Union Virgin Oak Autograph – Quimera

Pegue elementos que funcionam bem sozinhos e os reúna em um único lugar. Você poderá estar diante de um fracasso galopante. Se você discorda, responda sinceramente, sem usar o Google. Você já ouviu falar sobre Honegar? E a Hula Chair? Provavelmente não, certo? O Honegar é mais ou menos o que o nome diz. É uma mistura, em partes iguais, de mel e vinagre de maçã. Ele foi inventado – ou melhor, relembrado – pelo doutor DeForest Jarvis. O médico teria examinado os fazendeiros de Vermont, e constatado que eram extremamente saudáveis. Ao analisar seus hábitos alimentares, descobriu que consumiam boa quantidade de mel e de vinagre. Daí surgiu a ideia de combiná-los. Ainda que bem intencionada, a invenção não vingou. Talvez porque a mistura soe como uma brincadeira de criança, como sopa de ketchup e guaraná, ou coca-cola com sal. A Hula Chair, por sua vez, era um dispositivo que combinava uma cadeira com um bambolê. Ela tentava reproduzir o esforço abdominal do uso do bambolê – o que era, claramente, um exercício – com o conforto de estar sentado – o que, geralmente, não é considerado um exercício. O problema é que a ideia era meio instável, porque […]

Aultmore 21 Anos – Otimismo

Quando eu tinha cinco anos, lembro-me de uma visita que fiz ao pediatra. Ele mediu meu pé, depois, a circunferência da minha cabeça. Com um sorriso de uma criança que acabara de descobrir uma confidência, disse, resoluto, que eu ficaria com mais de um metro e noventa e forte como um pit bull. E aí, trinta anos depois, lembrei dessa história, do alto da minha cabeçorra desproporcional, fixada num corpo que está mais para dachshund, a um metro e setenta e quatro do chão. Mas eu não fui o único a ser ludibriado com profecias de gigantismo por pediatras. É meio regra – você sempre vai ficar com dois metros e dez, jogar basquete com a agilidade de um sagui e ter a massa óssea de um braquiossauro. Mas, décadas depois, termina franzino, com uma estatura medíocre, pés que parecem duas raquetes e ossos empurrando sua pele nos lugares errados. Pediatras são naturalmente otimistas. Acho que é uma questão de expectativa da natureza humana. Você espera que o futuro seja extraordinário. É como, por exemplo, quando eu abro um whisky que nunca tomei na vida – O Aultmore 21 anos, por exemplo, que acaba de desembarcar no Brasil oficialmente. A […]

Compass Box Transistor – Drops

Vou começar esta matéria com uma dica que poderá salvar você, querido leitor, que gosta de tomar whisky ao lado de um copinho de cerveja. Este é um hábito bem comum. Tanto é que no Reino Unido tem até um nome. Boilermaker. Assim como o Pickleback (falaremos disso outro dia), o Boilermaker é quase uma tradição. A combinação de alguma cerveja em pint, normalmente vendida na temperatura ambiente em algum pub, com uma dose de algum whisky bem leve. Nos Estados Unidos, é a união entre uma cerveja suave com algum bourbon ou rye whiskey. Não é bem uma harmonização. Ou melhor, ao menos não é uma harmonização intencional. É um costume. E foi pegando este (nem tão) saudável hábito que a Compass Box Whisky Co., boutique de blended whiskies, criou o Transistor. Um blend especialmente desenvolvido para ser bebido junto – e dessa vez, intencionalmente harmonizado – com a Punk IPA, da BrewDog, e parte da Boilermaker Series da cervejaria. O Compass Box Transistor é um blended whisky, com graduação alcoólica de 43%. Seus principais componentes são Linkwood, Teaninich, Dailuaine e Clynelish, bem como grain whisky da Cameronbridge. A maturação ocorre principalmente em barris de carvalho americano, mas há […]

Final Ward – Aleatoriedade e Combinação

Como já contei aqui em certa ocasião, adoro comida mediterrânea. Especialmente tudo aquilo que vem do mar. E, dentro de meu coração gastronômico, há um prato que possui uma partição só dela. A Paella. A paella – como você já deve saber – é basicamente a mistura de um monte de coisa boa com arroz. A mais tradicional leva frutos do mar e o tal cereal. Mas há versões com invencionices, que somam pato, frango, coelho, banco, feijão, páprica, alecrim, açafrão e por aí vai. E aí está a magia da paella. Na improvável combinação de seus ingredientes. Quem poderia imaginar bacon, frango e polvo se encontrariam em um delicioso megazord gastronômico. E mais, que essa união ficaria absolutamente incrível. A Paella é a confirmação do polêmico aforismo de que um monte de coisas boas juntas ficam ainda melhores. Na coquetelaria, talvez, o coquetel que mais se aproxime do conceito da paella é o Last Word. Ele é, basicamente, a união de partes iguais de quatro líquidos deliciosos. Gim, Chartreuse, Licor de Maraschino e limão. O primeiro, de origem holandesa, o segundo, francesa e o terceiro, italiana. E o resultado sensorial – assim como no caso do prato valenciano – […]

Shackleton Blended Malt – Com Gelo e Realidade

Na maioria das vezes, faço um esforço de abstração para criar uma narrativa suficientemente atrativa, antes de falar de certo whisky. As ideias, entretanto, não vêm fácil – já passei dias tentando unir coisas irrelacionáveis. Outras vezes, porém, a realidade se prova muito mais sedutora do que a ficção, e eu não preciso fazer nada senão reportar o que realmente aconteceu. É o caso, aqui, do Shackleton Blended Malt. Vamos começar pela parte esquisita. Em fevereiro de 2007, um grupo de escavadores foi para a Antártida para reaver os restos do acampamento de um antigo explorador – Ernest Shackleton. Lá, numa maravilhosa serendipidade, encontraram três caixas de whisky totalmente envolvidas no gelo eterno. Rare Old Highland Malt Whisky, engarrafados por Chas. Mackinlay & Co. As garrafas estavam lá desde 1907, e faziam parte do improvável estoque da conhecida Expedição Discovery, capitaneada por Shackleton naquele ano em seu navio Nimrod. Ernst Shackleton foi um homem curioso. Nascido em 1874, ele tinha entre zero e pouquíssimo treinamento formal como explorador. Aliás, carecia dos predicados básicos para uma expedição ao continente gelado. Não gostava de gelo, nem de cachorros, era impulsivo, teimoso e um adúltero contumaz. No entanto, era quase irresistivelmente carismático e […]

Macallan Triple Cask 15 anos – Dos Nomes

Uma vez, li uma matéria sobre como as montadoras escolhem os nomes de seus automóveis. É interessantíssimo. E complicado. O que parece natural é, na verdade, um complexo processo criativo. Primeiro, as companhias consultam seus departamentos de marketing para determinar palavras que refletem o perfil do veículo. Literalmente centenas de ideias são concebidas. Depois, especialistas de diversas áreas escolhem os nomes com base nos mais distintos critérios. Por exemplo, não pode ser uma marca registrada de alguma outra empresa. Não pode ser uma gíria, não pode ser um palavrão em outra língua e tem que soar bem. Isso tudo significa que por trás de todo Ford Pinto, Kia Besta, Mazda Laputa, Lancia Marica e Fiat Punto (experimentem arrancar o “n”) há uma equipe de dezenas de pessoas que falhou miseravelmente. Recentemente, uma das mais famosas marcas de single malt do mundo correu o mesmo risco. A The Macallan, ao lançar sua coleção Quest. A antiga linha 1824 foi substituída por uma de produtos com denominações, diremos assim, mais criativas – Quest, Lumina, Terra e Enigma. E tudo bem, porque os nomes soam bem e, de certa forma, transmitem a noção de sofisticação que a marca pretende passar. Porém – e […]

Entrevista com Chris Morris – Master Distiller da Woodford Reserve

Tom Freston uma vez disse que a inovação e pegar duas coisas que já existem e juntá-las de uma forma nova. O que é verdade. Mas o que Freston se furtou a dizer é que, às vezes, a história não dá muito certo. Como por exemplo um certo carro voador, o Ave Mizar, já mencionado por aqui. O Mizar era a prova de que a soma entre duas coisas ruins sempre resulta em algo muito pior. Por outro lado, o resultado da reunião de duas coisas boas – por uma mente criativa, aliando técnica e conhecimento – geralmente se torna maior do que a soma de suas partes. É o caso, por exemplo, do hambúrguer. E, na indústria do bourbon whiskey, de uma série de produtos da Woodford Reserve. E a mente criativa por trás da marca de enorme renome é Chris Morris. Chris Morris não é um master distiller qualquer. Ele é o criador de produtos incríveis como o Woodford Reserve Double Oaked e o Woodford Rye. É também responsável pela Master’s Collection – uma série de edições períodicas limitadas da Woodford Reserve, que introduzem inovações no mundo do whiskey americano, como um single malt maturado em barricas virgens, […]

Bourbon Whiskey Bacon – Pequenos prazeres

Água fria num dia quente. Água quente num dia frio. O lado geladinho do travesseiro. O cheiro de carro novo, de lareira em brasa e de grama molhada. Tirar o sapato apertado. Despertar no meio da noite apenas para notar que ainda falta mais de quatro horas para o despertador tocar – e adormecer novamente. Aliás. Adormecer. Anestesia de dentista. Ou qualquer anestesia. Há coisas tão simples no mundo, mas que, ao mesmo tempo, dentro de sua infinita singeleza, são absolutamente deliciosas. São pequenos grandes prazeres, provavelmente os únicos consensos absolutos. Afinal, é impossível não gostar de tirar um sapato apertado. Dentro do mundo das comidas, um destes consensos é bacon. E olha, nem estou falando sempre do bacon suíno, porque você pode ser vegetariano ou vegano, eu eu respeito isso. Considere, neste caso, que me refiro a um bacon de berinjela, ou batata, sei lá. Mas aquele sabor característico de fumaça, aliado ao salgado, com crocância e apenas um toque de maciez é impossível de odiar. O bacon é um dos únicos alimentos irretocáveis do mundo. Mas, mesmo assim, nos atrevemos a modificá-lo. Talvez não para aprimorá-lo, mas para transformar em algo tão maravilhoso quanto, só que um pouquinho […]

Jim Beam Rye Perfect Manhattan – Perfeição

É engraçado como, às vezes, uma pequena fração de algo se torna quase tão célebre quanto seu todo. Um bom exemplo é uma singela frase que Tolstoi, em certo ponto de sua obra prima Anna Karenina, coloca na boca de uma personagem. “Se você procurar por perfeição, nunca estará satisfeito“. A declaração, promovida a aforismo, é um trecho de um papo entre Lvov e sua esposa, lá pelo meio da obra. Mas hoje, pouca gente sabe de onde veio a simples mas significativa frase. É como se Tolstoi, em pessoa, a tivesse proferido, em algum momento marcante de sua vida. Descontextualizar a declaração da esposa de Lvov não a faz perder o sentido. Pelo contrário – eleva e expande seu significado. Talvez seja isso que torne Anna Karenina tão clássico. Apesar da barreira da linguagem – afinal, falar russo não é nada simples – e da época em que foi escrito. O livro é o ícone de uma era e de um estilo, e, mesmo assim, continua atual e significativo. Se pudesse traçar um paralelo entre a obra-prima de Tólstoi e um coquetel, escolheria o Manhattan. O Manhattan é um coquetel clássico, um dos maiores ícones de uma época que […]

Lamas Nimbus Caledonia – Lançamos um whisky!

Se você gosta do Ashton Kutcher, talvez esteja familiarizado com uma importante conceito da teoria do caos. O Efeito Borboleta. De uma forma (bem) simplificada, a formulação estabelece que pequenos eventos podem ter efeitos não-lineares em sistemas muito complexos. Por não-lineares, leia-se, enormes ou insignificantes. Deixa eu dar um exemplo, sem usar o clichê da tal borboleta que causa um furacão. Há um provérbio alemão – mais tarde transformado em verso por Benjamin Franklin – que conta a história de um prego solto na ferradura de um cavalo. Um prego que poderia ter causado a queda de um cavaleiro, que levaria à ruína de uma batalha, que desembocaria na perda de uma guerra, e finalmente, na destruição de um reinado. Ou não. Porque, considerando todas as infinitas variáveis daquele momento – dentre elas um único prego na ferradura de um cavalo – seria impossível de dizer ao certo. E foi provavelmente, por conta do Efeito Borboleta – desta vez, em nosso favor – que lançamos um whisky. Sim, nosso primeiro whisky, com o rótulo do Caledonia Whisky & Co – nosso bar em São Paulo. O Lamas Nimbus Caledonia. Um single malt produzido em Minas Gerais pela destilaria Lamas. Uma […]