
Pela primeira vez na história do Caledonia, consegui preencher um nicho inteiro com whiskies americanos. Três fileiras de um metro cada, sem repetir rótulo. E ainda tive que dar uma apertadinha, dispondo uma garrafa meio na frente da outra, e tomando cuidado para nenhuma cair. Fiquei orgulhoso, e me pus a pensar como é que isso aconteceu tão rápido.
Acontece que essa proliferação de whiskies americanos é um fenômeno mais ou menos recente. Não me lembro, exatamente, a ordem. Talvez a primeira a arriscar tenha sido a Interfood, com os nichados High West. Dois rótulos, dentre eles o Double Rye, único whiskey de centeio com mashbill clássica em nosso mercado. Isso foi lá por 2023. Uns dois anos depois, chegou o Campfire.
Quase simultaneamente, a Aurora ampliou por aqui o portfólio da Sazerac Company. Primeiro veio o Eagle Rare, ainda no primeiro semestre de 2023. Pouco depois, desembarcou o 1792 Small Batch, produzido na Barton 1792, mas pertencente ao mesmo grupo da Buffalo Trace. Apareceu também o Basil Hayden’s, pela Suntory, que sumiu meio que em seguida. Depois veio o Angel’s Envy.
Em 2025, desembarcaram também o Sazerac Rye e o Maker’s Mark 46. Mais recentemente, a Wild Turkey expandiu sua linha brasileira com o Kentucky Spirit e o cobiçado Master’s Keep Voyage, que fora, naquele momento, o bourbon mais caro oficialmente à venda no país.
Já em março de 2026, a Jack Daniel’s decidiu que uma garrafa seria excessivamente comedida e lançou de uma só vez sua Bonded Series: Jack Daniel’s Bonded, Bonded Rye e Triple Mash, todos engarrafados a 50% de graduação alcoólica e estruturados em torno das regras do Bottled-in-Bond. Essa expansão culminou agora, em junho, com o lançamento de dez — sim, uma dezena inteira — whiskies americanos distintos: seis da Michter’s e quatro da ainda relativamente obscura Nelson Brothers.
Se tudo isso fosse obra de uma única importadora, eu chamaria de imprudência, delírio de grandeza ou ato de fé. Mas participaram desse movimento a Interfood; a Aurora, com as marcas da Sazerac Company; a Suntory; a Bacardi; a Campari; a Brown-Forman; a Inspirits; e, finalmente, a Qualimais. Não parece, portanto, um caso isolado, mas uma tendência bastante clara. O mercado brasileiro de whiskies americanos vem crescendo, enquanto o consumidor busca mais conhecimento, variedade e alternativas ao bourbon de sempre.
Tenho Números
Ao observar as prateleiras lotadas de meu bar, resolvi entender de onde veio este movimento. E encontrei números bem surpreendentes em um relatório do Distilled Spirits Council dos Estados Unidos. De acordo com o documento, em 2024, as exportações de bebidas destiladas dos EUA para o Brasil cresceram 29%, atingindo US$ 62,3 milhões, o que tornou o Brasil o décimo segundo maior mercado de exportação para destilados americanos.
O relatório do Distilled Spirits Council chega a classificar o Brasil como um país prioritário. Diz que fomos o oitavo maior mercado de exportação de whiskey americano em 2024, totalizando US$ 25,6 milhões, um aumento de quase 32% em relação a 2023. Até julho de 2025, as exportações de destilados dos EUA para o Brasil aumentaram 34% na comparação com o mesmo período de 2024, totalizando US$ 50,6 milhões. E sem brincadeira, os números podem até parecer baixos, mas representam o valor de exportação, antes dos impostos brasileiros e das sucessivas margens até o consumidor final.
Há, também, uma questão importante. O mercado doméstico americano retraiu. No ano passado, caiu mais de 1%, o que é algo gigante, considerando o tamanho da produção norteamericana. Recentemente, a Jim Beam inclusive anunciou um hiato na produção, pelo excesso de estoque. Assim, nada mais natural do que procurar escoar por meio de mercados ainda pouco desbravados.
Claro, nosso país continua sendo uma escolha no mínimo exótica, para qualquer exportador. Costumo dizer que é mais fácil trazer legalmente um míssil Exocet para afundar alguma fragata brasileira, do que whiskey. Exigimos certificado de origem, análise laboratorial, e selo do IPI. Que tem que ser colado na origem, e bagunça toda a cadeia produtiva da destilaria. Há padrões bem estritos a serem seguidos tanto em rotulagem quanto limites de congêneres e álcool. Aqui, nada de barrel proof. O limite é 54% ABV, porque, aparentemente, aos 54 graus temos uma bebida; aos 55, uma ameaça sanitária.
E, ainda assim, eles vieram. As marcas aceitaram a burocracia, ainda que meio que como eu aceito acompanhar minha mulher numa loja de bolsas. Isso só, já é bem surpreendente. Mas o que mais me surpreende, é a qualidade. Não fomos vistos apenas como um ralo conveniente para o excesso de produção. Fosse assim, o que desembarcaria por aqui seria bem menos sofisticado e mais genérico.
O que chegou, no entanto, são whiskies que, muitas vezes, são difíceis de encontrar até nos Estados Unidos. Há, claramente, uma visão de que existe por aqui um consumidor disposto a aprender, experimentar e pagar mais por algo além do bourbon servido com gelo e refrigerante. Finalmente, as importadoras têm repetido, em escala corporativa, aquilo que observo diariamente no balcão: existe no Brasil um bebedor engajado, curioso e genuinamente interessado naquilo que está dentro do copo.


