Cutty Sark Prohibition – Abstinência

Há uns meses decidi que não tomaria mais café. Começara com uma curiosa dor de estômago, e pensei, em minha ingenuidade, que devia escolher frentes. Renunciar ao whisky seria absolutamente impossível. Então, abri mão do segundo líquido que mais consumia – o que me parecia fácil. Café, para mim, soava mais como um hábito do que realmente uma necessidade. Um desses muitos rituais diários meio desnecessários que temos, tipo tomar banho e escovar os dentes. Mas eu estava enganado.

Os primeiros dois dias correram quase sem problemas, apesar de uma malemolência incontornável. No terceiro, abri um saco de café só para sentir o cheiro. No quarto, finalmente venci minha força de vontade. Concluí empiricamente que café pra começar o dia é tão necessário quanto whisky para terminá-lo. Fiz meio balde de coado e tomei cinco espressos. No final da tarde, minha mandíbula tremia de emoção. Ou de cafeína, vai saber. Aí fiquei pensando como seria o mundo se eu não pudesse beber café. Uma coisa levou a outra, e imaginei se eu não pudesse beber whisky.

Me lembrei que isso já aconteceu. Em 16 de Janeiro de 1919, nos Estados Unidos. Foi o conhecido Volstead Act, ou Lei-Seca Norte-Americana. O Volstead Act proibida o comércio, transporte e produção de quaisquer bebidas “intoxicantes” em todo o território americano, e durou até 5 de dezembro de 1933. Em outras pal avras, a lei – batizada por conta de Andrew Volstead, presidente do comitê judiciário que a produziu – tornava o feliz e antes descomplicado ato de embriagar-se muito mais difícil. Mas, veja bem, não impossível.

Não impossível porque, obviamente, a proibição não impediu que as pessoas buscassem seu inebriante néctar à margem da lei. Havia duas opções. A primeira, produzir seu próprio destilado, correndo o risco de morrer por intoxicação de álcoois superiores ou ficar cego. A segunda, quiçá um pouco mais segura, de recorrer a importadores independentes (isto é um eufemismo). Um deles foi o William McCoy, um dos mais conhecidos “rum runners” – o apelido dado aos contrabandistas de bebidas durante o Volstead Act. McCoy trazia o blended whisky Cutty Sark, que ganhou notoriedade naquela época por sua drinkability. A expressão “The Real McCoy” inclusive foi cunhada naquela época e é até hoje usada pra definir algo de qualidade.

E é em homenagem a esta história que a Cutty Sark lançou seu Cutty Sark Prohibition, blended whisky que acaba de desembarcar no Brasil. A garrafa preta opaca e o rótulo em preto e branco – ao invés do tradicional amarelo – são, inclusive, inspiradas nas garrafas escuras popularmente usadas durante o Volstead Act. A graduação alcoolica de 50% – atipicamente alta para um blend – também. Ocorre que, durante a Lei Seca, as viagens navais para os Estados Unidos eram perigosas. Assim, os contrabandistas preferiam trazer destilados com graduação mais alta. “qual o sentido de importar água?” diziam.

The Real McCoy

A criação do Cutty Sark Prohibition coube a master blender Kirsteen Campbell. Ainda que os maltes não sejam revelados, a marca declara que “todos os single malts utilizados no Cutty Sark Prohibition vem de carvalho americano de primeiro uso que antes contiveram jerez, trazendo notas predominantes de baunilha e toffee. Parte dos whiskies de grão podem ter sido maturados em barris de carvalho europeu de ex jerez de refil, mas a influência final no caráter do whisky destas barricas será mínima“. A marca também afirma que as barricas selecionadas por Kirsteen estão sujeitas aos controles mais estritos de qualidade da indústria do Scotch Whisky – e isso é refletido no produto final.

Aliás, deduzir os maltes que compõe o Cutty Sark Prohibition é uma tarefa quase impossível. A Cutty Sark, antes pertencente ao Edrington Group – o mesmo da The Macallan e Highland Park – foi vendido para a La Martiniquaise-Bardinet em 2018. O acordo entre os grupos previa que em determinado período de transição, o Cutty Sark continuaria a ser produzido (blended) pelo Edrington. Mas, é bem possível que sua receita tenha mudado ao longo do tempo, visto que a prioridade é a padronização sensorial. Qualquer palpite entre Glen Moray e Glenturret pode estar correto.

E há outro detalhe importante para os entusiastas. O Cutty Sark Prohibition não é filtrado a frio. Isso é bastante incomum, porque a maioria dos blends passa por este processo. A filtragem é usada para remover a turbidez formada quando ésteres e ácidos graxos no whisky se tornam instáveis em graduações alcoólicas mais baixas (como, por exemplo, quando adicionamos água ao whisky). O processo de “marrying” – combinação em barricas antes do engarrafamento – permite que o Cutty Sark Prohibition passe por uma filtragem a temperatura mais alta “Prohibition é o único whisky não filtrado a frio da linha Curry Sark. Os ésteres e ácidos graxos somente se tornam instáveis abaixo de 46%, e isso torna desnecessária a filtragem a frio” declara a Cutty Sark.

Sensorialmente, o Cutty Sark Prohibition é intrigante. Às cegas, ele poderia ser facilmente confundido com um single malt. Há uma textura incomum para um blend – bem mais oleoso do que se espera. Talvez por causa de sua graduação alcoólica. Como no Cutty Sark tradicional, não há qualquer sinal de fumaça. O whisky é adocicado, com notas de toffee e baunilha, e um fundo frutado bem equilibrado. Apesar da graduação, o álcool é relativamente bem integrado. Ainda que o perfil de sabores seja próximo do Cutty Sark de entrada, o Prohibition é um whisky muito superior.

O Cutty Sark Prohibition começa a ser vendido no Brasil oficialmente em outubro de 2021, por aproximadamente R$ 125 (cento e vinte e cinco reais). É um tremendo preço pelo que ele oferece, especialmente para os entusiastas mais puristas. Não filtrado a frio, maturado em barris de ex-jerez e com graduação etílica de cinquenta por cento, o Cutty Sark Prohibition não é apenas uma referência à época da lei-seca. Mas um tributo a qualquer um que aprecia bons whiskies. Este é – como bem alardeado inclusive em seu rótulo – “The Real McCoy”.

CUTTY SARK PROHIBITION

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: Cutty Sark

Região: N/A

ABV: 50%

Notas de prova:

Aroma: adocicado e floral, com baunilha e caramelo.

Sabor: frutas amarelas, adocicado, mel, caramelo. Final relativamente longo e adocicado, com toffee e pimenta do reino.

*a degustação do whisky tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

4 thoughts on “Cutty Sark Prohibition – Abstinência

  1. Caro Maurício,

    Sou fã do Cutty Sark. Já mencionei isso. Além do standart, conheço o 12 anos (garrafa verde!) e o vatted (acho uma besteira esse treco de ‘blended malt’, confunde mais que explica). Não tem a assertividade dos produzidos pela JW e Famous Grouse (conheço poucos, mas meu vatted preferido), mas me agradou bastante. Nas minhas anotações (não menos que 25 anos) encontrei referência à participação de Glenrothes e Tamdhu.

    Na primeira oportunidade tomarei o Prohibition. Grato pela dica.

    Abraços

    1. Caro Sócrates, mesmo para quem não é fã da Cutty, é um ótimo whisky. Você vai amar.

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