Sabe que dia é hoje? Se você respondeu que é o dia do casamento real, se equivocou. Quer dizer, não se equivocou, mas tem prioridades bem estranhas para alguém lendo essa matéria. É que hoje é o dia que você tem o melhor pretexto do ano para beber whisky. Hoje é o World Whisky Day.
O World Whisky Day foi criado em 2012 por Blair Bowman, um rapaz de apenas vinte e três anos de idade. A ideia de Blair era simples: criar um dia para que as pessoas pudessem se encontrar, comemorar e descobrir mais sobre a bebida nacional da Escócia. A ideia não só deu certo, como decolou.
Atualmente, o World Whisky Day é um dos dias mais importantes do ano para a cultura do whisky, juntamente com o International Whisky Day. O dia é comemorado em mais de quarenta e oito países. Para você ter uma ideia, em 2017, o website do World Whisky Day registrou mais de cento e setenta e cinco eventos, em mais de cento e vinte e oito cidades.
Inclusive, em 2015, houve até um evento na Antártida. Pesquisadores da Austalian Antarctic Division promoveram uma degustação dos whiskies que levaram para aquecê-los durante a expedição gelada. Além dela, outros malucos escalaram o monte Aonach Mor, na Escócia, apenas para que pudessem apreciar uma bela vista enquanto degustavam seus whiskies.
Não tá frio. Tá na temperatura ideal para tomar whisky
E se você pensa que o Brasil está fora da festa, está errado. Um grupo de apaixonados pela bebida se reunirá na Tabacaria do Ouvidor, no Rio de Janeiro, para comemorar o dia. Há inclusive pacotes que você pode adquirir, com direito a doses de diferentes whiskies e charutos. Mais informações sobre o evento aqui.
Assim, se você estiver procurando por uma boa razão para beber whisky neste sábado, sua procura acabou. Tire o pó daquela sua garrafa especial guardada no armário e sirva-se de uma dose. Ou duas. E se der tempo e não exigir muito esforço, dedique um brinde ao casal real. Coitados, casarem sob a sombra de um dia tão fantástico quanto este.
Existem várias atividades que me proporcionam sentimentos conflitantes. Um deles é fazer exercício. Por mais que eu deteste qualquer tipo de esforço, sei que, para um Cão como eu, correr é essencial para a saúde. Além disso, tenho que admitir: depois de uns vinte minutos de trote rápido, a sensação é quase boa. Quase. Porque bom mesmo é tomar whisky e fumar charuto. Pensando bem, fazer exercício está, no máximo, no nível “recompensador” da escala de prazer deste Cão.
Outra dessas atividades é ir ao supermercado. Assim como correr, ir ao supermercado é uma obrigação inevitável. Inevitável principalmente quando a Sra. “Cã” Engarrafada, solicita, com a suavidade de uma voadora no rim, que eu compre mantimentos para nosso lar.
Pensando objetivamente, ir ao supermercado é um saco. Não há prazer nenhum em comprar litros de água sanitária, detergente e arroz agulhinha tipo um. Ou papel higiênico. Aliás, tenho um problema com isso. Sempre que passo o papel higiênico no caixa, entrego para a senhorinha com certo ar de vergonha. Eu sei que é perfeitamente normal se limpar. E que todo mundo faz isso, ou pelo menos deveria. Mas não consigo evitar esse sentimento de culpa infantil.
Heh…
Mas às vezes, com um empurrãozinho do acaso, auxiliado pela completa ausência do meu senso de direção, encontro produtos incríveis. Recentemente, em uma das minhas incursões, tentando encontrar a prateleira do álcool gel, passei pela seção de bebidas. E lá estava um Dalmore 15 anos em promoção. O único. O último. O derradeiro. E por quase a metade do preço. Não que eu acredite em predestinação. Mas se eu acreditasse, teria certeza que aquele Dalmore estava predestinado a ser meu.
Para ser sincero, não sou apaixonado pelos Dalmore, e nem teria ligado para aquela garrafa se não estivesse tão barata. É que alguns whiskies da marca – especialmente os mais caros – são espetaculares, como, por exemplo, o Cigar Malt, elaborado com o objetivo de harmonizar com charutos. Outros, entretanto, são simplesmente regulares, como é o caso do caçula 12 anos. Mas considerando meu achado, não podia tomar qualquer outra atitude senão revisitar seu irmão mais velho, o Dalmore 15.
O Dalmore 15 anos é a segunda expressão do portfólio permanente da destilaria, que inclui o 12 anos, 15 anos, 18 anos, Cigar Malt e King Alexander III. Além destes, a Dalmore, assim como a Macallan, é conhecida por produzir edições limitadas exclusivíssimas e extremamente caras, como os whiskies da Constellation Collection (que variam entre duas mil e vinte mil libras). E eles tem material de sobra para isso. A Dalmore é uma das destilarias com estoque de barricas mais antigas da Escócia.
O Dalmore 15 anos é maturado exclusivamente em uma combinação de três diferentes tipos de barricas de ex-xerez – matusalem, apostoles e amoroso – o que confere a ele um sabor bastante pronunciado de especiarias, canela e frutas cristalizadas. Praticamente a desconstrução etílico-artística de um panetone. Só que panetone é ruim, e o Dalmore não.
Entre os prêmios conquistados recentemente pelo Dalmore 15 anos, estão duas medalhas de bronze na International Wine & Spirit Competition, nos anos de 2013 e 2014, e uma medalha de prata, na categoria de single malts com idade entre treze e vinte anos, pela International Spirits Challenge, em 2014.
No Brasil, um Dalmore 15 anos sai, em média, por R$ 300,00 (trezentos reais). E aí que está o problema. Não é que seja abusivamente caro, mas, por este preço, pode-se comprar um Glenfiddich 15 anos, ou qualquer uma das três expressões com finalização em barricas especiais da Glenmorangie (Lasanta, Nectar D’Or e Quinta Ruban).
Não é que o Dalmore 15 anos é ruim. Longe disso. É um whisky complexo, denso e muito equilibrado para seus quinze anos. Aliás, talvez mais equilibrado do que seus concorrentes acima. Mas é também um whisky com bem menos personalidade. Tipo o Capitão América. Certinho, mas meio sem graça também.
Putafaltadesacanagem!
Em condições normais, o Dalmore 15 anos raramente seria minha primeira escolha de whisky na prateleira de uma loja. Mas se eu pudesse ter escolhido, não teria ido ao supermercado aquele dia. E, portanto, jamais teria encontrado aquela garrafa. Para falar a verdade, o Dalmore 15 anos é quase como ir ao supermercado ou praticar exercício. Eu só finjo que não gosto.
DALMORE 15 ANOS
Tipo: Single Malt 15 anos
Destilaria: Dalmore
Região: Higlands
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: frutas cristalizadas, um pouco de laranja e canela.
Sabor: Especiarias, canela e cravo da índia. Frutas secas. Leve sabor achocolatado. Final persistente e amargo.
Com água: o sabor de especiarias fica menos evidente, e um leve sabor de açúcar aparece. O final fica menos amargo, mas continua bastante longo.
No último sábado, dia 25, ocorreram dois eventos imperdíveis em São Paulo. O primeiro deles foi o show do grande Ozzy Osbourne, no Monsters of Rocks de 2015. Mais de 35 mil pessoas compareceram ao festival e ouviram clássicos como Bark at the Moon, Mr. Crowley e Paranoid.
Tudo bem, você tem o direito de não gostar do Ozzy, mas admita: ele merece respeito. O cara é uma das últimas lendas vivas do metal. Além disso, ele é a prova definitiva de que o corpo humano pode ingerir ou inalar praticamente qualquer coisa e sobreviver.
O segundo – e mais importante – foi uma degustação dirigida de whiskies da destilaria Glenfarclas, promovida pela Single Malt Brasil e pela Enoteca Saint Vin Saint, e ministrada pelo whisky connoiseur Alexandre Campos.
Este segundo evento não me deu alternativa senão sacrificar meu precioso fim de semana e partir para a labuta. Um trabalho árduo, difícil. Algo que exigia foco e dedicação: experimentar quase todas as expressões do portfólio permanente daquela destilaria. Assim, abrindo mão da infinidade de possibilidades que o sábado ensolarado me proporcionava, me dirigi a mais um dia de trabalho estressante.
Encontrei lá outros ilustres colegas que também sacrificaram seus dias de prazer. Estavam o mestre Cesar Adames, especialista em gastronomia e destilados, e professor do SENAC, Maurício Salvi, do canal de YouTube Whisky em Casa e Michel Hansen, do blog Desvendando Whisky.
A degustação contou com seis whiskies da Glenfarclas: Heritage, 10 anos, 12 anos, 15 anos, 21 anos e 30 anos. Ao final, nos foi perguntado qual teria sido o melhor. Por lógica, o preferido dos participantes deveria ter sido o trinta anos. Mas não foi. Por uma margem considerável de votos, o vencedor foi Glenfarclas 15 anos. E é dele que falarei hoje.
A mesa. Da esquerda para a direita: Glenfarclas Heritage, 10 anos, 12 anos, 15 anos, 21 anos e 30 anos.
Primeiro, a má notícia. O Glenfarclas 15 anos não está disponível no Brasil. Podemos encontrar apenas as expressões Heritage, 10 anos e 12 anos. A boa notícia, entretanto, é que talvez ele passe a ser vendido em nossas terras em um futuro – quiçá – próximo.
A Glenfarclas, localizada em Speyside, é uma das únicas destilarias da Escócia que permanece sobre controle familiar até hoje – a família Grant. Ainda que não tenha sido fundada por eles, e sim por um senhor chamado Robert Hay, a Glenfarclas já está com aquela família desde 1865.
A destilaria é também uma das poucas da Escócia a utilizar alambiques aquecidos por fogo direto, e não vapor. Além disso, os destiladores também contam com uma espécie de corrente de cobre, que percorre seu fundo, para evitar que produtos da destilação se agarrem ao cobre. Isso, e o fogo direto, aumentam o custo de manutenção dessas peças, mas contribui bastante para o perfil encorpado e característico dos Glenfarclas.
O Glenfarclas 15 anos é maturado barricas de ex-xerez, especialmente oloroso sherry. Estas barricas, aliadas ao perfil pesado do destilado, dão origem a um whisky que Ozzy certamente apreciaria. Se bem que o campeão de enduro gastro-respiratório apreciaria qualquer coisa, potável ou não.
Eu aprovo!
O website internacional The Whisky Exchange elegeu o Glenfarclas 15 anos como whisky do ano em 2013. Além disso, Jim Murray (um senhor que provavelmente bebeu tanto quanto Ozzy Osbourne, mas com mais qualidade), em sua Whisky Bible de 2007, lhe deu nota 95/100, uma das mais altas da história da publicação.
Se você ainda não está convencido, pense novamente. Jim Murray, a Whisky Exchange, quinze participantes de um sábado de Glenfarclas e, provavelmente, Ozzy Osbourne concordam. Este whisky é quase épico. E essa gente toda não pode estar errada. Então, fique de olho quando ele aparecer nas prateleiras físicas e virtuais por aqui. Você terá um show inesquecível pela frente.
GLENFARCLAS 15 ANOS
Tipo: Single Malt 15 anos
Destilaria: Glenfarclas
Região: Speyside
ABV: 46%
Notas de prova:
Aroma: adocicado, mel, frutas vermelhas e canela.
Sabor: adocicado e frutado, com ameixa, cravo, canela e especiarias (leve pimenta do reino). Final persistente, com sabor de frutas secas e especiarias.
Com água: o sabor apimentado fica menos evidente. Por consequência, o adocicado e o sabor de mel se ressaltam.
Sabe o que é mais difícil do que partir do fracasso para o sucesso? É mudar uma fórmula de sucesso e sair ileso. Vou contar para vocês uma história polêmica. Na verdade, uma história sem nenhuma polêmica. Uma história que envolve o carro esportivo mais bem sucedido de todos os tempos, lançado em 1962 no Salão de Frankfurt, e até hoje em produção. Um ícone da engenharia automobilística, e, sem a menor sobra de dúvida, o produto que toda montadora de automóveis de desempenho quer ter em seu portfólio. O Porsche 911.
Todo mundo sabe o que é o Porsche 911. Ele é o equivalente à Monica Belluci do mundo dos automóveis. Desde a década de sessenta até hoje, pouco de seu conceito básico foi alterado. Ainda que o carro tenha sofrido evoluções constantes em sua engenharia, o design do 911 é muito semelhante àquele originalmente feito por Ferdinand Porsche em 1959.
Não é um Porsche. Mas poderia ser.
Mas como nenhuma história tão longeva poderia ter passado sem nenhuma polêmica, em 1996 a Porsche mudou o sistema de arrefecimento do modelo. Antes refrigerado a ar, a nova geração, conhecida como 996, teria agora refrigeração líquida. Tirando isso, em comparação com o modelo anterior, o carro teria ficado mais bonito, mais rápido e mais forte.
Quando a Porsche anunciou a mudança de estado físico do principal componente de seu sistema de resfriamento, o mundo do automóvel sofreu uma epidemia generalizada de insanidade e revolta. E a fábrica, a única parte razoável no meio do regime anarco-automobilístico que havia se instalado, fez a única coisa que realmente podia fazer. Manteve-se firme e não voltou atrás. E atualmente todos os 911 são refrigerados a água, e ninguém mais discute essa loucura.
Assim, quando descobri em 2009 que a Diageo reformularia o portfólio permanente de whisky da Johnnie Walker com algumas medidas potencialmente bastante controversas, concluí que ela claramente não conhecia muito da história recente da automobilística alemã. Pouco depois, a empresa introduziu no mercado três novos blends: o Double Black, Gold Label Reserve e Platinum Label – o único com idade definida dos três. Em contrapartida, excluiu de seu portfólio permanente o Gold Label 18 anos e o Green Label 15 anos. Este último, o único blend puro malte da linha.
Não demorou muito para a medida gerar mais polêmica do que o radiador do Porsche. Afinal, a Diageo teria extinguido dois whiskys com idade definida – sendo que um deles era o único de seu portfólio composto inteiramente por single malts, sem a introdução de grain whisky – e teria colocado no lugar dois blended whiskys sem “age statement” e um com. A impressão é que a marca estava sacrificando qualidade para atingir uma base maior de consumidores. Tipo fazer um filme com o Michael Caine, mas escalar o Nicholas Cage para fazer o papel principal.
Putz
Naquela situação, eu tinha duas alternativas. A primeira era gritar e me revoltar, como um fã de Porsche incompreendido. A segunda era comprar uma garrafa de algum dos novos lançamentos, e decidir, por conta própria, se a marca mais famosa de blendedwhisky do mundo havia mesmo enlouquecido de vez. Optei pela segunda alternativa. E entre os lançamentos, minha escolha foi pela embalagem mais discreta. A do Gold Label Reserve.
O Johnnie Walker Gold Label Reserve foi elaborado pelo master blender da Johnnie Walker, Jim Beveridge, que utilizou o single malt Clynelish como ponto de partida. O restante da receita é mantido em confidencialidade. No entanto, é possível que contenha os single malts Oban e Cragganmore, além de uma boa quantidade de whisky de grão (grain whisky). Essa mistura torna o Reserve um whisky bastante suave, com aroma de mel e caramelo.
Em comparação o Gold Label 18 anos (Centenary Blend), seu predecessor, o Gold Label Reserve é menos rico e complexo, e bem menos aromático. Essa comparação, entretanto, talvez seja injusta, uma vez que o Centenary foi, na verdade, substituido pelo Platinum Label. Em compensação, é um whisky mais leve e, muito provavelmente, mais versátil e mais fácil de ser bebido.
Uma garrafa do Gold Label Reserve custa, em média, R$ 240,00 (duzentos e quarenta reais). Ainda que ele seja uma evolução natural para um paladar que está acostumado com o famosíssimo Johnnie Walker Black Label, a sua faixa de preço o coloca em concorrência direta com alguns single malts. Inclusive, seu preço é semelhante àquele do Cardhu 12 anos, single malt da Diageo, e o principal componente do Johnnie Walker Black Label.
Assim, se você é fã do Johnnie Walker Black Label, e quer subir mais um degrau no portfólio permanente da marca, o Gold Label Reserve não o decepcionará. Entretanto, se está procurando um whisky mais encorpado e com aromas e sabores mais marcantes, talvez seja melhor procurar um bom single malt, até mesmo como o Cardhu. Ou tomar fôlego para um salto, e aterrizar no elegantíssimo Platinum Label.
JOHNNIE WALKER GOLD LABEL RESERVE
Tipo: Blended Whisky sem idade definida
Marca: Johnnie Walker
Região: N/A
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: Predominantemente mel e caramelo. Há um aroma muito suave de ameixa (ou de alguma outra fruta semelhante…).
Sabor: Mel, própolis, baunilha. Final floral. É um whisky muito, muito leve e muito doce.
Com Água: A agua suaviza os sabores acima. O aroma de ameixa desaparece. Recomendo provar este blend sem água.
A língua portuguesa é fascinante. Para tudo há uma palavra. Algumas, inclusive, que são absolutamente redundantes, específicas e sem utilidade. Uma delas é “defenestrar”. Defenestrar é o ato de atirar algo por uma janela. Não basta jogar longe. E não vale ser através de uma porta também. Tem que haver uma janela envolvida.
Defenestrar, assim, é uma palavra inútil. Primeiro porque quase ninguém sabe o ela significa. Depois, simplesmente porque não há dificuldade nenhuma em construir uma frase dizendo que algo foi lançado por uma janela. Aliás, é pior usar a palavra “defenestrar” para depois ter que explicar seu significado, do que simplesmente dizer que jogou certa coisa pela janela.
Outra palavra mais específica ainda é serendipidade. Ou serendiptismo. Ou serendipitia. Serendipidade é tão estranha que nem o corretor ortográfico do Word a reconhece. Ela é uma adaptação da palavra inglesa “serendipity”, cujo significado é algo na linha de capacidade de uma pessoa de realizar descobertas bem-afortunadas por acaso; ou a ocorrência destas descobertas.
A história está cheia de serendipidade. O forno de micro-ondas. A penicilina. E talvez a maior serendipidade de todas, uma tal pílula azul, cujo objetivo original era tratar dores no peito. Essa pílula havia sido pensada para contrair as artérias coronárias do coração, de forma a evitar espasmos e diminuir a dor por eles causada. Nisso, ela falhou. Mas durante a fase de testes, muitos ficaram excitados com os resultados, se é que você me entende.
Monumento em homenagem à maior serendipidade da história
E por falar em palavras estranhas, o whisky dessa semana, uma verdadeira serendipidade para mim, chama-se Glenglassaugh Revival. Ele foi o primeiro lançamento em mais de vinte anos da destilaria Glenglassaugh, localizada perto da cidade de Portsoy, quase na fronteira entre as highlands escocesas e a região conhecida como Speyside.
A Glenglassaugh foi fundada em 1875 por um senhor chamado James Moir, e por seus dois sobrinhos, William e Alexander Morrison. Em 1892 foi vendida à Highland Distillers, empresa que atualmente é responsável pelo blended Famous Grouse, bem como pelos single maltsThe Macallan, Glenrothes e Highland Park). Em 1986 a Highland Distillers resolveu desativá-la por conta de seus custos de manutenção.
O renascimento da Glenglassaugh também foi uma serendipidade. Ocorreu em 2008, quando um grupo holandês de investidores e entusiastas por whisky, denominado Scaent Group, descobriu e adquiriu a destilaria da Highland Distillers. A Glenglassaugh então foi reformada e reinaugurada. Poucos anos mais tarde, lançou seu primeiro whisky, o Revival, seguido pelo Glenglassaugh Torfa e Evolution. Atualmente, a Glenglassaugh pertence à Benriach Distillery Company, proprietária da destilaria homônima, e da Glendronach Distillery.
O Glenglassaugh Revival não possui idade definida. No entanto, não é preciso ser um especialista em degustação para concluir que sua maturação não durou muito mais do que três anos. Basta lembrar que sua destilaria foi reaberta somente em 2010. Apesar disso, tanto no aroma quanto sabor, ele se passa por um whisky bem mais velho. Tipo a Lindsay Lohan. Só que, ao contrário da Lindsay, o Glenglassaugh melhorará com a idade.
Glenglassaugh Revival de franja
O Glenglassaugh Revival é maturado em barricas de ex-bourbon e vinho tinto, e finalizado por um período de seis meses em grandes barricas que antes continham xerez (first-fill Oloroso sherry butts). Este processo de maturação confere ao whisky um aroma cítrico e frutado, ainda que, por conta do período curto de maturação, o sabor do malte esteja também bastante presente. Este, talvez, seja a única ressalva relativa ao Revival – ainda falta certa afinação, um simples ajuste fino, que certamente viria com mais alguns anos de maturação.
No Brasil, uma garrafa de Glenglassaugh Revival custa pouco menos que R$ 300,00 (trezentos reais). Não é tão caro para um single malt das highlands, mas é o suficiente para coloca-lo em concorrência direta com whiskys bem mais maturados, e de destilarias da mesma região bem mais consolidadas, como é o caso do Glenmorangie Original 10 anos, e o Dalmore 12 anos. Porém, por aqui, o Revival é um animal bem mais raro.
Assim, se você estiver curioso para conhecer um whisky que evoluirá muito nos próximos anos, e tiver a sorte de encontrar uma garrafa por aí que cabe em seu orçamento, siga meu conselho: não perca esta serendipidade.
GLENGLASSAUGH REVIVAL
Tipo: Single Malt sem idade definida
Destilaria: Glenglassaugh
Região: Highlands
ABV: 46%
Notas de prova:
Aroma: Cítrico (laranja) e maçã.
Sabor: Sabor frutado, com mel, amêndoas, e pão integral. Final bastante cítrico. Apimentado.
Com água: adicionando-se agua, o sabor cítrico torna-se mais evidente e surge mais cedo. O final fica mais curto e menos apimentado.
Se você já acompanha o blog há algum tempo, sabe que hambúrguer é um problema para mim. Na verdade, um problema não, pelo contrário. É uma solução. Adoro qualquer tipo de hambúrguer. Gosto especialmente daqueles mal passados, bem altos e suculentos. Mas mesmo um baixinho sola-de-sapato funciona, se devidamente temperado.
Aliás, aquela frase “pizza é como sexo, até quando é ruim, é bom”, não devia ser com pizza. Devia ser com hambúrguer. Porque pizza nem sempre é bom. Pizza pode ser de alguma coisa nojenta, como brócolis, berinjela ou sardinha. Enquanto que a única base admissível para um hambúrguer é carne, que é sempre bom. Ou, em alguns raros casos, calabresa e cordeiro. Fora isso, não é hambúrguer. E nem comecem a falar de frango.
Samuel concorda
Hambúrguer, mesmo quando é ruim, é bom. Nesse sentido, ele se aproxima bastante de outro produto originário da terra da liberdade e do frango frito. O whiskey. Não tem como um whiskey ser ruim. Eles são, no mínimo, decentes. Mesmo porque, com algumas exceções, são sempre variações sobre um tema mais ou menos constante. Um tema delicioso. Um tema que envolve baunilha, caramelo e pimenta.
E pelo fato de todo whiskey ser no mínimo decente conforme meus padrões, eu fico especialmente feliz quando encontro um que realmente gosto. Um que eu poderia pensar em trocar por uma dose de algum single malt. E é isso que acontece comigo em relação ao bourbon Woodford Reserve Distiller’s Select.
O Distiller’s Select é produzido pela destilaria Woodford Reserve, do Kentucky. Sua proprietária é a Brown-Forman Corporation, a mesma responsável pela marca de whiskey mais vendida no mundo, a Jack Daniel’s. Inclusive, a Brown Forman, que detinha a destilaria desde 1941 – naquela época, conhecida como Labrot & Graham Distillery – a vendeu em 1973 a um fazendeiro local. E vinte anos depois se arrependeu, e a recomprou. Belo planejamento de negócios, esse da Brown-Forman.
Apesar de Woodford e Jack Daniel’s serem da mesma família, a produção do Woodford Reserve Distiller’s Select é razoavelmente diferente daquela do Jack Daniels Single Barrel. A começar pela receita do mosto do Woodford, que é 72% milho, 18% centeio e 10% malte de cevada. Como porcentagens sozinhas tendem somente a transformar qualquer assunto interessante em algo entediante, eu explico. O Woodford tem proporção alta de centeio perto de outros bourbons. E por isso Distiller’s Select tem um sabor levemente picante.
Ah, agora entendi!
A fermentação do Woodford Reserve também é mais demorada. O mosto fermenta por seis dias (contra três dias de outros whiskeys). Após esta fase, a maior parte do mosto é triplamente destilada nos alambiques de cobre localizados na própria destilaria. Uma menor parte sofre destilação nos destiladores de coluna da Destilaria Brown-Forman, localizada em Louisville, Kentucky. A graduação alcoólica do espírito é então reduzida até 55%, pela mistura com água do riacho que abastece a destilaria, chamado Glenn’s Creek. Após este processo, o destilado está pronto para ser maturado.
As barricas virgens de carvalho que maturam o Woodford são produzidas na Brown Forman Cooperage, que também é responsável por fabricar aquelas usadas pela Jack Daniel’s. Isso permite que a destilaria escolha a dedo apenas as melhores barricas para maturar seu bourbon. O tempo de maturação do Woodford Reserve Distiller’s Select, ainda que não divulgado de forma clara, é em torno de sete anos. Quase três anos a mais do que a maioria dos Jack Daniel’s.
Além disso, a Brown Forman Cooperage dá liberdade à Woodford para encomendar barricas de acordo com as especificações que desejar. É o caso, por exemplo, daquelas usadas para a segunda maturação de outra expressão da Woodford, o Woodford Double Oaked, cujos barris sofrem uma carbonização extra e mais prolongada.
Tudo isso confere ao Woodford Reserve Distiller’s Select um sabor de caramelo pronunciado, bem como açúcar mascavo, baunilha e especiarias diferenciado dos demais bourbons que encontramos facilmente por aí, como os Jack Daniel’s, Jim Beam e mesmo Maker’s Mark.
Uma garrafa do Woodford Reserve Distiller’s Select – que aliás, é uma das garrafas de bourbon mais bonitas que eu já vi – custa em torno de R$ 160,00 (cento e sessenta reais). É um preço bem convidativo, principalmente se você já conhece as expressões mais comuns das grandes marcas. Senão, esse cão recomenda não começar pelo final. Compre um Wild Turkey ou um Jack Daniel’s No. 7. Com o troco ainda dá pra levar uma angostura, e fazer um belo Old Fashioned.
WOODFORD RESERVE DISTILLER’S SELECT
Tipo: Bourbon
Marca: Woodford Reserve
Região: N/A
ABV: 43,2%
Notas de prova:
Aroma: Laranja e caramelo. Ao contrário de outros bourbons, o aroma de baunilha é muito sutil, ainda que presente.
Sabor: Levemente picante, com bastante caramelo (balinha de caramelo) e açucar mascavo. Baunilha e laranja sutis.
Com Água: laranja, caramelo e pimenta. A baunilha no final fica mais evidente, ainda que seja mais sutil do que a maioria dos bourbons.
Preço: em torno de R$ 160,00 (cento e sessenta reais)
Escolha rápido: Rolling Stones ou Beatles? Ferrari ou Lamborghini? Batman ou Iron Man? Eva Green ou Scarlett Johansson? E se sua preferência for por homens, Brad Pitt ou Tom Cruise? Você provavelmente ficou em dúvida com alguma das escolhas anteriores, certo?
Existe um nível de excelência em que fica realmente difícil apontar um vencedor. Ou argumentar, com propriedade, qual é melhor. Eu preferiria não ter que escolher. Sério mesmo que eu não posso comer um spaghetti carbonara com pancetta e outro com bacon?
Aliás, escolher entre duas coisas excelentes é ainda mais difícil do que entre duas coisas péssimas. Tipo, sei lá, fazer um tratamento de canal sem anestesia ou passar o resto dos meus dias ouvindo apenas Anitta no rádio. Eu não teria dúvidas. Ficaria com o canal, fácil. Pelo menos o tratamento acabaria em umas duas horas no máximo, e seria bem menos doloroso.
Já que falei da Anitta, para elevar o nível desse blog, citarei o filósofo existencialista francês Jean Paul Sartre, que certa vez escreveu que “cada escolha é uma angustia”. Sartre, ao conceber essa frase pela primeira vez, provavelmente olhava com indecisão para a prateleira dos whiskys de uma magasin d’alcool, tentando escolher entre o de Laphroaig 18 anos e o Lagavulin 16 anos.
La boisson. J’en bois parce qu’elle est liquide; j’en mangerais si elle était solide
E se eu fosse Sartre, também não conseguiria escolher. É que os dois são tão excepcionais quanto semelhantes. Ambos são produzidos por destilarias localizadas à beira do mar, na costa de Kildalton, na parte sudeste da ilha de Islay, na Escócia. A cevada maltada, matéria prima dos dois, passa pelo mesmo processo de secagem utilizando turfa, conferindo a eles aroma defumado e medicinal. A Laphroaig, inclusive, compra parte de sua cevada dos mesmos fornecedores da Lagavulin, a Port Ellen Maltings. Além disso, os dois destilados são maturados em barris de ex-bourbon, apenas com uma discreta finalização em ex-jerez, para manter a consistência.
No entanto, além da óbvia diferença de idade, existem certas particularidades no processo de fabricação dos dois. Dentre elas, está a turfa utilizada como combustível para secar a cevada maltada, que é extraída de locais diferentes de Islay. Por essa razão, o aroma conferido aos destilados é diferente. Além disso, há diferenças na altura e formato dos alambiques das duas destilarias, o que tem resultado direto no destilado por eles produzido – os alambiques da Laphroaig tem seu pescoço voltado para cima, produzindo refluxo e selecionando apenas a parte mais leve do destilado, enquanto que o pescoço dos da Lagavulin é voltado para baixo, favorecendo a condensação e passagem de mais destilado. Por fim, a graduação alcoólica dos dois é diferente: O Laphroaig tem 48%, enquanto que o Lagavulin, 43%. Mas, como eu disse, ambos são geniais.
As barricas também são bastante semelhantes. Ambos são maturados em barricas de carvalho americano, que antes maturaram bourbon whiskey, e usam barricas de ex-jerez apenas numa breve finalização. A Laphroaig, inclusive, utiliza barricas que antes amadureceram o conhecido bourbon Maker’s Mark. A maturação do Laphroaig ocorre integralmente em sua destilaria, próximo ao mar. Já as barricas de Lagavulin maturam tanto na prória destilaria, quanto em outras destilarias da Diageo. Entretanto, segundo a própria Lagavulin, aquelas enviadas para fora de Islay são utilizadas apenas nos blended whiskies do grupo Diageo, e não na produção de single malt. E eu já disse que os dois são uma delícia?
Tanto o Laphroaig 18 anos quanto o Lagavulin 16 anos possuem aroma bastante defumado. O Laphroaig 18 anos é mais adocicado, e tem um final mais cítrico e salgado. O aroma defumado e o sabor levemente frutado escondem bem a graduação alcóolica. Já o Lagavulin 16 anos é mais encorpado, medicinal e seu final é longo, e lembra um pouco o aroma de grama. Ainda que eu nunca tenha comido grama para realmente confirmar se o sabor também corresponde.
Elas sabem
Ambos ganharam diversos prêmios importantes em competições internacionais recentes. O Lagavulin sai na frente, com duplo ouro na San Francisco World Spirits Competition em 2013 e ouro por dois anos consecutivos, em 2013 e 2014 pela International Wine & Spirit Competition. Já o Laphroaig ganhou medalha de prata pela ISC em 2013, e ouro pela San Francisco World Spirits Competition em 2011.
Se você ainda estiver em dúvida, não será o preço que solucionará o problema. Fora do Brasil, o Lagavulin sai por umas £55,00 (cinquenta e cinco libras), enquanto que o Laphroaig custa em torno de £70,00 (setenta libras). Já em nosso país, o Laphroaig 18 anos custa, em média, R$ 500,00 (quinhentos reais), enquanto que o Lagavulin, bem, o Lagavulin não é importado para o Brasil. Por enquanto, os únicos single malts da Diageo disponíveis por aqui são Glenkinchie e o Cardhu.
E se quiser saber qual deles este cão prefere, responderei solenemente que prefiro aquele que estiver mais perto da minha mão. Sério, não dá para errar com esses dois.
LAGAVULIN 16 ANOS
Tipo: Single Malt com idade definida – 16 anos
Destilaria: Lagavulin
Região: Islay
ABV: 43%
Notas de prova:
Aroma: Predominantemente carvão, com verniz e gramíneas e pimenta.
Sabor: bastante defumado e rico, levemente frutado e com amargor acentuado. Sabor final amargo, levemente salgado e bastante prolongado.
Com água: o aroma fica quase totalmente defumado. Na boca, o amargor fica menos evidente e um sabor de frutas secas fica evidente.
Preço: £55,00 (cinquenta e cinco libras)
LAPHROAIG 18 ANOS
Tipo: Single Malt com idade definida – 18 anos
Destilaria: Laphroaig
Região: Islay
ABV: 48%
Notas de prova:
Aroma: defumado, com bastante maresia e aroma de tangerina.
Sabor: Defumado, salgado e mais picante do que o Lagavulin. Final muito mais curto e menos amargo. O gosto residual é de pimenta do reino.
Com água: A agua elimina o aroma cítrico, e o torna mais defumado. Um leve sabor de caramelo surge. A pimenta continua lá, mas o gosto residual fica mais curto.
Preço: £70,00 (setenta libras) ou R$ 500,00 (quinhentos reais)
Quando eu era criança, adorava a páscoa. Esperava pela data com semanas de antecedência. Isso provavelmente tinha a ver com o fato de que eu era uma criança absolutamente onívora. Não, na verdade, onívora seria uma bela suavização do que eu realmente era. Eu era uma draga. Um verdadeiro avestruz humano. Na minha cabeça de criança, comida boa era sempre sinônimo de muita comida. E a páscoa, para um verdadeiro triturador de alimentos como eu, era – perdão pelo trocadilho cretino – um prato cheio.
O cara mais feliz do mundo, de acordo com o eu de 10 anos de idade.
Hoje em dia, para ser absolutamente sincero, não ligo muito para a significância gastronômica da data. As refeições são boas, mas não são melhores do que aquelas de outras datas comemorativas. Além disso, ainda que goste, não sou mais tão fascinado por chocolate. Na verdade, hoje meu chocolate preferido é o amargo ou meio amargo. E o fascínio que o chocolate branco exercia sobre minhas glândulas salivares, atualmente, é quase nulo.
Mesmo assim, há uma certeza sobre a Páscoa. Vou ganhar chocolate de alguém. É uma tradição. E convenhamos, isso não é nada ruim, mesmo porque ganhar chocolate é bem melhor do que receber, sei lá, um Vale-CD em pleno ano de 2015. Mas se você é como eu, provavelmente terá dificuldade de dar cabo dos chocolates que irá, inevitavelmente, ganhar. Então vou dar uma sugestão genial a você: harmonize whisky com o chocolate.
Eu poderia dizer categoricamente quais whiskys não combinam com chocolate, quais combinam. Mas se eu fizesse isso, cometeria um erro. Ainda que exista um denominador comum, o paladar muda de pessoa para pessoa. Aliás, qualquer regra sobre harmonização de alimentos é bem relativa. Lembre-se que muita gente gosta, por exemplo, de molhar a batatinha frita do McDonald’s no sundae. Então vamos com calma com as regras.
Harmonização perfeita
De qualquer forma, de acordo com a experiência de páscoas passadas deste Cão, chocolates escuros, incluindo os amargos, combinam melhor com whiskys mais leves. Assim, aquele ovo de páscoa de chocolate ao leite encontrará par em um bom blended whisky. Ou em um single malt adocicado, como por exemplo o Glenmorangie Quinta Ruban. Já chocolate branco funciona com bourbon, ou tennessee whiskey, como é o caso do Jack Daniel’s Single Barrel, ou mesmo com um single malt que tenha passado por barricas virgens de carvalho, como é o Glenfiddich 15 anos.
A exceção fica por conta dos whiskys defumados. A combinação deles com chocolate não funcionou bem, talvez pelo caráter salgado do destilado. Quer dizer, é óbvio que não ficou ruim, porque chocolate é bom, e whisky defumado também. Mas se me perguntar, prefiro só a bebida mesmo, sem o doce.
De qualquer forma, o ideal é experimentar. Cada um tem seu próprio paladar. Aliás, de acordo com minha dona – afinal, eu sou um cão – chocolate combina com absolutamente tudo. Inclusive com mais chocolate. Então não tenha medo de testar. Inspire-se no primeiro cara que enfiou uma batata frita em um sorvete. Essa era uma pessoa destemida.
Este é um post especial. Um post extraordinário, digno de um dia muito importante. Hoje é o International Whisky Day.
O International Whisky Day é uma reunião mundial – ainda que na maioria das vezes virtual – de fãs de whisk(e)y. Nesta data, os entusiastas da bebida brindam e prestam homenagem aos grandes nomes da história do destilado, especialmente ao finado Michael Jackson.
Oi?!
A data foi anunciada em 27 de março de 2008, originalmente o aniversário de Michael Jackson. Não do rei do pop. Mas do jornalista homônimo, um dos maiores especialistas em whisky de todos os tempos, falecido em 2007. Seu livro, The Malt Whisky Companion, é uma das obras mais completas e respeitadas sobre a bebida já escritas até hoje.
O Dia Internacional do Whisky foi oficialmente lançado no Whisky Festival Northern Netherlands de 2009. O festival, que contou com a participação de alguns dos nomes mais influentes do mundo do destilado, como Dave Broom, Martine Nouet, Charles MacClean e Helen Arthur, prestou homenagem ao especialista.
Além de um dia para comemorar, o International Whisky Day é também um dia de caridade. A cada ano, os fãs da bebida fazem doações a instituições de caridade de sua preferência, especialmente para aquelas que combatem o mal de Parkinson, doença que acometia Michael Jackson.
O Rei.
Assim, na data de hoje, sirva-se de um pouco de seu whisk(e)y favorito, coloque sua música preferida de Michael Jackson – o rei do pop, não o jornalista – e faça uma boa ação. O Cão já fez. Afinal, We Are The World.
Este post começará com uma confissão. Eu detesto frango. Não há nenhuma carne que seja mais desprezível do que a deste galináceo. Quando conto isso, muita gente argumenta que frango não tem gosto de absolutamente nada, e que, portanto, é impossível não gostar de frango. Essas pessoas são absolutamente malucas. É óbvio que frango tem gosto. Tanto é que já ouvi que rã tem gosto de frango. Quando fui para o Peru há alguns anos, comi um prato que tinha Cuy (uma espécie de porquinho-da-índia gigante, muito apreciado por lá). Adivinhem? Tinha gosto de frango.
Aliás, para o meu azar, uma porrada de coisas tem gosto de frango. Talvez estejamos mesmo na Matrix, e como as máquinas não sabiam o gosto real das coisas, fizeram com que tudo tivesse gosto de frango. As máquinas deveriam ter pesquisado um pouco mais. Imagine se tudo tivesse gosto de picanha? Ninguém se sentiria tentado a tomar a pílula vermelha.
Argumente o que quiser: comer frango é sempre uma decisão racional. Eu aceito que você diga que come frango porque não tem muita gordura, e é bom para sua dieta; ou que frango é uma carne relativamente barata, então você pode fazer uma refeição sem pagar muito. Mas se você me disser que come frango porque é gostoso, vou mandar você se tratar. E por se tratar, quero dizer comer um sanduíche de presunto cru ou um calabresaburger.
Outra coisa que costumo ouvir direto é que eu não estou comendo frango nos lugares certos. Que eu deveria ir a algum restaurante especializado, ou colocar certo tempero, etc. E aí eu respondo que não, que eu já tentei ir aos restaurantes especializados, e que frango não é negroni. É que negroni, na verdade, é um drink horrível, mas se você insiste, passa a adorar. Negroni é um dos meus clássicos casos de acquired taste.
Como o inferno deve se parecer
Com whiskys, isso aconteceu comigo com o Cardhu 12 anos. Comprei uma garrafa por pura curiosidade, já que o Cardhu é um dos maltes mais utilizados na linha Johnnie Walker. E como não existe nenhum Johnnie Walker realmente ruim, imaginei que fosse adorá-lo. Sério – qual é a chance de eu não gostar de um single malt desses?
Bom, descobri que a chance era altíssima. Da primeira vez, tive a clara impressão de que ele não tinha gosto de absolutamente nada. Na verdade, tinha. Era o mesmo gosto daquele fundinho de copo de whisky que você deixou na mesa em um casamento porque estava aguado demais, e foi pegar uma caipirinha. E vinte minutos depois, quando a caipirinha acabou, você ficou com preguiça de levantar para pegar outra, e resolveu dar um golinho no copo que estava lá por mais tempo que os noivos permaneceriam casados.
Nas duas vezes subsequentes, não foi tão ruim assim, mas também não me emocionou. Tipo a maioria dos filmes estrelados pelo Nicholas Cage. Não, pensando bem, muito melhor que a maioria dos filmes estrelados pelo Nicholas Cage, mas mesmo assim, mediano.
Cadê o Cardhu?
Mas o problema é que eu havia comprado a garrafa, e ela estava mais da metade cheia. Eu sabia que se a largasse e abrisse o Laphroaig Quarter Cask que tinha na dispensa, eu não voltaria novamente para o Cardhu. Então eu insisti. E funcionou. Quando faltava um pouco mais de um terço da garrafa, comecei a gostar dele. Era leve e versátil, e não deixava tudo que você bebesse depois com gosto de churrasco, como era o caso do meu querido Laphroaig.
E é exatamente por causa dessa versatilidade que o Cardhu é o principal malte do Johnnie Walker. Ele é leve, frutado, com um final curto e levemente defumado. O single malt ideal para conferir “drinkability” para um dos blended whiskys mais populares do mundo, o Johnnie Walker Black Label. Aliás, 70% de toda a produção do Cardhu 12 anos é destinada aos blended da linha da Diageo. E isso é tão incomum quanto corajoso. Normalmente, quando determinada idade de single malt é utilizada em um blended whisky, ela não está disponível para compra “in natura”. Mas este caso é uma exceção. O Cardhu 12 anos está também no Black Label.
O Cardhu 12 anos é maturado exclusivamente em barricas de ex-bourbon por – veja lá – doze anos, e tem graduação alcoólica de 40%. Num mundo em que cada vez mais destilarias têm abandonado o “age statement” e utilizado barricas que antes maturaram as mais diferentes bebidas, o Cardhu é quase uma relíquia.
No Brasil, uma garrafa de Cardhu 12 anos tem preço médio de R$ 230,00 (duzentos e trinta reais). Não é caro para um single malt com idade definida, e vale muito a pena se você tem uma estranha e quase doentia curiosidade para saber de onde vêm os sabores do Black Label.
Muitos dizem que o Cardhu 12 anos é uma excelente escolha para quem é novato com single malts, justamente por conta das características acima. Isso é verdade. Aliás, é incontestável que ele tem seus méritos. Mas se você está começando no mundo dos single malts, é porque quer descobrir sabores novos. E o Cardhu, é simplesmente (não que isso seja ruim, claro!) leve, harmonioso, agradável e extremamente bebível. Mas para um paladar pouco treinado, seu perfil de sabores não é lá tão diferente assim de um bom blend. Então não faça uma aposta tão segura. Respire fundo e arrisque. Quando já estiver com paladar treinado, volte para o Cardhu. Afinal, nem tudo por aí tem gosto de frango.
CARDHU 12 ANOS
Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos
Destilaria: Cardhu
Região: Speyside
ABV: 40%
Notas de prova:
Aroma: Caramelo e maçã verde.
Sabor: Punch de madeira no começo, levemente cítrico com leve nota defumada.
Com água: Com água, o aroma fica mais floral, e o sabor lembra mel e própolis. É um whisky que realmente melhora com adição de um pouco de água.
Preço: em torno de R$ 230,00 (duzentos e trinta reais)