Cutty Sark – “Reentrada” – 2021

Em 15 de maio de 1963, a NASA lançava sua última missão tripulada do Projeto Mercury. O objetivo da missão era, principalmente, avaliar os efeitos no corpo humano de uma estadia mais prolongada no espaço, bem como realizar alguns experimentos. A missão foi realizada pelo astronauta Gordon Cooper. Durante os vinte e um dias que ficou em órbita, Cooper fez coisas bem legais, tipo soltar um minisatélite no infinito, medir níveis de radiação no espaço e, bom, dormir. Ele foi a primeira pessoa a dormir em órbita.

Gordon também foi agraciado com uma vista estonteante a partir de sua espaçonave. Ele fez diversas fotos, e conseguiu ver detalhes impressionantes de nosso planeta, como estradas, rios e pequenos povoados. Descreveu que conseguia até mesmo ver a fumaça saindo das chaminés das casas no Tibet – devido à atmosfera rarefeita – e julgar para que lado o vento soprava sobre a cordilheira.

Mas nem tudo foi poesia durante a jornada de Cooper. Durante sua vigésima primeira volta ao redor da Terra, o inversor de energia da nave entrou em curto circuito e apagou todas as leituras de altitude e velocidade – algo que atrapalharia bastante o trabalho de retornar à salvo para a Terra. Além disso, Gordon notou que os níveis de gás carbônico em seu traje aumentavam à medida que o oxigênio rareava. Ainda que a situação fosse calamitosa, Gordon apenas declarou, serenamente “as coisas estão começando a se acumular por aqui“.

Muitos poderiam indagar a razão da calma do astronauta. E ninguém, senão o próprio Cooper, sabe ao certo. Uma das hipóteses, entretanto, envolve whisky. Gordon Cooper gostava de Cutty Sark, e havia escondido uma miniatura de garrafa na espaçonave, para fazer um lanchinho caso julgasse necessário. O que levanta outro ponto interessante – Cutty Sark foi talvez o primeiro whisky a dar uma volta completa ao redor da terra. Do espaço!

Por isso essa risadinha

O Cutty Sark foi sempre um whisky pioneiro. Ele foi lançado em 1923 pela Berry Bros. & Rudd, uma empresa de comerciantes de bebidas. O blend fora desenvolvido por eles especificamente para agradar ao paladar dos norte-americanos. O que era um movimento bem ousado – foi uma das primeiras vezes na história que um whisky foi desenvolvido mirando uma audiência específica. Seus criadores sabiam que os americanos apreciavam whiskies mais leves, menos enfumaçados e mais parecidos com os irlandeses. A criação do Cutty Sark se baseou justamente nisso.

Atualmente, a composição do Cutty Sark leva mais de 40 single malts diferentes. Os maltes que entram em sua fórmula, entretanto, são um mistério. Em 2018 – pouco tempo depois de nossa prova original do Cutty Sark – a marca foi vendida pelo Edrington Group – detentor da The Macallan e Highland Park – para o grupo La Martiniquaise, juntamente com a destilaria Glen Moray. De lá para cá, é possível que a composição tenha se alterado. Razão pela qual, aliás, resolvi revisitar o rótulo. Este Cão, entretanto, não notou diferença relevante. O que é ótimo – blended scotch whiskies devem primar por padonização. Independente dos ingredientes do blend, o perfil sensorial deve ser sempre o mesmo.

O nome “Cutty Sark” foi proposto pelo artista escocês James McBey, que fez um rascunho do rótulo em um guardanapo, durante a primeira conversa com os irmãos Rudd para criar o whisky. O rótulo – com o navio – foi desenhado pelo artista sueco Carl Georg August Wallin e figura nas garrafas desde 1955. Reza a lenda que o amarelo no fundo do rótulo teria sido um acidente. Desenhado com uma cor mais pálida, a gráfica responsável teria se enganado, mas os proprietários – Francis e Walter Berry e Hugh Rudd – gostaram do resultado, e resolveram mantê-lo.

O produto deu certo, e alcançou fama num momento de revés para a indústria da bebida alcoolica. O Volstead Act, também conhecido como a Lei-Seca norte americana. Foi naquele período que o whisky ganhou notoriedade ao ser “importado de forma independente” (isso é um eufemismo) por um distinto capitão chamado William McCoy. De acordo com Marcelo Sant’Iago, do Difford’s Guide “De humilde construtor de barcos a procurado pela Lei Seca, William McCoy foi o “rum runner” (apelido dado aos contrabandistas de rum durante a Lei Seca) original. Navegando na famosa “rum row”(linha imaginária no limite das águas territoriais dos EUA), forneceu álcool para a costa leste dos Estados Unidos, desde a Flórida até o extremo norte, no Maine. A expressão “the real McCoy” ate hoje é usada como sinônimo de algo de qualidade“.

The Real McCoy

E qualidade, naquele momento, era algo que realmente importava. Naquela época, o Cutty Sark se mostrou uma alternativa excelente para todos aqueles que queriam continuar a dar seus tragos, mas não queriam arriscar ficar cegos ou morrer lentamente e dolorosamente de envenenamento por metais pesados e álcoois superiores, contidos nos whiskies feitos no fundo do quintal dos americanos.

A palavra de ordem do Cutty Sark é – e sempre foi – leveza. Sensorialmente, o Cutty Sark é adocicado e delicado, com uma nota herbal de fundo que traz harmonia ao blend. O final é curto e adocicado. E ainda que o álcool possa ser percebido, ele não incomoda. É um blend bem acessível – tanto sensorialmente quanto financeiramente – e que funciona bem na maioria das oportunidades de consumo.

Para aqueles que buscam um blended scotch leve e adocicado, com preço e perfil sensorial acessível, o Cutty Sark é uma ótima opção. Esteja você em casa, no bar, ou numa cápsula espacial orbitando o planeta Terra.

CUTTY SARK BLENDED SCOTCH WHISKY

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: Cutty Sark

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: vegetal, floral. Muito suave.

Sabor: mel, malte, frutas cristalizadas. Final curto, adocicado e floral.

*a degustação do whisky tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

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