Drops – Compass Box Menagerie

A humanidade já teve uns períodos bem esquisitos. E nem tô falando da década de oitenta, em que tudo era horroroso a ponto de até o Almodóvar fazer um filme inassistível. Me refiro a épocas bem mais remotas. Como, por exemplo, a idade média. Além da inexistência de padrões mínimos de higiene, o povo medieval curtia uns troços bem esquisitos. Especialmente os nobres. Por exemplo, muitos deles mantinham coleções de animais exóticos em suas cortes reais. Algo que, pra mim, e talvez aqui denuncie a idade, parece coisa do Sigfried & Ross. Essas coleções malucas se chamavam Menageries, e eram símbolos de poder, usados com o único fim de ostentar. Ao invés de ter uma Lamborghini – mesmo porque Lambos não existiam – o cara comprava um par de, sei lá, hipopótamos. E aí, tinha que ter um cara só pra limpar a montanha de caca no meio do palácio. E evitar que o tigre de bengala, que fora presente de outro nobre sem noção, não tentasse devorá-los – ou devorar o cuidador. Mas tudo era recompensador, porque quando a corte inteira ficava fedendo a cocô, o nobre podia dizer “ah, esse aroma é porque eu ganhei um casal adorável […]

Cutty Sark Prohibition – Abstinência

Há uns meses decidi que não tomaria mais café. Começara com uma curiosa dor de estômago, e pensei, em minha ingenuidade, que devia escolher frentes. Renunciar ao whisky seria absolutamente impossível. Então, abri mão do segundo líquido que mais consumia – o que me parecia fácil. Café, para mim, soava mais como um hábito do que realmente uma necessidade. Um desses muitos rituais diários meio desnecessários que temos, tipo tomar banho e escovar os dentes. Mas eu estava enganado. Os primeiros dois dias correram quase sem problemas, apesar de uma malemolência incontornável. No terceiro, abri um saco de café só para sentir o cheiro. No quarto, finalmente venci minha força de vontade. Concluí empiricamente que café pra começar o dia é tão necessário quanto whisky para terminá-lo. Fiz meio balde de coado e tomei cinco espressos. No final da tarde, minha mandíbula tremia de emoção. Ou de cafeína, vai saber. Aí fiquei pensando como seria o mundo se eu não pudesse beber café. Uma coisa levou a outra, e imaginei se eu não pudesse beber whisky. Me lembrei que isso já aconteceu. Em 16 de Janeiro de 1919, nos Estados Unidos. Foi o conhecido Volstead Act, ou Lei-Seca Norte-Americana. O […]

Old Parr 18 anos – Iguaria

Recentemente, um grupo de comensais elegeu uma iguaria islandesa, conhecida como hákarl, como a pior comida do mundo. Um dos corajosos provadores inclusive, disse que aquilo era “a pior coisa que eu já coloquei na minha boca“. Sem julgamentos de valor aqui. Ainda que eu nunca tenha provado, as descrições menos sintéticas fazem alusão a palavras pouco convidativas à mesa, como podre, ácido, putrefeito, urina e – brilhantemente em minha opinião – cocô. O que não é surpreendente. Hákarl faz parte do Þorramatur – o prato nacional da Islândia – e é feito de tubarão podre. Mais especificamente, o tubarão-da-groenlândia. Que possui carne venenosa devido à alta concentração de ácido úrico. É este processo de putrefação e cura que o torna (discutivelmente) consumível. O tubarão-da-Groenlândia não é lá um bicho muito aprazível quando preparado como alimento. Mas, é menos ainda quando encontrado vivo. Suas barbatanas são pequenas, atrofiadas e cheias de marcas. O couro é áspero e irregular. O maxilar protuberante faz com que os dentes fiquem à mostra, e parasitas asquerosos se penduram em seus olhos e se alimentam de sua córnea – que aliás não servem para muita coisa além de reforçar já um ar repulsivo. Mas, apesar […]

Johnnie Blonde – Katsuobushi

Katsuobushi. Katsuobushi é a mais nova adição ao meu léxico de alimentos esquisitos que tanto aprecio. Num jeito bem rudimentar de explicar, katsuobushi é peixe seco ralado. Ou, mais especificamente, uma conserva seca, desidratada, às vezes defumada, de carne de peixe – geralmente atum-bonito – em finíssimas fatias, quase transparentes. E, como a descrição sugere, sozinho, tem o mesmo sabor de uma meia úmida utilizada por quatro horas para atravessar um manguezal. Mesmo que eu nunca tenha comido meia suja de manguezal. Só que, em conjunto com outros ingredientes, katsuobushi é incrível. Em sopas orientais fica fantástico, no sanduíche de gravlax – aliás, temos isso em nosso bar – é maravilhoso. O tal ingrediente oriental faz parte daquele conjunto incrível de ingredientes que não faz o menor sentido puro, mas, quando misturado, ganha vida e profundidade. Como também coisas bem mais elementares, como farinha, sal, e tofu. Se bem que tofu continua ruim, mesmo depois de misturar com quase qualquer coisa. Mas, enfim, são ingredientes que foram concebidos para serem combinados. No mundo das bebidas alcoólicas, há elementos assim também – bitters, normalmente. Mas whisky, por convenção, não. Até hoje, pouquíssimos whiskies foram criados e desenvolvidos especialmente para misturas. É […]

Drops – Compass Box The Peat Monster Arcana

Drops são nossos posts menores, de análise ou curiosidades do mundo do whisky, e que contam com rótulos indisponíveis no Brasil – mas com alguma particularidade interessante. Para ler outros drops, clique aqui Expectativa é uma coisa engraçada. Há whiskies que, só de ler, me dão nervoso para experimentar. Mas que são decepção do momento de abrir o lacre a dar o primeiro – e algumas vezes o último – gole. Há outros que são o oposto. Não provocam nem um arquear de sobrancelhas durante a leitura. Mas, ao primeiro gole, me deixam acenando positivamente com a cabeça – depois, claro, de dizer algum palavrão de enaltecimento qualquer. E há aqueles que são os dois. O Compass Box Peat Monster Arcana está nesta classe. Aliás, a Compass Box Whisky Co. quase gabarita esta classe. A empresa foi fundada em 2000 por John Glaser, ex executivo da Diageo, como uma espécie de produtora boutique de whiskies de altíssima qualidade. A maioria de seus rótulos possui alguma invencionice, ou iconoclastia. A empresa procura sempre trazer inovações, e expandir as fronteiras da produção de whisky – e claro, com um storytelling perfeito. O Compass Box Peat Monster Arcana é, de certa forma, a […]

Cutty Sark – “Reentrada” – 2021

Em 15 de maio de 1963, a NASA lançava sua última missão tripulada do Projeto Mercury. O objetivo da missão era, principalmente, avaliar os efeitos no corpo humano de uma estadia mais prolongada no espaço, bem como realizar alguns experimentos. A missão foi realizada pelo astronauta Gordon Cooper. Durante os vinte e um dias que ficou em órbita, Cooper fez coisas bem legais, tipo soltar um minisatélite no infinito, medir níveis de radiação no espaço e, bom, dormir. Ele foi a primeira pessoa a dormir em órbita. Gordon também foi agraciado com uma vista estonteante a partir de sua espaçonave. Ele fez diversas fotos, e conseguiu ver detalhes impressionantes de nosso planeta, como estradas, rios e pequenos povoados. Descreveu que conseguia até mesmo ver a fumaça saindo das chaminés das casas no Tibet – devido à atmosfera rarefeita – e julgar para que lado o vento soprava sobre a cordilheira. Mas nem tudo foi poesia durante a jornada de Cooper. Durante sua vigésima primeira volta ao redor da Terra, o inversor de energia da nave entrou em curto circuito e apagou todas as leituras de altitude e velocidade – algo que atrapalharia bastante o trabalho de retornar à salvo para […]

Logan Heritage Blend – Herança

Ah, por causa do Vinícius. Toda vez que menciono o nome deste blog a um interlocutor incauto, há sessenta e cinco por cento de chance dele mencionar o poetinha. Eu já contei. Durante uma época, até tomava nota. Este daí perguntou. Esse não. Eu costumava proferir o nome do blog e já engatilhar um sorrisinho de soslaio de antecipação à pergunta. Isso mesmo, a inspiração é o Vinícius de Moraes, sabe, eu adoro aquela frase, que o whisky é o melhor amigo do homem, é o cachorro engarrafado, que legal que você notou. Depois, ao abrir o Caledonia, outras indagações e afirmações se juntaram ao caderninho de recorrências. Você tem whisky japonês? Você tem aquele canadense do Mad Men? E aquela marca de Taiwan? Este daí é o do James Bond – e aponta pra uma garrafa de The Macallan. E eu sorrio, e respondo, já meio ensaiado, porque o negócio é tipo escovar os dentes ou dirigir até o trabalho. Você já engata o piloto automático e depois até fica assustado quando recobra a consciência voluntária. Mas, dessas perguntas e observações, há uma que eu sempre presto atenção. Meu pai bebia – ou bebe – esse daí. Meu pai […]

Johnnie Walker Blue Label Legendary 8 – Simbolismo

Quando era criança, minha mãe me dizia que era muito importante aprender matemática. Você vai usar tudo que aprender de matemática em algum momento da sua vida. E ainda que não visse utilidade nenhuma em saber sobre números primos, imperfeitos, defectivos, perfeitos, mais que perfeitos ou abundantes, o conselho – e os conceitos – ficaram bem amarrados em minha mente. Vamos rememorar, e eu prometo que chegarei a algum lugar. Números perfeitos são aqueles cuja soma de seus divisores é igual a seu próprio número. Seis, por exemplo, que é igual à soma de um, dois e três – seus divisores. Imperfeitos, são aqueles que referida soma é menor do que o número. Já mais que perfeitos são o contrário – a soma é superior ao numeral. Como doze, porque um mais dois mais três mais quatro mais seis dá dezesseis, que é mais que doze. E há também aqueles números cuja soma de seus divisores é igual a seu antecessor. Como, por exemplo, oito. Estes são convenientemente chamados de números quase-perfeitos. E é engraçado como o conselho de minha mãe tem uma estranha forma de fazer sentido depois de quase trinta anos, porque a Diageo acaba de lançar o […]

Compass Box Spice Tree – Mescla

Maverick. Se pudesse escolher uma palavra perfeita para resumir esta prova inteira, esta palavra seria Maverick. Ou Maverique, se preferir o neologismo. E não é por causa do carro, nem do míssil, tampouco do personagem de Top Gun, ou do apostador estrelado por Mel Gibson. E para os mais íntimos, também não tem a ver com meu finado cãozinho, mascote deste infame website, orgulhosamente apresentado na tela inicial. Todos estes significados, na verdade, são derivativos. A palavra maverick surgiu nos Estados Unidos no começo do século dezenove, por conta de Samuel Augustus Maverick, um fazendeiro meio maluco que se recusava a marcar seu gado. É que naquela época, o Texas era um estado selvagem, cheio de grandes planícies, fazendeiros, caubóis armados e baixíssima densidade demográfica – assim como hoje, pra falar a verdade. Mas, enfim, os fazendeiros do Texas marcavam seu gado com ferro quente. Mas não o senhor Samuel. O senhor Samuel, espertamente, se recusava a marcar seu gado. E se indagado sobre a omissão, esclarecia que “Se todos os outros fazendeiros marcam, eu não preciso marcar. Por exclusão, todos os sem marca são meus“. Com o tempo, o significado da palvra Maverick se expandiu. E passou a definir […]

Johnnie Walker Celebratory Blend – Sonambulismo

O cansaço é realmente uma condição surreal, pensei, enquanto puxava a rolha e descia uma generosa dose em um copo baixo. Duas e doze da madrugada. O último par e meio de horas deslizou por mim totalmente despercebido. E, agora, congelado no exato momento que a primeira gota se precipitava pela boca da garrafa, refletia sobre como tinha chegado àquele momento. Tenho alguns lampejos de memória recente. Depois de ter ido dormir às duas e acordado às cinco no dia anterior, decidi que seria uma boa ideia uma corrida matinal. Voltei, tomei banho, um ofurô de café e resvalei por três reuniões consecutivas, que desembocaram em algo que poderia ser considerado um jantar – um frango curiosamente cru de um lado e carbonizado do outro. Depois, meu corpo – que claramente já havia sido abandonado por meu cérebro – decidiu que seria uma boa ideia começar uma matéria para este blog. Nove e meia da noite, mais ou menos. Segui catatônico contemplando a tela em branco por uma hora e meia, até, finalmente, assumir a derrota, desligar o computador e ir para cama. E aí, a coisa mais curiosa aconteceu. Passei na frente de minha cristaleira de whiskies e, de […]