Shackleton Blended Malt – Com Gelo e Realidade

Na maioria das vezes, faço um esforço de abstração para criar uma narrativa suficientemente atrativa, antes de falar de certo whisky. As ideias, entretanto, não vêm fácil – já passei dias tentando unir coisas irrelacionáveis. Outras vezes, porém, a realidade se prova muito mais sedutora do que a ficção, e eu não preciso fazer nada senão reportar o que realmente aconteceu. É o caso, aqui, do Shackleton Blended Malt.

Vamos começar pela parte esquisita. Em fevereiro de 2007, um grupo de escavadores foi para a Antártida para reaver os restos do acampamento de um antigo explorador – Ernest Shackleton. Lá, numa maravilhosa serendipidade, encontraram três caixas de whisky totalmente envolvidas no gelo eterno. Rare Old Highland Malt Whisky, engarrafados por Chas. Mackinlay & Co. As garrafas estavam lá desde 1907, e faziam parte do improvável estoque da conhecida Expedição Discovery, capitaneada por Shackleton naquele ano em seu navio Nimrod.

Ernst Shackleton foi um homem curioso. Nascido em 1874, ele tinha entre zero e pouquíssimo treinamento formal como explorador. Aliás, carecia dos predicados básicos para uma expedição ao continente gelado. Não gostava de gelo, nem de cachorros, era impulsivo, teimoso e um adúltero contumaz. No entanto, era quase irresistivelmente carismático e um líder nato – destes, que te convencem que é uma boa ideia a ir à Antártida tomar sorvete. Além disso, Shackleton era um entusiasta do álcool.

O Nimrod

Essas características se refletiram em como a Discovery fora planejada. A equipe possuía pouquíssimos trenós e esquis de neve e nenhum treinamento em como usá-los. Ao invés de cães, normalmente utilzados como força motriz, Shackleton preferiu utilizar cavalos – lembrem-se, ele não gostava de cachorros. Cavalos, estes, que por conta do peso e do impacto ao marchar, afundaram na neve e acabaram se tornando jantar da equipe. Mas, apesar da falta de quase tudo, havia algo que abundava a bordo do Nimrod. Álcool. Vinte e cinco caixas de whisky, doze de brandy e seis de vinho do porto.

Isso talvez explique o sucesso e ao mesmo tempo o fracasso gigantesco da expedição. Shackleton e seu grupo de três homens conseguiu realmente chegar onde jamais outro ser humano teria chegado. Mas o preço foi alto. Foram quatro meses de privações e imprevistos, que resultaram, também, no abandono de boa parte dos equipamentos e mantimentos, diremos assim, supérfluos – dentre eles, a caixa de whisky, reencontrada quase um século mais tarde.

Shackleton (2º da esquerda para a direita) e seu grupo (Wild, Marshall e Adams)

E aí é que e esquisita a história vai para interessante. O whisky foi recuperado e levado à Escócia, onde Richard Paterson, o famoso “the Nose”, master blender para a Whyte & Mackay, o provou. E em cima desta prova, recriou um whisky que sensorialmente se assemelhava àquele de Shackleton. Aliás, um não, dois whiskies. E foi assim que surgiu o Shackleton Blended Malt, tema desta prova.

Sensorialmente, o Shackleton Blended Malt é oleoso e intenso. É um whisky equilibrado e muito agradável, com uma leve tendência para o vinho jerez adocicado. O começo é adocicado, mas o final se torna progressivamente mais frutado, com passas, pimenta do reino e cravo. É um perfil sensorial bem acessível, mas que, ao mesmo tempo, é atraente mesmo para o bebedor mais experiente.

Não há informações sobre quais os maltes usados para compor o Shackleton. No entanto, sabe-se que seus ingredientes provém das Highlands escocesas, e que sua criadora é a Whyte & Mackay. Assim, em um palpite educado, poderíamos supor que dois de seus elementos-chave sejam Dalmore e Jura. A teoria ganha força ao provar o whisky, que tem uma nota bem próxima de um jovem Dalmore.

De acordo com Stuart Bertram, diretor da Whyte & Mackay “Richard construiu habilmente o Mackinlay’s Rare Old Highland Malt original, usando uma seleção escolhida a dedo dos melhores maltes das Highlands, permitindo que eles se casassem por um longo período para criar um blended malt contemporâneo e enigmático que é rico, robusto, com sussurro de fumaça (…). Com a acessibilidade de um blend e as credenciais artesanais de um malte, esta marca única e histórica busca trazer bebedores de destilados modernos para o scotch whisky, além de fornecer uma nova alternativa premium para os fãs de whisky.”

The nose nosing.

O único ponto a ser observado a respeito do Shackleton Blended Malt é seu preço. No Brasil, uma garrafa custa em torno de R$ 600. É bastante dinheiro, ainda mais considerando que pode-se comprar single malts com idade declarada ou blends bastante maturados por uma fração deste valor.

Porém, é impossível não recomendar o Shackleton. Ele é o tipo de whisky perfeito para qualquer situação, clima ou horário em que seja socialmente aceitável beber whisky. Do calor de quarenta graus dos trópicos brasileiros às geleiras eternas da Antártida, o Shackleton Blended Malt é uma excelente escolha.

SHACKLETON BLENDED MALT

Tipo: Blended Malt sem idade definida (NAS)
Marca: Whyte & Mackay / Mackinlay’s
Região: N/A
ABV: 40%


Notas de prova:


Aroma: caramelo, baunilha, açúcar mascavo, frutas secas
Sabor: textura oleosa, começa adocicado e floral, com baunilha e caramelo, e vai se tornando progressivamente vínico e frutado. Final longo, com passas e ameixa.

3 thoughts on “Shackleton Blended Malt – Com Gelo e Realidade

  1. Grande Cão! Texto delicioso como sempre. Estou me enveredando nos caminhos sem volta do whisky e bourbon há algum tempo, não tanto quanto o canídeo, mas tenho apreciado e me divertido muito na caminhada. Estou a ponto de experimentar meu primeiro single malte e gostaria de pedir seu auxílio sobre por onde começar. Para te dar alguma base, meu paladar se alinha mais com os Johnnie Walker Green e Black (embora ainda haja muito para experimentar). Obrigado pelos textos e dicas e grande abraço.

    1. Opa, tudo bem, Allan? Olha, eu iria pelo caminho natural, pegaria um Glenlivet Founder’s ou Glenfiddich. Ainda que, para seu paladar, meu truco é que voce vá gostar do Talisker 10

  2. Que bacana a história deste whiskey!
    Tive a oportunidade de ler o livro do Shacketon (um dos melhores que já li na vida) e fiquei tentando encaixar aqui os fatos que me lembro da expedição os unindo com este momento de terem que abandonar os suplimentos e as caixas de whiskey para trás.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *