bacardi. Além da expressão ora provada, há também uma versão com doze anos de maturação mínima e outra com treze, finalizada em barricas de bourbon. Há também uma bebida composta, o Super Spiced, com infusão de baunilha e pimenta. Nenhuma destas expressões chega oficialmente ao Brasil.

O protagonista do William Lawsons é MacDuff. Não, não é um spin-off de Macbeth, ainda que isto combinasse bem com o tema de oportunidades e desgraças. MacDuff é o nome da destilaria que produz o single malt Glen Deveron, base deste blended whisky. Além dele, em sua composição há diversos outros whiskies de malte e de grão com perfil frutado, porém não há o emprego de qualquer malte defumado. Algo bastante incomum na elaboração de qualquer blended scotch whisky.

Glen Deveron

 

A história da William Lawson’s também é eivada de pequenos e grandes desastres. William – seu fundador – nasceu na Escócia, em meados do século XIX. Na contramão da tendência mundial, mudou-se para a Irlanda em busca de sucesso, numa época em que muitos irlandeses migravam para outros países justamente por este motivo. Lá, tornou-se gerente e depois diretor de uma empresa de blended whiskies, a E&J Burke’s, de Dublin. Porém, por algum motivo desconhecido, foi demitido da empresa em 1903. Sem emprego, Lawson voltou para sua terra natal. A E&J Burke’s, porém, continuou a utilizar a marca de William. Em 1960 foi construída a MacDuff, e em 1963, William Lawson’s foi adquirida pela Martini & Rossi, que, por sua vez, fundiu-se com a Bacardi em 1993.

O William Lawson’s é um whisky com corpo médio e sabor bem leve e adocicado. Como é de se esperar, não há qualquer aroma ou sabor enfumaçado ou medicinal. O álcool é um pouco agressivo, o que torna a tarefa de perceber os discretos sabores do whisky um pouco difícil. É um perfil de sabor próximo ao do Cutty Sark, mas com álcool mais pronunciado. A ampola de um litro custa, em média, R$ 75,00. O que o coloca frente a frente com outros blended whiskies standard, como o Ballantine’s Finest e o White Horse.

Para falar a verdade, se este Cão pudesse escolher livremente, o William Lawsons provavelmente não seria – como efetivamente não foi – sua primeira escolha. Em sua faixa de preço, teria facilmente ficado com a marca do cavalo níveo. No entanto, é um whisky que oferece uma experiência honesta dentro de seu custo. Assim, se estiver com orçamento apertado e buscando algum whisky agradável e despretensioso, vá de William Lawson’s. Mas se não tiver, também, experimente mesmo assim. Não precisa deixar que a causa ignorada de um efeito conhecido te surpreenda.

WILLIAM LAWSON’S

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: William Lawsons

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: álcool, um pouco de malte, açúcar refinado.

Sabor: Açúcar de confeiteiro, mel. Um certo sabor de cereais. Álcool. Final médio e seco.

Com água: A água reduz um pouco a agressividade do álcool, mas torna o sabor de cereais mais evidente.

14 thoughts on “O Cão Econômico – William Lawson’s

  1. Sensacional! Seus textos são bastante elucidativos e seu estilo, se me permite opinar, um blended entre o sutilo, o irônico e, em alguns momentos, o cáustico. Vinícius de Moraes, criador da expressão cão engarrafado, ficaria orgulhoso. E bêbado, logicamente. Saudações caninas.

  2. Como vai, mestre?
    Tenho 02 filhos pequenos e sei bem como funciona o replanejamento financeiro de emergência hahaha.
    Confesso que sempre passo batido pelo William Lawson’s na prateleira da Candy Shop e nesta faixa de preços, também iria preferir o White Horse.
    O Black & White segue mais ou menos a linha do William Lawson’s?

    PS: Te mandei um e-mail. Quando vc puder, dá uma olhada por favor.

    Grande abraço!

    1. Opa, fala meu caro. Vou ver lá, devo ter desmarcado sem querer!

      William Lawson’s é mais seco, o B&W é mais adocicado. São bichos parecidos até certo ponto, mas diferentes no final!

  3. Caro Cão, tenho 3 filhos… passei exatamente por isso…kkk
    Mas acalme-se, os meus cresceram e passaram a brindar comigo… e isto não tem preço!
    Saudações caninas.

  4. Achei o seu site por acaso e não pude deixar de vir dar os parabéns! Gosto de whisky, mas sou uma neófita, embora tenha degustado algumas maravilhas quando morei na Europa. Estou adorando ler as postagens, espero aprender bastante coisas. Excelente blog! Abraços pro cão, pra cã, pra cãzinha e toda família canina!!

    1. Muitíssimo obrigado, Angela! Que ótimo que está gostando, se tiver dúvidas, pode perguntar!
      Cães agardecem os abraços! rs!

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