Hakushu 18 anos – Ausência

A pureza do coração é desejar apenas uma coisa“. Este é o título de uma das mais importantes obras do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard – cuja pronúncia do ó cortado segue sendo um mistério para mim, desde a primeira vez que o citei por aqui.

Para Kierkegaard, pureza não é limpeza, mas sim obstinação. A virtude de uma vida dedicada a um único objetivo, como, por exemplo, o divino. Algo que a igreja – literalmente – venera. A concentração de tudo em uma única vontade, um hiperfoco do coração. A secessão do indivíduo é impura por se dispersar entre desejos, vaidades e medos. Para usar uma metáfora impossível: é como um atirador, que ao mirar em dois alvos ao mesmo tempo, falha em acertá-los.

Mas a pureza pode ser interpretada de uma outra forma, que nem é tão oposta àquela proposta pelo dinamarquês. Para colocar de uma forma quase proverbial, a pureza pode ser a ausência de tudo, menos da essência. É o que resta, quando tudo foi tolhido. Algo próximo do conceito budista da coisa.

Essa proposição, de que a pureza é a inexistência de algo, ressoa perfeitamente na Hakushu – especialmente em seu lançamento no Brasil, o Hakushu 18 anos. É que a destilaria usa a água mais pura do mundo, proveniente do degelo do monte Kaikoma. Ela é, praticamente, H2O, e contém pouquíssimos minerais. Mas nem é só isso.

a água da Hakushu

O Hakushu 18 anos é a ausência do excesso. Ele é turfado, mas tão discretamente que é preciso se concentrar em seus aromas para perceber com clareza. Tudo está justamente onde deria estar, e em perfeito equilíbrio. Há uma nota herbal também, de grama molhada, e um certo adocicado, mas tudo está tão bem integrado, que nada é óbvio.

O equilíbrio do Hakushu 18 anos é atingido por conta de uma enorme versatilidade produtiva. Há até uma palavra pra isso – Tsukuriwake. A destilaria combina maltes de diferentes perfis sensoriais e níveis de turfa, para aumentar sua complexidade. Com alambiques de diferentes formatos e tamanhos, malte turfado e tradicional, e regimes distintos de fermentação e destilação, a Hakushu podia – e pode – produzir 56 diferentes whiskies.

Alambiques

E por falar em ausência, ela está bem presente (viram o que eu fiz?) em relação às informações sobre a maturação do Hakushu 18. Mesmo fontes oficiais fazem bastante mistério. Um palpite educado seria que a predominância é de carvalho americano de ex-bourbon, com uma mistura entre first-fill e refill. A teoria encontra força considerando que a Hakushu usa quase exclusivamente barris de ex-bourbon.

Mas talvez o mais interessante no Hakushu 18 anos seja o que ele escolhe não ser. Não é um whisky para impressionar, mas para silenciar. Sua força está na sutileza. É um whisky que parece existir em negativo: cada aroma, cada sabor, cada nuance é definido tanto pelo que contém quanto pelo que falta. Cada detalhe é calculado para desaparecer dentro do conjunto, até que reste apenas o equilíbrio.

HAKUSHU 18 ANOS

Tipo: Single Malt

Destilaria: Hakushu

Região: N/A – Japão

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: floral, herbal e levemente enfumaçado, com baunilha.

Sabor: Levemente floral e enfumaçado no começo. No retrogosto, a fumaça fica mais seca. Pouquíssimo apimentado e com álcool extremamente bem integrado.

Twelve Mile Limit – Norma Fundamental

Último dia de aula da faculdade, e a classe está completamente vazia. Mesmo sendo o único aluno da derradeira aula de direito constitucional, sinto-me estranhamente confortável. Não sei para onde foram os demais alunos, e não me incomodo. Sentada sobre a mesa, a professora Hilda – uma senhora de um metro e oitenta e muito – explica sobre a pirâmide de Kelsen e a norma fundamental. Ao fundo, ouço os latidos de um cachorro.

Na pirâmide de Kelsen, a norma fundamental é um pressuposto lógico-jurídico, que confere validade para toda a estrutura das normas” – explica, numa voz profética. “é essa norma fundamental que confere validade à Constituição, e às demais leis. As regras, na verdade, são uma ficção. Elas não existem no mundo palpável, mas são validadas pela norma fundamental“. Aceno com a cabeça e reflito, em silêncio. Então nada tem limite mesmo, nem município.

A doutora Hilda continua. Mas, agora, estranhamente, ela late. Igualzinho o cachorro que antes ouvia. De repente, ela salta – tipo um monstro, um vampiro, de uma forma surpreendentemente ágil para uma mulher de sua idade e porte – para fora da classe. Tomo um susto, fecho os olhos. Ao abri-los novamente, não estou mais na faculdade. Mas, encarando o teto escuro do meu quarto. Meu cachorro latindo, do meu lado. Foi um sonho. Que bom, imagina ter que prestar a OAB de novo. Nem sonhando.

Jamais!

Mas isso me fez recordar da tal norma fundamental. E de como todas as leis e regras, na verdade, são uma convenção. Um pacto social, criado para que possamos viver em sociedade. Regras, porém, mudam – para se adaptar aos tempos e a outras condições. Isso acontece praticamente todo dia. Mas, para os apaixonados por bebidas, a mais relevante foi, provavelmente, em 1920 nos Estados Unidos. Quando a Lei-Seca entrou em vigor.

A lei-seca – também conhecida como Volstead Act – proibida o comércio, transporte e produção de quaisquer bebidas “intoxicantes” em todo o território americano. A questão, porém, era determinar até onde ia o tal território. Fosse somente a porção de terra e água abrigada, bastava que qualquer um andasse uns quatro passos pra dentro do mar, para poder embriagar-se à vontade. Por isso, foi estabelecido um limite fictício, legal, de três milhas a partir da costa. O “three mile-limit”.

Acontece que a perseverança do apreciador de bebidas – ao contrário do município – não tem limites. Havia cruzeiros que levavam pessoas para alto mar, apenas para embriagar-se. Além de que o limite de três milhas não era suficiente para evitar que barcos menores auxiliassem no tráfico de bebidas, desempenhado por embarcações maiores. Era este, inclusive, o modus operandi de William McCoy (mais sobre isso aqui). Foi aí que os legisladores propuseram ampliar este limite. De três milhas, iria para doze.

McCoy

Neste cenário, nasceu o Twelve-Mile-Limit. Um coquetel criado pela resistência etílica, para zombar daquela situação – assim como o Scofflaw. Sua história foi contada no livro “Vintage Spirits and Forgotten Cocktails” de Ted Haig. De acordo com a publicação, o drink nasceu das mãos de Tommy Millard, um jornalista e correspondente de guerra daquela época.

O Twelve Mile Limit leva três destilados diferentes. Ou melhor, todos que estavam na moda antes da lei-seca. Rye whiskey, rum e cognac. Para aliviar o punch etílico, limão siciliano e grenadine. Aqui, inclusive, há um ponto de atenção. A receita clássica pede por 15ml do xarope. É bastante coisa, ainda mais se um grenadine pronto – de mercado – for usado. Então, este Cão sugere reduzir para 10ml.

Talvez você ache o Twelve Mile Limit doce demais, forte demais ou simplesmente estranho. Mas é justamente esse o ponto: ninguém atravessa doze milhas para chegar ao óbvio. Ninguém explora a coquetelaria para beber sempre a mesma coisa. Quem tem limite é município.

TWELVE MILE LIMIT

INGREDIENTES

  • 30ml rum branco (um rum mais herbal funciona maravilhosamente bem, aqui)
  • 15ml Rye whiskey (este Cão usou o Sazerac Rye)
  • 15ml cognac ou brandy
  • 10ml grenadine
  • 15ml suco de limão siciliano
  • parafernália para bater

PREPARO

  • Adicione todos os ingredientes em uma coqueteleira e bata com bastante gelo
  • desça em uma taça coupé e aprecie

Sobre Metanol e Elevadores

Como a maioria de vocês já sabe, tenho um bar de whisky e coquetelaria em São Paulo. Algo que me dá um pouco de alegria e uma boa dose de trabalho. O texto abaixo foi publicado originalmente em minha conta do Instagram, mas resolvi também trazê-lo para este ambiente mais formal, com algumas inserções.

Uma amiga me apresentou uma ideia que, expandindo, postulo a seguir: viver é dar um voto de confiança. Há um pacto silencioso, quase invisível — o de que o outro vai cumprir a parte dele.

Quando entramos num carro com alguém dirigindo, confiamos que essa pessoa nos levará ao destino. Confiamos que o médico sabe o que faz, que o anestesista não errou a dose, que o farmacêutico colocou o comprimido certo no frasco. Acordamos acreditando que o gás não vai vazar, que o prédio não vai desabar, que o elevador foi revisado.

O cotidiano exige uma boa dose de fé civil. E, às vezes, nem precisamos clicar no quadradinho de “li e concordo com os termos”. É um acordo tácito, como se diz no Direito. Quando passamos a testar o gás todos os dias, desconfiar da estrutura do prédio ou do barulho do elevador, a vida vira — ainda mais — trincheira.

O que aconteceu nas últimas semanas é isso. A gente não entra num carro todo quebrado, esfumaçando. Desconfia do elevador que geme e do médico que trabalha numa sala suja. Mas, até agora, vulgarizava o ato de beber. Não é romântico tomar um gim barato num espaço precário ou de um desconhecido na rua — é apenas ignorância.

Sempre defendi o conhecimento. Conhecer, questionar, explorar: é o que nos faz humanos. O antídoto para o medo é justamente o saber. Entender os processos, reconhecer os riscos e mitigá-los até que se tornem irrelevantes. E há muita gente nessa indústria que faz o mesmo — negócios pautados em conhecimento, conduzidos sem leviandade, com a máxima segurança em mente.

Na semana passada, visitei dois bares em que confio 100%. Bebi nos dois. Na quinta e na sexta, fui ao Caledonia e fiz exatamente o que faço quase toda semana: provei os coquetéis para aferir padrão e conversei com o Alison, nosso chefe de bar, sobre duas novas criações. Fiz com serenidade — e acordei bem no dia seguinte para escrever este texto.

Não sou sábio, filósofo nem gênio. Mas acredito que a combinação entre conhecimento e confiança — ou melhor, a confiança no conhecimento — é a melhor forma de seguir em frente.

Um dia, ainda vou saber tudo sobre elevadores.

Yamazaki 18 anos – Devoção

Ao chegar de trem ao vilarejo de Yamazaki, é fácil entender por que Shinjiro Torii o escolhera para fundar sua primeira destilaria, em 1923. O povoado está estrategicamente localizado entre os três maiores centros urbanos do Japão – Tokyo, Kyoto e Osaka. Além disso, é a confluência dos rios Uji, Kizu e Katsura, que fornecem suas imaculadas águas para a produção de whisky. Essa é a explicação lógica, que repito toda vez que apresento os whiskies da Suntory, em minha aula.

Mas existe uma razão maior, que transcende a racionalidade, mesmo de um homem de negócios como Shinjiro. Deixe a destilaria para trás e caminhe até a elevação mais próxima, e você atravessará um enorme torii – o portão sagrado japonês – para dar de encontro com um santuário xintoísta. Dave Broom, em seu “Way of Whisky” descreve o lugar. “a área era originalmente um enorme templo budista, que se estendia até onde está a linha férrea, hoje em dia (…). Com a ocidentalização, templos ora budistas tornaram-se xintoístas“.

Um Torii em Yamazaki

Aquela terra, então, fora muito mais do que um terreno em que uma destilaria foi erigida. Foi um espaço sagrado, e palco de episódios importantes da história nipônica, também. Foi onde Rikyu refinou sua técnica de serviço de chá, e onde a batalha de Yamazaki ocorreu. É um cenário que tem profundidade histórica, razão científica, e um ar sagrado.

O que parece até proposital, tamanha a devoção que entusiastas de whisky tem pela Yamazaki. Especialmente por seus rótulos mais maturados. Eles certamente são tão raros quanto milagres, e conservam uma aura divina que transcende qualquer lógica, inclusive a de preço. Assim, muito me admira que a Suntory do Brasil tenha conseguido trazer o Yamazaki 18 para nossas terras. A possiblidade de acesso já é um esforço louvável – algo que é bem difícil em qualquer lugar do mundo, Japão incluído.

O Yamazaki 18 anos é maturado, essencialmente em barricas de carvalho que antes contiveram vinho jerez. Aproximadamente 80% da maturação acontece em tais barris. O restante é desigualmente dividido entre barricas de carvalho americano de ex-bourbon, principalmente de segundo uso, e barricas de carvalho japonês, o famoso Mizunara. Com essa informação, era de se esperar um whisky intenso, puxado para o vinho, um clássico “sherry bomb”.

Barris na Yamazaki

Mas não é o que acontece. O Yamazaki 18 é inacreditavelmente bem equilibrado. O corpo é médio, e as notas vínicas, de tâmaras, chocolate e uvas passas, estão em perfeita harmonia com o incenso floral do mizunara e do carvalho americano. Bebê-lo é quase uma prova de autocontrole. Você se vê indagando como é possível que algo tão complexo, leve e convidativo, seja tão devastador para uma conta bancária.

O equilíbrio, aliás, tem uma razão clara. Ao contrário de uma Laphroaig ou The Macallan, a Yamazaki não possui apenas um formato de alambique. Mas diversos. A ideia não é criar um estilo único de single malt, “marca registrada” da destilaria. Mas o número mais diverso de single malts possíveis. Isso tem a ver com a concepção da Yamazaki. Shinjiro Torii jamais pensara em comercializar seus single malts. Isso aconteceu bem mais tarde, só na década de oitenta. A função da Yamazaki era produzir whiskies para compor blends. Mas, ao comercializar sua linha de single malts, lançou mão desta prerrogativa.

A destilação da Yamazaki tem também um traço curioso. O aquecimento por fogo direto em seus wash stills. Atualmente, quase nenhuma destilaria escocesa utiliza o método. Preferem o vapor, que é mais seguro, aquece o alambique por igual, e evita deposição de matéria orgânica caramelizada na base do pote. A Yamazaki não. Mantém o método sagrado, envisionado por Torii desde sua criação.

Alambiques da Yamazaki

Vamos, finalmente, evocar o fantasma deste recinto. O preço. Uma garrafa de Yamazaki 18 custa, atualmente, no Brasil, em torno de R$ 6.500 (seis mil e quinhentos reais). É mais caro do que o The Macallan 18, que já é bem caro, e quase cinco vezes mais do que seu irmão mais jovem, o Yamazaki 12. Em termos absolutos, é bastante dinheiro. Mas talvez, não relativamente No Japão, se você tiver sorte de encontrar, uma garrafa sai por aproximadamente cem mil yenes (uns R$ 4.000) – mas pense que você não vai se teleportar para lá.

No fim, beber um Yamazaki 18 é como caminhar por aquele vilarejo: cada gole revela um cruzamento entre o lógico e o místico, entre o cálculo industrial e o sopro divino. Há ciência, há história, há espiritualidade – e há, acima de tudo, uma coerência quase inexplicável entre tudo isso. Talvez seja essa a verdadeira genialidade de Torii: entender que o whisky não é apenas destilação, mas também paisagem, memória e ritual. E é por isso que, um século depois, o nome Yamazaki ainda ecoa como sinônimo de devoção — líquida e eterna.

YAMAZAKI 18 ANOS

Tipo: Single Malt

Destilaria: Yamazaki

País/Região: Japão

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: Frutado, tamaras, ameixa seca.

Sabor: Frutas secas, uvas passas. Final com baunilha, pimenta do reino e nozes.

Sazerac Rye – Herança de homônimos

Talvez você não tenha notado o cabeçalho deste site. Ou, talvez, entrado por um link, direto nesta matéria. Neste caso, recomendo que clique no “home” e contemple a foto. Aí depois, volte aqui. Esse cara peludo aí é o Sazerac. Ele é carioca, residente em São Paulo. Tem seus sete anos, vinte e seis quilos, e – como o tutor – um apetite voraz por tudo que parece, remotamente, comestível. Quando ele era jovem, uma vez, comeu uma zamioculca inteira. Vaso incluído.

O Sazerac ganhou este nome por causa de um drink, que é o preferido deste Cão. Quero dizer, meu, não dele, porque óbvio que ele não bebe (note que, a título de desambiguidade, usei “deste”, e não “desse”). Mas o que é mais legal é que o Sazerac só se chama Sazerac por causa do Sazerac drink, que só se chama Sazerac por causa do Sazerac Rye, que só tem esse nome por causa de uma “coffee house” homônima, em Nova Orleans. Que, por sua vez, herdou o nome de um cognac – Sazerac de Forge.

E antes de entrar nos pormenores desta história – que começa lá por 1850 e desemboca em um pastor autraliano red merle – cabe apontar que o tema desta matéria é um dos Sazeracs supra mencioados. O Sazerac Rye, whiskey de centeio que acaba de desembarcar oficialmente no Brasil, importado pela Aurora. A mesma do Eagle Rare, Buffalo Trace e 1792. É um dos rye whiskey americanos mais famosos e celebrados. E acredita quando escrevo. Não fosse assim, jamais teria batizado o modelo fotográfico deste infame site com seu nome.

Ele é o cara

A origem do nome deste rye whiskey é controversa. Há uma matéria espetacular de David Wondrich sobre o assunto. Mas, numa versão quiçá descomplicada demais, havia um coquetel, produzido com bitters e o cognac Sazerac de Forge, em New Orleans, lá pela metade do século dezenove. Este coquetel se tornou o mais famoso de um estabelecimento, que se batizou de Sazerac Coffee House. O espaço era gerido por Sewell Taylor, um senhor que possuía os direitos de importação do tal cognac, o Sazerac de Forge.

Esse certo coquetel – que ainda não tinha nome – era feito originalmente de cognac. Mas obter a matéria-prima era cada vez mais difícil. A phylloxera, aquela praga microscópica que redefiniu a viticultura europeia, devastara os vinhedos franceses. O fornecimento de cognac minguou, e Nova Orleans precisou olhar para dentro. O substituto natural foi o whiskey de centeio, abundante nos Estados Unidos, sobretudo no Nordeste, em Maryland e na Pensilvânia.

Aqui começa a zona cinzenta que David Wondrich adora esmiuçar. O coquetel que viria a ser chamado de Sazerac não nasceu pronto. Era, antes, um cock-tail genérico: destilado, açúcar, bitters. Os bitters, aliás, são outra história confusa. A versão oficial celebra os Peychaud’s, criados pelo farmacêutico Antoine Amédée Peychaud. Mas os registros da época mostram que circulavam diferentes bitters em Nova Orleans, e que a associação exclusiva ao Peychaud’s só se firmou mais tarde, fruto de propaganda e conveniência.

De todo modo, o drink ganhou fama e identidade no Sazerac Coffee House, que emprestou seu nome à mistura. Entra então Thomas Handy. Empreendedor no melhor e pior sentido da palavra, ele assumiu o controle do Sazerac Coffee House em meados da década de 1860. Foi Handy quem consolidou a marca “Sazerac” como sinônimo do coquetel. Sob sua batuta, o Sazerac deixou de ser apenas uma receita e se tornou um ícone, que, mais tarde, quase virou sinônimo de rye whiskey.

Handy

A mashbill do Sazerac Rye não é divulgada oficialmente – a Buffalo Trace, proprietária da marca, é bem reservada quanto à receita de seus produtos. Mas, estima-se que tenha algo como 51% de centeio, 39% de milho e 10% de cevada maltada. É o estilomais tradicional “low-rye” dos whiskies de centeio do Kentucky – em oposição àqueles que eram produzidos no norte dos Estados Unidos.

Sensorialmente, o Sazerac Rye traz um adocicado de açúcar mascavo, com cravo, pimenta, canela e hortelã. Não é um rye “old-school”. Ele troca pungência por equilíbrio e versatilidade. Isso o faz perfeito para os coquetéis clássicos, mas, também, excelente para se beber puro. O álcool, a 45%, é bem integrado, e a finalização, herbal e adocicada.

O Sazerac Rye é, no fim das contas, a consolidação de uma longa cadeia de acidentes históricos: a phylloxera que obrigou a troca do cognac pelo rye, o marketing esperto de Thomas Handy, a persistência de Nova Orleans em transformar improviso em tradição. Dentro da garrafa não há apenas centeio, milho e cevada maltada. Há também duas centenas de anos de caos destilado, reduzido a uma narrativa elegante o bastante para atravessar fronteiras — inclusive a do Brasil. Se hoje ele dá nome a este cão carioca radicado em São Paulo, é porque certas histórias, mesmo quando confusas, terminam em legado.

SAZERAC RYE

Tipo: Rye Whiskey

Marca: Sazerac

Região: N/A

ABV: 45%

Notas de prova:

Aroma: Açucar mascavo, caramelo, cravo, hortelã

Sabor: Adocicado e herbal, com pimenta do reino, cravo, canela. O final é longo, adocicado e herbal.

The Glenlivet 21 Anos – Tríade

Tese, antítese, síntese. Passado, presente, futuro. Corpo, mente e espírito. O número três tem um tipo de prestígio estranho — ele sempre aparece, sem muita explicação, e de forma natural. Eu, aqui, já coloquei três exemplos de três coisas. E foi quase sem querer, só porque meu instinto parassimpático de escrita relembra minha professora de português do ginásio. A cadência fica sempre melhor com três – dizia.

O primeiro primo ímpar é também a base de muita coisa. Com três pernas, um banquinho não balança; com três atos, uma história não desaba. Cada pé, uma parte – começo, meio e fim. Ou, na formalização aristotélica, prótase, epítase e catástrofe. Não sem relação, a mesma estrutura aparece graficamente nos antepassados das histórias em quadrinhos: os trípticos medievais. Por fim, séculos depois, Joseph Campbell – que recentemente estudei, para um devaneio no Caledonia – pegou o mesmo esqueleto e rebatizou de Partida, Iniciação e Retorno, em sua famosa Jornada do Herói.

A estrutura tripla é irrepreensível. Grego, medieval ou moderno; ateu ou religioso, o público tem o horizonte de atenção de um ouriço. E eu aqui, no terceiro parágrafo de tergiversação, já corro o risco de perder quem só veio para beber, independente do objetivo pseudo-informativo deste site. Ou de qualquer bar por aí. E até concordo. Três nem sempre funciona. Em algumas situações bem específicas, dois é bom, três já é multidão.

Pra dividir um Yakult, por exemplo. O que você tinha pensado?

Por sorte, essa não é uma mesa de bar lotada, tampouco uma verdade no mundo do whisky – mesmo que, relativa. Ainda mais considerando o recém-chegado ao Brasil, The Glenlivet 21 anos. É que ele é finalizado em três madeiras distintas. A primeira maturação ocorre em barris de carvalho americano. Depois, o líquido é (desigualmente) dividido, e vai para uma trinca de barris: ex-oloroso de primeiro uso, carvalho francês de cognac (tronçais), e barricas que antes contiveram porto colheita vintage.

Combinar três barricas distintas não é incomum no mundo do whisky. Ainda que não seja uma finalização, o The Macallan Fine Oak faz isso, com carvalho americano de ex-bourbon, europeu de ex-jerez e americano de ex-jerez. O Jura Seven Wood até inventa umas madeiras diferentes, para chegar no número sete. A Bruichladdich também, e ainda deixa tudo bem natural, com um papo sobre terroir.

O que é incomum, porém, no The Glenlivet 21 anos, é a escolha das barricas, e o processo de finalização. São todos barris marcantes, que trazem bastante informação. Porto, jerez e cognac juntos – parece mais o mis-en-place de uma mesa de poker de banqueiros, do que, efetivamente, a receita de um whisky. Ainda mais usando termos específicos como “tronçais“, e “colheita vintage“, que transpiram status. “Este é um colheita vintage do ano de nascimento de meu primogênito” diria um managing partner de um private equity, Partagás D4 na boca.

Cabe, aqui, uma observação para os antigos fãs da destilaria. O atual The Glenlivet 21 não é o mesmo que o The Archive. O tema desta matéria tem como sobrenome “The Sample Room” – em referência à coleção da qual faz parte – e foi lançado em meados de 2022, junto com uma expressão de 25 anos. O antigo 21 The Archive tinha uma maturação bem mais simples, em barricas de ex-jerez. Comparativamente, o antigo era mais seco e delicado, enquanto o atual é mais intenso, adocicado e apimentado.

O antigo Archive

Sensorialmente, tenho minhas dúvidas se um bom ruby não faria as vezes do colheita. Mas, o fato é que a combinação funciona lindamente. O Glenlivet 21 tende um pouco para o lado adocicado – lembrança da bebida de Portugal – mas é maravilhosamente equilibrado por um apimentado seco, provavelmente proveniente do carvalho francês. O jerez traz uma nota familiar, de uvas passas e tâmaras, e arredonda o whisky. A idade mínima de 21 faz diferença, também. É um whisky nada agressivo, e bem integrado.

Atualmente, a The Glenlivet é uma das maiores destilarias da Escócia, tanto em produção quanto volume de vendas. Seu mercado mais importante é o norte-americano, ainda que, no Brasil, tenha crescido bastante. “Vivemos um momento significativo para a categoria, impulsionado pelo crescimento dos single malts no Brasil e por um consumidor cada vez mais sofisticado. Estamos apostando em expressões ultra prestige para atender a esse público exigente e conhecedor”, afirmou Ana Paula Limonge, head de marketing de Prestige da Pernod Ricard Brasil.”

Uma garrafa de The Glenlivet 21 anos custa, no Brasil, algo como R$ 2.500. Não é barato, mas é, curiosamente, o single malt com mais de duas décadas mais acessível de nosso mercado, com importação oficial. Ele estará à venda em varejistas selecionados, online, e também no Le Cercle, e-commerce de relacionamento oficial da Pernod-Ricard Brasil.

O The Glenlivet 21 anos, com sua tríade de barricas imponentes, parece querer reafirmar que sofisticação não se faz só com idade, mas com intenção — e, nesse caso, três vezes mais. É um whisky que se apoia no número três com a firmeza de um banquinho bem feito: elegante, estável e com algo a dizer. E se três, às vezes, é demais, aqui é justamente o bastante. Porque no fim, como nas boas histórias, o que importa é o equilíbrio entre começo, meio e fim — e, claro, o que se bebe entre eles.

THE GLENLIVET 21 “SAMPLE ROOM”

Tipo: Single Malt

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com pera, canela e uvas passas.

Sabor: pera, damasco, gengibre. Equilibrado e levemente apimentado no final. Final longo, apimentado e frutado.

Maker’s Mark 46 – Pizza Napolitana

O dogma é só a última versão congelada de uma sucessão de desvios. Não, essa frase não é de ninguém, apesar do sugestivo itálico. Quer dizer, de nenhum terceiro. É minha mesmo, pra variar um pouquinho. E ainda que ela funcione em diferentes níveis para distintos axiomas, penso que é especialmente verdadeira nas minhas áreas de preferência. Gastronômica e etílica.

Deixa eu pegar um exemplo quase aleatório. A pizza napolitana. Essa, que é defendida hoje como patrimônio intocável, e que tem o tomate San Marzano como um dos ingredientes protagonistas. Acontece que quando a palavra pizza já circulava em Nápoles, o tomate sequer existia na Europa. O fruto vermelho só chegou no século XVI, vindo das Américas, e ainda assim foi recebido com desconfiança. Foi preciso séculos de adaptação até chegar à versão sagrada e imutável.

O que chamamos de tradição, portanto, muitas vezes nasceu de uma heresia bem-sucedida. E embora o purismo tenha seu valor — proteger a identidade, evitar a diluição — ele precisa, vez ou outra, ceder espaço à mudança. Se alguém não tivesse arriscado a vida — e a honra — atomatando uma pizza, o conceito do prato seria completamente diferente atualmente. E arrisco dizer, bem menos popular.

Tudo tem limite

O bourbon carrega seu próprio catecismo: milho, centeio, cevada e carvalho americano. É a fórmula que garante autenticidade e distinção. Mas como a culinária napolitana, também pode se engessar em excesso. O Maker’s Mark 46, que acaba de chegar ao Brasil, é um dos maiores exemplos de que a flexibilização é, muitas vezes, bem vinda.

O Maker’s Mark 46 segue a mesma receita do tradicional. 70% de milho, 16% de trigo, 14% de cevada maltada. A primeira maturação acontece também em barricas de carvalho americano torradas, à moda de qualquer bourbon. A graduação alcoolica de engarrafamento é discretamente superior àquela do Maker’s tradicional: 47%. Porém, a maior diferença – e onde está a inovação – é a segunda maturação. As barricas do Maker’s Mark 46 recebem estacas de carvalho francês tostadas em seu interior, que ficam em contato com o líquido por nove semanas.

Este é um ponto curioso. As ripas, ou estacas, são inseridas dentro dos barris contendo Maker’s Mark totalmente maturado. É praticamente um processo de finalização – mas cuja segunda maturação ainda acontece nos barris originais de Maker’s Mark. Isso aumenta a área de contato da madeira com o líquido, e traz um tempero novo ao whiskey.

Sensorialmente, o Maker’s Mark 46 traz as mesmas notas de caramelo, baunilha e mel, com aquele frutado adocicado característico. Mas apresenta também mais especiarias, com cravo e pimenta do reino. Ele é mais apimentado que o whisky (sem e, curiosamente) tradicional, mas também mais puxado para a madeira. Não chega a parecer um bourbon com finalização vínica, como seria um Woodford Sonoma. E na verdade, nem deveria. Essa não é a intenção.

A Maker’s Mark

No Brasil, um Maker’s Mark 46 custa, aproximadamente R$ 330. É uma vez e meia o preço do Maker’s Mark tradicional. Mas, ainda assim, é um excelente whisky, por um preço bem bom – especialmente para aqueles que se aventuram no mixing glass em casa. Um Old Fashioned com Maker’s Mark 46 vale cada centavo da garrafa comprada – ainda que em um bar, talvez, o CMV não contribua muito.

No fim, o Maker’s Mark 46 não rompe com a tradição — ele a alonga, como quem puxa uma massa até um novo formato. Continua sendo bourbon, mas com uma leve influência de outro canto. E talvez seja esse o destino inevitável de toda ortodoxia: tornar-se, um dia, apenas o ponto de partida para a próxima e necessária transgressão.

MAKER’S MARK 46

Tipo: Bourbon

Destilaria: Maker’s Mark

Região: N/A

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: frutas vermelhas, baunilha, caramelo, especiarias.

Sabor: açúcar mascavo, frutas vermelhas, especiarias, baunilha.

Wild Turkey Master’s Keep Voyage

Gosto de começar minhas matérias com citações. Acho que traz autoridade, e me poupa de bolar uma primeira frase de impacto, que retenha o leitor. Mas não é qualquer alusão que serve. Jamais usaria Taylor Swift pra falar de filosofia, nem Kanye, pra qualquer coisa, na verdade. E também evito esses aforismos vira-latas, que ficam por aí vagando na língua de todo mundo, especialmente porque a maioria deles é bonitinha, mas tem um significado meio raso, ordinário. Mas hoje, vou abrir uma exceção.

Não viajamos para escapar da vida, mas para que a vida não nos escape.” — e sei lá quem disse isso. Apesar de parecer filosofia de livro de aeroporto, resume bem a pulsão humana de se deslocar. Viajamos para sentir. Para estar em contato com o incômodo e com o espanto. Antigamente, atravessávamos desertos, escalávamos montanhas e navegávamos oceanos atrás de algo inédito. Ou de lendas. O Eldorado, Hy-Brasil (não a gente, a ilha), Atlântida. Era exploração no sentido mais literal: descobrir pela primeira vez.

Brave was the one…

Hoje, a equação mudou. O planeta já foi medido, cartografado, fotografado e colocado no Google Maps. A fronteira está no vazio do espaço e no abismo do oceano, inatingíveis para seres humanos normais, como nós. Ainda assim, continuamos viajando. Não para descobrir, mas para sentir — porque ver um rinoceronte no documentário é bem diferente daquele aroma de catinga contra o vento, e fugir de ré num 4×4, quando ele decide que você não é bem-vindo.

É o mesmo com a aurora boreal, que em vídeo parece um protetor de tela de Windows 98, mas ao vivo arrepia a espinha como se fosse um sinal dos deuses. Ou um Maguro Natto, que na foto só parece viscoso, mas aí a gente descobre, assim como postulou o Pumba (esse tem autoridade para falar de comida), que é viscoso e gostoso. O mundo, já catalogado, só faz sentido quando podemos sentir para ver.

E dizem, também, que viajar nos transforma, porque levamos conosco um pouquinho metafísico do que vimos. E é exatamente aqui que está o Wild Turkey Master’s Keep Voyage. Um bourbon que decidiu, ele mesmo, viajar. Depois de dez anos em carvalho americano, resolveu carimbar o passaporte em barricas de rum Appleton Estate de 14 anos, trazidas direto da Jamaica. Uma viagem transformadora como as nossas. E que agora, chega ao Brasil.

O comando da criação é compartilhado por duas figuras proeminentes no mundo etílico. Eddie Russell, master distiller da Wild Turkey, e a doutora Joy Spence, master blender da destilaria de rum jamaicano Appleton Estate – e uma das mais importantes mestres do rum no mundo. Uma parceria (nem tanto) improvável, mas que entrega justamente aquilo que buscamos em qualquer viagem: a colisão entre familiaridade e estranhamento.

Eddie e Joy

Há uma desambiguação importante aqui. A embalagem pode sugerir, ao incauto, que se trata de um whiskey com 24 anos de maturação – dez em carvalho virgem, 14 em rum. Não é isso que acontece. O Wild Turkey Master’s Keep Voyage é um bourbon que passa sua primeira maturação – de no mínimo 10 anos – em barricas de carvalho americano virgens e torradas, com “char level” 4. Depois, o líquido passa por um estágio final de 5 semanas em barris que antes contiveram Appleton Estate por 14 anos, selecionados a dedo por Joy Spence. Ou seja, é o rum que antes maturou naqueles barris que tem 14 anos. O whiskey é engarrafado quase a barrel strength, com 53% de graduação alcoólica.

No copo, o Voyage mantém a identidade clássica de Wild Turkey — caramelo, baunilha e mel. Mas agora com lembranças que não existiam antes: banana, frutas cristalizadas, melaço e especiarias. O blog Rare Bird 101, especializado em Wild Turkey, inclusive, propõe uma atividade interessante. Prová-lo em duas situações diferentes. Em uma delas, depois de um rum. Na outra, depois de um bourbon. O resultado é que o Wild Turkey Master’s Keep Voyage quase se transmuta. Ressalta o rum quando a boca está saturada de whiskey americano. E vice versa.

Poderia-se argumentar que um estágio tão breve em barricas de rum trariam pouco impacto para um bourbon maturado por mais de dez anos. Não é, de forma alguma, o que ocorre com o Wild Turkey Master’s Keep Voyage. O rum está, sem sombra de dúvidas, lá, e muito bem integrado. O que é meio irritante, porque é contraintuitivo, e quero entender a razão. Meu palpite educado, porém, é que como a graduação de destilação e preenchimento de barris da Wild Turkey é bem mais baixo do que a média de mercado, e o ABV de engarrafamento é alto, há menos água que poderia dissipar a influência da bebida jamaicana.

Destiladores da Wild Turkey (fonte: Whisky for Everyone)

Outro ponto que chama atenção no Wild Turkey Master’s Keep Voyage é seu preço. No Brasil, uma garrafa custa em média dois mil reais. É o quádruplo do preço do segundo bourbon mais caro, vendido oficialmente por aqui. O valor, porém, está em compasso com o que é cobrado lá fora – algo como 270 dólares. Ainda mais considerando os impostos de importação e custos logísticos. É também uma edição limitada, e bem cobiçada em qualquer lugar do mundo.

O Voyage é, em resumo, um experimento que mostra como tradição e exotismo podem dividir a mesma cabine. O bourbon não some no rum; ele o usa como roteiro paralelo, como quem faz escala em Kingston antes de voltar para casa. Uma viagem curta, mas suficiente para alterar a memória. Talvez esteja aí a lição, se houver alguma: viajar hoje não é mais descobrir territórios. É permitir que algo, ainda que já conhecido, nos conquiste de novo. O Wild Turkey Master’s Keep Voyage é a essência disso. E como disse Yogi Berra, “Se você não sabe para onde está indo, pode acabar chegando lá“.

WILD TURKEY MASTER’S KEEP VOYAGE

Tipo: Bourbon Whiskey

Marca: Wild Turkey

Região: N/A

ABV: 53%

Notas de prova:

Aroma: Caramelo, baunilha, melaço, coco

Sabor: Caramelo e mel, açúcar mascavo, um certo frutado adocicado. O final vai se tornando progessivamente mais adocicado, e apontando para o rum, com banana, melaço e coco.

The Glenlivet 12 anos – Revisto em 2025

“Como chegar em casa num dia gelado, virar só a torneira fria do chuveiro e entrar de roupa e tênis”. Foi assim que descrevi a experiência de visitar, às seis horas da madrugada, as Cataratas do Iguaçú, na noite mais fria de 2025 até então. Fazia saudável 1ºC. É que fui convidado pela The Glenlivet para viajar até o luxuoso hotel Belmond das Cataratas, para testemunhar, em primeira mão, o lançamento de dois rótulos recém-chegados ao Brasil. O The Glenlivet 21 Anos e o 12 anos – que voltou, depois de um hiato de cinco anos.

O dia anterior – tão gelado quanto aquele – tinha sido cheio. Um almoço com coquetéis de The Glenlivet Caribbean, um jantar na área externa, com traje tradicional escocês; e uma das experiências mais inusitadas que já vivi numa degustação. A The Glenlivet Sonic Tasting – desenvolvida por Dave Broom, em parceria com o Art of Disappearing. A experiência apresenta uma combinação única de três expressões da The Glenlivet. Cada participante recebe um bloco de anotações, uma caneta e uma “roda de sabores”, que traz algumas sugestões de notas aromáticas. Também são fornecidos um livreto de degustação, uma máscara azul para os olhos e um fone de ouvido.

Sonic Tasting

Antes da degustação propriamente dita, é feita uma breve demonstração mostrando como o som pode influenciar o paladar. A experiência imersiva começa com uma narração em áudio, ouvida pelos fones, contando a história e as origens de The Glenlivet. Após essa introdução, a voz apresenta o primeiro whisky, que é degustado em silêncio. Para os whiskies seguintes, os participantes colocam os fones de ouvido e a máscara azul, degustando cada whisky duas vezes — cada uma com uma trilha sonora diferente. A primeira música ressalta as notas mais leves e doces; a segunda provoca um efeito contrastante.

No dia seguinte, depois de uma (nem tão longa) noite de sono e uma visita matinal às cataratas, pudemos provar, finalmente, o The Glenlivet 12 anos. Aquele, que fora substituído pelo The Glenlivet Founder’s Reserve no Brasil, para focar em mercados-chave. Agora, ele volta posicionado acima do Caribbean Cask, e logo abaixo do maravilhoso The Glenlivet 15 anos. O retorno do 12 anos ajuda a The Glenlivet a compor um portfólio robusto e estratégico, equilibrando tradição, inovação e faixa de preço — e posicionando a marca como uma das mais completas entre os single malts no país

De acordo com a The Glenlivet “Representando o estilo exclusivo do The Glenlivet, o single malt The Glenlivet 12 anos é primeiro maturado em carvalho tradicional, antes de passar um tempo em barricas de carvalho americano que transmitem notas de baunilha e dão ao uísque sua suavidade característica.” O descritivo, um pouco confuso no começo, é esclarecido pela própria embalagem do produto, que diz “Matured in European Oak & american Oak Casks (…)” – “Maturado em barricas de carvalho europeu e americano

A primeira prova do The Glenlivet 12 anos neste site foi feita há mais de uma década – em 27 de junho de 2015 – o que me faz questionar seriamente se era mesmo necessário passar uma década teclando sobre álcool, ou se eu só precisava de um hobby mais barato. mas, perdão pela digressão, e de volta ao tema. De acordo com a Pernod Ricard, o líquido dentro da garrafa permanece o mesmo, assim como o processo de maturação. O que muda é apenas a embalagem, que traz informações um pouco mais detalhadas sobre o processo de maturação.

De lá para cá, porém, a destilaria mudou um pouco. Em 2018 ela praticamente dobrou de capacidade, com a construção de uma destilaria completa atrás dos armazéns – o que, pelas contas, parece a razão do retorno do The Glenlivet 12. Atualmente, a The Glenlivet produz vinte e um milhões de litros por ano – colocando-a entre as maiores da Escócia. Ela também é uma das campeãs de venda. Desde 2020, vende mais de dezoito milhões de garrafas anualmente. Seu maior mercado é o norte-americano.

Sensorialmente, o The Glenlivet 12 anos traz notas frutadas, de pera, com leve aroma de baunilha e especiarias. O sabor é adocicado e um pouco apimentado, com final frutado e floral. É mais intenso que o Caribbean, e menos adocicado que o Founder’s Reserve. Uma degustação às cegas, dos três, porém, parece uma atividade interessante para captar as nuances de cada um.

Alguns whiskies a gente não esquece. Outros esquecem a gente por um tempo — e voltam. O The Glenlivet 12 passou cinco anos fora do Brasil, mas agora retorna, mais articulado, bem vestido, e ainda com aquele sotaque frutado que a gente conhece. Entre uma catarata e outra, descobri que nem toda viagem no tempo precisa de máquina. Às vezes, só de um copo.

GLENLIVET 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutado, pera, baunilha

Sabor: pera, baunilha, pimenta do reino. Final médio, frutado e floral

Yamazaki Golden Promise – Gamma Ray

Invisível, traiçoeira e carcinogênica. Essa é a radiação gama. De forma – não muito – simplificada, são fotons que normalmente resultam de eventos cósmicos violentos como explosões estelares e desintegração nuclear. É a faixa mais curta do espectro eletromagnético, e capaz de atravessar a maioria da matéria. No mundo real, exposição a estes raios geralmente tem consequências pouco agradáveis. Como leucemia, malenoma, linfoma e retinoblastoma – que é um cancer que afeta as células retinianas e me dá um troço só de pensar, porque tenho uma aflição gigante de tudo que envolve olho.

A ficção, porém, tem um talento peculiar para converter os mais sinistros agentes da realidade em bênçãos. Bruce Banner, por exemplo, do universo da Marvel. Antes um físico brilhante, recebeu uma dose cavalar de radiação durante um teste militar. Mas ao invés de ter seus órgãos liquefeitos, transformou-se num colosso esverdeado com força sobre-humana. E cujo temperamento se beneficiaria muito de uma receita irrestrita de fluvoxamina e alprazolam.

Sem episódios maníacos

Há um único caso que conheço na qual a realidade imitou a ficção. No fim da década de 1950, cientistas do Reino Unido submeteram sementes de cevada à exposição controlada de radiação gama para induzir mutações benéficas. O resultado foi uma nova variedade: a Golden Promise, cevada de altíssima qualidade maltária — que viria a mudar a história da cerveja e, depois, do whisky.

A Golden Promise foi amplamente usada até a década de 80, quando foi gradativamente substituída por outras variações de maior rendimento. No entanto, por conta de sua qualidade sensorial – limpa, com apenas os melhores subprodutos para fermentação e destilação – continuou a ser usada em um mercado de nicho, e até hoje é bem popular na cena da cerveja artesanal. E, também, no whisky japonês. Daí surgiu a nova edição limitada da House of Suntory, parte de sua linha Tsukuriwake – o Yamazaki Golden Promise.

O Yamazaki Golden Promise foi lançado em 2024, e recentemente chegou ao Brasil. Sua base é justamente a supra-referida cevada. A maturação acontece em barricas de carvalho americano de primeiro uso e refil. Pode parecer um envelhecimento simplório, mas é genial. Utilizando estas barricas, a Yamazaki ressalta as características sensoriais adocicadas e de nozes, proporcionadas pela Golden Promise.

Outra característica amplamente alardeada da Golden Promise é seu corpo. Diz-se que a cevada traz oleosidade e cremosidade à cerveja – e, teoricamente, ao whisky. Na boca, o lançamento da Yamazaki confirma a informação. Porém, este Cão é cético em relação à razão. A destilaria Yamazaki é justamente famosa por seu Tsukuriwake – o uso de diversos alambiques diferentes para criar whiskies com enorme variedade sensorial. Seria mais natural imaginar que tenham utilizado destiladores de menor refluxo, justamente para ressaltar esse perfil cremoso.

Alambiques

O Yamazaki Golden Promise não tem idade declarada. Porém, a cevada começou a ser destilada pela Yamazaki em 2009. Este, inclusive, é um ponto de confusão em diversas referências online. Ocorre que em 2021 a Suntory lançou outro Yamazaki que utilizava a tal cevada. Este, porém, fora destilado inteiramente em 2009, e engarrafado em 2021, a 53% de graduação alcoólica. Distinto do atual, que tem 48%. A garrafa, inclusive, é diferente – por fazer parte da série Essence of Suntory.

No Brasil, uma garrafa de Yamazaki Golden Promise custa em torno de R$ 3.300 (três mil e trezentos reais). É bastante dinheiro, considerando um whisky sem idade declarada e que – por uma questão lógica – não deve passar de quinze anos. E cuja maturação ocorre em carvalho americano. Porém, analisando o preço no exterior – 500 libras, na média – a cotação brasileira parece até milagrosa.

O Yamazaki Golden Promise é um lembrete de que, vez ou outra, a humanidade tropeça em genialidade justamente quando está flertando com o desastre. Criar uma cevada exposta a radiação gama pode não parecer o começo mais ortodoxo para uma história de sucesso sensorial — mas aqui estamos, décadas depois, pagando caro por um gole desse improvável Hulk da vida real.

YAMAZAKI GOLDEN PROMISE

Tipo: Single Malt

Destilaria: Yamazaki

País/Região: Japão

ABV: 48%

Notas de prova:

Aroma: mel, baunilha, açúcar mascavo

Sabor: Frutado e doce, com nozes, frutas amarelas, mel e caramelo. Final médio, nada apimentado, com nozes e mel.