Serendipidade – Glenglassaugh Revival

Glenglassaugh Revival

A língua portuguesa é fascinante. Para tudo há uma palavra. Algumas, inclusive, que são absolutamente redundantes, específicas e sem utilidade. Uma delas é “defenestrar”. Defenestrar é o ato de atirar algo por uma janela. Não basta jogar longe. E não vale ser através de uma porta também. Tem que haver uma janela envolvida.

Defenestrar, assim, é uma palavra inútil. Primeiro porque quase ninguém sabe o ela significa. Depois, simplesmente porque não há dificuldade nenhuma em construir uma frase dizendo que algo foi lançado por uma janela. Aliás, é pior usar a palavra “defenestrar” para depois ter que explicar seu significado, do que simplesmente dizer que jogou certa coisa pela janela.

Outra palavra mais específica ainda é serendipidade. Ou serendiptismo. Ou serendipitia. Serendipidade é tão estranha que nem o corretor ortográfico do Word a reconhece. Ela é uma adaptação da palavra inglesa “serendipity”, cujo significado é algo na linha de capacidade de uma pessoa de realizar descobertas bem-afortunadas por acaso; ou a ocorrência destas descobertas.

A história está cheia de serendipidade. O forno de micro-ondas. A penicilina. E talvez a maior serendipidade de todas, uma tal pílula azul, cujo objetivo original era tratar dores no peito. Essa pílula havia sido pensada para contrair as artérias coronárias do coração, de forma a evitar espasmos e diminuir a dor por eles causada. Nisso, ela falhou. Mas durante a fase de testes, muitos ficaram excitados com os resultados, se é que você me entende.

Monumento em homenagem à maior serendipidade da história
Monumento em homenagem à maior serendipidade da história

E por falar em palavras estranhas, o whisky dessa semana, uma verdadeira serendipidade para mim, chama-se Glenglassaugh Revival. Ele foi o primeiro lançamento em mais de vinte anos da destilaria Glenglassaugh, localizada perto da cidade de Portsoy, quase na fronteira entre as highlands escocesas e a região conhecida como Speyside.

A Glenglassaugh foi fundada em 1875 por um senhor chamado James Moir, e por seus dois sobrinhos, William e Alexander Morrison. Em 1892 foi vendida à Highland Distillers, empresa que atualmente é responsável pelo blended Famous Grouse, bem como pelos single malts The Macallan, Glenrothes e Highland Park). Em 1986 a Highland Distillers resolveu desativá-la por conta de seus custos de manutenção.

O renascimento da Glenglassaugh também foi uma serendipidade.  Ocorreu em 2008, quando um grupo holandês de investidores e entusiastas por whisky, denominado Scaent Group, descobriu e adquiriu a destilaria da Highland Distillers. A Glenglassaugh então foi reformada e reinaugurada. Poucos anos mais tarde, lançou seu primeiro whisky, o Revival, seguido pelo Glenglassaugh Torfa e Evolution. Atualmente, a Glenglassaugh pertence à Benriach Distillery Company, proprietária da destilaria homônima, e da Glendronach Distillery.

O Glenglassaugh Revival não possui idade definida. No entanto, não é preciso ser um especialista em degustação para concluir que sua maturação não durou muito mais do que três anos. Basta lembrar que sua destilaria foi reaberta somente em 2010. Apesar disso, tanto no aroma quanto sabor, ele se passa por um whisky bem mais velho. Tipo a Lindsay Lohan. Só que, ao contrário da Lindsay, o Glenglassaugh melhorará com a idade.

Glenglassaugh Revival de franja
Glenglassaugh Revival de franja

O Glenglassaugh Revival é maturado em barricas de ex-bourbon e vinho tinto, e finalizado por um período de seis meses em grandes barricas que antes continham xerez (first-fill Oloroso sherry butts). Este processo de maturação confere ao whisky um aroma cítrico e frutado, ainda que, por conta do período curto de maturação, o sabor do malte esteja também bastante presente. Este, talvez, seja a única ressalva relativa ao Revival – ainda falta certa afinação, um simples ajuste fino, que certamente viria com mais alguns anos de maturação.

No Brasil, uma garrafa de Glenglassaugh Revival custa pouco menos que R$ 300,00 (trezentos reais). Não é tão caro para um single malt das highlands, mas é o suficiente para coloca-lo em concorrência direta com whiskys bem mais maturados, e de destilarias da mesma região bem mais consolidadas, como é o caso do Glenmorangie Original 10 anos, e o Dalmore 12 anos. Porém, por aqui, o Revival é um animal bem mais raro.

Assim, se você estiver curioso para conhecer um whisky que evoluirá muito nos próximos anos, e tiver a sorte de encontrar uma garrafa por aí que cabe em seu orçamento, siga meu conselho: não perca esta serendipidade.

GLENGLASSAUGH REVIVAL

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Glenglassaugh

Região: Highlands

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Cítrico (laranja) e maçã.

Sabor: Sabor frutado, com mel, amêndoas, e pão integral. Final bastante cítrico. Apimentado.

Com água: adicionando-se agua, o sabor cítrico torna-se mais evidente e surge mais cedo. O final fica mais curto e menos apimentado.

Preço: em torno de R$ 300,00

5 thoughts on “Serendipidade – Glenglassaugh Revival

  1. Dois pontos me chamaram a atenção: o fato desse whisky ter a idade mínima dos scotchs, apenas três anos (eu não sabia a data de reabertura da destilaria) e a foto da Lindsay (eu não sabia que ela estava tão maltratada assim). Ou seja, é bem melhor ficar com o whisky, que é muito bom, tanto no aroma quanto no sabor, cítrico e caramelizado.

    1. César: é isso aí. A Glenglassaugh tem um “gap” de produção, do período em que permaneceu fechada. Então hoje é possível encontrar apenas whiskies maturadíssimos e muito caros, ou estas expressões mais jovens. Esse whisky é interessante porque irá demonstrar, com o tempo, como a maturação dos whiskies da Glenglassaugh evoluirá nos próximos anos. Quanto à Lindsay, bem, fique com o whisky. Mesmo porque o whisky não se beberá e dará “bafão”.

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