Shackleton Blended Malt – Com Gelo e Realidade

Na maioria das vezes, faço um esforço de abstração para criar uma narrativa suficientemente atrativa, antes de falar de certo whisky. As ideias, entretanto, não vêm fácil – já passei dias tentando unir coisas irrelacionáveis. Outras vezes, porém, a realidade se prova muito mais sedutora do que a ficção, e eu não preciso fazer nada senão reportar o que realmente aconteceu. É o caso, aqui, do Shackleton Blended Malt. Vamos começar pela parte esquisita. Em fevereiro de 2007, um grupo de escavadores foi para a Antártida para reaver os restos do acampamento de um antigo explorador – Ernest Shackleton. Lá, numa maravilhosa serendipidade, encontraram três caixas de whisky totalmente envolvidas no gelo eterno. Rare Old Highland Malt Whisky, engarrafados por Chas. Mackinlay & Co. As garrafas estavam lá desde 1907, e faziam parte do improvável estoque da conhecida Expedição Discovery, capitaneada por Shackleton naquele ano em seu navio Nimrod. Ernst Shackleton foi um homem curioso. Nascido em 1874, ele tinha entre zero e pouquíssimo treinamento formal como explorador. Aliás, carecia dos predicados básicos para uma expedição ao continente gelado. Não gostava de gelo, nem de cachorros, era impulsivo, teimoso e um adúltero contumaz. No entanto, era quase irresistivelmente carismático e […]

Macallan Triple Cask 15 anos – Dos Nomes

Uma vez, li uma matéria sobre como as montadoras escolhem os nomes de seus automóveis. É interessantíssimo. E complicado. O que parece natural é, na verdade, um complexo processo criativo. Primeiro, as companhias consultam seus departamentos de marketing para determinar palavras que refletem o perfil do veículo. Literalmente centenas de ideias são concebidas. Depois, especialistas de diversas áreas escolhem os nomes com base nos mais distintos critérios. Por exemplo, não pode ser uma marca registrada de alguma outra empresa. Não pode ser uma gíria, não pode ser um palavrão em outra língua e tem que soar bem. Isso tudo significa que por trás de todo Ford Pinto, Kia Besta, Mazda Laputa, Lancia Marica e Fiat Punto (experimentem arrancar o “n”) há uma equipe de dezenas de pessoas que falhou miseravelmente. Recentemente, uma das mais famosas marcas de single malt do mundo correu o mesmo risco. A The Macallan, ao lançar sua coleção Quest. A antiga linha 1824 foi substituída por uma de produtos com denominações, diremos assim, mais criativas – Quest, Lumina, Terra e Enigma. E tudo bem, porque os nomes soam bem e, de certa forma, transmitem a noção de sofisticação que a marca pretende passar. Porém – e […]

Entrevista com Chris Morris – Master Distiller da Woodford Reserve

Tom Freston uma vez disse que a inovação e pegar duas coisas que já existem e juntá-las de uma forma nova. O que é verdade. Mas o que Freston se furtou a dizer é que, às vezes, a história não dá muito certo. Como por exemplo um certo carro voador, o Ave Mizar, já mencionado por aqui. O Mizar era a prova de que a soma entre duas coisas ruins sempre resulta em algo muito pior. Por outro lado, o resultado da reunião de duas coisas boas – por uma mente criativa, aliando técnica e conhecimento – geralmente se torna maior do que a soma de suas partes. É o caso, por exemplo, do hambúrguer. E, na indústria do bourbon whiskey, de uma série de produtos da Woodford Reserve. E a mente criativa por trás da marca de enorme renome é Chris Morris. Chris Morris não é um master distiller qualquer. Ele é o criador de produtos incríveis como o Woodford Reserve Double Oaked e o Woodford Rye. É também responsável pela Master’s Collection – uma série de edições períodicas limitadas da Woodford Reserve, que introduzem inovações no mundo do whiskey americano, como um single malt maturado em barricas virgens, […]

Bourbon Whiskey Bacon – Pequenos prazeres

Água fria num dia quente. Água quente num dia frio. O lado geladinho do travesseiro. O cheiro de carro novo, de lareira em brasa e de grama molhada. Tirar o sapato apertado. Despertar no meio da noite apenas para notar que ainda falta mais de quatro horas para o despertador tocar – e adormecer novamente. Aliás. Adormecer. Anestesia de dentista. Ou qualquer anestesia. Há coisas tão simples no mundo, mas que, ao mesmo tempo, dentro de sua infinita singeleza, são absolutamente deliciosas. São pequenos grandes prazeres, provavelmente os únicos consensos absolutos. Afinal, é impossível não gostar de tirar um sapato apertado. Dentro do mundo das comidas, um destes consensos é bacon. E olha, nem estou falando sempre do bacon suíno, porque você pode ser vegetariano ou vegano, eu eu respeito isso. Considere, neste caso, que me refiro a um bacon de berinjela, ou batata, sei lá. Mas aquele sabor característico de fumaça, aliado ao salgado, com crocância e apenas um toque de maciez é impossível de odiar. O bacon é um dos únicos alimentos irretocáveis do mundo. Mas, mesmo assim, nos atrevemos a modificá-lo. Talvez não para aprimorá-lo, mas para transformar em algo tão maravilhoso quanto, só que um pouquinho […]

Jim Beam Rye Perfect Manhattan – Perfeição

É engraçado como, às vezes, uma pequena fração de algo se torna quase tão célebre quanto seu todo. Um bom exemplo é uma singela frase que Tolstoi, em certo ponto de sua obra prima Anna Karenina, coloca na boca de uma personagem. “Se você procurar por perfeição, nunca estará satisfeito“. A declaração, promovida a aforismo, é um trecho de um papo entre Lvov e sua esposa, lá pelo meio da obra. Mas hoje, pouca gente sabe de onde veio a simples mas significativa frase. É como se Tolstoi, em pessoa, a tivesse proferido, em algum momento marcante de sua vida. Descontextualizar a declaração da esposa de Lvov não a faz perder o sentido. Pelo contrário – eleva e expande seu significado. Talvez seja isso que torne Anna Karenina tão clássico. Apesar da barreira da linguagem – afinal, falar russo não é nada simples – e da época em que foi escrito. O livro é o ícone de uma era e de um estilo, e, mesmo assim, continua atual e significativo. Se pudesse traçar um paralelo entre a obra-prima de Tólstoi e um coquetel, escolheria o Manhattan. O Manhattan é um coquetel clássico, um dos maiores ícones de uma época que […]

Lamas Nimbus Caledonia – Lançamos um whisky!

Se você gosta do Ashton Kutcher, talvez esteja familiarizado com uma importante conceito da teoria do caos. O Efeito Borboleta. De uma forma (bem) simplificada, a formulação estabelece que pequenos eventos podem ter efeitos não-lineares em sistemas muito complexos. Por não-lineares, leia-se, enormes ou insignificantes. Deixa eu dar um exemplo, sem usar o clichê da tal borboleta que causa um furacão. Há um provérbio alemão – mais tarde transformado em verso por Benjamin Franklin – que conta a história de um prego solto na ferradura de um cavalo. Um prego que poderia ter causado a queda de um cavaleiro, que levaria à ruína de uma batalha, que desembocaria na perda de uma guerra, e finalmente, na destruição de um reinado. Ou não. Porque, considerando todas as infinitas variáveis daquele momento – dentre elas um único prego na ferradura de um cavalo – seria impossível de dizer ao certo. E foi provavelmente, por conta do Efeito Borboleta – desta vez, em nosso favor – que lançamos um whisky. Sim, nosso primeiro whisky, com o rótulo do Caledonia Whisky & Co – nosso bar em São Paulo. O Lamas Nimbus Caledonia. Um single malt produzido em Minas Gerais pela destilaria Lamas. Uma […]

Jim Beam Rye – Resgates

Sábado, dez horas da manhã. Interfone toca. Dois pacotes na portaria. Dou um discreto salto de antecipação enquanto, quase que simultaneamente, chamo o elevador e amarro a máscara sobre os inevitáveis mullets de quarentena. Adoro receber o que comprei pela internet – a distinção de tempo entre pagar e receber faz tudo parecer um presente. Resgato os dois pacotes, abro o primeiro. Sinto meu semblante de antecipação derreter lentamente para um de decepção. Um quebra-cabeças, comprado pela Cã. Hábito antigo, de criança, que voltou que graças ao tédio proporcionado pela reclusão social. Entendo. É um passatempo perfeito para dois mil e vinte – barato, intelectualmente desafiador e cem por cento compatível com o distanciamento social. Não é à toa que a tradição de montar quebra-cabeças está voltando. Mas acho um saco. Me volto para o segundo pacote, ainda com resquícios de decepção do primeiro. Mas, aqui, a história muda. Meus olhos brilham quando vejo o pescoço verde de uma garrafa que há muito antecipei. O Jim Beam Rye – que acaba de chegar ao Brasil oficialmente. Ignoro o horário – ainda é antes do almoço – e já vou logo abrindo a garrafa. Adoro whiskey de centeio. Aliás, falando sobre […]

Whiskey Brownies – Simplicidade

“A simplicidade é a chave para o brilhantismo”. Da primeira vez que ouvi a frase atribuída a Bruce Lee, estranhei. Não pelo teor da citação, que carrega em si uma simplicidade que facilmente poderia ser transformada em vinte laudas de um ensaio sobre a complexidade de tudo que é – ou que parece -descomplicado. Mas por conta de seu autor. Sempre pensei em Bruce Lee como o ícone das artes marciais, o invencível protagonista do Dragão Chinês e da Fúria do Dragão. O cara que praticamente lançou o Kung-Fu no mundo, muito mais do que qualquer panda. Mas o que poucos sabem – inclusive eu, antes de pesquisar o tema para esta matéria – é que Lee tinha também um cérebro de aço (e não apenas os punhos). Ele se formou na Universidade de Washington em filosofia, e criou toda uma doutrina – Jet Kune Do. Daí, surgiram frases espetaculares, como essa da simplicidade. Ou a célebre “a água pode fluir ou pode bater. Seja água, meu amigo” perfeita como punchline de qualquer livro de autoajuda. Lembrei da tal frase ao tentar definir, em uma conversa com um par de amigos, sobre uma receita que aprendi há muito tempo nem […]

Entrevista com Colin Scott – Custodian Master Blender da Chivas Regal

Poucas pessoas no mundo prescindem apresentações. São aquelas cuja contribuição, cujas criações, têm vida independente de seu criador. Produtos que adquiriram tamanha notoriedade que falam por si. No mundo do whisky, uma destas – poucas – pessoas é Colin Scott. Colin é uma lenda viva na indústria do whisky. Trabalhou para a Chivas Regal por quarenta e sete anos. Deu suas mãos – ou melhor, nariz – surgiram criações incríveis. Mesmo que você não seja um entusiasta do mundo do whisky, você conhece Colin Scott. É dele a assinatura que estampa o pescoço de um dos blended scotch whiskies mais admirados do mundo. O Chivas Regal 18 anos. E a rubrica não é um simples artifício decorativo. Foi Scott que criou o lendário blend em 1996. E depois de quarenta e sete anos de excepcionais préstimos para a indústria do Scotch Whisky, Colin finalmente está se aposentando. Mas não sem antes uma entrevista exclusiva – gentilmente organizada pela Pernod-Ricard Prestige no Brasil – com este Cão Engarrafado. Por uma hora, tínhamos o famoso master blender apenas para nós! Vamos ao papo. É uma honra ter você aqui. Você é um herói para muitos entusiastas do whisky como eu. E acho […]

Suntory Yamazaki 12 anos II – 2020

Essa é a segunda prova do Yamazaki 12 anos neste blog. A primeira foi escrita em 2015 (leia a original aqui). Porém, devido à volta deste desejado rótulo às nossas terras, resolvemos revisitá-lo e fazer uma prova completamente nova. Se você tem um iPhone, abra seu teclado e procure o emoji de onda. Observe com atenção e deixe-me explicar porque esta imagem lhe parece tão familiar. O desenho é baseado em uma obra de arte clássica japonesa do período Edo. A Grande Onda de Kanagawa, uma xilogravura do artista Katsushika Hokusai – parte de sua icônica série de trinta e seis vistas do monte Fuji. Ela é provavelmente a obra de arte mais reproduzida do mundo. Está em muros, sapatos, camisetas, carteiras e até mesmo emojis. Ao longo dos séculos, a obra de Hokusai influenciou grupos e movimentos inteiros da arte. Como a Ar Nouveau, o Simbolismo, os Nabis e os pós-impressionistas. Suas xilogravuras trouxeram a noção de que a pintura é algo bidimensional. A ilusão de profundidade – quando há – é dada somente pela cor. Uma técnica tão importante que foi usada tanto por artistas tradicionalistas, como os primitivos italianos, quanto por ícones da arte moderna, como David […]