O Cãoboy – Woodford Reserve Distiller’s Select

Woodford Reserve

Se você já acompanha o blog há algum tempo, sabe que hambúrguer é um problema para mim. Na verdade, um problema não, pelo contrário. É uma solução. Adoro qualquer tipo de hambúrguer. Gosto especialmente daqueles mal passados, bem altos e suculentos. Mas mesmo um baixinho sola-de-sapato funciona, se devidamente temperado.

Aliás, aquela frase “pizza é como sexo, até quando é ruim, é bom”, não devia ser com pizza. Devia ser com hambúrguer. Porque pizza nem sempre é bom. Pizza pode ser de alguma coisa nojenta, como brócolis, berinjela ou sardinha. Enquanto que a única base admissível para um hambúrguer é carne, que é sempre bom. Ou, em alguns raros casos, calabresa e cordeiro. Fora isso, não é hambúrguer. E nem comecem a falar de frango.

Samuel concorda
Samuel concorda

Hambúrguer, mesmo quando é ruim, é bom. Nesse sentido, ele se aproxima bastante de outro produto originário da terra da liberdade e do frango frito. O whiskey. Não tem como um whiskey ser ruim. Eles são, no mínimo, decentes. Mesmo porque, com algumas exceções, são sempre variações sobre um tema mais ou menos constante. Um tema delicioso. Um tema que envolve baunilha, caramelo e pimenta.

E pelo fato de todo whiskey ser no mínimo decente conforme meus padrões, eu fico especialmente feliz quando encontro um que realmente gosto. Um que eu poderia pensar em trocar por uma dose de algum single malt. E é isso que acontece comigo em relação ao bourbon Woodford Reserve Distiller’s Select.

O Distiller’s Select é produzido pela destilaria Woodford Reserve, do Kentucky. Sua proprietária é a Brown-Forman Corporation, a mesma responsável pela marca de whiskey mais vendida no mundo, a Jack Daniel’s. Inclusive, a Brown Forman, que detinha a destilaria desde 1941 – naquela época, conhecida como  Labrot & Graham Distillery – a vendeu em 1973 a um fazendeiro local. E vinte anos depois se arrependeu, e a recomprou. Belo planejamento de negócios, esse da Brown-Forman.

Apesar de Woodford e Jack Daniel’s serem da mesma família, a produção do Woodford Reserve Distiller’s Select é razoavelmente diferente daquela do Jack Daniels Single Barrel. A começar pela receita do mosto do Woodford, que é 72% milho, 18% centeio e 10% malte de cevada. Como porcentagens sozinhas tendem somente a transformar qualquer assunto interessante em algo entediante, eu explico. O Woodford tem proporção alta de centeio perto de outros bourbons. E por isso Distiller’s Select tem um sabor levemente picante.

Ah, agora entendi!
Ah, agora entendi!

A fermentação do Woodford Reserve também é mais demorada. O mosto fermenta por seis dias (contra três dias de outros whiskeys). Após esta fase, a maior parte do mosto é triplamente destilada nos alambiques de cobre localizados na própria destilaria. Uma menor parte sofre destilação nos destiladores de coluna da Destilaria Brown-Forman, localizada em Louisville, Kentucky. A graduação alcoólica do espírito é então reduzida até 55%, pela mistura com água do riacho que abastece a destilaria, chamado Glenn’s Creek. Após este processo, o destilado está pronto para ser maturado.

As barricas virgens de carvalho que maturam o Woodford são produzidas na Brown Forman Cooperage, que também é responsável por fabricar aquelas usadas pela Jack Daniel’s. Isso permite que a destilaria escolha a dedo apenas as melhores barricas para maturar seu bourbon. O tempo de maturação do Woodford Reserve Distiller’s Select, ainda que não divulgado de forma clara, é em torno de sete anos. Quase três anos a mais do que a maioria dos Jack Daniel’s.

Além disso, a Brown Forman Cooperage dá liberdade à Woodford para encomendar barricas de acordo com as especificações que desejar. É o caso, por exemplo, daquelas usadas para a segunda maturação de outra expressão da Woodford, o Woodford Double Oaked, cujos barris sofrem uma carbonização extra e mais prolongada.

Tudo isso confere ao Woodford Reserve Distiller’s Select um sabor de caramelo pronunciado, bem como açúcar mascavo, baunilha e especiarias diferenciado dos demais bourbons que encontramos facilmente por aí, como os Jack Daniel’s, Jim Beam e mesmo Maker’s Mark.

Uma garrafa do Woodford Reserve Distiller’s Select – que aliás, é uma das garrafas de bourbon mais bonitas que eu já vi – custa em torno de R$ 160,00 (cento e sessenta reais). É um preço bem convidativo, principalmente se você já conhece as expressões mais comuns das grandes marcas. Senão, esse cão recomenda não começar pelo final.  Compre um Wild Turkey ou um Jack Daniel’s No. 7. Com o troco ainda dá pra levar uma angostura, e fazer um belo Old Fashioned.

 WOODFORD RESERVE DISTILLER’S SELECT

Tipo: Bourbon

Marca: Woodford Reserve

Região: N/A

ABV: 43,2%

Notas de prova:

Aroma: Laranja e caramelo. Ao contrário de outros bourbons, o aroma de baunilha é muito sutil, ainda que presente.

Sabor: Levemente picante, com bastante caramelo (balinha de caramelo) e açucar mascavo. Baunilha e laranja sutis.

Com Água: laranja, caramelo e pimenta. A baunilha no final fica mais evidente, ainda que seja mais sutil do que a maioria dos  bourbons.

Preço: em torno de R$ 160,00 (cento e sessenta reais)

17 thoughts on “O Cãoboy – Woodford Reserve Distiller’s Select

  1. Prezado Maurício,
    Inicialmente, meu objetivo com o whiskey passava a impressão de coisa séria. Desejava treinar os sentidos para aproveitar mais profundamente os singles. Posteriormente, entrei na trivialidade do ‘on the rocks’ (fortuitamente) e alguns coquetéis (também fortuitamente). Isso estava muito bem atendido pelo JD No 7.
    Não sei explicar o que me fez comprar um Woodford Reserve. Volta e meia sou apanhado por uma inquietação sem justificativa aparente.
    Fiquei muito bem impressionado com a bebida. Resolvi me informar e encontrei seu blog. Assinaria tudo que foi escrito, mas com uma ressalva: o elogio ao design da garrafa. Certamente é um profissional renomado, mas só um abstêmio poderia projetar uma garrafa de bebida que não suporta um leve toque descuidado sem tombar.
    Após ler seu excelente texto sobre o Woodford Reserve, é claro que irei experimentar o JD Single Barrel.
    Abraços,

    1. Vou te falar, a garrafa é linda, mas isso que você disse é verdade. Ela tomba! Agora, pense que há vantagens. Por ela ser estreita, dá pra colocar naquele cantinho do armário que não cabe mais nada. Ou na ponta da prateleira, que já está abarrotada de whisky. Pra mim, esse é um ponto bem positivo! rss

  2. Ótimo review. Woodford Reserve é um excelente Bourbon, muito superior ao JD, Jim Beam, Makers Mark etc.. Muito fácil de beber, com um leve picante e o álcool é quase imperceptível. Minha próxima compra será o Bulleit bourbon que me chamou atenção pela elevada presença de centeio em sua composição.

  3. Gran publicacion, como este Cao nos tiene acostumbrado, comparto ademas sus opiniones, Woodford Reserve es un producto de primera que, afortunadamente, en sus expresiones mas sofisticadas como la linea Classic Malt, la garrafa no da para tombar, siga publicando asi, soy su fan

  4. Excelente post… achei essa preciosidade numa rede de supermercados famosa… não conhecia. Pesquisei e achei esse post, fiquei curioso e comprei esse excelente bourbon. Agora estou na segunda garrafa. Muito bom!

  5. Amo esse blog… Não era muito fã de wiskey, mais resolvi sair da cerveja, e procurar um novo sentido pra vida, e achei essa maravilha de bebida… É claro, precisava aprender, um pouco, de como saborear, qual é a melhor para meu paladar, e blá blá blá… E encontrei o Cão engarrafado, onde tem me ajudado muito, adoro esse blog, e há indiquei para vários amigos. É sobre o Woodford Reserve, comprei uma garrafa, mais ainda não abri, e tenho uma curiosidade, pq rolha para fechar a msma???

    Vlw…

    1. Fala Celso, que legal que está gostando do Cão, e bem vindo ao mundo do whisky. Sou também apaixonado por cerveja e, vira e mexe, há uma prova delas por aqui.

      A questão da rolha é a mesma da cerveja. A escolha entre o dosador e a rolha é, essencialmente, mercadológica (marketing). Whiskies (e whiskeys) mais high-end costumam ter rolha. Os mais simples, o dosador ou aquela rosca. Existem exceções, claro. Há também a questão da falsificação. O dosador, em teoria, costuma dificultar que se adultere ou substituia o conteúdo de uma garrafa. Note que: dificulta, mas não impede.

      O woodford tem rolha para passar a impressão de um produto mais tradicional e “atresanal”. Tanto é que ele vem com o lote estampado no rótulo. Veja que o Jack Daniel’s Single Barrel também leva rolha.

      Grande abraço!

  6. Caro cão, me tornei um bebedor de whisky a apenas 4meses e seu blog além de uma ótima referência me tem feito ficar ainda mais apaixonado pelo whisky.

    Confesso q eu havia experimentado a tempos atrás alguns jonhnie walkers na casa do meu sogro mas nunca desceu. Na verdade eu não gostava de nenhum destilado.

    Foi então que caí na graça do Jack Daniels, gelinho de água de côco, e já no final da garrafa só estava tomando on the rocks. Matei está garrafa junto com johnnie red rye, q delícia!

    Então resolvi subir um pouco de nível sem decretar falência e comprei um Woodford reserve após muito ler o seu blog. Inicialmente achei o álcool um pouco mais forte que no Jack Daniels, mas após alguns goles e se acostumar…I’M ON HAVEN. Que sabor marcante, achei o meu bourbon de dormir de conchinha 🙂

    Depois disso tive duas experiências degustando na casa de um amigo: uma com um jw Double Black, o qual confesso q não dei conta não me agradou. Depois tomei um Jameson, como desce liso graças ao processo de destilação tripla, e para mim o mais impressionante foi que ele fica perfeito com gelo! Nunca iria imaginar isso, que alguns whiskys de fato ficam melhores com gelo, e outros não.

    Bom, resolvi dar mais uma chance para a Escócia antes de me declarar americano, e comprei um jw Black e um Chivas Regal extra. Percebi q não tem como dizer q não gosta de algo até tomar uma garrafa inteira (acho q li em algum lugar aqui sobre a teoria da meia garrafa). Quando cheguei. A metade na metade do meu Woodford vi que estava completamente apaixonado kkk

    Meu próximo passo será um glenfiddich 15…e espero num futuro, com um pouco mais de experiência, ter a chance de tomar um lagavulin 16. Assim terei experimentado em poucos whiskys o maior range possível de adversidade em sabores, além de formar a tríplice aliança necessaria: um bourbon, um whisky mais em conta para os dias de trabalho e um single malt para dizer hoje é sexta feira 🙂

    Obrigado por me ajudar no meu planejamento etílico! Kkkkk

    1. Caro Felipe, que fantástico que está gostando do blog. E achei seu plano de ataque muito bom, diversificado e sem preconceitos. Parabéns, o caminho é justamente este. Experimentar tudo aquilo que VOCÊ tem curiosidade, e não se deixar levar pelas opiniões alheias ou que os outros escolham para você. Só assim você pode criar seu próprio gosto, e abordar as bebidas pelo que realmente são para você.

      A teoria da meia garrafa está no Cardhu..rs. E você também tem razão em relação a isso. Muitas vezes passamos reto por algum whisky por conta de uma situação específica (p.e.: estava de mau humor, estava calor, o lugar era feio, tinha gente mala gritando etc.). O melhor é experimentar várias vezes, em várias situações diferentes e humores.

      Você gostou do Jameson, que é um whisky leve e bem feito, com influência de bourbon. ‘fiddich 15 é incrível, mas quer apostar seguro? Singleton of Glen Ord. Ou veja se algum viajante não te traz uma garrafa de Monkey Shoulder do freeshop em uma viagem. Vende nos aeroportos brasileiros. Sobre o LAgavulin – ele é uma versão turbinada do Double Black. Se você não curtiu o carvão, vá com calma. Pegue um Laphroaig Select ou Talisker 10, depois corra pro Laga.

      Mas lembre-se que isto são apenas sugestões. Corra atrás daquilo que você quer tomar!!

  7. Cara que site espetacular, vou comprar o Woodford Reserve, fiquei curioso com as declarações colocadas aqui, vou comprar e depois volto com a minha observação. obrigado.

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