Glenlivet Code – Spoiler

Cã para mim, na farmácia. Você não vai comprar os Cotonetes? Claro que vou, olha aqui. Mas isso não são Cotonetes. Olhei intrigado, talvez por não ter notado o cê maiúsculo próprio da marca na frase falada. Não são Cotonetes, são hastes flexíveis genéricas, será que são tão boas quanto? Expirei de insatisfação. Olha, são palitinhos com algodão na ponta, acho que meu ouvido não é muito discriminatório em relação a marca das coisas que eu enfio nele.

Pode parecer uma discussão boba, mas não é. A marca de um produto influencia diretamente em como o percebemos. Recentemente a Nielsen, empresa especializada em estudar o comportamento de consumidores, fez uma descoberta interessantíssima. Seis em aproximadamente dez consumidores preferem comprar novos produtos de marcas familiares, simplesmente porque inspiram confiança. Faz sentido – na maioria das vezes, nós, humanos, buscamos segurança. Segurança essa, representada por algo que já nos é familiar. Nós já sabemos o que esperar.

Mas não são apenas marcas. Quando conhecemos algo, criamos um conceito ao redor daquilo. Conceito que usamos de base de comparação para outras coisas da mesma natureza. Antes de experimentarmos o novo, acessamos essa biblioteca de conceitos e criamos um, bem, pré-conceito sobre aquilo. Por exemplo, quando alguém me diz que certo whisky passou por barris de vinho jerez, já imagino algo frutado e apimentado. O que, algumas poucas vezes, não acontece. Mas eu acho que acontece, porque meu cérebro está condicionado a procurar sempre o mesmo resultado, depois de ter experimentado uma pletora de whiskies maturados em ex-jerez que tinham esse perfil.

Uma certeza: tem aroma de whisky (fonte: www.theglenlivet.com)

Sabendo disso, a Glenlivet – uma das três maiores destilarias da Escócia – resolveu fazer um experimento bem pouco ortodoxo. Ela acaba de lançar no Brasil o Glenlivet Code, single malt que não possui nenhuma informação na embalagem sobre idade ou maturação dos componentes. A única informação é a graduação alcoólica, de 48%. A ideia é que o consumidor não seja levado a sentir determinado aroma ou sabor por conhecer a composição das barricas usadas na expressão. Em outras palavras, ele convida os consumidores a degustar, refletir e produzir suas próprias notas de prova, sem pré-conceitos (separado mesmo, com hífen, para eliminar o viés depreciativo)

Nas palavras de Alan Winchester, master distiller da Glenlivet “com o Glenlivet Code, tivemos a oportunidade única de criar um whisky que jamais fora criado antes, utilizando novas barricas e técnicas para expandir as fronteiras do que as pessoas esperam da The Glenlivet. A edição limitada deste ano é um labirinto de sabores que testará seus sentidos, e estamos animados para convidar os consumidores ao redor do mundo a aceitar o desafio de decodificar seus mistérios“.

Para tornar a experiência mais interativa, a Glenlivet lançou um hotsite. Lá, o apreciador é convidado a decifrar o código daquele single malt. Ou, em outras palavras, comparar suas notas de prova com as de Alan Winchester, indicando, em um teste de multipla escolha, o que sentiu no Glenlivet Code. No final, o site lhe apresenta um resultado com percentual de acerto.

O Glenlivet Code foi lançado em março de 2018, e é a terceira edição de uma série de maltes misteriosos da Glenlivet. O primeiro foi o Alpha, em 2013, acompanhado pelo Cipher, em 2016. A ideia dessas edições, na opinião deste Cão, é excelente. Elas permitem que o consumidor esclarecido indague a si próprio sobre o que lhe agrada no paladar de um whisky, e qual a idade e a composição daquela bebida. E, por consequência, reflita também sobre o que torna uma bebida boa. Afinal, a idade é importante? A composição das barricas?

Alguns meses após o lançamento – e antes que o Code tivesse a chance de desembarcar em nosso país – a Glenlivet revelou suas notas de prova completas, beom como a composição de barricas. Porém, para evitar spoilers, não explicarei aqui. Mas me limitarei a dizer que seu processo de maturação utiliza uma espécie bem pouco tradicional de barricas. Se quiser saber, basta acessar o website da Glenlivet.

Ao colocar as patas em uma garrafa, imaginei que logo faria o teste. Afinal, não sou o tipo que se furta de um desafio etílico. No entanto, antes, decidi prová-lo sem me preocupar com as notas, para me aclimatar. E fiquei muito impressionado. É um whisky com o álcool extremamente bem integrado, e um sabor frutado e apimentado – sem spoilers aqui – um tanto incomum para os Glenlivet. Seja o que for que estiver naquela garrafa preta-fosca, é excelente, e merece ser provado com cuidado.

Devo dizer que fiquei ao mesmo tempo orgulhoso e frustrado com meu teste. O website faz com que você escolha entre notas diferentes, porém, em certos estágios, me vi dividido: sentia duas notas, e deveria escolher apenas uma. Mais uma vez, sem spoilers aqui. Talvez meu olfato canino não esteja afinado. Ou, talvez, a ideia seja justamente essa – mostrar que diferentes pessoas possuem diferentes percepções, baseadas em sua memória olfativa.

Alan rindo do resultado do meu teste.

No Brasil, uma garrafa do Glenlivet Code custa, em média, R$ 700,00 (setecentos reais). É um preço comparável a outra prata da casa, o Glenlivet 18 anos – o que sugere que há uma boa parcela de whiskies bem maturados no misterioso lançamento. Impressão, esta, que se reflete também no paladar.

Se você não aguenta um mistério, ou se é um apaixonado pelos maltes da Glenlivet, não deixe de provar o Glenlivet Code. Aliás, prove o Glenlivet code mesmo se não gostar da destilaria. Afinal, a ideia é justamente abandonar conceitos pré-concebidos.

Ou, melhor dizendo, nem todas as hastes flexíveis são iguais.

THE GLENLIVET CODE

Tipo: Single Malt sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 48%

Notas de prova:

Aroma: ?

Sabor: ?

Com água: ?

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