Whiskies jovens (ou sem idade declarada) muito bons

“O tempo é a substância da qual sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me devora, mas sou o tigre; é um fogo que me consome, mas sou o fogo” escreveu Borges em sua Nova Refutação do Tempo. Desgraçadamente – para continuar no tema Borgiano – tenho tido bastante tempo para pensar nele mesmo. Não em Borges. Mas no tempo. Ultimamente, a passagem do tempo tem me trazido ansiedade. Almejo que tudo passe logo, para voltar àquele status quo. Trabalho normal, vida corrida. Aquele em que o tempo passa tão rapidamente que nosso anseio se torna justamente o contrário – que ele demore mais. Normalmente, a passagem do tempo não é muito querida. Exceto quando em quarentena e durante alguma aula chata de matemática. E – de acordo com o senso comum – com whiskies. É que muita gente acha que idade é sinônimo de qualidade em whisky. Mas este pensamento está absolutamente equivocado. Há características sensoriais de whiskies jovens que são praticamente irreplicáveis em whiskies mais maturados. A turfa, por exemplo. Whiskies turfados são, sensorialmente, muito mais turfados quando há pouca maturação. A influência sensorial da turfa […]

San Basile White Dog – Raio X

Quando era criança, bati a cabeça bem forte. O que, num parêntesis, é uma explicação bem verossímil para certos comportamentos que tenho hoje. Eu estava me preparando para dormir, saí correndo e pulei na cama, mas devia estar empolgado demais, porque errei o alvo e fui direto na parede. Quanto aterrizei no travesseiro, não sentia metade da testa, mas percebia um líquido quente e viscoso que descia pelas minha têmpora esquerda, até a orelha. O resto foi drama. Mãe gritando, carro, hospital, raio-x. Raio-X. Quando o médico chegou com a imagem do raio-x na mão, minha mãe ficou aliviada. Nada demais, apenas uma meia dúzia de pontos na testa, que mais tarde se tornariam uma pequena cicatriz. Mas, mais do que isso, eu fiquei maravilhado com aquela foto. Então era assim que eu era por dentro. Uma intrincada combinação de pedaços que mais pareciam um vaso de porcelana quebrado e depois colado. Anos mais tarde – e sem qualquer relação direta com o acidente – vi uma série de outras imagens de raio-x, de coisas e bichos aleatórios. Achei bem legal. Um celular não é muito mais do que uma chapa cheia de furinhos e circuitos. E um pinguim – […]

Suntory The Chita – Carpe Diem

Uma amiga colocou uma imagem bonita. Fonte cursiva, aurora do dia, com a mensagem “que o hoje seja aproveitado sem o peso do ontem ou a expectativa do amanhã“. Balancei a cabeça com desgosto. Isso não é catártico, é infantil e egoísta. Se eu aproveitar o hoje sem o peso do ontem ou a expectativa do amanhã, vou torrar minha conta bancária com whisky sem pensar na minha família. Não vou tomar banho e vou esquecer de cortar a unha, porque, poxa, que perda de tempo cortar a unha, deixa pra amanhã, hoje tá boa pra coçar atrás da orelha. Aquilo que pode aparentar libertador, talvez seja apenas infantil e irresponsável. Quase todas as nossas atitudes são alicerçadas em experiências passadas. Recorremos ao passado para planejar nosso futuro. Não viver no presente é ser racional. Nós não vencemos como espécie por viver no presente – mas por planejar nosso futuro. E tem a parte do whisky. É que se todos pensássemos assim, somente no agora, não haveria whisky. Whisky demanda planejamento e paciência. Talvez o exemplo mais clássico aqui seja o fenômeno que ocorreu, há alguns anos, com os whiskies japoneses. Os bons whiskies japoneses – ao menos single malts e […]

Fettercairn 12 – Brilho do Sol

A vida moderna, também, é geralmente uma opressão mecânica, e o álcool é o único alívio mecânico” uma vez escrever o velho Ernst, em tom quase profético. Opressora e compressora, essa vida moderna. Ainda mais no último mês. Comprimido em casa, sem poder sair, realmente, uma dose de whisky é quase um abraço – hábito que, aliás, também está oprimido. Talvez seja por isso que tenha bebido tanto whisky ultimamente. Graças à quarentena, meu novo hábito etílico prescinde horários. Uma da tarde é um momento totalmente aceitável para começar. O sol a pino, escondido por trás da laje, exige algo floral e delicado. Algo com um certo frescor, sofisticado, porém com um perfil de sabor casual. Como, por exemplo, o single malt Fettercairn 12 anos, recém chegado ao Brasil. O Fettercairn 12 anos é um whisky perfeito para qualquer momento. Sensorialmente, traz frutas maduras e cítricas, e um toque de pimenta do reino. Não chega a ser um whisky delicado, mas está aquém da intensidade de um Dalmore, ou algum monstro defumado de Islay. De certa forma, faz sentido. A Fettercairn está posicionada como uma marca super-premium. Nada mais natural que, sensorialmente, seja acessível mesmo para o leigo, acostumado com […]

Code Nine Single Malt – Produtividade

Shakespeare escreveu King Lear durante a quarentena da peste bubônica. Já Isaac Newton desenvolveu o alicerce de sua teoria da gravidade. E Giovanni Boccaccio escreveu uma de suas mais famosas obras. O Decameron: uma coletânea de mais de cem contos contados por um grupo de sete pessoas que se refugiavam da Morte Negra em Florença. O livro, mais tarde, tornou-se também uma das mais clássicas obras do cinema, dirigido por Pasolini. Eu, por outro lado, ganhei um quilo e meio e fiz uma porção de descobertas. Todas elas, baseadas na mais pura e entediante contemplação. Como, por exemplo, que o rei de copas é o único dos quatro naipes que tem bigode. Que morcegos ficam de ponta cabeça mas fazem xixi com o rabo pra baixo. E também que crianças fazem em torno de duzentas e noventa perguntas por dia – exceto pelas minhas, que devem fazer umas quatro mil. Quatro mil cada uma. E tem também a tensão do bar fechado. Só de pensar no Caledonia de portas cerradas, me dá uma angústia e falta de ar mesmo sem COVID-19. Para aliviar um pouco a tensão, estabeleci uma meta. De experimentar – no sentido amplo de experiência – uma […]

Balvenie Portwood 21 – Quarentena

Estou há nove dias de quarentena. Mas talvez sejam onze. Os dias da semana não importam mais. A quarentena deu todo um novo sentido para o carpe diem. Eu acordo quando acordar, durmo quando dormir e como quando tiver fome. Minha agenda é do mais cândido vazio. Não há mais horário para nada. É socialmente aceitável beber whisky às nove horas da manhã. Não tenho feito muito exercício, também. A única coisa que tenho exercitado ultimamente é meu ódio. Por exemplo, pelas pessoas que em breve morrerão de inanição mas com a bunda limpa, depois de terem saqueado todo papel higiênico do supermercado. Já tentei uma série de passatempos, dos mais sofisticados – xadrez com a Cã – até os mais triviais, como tentar engolir a própria língua e tentar não pensar em nada, mas continuar pensando em não pensar. Há, porém, algo positivo. Tenho aproveitado o tempo para provar whiskies que há tempos tinha em casa, mas jamais abrira. Talvez por falta de coragem. Talvez por aguardar um momento especial. Bem, não há momento mais especial do que agora, uma segunda-feira. São nove e trinta e dois da manhã, e todo mundo aqui em casa está dormindo. Para melhorar, […]

Teacher’s Highland Cream (Escocês)

Hanna Arendt uma vez escreveu que ” Das coisas tangíveis, as menos duráveis são as necessárias ao próprio processo da vida. O seu consumo mal sobrevive ao acto da sua produção “. Se não fosse por um hiato de poucas décadas – e talvez minhas dúvidas sobre as preferências alimentares da filosofa – poderia jurar que Hannah escrevera o excerto depois de pedir uma batata frita de delivery. Há poucos alimentos mais efêmeros do que a batata frita de delivery. Nem carne, nem massas, sofrem tanto. Nem mesmo o hambúrguer, companheiro inseparável da batata frita, apanha desse jeito. Vinte minutos em um espaço confinado, no baú do entregador, são suficientes para transformar a mais deliciosa e crocante fatia em um negócio frio, mole e murcho. Batatas fritas definitivamente não viajam bem. Outro produto que sempre ouvi que não era o mesmo depois da viagem – neste caso, uma transatlântica – é o whisky Teacher’s. Produzido na Escócia e transportado em tanques estanques, o Teacher’s era cortado (diluído) e engarrafado no Brasil. O processo tornava a logística mais barata, e permitia que o Teacher’s tivesse preço de combate por aqui sem sacrificar a qualidade. Porém, ouvira de mais de um bebedor […]

Robert Burns Single Malt – de ratos e flores

Se você acompanha o Cão há um tempo, já deve ter ouvido sobre Robert Burns. Ele foi o mais importante poeta escocês de todos os tempos, e um enorme expoente do movimento romântico. A envergadura de suas obras é enorme. Burns tratou de assuntos de enorme distinção. Da iniquidade social do século dezoito a sua paixão por embutidos de caprinos. Em uma de suas mais conhecidas obras, o poeta discorre por mais de três estrofes sobre o sabor inigualável de uma buchada de bode. Em outras duas, se martiriza por ter esmagado com seus pés uma margarida – a florzinha – e uma toca de ratos. O último inclusive, inspirou o escritor Sidney Sheldon ao batizar seu romance “The Best Laid Plans”. É capaz de ter também servido de inspiração para o James Blunt, mas vamos manter um nível administrável aqui. Mas não foi apenas nas artes que Robert Burns inspirou criações incríveis. Na área das bebidas, o poeta é uma influência importantíssima. Foi em sua homenagem que um dos mais importantes coquetéis de scotch whisky foi nomeado – o Bobby Burns. E também em sua referência que a Arran, destilaria localizada na ilha homônima na Escócia, batizou sua linha […]

Macallan Double Cask 12 Anos – Genética

A genética é uma coisa linda. É incrível que, apesar de parecer tão intangível, seja ela a responsável por quase tudo que fazemos. Como reagimos a estímulos, alguns de nossos gostos, nossas fobias naturais e nossa compleição física. Tudo isso, de certa forma, é influenciado pela genética. Veja o exemplo de meu querido filho, o Cãozinho. O Cãozinho é, fisicamente, bem parecido comigo. Mas o mais surpreendente mesmo são as semelhanças imateriais. Ele tem uma aptidão natural para o desastre. Algo que só pode ser explicado pela carga cromossômica que lhe transferi. Ele tropeça no próprio pé e derruba coisas que segurava do nada. Ele também é um voraz devorador de absolutamente qualquer coisa – onivoridade compartilhada com o pai glutão. Além disso, não é a criança mais atenta que eu conheço. Toda vez que o vejo parado, mirando fixo para um horizonte imaginário, sei exatamente o que está se passando por sua cabeça. Tudo. Tudo menos o que está à sua volta. E, num repente, ele – digo, nós – voltamos à realidade com aquele semblante meio bobo, como se tivéssemos sido teleportados para a realidade. Somos parecidos demais para não ser isso. Eu só sou trinta e dois anos […]

Tamnavulin Double Cask – Derradeiro

Ano novo. Uma das poucas festas que realmente aprecio. O otimismo exacerbado e a hipocrisia de fazer planos para um ano inteiro, mas mergulhar na inconsequência de uma noite. Minha imagem mental do ano novo sempre trazia fogos de artifício – normalmente refletidos em um mar de sorrateiras ondas – e um burburinho animado de pessoas de branco, tomando espumante. Mas aqui estou, no silêncio de meu quarto, na frente do computador, escrevendo. Não há fogos, nem champagne, nem barulho. Apenas um copo de single malt à meia luz e o tlec tlec produzido pelos meus dedos. Meu traje – no singular – neste momento não apenas seria inapropriado para participar de uma festa de ano novo como, provavelmente, seria impróprio para ir a qualquer lugar sem correr o risco de ser preso ou gerar um escândalo. E apesar disso tudo, sinto que estou justamente onde deveria. Dois mil e dezenove foi um ano agitado. Foram mais de quarenta e dois whiskies revistos, dezessete coquetéis apresentados e dez matérias sobre todo tipo de abobrinha relacionada a whisky. Mas meu trabalho não estaria completo por aqui sem um último post. A prova de um single malt de Speyside que corajosamente entrou […]