Dalmore Cigar Malt Reserve – Forma e Função

Esta matéria foi originalmente escrita para o website charutando.com.br . Porém, com o lançamento oficial do Dalmore Cigar Malt Reserve no Brasil, reproduzimos aqui o conteúdo.


Ferdinand Porsche uma vez disse “Se analisarmos a função de um objeto, seu formato geralmente se tornará óbvio”. Em outras palavras, a concepção, o desenho de certo objeto, deve ser escrava de seu propósito. Ferdinand Porsche realmente entendia muito sobre o design de automóveis, mas, provavelmente, nunca viu um talher de peixe na vida.

Vou começar pelo garfo. O garfo de peixe é simplesmente um garfo comum, sensivelmente menor, mais gordo e com um dente a menos. E não há nada de especial nele além disso. Nada em seu projeto torna a tarefa de levar o animal marinho à boca mais fácil. Por essa razão, o garfo de peixe simplesmente não deveria existir. Mas o pior não é ele. O pior mesmo é a faca de peixe.

A faca de peixe é um dos objetos da cutelaria que mais me intriga. Porque, para falar a verdade, ela não é boa para nada. Mas ela é especialmente ruim para se usar no peixe. Aquela reentrância – cujo propósito deveria ser auxiliar na separação das espinhas – é absolutamente inútil. Além disso, por não ter uma extremidade afiada, a faca acaba amassando o peixe, e deixando aqueles minipedacinhos impossíveis de serem comidos no prato. A faca de peixe é tão boa para comer peixe quanto um martelo de amassar carne seria.

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Por conta de minha experiência com talheres de peixe, já começo a desconfiar quando alguém me diz que existe algo especialmente e quase exclusivamente desenhado para uma função muito específica. A primeira vez que tive essa sensação com whiskies aconteceu quando fui apresentado ao Dalmore Cigar Malt Reserve. Segundo a destilaria Dalmore, o Cigar Malt foi especialmente desenvolvido para se harmonizar com bons charutos. É uma declaração corajosa, essa da Dalmore.

O Dalmore Cigar Malt Reserve é, na verdade, uma reinvenção do Dalmore Cigar Malt, descontinuado em 2009. A versão anterior, entretanto, era muito mais simples, e preenchia o espaço entre as expressões de doze e quinze anos da destilaria. A atual orgulhosamente se posiciona acima destas e abaixo do cobiçado Dalmore King Alexander III.

O Dalmore Cigar Malt Reserve foi desenvolvido por Richard Paterson, master blender da própria Dalmore e da marca Whyte & Mackay. O charuto utilizado por Paterson como referência para desenvolver o single malt foi o Partagas Serie D nº 4. E por essa escolha, eu somente poderia parabenizar Paterson.

O Cigar Malt Reserve é maturado em três diferentes tipos de barricas. Setenta por cento delas, botas de carvalho europeu que antes contiveram vinho jerez espanhol. Mais especificamente, vinho oloroso da Gonzalez Byass. O restante – trinta por cento – advém de barricas de carvalho americano que contiveram bourbon whisky e barricas de vinho Cabernet Sauvignon.

Segundo Paterson “meu objetivo ao criar o Cigar Malt Reserve foi proporcionar aos fãs de single malt uma experiência incomparável, mas produzir também uma expressão que harmonizasse com a maioria dos charutos extraordinários no mercado. Eu acredito que este novo whisky é uma expressão sucinta de prazer” – e continua – “Para realmente tirar o máximo da experiência, harmonize-o com chocolate amargo, café preto (sugiro colombiano, javanês ou de Ruanda) e um charuto robusto, como um Hoyo de Monterrey, Partagás ou Cohiba. Aqueça sua boca com um pouco de café, morda um pedaço do chocolate e agora tome um pequeno gole do whisky. Agora termine com uma boa baforada no charuto. Repita até o paraíso”.

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Na opinião deste Cão, se provado puro, o Cigar Malt Reserve é um excelente whisky, e provavelmente uma de suas expressões preferidas da famosa destilaria das highlands. Ele é um whisky oleoso, com aroma e sabor marcados claramente pelo jerez, mas mais seco e apimentado. Algo que, intuitivamente, combinaria muito bem com um belo habano.

Para realmente entender como o single malt funcionaria com charutos, entretanto, foi necessária árdua dedicação. Foram feitas quatro harmonizações com charutos diferentes, em dias diferentes – um Hoyo de Monterrey Serie Le Hoyo, um Partagas Serie E nº 2, um brasileiro Artist Line Robusto e, por fim, o Romeo y Julieta Churchills da foto. Na humilde opinião deste que vos escreve, o Cigar Malt se saiu melhor com os charutos mais suaves, ainda que seu benchmark tenha sido um charuto forte, como o Partagás.

Acontece que os charutos mais potentes acabaram eclipsando grande parte das sutilezas do whisky. Há, por exemplo, um certo sabor adocicado, que relembra, de longe, frutas em calda, e que fica quase completamente imperceptível com o Partagás.

O Dalmore Cigar Malt Reserve, entretanto, é um whisky polivalente, que entrega complexidade e sabor se tomado puro, e que corajosamente enfrenta qualquer charuto e se sai – quase sempre – muito bem. Posso garantir que ele está realmente longe de ser uma faca de peixes.

THE DALMORE CIGAR MALT RESERVE


Tipo: Single Malt sem idade definida (NAS)
Destilaria: The Dalmore
Região: Highlands
ABV: 44%


Notas de prova:


Aroma: aroma de caramelo e com frutas em calda. Leve cítrico.
Sabor: caramelho, frutas cristalizadas, frutas vermelhas. Final longo e progressivamente mais frutado (para frutas vermelhas). Leve sabor de baunilha.
Com Água: A agua ressalta o sabor frutado e reduz o final. É um whisky que se sai melhor puro.

One thought on “Dalmore Cigar Malt Reserve – Forma e Função

  1. Primeiramente 02 informações, mestre: eu não fumo e ainda não provei nenhum Dalmore, mas desde que vi essa expressão me interessei bastante.
    Marcante e com claras notas de sherry.
    Abraço!

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